Sumidoiro's Blog

01/12/2012

O NOME DO PAI

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 12:01 am

♦ O sonho dos bastardos 

A abertura deste texto é uma história exemplar, de um homem que lutou pelo patronímico que lhe fora negado. Ao ser batizado, Leandro Alfonso Luis Moragas recebeu apenas o sobrenome da mãe. Ele nasceu em Madri, em 1929, fruto do relacionamento do rei Alfonso XIII, de Espanha, com a atriz Carmen Ruiz Moragas. Ficou conhecido na Espanha como “El bastardo real”, tal como se lê no título do seu livro de memórias (1), escrito enquanto lutava para corrigir a injustiça e desmistificar a pecha de defeito de origem.

Carmen, a rival da rainha, rei Alfonso XIII e Leandro, o bastardo real. 

O romance entre Alfonso XIII e Carmen se prolongou durante os anos de 1916 a 1931, e, desse relacionamento, nasceu também uma menina, chamada María Teresa. Além dos dois, sabe-se que Alfonso XIII gerou mais sete filhos no matrimônio e três fora, totalizando doze. Como se vê, era um amante impetuoso.(2) 

Diante de inúteis tentativas junto à Casa Real Espanhola pelo reconhecimento da paternidade, Leandro Alfonso entrou com uma ação reivindicatória na justiça. Argumentou que, no seu registro de nascimento, constava ser filho de Alfonso de Borbón y Austria. Em 21.05.2003, obteve sentença respaldando suas pretensões, depois confirmada “com todos os direitos que lhe foram favoráveis” e sem a necessidade de realizar exame de DNA. Vitorioso, passou a assinar Leandro Alfonso Luis de Borbón Ruiz. Em uma entrevista a agência de notícias Reuters, Leandro Alfonso disse: “Bastardo significa herdeiro do rei e tenho o DNA na minha cara”.

A palavra bastardo, amiúde, soava e soa como insulto. Entretanto, nunca foi regra geral, porque muitas vezes vinha tingida com sangue azul. Naqueles casos, transformava-se num bendito acessório, que muitos descendentes de reis e da nobreza incorporavam à suas identidades. Dá para acreditar que o sangue azul faz tanta diferença? O poeta português, abade de Jazente (século XVIII), no seu Poema Heráldico, mostrou como o sangue flui através das gerações:

Qualquer homem como eu tem quatro avós, // Esses quatro por força dezesseis, // Sessenta e quatro a esses contareis, // Em só três gerações que expomos nós. // Se um homem só, da tanto cabedal, // Dos ascendentes seus, que farão mil? // Uma província? Todo o Portugal? // Por esta conta, amigo, ou nobre vil, // Sempre és parente do Marquês de Tal, // E também do porteiro Afonso Gil.

Mas quem foi esse misterioso Afonso Gil? Tudo indica que a inspiração, para escrever o verso genealógico, veio de um fato que impregnou o imaginário dos portugueses. Afonso Gil existiu e seu procedimento virou motivo de chacota. É sugestivo o documento, do ano de 1501, arquivado na Torre do Tombo, em Lisboa. Trata-se de uma sentença perdoando o réu, que tem esse resumo:

“A Afonso Gil, morador na vila de Tarouca, perdão por, sendo porteiro dessa vila e tendo os juízes dado-lhe o cargo de alguns presos, lhe ter fugido um, Pero Rabelo, morador no Prado, concelho de Caria, pelo que andava amorado.” 

Traduzindo: o “delegado” Afonso Gil, incumbido de vigiar o preso, enamorou-se do prisioneiro Pero Rabelo e lhe abriu as portas da prisão. A gozação atravessa os tempos. (3)

Gente de sangue vermelho queimando-se ao sol.

A fantasia do sangue azul veio da Espanha medieval. Naquela época, os plebeus tinham o sangue misturado ao dos mouros e viviam na labuta do campo, se amorenando ainda mais debaixo o sol. Enquanto isso, os nobres viviam à sombra, desfrutando os prazeres da vida, e a pele ficava branquinha. Tão clarinha e transparente que podia-se ver os filetes de sangue, correndo sob tênue camada e adquirindo a aparência azulada. Na verdade, nem precisava ser nobre e ficar abrigado dos raios solares, bastava ser rico e poderoso para azular o sangue. Igualzinho nos dias de hoje.

Guilherme I, o bastardo – William, the Bastard –, antigo duque da Normandia, e descendente de vikings, carregava o sobrenome com muito orgulho, porque denotava ter sangue nobre. Era também chamado de Guilherme, o conquistador, e foi o primeiro rei na Inglaterra. Por isso, ainda há muitas pessoas, de origem inglesa, que portam com altivez o patronímico Bastard, essa marca de boa estirpe.(4) 

À esquerda, Charles II, inventor do Fitzroy. Em seguida, o espúrio Henry Fitzroy e seu pai Henry VIII.

Também na Inglaterra, o rei Charles II (Carlos II) usou a criatividade para designar alguns frutos de suas relações extra-conjugais, aos quais deu o sobrenome Fitzroy – Filho do Rei − e assim desencadeou a moda dos Fitzroys(5). O jeitinho inglês de batizar espúrios pegou. Um que adotou o artifício, foi o rei Henry VIII (Henrique VIII), pai de outro Henry FitzRoy − primeiro duque de Richmond and Somerset. Na onda dos Fitz, houve também o rei William IV, da Inglaterra(6)Guilherme IV , duque de Clarence –, filho de George III, que foi amante da lindíssima atriz Dorothea Jordan(7). Apaixonado, pegou a contra-mão, teve com ela pelo menos dez filhos e todos receberam o sobrenome FitzClarence. Como se vê, quando o “affair” amoroso acontecia nas cortes, o que era condenável ficava natural e até charmoso.

Post - Dorothea & WilliamDorothea e William IV, depois do amor um jeitinho no sobrenome.

Nos quatro continentes, a bastardia real foi generalizada. Isabel Lencastre, autora da obra “Bastardos Reais”, diz que, em Portugal, durante quase oitocentos anos, duas mulheres e trinta e dois homens sentaram-se no trono e apenas seis não tiveram filhos. Entre os vinte e seis que foram pais, só dois não teriam gerado ilegítimos. O primeiro rei português, d. Afonso Henriques (Afonso I), era filho de d. Henrique de Borgonha e de Teresa (conhecida apenas por d. Teresa). Ela era uma bastarda, filha d. Afonso VI (de Leão e Castela) e de Ximena Moniz, uma nobre castelhana. A bastardia na nobreza de Portugal foi generalizada. Os reis bem comportados foram poucos e, entre os que não tiveram filhos fora da alcova nupcial, houve d. Manuel I, o venturoso, e d. José, este “muitas vezes enganado pela mulher”.(8)

Aos bastardos, que nasceram fora dos holofotes da história, restaram tênues marcas de origem, porque não tiveram o patronímico verdadeiro, quando muito, o nome indicado pela mãe e o sobrenome dela. Quase sempre, até o pré-nome era inventado pelos que os acolhiam. Nessa arte, os italianos foram os mais criativos ao batizar seus abandonados, que denominavam genericamente de “trovatelli”Havia várias opções, um Giuseppe abandonado poderia virar Giuseppe Trovatelli. Mas, também, podiam lhe dar o selo de Esposito, Spositi ou Degli Spositi – esses três são os mais difundidos –; Proietti – o lançado na roda –; Trovato ou Trovò – achado; D’Ignoti ou Ignoto – o ignorado.

 Bastardo William I, fundador da Inglaterra; bastarda d. Teresa e seu filho Afonso I, fundador de Portugal. 

Se o gosto fosse pelos mistérios do tempo, buscariam no calendário e batizariam-no como Giuseppe Sabatino ou, ainda, Gennari, Marziano, Agostini, Settembrini, etc. Se desejassem homenagear a instituição que o recolhera, poderia receber um Casadio ou Casadei – casa de Deus; Innocenti, Degli’Innocenti ou Nocentini – os abrigados no Spedale degli Innocenti, de Florença. Inúmeros abandonados receberam, no Ospedale Maggiore di Milano (Milão), os sobrenomes Colombo, Colombini, Colombati, Colombelli. A inspiração veio do emblema do abrigo, que era uma pomba (colomba, ilustração abaixo).

Se fosse uma menina de prenome Innocenza, rogariam a Deus, ou às santidades, para encontrar o sobrenome mais apropriado em um vasto catálogo. Ficaria muito bonito Innocenza Santantonio mas, também, Sangiuseppe, Gesunostro, Santogesù, Gloriagesù, Gesumio, Santa-Maria, Nostra-Maria, Mariano, Diddio, Santiddio, Diotallevi, Graziaddio, Diotisalvi, Diotaiuti, Servadio, Santacroce, etc. Esses sobrenomes mostram como o povo italiano, tão apegado à religião, tinha inspiração para gerar filhos com fé, simpatia e caridade.

A geografia também auxiliou a nomear os abandonados. Assim, batizaram como Mantovani os expostos de Mantova (Mântua), Romani os de Roma, Senesi os de Siena, Tirolesi os do Tirol. E, também, Vinci, a pelo menos um, oriundo da cidade de Vinci, província de Firenze (Florença), o grande pintor Leonardo (*1452), que era filho ilegítimo de Ser Piero, um notário, da cidade de Vinci(9) e de Caterina, uma camponesa. Chamavam-no de Leonardo di Ser Piero da Vinci, ou seja, Leonardo, filho di Ser Piero, da Vinci. A adversidade de ser bastardo pode ter sido um motor para sua genialidade, tem gente que cresce nessas condições. Com perfil semelhante, existiram outros personagens que brilharam na vida.

Medalha de identificação do abandonado Thomas (1756), nome escolhido pela mãe, e Turten, sobrenome inventado (Inglaterra).

Os franceses não deixaram por menos e foram mestres nessas inventivas. Na hora de batizar seus milhares de abandonados, inspiração não faltou para dar nome a cada um. O menino Alexis du Chapeau Rouge foi encontrado na porta da Hospedaria Chapeau Rouge (chapéu vermelho). Jean du Marché, na Place du Marché (praça do mercado). Anne de Saint-André, na festa de Saint-André; Anne du Printemps, durante a primavera (printemps) e Pierre du Beaujour (bom dia), no dia 14 de julho de 1785, data nacional francesa. Pierre Frois (frio), foi exposto durante o inverno europeu, em 30.11.1787, e Claude Bleu, quando foi encontrado, estava portando uma fita azul (bleu).(10)

Encantaram-se com Anne Rossignol, que era muito bonitinha, e foi depositada no claustro da igreja de Notre-Dame, junto à porta de um cantor do coro. Foi por isso que lhe deram o sobrenome do passarinho melodioso. Qual menina rejeitaria ser chamada de Rouxinol?(11)

A dolorosa hora da entrega, sem recibo e sem documento. Como irá se chamar?

Também a Espanha brilhou na arte da invenção de nomes. Na Catalunha, usaram o sobrenome Deulofeu (Deus o fez). Nas ilhas Grã-Canárias, existiu um hospital a Casa de Expósitos, também chamada Casa Cuña, cuja patrona é Santa Ana, de tal forma que inúmeros abandonados ali receberam o sobrenome Santana. A denominação “cuña” significa berço e serviu para identificar inúmeras casas de acolhimento, nos países de língua espanhola. Por isso, o Cuña ou Cunha − em português −, pode ter essa origem. Mais um: na comunidade de Huércanos (La Rioja, Espanha), há uma ermida, dedicada a San Pantaleón. O nome inspirador soa forte como o rugido de um felino e foi atribuído a uma menina poderosa:

“El 27 de mayo de 1847, a las cinco de la mañana, es encontrada en el suelo de la puerta de José Martitegui una niña envuelta en una camisilla vieja y en la cabeza un gorrito de percal de color plomo con pintas moradas con terciopelo negro” / “El día 28 de mayo recibe las aguas como Juana de San Pantaleón.” 

A igreja da Roda dos Expostos, no Porto antigo, Portugal.

Não bastava o nome, colocavam também um número, gravado em um selo de chumbo, que os expostos carregavam pendurado ao pescoço por um cordão de linha forte e não havia a possibilidade de ser retirado sem cortar. Assemelhava-se aos atuais lacres de placas de veículos, numa escala maior. Esse era o costume, generalizado na Europa, para identificar as crianças da roda e os órfãos. Era uma demonstração dos cuidados das casas de abrigo em preservar a identidade das crianças. Portugal teve muitos expostos e o estado sabia como protegê-los, dando-lhes também a cidadania. Um relato de Antônio Joaquim de Gouvêa Pinto(12), juiz e membro da Academia Real das Ciências, esclarece sobre o assunto:

“Exposto um filho no território português, ainda mesmo que seus pais sejam estrangeiros ele fica sendo cidadão português, pois que a sua exposição, quebrando os laços da parentela e suas relações de filiação, o tem, ao mesmo tempo, destacado do corpo político a que pertencia. [...] O país onde ele foi abandonado é o seu país natal, é seu lugar de origem em uma palavra: é a sua pátria.

O estado civil de um exposto é um estado negativo, pois que este menino nem é filho legítimo, nem ilegítimo, nem natural, nem adulterino; seu nascimento nem é honroso nem ignominioso, pois que a lei civil o trata e considera como tirando a sua vida do acaso e como se não tivesse tido pai ou mãe. Em consequência disto, o menino exposto não tem nem família nem filiação, seu nome é um nome de pura invenção; em uma palavra, ele forma o primeiro tronco de sua raça e primeiro anel de sua cadeia genealógica. Daí, resulta que se o estado de um menino exposto ou abandonado é mais infeliz que dos legítimos, ao menos debaixo de certos respeitos é preferível ao dos naturais e, por mais forte razão, ao dos adulterinos, pois que o exposto é capaz de aspirar a pertencer à família mais honrosa da sociedade e de recolher os mais amplos benefícios, seja por doação ou por testamento.”

A − Igreja do convento de São Domingos; B − Hospital Real de Todos os Santos (final do séc. XV), antigo Rossio. 

Continua Gouvêa Pinto:

“Desde que, por exemplo, o filho incestuoso ou adulterino é por tal reconhecido, desde que uma vez sua filiação é estabelecida por este reconhecimento, sua sorte é invariavelmente fixada e, em toda a sua vida, fica neste estado de opróbrio e ignomínia e, até seu último suspiro, ele será incapaz de ser herdeiro de seus pais, nem de receber deles outra coisa mais do que os alimentos. 

Mas o menino exposto está em um estado mais vantajoso, podendo esperar um estado mais brilhante. Suas vistas, seus desejos não conhecem alguns limites. Seu pensamento goza o mais brilhante futuro. Ele acredita que se o véu que cobre seu nascimento se descobre, ele entrará na família a mais opulenta e, se ele se engana nesta sedutora expectativa, ao menos a esperança sustenta seus passos e o torna feliz.

Selo de identificação do abandonado (Portugal). — Saindo do abrigo: o retorno para mamãe.

Ademais, o exposto está em tutela e é protegido pelos administradores dos hospitais ou misericórdias e rodas; ele obtém deles alimentos, nem pode casar-se sem consentimento, durante a minoridade; em uma palavra, ele é a todos os respeitos tratado como um filho legítimo, pois que, em caso de dúvida, se reputam por tais, por serem muitos os exemplos, além do de Moisés de se terem exposto os filhos de legitimo matrimônio. É, por isto, que nós vimos, em Espanha, serem os expostos reputados como nobres e cidadãos da cidade em que se expõem e tais que podem ser promovidos às ordens, receber cavaleiratos, etc.”

Durante certo período, foi essa a política de benefícios em favor dos abandonados de Portugal. De repente, apareceu a outra face da moeda e virou moda expor os filhos, no simples intuito de levar vantagem. Então, foi necessário endurecer as leis.(13)

Pelas leis do reino, incumbia às câmaras ou às misericórdias (hospitais de caridade) a criação dos enjeitados. Em razão disso, muitas crianças foram batizadas com o sobrenome Câmara ou na inspiração dos nomes dos hospitais. Em Évora, havia um desses, denominado Hospital Real do Espírito Santo e dele surgiram muitos sobrenomes Santos e Espírito Santo. Em Lisboa, havia o Hospital Real de Todos os Santos que, também, serviu de motivação para batizar muitas crianças com o Santos. Foi dito(14) que, “No ano de 1689 [...] A roda então era annexa ao hospital de Todos os Santos e a administração especial dos expostos se chamava Mesa dos Santos Innocentes.”. Explica-se porque grande parte dessas crianças virou Santos, ficando sem o nome do pai de verdade.

Era prática comum, ao lançar a criança na roda, ter o pré-nome sugerido em um bilhete (cópia abaixo) e, às vezes, também o sobrenome da mãe. Em Évora, deixaram este bilhete de recomendação:

“Snra. Anna rogolhe o favor de por o nome nesta menina Maria e ser uma ama boa que hade* (*há de) ser procurada o que ela leva [?] é uma alembrança para ella por nas oreilhas.”

Rogo-lhe por o nome Maria.

As mães viviam na expectativa de, algum dia, poder rever o filho ou a filha e, por isso, ao exporem o bebê eram juntados alguns pertences pessoais, que serviriam como sinais para futura identificação. Bilhete(15)encontrado na roda de Viana do Castelo, na madrugada do dia 9 de setembro de 1857:

“Esta menina nasceu no dia 8 de Setembro, às 3 horas da tarde e leva de sinal uma fita de um bocado de seda azul, atada no braço esquerdo, e leva de atadura na barriga uma tira de entretela dos travesseiros [...]Pede-se o favor de lhe pôr o nome Virgínia e ser padrinho o armador novo, António Esteves Júnior, morador na Picota, e madrinha Nossa Senhora. Pede-se o favor de tomar sentido para onde vai, pois há de-se procurar.” 

No dia 4 de março de 1844, foi exposto, em Vila Nova de Cerveira, um menino que vinha nu e apenas embrulhado em hum pedaço de fraldilha”, acompanhado por uma mensagem escrita, pedindo que lhe pusessem o nome de Antônio Secundino e informando “que era de gente nobre e que a seu tempo se procuraria para herdar os bens da fortuna”. Essa criança só viu o infortúnio, faleceu cinco meses depois, sem o nome do pai, nem da mãe(16)

Nesse outro recado(17), a mãe apresentava o nome e se martirizava, ao entregar o filho:

“Aqui estou inocente, pelo dispor da ingratidão nesta tenra idade, mereço ter compaixão, Belmira de Jesus. / Recomendo ao Ex.mo Senhor Presidente da Câmara que me mande entregar a uma ama limpa e capaz.”

Botaçe este Menino a Roda (Bota-se este menino à Roda…)

A saudade da mãe começava no momento da exposição, como se vê no bilhete(18) (ilustração acima) deixado na roda de Vila Nova da Cerveira:

“Botaçe* (*Bota-se) este Menino a Roda por sertas sercunstançias, quero que se chame Joze Joaquim. Botaçe no dia 15 de Junho de 1851. Isto he por que a todo tempo que precizar por ele quero saver* (*saber) aonde está.”

Os maganões escolheram o nome.

Também havia aqueles que fugiam da responsabilidade de criar o filho e procuravam transferir o encargo à casa de acolhimento. Em um desses casos, os pais, de Funchal (ilha da Madeira), escreveram (ilustração acima):

“Esta criansa nasseu a dez de Outubro chamasse Carolina Francisca Borja, se for posivel será procurada.” Mas o administrador deduziu que a menina teria sido abandonada de má-fé e fez jocoso comentário: “Os maganões* (*malandros) apesar da lettra* (*carta) singela, têm folhinha, e sabem que o dia 10 d’ Outubro se reza de S. Francisco de Borja.”

Em Arcos (Portugal), no ano de 1875, uma lavradora − que não era uma pobretona − passava por dificuldades temporárias e pensou que a roda era albergue. Ingenuamente, lavrou um bilhete tal como uma ficha de hóspedes, e mostrou que a menina já tinha nome e sobrenome, e embora não esclarecesse quem era o pai, informou que um tal de Manuel Joaquim Galvão Cardoso poderia aparecer para retirá-la. Suspeitou-se que a mãe estivesse tentando preservar a honra familiar, pois se trataria de uma filha espúria. Nesse caso(19), a criança vinha satisfatoriamente identificada:

“O nome da menina quero que seja [...] Jeroselina Rosa Rodrigues, filha de Rosa Rodrigues, proprietária, lavradeira, solteira, da freguesia de Padornelo, pelo que pedia à senhora rodeira* (* encarregada da roda) que lha entregasse, quando ele (o Manuel Joaquim) lhe perguntasse pela menina, prometendo gratificá-la, conforme as suas posses.”

Registro de entrada de uma exposta.

Em inúmeros casos, a pessoa que abandonava não deixava sinal das origens da criança exposta. Este foi um deles(20) (vide ilustrações), ocorrido em Évora (Portugal):

“Ao revendo Reytor da freguezia de Sto. Antão, vai a apresentar a ama Maria Izabel, para ser baptizada uma creança do sexo feminino, encontrada no sitio da junta à porta do hospicio, pelas 7½ horas da noite de 18 do corrente pela regente do mesmo hospicio, Thereza Carvalho Salgado…”

Em seguida, e na mesma folha, há anotação do pré-nome de batismo. A menina, que foi encontrada na porta do Hospício do Espírito Santo e preenchia os requisitos para, no futuro, se completar em Maria do Espírito Santo:

“Attesto que, aos 22 dias do mez de (?) do anno de 1895 n’esta igreja parochial de Santo Antão, foi baptizada a creança do sexo feminino, a que se refere a guia supra, e lhe foi dado o nome de Maria, sendo padrinho José (?) e madrinha Maria Isabel…”

Primeiro registro de uma exposta.

A imaginação portuguesa produziu nomes inusitados para suas crianças, alguns cheios de poesia, como Maria das Dores Flor de Rosa, José Flor-de-Crisanto; outros menos poéticos, Circundina, Violina, Manuel Bicho, Despertino da Graça e mais um punhado. Augúrios de felicidade e fortuna na vida futura, também refletiam-se na escolha de muitos nomes, como: Abundança, Maria d’Alegria, Miguel Feliz, Felicidade Perpétua. O pedido de nomes invulgares, nem sempre, era atendido. Às vezes, na hora de receber os santos óleos, o padre metia o bedelho quando o nome lhe soava mal. Foi o que aconteceu, quando pediram que a menina se chamasse Aniceta dos Gostos e o oficiante resolveu batizá-la com o nome de Aniceta dos Prazeres.(21)

Relevo decorativo do “Ospedale degli Innocenti”, Florença.

Evidentemente, esses sobrenomes portugueses foram repassados ao Brasil. Como se sabe, aqueles nomes ligados à religião eram muito apreciados: Reis − do dia de Reis −, Guia − de Nossa Senhora da Guia −, Assunção − de Nossa Senhora da Assunção −, Nascimento − do natalício do menino Jesus −, que serviram para batizar muitas Marias, Luzias, Josefas, como também a muitos Josés, Joaquins, Franciscos e por aí afora.

Quando havia adoção do exposto, raramente ele recebia o patronímico da família adotante. Observa-se também que, através dos casamentos, as expostas adquiriam o patronímico do marido, sem contudo repassar aos filhos o seu “sobrenome” ou nome inventado. Por outro lado, se ela gerava filhos fora do casamento, aí sim, repassava o seu selo de origem que, nesses casos, poderia ser considerado como matronímico. É o que se deu no caso que vamos relatar, de Luzia e Maria − mãe e filha −, ambas do Nascimento.

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NASCIMENTO E VIDA DE UMA EXPOSTA

O genealogista Alfredo Marques Vianna de Góes(22), publicou um artigo, em 1975, dizendo que:

“… em companhia do dr. Antônio de Pádua Vianna Clementino, resolvi frequentar os arquivos da Cúria Diocesana de Belo Horizonte, rebuscando livros de registro de Santa Luzia [...] e ali deparamos com eventos genealógicos interessantíssimos, [...] como o assentamento de batismo, [...] do seguinte teor(23):

‘Aos nove de Novembro de mil oitocentos e dezacete, na Capella do Jagoara, o Padre Manoel de Araujo Ferreira Quintão, de licença Parochial, baptizou e poz os Santos Oleos a Antonio, innocente, branco, gemeo exposto a Joanna Moreira do Espirito Santo, forao padrinhos Antonio de Souza Vianna e sua molher Jozefa Fernandes de Macedo (Azevedo), e a cinco de Junho de mil oitocentos e trinta e oito, foi legitimado o dito Antonio, pello subsequente Matrimonio de seus pais Bernardo de Souza Vianna com Dona Maria do Nascimento, do que tudo se abrio este assento que vai assinado por mim e pello dito Bernardo de Souza Vianna. / (Assin.) Bernardo de S. V.a – O Vigr.o Manoel Pirez de Miranda.”

Batizado de Antônio, exposto a Joanna Moreira do Espírito Santo.

O sobrenome da madrinha, Joanna Moreira do Espírito Santo, denuncia que ela seria uma exposta. Em 19.02.1834, ela perdera o filho, Luiz Pereira de Almeida − por hemorragia − conforme registro(24) de óbito (vide imagem abaixo). Quatro anos depois, a boa alma ganhou o exposto Antônio para criar e trouxe de volta a alegria à sua casa.

Joanna Moreira do Espírito Santo perdeu o filho Luiz Pereira de Almeida.

Antônio de Pádua Vianna Clementino(25), em 04.10.2005, fez um comentário ao que chamou de “affair” Bernardino & Maria do Nascimento:

“A história do Antônio é patética, segundo contou-me o Alfredinho (Alfredo Marques Vianna de Góes), de saudosa memória. Segundo ele, soube pelo maior historiador dos Vianna na época, o Chico Teixeira (Francisco Teixeira da Costa), que o Antônio era ‘fruto do pecado’ e na sua maioridade (21 anos), cursando a Escola Imperial de Medicina, no Rio de Janeiro, escreveu ao pai pedindo que se casasse oficiosamente com sua mãe (d. Maria do Nascimento). Ela que, por vergonha, nem nome direito tinha, e sim ‘do Nascimento’, ou simplesmente nascida, trazia, até então, o nome de sua mãe escondido.”

Não seria bem assim, porque mais tarde, quando casou, anotou-se que era filha de Luzia do Nascimento, uma exposta. E continuou Vianna Clementino:

“O pai, (Bernardo de Souza Vianna − filho) comovido, decidiu se casar, numa cerimônia simples, na capela de Venda Nova, e longe do reduto da família de Santa Luzia, sem testemunhas (padrinhos), pois estão ausentes na certidão. Dizia a lenda que Bernardino (homônimo do pai, Bernardo, e também conhecido pelo diminutivo), ao se dispor a atender o pedido do filho, escreveu a ele, dizendo que viesse para assistir ao casamento, que deveria ser realizado em Santa Luzia, com a maior festa, e marcou a data. Antes, porém, chegou a infausta notícia de que Antônio, na prática da medicina como estudante, se acidentou na cirurgia de um paciente e teve um corte de bisturi bem profundo, num dedo da mão esquerda, causando-lhe infecção e veio a falecer de septicemia. O pai, em desespero, e revoltado diante da notícia, então vociferou: ‘Tive o meu querido filho em pecado e procurei me redimir, casando-me com a mãe dele. Como Deus o tirou-me, continuarei em pecado.’ E suspendeu o casamento. Esta versão permaneceu assim, nos casos de família, até que o Alfredinho e eu, descobrirmos a certidão. O casamento, apesar de tudo ocorreu mas, a meu ver, bem simples e escondidinho.”

Casamento de Bernardino com Maria do Nascimento.

Bernardino, na época em que decidiu se casar, morava na fazenda da Jaguara de Cima, situada nas proximidades da vila de Santa Luzia, onde ficava a igreja sede da paróquia. O fato extraordinário, do batismo condicionado ao casamento, está anotado no livro de batizados em Santa Luzia, informando que a criança recebeu os santos óleos em 1817. Na mesma folha, onde os outros registros são de 1840, está lançado este, de 1817, fora de ordem. Portanto, para essa legitimação, houve uma anotação provisória aguardando a decisão de Bernardino e Maria do Nascimento. Do batizado ao casamento, foram mais de duas décadas para colocar a família sob as graças da igreja.

Maria Magdalena do Nascimento batiza outra Maria, também filha natural.

O nome completo da mulher de Bernardino era Maria Magdalena do Nascimento, pois consta de um registro(26) de batismo, ocorrido no oratório da fazenda dos Angicos, propriedade do irmão de Bernardino (José de Souza Vianna), no ano de 1835. Se o Magdalena e o Nascimento não foram suficientes para ocultar a paternidade, pelo menos colocaram Maria mais perto do céu.

“Aos oito de Novembro de mil oitocentos e trinta e sinco no Oratorio dos Angicos o Padre José Ferras de Mello [...] baptizou [...] Maria [...] filha natural de Vicencia Ferreira Dias; forão padrinhos Bernardo de Souza Vianna e Dona Maria Magdalena do Nascimento …”

Na Vila de Santa Luzia (MG), ou nos arredores, viveu Maria do Nascimento. (Foto: d’après Augusto Riedel)

Maria Magdalena do Nascimento era filha natural de Faustino Luiz Pacheco Ribeiro(27) (tio de Bernardino) e de Luzia do Nascimento. Logo que nasceu, foi exposta a uma mulher de bom coração, Angélica Maria Pacheco Ribeiro(28), mãe de Bernardino e irmã de Faustino. O pai não quis lhe dar o sobrenome Ribeiro. As afinidades são reveladas no processo matrimonial(29) de Bernardino e Maria Magdalena, quando se diz:

“1. Que o Orador (Bernardino) eh filho legitimo de D. Angelica, irmã inteira de Faustino Luiz Pacheco, pai da Oradora, vindo enfim a serem primos irmãos os Oradores; 2. A Oradora eh filha natural e tem vivido a sombra da sua tia, mãe do Orador.”

E no registro do casamento(30):

“Aos sette de junho de mil oitocentos e trinta e oito [...] se receberam em Matrimonio [...] Bernardino de Souza Vianna [...] de cincoenta annos pouco mais ou menos, filho [...] de Bernardo de Souza Vianna e de [...] Angelica Maria Ribeiro e Maria do Nascimento [...] de quarenta e tantos annos, filha natural de Luzia do Nascimento [...] moradores nesta Freguezia de Santa Luzia …”

Após o falecimento de Angélica, a propriedade da Jaguara de Cima passou às mãos de Bernardino e de sua mulher. É possível que Bernardino tenha possuído mais terras, porque era homem muito rico. Documentos(31) apontam que, anos mais tarde, Maria do Nascimento, já viúva, foi vendendo seus bens. Houve negócios realizados por procuradores, fazendo acreditar que era analfabeta e necessitasse de ajuda, porque também já estava idosa, em torno dos 80 anos de idade.

Maria do Nascimento vende terras do Jagoara (Jaguara) de Cima.

Está escrito em um contrato de compra e venda: “Dis D. Maria do Nascimento Vianna que he Senhora e possuidora da Miassão (Meiação) e tersa (terça) nas terras que lhe coube por Herança do falecido seu Marido Bernardo de Souza Vianna (Bernardino). As quais tem contratado vender …”

E noutro: “Digo eu Maria do Nascimento Vianna, que entre os bens que possuo livre e desembaraçados de qualquer onus ou hypotheca ha hum assim a miação e terça nas terras e benfeitorias da Fazenda do Jagoara de cima [...] Santa Luzia, 26 de abro de 1872 / A rogo de D. Maria do Nascimento Vianna / Antonio Gonçalves Giraldis.”

Nada se sabe a respeito de possíveis descendentes ou se, quando faleceu, tenha deixado bens. Que Deus a tenha!

Texto e arte de Eduardo de Paula

——— Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

Clique e VEJA mais documentos, no Blog associado, http://docsdosumidoiro.wordpress.com/.

Leia também, neste Blog, o Post “Abandonados”.

Assista à ENTREVISTA com o BASTARDO REAL

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(1) MORAGAS, Leandro Alfonso Ruiz − “El bastardo real”, Ed. La Esfera de los Libros, Madrid.

(2) Alfonso XIII de Borbón, o africano (Madrid, *17.05.1886 / Roma, +28.02.1941), rei da Espanha desde seu nascimento até a proclamação da II Republica, em 14.04.1931. Assumiu o poder aos 16 anos de idade, em17.05.1902. // Filhos de Alfonso XIII – No matrimônio: Alfonso, Jaime, Beatriz, Fernando (nascido morto), María Cristina, Juan e Gonzalo (com a consorte Victoria Eugenia de Battenberg). Fora do matrimônio: Roger (com a aristocrata francesa Mélanie de Gaufridy de Dortan); María Teresa e Luiz Alfonso (com Carmen Ruiz Moragas); mais duas filhas, com duas preceptoras dos seus filhos, da primeira se desconhece o nome (foi abandonada num convento de Madri); a segunda, Juana Alfonsa (com Beatrice Noon, irlandesa).    

(3) CABRAL, Paulino Antônio − Poeta e religioso português (Amarante, *06.05.1719 / +20.11.1789). Foi nomeado abade de Jazende, em 1752, ficando mais conhecido dessa maneira. Estudou direito canônico em Coimbra. // Obras: “Poesias”, vol. I (Porto, 1786); “Poesias”, vol. II (Porto, 1787). // Processo de Afonso Gil, referência: Torre do Tombo, PT/TT/CHR/K/37/48-197 – Chancelaria de D. Manuel I, liv. 37, fl. 48. // “As principais funções do porteiro eram citar os cavaleiros vilãos para virem a juízo fazer arrestos ou penhoras e dar posse judicial dos bens móveis ou de raiz, julgados por sentença do tribunal municipal ou pô-los em almoeda, meter em depósito as coisas litigiosas, prender quaisquer indivíduos que devessem ser capturados fora das vilas e cidades, enfim, executar todos os atos de jurisdição civil por ordem do alcaide e magistrados, especialmente quando esses atos eram relativos aos cavaleiros vilãos do concelho.” − Fonte: CARVALHO e ARAÚJO, Alexandre Herculano de – “História de Portugal”, tomo IV, Lisboa, 1853, p. 247.

(4) Guilherme I (William), o bastardo e, depois, o conquistador – Antes da conquista da Inglaterra, era apenas Guilherme, o bastardo. Descendente de vikings, acredita-se que nasceu em 1027 ou 1028 no, castelo em Falaise, Normandia (França), mais provavelmente no outono de 1028. Era filho único de Robert I (Roberto I), duque da Normandia. Reinou de 1066 até sua morte, em 1087. 

(5) Charles II – rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda. –(*29.05. 1630 / +06.02.1685) – Filhos ilegítimos: James Scott (1st Duke of Monmouth), Charles FitzCharles (1st Earl of Plymouth), (Charles FitzRoy (2nd Duke of Cleveland), Charlotte Lee (Countess of Lichfield), Henry FitzRoy (1st Duke of Grafton), George FitzRoy (1st Duke of Northumberland), Charles Beauclerk (1st Duke of St Albans), Charles Lennox (1st Duke of Richmond).

(6) William IV – duque de Clarence (*21.08.1765 / +20.06.1837). Filhos ilegítimos, com Dorothea Jordan: George FitzClarence (conde de Munster), Henry FitzClarence, Sophia Sidney (baronesa de L’Isle and Dudley), Lady Mary Fox, Lord Frederick FitzClarence, Elizabeth Hay (condessa de Erroll), Lord Adolphus FitzClarence, Lady Augusta Halliburton, Lord Augustus FitzClarence, Amelia Cary (viscondesa de Falkland).

(7) JORDAN, Dorothea – Atriz irlandesa (*21.11.1761 / +05.06.1816), filha de Francisco Bland e da sua amante Grace Phillips. Em 1774, quando tinha 13 anos, seu pai, que trabalhava como ajudante de palco, abandonou a família e Dorothea teve de ir trabalhar para ajudar seus quatro irmãos. Sua mãe, atriz de profissão, viu potencial em Dorothea e colocou-a no palco. Tornou-se famosa, principalmente pelo sucesso das suas belas pernas. Na vida artística, adotou o nome de “Mrs. Jordan“, assim fingindo ser casada, o que lhe daria respeitabilidade. Na verdade, não houve “Jordan” e Dorothea Bland nunca se casou. 

(8) LENCASTRE, Isabel – “Bastardos reais, os filhos ilegítimos dos reis de Portugal”, Oficina do Livro, Portugal, 2012.

(9) Vinci: comuna na província de Firenze (Florença), região da Toscana. Leonardo da Vinci nasceu em 15.04.1452, numa casa do vilarejo de Anchiano, a cerca de 3 km de Vinci. Faleceu em Amboise (França), no dia 02.05.1519.

(10) (11) Forez – “Noms des enfants trouvés – histoire”: http://forezhistoire.free.fr/enfants-trouves-e.html

(12) PINTO, Antônio Joaquim de Gouvêa – “Exame crítico e histórico sobre os direitos… aos expostos ou enjeitados”, Tipografia da Academia Real de Ciências, Lisboa, 1828.

(13) RIBEIRO, José Silvestre – “Resoluções do Conselho de Estado na Seção do Contencioso Administrativo”, tomo IV, Imprensa Nacional, Lisboa, 1856, p. 48 a 74. // “Quero falar do extraordinário e sempre crescente número de Expostos em cada Concelho. As despesas, que este encargo torna indispensáveis são, na verdade, exorbitantes [...] Como pois remediar o mal? Não é possível remediá-lo completamente, mas pode ser remediado até certo ponto. Não sejam abandonados os verdadeiros Expostos, mas não serão gravados os cofres dos Municípios com despesas feitas com os que, na realidade, não o forem. [...] Temos Lei e a Lei deve ser cumprida. [...] que sejam obrigadas as mulheres solteiras, que se souber andarem pejadas, a dar conta do parto e a criarem o filho, sendo possível, ou a todo o tempo que se souber dos Pais, serão estes obrigados a pagar a criação e tomar conta de seus filhos no que se haverão as Justiças, [...] Palácio do Governo Civil, no Funchal, aos 13 de Março de 1852 [...] O Governador civil José Silvestre Ribeiro.”

(14) GUIMARÃES, J. Ribeiro – “Summario de Varia Historia”, Roland & Semiond, Lisboa, 1875,  p. 82.

(15) (16) (17) (18) (19) FONTE, Teodoro Afonso da – Dissertação: “No limiar da honra e da pobreza”, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Alto Minho, 2004.

(20) Referência: Câmara Municipal de Évora.

(21) FONTE,  Teodoro Afonso da – Dissertação: “No limiar da honra e da pobreza”, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Alto Minho, 2004.

(22) GÓES, Alfredo Marques Vianna de – (Montes Claros, *23.11.1908 / Belo Horizonte +14.10.1992). Fundador da Academia Montesclarense de Letras e da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. // Fonte: “A Notícia – jornal da região de Sete Lagoas”, 04.01.1975, nº 63.

(23) Arquivo da Cúria Metropolitana de Belo Horizonte – Batismos em Santa Luzia, 1819/1868 fl. 67.

(24) Arquivo da Cúria Metropolitana de Belo Horizonte – Falecimentos em Lagoa Santa, 1823/1861.

(25) CLEMENTINO, Antônio de Pádua Vianna – Engenheiro civil (Belo Horizonte, *17.04.1927 / Belo Horizonte, +10.04.2012).

(26) Arquivo da Cúria Metropolitana de Belo Horizonte – Batismos em Santa Luzia, fl.9: “Aos oito de Novembro de mil oitocentos e trinta e cinco no Oratório dos Angicos o Padre José Ferrás de Mello de licença Parochial baptizou e pos os Santos Óleos a Maria, inocente, filha natural de Vicência Ferreira Dias; forao padrinhos Bernardo de Souza Vianna e Dona Maria Magdalena do Nascimento de que se fez este assento. / O Vigr.o Manoel Pires de Miranda.”

(27) RIBEIRO, Faustino Luiz Pacheco – Filho de Faustino Luiz Pacheco e Josefa Maria Ribeiro Telles; irmão de Angélica Maria Pacheco Ribeiro e do padre Dâmaso Pacheco Ribeiro. Leia o Post “No alto daquela serra”.

(28) RIBEIRO, Angélica Maria Pacheco – Filha de Faustino Luiz Pacheco e Josefa Maria Ribeiro Telles; casada com Bernardo de Souza Vianna. Leia os Posts “No alto daquela serra” e “A família de Bernardo”.

(29) Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana – Processo matrimonial de Bernardo de Souza Vianna & Maria Pacheco Ribeiro (Maria do Nascimento), 1838, Santa Luzia, código 83.548. / Pesquisa de Roberto Belisário Diniz.

(30) Arquivo da Cúria Metropolitana de Belo Horizonte – Casamentos em Santa Luzia, fl. 37 verso: “Aos sette de junho de mil oitocentos e trinta e oito na Capella de Santo Antonio da Venda Nova, feitas as Diligencias do estillo, sem descobrir impedimento outro algum mais do que o da consanguinidade em segundo grao da linha transversal, de que foram dispensados pelo Illustrissimo Cabido, de licença Parochial em presença do Reverendíssimo Conego Bernardo Hipolito Pereira Meirelles e das testemunhas Francisco de Assis Pereira e Joaquim Ignácio de Castilho, de mutuo consentimento se reberao em Matrimonio por palavras do presente Bernardino de Souza Vianna, branco, Agricultor, de idade de cincoenta annos pouco mais ou menos, filho legitimo de Bernardo de Souza Vianna e de Dona Angelica Maria Ribeiro e Maria do Nascimento de idade de quarenta e tantos annos, filha natural de Luzia do Nascimento, ambos os contraentes naturaes batizados e moradores nesta Freguezia de Santa Luzia; e abençoados na forma do Ritual Romano de que se fez este assento e termo que assigno. / O Vigr.o Manoel Pires de Miranda.”

(31) Documentos do arquivo de Carlos Aníbal de Almeida Fernandes.

15 Comentários »

  1. Eduardo, parabéns por mais este belo trabalho de pesquisa e arte! O artigo é muito bem elaborado, e o final eletrizante!

    Comentário por João Vianna — 01/12/2012 @ 9:05 am | Resposta

    • João:
      Se você gostou, sinto-me estimulado a escrever outras histórias que moram no meu pensamento.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/12/2012 @ 10:54 am | Resposta

  2. Eduardo:
    Grande pesquisa, assunto complicado. Afinal, é difícil avaliar as relações humanas, que se repetem através dos tempos. Será que a pessoa humana faliu?
    Maria Marilda.

    Comentário por maria marilda pinto coreia — 01/12/2012 @ 9:21 am | Resposta

    • Marilda: A enorme complicação desse assunto é que tudo sempre foi tratado veladamente, por causa dos preconceitos. Chegou a hora de levantar os mantos.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/12/2012 @ 9:39 am | Resposta

  3. Eduardo:

    Que trabalho maravilhoso! Uma vez mais, você soube nos empolgar através de histórias tristes, humanas, mas infelizmente verdadeiras.
    Ontem e hoje, filhos de pobres ou até mesmo bastardos reais, todos foram marcados pelo o abandono. Poderíamos minimisar este e outros problemas, através de um programa de educação sexual nas escolas.
    Sua leitora.
    Maria Rosa.

    Comentário por Maria Rosa Claussen Lagrange — 02/12/2012 @ 1:23 am | Resposta

    • Maria Rosa:
      Você é uma leitora que traz entusiasmo.
      Muito obrigado. Espero ter fôlego para continuar escrevendo.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/12/2012 @ 9:03 pm | Resposta

  4. Em nome do pai. Parabéns por essa excelente matéria em seu blog. Que maravilhosa pesquisa e bem relatada por você! És uma mente brilhante. Eduardo você deveria escrever um livro sobre esse assunto. Queria saber se Napoleão foi um bastardo. Não sabia que Golias foi um bastardo, sabia que os gigantes daquela época eram descendentes de anjos, aqueles anjos… Se materializavam para manter relações amorosas com as filhas mais belas dos homens na terra. Existe um compositor e cantor, Joe Esposito, foi assessor de Elvis Presley. Terá ele sangue bastardo de algum rei?

    Comentário por wellson — 03/12/2012 @ 10:04 am | Resposta

    • Wellson:
      A origem do Sposito é essa e o Joe tem a marca no sobrenome, o resto temos que perguntar a ele.
      Muito obrigado e um abraço do
      Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/12/2012 @ 11:51 am | Resposta

  5. D. Pedro I e D. pedro II andaram bem por aqui, fazendo bastardos.

    Comentário por wellson — 03/12/2012 @ 10:16 am | Resposta

    • Wellson:
      Não resta a menor dúvida e os filhos devem ter sido pessoas admiráveis.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/12/2012 @ 11:54 am | Resposta

  6. Eduardo se você ainda não escreveu algo a respeito, gostaria que escrevesse sobre fontes históricas da cidade de Araxá e uma mulher famosa chamada Dona Beija, se ela realmente existiu. E se o sobrenome dela era realmente São José.

    Comentário por wellson — 03/12/2012 @ 1:28 pm | Resposta

  7. Oi Eduardo: Estou querendo entrar em contato com você. Acompanho sempre seus artigos e sou criador do sousabara.com.br Por favor, mande-me um email. Cleber

    Comentário por Cleber — 06/08/2013 @ 10:41 pm | Resposta

    • Cleber:
      Imediatamente lhe enviarei meu endereço de email.
      Cordialmente, Eduardo de Paula.

      Comentário por sumidoiro — 07/08/2013 @ 7:49 pm | Resposta

  8. Caro Sr. Eduardo, muito interessante seu texto, principalmente para quem gosta de genealogia como eu, pergunto-lhe como o senhor conseguiu a transcrição da dispensa matrimonial em Mariana? O sr. foi lá pessoalmente ou alguém a transcreveu? Precisava muito ver se encontro a dispensa matrimonial de um antepassado meu. Abraços.

    Comentário por Vinícius — 23/11/2013 @ 12:19 am | Resposta

    • Vinícius:
      Muito obrigado pelo comentário. Vou lhe enviar uma informação pelo seu endereço de email.
      Um abraço do Eduardo

      Comentário por sumidoiro — 23/11/2013 @ 11:20 am | Resposta


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