Sumidoiro's Blog

01/07/2018

SOL LEVANTE

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:56 am

♦ A aurora do Impressionismo

O Impressionismo nasceu no porto de Le Havre – França –, em 13 de novembro de 1872, entre 7h30 e 8h30 da manhã, logo depois do sol se levantar. A mãe foi a natureza, o pai Claude Monet que, ao armar seu cavalete com vista para o mar, conseguiu transportar para a tela um espetáculo único, ao qual deu o título de “Impression, Soleil Levant” – Impressão, Sol Nascente. A confirmação do momento foi feita em 2014, pelo astrofísico Donald Olson(1), da Texas State University.

“Impressão: sol nascente”, pintura em “petites taches” (Claude Monet, 1872).

— Monet pintou o sol levante olhando pela janela de um hotel e, ao finalizar o trabalho, anotou 72 ao lado da sua assinatura, como indicação do ano. A partir dessas referências, o astrofísico Olson conseguiu determinar o ponto e o ângulo de visão. Em seguida, buscou auxílio em fotografias antigas do Le Havre, mapas meteorológicos, etc. Trabalhando com esses dados, pôde determinar dia e hora.

———

a segunda metade do século XIX, um grupo de pintores de Paris adotou u’a maneira de pintar com emoção. Compartilhando as mesmas idéias, vários intelectuais a eles se uniram e foi então fundado o movimento dito como Impressionista. Dizendo de outra maneira: um novo estilo de pintura, o Impressionismo. O líder do movimento, o pintor Claude Monet, propôs uma definição:

“Impressionismo é somente sensação imediata. Todos os grandes pintores são menos ou mais impressionistas. É principalmente uma questão de instinto.”

Entretanto, sofreram enorme oposição daqueles que defendiam o Realismo, o estilo então em voga, extremamente figurativo, focado em aparências exteriores e que desprezava o subjetivo. Essa corrente surgira sob a influência do ideário racionalista do Iluminismo, que renegava tudo que pudesse ser entendido como “imaginoso”. Contrariamente, os adeptos do Impressionismo propunham representar sentimentos e, por isso mesmo, evitavam as obviedades e o superficial. Para tanto, retomaram alguns princípios do Romantismo que, embora houvesse surgido antes do Realismo, ainda estava vivo. — * Iluminismo (século XVIII): movimento intelectual e filosófico centrado na razão.

“Bonjour, Monsieur Courbet”, pintura realista (Gustave Courbet, 1854).

DA FÍSICA E DA PERCEPÇÃO

No momento em que o físico Isaac Newton demonstrou que a luz branca podia ser dividida em várias cores* – em 1672 –, houve uma revolução no mundo do conhecimento, embora tenha faltado algo no campo da percepção. Principalmente para os pintores, desde que eles sentiam as luzes mas as representavam com as tintas, que são coisas bem diferentes. — * Divisão da luz branca, que pode ocorrer através um prima de cristal ou no arco-íris.

Na verdade, os Impressionistas tinham limitada noção do que era luz e do que era tinta. Entretanto, algumas das melhores explicações já haviam sido divulgadas numa obra de Goethe(2), intitulada Teoria das Cores, publicada em 1810. De fato, ela trazia ensinamentos teórico-prático importantes, especialmente, no que toca à percepção. — * GOETHE, Johann Wolfgang von: um dos fundadores do romantismo na literatura.

“A conversão de Maria Madalena”, pintura da Renascença (Paolo Veronese, 1548).

O PAPEL DE GOETHE

Quando Goethe esteve em viagem à Itália, entre 1786 e 1788, descobriu a luz em toda sua plenitude. Isso se deu ao ver de perto as obras de grandes artistas, oportunidade que lhe permitiu aprimorar seus modos de ver e de representar. Vale dizer que Goethe, além de possuidor de um olhar privilegiado, sabia desenhar. Naquele momento, ao conhecer a pintura de Paolo Veronese(3)renascentista do século XVI –, anotou algumas impressões no seu Diário de Viagem(4), em 8 de outubro de 1786:

“Fui presenteado ao ver o mundo com os olhos desse pintor [Paolo Veronese], cujas pinturas me impressionaram, provocando em mim algumas reflexões peculiares. É evidente que o olho se configura de acordo com os objetos que, desde cedo, está acostumado a ver. Por isso, o artista veneziano, mais que os homens comuns, deve perceber tudo como possuindo uma luz mais clara e brilhante. Quando estamos fora de casa, nosso olhar pode cair sobre um solo sombrio que tanto pode estar enlameado, quanto empoeirado e, por isso, em ambos os casos, mostra-se descolorido. Ele dá uma tonalidade indefinida aos raios refletidos. De outro modo, quando passamos nossas vidas abrigados em ambientes fechados, como em casa, nunca podemos alcançar uma visão mais alegre da natureza.

Enquanto viajava nas lagunas à luz do sol, observei as figuras dos gondoleiros, com seus trajes multicoloridos. E, também, como remavam, movendo-se suavemente nas laterais da gôndola, de modo a se destacarem na superfície verde brilhante da água e contra o azul do céu. Captei o melhor e o mais típico modelo da escola veneziana. A luz do sol revelou as cores locais, com brilhos deslumbrantes. Até mesmo as sombras possuíam alguma luminosidade e contrastavam em efeitos matizados, estes como se fossem luz em estado puro. O mesmo poderia ser dito sobre os reflexos da água naquele mar esverdeado. Senti tudo como se estivesse pintado em “chiaro nell chiaro”*, de modo que, a servirem de últimas pinceladas, faltariam apenas ondas espumantes e relâmpagos.” — * Expressão em contraponto ao “chiaroscuro” renascentista.

“Caça aos leões”, pintura romântica (Eugene Delacroix, 1860/61).

O estilo de Veronese era dito como maneirista*. Esse artista se revelou como um dos maiores expoentes da pintura, especialmente devido às suas inovaçõesChegado o século XIX, outro pintor, foi buscar inspiração em Veronese, chamava-se Delacroix(5). Este, por não ter aderido ao estilo predominante no seu tempo – o Neoclássico –, acabou por tornar-se um dos fundadores do Romantismo. E foi daí que os impressionistas, através da pintura de Delacroix, descobriram o caminho do moderno. Particularmente no que toca à maneira de tratar as formas, de produzir efeitos ópticos e dramáticos, e de representar o incomum. — * Maneirismo, estilo que surgiu na Itália do século XVI. Significa “maneira” ou estilo próprio de cada autor.

Um entusiasta da obra de Delacroix, o poeta e também crítico de arte Charles Baudelaire(6), ao ver seu trabalho em exposição no “Le Salon de 1846”, lhe dirigiu um elogio:

“Para mim, romantismo é a expressão mais recente, a mais atual representação do belo. O romantismo e a cor me remetem diretamente a Eugène Delacroix. Ignoro se ele tem orgulho da sua qualidade romântica, mas o seu lugar está conquistado, porque a maioria do público, há muito tempo, e mesmo a partir do seu primeiro trabalho, o constituiu como chefe da escola moderna.”  —  (Sob o pseudônimo de Baudelaire Dufays, no texto “Salon de 1846”.)

 “Castelo de Norham ao poente”, pintura pre-impressionista (J. W. Turner, 1845).

Há outras influências, diretas ou indiretas, que motivaram os impressionistas. Algumas vêm dos artistas Turner(7) e Whistler(8)dois pre-impressionistas – que já sabiam pintar com o apoio na teoria de Goethe, mas também com o que ensinara M. E. Chevreul(9). Este último, químico da Tapisserie des Gobelins(10), escreveu o tratado “La Loi des Contrastes Simultanés des Couleurs” (1839)*, obra que teve larga repercussão nas artes visuais. Dizia ele que, em determinadas condições, o contraste faz com que as cores sofram interferências mútuas(11), um fato que não podia ser ignorado por quem lidava com as formas. — * “A Lei dos Contrastes Simultâneos das Cores”.

Delacroix já tinha consciência disso, tanto que, por volta de 1850, enviara uma carta a Chevreul, manifestando o desejo de debater o mesmo assunto e esclarecer dúvidas. Contudo, parece que o encontro não se confirmou. Porém, esse interesse demonstra que tanto o grande pintor do Romantismo, quanto os revolucionários do Impressionismo, tinham também algo em comum no que toca às cores

“A princesa da China”, pintura pre-impressionista (J. Whistler, c.1860)

Nesse contexto é que a novidade impressionista foi ganhando força, até se converter em uma revolução nas artes plásticas. O ano de 1874 marca o início do movimento, com uma exposição organizada pela “Sociedade Anônima de Pintores, Escultores e Gravadores”, cujos fundadores foram Camille Pissaro, Claude Monet, Alfred Sisley, Edgard Degas, Pierre-Auguste Renoir, Paul Cézanne, Armand Guillaumin e Berthe Morisot. Primeiramente, instalaram u’a mostra no ateliê do fotógrafo Nadar* e, nesse evento, Monet apresentou seu quadro “Impressão: sol nascente”. — * Nadar: pseudônimo de Gaspard-Félix Tournachon, fotógrafo, caricaturista e jornalista.

Post - Alelier Nadar.jpgAteliê do fotógrafo Nadar, 2º e 3º pisos: 35, Boulevard des Capucines (1860).

PRÓS E CONTRAS

Foi árdua a batalha pela implantação do Impressionismo. O crítico de arte Joris-Karl Huysmans(12), um inimigo declarado, mostrou-se impiedoso num comentário:

“… Junte então à insuficiência de talento a desajeitada brutalidade do fazer, doença rapidamente provocada pela tensão dos olhos […] e você tem a explicação de loucuras comoventes que se espalharam durante as primeiras exposições em Nadar e Durand-Ruel*. […] A maioria poderia confirmar as experiências do dr. Charcot**, sobre as alterações da percepção de cores que ele notou em muitos histéricos da Salpêtrière…” — ** DURANT-RUEL, Paul: “marchant” de arte. / * CHARCOT, Jean-Martin: médico de alienados do hospital La Salpêtrière, Paris. 

Também no mesmo tom destruidor, o jornal Le Matin publicou uma charge com legenda:

Post - Charge

Apoiado no corrimão, o príncipe da crítica está inventando um gênio e derrubando outro. A moça dirigindo-se ao mestre, depois de uma hora, pede pelo marido que estava expondo pela primeira vez. Enfim, vale tudo no pequeno tribunal dos impressionistas; iluministas, ilusionistas e Claude-Monetistas*. […] A pintura é a vibração. A cor é preconceituosa, a forma é uma ilusão, o desenho é piada de um velho bombeiro. Tudo o que vemos não existe. Tudo o que não vemos existe. O que existe é a vibração. Vamos vibrar, meus amigos, vibremos!” * Referência ao pintor Claude Monet.

Até a consagração do nome Impressionismo foi resultado da má vontade. A responsabilidade é do crítico e também pintor Louis Leroy(13)Depois de ver a tela “Impressão: sol nascente”, que não entendeu e não gostou, resolveu debochar, publicando uma nota no jornal Charivari:

“O que representa essa tela? Impressão! Impressão estou seguro. Assim disse a mim mesmo, porque estou impressionado; lá deve haver alguma impressão. Partiu de Claude Monet, dele mesmo, ao dar um título ao seu quadro, uma paisagem do Le Havre, pintada em 1872: – Coloque impressão, sol nascente.”

Louis Leroy. / Jornal Charivari: “Manet em crise de nervos, ao ver pintura independente.”

Do outro lado, o escritor Émile Zola(14) – adepto do Impressionismo –, pôs mais lenha na fogueira ao combater a pintura da moda, dizendo:

“Realismo, para muitas pessoas, consiste na escolha de um motivo vulgar. Pinte rosas, mas pinte-as vivas, se você diz que é realista.”

Para melhor entender o estilo impressionista, outro ponto há que se destacar, é a maneira de pintar usando petites taches, ou seja, pequenas pinceladas, um jeito espontâneo no trato com o pincel, que muito diferia das técnicas sutis do chiaroscuro(15) e do sfumato(16), ainda muito usadas na época. 

Goethe, Chevreul e Rood.

Também um físico, Ogden Rood(17), através do seu livro “Modern Chromathics, contribuiu para o estilo impressionista. Trata-se um pequeno tratado no qual o autor repete Goethe, dizendo de que uma única forma* pode ser vista como uma totalidade; e várias formas, ao ocuparem um determinado espaço, se articulam conjuntamente, formando outra totalidade. Isso é o que se chama composição. *Toda forma possui tamanho, configuração, textura e cor.

Porém, quando Rood conheceu as obras dos impressionistas, logo mostrou-se decepcionado. Pelo menos foi o que disse seu filho Roland que, certo dia, ao deparar-se com ele muito deprimido, indagou:

” Papai, você está doente?

– Não! – respondeu. Estou muito bem, mas acabei de visitar u’a mostra de pinturas nas galerias de Durand-Ruel… – lamentou. Lá havia umas pinturas de franceses, que se diziam ‘impressionistas’. Algumas de um tal Monet e também de um rapaz chamado Pissarro, e mais outros.

O que pensa deles, perguntei?

– Horrível, horrível! – e engasgou.

Então, lhe disse que aqueles pintores haviam tomado conhecimento das suas teorias. Isso causou-lhe um susto, de modo que o levou a perder a compostura. Daí, levantou as mãos, horrorizado e indignado, e gritou:

– Se foi apenas isso o que fiz pela arte, melhor teria sido que nunca tivesse escrito esse livro.

Anos depois, tive a oportunidade de retornar ao mesmo assunto com meu pai. Eu mesmo havia realizado várias experimentações na pintura de paisagens, sempre apoiado nas regras descritas no seu livro, embora inseguro pelo fato de que papai não aceitava o Impressionismo. Mas, entretanto, admitia alternativas, desde que procurássemos a verdade noutro lugar. Quanto ao pintor Turner, ele o compreendia e o considerava lógico. Pois, afinal, externou sua conclusão:

– Meu filho, sempre soube que, na natureza, o pintor pode ver o que quiser, mas nunca que pudesse efetivamente “enxergar” qualquer coisa nas palavras de um livro.”

———

Post - Berthe Morisot“Chapéu verde”, pintura impressionista (Berthe Morisot, 1873).

Seguidamente, ao correr do tempo, continuam sendo derrubados os preconceitos e as fronteiras da estética visual. De tal modo que, agora, ficou difícil saber o que pode ser arte e o que não pode. Mas Goethe já dizia:

“A coisa mais difícil de se ver é a que está diante dos nossos olhos.”

Talvez a salvação esteja nas palavras do pintor Pablo Picasso, que ensinam:

“A arte é uma mentira, que nos faz perceber a verdade.”

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Texto, tradução e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

(1) OLSON, Donald – (Texas State University, Departament of Physics) Conhecido pelo seu trabalho científico no sentido de desvendar mistérios da arte, história e literatura.

(2) GOETHE, Johann Wolfgang von – (Frankfurt, Alemanha, (*28.08.1749 / Weimar, Alemanha, †22.03.1832) Escritor, esteta, pesquisador científico e estadista. / “Teoria das Cores” (Zur Farbenlehre). Traduzia para o inglês por Charles Lock Eastlake (1840).

(3) CALIARI, Paolo – Mais conhecido como Veronese (Verona, *1528 / Veneza, †19.04.1588). Trabalhou por muito tempo em Veneza.

(4)“Viagem à Itália” (em alemão, “Italienische Reise”). Fonte: “Goethe’s Travels in Italy” – Edição: George Bell & Sons, London, 1885, p. 75.

(5) DELACROIX, Ferdinand-Victor-Eugène – (Charenton-Saint-Maurice, França (*26.04.1798 / Paris, †13.08.1863) Filho de Talleyrand, príncipe, ministro da república e seu grande incentivador. Teve uma educação esmerada nos melhores colégios de Paris, possibilitando que se tornasse um erudito precoce. Estudou no Conservatório de Música, na Academia de Belas-Artes e, também, frequentou o ateliê do mestre Pierre-Narcisse Guérin.

(6) BAUDELAIRE, Charles-Pierre – (Paris, *09.04.1821 / Paris, †31.08.1867) Poeta; crítico de arte, assinando Baudelaire Dufays. Um dos precursores do Simbolismo e fundador da tradição moderna em poesia – juntamente com Walt Whitman –, embora tenha participado de diversas escolas. Sua obra teórica teve grande influência sobre os artistas plásticos do século XIX.

(7) TURNER, Joseph Mallord William – (Londres, *23.04.1775 / Londres, †19.12.1851) Pintor romântico, considerado como referência para o surgimento do Impressionismo.

(8) WHISTLER, James Abbott McNeill – (Lowell, Estados Unidos, *10.07.1834 / Londres, †17.07.1903) Whistler transferiu-se para Paris em 1855, onde alugou um ateliê no Quartier Latin e rapidamente aderiu à vida boêmia.

(9) CHEVREUL, Michel Eugène – (*31.08.1786 / †09.04.1889) Químico francês. Entre outras obras, publicou “De la loi du contraste simultané des couleurs”.

(10) “Manufacture des Gobelins” – fábrica de tapetes artísticos localizada em Paris. A maior parte da produção estava voltada para os monarcas franceses. Foi criada em abril de 1601, por Henri IV e ainda existe, situada em Paris, no “XIIIe arrondissement”.

(11) Chevreul constatou que cores diferentes podiam se apagar, se fortalecer ou se valorizar – uma em relação à outra – quando, por proximidade, sofriam interferências mútuas. A esse fenômeno denominou “contraste simultâneo”. Mas havia outro, chamado “contraste sucessivo”, que ocorre em outras condições e em determinados lapsos de tempo.

(12) HUYSMANS, Charles-Marie-Georges – (*Paris, *05.02.1848 / Paris, †12.05.1907) Escritor e crítico de arte. 

(13) LEROY, Louis-Joseph – Pintor medíocre (quadro à esquerda), gravador, escritor e jornalista (Paris, *1812 / Paris, †1885) Sempre desejou ser paisagista, mas nisso obteve pouco sucesso. Entretanto, foi reconhecido como bom gravador em água-forte, tendo obtido uma medalha de ouro no Salão de 1838. Em 1859, tornou-se colaborador do jornal Charivari, onde escreveu crônicas. Também colaborou nos periódicos Gil Blas, Le Gaulois e no L’Évenenement. Em abril de 1874, publicou no Charivari o artigo “L’Exposition des Impressionistes”.

(14) ZOLA, Émile – (Paris, *02.04.1840 / Paris, †29.09.1902) Escritor e jornalista. Principal representante do Naturalismo na literatura. Essa corrente foi um desdobramento do Realismo, que enfatizava o indivíduo comum e a sua intimidade. Quase sempre, tratava dos camponeses, operários e prostitutas. / O pintor Van Gogh, um pós-impressionista, teve muitas influências de Zola.

(15) Chiaroscuro – Nome italiano e técnica que tira partido do cinza (preto + branco) como artifício para criar contrastes de cor. Essa técnica variou para o “tenebrismo”, quando os princípios do “chiaroscuro” foram levados ao extremo.

(16) Sfumato – Palavra derivada de fumo, designativa de uma técnica que tira partido do cinza, como elemento de união e transição entre as cores.

(17) ROOD, Ogden Nicholas – (Danbury, Connecticut, *03.02.1831 / Manhattan, New York, †12.11.1902) Físico. Um conjunto de experiências e ensinamentos de Goethe enriqueceram seu livro “Modern Chromatics” (1879), voltado para a indústria e a arte.

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01/06/2018

TERAPIA DO RELÓGIO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:14 am

♦ Tal pai tal filho, tal mãe tal filho.

Post - No último domingo do mês, como de hábito, a família fora visitar o Joca(1) na casa de alienados. Lá, ao serem recebidos pelo velho médico, tiveram as primeiras notícias do paciente:

“- Ele vai indo muito bem. Desde que passou a frequentar nossa Oficina de Criatividade, tem apresentado sensíveis progressos. Ultimamente, está com os pés mais na terra e, a qualquer tempo, devo lhe dar alta.”

Diante de tão animadoras notícias, a mãe do Joca, dona Jorgina(2), foi tomada de alegria:

“- Que maravilha doutor Higino(3)! Nem imaginava que ele se libertaria das más influências recebidas do pai, aquele vagabundo, que nunca achou tempo para trabalhar. Razão da nossa eterna penúria.”

“- Como assim?” – indagou o médico. 

E dona Jorgina revelou a origem da sua grande mágoa: 

“- É isso! Desde que nos casamos, se apegou aos livros e adquiriu a mania de escrever poesias.”

Ao ouvir tão duras palavras, Higino pediu serenidade, mas passou a duvidar da alegada negatividade paterna:

“- Inacreditável! O Joca me passa outra impressão. É muito dedicado e criativo…”

Porém, de modo incisivo, veio a manifestação da mãe: 

“- Criativo, em quê?”

Então, o médico se esforçou para explicar: 

“- Ora! Aqui, na nossa Oficina de Criatividade, buscamos motivar os participantes para que deem asas à imaginação. Explico, imaginar é a arte de criar no cérebro coisas que nunca existiram. Nisso, seu filho é um verdadeiro prodígio! Desde o momento em que passou a frequentar nossa Oficina, tem apresentado ideias magníficas.

Pois saiba que tudo começou fortuitamente, quando se deparou com um relógio de parede adormecido porão da enfermaria. Naquele momento, teve forte emoção, de modo que logo manifestou grande afeto pela máquina.

Algum tempo depois dessa experiência, foi movido por forças ocultas que o fizeram revelar-se como excelente relojoeiro, um verdadeiro autoditada no ofício. Sua primeira obra foi mesmo trazer de volta à vida o relógio abandonado, agora devidamente reformado e lidando com o tempo sem vacilar. Não atrasa nem adianta um segundo sequer. E Joca, toda vez que vai recuperar qualquer outro relógio, tem dito que sente a mãe ao seu lado. E vou dizer mais, ao dar por terminado cada conserto, saúda a senhora dizendo: ‘Viva mamãe! Deus no céu, mamãe na terra!”

Para que tudo ficasse bem claro, Higino ainda tentou mostrar a sabedoria escondida no relógio:

“- Devo lhe dizer que as coisas passaram a ganhar sentido quando, na caixa de madeira do relógio, Joca percebeu uma inscrição em latim, “Reditus aeternus”, que assim traduzimos: “Eterno retorno do mesmo.”(4) De fato, palavras intrigantes, até que captamos a natureza da mensagem. Era uma frase gravada por antigo dono, com a ponta de um canivete e, certamente, falando da sua relação com o tempo. Pois não é que o pensamento movimentou nosso espírito? Haja filosofia!” 

Contudo, sem compreender o que acabara de ouvir, dona Jorgina gaguejando passou a falar mais alto:

“- Valha-me nosso senhor Jesus Cristo! Então ele piorou!”

Ao ouvir isso, o doutor Higino tratou de defender o interno com veemência:

“- Não é o que pensa minha senhora, o Joca é um iluminado e disso estou convicto.” 

Daí, ele lançou um olhar para o alto, fez uma pausa e prosseguiu: 

“- De que mesmo estávamos falando? Era de outra coisa… Ah, lembrei-me, da admiração do seu filho pela senhora.”

Contudo, dela logo surgiu uma indagação:

“- O que o senhor quer dizer com isso?” 

E didático foi o esclarecimento do médico: 

“- Sim! Ele deixou claro que é herdeiro da sua habilidade de costureira. Contou-me que a senhora consegue passar um fio pelo buraco da agulha até de olhos fechados. Quer maior dádiva que essa, para qualquer pessoa que queira lidar com as miudezas dos relógios?

E vou dizer mais, acredito que, para ele, o relógio de parede passou a representar a senhora mesma, quase que por inteiro, praticamente uma duplicata. Vocês dois dormem no mesmo quarto, quero dizer ele e o relógio, pendurado num prego sobre a cabeceira. Alterou até o gênero do objeto, referindo-se a ele como “minha máquina”. Sempre que está a seu lado, a trata pelo diminutivo Mama, carinhosamente.

Olha! Tem mais… Está vivendo feliz, como se tivesse retornado ao seio familiar, pois que, durante os sonhos, tem conversado também com o pai. Pouco a pouco, nesses devaneios noturnos, foi tomando gosto pelos livros e aprendeu a escrever poesia. Tal pai tal filho!”

A essa altura, dona Jorgina denotando estar estupefata, mal conseguiu pronunciar duas palavras:

“- Não acredito!”

Nesse ponto, o doutor Higino sentiu-se obrigado a fazer importantes revelações:

“- Pois creia-me senhora, falo a verdade! Sua obra literária é maravilhosa. Acaba de escrever um poema intitulado A Fábrica de Tempo. Com muita arte explica como é possível construir o tempo. Suas palavras muito me inspiraram e estou com a ideia de, em breve, quando me aposentar, investir minha poupança numa fábrica de tempo.

Vou produzir e distribuir tempos metafísicos*, em três tipos de embalagem: Tempo de Antanho, Tempo Light e Tempo Vitaminado. Cada qual tem sua utilidade e especificidade, mas todos servem para estimular setores da mente. Quero ter estoque suficiente, de modo que os consumidores não fiquem sem tempo.” — * Metafísica é o que está além da física, ou seja, além das leis da natureza.

Mas dona Jorgina pediu uma pausa e indagou:  

“- Vem cá, o senhor não se esqueceu do Tempo Normal?”

“- O normal não existe!” – assegurou o médico. “Na minha vida eu nunca vi o normal, nem aqui dentro, nem lá fora…”

E continuou Higino:

“- O Tempo de Antanho é o que concentra tudo que ocorreu, ou seja, é o outrora. Antes, quero esclarecer que o outrora está em permanente distanciamento do presente. Assim, depois de ingerir o Antanho, você mergulha em algum lugar do passado e participa efetivamente dele. É o presente no passado, mas lá você entra como uma retardatária, evidentemente. O mais interessante do Antanho é que, à medida que ele vai perdendo efeito, o usuário começa a voltar à sua condição temporal anterior. Creio que esse produto terá boa acolhida entre os historiadores. 

Por sua vez, o Tempo Light ajuda a ativar os sentidos, de modo que habilita a perceber em detalhes cada instante do desenrolar da vida. Quanto ao Tempo Vitaminado, dá forças para quem quiser perscrutar o futuro. Nisso está a sua especial qualidade, porque ele tende para o infinito e, evidentemente, custará mais caro, porque está entre as “coisas” que duram para sempre.

Trocando em miúdos, esses tempos servem para lidar com o Antes, o Agora e o Depois

Digo mais, o Tempo Light, apesar do nome, é o mais útil e poderoso, porque estimula intensamente o tato, o olfato, o paladar, a audição e a visão – principalmente esta última. De modo que, tão logo é metabolizado, potencializa-se a capacidade de perceber o Agora e de captar microtempos, quanto também miuçalhas, por menores que sejam seus tamanhos. Creio que será o mais consumido e, por isso, vou colocá-lo a um preço bem acessível.

Mas faço um alerta, se você abusar na dose de Tempo Light, seu tempo poderá minguar perigosamente, o que é pouco recomendável. Ainda não há comprovação, mas é possível que, num determinado instante, se chegue ao nada(5). De qualquer maneira, creio firmemente que a ANVISA(6) aprovará as minhas drogas.

Nunca pensei que isso pudesse acontecer, mas acho que vou ficar rico com esse empreendimento!”

Porém, no instante seguinte, logo após Higino finalizar sua fala, dona Jorgina pediu esclarecimentos:

“- Doutor, não tenho nada com isso, mas como o senhor vai medir os seus tempos? Na balança, na régua e no relógio certamente não será.”

Daí, o médico franziu a testa, rapou a garganta, mas permaneceu mudo, o que fez dona Jorgina mudar de assunto:

“- O senhor está se sentindo bem? Quantas horas são? Não posso perder mais tempo, o último ônibus sai agorinha mesmo. Fica com Deus!”

Por Eduardo de Paula

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(1) Joca é diminutivo de Joaquim, nome que vem do hebraico Yehoyaqim e designa o 19º rei de Judá (597 a.C / 587 a.C.), o qual se estendeu ao nome do pai da Virgem Maria, São Joaquim. / Esse rei de Judá – o Joaquim – foi acusado de idolatria e, por força do nome, o Joca estava a fazer o mesmo com o relógio.

(2) Jorgina é derivativo de Jorge que, por sua vez vem de geo (terra) + ergon (trabalho), portanto nome apropriado para aquele que trabalha a terra; lavrador. Assim sendo, o nome veio a calhar para Jorgina, mulher muito trabalhadeira.

(3) Higino vem do grego hygeinos, palavra ligada à deusa Hygeia, filha de Asklepios, deus da medicina. Ela representava a saúde, a limpeza e a sanidade. Na antiga Roma, Asklepios era dito como Esculapius (Esculápio) – deus da medicina e da cura – e passou a ser relacionado com o sol, enquanto Hygeia era dita como Salus (tradução: Saúde), que seria a lua. Desse modo, se explica porque o saudável (?) doutor Higino era tão aluado.

(4) “Eterno retorno”, também dito como “eterno retorno do mesmo”, é um conceito filosófico originalmente abordado por Heráclito, herdado pelos filósofos estoicos e que chegou até aos pensamentos de Friedrich Nietzsche (século XIX).

(5) Segundo o físico Stephen Hawking, antes da grande explosão que gerou o universo – o Big Bang –, havia “basicamente nada”. Existiria, sim, um tempo imaginário, que se comporta como uma quarta dimensão.

(6) ANVISA: Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

01/05/2018

A RAPOSA ROMÂNTICA

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:56 am

 ♦ Corajosa, sincera e inspirada

A história ensina que, durante os séculos XVIII e XIX, ocorreram vários movimentos artísticos, amiúde eles se interpenetravam. Ao mesmo tempo, a Revolução Industrial e a Revolução Francesa também estiveram a provocar grande impacto no contexto histórico da época, em todos os sentidos.

O XVIII foi um período marcado pelo movimento intelectual do Iluminismo, também denominado Século das Luzes(1)O propósito seria iluminar a sociedade com novas ideias, de modo a romper com os modelos ditados pelo Absolutismo(2)

Por sua vez, o XIX foi um século de grandes invenções, descobertas e efervescência nas artes em geral. Nesse momento é que ressurgiu uma raposa para marcar presença.

A raposa fura o lobo: Renart e Ysengrim. 

ois corriam os anos entre 1760 e 1780, quando efervesceu o movimento literário Sturm und Drang* – nascido na Alemanha – e que tinha entre seus líderes o poeta Goethe(3). Eles estavam a contestar o ideário racionalista do Iluminismo e os estilos artísticos do Rococó(4) e do Neoclassicismo(5), ainda dominantes no período. Em pouco tempo, especialmente no que toca à literatura e às artes plásticas, os conflitos foram gerando desdobramentos, de modo a influenciar o pensamento artístico de toda a Europa e mesmo de terras mais distantes. — * “Sturm und Drang” (Tempestade e Ímpeto). O nome deriva da peça homônima de Friedrich Klinger (1752-1831). 

Os adeptos da nova corrente literária almejavam criar uma nova arte, que fosse mística, selvagem e espontânea, ou seja, quase primitiva, onde o maior valor seria a sensação – empfindung, dizendo no termo alemão – aquela que deveria se sobrepor à razão.

Uma grande influência recebida pelo Sturm und Drang veio de Herder*, introdutor do culto à genialidade que dependia da inspiração, não importando de onde viesse. Acreditando nisso, os poetas do movimento voltaram seus olhos para Homero, Shakespeare e, também, para as manifestações populares. — * HERDER, Johann Gottfried – filósofo e escritor alemão. 

O suicídio de Werther, ilustração para “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (de Goethe).

De modo a definir o que pretendiam, lá na Alemanha já existia o adjetivo romantisch – romântico – referindo-se ao estilo de antigas poesias que ainda vicejavam entre o povo. Haviam surgido nos tempos medievais, num ambiente dominado pelo cristianismo, e eram comumente divulgadas pelos trovadores.

Pois bem, num certo momento, a escritora madame Stäel* começou a se interessar pelas novas ideias e passou a divulgar o Romantismo (Die Romantik, em alemão) entre os franceses. Para isso, como tradução na sua língua, utilizou o termo “Romantisme”. Da França veio para Portugal e Brasil, com o nome de Romantismo.

Na cultura europeia, foram destaques do Romantismo: Goethe – na literatura e no teatro –, especialmente com “Os Sofrimentos do Jovem Werther” e o “Fausto”; Chopin – na música –, como pianista e compositor; Delacroix – na pintura –, considerado um gênio do estilo; Victor Hugo, com a peça de teatro Hernani”. A lista completa é imensa e muito rica.

Em “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, o personagem principal – Werther – conhece Lotte, noiva de Albert. Ele passa a frequentar a casa de Lotte e acaba se apaixonando por ela que, contudo, ama seu noivo. Porém, o intrometido não consegue arrebatar Lotte e morre por amor. Daí, o amigo Wilhelm, logo após a morte de Werther, descreve a tragédia muito romanticamente, assim:

 “Pela manhã, às 6 horas, o criado entrou no quarto com a luz. Encontrou o seu senhor no chão, viu a pistola e o sangue. Chamou-o, mexeu nele. Nenhuma resposta, ainda agonizava. Correu em busca dos médicos e de Albert. Lotte ouviu alguém tocar a campainha e um tremor fez convulsionar todos os seus membros […]. Tinha atirado na cabeça, logo acima do olho direito, fazendo saltar os miolos. Pelo sangue espalhado no espaldar da cadeira, concluiu-se que realizara seu intento sentado à escrivaninha; caíra em seguida, rolando convulsivamente em volta da cadeira. Estava estendido de costas, perto da janela, inerte, todo vestido e calçado, de casaca azul e colete amarelo. […] Do vinho, bebera somente um copo.” (6)

Chopin ao piano em uma noite romântica.

Pois bem, há de se notar que, na Península Ibérica e desde longínquas eras, existia outro gênero poético, o Romanceiro, que serve para nomear um conjunto de romances. Trata-se de sátiras e canções de amor, algumas em estilo épico, que haviam se espalhado por Espanha e Portugal. Essas últimas, são chamadas canções de gesta e narram gestos heróicos. Numa delas, há uma fala dirigida ao rei don Sancho(7), o primeiro dos Algarves: 

Rey don Sancho, rey don Sancho, | Rei don Sancho, rei don Sancho,
no digas que no te aviso; | não digas que não te aviso; 
que del cerco de Zamora | que do cerco de Zamora
un alevoso ha salido; | um traiçoeiro saiu;
Bellido Dolfos se llama, | Bellido Dolfos se chama,
hijo de Dolfos Bellido; | filho de Dolfos Bellido;
cuatro traiciones ha hecho, | quatro traições cometeu,
y con esta serán cinco. | e com esta serão cinco.
Si gran traidor es el padre, | Se grande traidor é o pai,
mayor traidor es el hijo.
| maior traidor é o filho.

Um romance de amor jogralesco, descoberto em 1421, é o mais antigo efetivamente documentado(8), escrito em um vernáculo misto de castelhano e catalão, que começa assim:

Gentil dona, gentil dona, dona de bell parasser… Gentil dona, gentil dona, dona de belo parecer…

Por sorte, com o advento do Romantismo, o Romanceiro retomou suas forças e está muito vivo. Quem fez um belo e profícuo trabalho nesse sentido foi o português Almeida-Garret(9). Seus livros em três volumes, intitulados Romanceiro, foram publicados a partir de 1828, contendo uma série de baladas medievais, recolhidas e atualizadas pelo autor. U’a amostra:

Onde vais alva e linda,
Mas tão triste e pensativa,
Pára, celeste Adozinda,
Da cor da singela rosa
Que nasceu ao pé do rio?
Tão ingênua e tão formosa
Como a flor, das flores brio,
Que em serena madrugada
Abre o seio descuidada
À doce manhã d’abril! etc.

No Brasil, a obra literária fundadora do Romantismo foi “Suspiros Poéticos e Saudades”, de Gonçalves de Magalhães(10), em 1836. Isto é, cerca de meio século depois de ter nascido o movimento alemão. Nestes versos, o poeta mostra seu estilo com o tempero brasileiro:

Quem, penetrando as negras catacumbas,
Escondidas da terra nas entranhas, 
Dos mártires cristãos leitos de morte,
Onde não entra o sol, nem entra a lua,
E só pequena luz, na mão do guia,
Trêmula, moribunda bruxuleia,
Como pálida estrela, ou como um olho
Do gênio habitador daquelas trevas;
Quem não se enche de horror? 
Quem falar pode?
Só ver, e emudecer; a língua é fraca;
As grandes comoções não se descrevem. / Roma, abril, 1835.

Nas artes pláticas

Como propagador do Romantismo na pintura, merece especial destaque Delacroix. Refletindo a importância do artista, há palavras de Baudelaire(11) quando se fez de crítico de arte. Assim falou sobre o pintor:

“… De uma paixão imensa, duplicada por uma vontade formidável, tal foi o homem. Mas ele dizia sem cessar: ‘Pois que considero a impressão transmitida ao artista pela natureza a coisa mais importante a traduzir…’ “

E acrescentou:

“Jamais, apesar de sua admiração pelos fenômenos ardentes da vida, Eugène Delacroix não será confundido entre essa turba de artistas e literatos vulgares, cuja inteligência míope se abriga atrás da palavra vaga e obscura de realismo.”

De fato, o Realismo* que surgira na década de 1850, após a Revolução Francesa(12), foi uma das consequências do ideário do Iluminismo, que pretendia representar o mundo aparente sem “artificialismos”, evitando as convenções, o exotismo e o sobrenatural. Contudo, através dos tempos, o figurativismo realista tem sido praticado nas artes visuais, sempre prevalecendo o alto domínio da técnica mas, amiúde, mas quase sempre com pouca qualidade expressiva. — * O Realismo perdeu fôlego ao aproximar-se o final do século XIX. 

“Cristo no mar da Galileia”: pintura romântica, por Delacroix.

Também o pintor espanhol Goya(13) foi um romântico e mais que isso, considerado um dos fundadores do Modernismo. Gostava de pintar coisas inacreditáveis, monstros, espetáculos de bruxaria e mais coisas do gênero. Assim sendo, não comungava com o ideário iluminista. Entretanto, ao mesmo tempo em que usava a imaginação, sabia tirar proveito das forças da razão. Uma de suas gravuras mostra um homem cabisbaixo – ele próprio – atormentado por um bando de morcegos esvoaçantes. E, com uma frase complementa a cena, dizendo:

“El sueño de la razón produce monstruos(14)“. — “O sonho / sono da razão produz monstros.” 

No Museu do Prado (Madri), há um manuscrito referente à mesma gravura, que pode ser assim traduzido:

“A fantasia, isolada da razão, somente produz monstros impossíveis. De outro modo, quando unida a ela (a razão), é a mãe da arte e fonte dos seus desejos.” 

Rastreando a palavra

O nome romantismo, em sentido amplo, não caiu do céu, veio de Roma. Seu nascedouro está na língua vulgar – sermo vulgaris ou linguagem comum. Dela vem a palavra romane, que designava o vernáculo* local, ou seja, o meio de comunicação popular, aquele que permitiria uma expressão mais calorosa e espontânea do que na língua erudita. Partindo do mesmo princípio, as línguas nativas de vários povos ficaram ditas como romance. — Vernáculo: língua própria de um país ou de uma região. / Do latim “vernacŭlus, a, um”, no sentido de escravo nascido na casa do amo; ou doméstico, de casa, nascido ou produzido no país ou no lugar, nacional. 

Na Idade Média, chamavam de romance à prosa e ao verso escritos na língua nativa, não importa qual fosse o país.  As obras narravam aventuras imaginárias, criadas de modo a despertar o interesse geral. Vai daí que, por meio do romance, qualquer pessoa podia externar os sentimentos com naturalidade e verdadeira emoção. Em italiano, se diz romanzo, ou melhor, romanzo volgare*. — * Romance popular.

Assim é que as palavras romance, romanceiro, romântico, romanesco e romantismo, desde há muito tempo, têm servido para traduzir o que provém dos sentimentos e dos sonhos, tudo aquilo que se sobrepõe à realidade aparente.

O lexicógrafo e hispanista italiano, Girolamo Vittori(15) (século XVII), contribuiu para esclarecer o assunto. Disse, no seu dicionário:

“Romanceiro – Um livro cheio de tais histórias em forma de canções. De passagem, é preciso aqui dizer que esta palavra Romant, dita antigamente como a linguagem latina ou romana, foi corrompida por toda parte, como cada um quisesse, até mesmo nos confins da Alemanha e da Lorena, onde chamam Romant a linguagem que não é o alemão. / Romancista – compositor de Romans; tradutor em língua vulgar; compositor de romance; que é o romance da língua particular.” — Traduzido do verbete em francês.

Jograis divertindo o povo.

Também o padre Raphael Bluteau(16), no seu dicionário (1720), define da seguinte maneira:

Romance – O mestre Venegas quer que romance seja advérbio, formado do verbo (palavra) latino romane, por falar romanamente, porque tinham uma lei os romanos, que lhes proibia dar ouvidos aos embaixadores, quando falavam em outra língua que não a romana. Tem esta palavra romance vários significados.

Em primeiro lugar, romance significa a língua própria, natural e vulgar de qualquer terra. […] Camões*, num rio de Melinde, diz que seu nome, no romance** da terra, é Obi. Vê cá a costa do mar, onde te deu / Melinde (cidade) hospício (abrigo) gasalhoso e caro / O Rapto rio nota, que o Romance/ Desta terra chama Obi (rio Obi), entra em Quilmance (cidade de Quelimane).** ” — * Nesse ponto, Camões fez uma analogia com a língua portuguesa que, outrora, foi um romance. – Luzíadas, 1572. /  ** Língua obi, falada em Quelimane, Moçambique. – Canto X, estância 96.

Mais esclarece Bluteau, no suplemento do dicionário:

QUILMANCE – Lugar situado na boca do rio Rapto, chamado por outro nome Obi, junto (próximo) ao rio de Melinde.”

Ainda no dicionário, Bluteau complementa: 

Romance, no dito sentido, Língua Vernácula. Na sua miscelânea quer Miguel Leitão que o falar em Romance seja como quem diz: falar Romano. […] Romance – No canto 10 dos sonetos de Camões, sobre a oitava 96, acrescenta Manoel de Faria, que qualquer livro traduzido do latim em vulgar, também se chama Romance, ainda que a tradução seja feita em versos com suas consonâncias e não só em latim, senão de um vulgar em outro, como o dito autor afirma ter visto muitas vezes, intitulado esse Poema traduzido em castelhano e dizia Lusíadas em Romance.”

O padre Bluteau, no Suplemento do seu dicionário, também disse:

Rapto* rio do qual faz menção João de Barros […] aonde diz: ‘Nas serras do reino, aldeia nasce o rio Obi, a que Ptolomeu chama Rapto’ […] Também se chama romance à prosa, para se diferenciar do verso, por ser ela mais vulgar que ele. […] Romancear – traduzir em língua vulgar e natural da terra. […] Romancista – o compositor de uma casta de versos a que chamam romance, ou o tradutor de obras de peregrino idioma, na língua da sua terra; ou aquele que não sabe latim e não só na sua língua exercita a arte que professa.”

A raposa “romântica”

A poética medieval, falada ou escrita em romance, denota que a ideia primitiva do romantismo estava sedimentada na cultura popular da Europa e cujos maiores divulgadores foram os menestréis. Em forma de manuscritos, datam do século XII e início do século XIII.

Entre eles, há o Le Roman de Renart*, em francês, que é o mais famoso conjunto de histórias de animais produzidas na Idade Média, resultado de várias autorias e totalizando 26 capítulos. A inspiração veio das fábulas do grego Esopo e do poema épico de escárnio da autoria de Nirvadus, escrito em latim, em 1148 ou 1149, cujo personagem principal é o lobo Ysengrimus**, que é hostilizado pela raposa Reinardus***. Mestre Nirvadus foi um monge andarilho flamengo, natural de Gent***. Através dele é que começou a ser vulgarizada a história do lobo, que tem suas maquinações destruídas pela maldosa e heróica raposa. — * Romance de Renard, em português. ** Ysengrin, em francês. / *** Reinart, em francês. / *** Gent, hoje na Bélgica.

” Le Roman de Renart”, em francês antigo, por volta de 1400.

Ao estabelecer semelhanças entre o animal e o homem, a narrativa visava criticar a sociedade do mundo feudal. No conjunto, predomina a ironia, mas plena de lições de moral. Nessa tônica é que Ysengrin aparece travestido em monge-bispo, para que o herói Renart o trate impiedosamente, de modo a emocionar e açodar a revolta de quem lê ou assiste o desenrolar da narrativa.

Em francês antigo, a palavra para raposa é  goupil* mas, depois que ganhou fama, “renart” virou o sinônimo preferido, trocando o t por d, ou seja, renard. — * O nome “goupil” vem de “vulpeculus” ou “vulpecula”, diminutivo de “vulpes” (raposa), em latim. 

Vê-se que a palavra roman, ao dar título ao poema, serviu para dizer da história popular de Renart, escrita em romance, ou seja, no vernáculo dos franceses e não em latim. Nesse contexto é que muita gente ainda fala e escreve em alguma língua românica ou neolatina(17), entre elas o português.

No latim culto (sermo cultus) diziam:

“Illa claudit semper fenestram antequam cenat.”

No latim vulgar (sermo vulgaris):

“Ea claudit semper illa fenestra antequam de cenare.”

No português:

“Ela fecha sempre a janela antes de jantar.”

O poeta Fernando Pessoa(18), a seu modo, soube bem definir o que seria romântico, no seu sentido mais profundo:

“É preciso ser um realista para descobrir a realidade. É preciso ser um romântico para criá-la.”

———

Àquela época do Sturm und Drang, a antiga raposa continuava circulando, mas pouca gente havia atentado para isso. Talvez Goethe, com sua enorme sensibilidade a tenha visto. Mas, para quem ainda não a viu, sempre haverá a oportunidade de vê-la, porque é imortal.

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Um Romancero para chorar. Ouça:

Pesquisa, texto, traduções e arte de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) Iluminismo – período também dito como Século das Luzes, da Ilustração ou da Filosofia.

(2) Absolutismo – teoria política que defende a ideia de que uma pessoa – rei ou monarca – deve deter o poder absoluto. O momento culminante foi com o rei Luís XIV, conhecido como rei Sol.

(3) GOETHE, Johann Wolfgang von – (Frankfurt, Alemanha, (*28.08.1749 / Weimar, Alemanha, †22.03.1832) Escritor, esteta, pesquisador científico e estadista.

(4) Rococó – estilo artístico surgido na França, após a morte de Luís XIV, em 1715. É marca do período que termina com a Revolução Francesa, em 1789.

(5) Neoclassicismo – movimento cultural da Europa Ocidental, de meados do século XVIII. Teve larga influência na arte e cultura de todo o ocidente, até meados do século XIX. Seus limites são muito imprecisos. O neoclassicismo teve seu auge entre meados do século XVIII e as primeiras décadas do século XIX.

(6) No romance de Goethe, o jovem Werther conta ao amigo Wilhelm a história do seu amor impossível pela bela Lotte, compromissada em casamento com outro. Artista, sensível às coisas da natureza e do amor, ele não consegue esquecê-la e, no final, comete suicídio com um tiro de pistola na cabeça. Quando o livro foi lançado na Europa, milhares de jovens passaram a se vestir como o protagonista. Dizem que a história foi inspirada em uma paixão não correspondida (Charlotte Buff – imagem ao lado) de Goethe , que afirmou ter matado Werther para que ele próprio não morresse.

(7) Sancho II de Castilha – (*1038 ou 1039 / †07.10.1072) Primeiro rei de Castilha [por conquista] e, depois, da Galícia e Leão. / Dolfo Bellidos – é considerado um personagem lendário, mas seu nome está documentado, em 1057, como Vellit Adulfiz.

(8) Romance copiado en 1421 (imagem abaixo), por Jaume de Olesa, natural da ilha de Maiorca, quando estudava em Bolonha (Itália). Diz assim: “Gentil dona, gentil dona, / dona de bell parasser, / os pies tingo en la verdura / esperando este plazer.  Por hi passá ll’escudero / mesurado e cortés; / les paraules que me dixo / todes eren d’emorés. / Thate, escudero, este cuerpo, / este cuerpo a tu plazer, / las tetillas agudillas / qu’el brial quieren fender.  Allí dixo l’escudero: / No es hora de tender, / la muller tingo fermosa, / fijas he de mantener, / el ganado en la sierra / que se me ua a perder, / els perros en las cadenas / que no tienen que comer. Allá vayas, mal villano, / Dios te quiera mal fazer, / por un poco de mal ganado / dexas cuerpo de plazer. ||| L’escorraguda es: / Mal mi quero mestra Gil, / e faslo con dretxo / Bien me quie su muger / qui’m etxa en e son letxo.”

Post - GentilTradução: “Gentil dama, gentil dama, / dama de bel parecer, / os pés tenho na relva / esperando este prazer Por aí o escudeiro passou / Cheio de mesuras e cortês; / as palavras que me disse / todas eram de amores. / Acorda, escudeiro, este corpo, / este corpo a teu prazer, / as tetinhas agudinhas / que a seda querem furar. Ali disse o escudeiro: / Não é hora de atender / a formosa mulher que vejo, / a obrigação é de cuidar, / do gado pastando na serra / que senão me vai a perder, / os cães estão nas correntes / e não têm o que comer. Lá vais, mau vilão, / Deus te queira mal fazer, / por pouco de mau ganhado / deixas o corpo do prazer. ||| O desfecho é: / Mal me quer mestre Gil, / E o faz bem direito / Bem me quer sua mulher / Que me deixa em seu leito.” 

——— Outro exemplo do romanceiro espanhol, uma balada proveniente de comunidades de judeus sefarditas: “Yo me levantaría un lunes / Un lunes por la mañanita / Tomare yo mi cantarito / Y la fuente fuera por agua • Y a la mitad de aquel camino / Con mi amor me encontraré / Tiró me la manika al cuello / La gargantilla me tocara • Tate tate tu el caballero / Desha me, iré para mi casa / Me lavaré mi lindo cuerpo / Me pondré camisita blanca • Me ciñeré mi cinturita / Con una kushaka morada / Me peinaré mi cavesika / Me pondré camisita blanca • Tate tate que no hay dote / Desha el amor para la noche / Tate tate que no hay nada / Desha el amor para mañana. • Dai de a la suegra una sardina / Y a la nuera una gallina / Dai de a cenar al desposado / Dai de a cenar que no ha cenado.” 

Tradução: “Vou acordar segunda-feira, / Na segunda de manhãzinha. / Meu potinho vou pegar, / Pra buscar água na fonte . • Já na metade do caminho, / Meu amor encontrarei. / Pelo pescoço vai me abraçar  / E no meu colar tocará. • Acorda, acorda cavaleiro, / Deixa-me, irei para casa. / Lavarei meu lindo corpo, / Vestirei camisinha branca. • Cinturinha vou rodear, / Com uma fita vermelha. / Vou  enfeitar meus cabelos, / Vestirei camisinha branca. • Acorda, acorda, que dote não há, / Deixa o amor p’ra denoite. / Acorda, acorda, que nada há, / Deixa o amor pr’amanhã. • Dá à sogra uma sardinha / E à nora uma galinha. / Dá jantar ao desposado, / Dá-lhe o jantar, que não jantou.” — Cantado por Ester Davida, natural de Tanger, em 10.07.1978.  

(9) ALMEIDA-GARRET, João Baptista da Silva Leitão de – (Porto, *04.02. 1799 / Lisboa, †09.12.1854) foi um escritor e dramaturgo romântico; visconde; orador, par do reino, ministro e secretário de estado honorário de Portugal.

(10) MAGALHÃES, Domingos José Gonçalves de – (Rio de Janeiro, *13.08.1811 / Roma, †10.07.1882) Ensaísta, poeta, professor, diplomata e político. Participou de missões diplomáticas na França, Itália, Vaticano, Argentina, Uruguai e Paraguai.

(11) BAUDELAIRE, Charles-Pierre – (Paris, *09.04.1821 / Paris, †31.08.1867) Poeta; crítico de arte, assinando Baudelaire Dufays. Um dos precursores do Simbolismo e fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora tenha participado de diversas escolas. Sua obra teórica teve grande influência sobre os artistas plásticos do século XIX.

(12) Revolução Francesa – O dia 14.07.1789 marca o início da Revolução Francesa com a Queda da Bastilha (um pequeno forte que servia de prisão), em Paris. O dia 09.11.1799 selou o fim da era, com o início do governo de Napoleão.

(13) LUCIENTES, Francisco José de Goya y – (Fuendetodos, Espanha, *30.03.1746 / Bordéus, França, †16.04.1828) Pintor e gravador.

(14) O escritor inglês Aldous Huxley (*26.07.1894 / †22.11. 1963), entusiasta do uso da droga LSD como estimulante dos processos mentais, escreveu sobre a gravura de Goya: “A legenda ‘El sueno de la razón produce monstruos’ admite mais de uma interpretação. Quando a razão dorme, o absurdo e as criaturas repugnantes da superstição acordam e ficam ativas, levando suas vítimas a um ignóbil frenesi. Mas não é só. A razão pode também fazer sonhar sem dormir, pode intoxicar-se, tal como ocorreu na Revolução Francesa, quando houve o sonhar acordado em prol de um progresso inevitável, em nome da liberdade, igualdade e fraternidade, mas impondo a violência, em nome da autossuficiência humana e pelo fim da tristeza.” Pois bem, a Revolução Francesa foi influenciada pelos ideais do Iluminismo, porém contestados por Goya e, assim sendo, a mensagem na sua gravura se revela ambígua.

(15) VITTORI, Girolamo – (Bolonha, Itália, *1549 / Genebra, Suíça, †?). Fonte da citação: “El Tesoro de las tres lenguas francesa, italiana y española”, 1614.

(16) BLUTEAU, Raphael – (Londres, *04.12.1638 / †Lisboa, 14.02.1734) Religioso da Ordem dos Clérigos Regulares e grande lexicógrafo da língua portuguesa; autor do “Vocabulário Português e Latino”.

(17) NEOLATINO / NEOLATINA – adjetivo designativo das línguas modernas derivadas do latim, como o português, o espanhol, o catalão, o provençal, o italiano, o francês e o romeno, ou aquelas de nações ou povos procedentes dos antigos Romanos; o mesmo que novilatino(a).

(18) PESSOA, Fernando Antônio Nogueira – (Lisboa, *13.06.1888 / Lisboa, †30.11.1935) Poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português.

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