Sumidoiro's Blog

01/09/2017

RIO ANTIGO (V)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 6:53 am

♦ Visitando Nova Friburgo

Em 1844, o médico francês Yvan Melchior-Honoré, acompanhando uma missão oficial francesa, chegou à então capital do Brasil, em 28 de janeiro. Aqui está parte do relato da sua visita(1). Este quinto Post, complementando o anterior, descreve o final de um longo passeio pela serra dos Órgãos.

Post - Órgãos _ LeuzingerCaminho na serra dos Órgãos (por Georges Leuzinger).

Na véspera, o doutor Yvan e companheiros estiveram hospedados perto de Nova Friburgo(2).

uas horas após a partida da fazenda de don Patricio Tejeiro y Campillo, chegamos ao grande jet de cristal, a cachoeira Paquequer* (*depois denominada Conde D’Eu). Contemplando esse imenso lençol d’água, decidimos chegar até sua queda. Mas, enquanto buscávamos o caminho, percebemos ao longe uma fazenda. Imediatamente me adiantei e fui dar em frente a uma casa de boa aparência. O alvoroço que fiz ao chegar chamou a atenção de um homem cor de canela, vestido de branco, que aproximou-se de mim e disse:

‘- Senhor, o que vos trás aqui? Sou o proprietário Emmanuel Ferreira Pinto(3) e todos estamos às suas ordens.’ 

‘- Eu imaginava Senhor’, – respondi. ‘O administrador da fazenda* do capitão Custódio (*onde o viajante estivera anteriormente) havia me prevenido que, aqui, iria encontrar a mais generosa hospitalidade.’

‘- E onde passou a noite’, – perguntou o senhor Emmanuel. 

‘- Ontem, junto ao seu vizinho don Patricio.’

‘- O quê? Você passou a noite naquela cavalariça? Dormiu naquele lugar misterioso, onde viajante algum jamais se atreveu a ficar?’– e deu uma risada. ‘- Conta-me o que viu?’ 

Respondi: 

‘- Senhor, gostaria de responder-lhe de pronto, mas deixei esperando ali na cachoeira o embaixador* da França, mais nossa comitiva. Vim trazendo uma mensagem e tenho que retornar com a resposta. Pode dizer-me, senhor Emmanuel, se podemos chegar ao fundo da cachoeira, através de alguma trilha na floresta?’ — * O líder da comitiva: senhor Théodore de Lagrené.

E ele emendou: 

‘- Nada é mais fácil. Eu abri uma picada para chegar até lá. Faz um ano e imagino que ainda exista. Irei com meus escravos em sua companhia.’ 

← Do Rio de Janeiro a Nova Friburgo.

Diante disso, ordenou a vinda de dois cavalos e mais dez escravos, e decidido a me acompanhar. Daí a pouco, ao depararmos com meus companheiros, parecíamos personagens de um teatro cômico. Esta foi a encenação: o senhor Emmanuel e eu, os dois a cavalo e mais um punhado de negros armados com facões, fazendo uma verdadeira algazarra. Assim sendo, após as habituais apresentações, seguimos para o interior da floresta, onde a densa vegetação produzia um ambiente todo especial. Os escravos caminhavam à frente, derrubando a torto e a direito galhos que pudessem impedir a passagem.

Depois de 1 hora de percurso, deparamos com uma moita impenetrável. Os cavalos sozinhos não tinham como avançar e nos pusemos a trabalhar para abrir caminho. Superado esse impedimento, mais à frente surgiram outros, tão difíceis que tivemos de continuar a pé. A todo instante ocorria algum dano em nossas roupas, provocados principalmente pelos espinhos, galhos de árvore, pedras escondidas sob os musgos e até mesmo samambaias. Atravessamos vários ajuntamentos de trepadeiras que mais pareciam pontes. Mas, finalmente, chegamos ao destino.

A cascata Paquequer despenca de 100 metros de altura sobre um amontoado de blocos de granito. O volume d’água se iguala ao da famosa fonte de Vaucluse – na França –, como se ambas coubessem numa bacia de mesmo tamanho. O resultado final é dos mais grandiosos.

No alto, é vista como uma esmeralda transparente e, quando se olha para o abismo, o fundo parece feito de rubis e diamantes, devido a refração da luz solar.  Na parte de baixo, os jatos mais leves formam um buquê, como se fossem estrelas coloridas em vermelho bengala ou, às vezes, formando um arco-íris. O deslocamento de ar produzido pelo aguaceiro gera um vento veloz e contínuo. Ruge no vale e no topo, e provoca uma névoa. As copas das árvores armazenam milhões de gotas que, depois, caem aos pingos sobre uma cama de seixos.

Cascata Paquequer (mudou para Conde D’Eu), no rio de mesmo nome.

O espetáculo é de uma grandeza única. Diante dele, ficamos mudos de admiração. A reação dos negros foi dar gritos de alegria. Na sombra da floresta virgem, onde moram muitos mistérios, o ambiente é perfeito para essa grande encenação.

A montanha contribui para o admirável espetáculo. Dá até para imaginar que ali aos seus pés, onde estávamos, ressoava o barulho do inferno. Depois de desfrutar daquela maravilha da natureza, retornamos à fazenda do senhor Emmanuel. No caminho, ele pôde fazer revelações sobre don Patricio, nosso anterior hospedeiro* (* clique e veja Rio Antigo – IV). Foi assim a conversa:

‘- Bem, senhor Yvan, poderia me dizer como foi sua estada com don Patricio?’

‘- Em companhia de legumes de todas as qualidades e ao lado de uma bela avezinha branca, que ele mantém engaiolada.’

‘- Você conseguiu vê-la?’

‘- Sim! Mas através do buraco da fechadura.’

‘- E ele não a mostrou a você? E não disse o nome dele, de onde veio e nem quem eram seus deuses?’

‘- Disse-me, sim. Seu nome: Patricio Tejeiro y Campillo; seu país, Espanha; seus deuses, uma trindade: Fléret, Voltaire e Volney.’

‘- Vou fazer mais três considerações sobre o que você acaba de dizer’, – gritou o fazendeiro. ‘Ele se chama Durand! É francês e, de religião, só acredita no diabo!’

‘- E o pássaro branco?’ – perguntei.

Daí, respondeu o fazendeiro, colocando a mão na testa:

‘- Pássaro! O pássaro? Ele é completamente brasileiro.’

‘- Diabos! E onde em seu país a gente caça essa avezinha?’

O senhor Emmanuel fez silêncio, meditou e, daí, bradou:

‘- Eh, Durand é um homem dos diabos, mas, bah!… Vai acabar encontrando o que procura… Vou lhe revelar o que dele conheço e ele bem sabe que não ignoro. Mas espero que nada comente…’

Vila de Nova Friburgo, fundada em terras de Cantagalo (por Debret).

Daí, fiz um sinal afirmativo e o senhor Emmanuel prosseguiu:

‘- Há uns dez anos, vindo de Lisboa, Durand chegou ao Brasil, em companhia de um tal de Almeida. Esses dois, que pareciam ser muito amigos, associaram-se para explorar uma indústria de açúcar em São Paulo. Seus negócios prosperavam, até que se separam bruscamente e de maneira violenta. Contudo, nunca se soube a causa desse conflito.

Em seguida a esse evento, o senhor Durand chegou aqui na província do Rio de Janeiro, sob o pretexto de administrar uma pequena fazenda e entregar-se à promoção dos negros. Mas foi justamente o contrário o que ocorreu. Quanto ao Almeida, o antigo parceiro, ele decidiu dirigir-se a Minas Gerais e, lá, passou a minerar o ouro nos rios. Como se sabe, essa dolorosa aventura é a que mais depende da sorte.

Porém, entre os escravos do senhor Almeida, apareceu uma bela mulata de Ouro Preto, que conhecia a arte de enfeitiçar qualquer homem. Então, o português comprou a bela jovem, mas não foi para ajudar-lhe a lavar ouro nos rios. Ela tornou-se mais sua mulher do que escrava e, nesse relacionamento, todo ano lhe dava um filho.

← Mulata de Ouro Preto (por Di Cavalcanti).

No entanto, os negócios do Almeida entraram em decadência, mas ele nunca apelou para expedientes sujos no sentido de se livrar das dificuldades. O que fez foi conseguir um empréstimo nas mãos de um capitalista. Até fiquei sabendo quem fôra aquela mão generosa… Porém, certo dia, o antigo sócio do senhor Almeida apareceu em Ouro Preto acompanhado de um representante da justiça, trazendo em mãos as mesmas promissórias que ele havia assinado, as quais foram repassadas ao dito portador. Mas, naquele momento, o devedor não tinha como atender ao então titular do crédito. Como consequência, o senhor Almeida teve que lhe entregar a parte mais importante da sua fortuna, ou seja, a maioria dos escravos, sua bela mulata e os filhos de ambos.’

‘- Que infame!’ – gritei.

‘- Do mesmo modo revoltei-me por aquela infâmia! – replicou Emmanuel. Mas, aqui, a lei diz assim… Quando a mãe não é emancipada, os filhos são também considerados escravos. É simples como um bom-dia. Sei que Almeida implorou, gritou e ameaçou, mas sem resultado. Então, para fazer dinheiro,  foram todos vendidos em leilão, a mulata, os negros e as crianças. Porém, Durand reservou para si a filha mais velha do Almeida, porque era muito bela e, por isso mesmo, idolatrada pelo pai. O objetivo do ex-amigo seria tê-la como sua preferida, o que fez o pai entrar em desespero. Contudo, ao correr dos dias, o charme que era próprio das mulatas de Ouro Preto funcionou em socorro daquela ‘avezinha’. Dizem que Durand  ficou apaixonado, embora sofresse ao ser tratado por ela com desdém’.

Pois bem, nesse ponto da jornada, quando o sol já estava se escondendo, transpusemos uma elevação e logo chegamos num imenso vale. Era a colônia de Nova Friburgo*. Havia ali modestas casinhas que, uns 20 anos atrás, foram edificadas por suíços. Naquela vila e com muita alegria, deparamo-nos com lindos meninos loiros e mocinhas de pele muito branca, com bochechas rosadas. — * Nome derivado de Freiburg, cantão suíço.

Preciso dizer que, desde a chegada ao Brasil, estávamos a ver quase que só pessoas negras ou morenas. Por conta dos seus cabelos e olhos negros, sentíamos nelas qualquer coisa de diabólico. De outra maneira, em Nova Friburgo, ao admirar aqueles olhares ingênuos e emoldurados por cabelos loiros, a sensação fora muito agradável. Porém, não estivesse uma chuva a cair, teríamos parado por algum tempo para lhes fazer uma saudação em francês.

Enfim, às 6 horas da tarde, depois de uma cavalgada e um jejum de 12 horas, já estávamos entrando no hotel Salusse*. Ali, de imediato, tivemos o prazer de vestir uma roupa limpa e bem passada. Naquela casa, um jovem homem louro e de maneiras distintas, veio nos convidar a participar de um baile que ocorreria à noite. Disse-nos que teríamos a oportunidade de dançar e falar francês, de tal modo que iríamos nos sentir como que estivéssemos em Paris. — * Hotel Salusse: dos suíços Guillaume Salusse – capitão da marinha francesa – e Mariane Jose. 

Post - Vista Morro QueimadoNova Friburgo, com a igreja (à esquerda) e o Morro Queimado ao fundo (por F. Salathé).

Ao anoitecer, quando adentramos ao salão do anunciado baile, ficamos surpreendidos com a elegância e o charme das dançarinas. Eram, na maior parte, jovens senhoras do Rio de Janeiro que vieram passar o verão na serra, mais outras residentes na própria vila. Tudo parecia europeu naquele encontro. As toaletes em estilo brasileiro desapareceram completamente. Foram substituídas por aquelas que conhecíamos da Europa e nada poderia indicar que estávamos a duas mil léguas da nossa terra.

Dois negros, encarregados de fazer a música, tiravam dos seus robustos violões uma harmonia quase perfeita. Nosso anfitrião, que conduzia com perfeita graça as honras da sala, foi quem inaugurou a primeira contradança, tendo como seu par com uma senhora muito clara e frágil.

Deveras ansiava por participar daquele evento social e, para isso, pedi para ser conduzido a um senhor de óculos verdes, casaco, colete e calça preta. Seu rosto era pálido e magro. Depois das devidas apresentações, fiquei sabendo que era o poeta da comunidade. Então, puxando conversa, fiz-lhe uma indagação:

‘- Quem é aquele homem que está agora a dançar? Suas boas maneiras me surpreendem. Por acaso ele viveu na França?’

Ouvi a resposta:

‘- Certamente, mas não foi lá que aprendeu a dançar.’

A resposta breve, vinda de uma voz cavernosa, deixou-me em dúvida. Então, pedi melhor explicação, que saiu assim: ‘- É o padre da paroquia!’ Segundo suas palavras, outrora aquele sacerdote(4) estivera muito incomodado, pois sempre que o sino da igreja tocava a chamar para a missa, quase ninguém aparecia. Foi então que concebeu uma maneira de cativar os paroquianos, qual seja, promover bailes e divertimentos em Nova Friburgo.

A artimanha deu bom resultado e, desde então, passaram todos a dançar juntos e a rezar… Também fiquei sabendo que quase sempre era ele quem abria os bailes e, de fato, pude vê-lo dando o braço à sua irmã mais nova, uma linda helvética*. Naquele dia, graças a animação de todos os dançarinos, a festa durou até que o sol clareasse o Morro Queimado.” — * Helvécia: designação alternativa para Suíça. Helvético(a): nascido(a) na Suíça.

Registro de óbito ocorrido durante a viagem ao Brasil, assinado pelo vigário de Nova Friburgo.

A FUNDAÇÃO

á uns 20 anos, começou a chegar ao Brasil grande número de Suíços*, com o propósito de povoar alguns territórios. De modo a convencê-los, os agentes do governo pintaram um cenário colorido mas mentiroso do que seria o país. Além disso, os iludiram com falsas promessas, prometendo-lhes terras férteis em doação e algum dinheiro, durante o período de dois anos..” — * O padre vigário de Nova Friburgo estava entre eles.

Diante disso, para a maioria desses colonos, o que à primeira vista aparentava ser fonte de riqueza, na verdade levou-os ao fracasso. Por outro lado, enquanto possuíam algum dinheiro e tinham o pão garantido, não cuidaram de limpar os terrenos e nem cultivá-los. Grande parte deles, em vez optar por uma ocupação fixa, preferiu sobreviver como caçadores, ou em vida nômade.

Sequer os mais laboriosos foram recompensados na sua faina de agricultores, pois a cultura que haviam escolhido não se adaptou ao solo pobre. Os cafezais não produziam a contento, a cana de açúcar resultou apenas num caldo aquoso e insosso. Como consequência, fracassaram os objetivos da colonização. Apesar de tudo, novas levas de imigrantes – suíços, franceses, ingleses e alemães – vieram a se estabelecer na mesma região. Entretanto, mais prevenidos que seus antecessores, souberam tirar melhor proveito do que oferecia a terra.

Estranhamente, é o comércio extrativo que tem movimentado a atividade econômica. Embora a riqueza da colônia de algum modo venha crescendo, uma das principais fontes de renda ainda se origina da colheita de fósseis, penas de aves, peles de mamíferos, insetos e plantas que são vendidos aos visitantes. As crianças estão muito envolvidas nesse tipo de atividade.

Há um colono que, com isso, tem acumulado algum dinheiro em Morro Queimado*. Ele, anualmente, apura cerca de seis mil francos na venda de penas de papagaios. Papagaios infelizes! Mas um pouco menos aqueles que, vendidos vivos vão morar num poleiro, na companhia de um humano e um gato angorá. — * Morro Queimado, nome antigo de Nova Friburgo.

A maior renda da população de Nova Friburgo vem do aluguel de gado e produção de mulas. Merece também destaque a produção de manteiga e queijo. Contudo, no que toca ao cultivo do solo, nota-se que a maioria dos habitantes ainda não têm a necessária experiência. No sentido de superar essas dificuldades, têm se empenhado em tornar o lugar atrativo como estação de veraneio, para a alta sociedade do Rio de Janeiro. Acreditam que a afluência desse público permitirá o desenvolvimento material da cidade. Mas parece que essas esperanças carecem de fundamento.

Anúncio e vista dos fundos do colégio Freese.

A natureza do território de Morro Queimado, por suas características tropicais, não apresenta condições para o cultivo de vegetais da Europa. Todas as tentativas de aclimatação fracassaram completamente, embora não haja motivos suficientes para desprezar totalmente a fertilidade do solo.

Nem mesmo há onde abrigar grandes rebanhos. Por outro lado, no que toca ao desenvolvimento cultural da comunidade, merece destaque um estabelecimento de ensino, fundado por Mr. Freese*, que tem dado bons frutos. Ele é um inglês inteligente e zeloso, que denota ter sido moldado na severa rigidez da igreja metodista. — * John Henry Freese.

Essa escola, que foi fundada há pouco tempo, atende a 50 alunos procedentes de vários lugares. Parece que é o único estabelecimento digno de alguma confiança nesse vasto império. São conhecidos vários personagens famosos que ali estudaram. E, para nossa surpresa, constatamos que os pupilos de Mr. Freese falam o bom português, o francês e o inglês.

O educador estava imbuído de uma bela ideia, qual seja, a de promover o bom convívio social como parte da educação. Para tanto, e como tinha profundo horror à escravidão, criou entre os estudantes o hábito de fazer improvisações orais, nas quais defendiam a libertação dos escravos.

Nova Friburgo possui cerca de 1500 habitantes. A maioria das casas, em torno de trezentas, são muito modestas e foram edificadas ao longo de uma única linha. No vale existem também pequenas cabanas, espalhadas por um lado e outro, abrigando algumas famílias. A aparência de Nova Friburgo é bastante agradável.

As montanhas, que fazem fronteira com o horizonte, possuem uma configuração especial: são bastante nuas no topo, o que é raro nesta parte do Brasil. Este desnudamento se deve a um incêndio devastador, que irrompeu quando ainda eram cobertas de árvores. Disso veio o nome de Morro Queimado, como agora se diz.

Post - Nova Friburgo _ igreja & praçaNova Friburgo: praça central com igreja de São João Batista.

Há quem diga que, após o grande fogaréu, perdurou uma seca de vários anos, tendo provocado a ruína de alguns moradores. Os cursos d’água diminuíram e seus cultivares entraram em decadência. Mas, nesse país ainda jovem, tudo é superável e, hoje, quase não há mais vestígios do terrível acontecimento.

Conheci alguns franceses em Nova Friburgo, entre eles dois médicos, capazes e cultos. Nossos compatriotas, quando deixam seu país para viver no Brasil, de modo geral são muito dedicados ao trabalho. Na França, não se tem ideia da bravura excepcional desses abnegados, vivendo distantes de qualquer centro populacional.

Do mesmo modo agem os fazendeiros, mas esses agindo como reis absolutos entre seus escravos. De minha parte, procurava dar aos compatriotas algum consolo, rememorando coisas da nossa terra. Mas, uma coisa me entristeceu, foi ao ver crianças que mal conheciam a língua dos seus pais e, mesmo assim, pouquíssimas a utilizavam. Parece incrível, mas o abandono da língua paterna já está a se manifestar na primeira geração!

Em Nova Friburgo há muitos casamentos mistos, de brasileiros com franceses, suíços com ingleses, e franceses com ingleses. Para se falarem, todos esses casais adotam o português como língua comum. Por outro lado, as crianças que têm as negras como amas, com elas passam a praticar a língua portuguesa logo após o nascimento. É muito provável que, onde não se fala o francês desde cedo, no máximo em vinte anos esteja seu uso muito reduzido.

Depois de bom descanso e tendo visitado os arredores de Nova Friburgo, tomamos a decisão de fazer o retorno pelo caminho de Macacu* e, daí, seguindo para o Rio de Janeiro, antes passando por Sant’Ana** e Sampaio***.”— * Cachoeiras de Macacu. / ** Santana de Japuíba. / *** Porto das Caixas, na fazenda Sampaio.

Post - Cafezal Nova FriburgoCafezal na região de Nova Friburgo.

O RETORNO

o dia da partida, terminamos os preparativos às 5 horas da manhã mas, devido à lentidão dos tropeiros portugueses, tivemos que ficar à espera por mais algum tempo. Nessas circunstâncias, não adianta rezar, implorar ou reclamar, nada os faz apressar e o melhor é ter paciência. Foi a atitude que tomamos resignadamente, de modo que somente às 9 horas pusemo-nos em movimento.

A primeira parada ocorreu em meio a uma floresta virgem, num lugar conhecido como Boa Fama. Ali havia uma pequena propriedade, com uma venda* (*venda do Francês) e uma hospedaria, que atendiam a viajantes e tropeiros. No primeiro instante, o ambiente causou-nos alguma suspeita mas, quando vimos a figura simpática do senhor Darieu(5) – o proprietário – mudamos de ideia e passamos a acreditar na seriedade do estabelecimento.

O senhor Darieu é certamente uma das criaturas mais originais que já vi. Vivaz, alegre e extrovertido, certamente muito inquieto. Está sempre em contato com os tropeiros, uma espécie de contrabandistas que transportam mercadorias somente à noite. Aquela casa servia de entreposto para traficâncias arriscadas, porém, devido à sua localização, mostrava-se muito apropriada para camuflar qualquer ilegalidade.

Aqui está uma prova da originalidade do senhor Darieu! Ao ver, na sala principal do casarão, duas crianças muito claras, deitadas sobre uma esteira, perguntei-lhe a quanto tempo era casado. Prontamente ele respondeu: ‘Faz um mês.’

‘- E as crianças?’ – tornei a perguntar.

Então, ele explicou:

‘- Comigo, uma coisa aconteceu, mas foi há muitos anos! Certo dia, estando minha mulher muito doente, o médico assegurou que não tinha mais que dois dias de vida. Então, busquei um padre e nos casamos.’

Ouvindo isso, louvei seu bom procedimento e ele disse mais:

‘- Se não ficasse tão caro, haveria mais casamentos por aqui. Mas, infelizmente, não casam de graça! Meu casamento, por exemplo, custou-me 40 mil réis e, olha, com esse dinheiro, dá para fazer um bom investimento. Verdade é que, durante a estadia do padre na nossa igreja, com 40 mil réis batizei dois filhos, que não eram batizados, e ainda consegui enterrar outro.’

Repouso de tropeiros (por Rugendas).

E, por acréscimo, fiquei sabendo que o padre ao qual se referia Darieu era aquele religioso simpático, o mesmo que conheci no Morro Queimado. Logo depois, quando estávamos saindo daquela paragem, deparei-me com a jovem e atual esposa do nosso anfitrião. Era uma criatura frágil, de traços doces e delicados. Vestia um modesto vestido de cor rosa que, devido a muitas lavagens, estava bem desbotado. De toda sorte, essa peça de vestuário harmonizava com sua figura. A tonalidade do seu rosto se confundia com o tecido quase incolor.

A mulher pálida estava sentada sob a sombra de uma folha de bananeira, que a protegia do sol. Estava ali ocupada em repetir, com uma doçura angelical, algumas palavras* em português, para um negrinho deitado aos seus pés. Era um escravo, recente aquisição de Darieu.

A cena me fez pensar e entendi: mesmo que certas pessoas possam ter nascido escravas, ou na pobreza, nada impede que sejam possuidoras de um espírito elevado. Então, perguntei a mim mesmo: ‘- Qual seria a sina que as condenava a uma pobre existência? Meu Deus!’ Lembrei-me de ter visto mais algumas crianças, nascidas nas cabanas suíças das redondezas de Nova Friburgo que, em vida, quase nada recebiam!

Desde aquele ponto, o caminho era só descida, porém largo e bem cuidado. Em certo momento, adentramos numa região de terras baixas e lamacentas (baixadas), até que chegamos às margens do rio Macacu*. Naquela parte do percurso, encontramos Santana, uma vila com aparência graciosa, mas situada no meio de um pântano. Certamente, é uma das localidades mais insalubres. Ali, tomamos um barco para continuar a viagem. Naquela região é a única das pequenas cidades que têm alguma atividade industrial, se é que a podemos assim chamar, de fabricação de facões, aqueles que os tropeiros portam nas viagens. — * Macacu: rio que desagua na baía da Guanabara.  

Nas proximidades de Santana, começamos a ver caravanas de mulas carregadas de sacos de café e caixas de açúcar. Esses produtos chegavam do interior, para depois serem transportados ao Rio de Janeiro em barcos que trafegam pelo rio. Pouco tempo permanecemos em Santana e partimos às oito da noite. Apesar da escuridão e dos caminhos quase intransitáveis, das águas transbordando e onde as mulas rompiam a duras penas, conseguimos chegar à fazenda do Colégio, às 10 horas da noite. Essa propriedade é assim chamada porque foi fundada pelos jesuítas, para sediar um colégio destinado a missões de catequese. — * Fazenda do Colégio, situada em Papucaia.

No começo, não foi exatamente um estabelecimento agrícola mas, no entanto, adquiriu esse nome de fazenda. Agora, a Fazenda do Colégio é certamente uma das mais belas e maiores do Brasil*. Ocupa mais de mil negros, abrangendo enorme área. Há caminhos bem conservados, nos quais podem trafegar carros com quatro rodas. Trata-se de um veículo um tanto tosco, se assim podemos dizer, e que é puxado por bois. — * Na verdade, era parte de uma sesmaria (várias fazendas).

Os edifícios são enormes. O principal possui grandes apartamentos para os mestres, o capelão, o médico e alguns empregados superiores, mais uma capela e um hospital. Essa construção está inserida num imenso terreno onde também há o pátio principal. Por trás desse conjunto, há outro menor e mais modesto, mas também espaçoso. Atrás dele, fica o alojamento do diretor geral, mais uma grande usina para produção de açúcar, várias oficinas, uma fábrica de farinha de mandioca e estábulos. E, mais adiante, situam-se os alojamentos dos escravos, conjunto que se assemelha a uma aldeia de aparência terrível.

Nesse país, onde os viajantes são raros, na maioria das vezes a hospedagem é oferecida gratuitamente. Devido ao costume, sempre se encontra um lugar onde repousar. Por outro lado, a chegada de uma caravana é sempre um grande evento. Assim sendo, quando estávamos a chegar, a cachorrada fez um alvoroço, os negros gritaram e os cavalos relincharam. Logo depois, serviram-nos um chá, uma porção de açúcar e uma dose de cachaça. Durante a viagem, já estávamos habituados com uma alimentação muito reduzida e a que nos ofereceram foi a contento: uma sopa. Depois disso, tão logo nos acomodamos em esteiras para dormir, boas-noites nos desejaram.

Casebre de pau-a-pique, coberto de palhas, e terreiro de escravos (por Rugendas).

No dia seguinte, domingo, bem cedo fui conhecer as redondezas. Mulheres negras estavam na lavanderia, ocupadas na limpeza das suas roupas. Algumas preparavam comida, num fogo aceso no meio de um barracão, outras variam o pátio em frente. Essas cabanas são sujas, tristes e enfumaçadas, resumindo: horríveis. Nesse ambiente a miséria é inconcebível: apenas uma esteira para cada pessoa, alguns vasos de barro, chão de terra batida e úmida, e a cobertura de sapé*. — *Folhas secas de coqueiro.

Fui também ver a fábrica de farinha de mandioca a funcionar. Os escravos não têm direito a um descanso prolongado e, devido a isso, estavam trabalhando no feriado. Vi também uma negra em estado lamentável, com a cintura envolta por uma corrente que fica atada a uma coleira de metal, a qual estava a lhe rodear o pescoço. Impuseram-lhe essa horrível gravata porque tentou fugir de casa.

Castigo: colar de ferro no pescoço e tampão na boca.

Quando me afastava, vi o administrador chicoteando uma mulher. A pobre coitada era uma velha decrépita mas, assim mesmo, muitos golpes recebia em seu corpo curvado. Ao mesmo tempo, um cão lambia seus joelhos feridos. Só fiquei sabendo depois, que se alguém testemunha uma cena dessas, pode fazer uso do costume denominado apadrinhar um escravo e, desse modo, a pena imposta é suspensa. Naquele momento, ignorando o poder de que dispunha, deixei de interferir para interromper o aflitivo espetáculo. 

Daí a pouco, por parte do capelão, vieram convidar-me para assistir à missa, que seria celebrada na igreja da fazenda. É um templo bem arrumado, gracioso e bem ornamentado. Traduz os sentimentos de piedade e zelo dos católicos brasileiros, e o espírito universal dos construtores, os padres jesuítas. Dos arredores, negros e mulatos foram chegando apressados, para assistir a cerimônia.

A população da fazenda, que é diferenciada, toma seus lugares já determinados na igreja. Ao digníssimo administrador e aos indivíduos brancos é reservado um compartimento coberto. As damas mestiças – de pele acaju –, ficam assentadas em cadeiras frente ao altar. Atrás delas, ficam as damas de cor chocolate. Quanto às negras velhas, ficam ajoelhadas no chão, na parte do fundo.

As senhoras mostram-se adornadas como se fossem santuários. Nos seus dedos, cintilam enormes diamantes. O estilo dos vestidos remonta àquele dos tempos do rei d. João VI, quando chegou ao Rio de Janeiro* (*1808). Para colocar as coisas nos devidos lugares, devo dizer que a elegância dessas fazendeiras é realmente muito tosca. E, também, muito materialista, como denunciam seus dedos gordos, mal enfeitados com magníficos brilhantes. Quando o padre subiu ao altar, todas as negras fizeram um coro de gemidos lamentosos. Ao ouvi-lo, senti como se fossem canções de dor e de auto-recriminação.

Contudo, a missa terminou de forma bastante decente. Mas, depois do santo ofício, ocorreu uma cena tão carregada de impropriedades, que é difícil de ser descrita. Trouxeram para a igreja uns 40 escravos, mal chegados ao Brasil. Eram moças e rapazes, entre 10 e 20 anos de idade e suas fisionomias eram selvagens e assustadas.

Foram então separados em dois grupos – mulheres e homens –, com o anúncio de que iriam ser batizados, embora todos mostrassem alguma resistência à iniciação ao cristianismo. Uma acompanhante negra e outro negro, ignorando o que iria se passar, revezavam na tarefa de os conduzir ao padre. Então o oficiante aproximava-se de cada um, trazendo uma lista à mão, e lhes dirigia as perguntas de praxe. Mas quem respondia era o acompanhante, de modo que o oficiante pudesse dar continuidade ao sacramento.

Nunca poderia imaginar que aquele ato solene terminaria com uma cena ridícula. Em vez de colocar o sal de costume sobre os lábios dos infelizes, os obrigavam a abrir a boca e o padre enfiava-lhes um bocado até a garganta. Os negros, estranhando a substância, manifestavam fazendo caretas. Mas, a cada movimento que faziam, o bom padre lhes segurava as bochechas…

Por outro lado, no momento da água benta, a dose que recebiam mais lembrava um banho de chuveiro. E ouviam-se explosões de riso na plateia, como se todos estivessem num circo. Em algumas fazendas, dizem que o ato do batizado é um procedimento de ‘fazer cristãos’. Contudo, essas cerimônias não são precedidas de qualquer instrução. O que ocorre depois é que o padrinho, sempre um pobre negro, que também nunca foi instruído, fica encarregado da iniciação religiosa.

← Barracão de escravos (por Rugendas).

O oficiante desse batizado é um aventureiro português, que veio buscar fortuna no Brasil. É um homem grandão, esbelto, pele morena, olhar penetrante e denota uma tremenda ignorância. Estudos clássicos não possui, não conhece uma palavra de latim, não estudou teologia e sua linguagem não se compara a de um São Cristóvão, nem a de um São Belarmino.

Se destaco desse modo, tanto o padre de Nova Friburgo quanto o da fazenda do Colégio, não é por pura vontade de denegrir alguém. É apenas para mostrar o estado de dissolução em que vivem os pequenos clérigos do interior, os quais agem sem a supervisão dos bispos. Lembro-me que, ao discutir as desvantagens da escravidão, as pessoas mais religiosas do meu grupo concordavam que os negros estavam pagando muito caro para se tornarem cristãos. A cerimônia nos fez entender que a conversão religiosa, do modo que lhes estava sendo imposta, precisava ser substituída por atitudes mais racionais e humanas.

Durante a cerimônia, notei que todos aqueles jovens traziam, do lado esquerdo do tórax, uma ferida aberta ou em fase de cicatrização. Fiquei curioso por saber a causa deste sinal comum. O próprio administrador, ingenuamente, informou que era uma marca produzida por um ferro em brasa. Ela trazia as iniciais do navio negreiro, bem como as do vendedor dos escravos. Desolado com tudo que tínhamos acabado de ver, saímos da igreja e fomos nos reunir com o padre na sala de refeições da fazenda. Então, aquele homem elegante e de força incomum, veio até nós queixando-se da sua exaustiva atividade daquela manhã! E foi manifestando:

‘Que canseira, ter que lidar com esses animais fedorentos! Felizmente, depois de fechar as portas da igreja nos seus calcanhares, não tenho mais que me ocupar com eles!’

Daí, o senhor Lagrené – chefe da minha comitiva – sentindo que sua própria fé estava sendo violentada, perguntou-lhe:

‘- Mas você lhes dá alguma orientação, uma vez ou outra?’

Denotando indignação, ele respondeu:

‘- Eu? Prefiro ensinar os porcos da fazenda!’

← Porto das Caixas, na Fazenda Sampaio / Itaboraí.

Pois bem, depois do meio-dia, partimos em direção ao Porto das Caixas. O caminho que seguimos era como o de ontem, insalubre e lamacento. Encontramos pântanos em toda sua extensão e, sem a possibilidade de tomar um desvio, receávamos afundar naquele meio infecto coberto com folhagens. O vento fazia inclinar os caules lisos das tabôas (espécie de papiro), uma bela planta, cuja leve folhagem se agitava ao capricho do vento. Bandos de aves aquáticas, abrigadas entre as plantas, não se incomodaram com nossa presença. Na sua maior parte, são coloridos ariris e garças brancas. Em alguns lugares, notamos rastros, denunciando a passagem de grandes animais. Os guias disseram que seriam de jacarés, mas que são difíceis de serem percebidos.

Ao atingir o rio Macacu, o atravessamos numa parte rasa, porém larga, até que atingimos a vila de mesmo nome. Encontramos o lugar completamente deserto. Nessa parte do ano, as febres malignas grassam intensamente, de modo que põem a população em debandada. As casas são de bonita aparência. Passamos por uma praça, onde vimos duas traves de madeira encimadas por um caibro. Passa a impressão de que serviria para pendurar algo que restara dessa vila. Imagino que alguns homens ainda poderiam ser ali enforcados. O equipamento permite pendurar até cinco deles. De qualquer forma, espero de quem for assistir esses espetáculos, que saiam dali melhores homens e que, nas suas penas, os juízes sejam brandos.

Chegamos ao Porto das Caixas às 8 horas da noite, momento em que uma tempestade caía com violência. A vila está edificada numa encosta, com vista para Macacu. Nem por isso escapa das más influências das águas brejosas. Na manhã seguinte, às 9 horas, conseguimos chegar a Sampaio, 2 horas antes de partir o vapor que desce o rio e vai até o Rio de Janeiro. Sampaio possui apenas algumas toscas cabanas, onde armazenam mercadorias em grandes quantidades. Nesse entreposto, tal como o de Piedade, vendem-se produtos necessários às fazendas do interior.

Quando chegamos ao Porto das Caixas, as ruas estavam cheias de negros, carregando sobre a cabeça cestas de frutas e legumes, que são enviadas para o Rio de Janeiro. Em pouco tempo nos instalamos no barco que nos levaria ao ponto final. Viajamos em meio a fazendeiros, negros, mulatos e de portugueses de cor sépia (bronzeados). Todos permaneciam estáticos, envoltos em pensamentos ou contemplações silenciosas.

Oito horas após a partida de Sampaio* (*Porto das Caixas) e depois de atravessar a linda baía, encontramos a cidade do Rio de Janeiro transformada num verdadeiro campo de batalha. Ruas, praças e casas, todas eram palco de mil cenas de violência. Atacava-se com furor e defendia-se do mesmo modo, com cantos de vitória e gritos de desespero. Estávamos assistindo uma cidade em guerra! 

Entretanto, logo ficamos tranquilos, ao perceber que não eram tiros mortais, mas apenas bolas de cera colorida, com forma de ovo e preenchidas com um líquido odorífico(6). Os projéteis, quando atingem o alvo, fazem com que o atacante ponha-se a rir. Se quiser saber o por quê de tudo isso, olhe no almanaque do ano da graça de 1844. Verá que o 19 de fevereiro é terça-feira gorda, dia de celebrações das mais excêntricas, das alegrias mais selvagens, dos prazeres mais barulhentos*. — Naquela época, chamava-se essa folia de “entrudo”, o mesmo que carnaval.

Guerra do entrudo, na sala e nas janelas (por A. Earle).

Na França, comemora-se o carnaval agitando os corpos convulsivamente. Depois, a multidão queima um boneco e dança em torno dele. Mas, no Brasil, não há como brincar da mesma maneira. Onde brilha um sol incandescente, é temerário atiçar mais fogo no ambiente e, por isso, joga-se água. Na quarta-feira de cinzas, os combates cessam. Então, uma grande procissão percorre a cidade, quando brancos e negros trocam a folia por reverências respeitosas.

Passei os últimos dias da minha estadia em visita a amigos que fizera. Porém, na véspera da partida(7), quis ainda dar meu adeus ao belo país, que despertou em mim os melhores sentimentos. Onde conheci as belezas da sua natureza, que tanto me surpreenderam e entusiasmaram. Com a intenção de formalizar minha despedida, dirigi-me a uma capela*, administrada por monges, construída no lugar onde os descobridores haviam instalado uma pedra monumental. — * Capela do Convento de Santo Antônio, na rua da Carioca.

Esse marco, única memória da fundação da cidade, está lá abandonado como uma pedra qualquer, sem nenhuma proteção. Se qualquer mão profana um dia a mutilar, ninguém saberá de nada sobre o sacrilégio consumado. Esse abandono é resultado da ignorância e da incúria brasileira ou do desdém pelo passado. Num instante, apoiei-me sobre esse venerável pedaço de granito, que possui em uma das faces cinzelada com as armas de Portugal*. Desse ponto, vê-se a baía da Guanabara e, dali, lancei um olhar sobre o lugar de onde estava indo embora. A lua que estava a brilhar, parecendo o sol do alvorecer, coloria as formas em claras tonalidades. No meio da baía, pude ver nossas embarcações La Sirène e La Victorieuse** em repouso absoluto. Pareciam já estar recuperadas da longa viagem e tomando fôlego para novamente enfrentar o oceano. — * Cruz da Ordem de Cristo e símbolo de Portugal. / ** La Sirene e La Victorieuse: navios que conduziram a comitiva francesa.

A cidade estava muda… Depois do tumulto, da agitação, surgira uma perfeita calma. À população negra é vedado circular após determinadas horas, de modo que essa gente só pode respirar a brisa do anoitecer sentada às portas das suas casas. Mas, sempre sob o olhar vigilante dos seus senhores. Contemplando esse espetáculo, eu me perguntava: ‘- Por qual fatalidade, a raça etíope*, permanecerá condenada à servidão, que já vem de séculos? Por quanto tempo deverá permanecer nesse estado de abjeção em que vive?’ — Etíopes: naquela época, assim eram também chamados os negros.

Convento de Santo Antônio, no alto do morro Santo Antônio (rua da Carioca).

Antes de chegar ao Brasil, admitia a inferioridade natural dessa raça e, até então, tudo me parecia bem convincente. Contudo, depois de percorrer o país e conhecer essa gente infeliz, mudei firmemente de opinião, constatando que sua inteligência não é menor que a do meu povo civilizado. As explicações que tinha não mais me servem. Agora, sou obrigado a buscar noutra ordem de ideias as razões de tanta humilhação!

Ainda no mesmo lugar, em frente à capela, enquanto pensava no futuro, vi um monge caminhando em minha direção. Já o conhecera, junto a um amigo francês, e entendi que era um campeão na defesa do tráfico e da escravatura. O religioso aproximou-se e veio sentar-se junto a mim. Nesse momento, eu lhe disse:

‘- Sabe que, pelo sofrimento imposto a esses condenados, acredito que o Brasil é uma filial do inferno? Na verdade, não consigo compreender que, por uma simples cor de pele, parte da humanidade seja torturada por outra. Com sua lógica católica, talvez você possa me esclarecer. É por algum crime do passado, que aplicam a essa população tão absurdo martírio?’

O padre sacudiu a cabeça e, com desdém, disse:

‘- Você pergunta essas coisas porque é um insensato. Porque nenhuma crença possui. Porque abandonou a fé dos seus pais, sem ao menos refletir. Sem ao menos ter avaliado sua magnificência e sua unidade. Nem percebido as divergências dos sistemas que lhe perseguem, lhe aprisionam em um labirinto de onde não pode sair. Você, francês, zombador e cético, incline-se diante da razão de quem está a lhe falar e escuta-me!’ 

E depois de muitas outras palavras, completou:

‘- Adeus! Lembre-se de minhas palavras!’

O velho sacerdote então retirou-se… E eu fiquei arrasado com sua linguagem veemente e apaixonada. Diante disso, guardei comigo o propósito de descrever, como faço agora, essa bizarra conversação. Estava me esquecendo: o padre tinha olhos azuis. Porém Esquirol(8), o psiquiatra, nos disse que muitas pessoas de olhos azuis estão mais propensas às doenças mentais.”

Texto, tradução, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

• Leia os Posts anteriores, clique: “Rio Antigo (I)” , “Rio Antigo (II)” , “Rio Antigo (III)” e “Rio Antigo ((IV)”.

(1) MECHIOR-HONORÉ, Yvan – “De France en Chine”, Librarie de L. Hachette, Paris, 1855. / Caricatura ao lado. / Por irrelevância, foram suprimidos pequenos trechos do relato completo.

(2) Nova Friburgo – a região foi habitada pelos índios goitacases, puris e portugueses. Em 16.05.1818, d. João VI idealizou uma colonização planejada para promover a civilização do Reino do Brasil. Lavrou então um decreto que autorizava o estabelecimento de uma colônia de cem famílias suíças na fazenda do Morro Queimado, no distrito de Cantagalo. Entre 1819 e 1820, a região foi colonizada por 265 famílias suíças, totalizando 1.458 imigrantes, originários do cantão suíço de Freiburg. Foi também o primeiro município brasileiro a ser colonizado por alemães, com 456 imigrantes, que chegaram em 03.05.1824..

(3) PINTO, Manoel Ferreira (1º Barão do Carmo) – Ouro Preto, *1793) / Cantagalo, RJ, †1878. Comendador da Ordem da Rosa. Proprietário da Fazenda Boa Vista. Filho de José G. Ferreira Pinto e Francisca Romana de Oliveira. Casado com Carolina de Freitas do Amaral, filha do 1º Barão da Lagoa, Bernardo Casimiro de Freitas.

(4) JOYE, Jacob – Vigário de Nova Friburgo (imagem ao lado). Embarcado no navio Urânia, que conduziu os primeiros colonos. Durante a viagem, morreram 109 suíços – adultos e crianças –, os quais tiveram suas almas por ele encomendadas. Deixou anotações onde revela que, após chegar no Rio de Janeiro, ficou amargurado ao seu primeiro contato com a escravidão. Suas palavras: “Durante o dia não vimos senão negros, eles fazem todo o trabalho. A maneira como são tratados me causou uma impressão extremamente sensível, tanto que não podia esperar o momento de voltar a bordo”. Contudo, quando veio a se tornar fazendeiro, o padre aceitou e admitiu o costume da exploração humana adquirindo escravos. Por outro lado, também utilizou órfãos da colônia para explorar suas terras. // Designação do primeiro vigário de Nova Friburgo, padre Joey: “… E Sou outrosim servido nomear para Vigario della o padre Jacob Joye, com 200$000 de congrua, e para seu coadjuntor o padre Aeby* com 100$000, tambem de congrua. A mesa da Consciencia e Ordens o tenha assim entendido e faça executar com os despachos necessários. Palacio do Rio de Janeiro em 3 de Janeiro de 1820. – Com a rubrica de Sua Magestade.” — * O padre Joseph Aeby chegara ao Brasil em 1819, mas não pôde estar em Nova Friburgo, porque morreu afogado no rio Macacu, ao pé da serra dos Órgãos, em 07.01.1820. // Curiosamente, padre Joye foi o criador da primeira loja maçônica de Nova Friburgo, embora tal atitude fosse condenada pela igreja católica.

(5) Em 28.09.1842, o Príncipe Adalberto da Prússia hospedou-se na estalagem de monsieur Darieu (mas ele o trata como Darieux). Sobre o hospedeiro escreveu: “Darieux, o pequeno estalajadeiro, abriu a porta atendendo ao chamado […] Era um francês com uma blusa azul clara, muito pregueada, e logo atraiu nossa atenção pela sua loquacidade. A jovem esposa do estalajadeiro era uma suíça de Friburgo e falava francês; ajudava nos serviços da estalagem uma pequena criada alemã, loura. […] O jantar foi muito bem servido, mas tivemos que esperar muito por ele. O homenzinho francês quis que adivinhássemos em que parte da França tinha nascido, mas ninguém conseguiu. Por fim, declarou que era bearnês* (*de Bearn), mas que tinha sido educado em Paris.” / Em “Viagem de Sua Alteza Real Príncipe Adalberto da Prússia – no sul da Europa e no Brasil, com uma viagem ao Amazonas e ao Xingu”, vol. 2.

(6) Limões de cheiro ou laranjas de cheiro: bolinhas de cera recheadas com água perfumada. Eram produzidas em casa ou então compradas de escravos, que os vendiam nas ruas.

(7) A partida do Rio de Janeiro, em direção ao Cabo da Boa Esperança e depois ao Extremo Oriente, se deu no dia 23.02.1844, às 4 horas da madrugada. Passageiros do La Sirène: senhor Lagrené, ministro plenipotenciário, acompanhado da senhora Lagrené e dois filhos pequenos; senhor Ferrière-le-Vayer, primeiro secretário da comitiva; senhores Hante e Marey-Monge, assessores contratados; senhores Donald e Guiche, convidados; senhor Xavier Raymond; senhor Yvan Melchior-Honoré, médico da missão; senhor Ytier, inspetor de alfândega; senhor Lavollée, assessor adjunto ao senhor Ytier, pelo Ministério das Finanças; senhor Hontigny, chanceler. / La Sirène, fragata de 56 canhões, comandada pelo capitão Charner e acompanhada pela corveta La Victorieuse. / Fonte: VAYER, Th. de Ferrière, “Une Ambassade Française en Chine”, Paris, 1854.

(8) ESQUIROL, Jean-Étienne Dominique – (*03.02.1772 / †12.12.1840) Psiquiatra francês. Foi discípulo de Philippe Pinel, sucedendo o mestre, em 1811, como chefe do Hôpital de la Salpêtrière, em Paris.

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01/08/2017

RIO ANTIGO (IV)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 9:46 am

♦ Na serra dos Órgãos e no Paraíba.

Em 1844, o médico francês Yvan Melchior-Honoré, acompanhando uma missão oficial francesa, chegou na então capital do Brasil, em 28 de janeiro. Este quarto Post, rememorando um passeio à serra dos Órgãos, é complemento ao anterior e parte do relato da sua visita.

Paisagem da serra dos Órgãos (por Rugendas).

eixamos a fazenda do capitão Custódio informados de que logo encontraríamos um abrigo, antes de atingir Nova Friburgo(1). Nesse meio tempo, vimos canaviais e subimos colinas cobertas de pés de café. A gente tem a impressão que brotam espontaneamente e não se vê nenhum trabalhador nesses lugares. Viajar a cavalo, em regiões pouco habitadas, proporciona distração e encantamento. Contudo, ao longo da viagem, sempre há surpresas e contrariedades.

O primeiro aborrecimento, durante nosso trajeto, foi deparar-nos com um rio sem ponte. Elas são muito raras no novo mundo, sobretudo nos pequenos cursos d’água, os quais também servem de limites a imensas propriedades e que os habitantes denominam córregos. Sentados à beira de um deles, discutimos se atravessaríamos a vau* ou se deveríamos retornar. Nossos condutores negros sugeriram a última opção, mas decidimos ao contrário. — * Vau: lugar raso de um curso d’água, onde se pode atravessar a pé ou a cavalo.

De início, os cavalos refugaram mas, ao serem esporeados e chicoteados, meteram-se n’água. Naquele momento, os pobres animais perderam o chão, a água cobriu seus peitos e os arreios, e dois alforges* se desprenderam, e afundaram. Mas a corrente não era forte e conseguimos chegar na outra margem, molhados até a cintura. — * Alforje: bolsas interligadas, de modo que permitem distribuir o peso de dois lados.

A esse primeiro incidente, sobreveio um segundo. O caminho era pouco frequentado e estava tomado por um matagal. Diante disso, apeamos e fomos avançando nessa trilha, mas derrubando a torto e à direita galhos de árvores, cipós e bambus, que impediam a passagem. Perdemos muito tempo com o córrego e o matagal, de modo que foi entardecendo, nossos estômagos gritaram e não víamos sinal de fazenda. Nada de fazendeiro, de arreeiro* e de feitor no meio daquele ermo. Até que percebemos que seria impossível seguir em frente. — * Arreeiro: guia de cavalos.

Caminho de Teresópolis (por Georg Grimm).

Contudo, nenhum de nós temia passar a noite sob o céu estrelado. Munidos de um bom agasalho, teríamos como enfrentar a atmosfera úmida, mas estávamos em completo jejum. Era charmoso aquele pedaço da montanha onde viajávamos. Havia um bosque de samambaias, de mimosas e palmeiras, todo povoado de aves coloridas, de papagaios azuis tagarelando, e de mutuns*, grandes como faisões, matraqueando ao longo do caminho. Até que, em certo momento, uma espiral branca de fumaça e cheirando a comida emergiu das árvores. Anunciava a proximidade de uma cabana! Foi a mais agradável de todas as surpresas. — * Mutum: ave galiforme.

Silenciosamente, estávamos imersos em nossas reflexões. Mas, colocando as mãos no ventre, tomamos consciência de que éramos simples seres humanos e sujeitos à fome. Felizmente, uma pessoa do grupo subiu num barranco e de lá gritou:

‘- Uma cabana! Terra! Terra!’ – como dizem os marinheiros.

Imediatamente, retomamos nossas montarias e para lá nos dirigimos. Até que deparamo-nos com uma pequena e simples cabana. A descoberta desse frágil abrigo nos encheu de alegria, na expectativa de que seus moradores, fossem eles brancos ou negros, tivessem qualquer substância nutritiva a nos oferecer ou vender. Adiantei-me para lá, correndo, até que atingi a porta de entrada e nela bati com força. Ela abriu-se sozinha, mas ninguém respondeu à minha chamada.

Dei uma espiadela no seu interior, à direita e à esquerda. Nada vi, nenhum instrumento de trabalho, nem gente. Subi alguns degraus, que levavam ao andar superior. Era uma peça bem rebocada, triste e silenciosa como um ninho sem pássaro. Uma esteira, jogada num canto, sugeria que alguém se refugiava nesse lugar de vez em quando. Um armário, que discretamente abri, continha uma casca de coco cortada ao meio e atada a uma vara. Imaginei que pudesse ser um apetrecho para beber água.

A mata e a serra dos Órgãos (Lito de E. F. Pöpig, d’après Von Martius).

Assim sendo, retornei e contei aos companheiros que minha investigação em nada resultara. Ainda demos um punhado de tiros a esmo, de modo que se houvesse alguém escondido, que ele mostrasse a cara, fosse proprietário ou usuário. O barulho do tiroteio ecoou ao longe. Um bando de pássaros se assustou, levantando vôo e provocando algazarra. Daí a pouco, revoaram sobre nós e, logo, voltaram ao abrigo no arvoredo.

Estávamos num ponto em que o caminho bifurcava. Então, soltamos as rédeas dos cavalos e deixamos que decidissem qual rumo a seguir. Sem hesitação, escolheram uma trilha acidentada que descia por dentro de um matagal. Assim mesmo os incentivamos, metendo-lhes nossas esporas. Mas, tudo continuou na mesma e a noite se instalou, sem que nada encontrássemos. Além da fome que nos atormentava, de repente caiu sobre nós uma chuva torrencial, deixando-nos enfurecidos.

Porém, depois de 1 hora galopando, deparamo-nos com um lindo vale cortado por dois riachos. Um deles, despencava de uma altura imensa, depois rolando barulhento entre rochedos. Plantações se estendiam ao longo desses cursos d’água e o ar estava impregnado de perfumes que vinham de cafezais em flor. Isso nos fez ficar otimistas, até que nos aproximamos de uma habitação. Contudo, tivemos nova decepção.

Então a noite tornou-se escura, mas continuamos cavalgando, até que, 2 horas depois, notamos entre as árvores uma claridade vinda de lampiões, que sugeria a existência de uma fazenda. Devo esclarecer que, por ter nascido na Provença*, tenho alguma facilidade para me comunicar em português. E como, desde já, estava encarregado de falar com os senhores da terra, coube a mim indagar onde encontraríamos pelo menos uma esteira para dormir. Assim sendo, avançamos em direção àquele clarão. Até que me vi em frente de uma casa grande, pintada de preto e com paredes rachadas. Estava circundada por barracões de escravos, sujos e repugnantes. — * Há muita semelhança ente o dialeto provençal e o português.

Devido ao barulho que fiz ao chegar, algumas negras se aproximaram com tochas nas mãos. Ao mesmo tempo, dois negros dirigiram-se a mim, para segurar o estribo do arreio e, então, desci da montaria, que ficou aos seus cuidados. Imediatamente, dirigi-me à casa, onde um homem muito claro estava junto a porta, à minha espera. Então, imaginando que seria o administrador, perguntei:

‘- Quem é o dono desse lugar?’

‘- Sou eu, don Patricio Tejeiro y Campillo. E podes usá-la como quiser, senhor!’ – respondeu cortezmente.

‘- Nesse caso, permita-me aqui alojar-me com meus companheiros.’– repliquei.

Ele inclinou-se, em sinal de consentimento. Daí, depois de prestar-lhe agradecimentos, retirei-me, para anunciar que poderíamos desfrutar da morada de um nobre senhor. Denotava ser pessoa que praticava a hospitalidade do tempo antigo, com graça e cavalheirismo. Então, logo que nossa pequena trupe adentrou à residência, a tempestade em vez de se amainar, cresceu em violência. A par disso, a noite ficou tão escura que não se via um palmo diante do nariz. Pois logo don Patrício nos introduziu a um vestíbulo, cheio de feijões recém colhidos e de grãos de café. E as negras logo correram a recolher essas sementes, abrindo caminho, para que pudéssemos chegar até aos nossos quartos.

Post - Cena de quintalCena de quintal (por Débret).

Depois de alguma espera, fomos introduzidos numa sala grande e escura, dispondo ao centro uma mesa longa e estreita. Esse móvel estava coberto de penas de escrever e papéis, mais sementes e jornais. Evidentemente, era o gabinete de estudo de don Patricio. Contudo, esse cômodo de uma simplicidade extrema, tinha também outras serventias. Servia como depósito de mercadorias e continha um punhado de sacos de legumes jogados pelos cantos. Ao fundo, junto à parede, havia um compartimento fechado para guardar farinha de mandioca e carne salgada. E sua tampa servia como estante, para abrigar a coleção de livros de don Patricio.

As janelas estavam em péssimo estado. Como acessórios da mesa, havia dois bancos compridos e uma cadeira na cabeceira. Logo que lá entramos, don Patricio se achava sentado. Imediatamente pôs-se de pé e, inclinando-se com deferência, pediu desculpas por não poder nos atender melhor. E disse:

‘- Longe que estou das cidades, raramente tenho convidados tão distintos como os senhores. Mas, desfrutem à vontade de tudo que aqui está. Dentro de 1 hora, serviremos o jantar. Peço licença para me retirar, preciso dar algumas ordens.’

Nosso anfitrião era um homem de uns 50 anos, alto e magro. Sua pele de um branco embotado, mostrava-se um tanto enrugada. Sua fronte era alta, os lábios finos, os olhos grandes e negros. Seu traje, à moda dos fazendeiros, simples e correto, estava muito bem passado. Suas mãos eram brancas, a barba aparada. Dava para supor que don Patricio teria vivido em um ambiente de muita finura, para depois virar fazendeiro por acaso.

Tão logo se retirou, as negras sujas e mal vestidas vieram arrumar a mesa, dela retirando um punhado de cadernos inteiramente escritos. Provavelmente, seriam da contabilidade da fazenda, ou alguma informação de como cultivar o café. No entanto, fiquei muito curioso por saber seu verdadeiro conteúdo.

Casa de escravos (por Guillobel).

Nesses lugares, um homem solitário não tem a quem enganar e, se escreve, só pode ser para si mesmo. Desse modo, tem chances de produzir um bom livro, ou pelo menos um texto honesto. Mas não tive como saber o que escrevera nosso anfitrião. A julgar pelo que tive oportunidade de ler, suas mãos pareciam limpas. Notei isso quando, furtivamente, folheei três livros que haviam deixado sobre a mesa. Inacreditável, o primeiro era a Carta de Trasíbulo a Leucipo, de Fléret; o segundo, a tradução portuguesa das Ruínas, de Volney; o terceiro, O homem dos quarenta escudos, de Voltaire. É incrível, Fléret, em francês, numa fazenda brasileira!

Nossos companheiros mais jovens não fazem a mínima ideia de quem sejam esses autores. Pois, para conhecer o tempo presente, don Patricio estudava o espírito francês lendo os filósofos do século XVIII! De minha parte, ansiava por saber se esse provável missionário e filantropo os acompanhava, praticando suas doutrinas de liberdade e fraternidade. Surgiu, então, a oportunidade de realizar um aprendizado muito interessante.

Quando don Patricio retornou, eu ainda estava segurando um dos livros. Então, acercando-se de mim, ele colocou o dedo sobre o Fléret e falou emocionado: ‘- Precioso!’. E repetiu com o Voltaire: ‘- Gostoso!’. E, em seguida, inclinando-se para o Volney: ‘- Gigantesco.’

Com suas três exclamações, o fazendeiro foi preciso ao indicar suas preferências e, disso, concluí que comungava com as ideias radicais e deístas, filhas da revolução francesa. Alegrei-me, mas ficando na expectativa de ver como ele colocava essas ideias em prática junto aos seus escravos. Tive vontade de recitar o credo filosófico de Volney. Mas, devido ao jantar que já estava sendo servido, nada fiz de comentários. Quando estamos submetidos a um jejum de 24 horas, esquecemos os prazeres da conversa e os sons da lira de Orfeu. 

Foi-nos servido o jantar habitual: carne de porco salgada com legumes, carne seca ferventada, verduras temperadas com pimenta, feijão preto e toicinho. Para substituir o pão, cobrimos a comida com farinhas de milho e mandioca. A mesa estava coberta por um pano, mas não ofereceram guardanapos. Essa peça é considerada desnecessária pelos portugueses do Brasil. Bebemos água à vontade, na mesma vasilha, à maneira comunitária da igreja primitiva. Para isso, don Patricio possuía um único copo grande. Além do mais, ao fim da refeição, nós, oito convivas, tivemos três taças para beber vinho de Lisboa. Nesse país, pela falta de jeito dos escravos ao lidar com esses objetos, a coleção nunca permanece completa.

Don Patricio sentou-se à mesa apenas para fazer as honras da casa. E serviu-nos, com as próprias mãos, o café feito com grãos produzidos na sua fazenda. Mas a chicória* de Lille é preferível. A bebida tinha gosto de decocção de espinafre e, para esquecer seu sabor, bebemos um bocado de cachaça. É uma espécie de rum do Brasil, uma coisa que desce queimando pela garganta e deixa um gosto ruim na boca. — * Chicória amarga, das suas raízes torradas se extrai um sucedâneo do café. 

Esse fazendeiro, somente em raras oportunidades, podia oferecer hospitalidade a europeus. Por isso, nossa visita serviu para romper a monotonia habitual e ele aparentava estar muito satisfeito. E mostrou-se desejoso de espichar a conversa ao longo da noite. Mas o sono apertou e, mesmo balbuciando umas palavras em português, não mais conseguíamos manter os olhos abertos. Até que os negros vieram nos conduzir aos leitos que haviam preparado. Alguns ficavam num sótão onde armazenavam palhas de milho, vagens de feijão e mais alguns produtos.

Falso café de chicória torrada de Lylle (La plante qui fait du bien / A planta que faz bem).

Adiante do vestíbulo central, abriam-se os diversos cômodos da casa, que é dividida em duas partes iguais. A parte da habitação reservada a don Patricio era severamente interditada aos estrangeiros. Entretanto, ele reservou minha cama na mesma sala, dizendo que era de todos o lugar mais arejado. Ali dormi, deitado num colchão de palha de milho, ouvindo o ruído de uma cachoeira, mas isso não atrapalhou o meu sono. No dia seguinte, apareceu um negro com cara de idiota, dizendo que era para eu fazer a toalete com os demais. Então, lhe perguntei se, por acaso, don Patricio seria casado. Mas ele nada respondeu, apenas apontou-me uma porta, atrás da qual, para meu espanto, pude ouvir uma pequena explosão de risadas, plenas de doçura.

Então, sem hesitação, colei meus olhos no buraco da fechadura e o que vi era maravilhoso. Notei dois pés cor de alabastro*, nus e imóveis, mal cobertos por um vestido branco que ia até aos tornozelos. Aqueles pequenos pés levaram-me a compará-los a uma estátua de mármore esculpida por David. E para minha surpresa, aquelas obras de arte caminhavam em minha direção. — * Mineral macio e translúcido. Tonalidades variam do branco, passando pelos castanhos e chegando até ao negro. 

Pois logo que chegou frente à porta, a figura desconhecida abaixou-se num movimento brusco e uma pupila apareceu no buraco da fechadura. Mas, pela surpresa do encontro olho no olho, minha linda visão deu um grito e saiu correndo. Certamente seria uma escrava, pois aqueles pés descalços indicavam tudo. Mas, como teria aquele ser maravilhoso caído nas garras de don Patricio? Fiz suposições dele ter cometido algum crime abominável, mas logo admiti que exagerava na minha imaginação e me afastei da sala.

Na véspera, atordoados pela chuvarada, não reparamos bem como seria exatamente aquele lugar. A sede da fazenda está situada entre duas montanhas e tem uma plantação de café, naquele momento todo em flor, que mais parecia uma cobertura de neve perfumada. À esquerda, as duas montanhas se uniam e, ao fundo cresciam árvores gigantescas. Logo que retirei do olhar esse magnífico cenário, vi de novo don Patricio.

← Crianças espancadas e quase cegas (por A. Agostini).

Aquele homem, que eu conhecera na véspera, estava sentado no meio de umas vinte negras e mais uma trintena de negrinhos. Uns nascidos, outros ainda na barriga das mães. Eu não compreendia o que ele fazia no meio daquele rebanho fedorento*. Mas, logo notei que estava a fazer uma inspeção nos seus escravos. Desde logo, mudei minha opinião sobre ele. Estava a vê-lo como um ser hediondo, vulgar e desagradável, apesar do seu terno branco e de sua barba bem cuidada. Ele examinava as gengivas, os dentes, a pele, e verificava se os pés não tinham sido invadidos pelos bichos-de-pé. De algum modo, entendi que estava preocupado com o bem-estar dessa pequena população submissa às suas leis. — Pelas palavras, o autor revela exacerbado preconceito.

Naquele momento, perguntei a don Patricio:

‘- Quantos escravos possui para tocar sua fazenda?’

‘- Oh! São todos esses, apontando para as vinte negras e cinco ou seis dos seus companheiros. As fêmeas uso na colheita e os negros ofereço de aluguel, para realizarem trabalhos mais pesados.’

‘- Mas o que você faz com as mulheres, quando não é época de colheita?’

‘- Ora! Sigo as regras da natureza. Elas produzem crianças!’

‘- Mas cada uma delas possui um marido?’

‘- Entenda, nos rebanhos, você dá às ovelhas um só carneiro e um só bode às cabritas!’

‘- Você compara essas infelizes a ovelhas e cabritas?’

‘- Não! Essa injúria não faria a esses pobres animais – respondeu rindo. Elas produzem lã e leite. Parir é o de menos, pois não há nada mais a se obter delas, a não ser um negrinho por ano.’

‘- Mas é assim, meu caro filósofo, que você pratica a fraternidade humana?’ – perguntei, com uma pitada de ironia.

Mas, fazendo um ar sério, disse-me ele em seguida:

‘- Você é muito esclarecido e não pode admitir que esses escurinhos sejam seus irmãos. É como se pretendesse que um orangotango fosse irmão de um sagui. Com esse tipo de fraternidade, não ousaríamos comer carne de boi e ostras, só porque desconfiamos que alguns homens possam ter algum parentesco com essas criaturas. Tenho muito respeito pelos meus negros, mas como animais sofisticados. Não cuspo neles, mas trato-os como cavalos e potros que posso vender.’

‘- Se esse é o resultado dos seus estudos filosóficos, eu não os recomendo. Prefiro ficar com os mais ignorantes cristãos que, pelo menos, acreditam que todos os homens são irmãos.’

‘- Há quem acredite ou finge acreditar, mas os negros que possuem são melhor tratados que os meus? Entre os cristãos e mim, há diferença apenas no molho com que serão consumidos.’

Daí a pouco, don Patricio despediu-se, educadamente, e se afastou. Eu permaneci aborrecido devido à discussão com o fazendeiro. Ao inspecionar as crianças negras, o homem mau nada fazia de filantropia, tinha apenas piedades de um veterinário. Sua posse era nada mais que um infame curral. Mas, ao retornar à casa, quis saber dos laços que uniam o fazendeiro e a bela mulher que vislumbrei através da fechadura. Mas, para minha surpresa, constatei que o buraquinho fôra tapado com uma tábua.

Então, sentamo-nos à mesa e, imediatamente, notei em don Patricio um ar amuado. Ele nos lançou vários olhares inquisidores, até que se manifestou:

‘- Sua indiscrição é de muito mau gosto!’

Contudo, permaneci indiferente à sua fala, de modo que ele se acalmasse e a conversa tomasse outro rumo. Então, pouco a pouco, passou a tratar de outras coisas e, sobretudo, da cascata que vimos na véspera, denominada Paquequer* (* depois denominada Conde D’Eu), desse modo:

‘- Você passando em frente a esse grande jet de cristal* (*jato de cristal), para chegar ao morro Queimado, poderá admirá-lo à vontade.’ Notei que pronunciou jet de cristal enfaticamente, para em seguida acrescentar:

‘- Eu sei uma palavrinha ou outra de francês e gosto de jogá-las numa conversação.’

Naquele momento, vinha também dizer que nossos cavalos estavam arreiados. Assim, deixamos a mesa e fomos cuidar dos preparativos para a partida. Finalmente, ao retornamos e no ato das despedidas, ele disse-me em bom francês, mas com uma pitada de ironia:

‘- Meu caro doutor, vocês perseguem impossibilidades. Pois será mais difícil persuadir os brasileiros a emancipar seus negros, do que uma pessoa passar pelo buraco da fechadura.’

Daí, apenas deu um tapa no traseiro do meu cavalo e o colocou em movimento, sem que houvesse tempo para eu responder qualquer coisa.”

• CONTINUA no próximo Post.  

Texto, tradução, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

Clique e leia mais: “Rio Antigo (I)”“Rio Antigo (II)” e “Rio Antigo (III)”

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(1) Nova Friburgo – freguesia criada na antiga povoação do Morro Queimado, então subordinado ao município de Cantagalo.

01/07/2017

RIO ANTIGO (III)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:34 am

♦ Passeio na serra dos Órgãos

Em 1844, o médico francês Yvan Melchior-Honoré, acompanhando uma missão oficial francesa, chegou na então capital do Brasil, em 28 de janeiro. Este terceiro Post, em seguimento ao anterior, é parte do relato que fez da sua visita.

post-serra-dos-orga%cc%83osTropeiros rumo à serra dos Órgãos (por Rugendas).

depois de alguns dias de descanso (na cidade do Rio de Janeiro), recebi com muito prazer o recado vindo do senhor(1) e senhora Lagrené, convidando-me para uma viagem que iriam empreender à serra dos Órgãos*, nas redondezas de Macacu** e Nova Friburgo. Iniciamos esse programa no dia 6 de fevereiro, pela manhã, embarcando no vapor que faz o percurso do Rio a Piedade. Logo estávamos a atravessar essa incomparável baía do Rio, semeada de ilhas sem nome. Ao passar pela Ilha do Ferro*** e pela charmosa Paquetá, toda florida, lançamos palavras e gestos de saudação. Esse pedaço de terra parecia sorrir aos viajantes, como se pedisse que visitassem suas praias. —  * Trecho mais alto da serra do Mar. / ** Cachoeiras de Macacu. / *** Ilha do Ferro, situada a leste da Ilha do Governador.

Até que chegamos a Piedade*. É uma espécie de entreposto, onde os fazendeiros podem encontrar mercadorias de necessidade e também colocam sua produção a ser enviada ao Rio, por barco a vapor. — * Freguesia de N. S. da Piedade, hoje Magé. Situada no lado oposto da baía.

post-porto-da-estrelaPorto da Estrela, no rio Inhomirim – atual Vila Inhomirim, Magé (por Rugendas).

Em certas partes do Brasil há imensos e bizarros magazines, onde armazenam objetos para serem postos à venda. Entrei num desses, em Piedade, que é uma espécie de hangar imenso e vi, empilhados do chão ao teto, tecidos de todos os tipos, roupas prontas de variados tamanhos, sapatos de todas as numerações, charutos, cigarros de variadas qualidades, champanha, vinho Bordeaux, unguentos, ferramentas para agricultura, velas, sebo, etc. Em exposição desordenada, vende-se quase tudo: bois, carneiros e, até mesmo escravos, e ao preço justo.

Foi em Piedade que encontramos os guias e as mulas, enviados pelo proprietário da fazenda da Serra, a quem faríamos uma visita. De imediato, cada um de nós foi munido com um bridão, enquanto arriavam nossas montarias. Há também a possibilidade de alugar cavalos, os quais são encontrados em grande número, contudo não acontece o mesmo com os apetrechos necessários para cavalgar.

Pusemo-nos então em rota, sob a condução de um feitor ou guia principal. Era um mulato corpulento, esbelto e forte, que tinha a cabeça envolta por um lenço de algodão azul e branco, e que portava gravemente uma enorme espora no seu pé nu. Logo que montamos nossas bestas, desabou sobre nós, furiosamente, uma chuva torrencial como só ocorre nos trópicos. Por isso mesmo, tivemos de enfrentar estradas inundadas e lamacentas.

post-baia-vista-serra-orga%cc%83osA baía vista da serra dos Órgãos (por Thomas Ender).

Essa parte do país é por demais insalubre. É tal e qual um imenso pântano, coberto por uma lâmina de água pútrida, que armazena nas plantas matérias animais em decomposição. Os miasmas que escapam desses lugares, infectados na maior parte do ano, engendram febres perniciosas de extrema violência, as quais têm dizimado a diminuta população dessas localidades tão pestilentas.

Partimos de Piedade às 5 horas da tarde e a noite logo envolveu-nos em sombras. Contudo, as claridades do céu e os pirilampos, verdadeiras lâmpadas vivas, cujas luzes acendem em intervalos, foram suficientes para alumiar o guia à nossa frente. Às 11 horas da noite, chegamos à pousada de don Gaetan – situada perto de uma vila –, onde pernoitaríamos. Naquele lugar, já se notavam as influências funestas dos pântanos da Piedade.

Por outro lado, à medida que aumenta a elevação acima do nível do mar, o clima torna-se mais saudável. Devido à altitude elevada, às vezes, em certos meses do ano, uma leve película de gelo forma-se sobre os lagos que vimos ao longo do caminho. Devido a essa friagem, a cultura de café é menos produtiva nas fazendas da região.

As costas do Brasil são protegidas por uma imensa cadeia granítica. Ela se prolonga desde o norte, atravessando as províncias do Espírito Santo, do Rio de Janeiro, de São Paulo e vai até Santa Catarina. Esse largo cinturão apresenta no seu topo saliências e depressões, às vezes intercaladas por lacunas abruptas. Parece até que o Criador ao construir tão bela natureza, acrescentou essas fortificações naturais, como se desejasse colocá-la ao abrigo de qualquer agressão.

post-faz-mandiocaCasa em propriedade rural na serra dos Órgãos: fazenda da Mandioca (por Thomas Ender).

Ao longo das terras que percorre essa cordilheira vai tomando diferentes nomes. Na província do Rio, a pequena distância da cidade, avista-se a serra dos Órgãos. O nome é devido à configuração dos rochedos que se destacam contra o céu. São formações graníticas, dispostas como tubos de órgãos. Porém, esses agudos picos não fazem apenas lembrar os instrumentos das catedrais. Pois dentre esses cilindros de pedra, sons estranhos escapam, completando a ilusão.

Também as vozes da tempestade, as árvores da floresta inclinadas pelo vento, os rugidos lúgubres das onças e os gritos dos bugios, ao percorrerem esses picos sonoros, produzem uma harmonia grandiosa. Superior às dos instrumentos fabricados pelo homem! Sentimos como se fosse a alma do universo acionando um formidável teclado. Em três quartos da sua extensão, a serra dos Órgãos é coberta por florestas virgens. Porém, a ausência de material granítico ocorre em grandes intervalos, onde há vales cultivados pelo homem. Ou, então, quando surgem bacias circulares desprovidas de árvores, nas quais bois e cavalos pastam natural e abundante erva.

post-orga%cc%83os

← Serra dos Órgãos, com o relevo Dedo de Deus.

O caminho que conduz da casa de don Gaetan à serra dos Órgãos é muito bonito, apesar dos terrenos acidentados que têm a se enfrentar. Então, seguimos por um atalho que serpenteia sobre o flanco de uma montanha e, à medida em que subíamos uma rampa, nossos olhares admirados começaram a abraçar um imenso horizonte. No meio da viagem, deparamos com um vale coberto de culturas, cortadas por numerosos córregos, moitas de bambu e algodoais. Ao fundo, avistava-se o mar, iluminado por um sol esplêndido. Naquele ponto, a paisagem estava emoldurada por uma cintura de rochedos negros, coroados de árvores verdes.

Logo que chegamos ao pico mais elevado o ar estava mais fresco. Ali, as espécies vegetais têm formas particulares, devido ao ambiente especial em que vivem. As borboletas também são diferentes, porém não são aqueles imensos morphos que vivem felizes no Corcovado, mas argynnis e argus.

Chegamos às 2 horas à casa do senhor Marsh – o proprietário da fazenda da Serra –, esse homem logo mostrou-se amável e distinto. Sua residência pareceu-nos confortável e bem equipada, e dele recebemos cordial e educada hospitalidade. Posso dizer algumas palavras do que deduzimos sobre nosso anfitrião…

Há cerca de uma vintena de anos, vivia no Rio um jovem negociante inglês, possuidor de grande fortuna. Morava numa residência suntuosa, muito bem montada e com numerosos escravos. Desfrutava de todo luxo, num padrão de vida de tanta opulência, que não importava se aquilo estivesse ocorrendo no novo ou no velho mundo.

De repente, esse jovem gentleman anunciou aos seus amigos que iria retirar-se para o interior, para viver no isolamento. Tivesse acontecido numa cidade francesa, certamente se assustariam com tal determinação e nem mesmo no Rio seria muito diferente. Somente os ingleses estão acostumados a conviver com esse tipo de excentricidade. Dentro dessa ótica, para eles, pareceria natural qualquer fuga para o exterior, afim de cometer suicídio ou fazer uma viagem aos antípodas.

Serra dos Órgãos: Fazenda da Serra, do senhor Marsh (por W. G. Ouseley)

Pois bem, depois de adquirir sua grande propriedade na serra dos Órgãos, esse jovem aventureiro foi tomar posse de seus domínios. E, numa atitude muito própria dos ingleses, resolveu colocar a grande fazenda a funcionar. Para isso, teve que contar com o trabalho de 300 escravos, de modo que a despesa se tornou elevada.

É bom lembrar que, na serra, situada bem acima do nível do mar, a temperatura não excede os 22 graus centígrados. Essa circunstância despertou no gentleman a ideia de estabelecer ali um caravansarai*, onde os viajantes pudessem viver algum tempo junto às belezas primitivas da natureza, mas comodamente instalados. Seria, também, uma casa de refrigério, destinada aos sofredores do Rio para que pudessem reconfortar-se sob a influência do ar fresco da montanha. Um retiro tranquilo, onde os homens fatigados desse mundo, cansados das preocupações que trazem os negócios, pudessem refugiar-se em completo isolamento. — * Pousadas para caravanas, que havia no Oriente Médio, Ásia Central e Norte da África.

Foi com essa finalidade que construiu a imensa casa, dividida em enormes apartamentos, para quem viesse com acompanhantes. Tinha também disponíveis pequenas habitações de três quartos, destinadas a quaisquer pessoas que decidissem viver longe da sociedade.

Esse filho de Albion*, educado no meio burguês, conhecia nossa literatura, era homem sem fronteiras e sabia exercer a profissão com habilidade. Além do mais, todos sabiam que era muito honesto nos negócios, de modo a não colocar o dinheiro em primeiro lugar. Com essas qualificações, conseguia administrar com sucesso seu castelo e pousada. —  * Albion: nome celta ou pré-céltico da Grã-Bretanha.
post-estrada-real

← Do Rio a Nova Friburgo, a excursão do doutor Yvan.

Contava com um gerente engravatado, usando luvas e bem vestido, que recepcionava os forasteiros e lhes oferecia gentil hospitalidade. Além disso, suprindo a falta de alguém mais próximo, essa mesma pessoa lhes servia à mesa com muita gentileza. Tinha ainda o auxílio de um vulgar açougueiro e mais um jovem serviçal para cuidar de receber os pagamentos dos hóspedes.

Logo que nossa comitiva chegou à serra dos Órgãos e para que ficássemos juntos, o gentil hoteleiro colocou à nossa disposição uma bela habitação, construída no meio da mata. Ao redor dela, haviam abatido árvores gigantescas que estavam a obstruir o acesso, o que resultou numa praça circular, convertida naturalmente em pátio.

Devido à poderosa fecundidade desse solo, os reis destronados da floresta foram substituídos por arbustos de flores brilhantes: quaresmeiras, brincos-de-princesa vermelhos, paineiras floridas, mimosas e cássias amarelas. A própria casa parecia um buquê de flores. O teto e as paredes estavam invadidos por trepadeiras de maracujá, cujos ramos penetravam pelas frestas no interior de todos os quartos. Estávamos num verdadeiro palácio de flores. O mais que víamos eram pétalas brilhantemente coloridas. O ar que respirávamos estava pleno de doces perfumes.

Por ter sido experiência de primeira vez, descrevo com cuidado esse intricado entrelaçamento de plantas, que vivem nas prodigiosas alturas. Sob a sombra de abóbadas, onde o sol mal penetra, há uma mistura de bambus, cipós e arbustos. A serra dos Órgãos é um desses lugares mais altos do Brasil, onde as plantas tentam se sobrepor umas às outras. Buscam nutrir-se com pouco de luz, mas ali também morrem. Quando se plantam algumas laranjeiras, bananeiras ou moitas de abacaxi, é certo que não se desenvolverão a contento e terão vida breve.

Os fazendeiros têm que ser hábeis para produzir nessas terras, sem a necessidade de aumentar o número de escravos. Para isso, têm procurado fazer melhoramentos em raças equinas, investir na produção de mulas e ao cultivo de frutas e legumes da Europa. A cultura de vegetais de origem europeia estava longe de dar bons resultados, nas tentativas do senhor Marsh. A maioria tinha boa aparência, mas quase todas as frutas careciam de bom sabor.

A pera perdia seu perfume e as uvas as propriedades refrescantes. A maçã, que parece mais adaptada ao clima, desenvolve-se razoavelmente, mas perde seu gosto original; o fruto têm a forma alterada e as sementes não se desenvolvem. Quanto aos outros vegetais, excetuando o feijão e a batata*, têm pouco agradecido ao solo americano mas, quase todos, me pareceram bem degenerados. — * A batata (Solanum tuberosum) é originária das regiões andinas. Lá é cultivada há 8 mil anos.

post-rio-inhomirimCaçando anta no rio Inhomirim (por Rugendas).

Na serra dos Órgãos tem-se uma agradável estada: a temperatura é deliciosa e os lugares são deslumbrantes. Nosso palácio de flores é frequentado por todas as criaturas aladas da região. Borboletas e besouros, vestidos como personagens de Perrault*, volteavam e zumbiam constantemente ao nosso redor. Papagaios, tangarás e colibris não se cansavam de visitar nossa casa. Essas delicadas aves, vestidas de brilhos, frequentavam o apartamento da senhora Lagrené mas, de tanta insistência, chegavam mesmo a cansar. — Charles Perrault, autor de contos de fadas.

Naquele lugar, tivemos o prazer de conviver com um velho médico que, além de dar assistência profissional aos hóspedes do senhor Marsh, servia de cicerone para os visitantes de mais distinção. Esse doutor tinha uns 60 anos de idade, mas era vigoroso e alerta. Sua fisionomia radiante, seu sorriso e atitudes educadas, denotavam possuir espírito elevado e bondade.

Ele nos falou de suas vivências nos quatro cantos do mundo. Fôra médico da marinha, titulado como Cavaleiro de Cristo*, diretor de explorações coloniais e, sempre que podia, procurava ser útil. Eu apreciava vê-lo nas nossas andanças falando de política, literatura e economia social. Enfim, de tudo que pode-se esperar de um homem inteligente. Sempre se dirigia a mim para discutir algum tema científico. — Honraria oriunda da antiga ordem eclesiástico-militar dos Templários.

Durante oito dias na Serra, ficamos por conta dos gostos e sugestões do senhor Marsh. Meus companheiros faziam diariamente passeios a cavalo pelos seus vastos domínios em torno da pousada. Quanto a mim, pela manhã, sempre mergulhava no interior da floresta, em busca de certos seres diminutos que vivem sob as cascas das árvores. Lembro-me bem e com alegria, dessas minhas aventuras no meio do silêncio.

Um negro cuidava de carregar minha bagagem, nela havia uma coleção sortida de redes, alicates e caixas. Eu carregava o equipamento até onde aguentava e, com uma machadinha na mão, cortava galhos das árvores. Do mesmo modo, rompia os arbustos entrelaçados de cipós que impediam meu caminhar. Com emoção, levantei as cascas de árvores caídas, onde abrigavam-se numerosos besouros. Diante de tantas surpresas, os tangarás, os pica-paus vermelhos e os papagaios chegavam a parecer aves vulgares.

post-cac%cc%a7adaCaçada na serra do Mar (por Rugendas).

O Brasil é a terra prometida dos naturalistas. As regiões montanhosas são as mais interessantes. Para aqueles que não desejarem estender demais a viagem, recomendo a querida serra dos Órgãos, onde vão encontrar tudo que possam imaginar. Costumam caçar onças nessas montanhas, a espécie carnívora mais temida das terras americanas. Para o caçador, seu enfrentamento é demasiadamente perigoso, mas há a opção pela anta, que tem maneiras mais dóceis e sociáveis. Muitas vezes, encontrei esse imenso paquiderme ao longo dos rios e na beira dos lagos. Fiz muitas vítimas entre os tatus, mas com alguma dificuldade, porque sempre estavam bem distantes de mim. O leitor certamente ficará surpreso, mas digo que as serpentes são muito raras nessa parte do Brasil.

Um réptil muito comum na serra é o iguana*, um grande lagarto, robusto, ágil e audacioso, que sobe nas árvores para caçar pequenas aves. Eu os vi atravessando as estradas, tentando capturar pequenos quadrúpedes. O senhor Marsh matou vários durante nossa estada, para servir à nossa mesa essa fina riqueza da culinária brasileira. — * Provavelmente um teiú.

Era meu propósito percorrer as alturas da serra dos Órgãos, até que chegou o esperado momento. Assim foi que, lá no cimo, consegui colocar as mãos na base dos grandes tubos de granito. Naquele momento era turva minha visão da pedra e vi nuvens transparentes movendo-se devagarinho. Em alguns instantes, percebi minha voz misturando-se com os ruídos da floresta, tal como fosse de u’a música do início do mundo, guardada naqueles nichos da pedra.

Admirei, lá embaixo, a cena magnífica de um tapete de folhagens contrastando com o mar azul. Na vasta extensão líquida, formavam-se cabos, enseadas e promontórios. E, para completar, o vento e o sol pareciam estar produzindo esculturas sobre as ondas. Porém, no meio dessa solitude, não fui capaz de perceber sequer uma habitação e isso fez surgir em mim um sentimento de tristeza. Assim, pude compreender que uma paisagem só se completará se tiver alguma manifestação da atividade humana.

post-selva-exuberanteÍndios na selva exuberante (por Rugendas).

Extenuado e sozinho, sentei-me à beira de um riacho e, de imediato, ouvi uma voz, mas não era dos escravos que me acompanhavam. Falava em inglês e contentei-me a responder com displicência, sem sequer voltar os olhos para verificar de onde vinham as palavras. Respondi como pude:

‘- Que deseja, senhor? Não compreendo o inglês.’

Ouvi a resposta:

‘- Esses franceses são engraçados!’– com um acento tipicamente britânico. ‘- Acham que todo mundo conhece sua língua. Falam apenas o francês!’

Então levantei-me, vi a pessoa e repliquei:

‘- Tem razão. Os franceses têm a pretensão de acreditar que sua língua é universal. Mas sofrem pelo descuido, sempre que metem o nariz fora da sua terra.’

Meu interlocutor plantara-se sobre um rochedo, tal e qual um caçador de camurça na borda de um precipício, rígido sobre as pernas. Vestia polainas de couro e um traje arredondado, e trazia uma enorme faca pendurada na cintura. Seu rosto rosado e de tez fina, tinha como moldura uma bela barba ruiva. Era grandão e forte, e sua aparência transmitia um jeito franco e aberto, o que contava a seu favor. Então, depois de lançar-me um olhar explorador, aquele filho de Albion anunciou:

‘- Sou mister Braone*. Você quer repousar em minha casa? Gosto muito dos franceses.’ — * Corruptela do inglês Brown ou Browne.

Daí, eu disse meu nome e, usando a mesma fórmula que adotara ao tratar comigo, acrescentei:

‘- Com muito prazer, vou descansar na sua casa. Gosto muito dos ingleses.’

Acredito que, ao exagerar na minha assertiva, devo isso à maneira bizarra como ocorreu nosso encontro.

Então, depois de atravessar uma fenda circular, cavada numa pedra de granito, pude alcançar a propriedade de mister Braone. Devo afirmar que esse moderno Prometeu gentilmente estendeu-me sua mão. Porém reconheço que, ao observar seu rosto corado, fez-me pensar que havia um abutre a roer-lhe o coração. No meu modo de entender, somente um louco, ou um sábio, poderia viver naquele isolamento. Perguntava a mim mesmo: em qual dessas categorias poderia classificar meu novo relacionamento?

O senhor Braone introduziu-me a um pequeno salão devidamente mobiliado. Era um cômodo comprido e estreito, vazado por três janelas acortinadas e mobiliado com um sofá, mais cadeiras de vime. Instalou-me diante de u’a mesa, sobre a qual estavam garrafas de vinho do Porto, licor, conhaque e rum, e havia um grande livro ao lado.

post-negras-de-debretNegras retratadas por Jean-Baptiste Debret.

Logo que me assentei, o senhor Braone, desculpando-se, retirou-se por instantes. Um quarto de hora depois voltou, conduzindo sob o braço uma jovem negra. Essa moça, que poderia ter bem uns 18 anos, estava trajada com um vestido branco e um enorme xale, do uso de algumas damas inglesas. Cobria-se com um chapéu azul, harmonizando com o resto do traje e calçada com sapatos rústicos, em couro preto, que cobriam-lhe os peitos do pés. Suas mãos vestiam luvas. Ela denotava estar muito desconfortável assim vestida.

A pobre criatura tinha um ar de pânico, expressão comum aos negros daquelas plagas. Trazia três fortes cicatrizes abaixo do nariz. Quase todos os negros a pouco introduzidos nas colônias europeias têm esses sinais, resultantes de algum ferimento que, propositalmente, costumam aplicar-lhes na juventude. Isso ajuda na constatação de suas identidades, contudo, não submetem a essa barbaridade os negros crioulos* . — * Crioulo: negro nascido e criado no Brasil.

O senhor Braone postou-se diante de mim, ainda com sua companhia apoiada nos braços e ambos inclinaram-se ao mesmo tempo. Então, referindo-se à jovem negra, disse ele: ‘- Esta é madame Braone!’

Contive o riso e cumprimentei a bizarra dupla, mas faltaram-me palavras para fazer algum comentário. O gentleman, depois de inclinar-se mais uma vez, rodopiou sobre os pés e afastou-se, levando consigo aquela singular madame Braone.

post-negra-c-xale← Negra com xale.

Ainda não havia me recuperado do susto, quando reapareceu o senhor Braone dando o braço a outra negra. Essa, mais jovem que a primeira, usava certamente os mesmos trajes que a outra desvestira, mas como a anterior era de porte mais avantajado, dessa feita parecia um vestido de cauda. O senhor Braone, fiel aos costumes do seu país, o qual estava a adotar nessas apresentações, se inclinou de novo diante de mim, dizendo:

‘- Esta é outra madame Braone.’

Diante da declaração inusitada, dessa feita não foi possível me conter e dei uma imensa gargalhada. Minha barulhenta hilaridade não incomodou o anfitrião. Contentou-se em olhar para o alto e logo exclamou:

‘- Oh! Esses franceses, se escandalizam com tudo!’

E eu retruquei:

‘- Não se escandalizam exatamente com tudo, meu caro senhor Braone, de fato os franceses se encantam com tudo!’ Por favor – acrescentei, sem poder conter o riso – quem foi o padre que abençoou o duplo casamento? Talvez possa recorrer a ele em caso de necessidade.’

Sem pestanejar, prosseguiu o senhor Braone:

‘- O padre sou eu. Casei-me por conta própria.’

‘- Meu caro senhor Braone, ao praticar esse jogo, você acabará pendurado como um cão e amaldiçoado como um judeu! A poligamia é um caso abominável e maldito.’

‘- Oh! Oh!’– disse o gentleman. ‘– Em França e Inglaterra eu estaria perdido, sim! No Brasil, não! Não serei condenado, aqui sou visto como Abraão e Jacó, e bem farei se povoar esse deserto.’

‘- Mas você é cristão, suponho…’

‘- Em Londres ou Paris, sim. Aqui sou patriarca. Conheço a Bíblia melhor que você my dear* (*meu caro). É o único livro que tenho lido há seis anos’– apontando o grosso volume sobre a mesa. ‘É dela que tiro minha única regra de conduta. A Biblia não é, como se pensa, a história de um povo. É a lei escrita, tomando como exemplo os homens na civilização, na barbárie e no patriarcado. Aqui vivo no patriarcado… Oh, não! Jamais serei condenado!’

‘- Meu caro senhor Braone, admiro sua interpretação da Bíblia, mas ela é novidade! E você compreende perfeitamente seus deveres de patriarca?’

‘- Oh, sim! Compreendo bem. Você vai ver…’

Logo em seguida, pegou um chicote que estava pendurado atrás da porta. A empunhadura desse instrumento de correção possuía um apito, do qual tirou sons agudos. Imediatamente, vi adentrar no salão cinco ou seis figurinhas grotescas, de cor marrom, que se postaram silenciosamente, lado a lado, na posição de soldados em armas. O inglês mirou-os com satisfação e, em seguida, me disse:

‘- São os pequenos Braones! Quando crescerem, deixar-lhes-ei tudo que aqui possuo: esta casa, estas montanhas, estas terras. Serão mais ricos do que se fossem filhos de escravos e, então, tratarei de me ocupar com a tarefa de povoar Sidney*… Oh! Se todos fossem iguais a mim, todas as colônias logo estariam como formigueiros!’ — * Sidney, na Austrália.

De fato, fiquei pasmo diante do senhor Braone. Até então, não podia acreditar que alguém pudesse ser tão louco, mas aparentando ser normal. Depois de um momento de silêncio, prossegui:

‘- Você bem sabe que, retornando à França, eu relatarei sua maneira de viver e as circunstâncias em que nos conhecemos, mas ninguém irá acreditar.’

‘- Oh! Certamente, não lhe darão crédito’ – replicou vivamente o gentleman. ‘- Os franceses irão considerar esses fatos por demais extraordinários para acreditar. Quanto voltar, ao dizer apenas o que viu, é claro que vão lhe acusar de ter inventado. Oh, sim!’

Essa ideia do senhor Braone feriu-me, por conter tanta franqueza. Assim, estou procurando escrever exatamente, muito exatamente o que pude ver, e não quero ser acusado de exagero.

Ao decidir ir-me embora, o senhor Braone tentou convencer-me a passar a noite com ele. Contudo, não pude atender ao seu desejo, pois meu grupo iria partir da serra na manhã seguinte e teríamos que fazer a viagem a pé, durante o dia. Diante disso, o senhor Braone conduziu-me à saída, passando pela cozinha, onde vi uma negra velha ocupada em preparar dois macacos, que tinham não mais que 60 centímetros de comprimento.

Naquele momento, disse-me o senhor Braone, mostrando a iguaria:

‘- Se desejar permanecer, eis nosso jantar!’

post-saturno-devorando← Saturno devorando o próprio filho (por Francisco de Goya).

Fiquei horrorizado! Naquele momento imaginei-me convivendo com um monstro. Os dois pequenos corpos davam a impressão de serem criancinhas. Veio ao meu pensamento aquela cena de Saturno devorando seus filhos. Mas, na sua postura impassível, o inglês tranquilizou-me, dizendo que poderia comer os macacos sem ser taxado de canibalismo. Então apenas apertei sua mão, que cordialmente me estendera…

Voltei à nossa pousada na serra e os companheiros pediram para que narrasse os acontecimentos do dia. Contei-lhes da visita ao senhor Braone, mas eles não acreditaram numa palavra sequer. Como iríamos partir no dia seguinte, não puderam verificar a veracidade dos fatos, por isso permaneceram apenas com a minha versão. Depois disso, fiquei matutando sobre a profecia do senhor Braone e, hoje, acredito que o patriarca da serra é um sábio.

No momento de deixar nossa deliciosa habitação, aproximou-se de mim um negro – era o companheiro de minhas caminhadas – e ele estendeu-me timidamente as mãos. Entendi que pedia um agrado e, então, dei-lhe algumas moedas. Mas recebeu-as sem entusiasmo e ainda mantendo a mesma expressão de súplica. Nesse caso constrangedor, lembrei-me do senhor Braone, ao dizer-me que quando um negro depara-se com um branco, sempre estende suas mãos vazias, mas não a pedir qualquer coisa de material.

Imploram, sim, algo de espiritual, uma espécie de benção(2). E o costume é dizer: ‘- Que Deus te faça Santo!’* Mas penso que mais correto seria responder a tal prática com uma atitude de sinceridade e harmonia, pois essa gente desafortunada merece. Por que não dizer?: ‘- Que Deus o faça merecedor da liberdade!’ — * Expressão antiga, semelhante ao “Que Deus te abençoe!”, mas especialmente dirigida aos negros.

Porém, estou convicto que esse voto como o precedente, ambos certamente iriam se perder no espaço e no tempo, sem qualquer eco. Isso porque, no martirológio* do Brasil, não há nenhum santo negro.” — * Lista com nomes de santos.

post-no-paraibaNatureza exuberante na região do rio Paraíba do Sul (por Debret).

NA REGIÃO DO PARAÍBA

caminho que estávamos a percorrer atravessava a serra dos Órgãos, até chegar às margens do rio Paraíba*. Nos afluentes desse rio, encontram-se populações caboclas**. Elas vivem do produto da caça e da pesca, mas dedicam-se também a algumas atividades produtivas. É nessas comunidades que a maioria dos viajantes estrangeiros têm vindo estudar os hábitos dos indígenas, pois são eles os legítimos representantes do antigo povo da terra***. Da mesma maneira, no século passado, o chevalier M. Florian pesquisou, no entorno de Paris, os hábitos arcaicos dos camponeses. — * Rio Paraíba do Sul, corre ao norte da serra dos Órgãos. // ** Caboclo: indivíduo nascido de branco e índio. // *** Índios puris e coroados.

Mantivemos nossa rota durante boa parte da jornada, até notarmos que nosso principal guia havia nos abandonado sem avisar. Certamente foi consequência da infeliz ideia de terem lhe oferecido uma dose de aguardente. Tivemos então de aguardar seu retorno e, nessa expectativa, fizemos pausa em um parador, lugar de repouso dos tropeiros dessas plagas.

No momento em que ali chegamos, havia uma caravana estacionada numa praça circular. Esse albergue primitivo compõe-se de um galpão coberto de folhas de palmeira e serve de repouso para os viajantes. Há também um curral ao lado, para prender os animais. Nessas ocasiões, as mulas são descarregadas e os negros aproveitam para preparar sua comida.

Tendo em vão esperado nosso guia, decidimos a continuar meio sem rumo, por algum tempo. Até que o encontramos tranquilamente deitado ao pé de uma árvore, desfrutando da condição de homem livre que era. Depois de retomar em segurança a caminhada, penetramos numa admirável floresta de palmeiras e samambaias arborescentes*. A presença desses vegetais anunciava que estaríamos descendo em direção às regiões mais quentes. Também a atmosfera causava essa impressão. — * Samambaiaçus. Do tupi-guarani: sama-mba = o que torce; açu = grande.

post-floresta-serra-do-marNatureza da serra do Mar (por Debret).

Durante todo tempo, atravessamos esse lugar com admiração, até chegarmos onde dois caminhos se cruzavam. Ali, encontramos um negro velho que nos orientou. Deveríamos seguir uma trilha à direita, onde haveria uma casa por perto. Diante disso e sem hesitação, adentramos numa espécie de ravina* estreita e íngreme, rodeada por árvores gigantescas. — * Escavação no solo produzida por chuvaradas.

Aos intervalos, encontramos magníficos bovinos a nos encarar com curiosidade. Quando nos aproximamos, alguns animais mostraram-se enraivecidos, outros decidiram nos acompanhar por algum tempo. Depois, foram nos abandonando, ao mesmo tempo em que lançavam olhares admirados. Contudo, a presença da criação não foi indicativa de alguma casa, pois somente a encontramos somente 1 hora depois, ao descermos uma forte rampa. Era um miserável casebre, rodeado por um enorme descampado (pasto fechado, manga), utilizado para guardar os animais. Um mulato, sua mulher e filhos eram os proprietários.

Disseram eles existir uma venda, distante 1 hora daquele lugar, cujo proprietário era Pedro Espanhol. Desse modo sendo orientados, daquela morada partimos. Depois de 12 horas de marcha, às 7 horas da noite, deparamo-nos com uma horrível habitação. Ali, uma velha e seu filho, feioso homenzinho de um pé torto, eram os únicos moradores. Tão logo nos aproximamos, apressaram-se em dizer que não podiam oferecer comida nem abrigo. O proprietário estaria ausente e não poderiam fazê-lo sem sua autorização, principalmente devido ao avultado número de viajantes que éramos. Logo disse a velha:

‘- Tomem suas montarias e sigam até a fazenda do capitão Custódio, onde poderão receber completa hospitalidade, sem que nada lhes custe. Meu filho os acompanhará, se quiserem.’

Mas ali ainda permanecemos por alguns instantes. Diante da porta de entrada havia um enlameado, onde um porco alimentava-se de restos de comida. O interior era escuro e mal-cheiroso, e não havia sequer um cobertor para servir de agasalho, nem uma cadeira para sentar. No quintal, via-se um punhado de patos e um cão sarnento acompanhando a velha.

Houve tanto empenho da mulher em nos despachar, que nos apressamos a atender seu desejo. De fato, a tal venda do senhor don Pedro Espanhol mais parecia um covil de bandidos do que um albergue. Verdade é que ficamos admirados com a sabedoria e sutileza da velha, por ter-nos afastado daquela imundície.

Depois dessa breve parada, tornamos a montar em nossas mulas, porém acompanhados do homenzinho do pé torto, novo guia da nossa cavalgada. Uma hora após a partida, chegamos à casa do capitão Custódio. A entrada da fazenda estava fechada por uma porteira. Os cães ladraram e os escravos se apressaram a receber nosso grupo, que já estava a adentrar impetuosamente. Sem tardar, o Pé Torto pediu para falar com o senhor administrador, que acorreu prontamente.

Nosso porta-voz lhe expôs as dificuldades e o desejo de encontrar uma pousada. Tão logo recebeu o pedido, o homem abriu a porteira. Daí, adentramos por um largo corredor, através do qual alguns negros nos guiaram portando tochas. O habitáculo ao qual fui conduzido era de padrão inferior ao do resto da casa. Compunham-no três pequenos cômodos contíguos, com a aparência de quartos de vestir. Ali jogamos esteiras para descansar, enquanto aguardávamos o jantar. Desde o amanhecer, nada havia entrado em nossos estômagos, senão um pouco de farinha de mandioca e uma xícara de chocolate.

Finalmente, às 10 horas, sentamo-nos à mesa. O jantar compunha-se de aves, uma porção de arroz, feijões pretos – parecendo pérolas negras – e farinha de mandioca. Tanto pela fadiga, quanto pelo sono, não conseguimos permanecer muito tempo na sala. Por isso, logo fomos nos meter debaixo das cobertas e, então, caímos em sono profundo. Logo na madrugada, às 4 horas, já estávamos de pé. Os escravos saiam das suas casas com destino ao trabalho. Ouvimos ruídos de carpintaria e pancadas em bigornas.

A fazenda lembra uma pequena vila. A habitação do capataz é circundada pelas dos escravos. Há também edificadas, todas próximas, cobertas para a preparação do chá, do café e do açúcar. O chá só começou a ser cultivado no Brasil há uns 20 anos e já apresenta considerável produção. A exportação tornou-se a mais importante graças ao seu condicionamento em caixas, no mesmo feitio daquelas que vêm da China.

Contudo, é preciso considerar que existe uma grande diferença entre o chá do Brasil e o do Celeste Império. O chá brasileiro, pelo seu aroma e azedume adstringente, nada tem em comum com o chinês. Acredito mesmo que o do Paraguai*, que de fato não é um chá, é preferível ao chá brasileiro. — * Chimarrão. 

post-moendaEngenho de açúcar (por Rugendas).

Quanto à fabricação do açúcar, penso que deixa muito a desejar. Os fazendeiros não têm noção dos atuais progressos dessa indústria, tal como ocorre na Europa. De acordo com o capitão Custódio, os equipamentos para a confecção dos produtos compõem-se apenas de uma moenda, cinco caldeiras – dispostas em série – e um aparelho destilador.

A moenda é tocada por uma roda d’água, que faz funcionar três cilindros de metal. Esse mecanismo é insuficiente para retirar das hastes toda a sacarina contida. As caldeiras, onde se faz o clareamento e o cozimento do xarope, são no processo de fundição. O espessador e a própria disposição do forno, não permitem regular o fogo de maneira conveniente. Quanto ao destilador, para produzir a aguardente – a cachaça –, é no feitio daquele construído séculos atrás por Arnaud de Villeneuve. É a mesma máquina que vimos desenhada nos livros de alquimia.

A aparelhagem deficiente e o processo tosco, fazem com que o produtor deixe de retirar da cana tudo que ela pode oferecer. Perde-se grande quantidade de substância cristalizada e seus álcoois exalam um gosto desagradável. Porém, apesar de tantas coisas negativas, compensa a fecundidade dessa terra, pois ajuda os produtores a obterem lucros consideráveis, mais do que em outros países tropicais.

As mesmas considerações sobre o açúcar, podem igualmente aplicar-se à produção do café. A polpa do fruto é muito mal aproveitada, devido ao descuido no serem ensacadas. Isso afeta o processo de fermentação, prejudicando a qualidade final do produto. Em algumas fazendas na vizinhança do Rio de Janeiro, a colheita tem sido aprimorada. Primeiramente lavam os frutos, imediatamente após a colheita. Em seguida, os remetem a um descascador, onde são separadas as partes moles das duras. Na fazenda do capitão Custódio cultiva-se um pouco de arroz e a produção tem alcançado os mesmos níveis das melhores terras da Índia. E, tal como lá, pode-se obter várias safras anuais no mesmo solo.”

Texto, tradução, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

CONTINUA no próximo Post. / Clique e leia mais: “Rio Antigo (I)” e “Rio Antigo (II)”

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(1) LAGRENÉ, Théodore de – (*14.03.1800 / †26.01.1862) Chefe da missão e, posteriormente, embaixador extraordinário da França na China. Casado com Warinka Doubenski – senhora Lagrené – (*1806 /†1901), que fora demoiselle d’honneur da imperatriz da Rússia.

(2) QUE DEUS TE FAÇA SANTO – Extrato do jornal “Sete d’Abril”, Rio de Janeiro, 16.12.1835, p.3: … se despedio o pobre negrinho com um Deus te faça Santo.” // Em “A Madresilva”, drama de J. S. Mendes Leal, Lisboa, 1847, p. 43: “… Deus te faça Santo… Endiabrado! E a serafina!… Ora, louvado Deus…”. / Serafina: variedade de baeta espessa, geralmente com desenhos ou debuxos.

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