Sumidoiro's Blog

01/08/2017

RIO ANTIGO (IV)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 9:46 am

♦ Na serra dos Órgãos e no Paraíba.

Em 1844, o médico francês Yvan Melchior-Honoré, acompanhando uma missão oficial francesa, chegou na então capital do Brasil, em 28 de janeiro. Este quarto Post, rememorando um passeio à serra dos Órgãos, é complemento ao anterior e parte do relato da sua visita.

Paisagem da serra dos Órgãos (por Rugendas).

eixamos a fazenda do capitão Custódio informados de que logo encontraríamos um abrigo, antes de atingir Nova Friburgo(1). Nesse meio tempo, vimos canaviais e subimos colinas cobertas de pés de café. A gente tem a impressão que brotam espontaneamente e não se vê nenhum trabalhador nesses lugares. Viajar a cavalo, em regiões pouco habitadas, proporciona distração e encantamento. Contudo, ao longo da viagem, sempre há surpresas e contrariedades.

O primeiro aborrecimento, durante nosso trajeto, foi deparar-nos com um rio sem ponte. Elas são muito raras no novo mundo, sobretudo nos pequenos cursos d’água, os quais também servem de limites a imensas propriedades e que os habitantes denominam córregos. Sentados à beira de um deles, discutimos se atravessaríamos a vau* ou se deveríamos retornar. Nossos condutores negros sugeriram a última opção, mas decidimos ao contrário. — * Vau: lugar raso de um curso d’água, onde se pode atravessar a pé ou a cavalo.

De início, os cavalos refugaram mas, ao serem esporeados e chicoteados, meteram-se n’água. Naquele momento, os pobres animais perderam o chão, a água cobriu seus peitos e os arreios, e dois alforges* se desprenderam, e afundaram. Mas a corrente não era forte e conseguimos chegar na outra margem, molhados até a cintura. — * Alforje: bolsas interligadas, de modo que permitem distribuir o peso de dois lados.

A esse primeiro incidente, sobreveio um segundo. O caminho era pouco frequentado e estava tomado por um matagal. Diante disso, apeamos e fomos avançando nessa trilha, mas derrubando a torto e à direita galhos de árvores, cipós e bambus, que impediam a passagem. Perdemos muito tempo com o córrego e o matagal, de modo que foi entardecendo, nossos estômagos gritaram e não víamos sinal de fazenda. Nada de fazendeiro, de arreeiro* e de feitor no meio daquele ermo. Até que percebemos que seria impossível seguir em frente. — * Arreeiro: guia de cavalos.

Caminho de Teresópolis (por Georg Grimm).

Contudo, nenhum de nós temia passar a noite sob o céu estrelado. Munidos de um bom agasalho, teríamos como enfrentar a atmosfera úmida, mas estávamos em completo jejum. Era charmoso aquele pedaço da montanha onde viajávamos. Havia um bosque de samambaias, de mimosas e palmeiras, todo povoado de aves coloridas, de papagaios azuis tagarelando, e de mutuns*, grandes como faisões, matraqueando ao longo do caminho. Até que, em certo momento, uma espiral branca de fumaça e cheirando a comida emergiu das árvores. Anunciava a proximidade de uma cabana! Foi a mais agradável de todas as surpresas. — * Mutum: ave galiforme.

Silenciosamente, estávamos imersos em nossas reflexões. Mas, colocando as mãos no ventre, tomamos consciência de que éramos simples seres humanos e sujeitos à fome. Felizmente, uma pessoa do grupo subiu num barranco e de lá gritou:

‘- Uma cabana! Terra! Terra!’ – como dizem os marinheiros.

Imediatamente, retomamos nossas montarias e para lá nos dirigimos. Até que deparamo-nos com uma pequena e simples cabana. A descoberta desse frágil abrigo nos encheu de alegria, na expectativa de que seus moradores, fossem eles brancos ou negros, tivessem qualquer substância nutritiva a nos oferecer ou vender. Adiantei-me para lá, correndo, até que atingi a porta de entrada e nela bati com força. Ela abriu-se sozinha, mas ninguém respondeu à minha chamada.

Dei uma espiadela no seu interior, à direita e à esquerda. Nada vi, nenhum instrumento de trabalho, nem gente. Subi alguns degraus, que levavam ao andar superior. Era uma peça bem rebocada, triste e silenciosa como um ninho sem pássaro. Uma esteira, jogada num canto, sugeria que alguém se refugiava nesse lugar de vez em quando. Um armário, que discretamente abri, continha uma casca de coco cortada ao meio e atada a uma vara. Imaginei que pudesse ser um apetrecho para beber água.

A mata e a serra dos Órgãos (Lito de E. F. Pöpig, d’après Von Martius).

Assim sendo, retornei e contei aos companheiros que minha investigação em nada resultara. Ainda demos um punhado de tiros a esmo, de modo que se houvesse alguém escondido, que ele mostrasse a cara, fosse proprietário ou usuário. O barulho do tiroteio ecoou ao longe. Um bando de pássaros se assustou, levantando vôo e provocando algazarra. Daí a pouco, revoaram sobre nós e, logo, voltaram ao abrigo no arvoredo.

Estávamos num ponto em que o caminho bifurcava. Então, soltamos as rédeas dos cavalos e deixamos que decidissem qual rumo a seguir. Sem hesitação, escolheram uma trilha acidentada que descia por dentro de um matagal. Assim mesmo os incentivamos, metendo-lhes nossas esporas. Mas, tudo continuou na mesma e a noite se instalou, sem que nada encontrássemos. Além da fome que nos atormentava, de repente caiu sobre nós uma chuva torrencial, deixando-nos enfurecidos.

Porém, depois de 1 hora galopando, deparamo-nos com um lindo vale cortado por dois riachos. Um deles, despencava de uma altura imensa, depois rolando barulhento entre rochedos. Plantações se estendiam ao longo desses cursos d’água e o ar estava impregnado de perfumes que vinham de cafezais em flor. Isso nos fez ficar otimistas, até que nos aproximamos de uma habitação. Contudo, tivemos nova decepção.

Então a noite tornou-se escura, mas continuamos cavalgando, até que, 2 horas depois, notamos entre as árvores uma claridade vinda de lampiões, que sugeria a existência de uma fazenda. Devo esclarecer que, por ter nascido na Provença*, tenho alguma facilidade para me comunicar em português. E como, desde já, estava encarregado de falar com os senhores da terra, coube a mim indagar onde encontraríamos pelo menos uma esteira para dormir. Assim sendo, avançamos em direção àquele clarão. Até que me vi em frente de uma casa grande, pintada de preto e com paredes rachadas. Estava circundada por barracões de escravos, sujos e repugnantes. — * Há muita semelhança ente o dialeto provençal e o português.

Devido ao barulho que fiz ao chegar, algumas negras se aproximaram com tochas nas mãos. Ao mesmo tempo, dois negros dirigiram-se a mim, para segurar o estribo do arreio e, então, desci da montaria, que ficou aos seus cuidados. Imediatamente, dirigi-me à casa, onde um homem muito claro estava junto a porta, à minha espera. Então, imaginando que seria o administrador, perguntei:

‘- Quem é o dono desse lugar?’

‘- Sou eu, don Patricio Tejeiro y Campillo. E podes usá-la como quiser, senhor!’ – respondeu cortezmente.

‘- Nesse caso, permita-me aqui alojar-me com meus companheiros.’– repliquei.

Ele inclinou-se, em sinal de consentimento. Daí, depois de prestar-lhe agradecimentos, retirei-me, para anunciar que poderíamos desfrutar da morada de um nobre senhor. Denotava ser pessoa que praticava a hospitalidade do tempo antigo, com graça e cavalheirismo. Então, logo que nossa pequena trupe adentrou à residência, a tempestade em vez de se amainar, cresceu em violência. A par disso, a noite ficou tão escura que não se via um palmo diante do nariz. Pois logo don Patrício nos introduziu a um vestíbulo, cheio de feijões recém colhidos e de grãos de café. E as negras logo correram a recolher essas sementes, abrindo caminho, para que pudéssemos chegar até aos nossos quartos.

Post - Cena de quintalCena de quintal (por Débret).

Depois de alguma espera, fomos introduzidos numa sala grande e escura, dispondo ao centro uma mesa longa e estreita. Esse móvel estava coberto de penas de escrever e papéis, mais sementes e jornais. Evidentemente, era o gabinete de estudo de don Patricio. Contudo, esse cômodo de uma simplicidade extrema, tinha também outras serventias. Servia como depósito de mercadorias e continha um punhado de sacos de legumes jogados pelos cantos. Ao fundo, junto à parede, havia um compartimento fechado para guardar farinha de mandioca e carne salgada. E sua tampa servia como estante, para abrigar a coleção de livros de don Patricio.

As janelas estavam em péssimo estado. Como acessórios da mesa, havia dois bancos compridos e uma cadeira na cabeceira. Logo que lá entramos, don Patricio se achava sentado. Imediatamente pôs-se de pé e, inclinando-se com deferência, pediu desculpas por não poder nos atender melhor. E disse:

‘- Longe que estou das cidades, raramente tenho convidados tão distintos como os senhores. Mas, desfrutem à vontade de tudo que aqui está. Dentro de 1 hora, serviremos o jantar. Peço licença para me retirar, preciso dar algumas ordens.’

Nosso anfitrião era um homem de uns 50 anos, alto e magro. Sua pele de um branco embotado, mostrava-se um tanto enrugada. Sua fronte era alta, os lábios finos, os olhos grandes e negros. Seu traje, à moda dos fazendeiros, simples e correto, estava muito bem passado. Suas mãos eram brancas, a barba aparada. Dava para supor que don Patricio teria vivido em um ambiente de muita finura, para depois virar fazendeiro por acaso.

Tão logo se retirou, as negras sujas e mal vestidas vieram arrumar a mesa, dela retirando um punhado de cadernos inteiramente escritos. Provavelmente, seriam da contabilidade da fazenda, ou alguma informação de como cultivar o café. No entanto, fiquei muito curioso por saber seu verdadeiro conteúdo.

Casa de escravos (por Guillobel).

Nesses lugares, um homem solitário não tem a quem enganar e, se escreve, só pode ser para si mesmo. Desse modo, tem chances de produzir um bom livro, ou pelo menos um texto honesto. Mas não tive como saber o que escrevera nosso anfitrião. A julgar pelo que tive oportunidade de ler, suas mãos pareciam limpas. Notei isso quando, furtivamente, folheei três livros que haviam deixado sobre a mesa. Inacreditável, o primeiro era a Carta de Trasíbulo a Leucipo, de Fléret; o segundo, a tradução portuguesa das Ruínas, de Volney; o terceiro, O homem dos quarenta escudos, de Voltaire. É incrível, Fléret, em francês, numa fazenda brasileira!

Nossos companheiros mais jovens não fazem a mínima ideia de quem sejam esses autores. Pois, para conhecer o tempo presente, don Patricio estudava o espírito francês lendo os filósofos do século XVIII! De minha parte, ansiava por saber se esse provável missionário e filantropo os acompanhava, praticando suas doutrinas de liberdade e fraternidade. Surgiu, então, a oportunidade de realizar um aprendizado muito interessante.

Quando don Patricio retornou, eu ainda estava segurando um dos livros. Então, acercando-se de mim, ele colocou o dedo sobre o Fléret e falou emocionado: ‘- Precioso!’. E repetiu com o Voltaire: ‘- Gostoso!’. E, em seguida, inclinando-se para o Volney: ‘- Gigantesco.’

Com suas três exclamações, o fazendeiro foi preciso ao indicar suas preferências e, disso, concluí que comungava com as ideias radicais e deístas, filhas da revolução francesa. Alegrei-me, mas ficando na expectativa de ver como ele colocava essas ideias em prática junto aos seus escravos. Tive vontade de recitar o credo filosófico de Volney. Mas, devido ao jantar que já estava sendo servido, nada fiz de comentários. Quando estamos submetidos a um jejum de 24 horas, esquecemos os prazeres da conversa e os sons da lira de Orfeu. 

Foi-nos servido o jantar habitual: carne de porco salgada com legumes, carne seca ferventada, verduras temperadas com pimenta, feijão preto e toicinho. Para substituir o pão, cobrimos a comida com farinhas de milho e mandioca. A mesa estava coberta por um pano, mas não ofereceram guardanapos. Essa peça é considerada desnecessária pelos portugueses do Brasil. Bebemos água à vontade, na mesma vasilha, à maneira comunitária da igreja primitiva. Para isso, don Patricio possuía um único copo grande. Além do mais, ao fim da refeição, nós, oito convivas, tivemos três taças para beber vinho de Lisboa. Nesse país, pela falta de jeito dos escravos ao lidar com esses objetos, a coleção nunca permanece completa.

Don Patricio sentou-se à mesa apenas para fazer as honras da casa. E serviu-nos, com as próprias mãos, o café feito com grãos produzidos na sua fazenda. Mas a chicória* de Lille é preferível. A bebida tinha gosto de decocção de espinafre e, para esquecer seu sabor, bebemos um bocado de cachaça. É uma espécie de rum do Brasil, uma coisa que desce queimando pela garganta e deixa um gosto ruim na boca. — * Chicória amarga, das suas raízes torradas se extrai um sucedâneo do café. 

Esse fazendeiro, somente em raras oportunidades, podia oferecer hospitalidade a europeus. Por isso, nossa visita serviu para romper a monotonia habitual e ele aparentava estar muito satisfeito. E mostrou-se desejoso de espichar a conversa ao longo da noite. Mas o sono apertou e, mesmo balbuciando umas palavras em português, não mais conseguíamos manter os olhos abertos. Até que os negros vieram nos conduzir aos leitos que haviam preparado. Alguns ficavam num sótão onde armazenavam palhas de milho, vagens de feijão e mais alguns produtos.

Falso café de chicória torrada de Lylle (La plante qui fait du bien / A planta que faz bem).

Adiante do vestíbulo central, abriam-se os diversos cômodos da casa, que é dividida em duas partes iguais. A parte da habitação reservada a don Patricio era severamente interditada aos estrangeiros. Entretanto, ele reservou minha cama na mesma sala, dizendo que era de todos o lugar mais arejado. Ali dormi, deitado num colchão de palha de milho, ouvindo o ruído de uma cachoeira, mas isso não atrapalhou o meu sono. No dia seguinte, apareceu um negro com cara de idiota, dizendo que era para eu fazer a toalete com os demais. Então, lhe perguntei se, por acaso, don Patricio seria casado. Mas ele nada respondeu, apenas apontou-me uma porta, atrás da qual, para meu espanto, pude ouvir uma pequena explosão de risadas, plenas de doçura.

Então, sem hesitação, colei meus olhos no buraco da fechadura e o que vi era maravilhoso. Notei dois pés cor de alabastro*, nus e imóveis, mal cobertos por um vestido branco que ia até aos tornozelos. Aqueles pequenos pés levaram-me a compará-los a uma estátua de mármore esculpida por David. E para minha surpresa, aquelas obras de arte caminhavam em minha direção. — * Mineral macio e translúcido. Tonalidades variam do branco, passando pelos castanhos e chegando até ao negro. 

Pois logo que chegou frente à porta, a figura desconhecida abaixou-se num movimento brusco e uma pupila apareceu no buraco da fechadura. Mas, pela surpresa do encontro olho no olho, minha linda visão deu um grito e saiu correndo. Certamente seria uma escrava, pois aqueles pés descalços indicavam tudo. Mas, como teria aquele ser maravilhoso caído nas garras de don Patricio? Fiz suposições dele ter cometido algum crime abominável, mas logo admiti que exagerava na minha imaginação e me afastei da sala.

Na véspera, atordoados pela chuvarada, não reparamos bem como seria exatamente aquele lugar. A sede da fazenda está situada entre duas montanhas e tem uma plantação de café, naquele momento todo em flor, que mais parecia uma cobertura de neve perfumada. À esquerda, as duas montanhas se uniam e, ao fundo cresciam árvores gigantescas. Logo que retirei do olhar esse magnífico cenário, vi de novo don Patricio.

← Crianças espancadas e quase cegas (por A. Agostini).

Aquele homem, que eu conhecera na véspera, estava sentado no meio de umas vinte negras e mais uma trintena de negrinhos. Uns nascidos, outros ainda na barriga das mães. Eu não compreendia o que ele fazia no meio daquele rebanho fedorento*. Mas, logo notei que estava a fazer uma inspeção nos seus escravos. Desde logo, mudei minha opinião sobre ele. Estava a vê-lo como um ser hediondo, vulgar e desagradável, apesar do seu terno branco e de sua barba bem cuidada. Ele examinava as gengivas, os dentes, a pele, e verificava se os pés não tinham sido invadidos pelos bichos-de-pé. De algum modo, entendi que estava preocupado com o bem-estar dessa pequena população submissa às suas leis. — Pelas palavras, o autor revela exacerbado preconceito.

Naquele momento, perguntei a don Patricio:

‘- Quantos escravos possui para tocar sua fazenda?’

‘- Oh! São todos esses, apontando para as vinte negras e cinco ou seis dos seus companheiros. As fêmeas uso na colheita e os negros ofereço de aluguel, para realizarem trabalhos mais pesados.’

‘- Mas o que você faz com as mulheres, quando não é época de colheita?’

‘- Ora! Sigo as regras da natureza. Elas produzem crianças!’

‘- Mas cada uma delas possui um marido?’

‘- Entenda, nos rebanhos, você dá às ovelhas um só carneiro e um só bode às cabritas!’

‘- Você compara essas infelizes a ovelhas e cabritas?’

‘- Não! Essa injúria não faria a esses pobres animais – respondeu rindo. Elas produzem lã e leite. Parir é o de menos, pois não há nada mais a se obter delas, a não ser um negrinho por ano.’

‘- Mas é assim, meu caro filósofo, que você pratica a fraternidade humana?’ – perguntei, com uma pitada de ironia.

Mas, fazendo um ar sério, disse-me ele em seguida:

‘- Você é muito esclarecido e não pode admitir que esses escurinhos sejam seus irmãos. É como se pretendesse que um orangotango fosse irmão de um sagui. Com esse tipo de fraternidade, não ousaríamos comer carne de boi e ostras, só porque desconfiamos que alguns homens possam ter algum parentesco com essas criaturas. Tenho muito respeito pelos meus negros, mas como animais sofisticados. Não cuspo neles, mas trato-os como cavalos e potros que posso vender.’

‘- Se esse é o resultado dos seus estudos filosóficos, eu não os recomendo. Prefiro ficar com os mais ignorantes cristãos que, pelo menos, acreditam que todos os homens são irmãos.’

‘- Há quem acredite ou finge acreditar, mas os negros que possuem são melhor tratados que os meus? Entre os cristãos e mim, há diferença apenas no molho com que serão consumidos.’

Daí a pouco, don Patricio despediu-se, educadamente, e se afastou. Eu permaneci aborrecido devido à discussão com o fazendeiro. Ao inspecionar as crianças negras, o homem mau nada fazia de filantropia, tinha apenas piedades de um veterinário. Sua posse era nada mais que um infame curral. Mas, ao retornar à casa, quis saber dos laços que uniam o fazendeiro e a bela mulher que vislumbrei através da fechadura. Mas, para minha surpresa, constatei que o buraquinho fôra tapado com uma tábua.

Então, sentamo-nos à mesa e, imediatamente, notei em don Patricio um ar amuado. Ele nos lançou vários olhares inquisidores, até que se manifestou:

‘- Sua indiscrição é de muito mau gosto!’

Contudo, permaneci indiferente à sua fala, de modo que ele se acalmasse e a conversa tomasse outro rumo. Então, pouco a pouco, passou a tratar de outras coisas e, sobretudo, da cascata que vimos na véspera, denominada Paquequer* (* depois denominada Conde D’Eu), desse modo:

‘- Você passando em frente a esse grande jet de cristal* (*jato de cristal), para chegar ao morro Queimado, poderá admirá-lo à vontade.’ Notei que pronunciou jet de cristal enfaticamente, para em seguida acrescentar:

‘- Eu sei uma palavrinha ou outra de francês e gosto de jogá-las numa conversação.’

Naquele momento, vinha também dizer que nossos cavalos estavam arreiados. Assim, deixamos a mesa e fomos cuidar dos preparativos para a partida. Finalmente, ao retornamos e no ato das despedidas, ele disse-me em bom francês, mas com uma pitada de ironia:

‘- Meu caro doutor, vocês perseguem impossibilidades. Pois será mais difícil persuadir os brasileiros a emancipar seus negros, do que uma pessoa passar pelo buraco da fechadura.’

Daí, apenas deu um tapa no traseiro do meu cavalo e o colocou em movimento, sem que houvesse tempo para eu responder qualquer coisa.”

• CONTINUA no próximo Post.  

Texto, tradução, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

Clique e leia mais: “Rio Antigo (I)” , “Rio Antigo (II)” e “Rio Antigo (III)”

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(1) Nova Friburgo – freguesia criada na antiga povoação do Morro Queimado, então subordinado ao município de Cantagalo.

01/07/2017

RIO ANTIGO (III)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:34 am

♦ Passeio na serra dos Órgãos

Em 1844, o médico francês Yvan Melchior-Honoré, acompanhando uma missão oficial francesa, chegou na então capital do Brasil, em 28 de janeiro. Este terceiro Post, em seguimento ao anterior, é parte do relato que fez da sua visita.

post-serra-dos-orga%cc%83osTropeiros rumo à serra dos Órgãos (por Rugendas).

depois de alguns dias de descanso (na cidade do Rio de Janeiro), recebi com muito prazer o recado vindo do senhor(1) e senhora Lagrené, convidando-me para uma viagem que iriam empreender à serra dos Órgãos*, nas redondezas de Macacu** e Nova Friburgo. Iniciamos esse programa no dia 6 de fevereiro, pela manhã, embarcando no vapor que faz o percurso do Rio a Piedade. Logo estávamos a atravessar essa incomparável baía do Rio, semeada de ilhas sem nome. Ao passar pela Ilha do Ferro*** e pela charmosa Paquetá, toda florida, lançamos palavras e gestos de saudação. Esse pedaço de terra parecia sorrir aos viajantes, como se pedisse que visitassem suas praias. —  * Trecho mais alto da serra do Mar. / ** Cachoeiras de Macacu. / *** Ilha do Ferro, situada a leste da Ilha do Governador.

Até que chegamos a Piedade*. É uma espécie de entreposto, onde os fazendeiros podem encontrar mercadorias de necessidade e também colocam sua produção a ser enviada ao Rio, por barco a vapor. — * Freguesia de N. S. da Piedade, hoje Magé. Situada no lado oposto da baía.

post-porto-da-estrelaPorto da Estrela, no rio Inhomirim – atual Vila Inhomirim, Magé (por Rugendas).

Em certas partes do Brasil há imensos e bizarros magazines, onde armazenam objetos para serem postos à venda. Entrei num desses, em Piedade, que é uma espécie de hangar imenso e vi, empilhados do chão ao teto, tecidos de todos os tipos, roupas prontas de variados tamanhos, sapatos de todas as numerações, charutos, cigarros de variadas qualidades, champanha, vinho Bordeaux, unguentos, ferramentas para agricultura, velas, sebo, etc. Em exposição desordenada, vende-se quase tudo: bois, carneiros e, até mesmo escravos, e ao preço justo.

Foi em Piedade que encontramos os guias e as mulas, enviados pelo proprietário da fazenda da Serra, a quem faríamos uma visita. De imediato, cada um de nós foi munido com um bridão, enquanto arriavam nossas montarias. Há também a possibilidade de alugar cavalos, os quais são encontrados em grande número, contudo não acontece o mesmo com os apetrechos necessários para cavalgar.

Pusemo-nos então em rota, sob a condução de um feitor ou guia principal. Era um mulato corpulento, esbelto e forte, que tinha a cabeça envolta por um lenço de algodão azul e branco, e que portava gravemente uma enorme espora no seu pé nu. Logo que montamos nossas bestas, desabou sobre nós, furiosamente, uma chuva torrencial como só ocorre nos trópicos. Por isso mesmo, tivemos de enfrentar estradas inundadas e lamacentas.

post-baia-vista-serra-orga%cc%83osA baía vista da serra dos Órgãos (por Thomas Ender).

Essa parte do país é por demais insalubre. É tal e qual um imenso pântano, coberto por uma lâmina de água pútrida, que armazena nas plantas matérias animais em decomposição. Os miasmas que escapam desses lugares, infectados na maior parte do ano, engendram febres perniciosas de extrema violência, as quais têm dizimado a diminuta população dessas localidades tão pestilentas.

Partimos de Piedade às 5 horas da tarde e a noite logo envolveu-nos em sombras. Contudo, as claridades do céu e os pirilampos, verdadeiras lâmpadas vivas, cujas luzes acendem em intervalos, foram suficientes para alumiar o guia à nossa frente. Às 11 horas da noite, chegamos à pousada de don Gaetan – situada perto de uma vila –, onde pernoitaríamos. Naquele lugar, já se notavam as influências funestas dos pântanos da Piedade.

Por outro lado, à medida que aumenta a elevação acima do nível do mar, o clima torna-se mais saudável. Devido à altitude elevada, às vezes, em certos meses do ano, uma leve película de gelo forma-se sobre os lagos que vimos ao longo do caminho. Devido a essa friagem, a cultura de café é menos produtiva nas fazendas da região.

As costas do Brasil são protegidas por uma imensa cadeia granítica. Ela se prolonga desde o norte, atravessando as províncias do Espírito Santo, do Rio de Janeiro, de São Paulo e vai até Santa Catarina. Esse largo cinturão apresenta no seu topo saliências e depressões, às vezes intercaladas por lacunas abruptas. Parece até que o Criador ao construir tão bela natureza, acrescentou essas fortificações naturais, como se desejasse colocá-la ao abrigo de qualquer agressão.

post-faz-mandiocaCasa em propriedade rural na serra dos Órgãos: fazenda da Mandioca (por Thomas Ender).

Ao longo das terras que percorre essa cordilheira vai tomando diferentes nomes. Na província do Rio, a pequena distância da cidade, avista-se a serra dos Órgãos. O nome é devido à configuração dos rochedos que se destacam contra o céu. São formações graníticas, dispostas como tubos de órgãos. Porém, esses agudos picos não fazem apenas lembrar os instrumentos das catedrais. Pois dentre esses cilindros de pedra, sons estranhos escapam, completando a ilusão.

Também as vozes da tempestade, as árvores da floresta inclinadas pelo vento, os rugidos lúgubres das onças e os gritos dos bugios, ao percorrerem esses picos sonoros, produzem uma harmonia grandiosa. Superior às dos instrumentos fabricados pelo homem! Sentimos como se fosse a alma do universo acionando um formidável teclado. Em três quartos da sua extensão, a serra dos Órgãos é coberta por florestas virgens. Porém, a ausência de material granítico ocorre em grandes intervalos, onde há vales cultivados pelo homem. Ou, então, quando surgem bacias circulares desprovidas de árvores, nas quais bois e cavalos pastam natural e abundante erva.

post-orga%cc%83os

← Serra dos Órgãos, com o relevo Dedo de Deus.

O caminho que conduz da casa de don Gaetan à serra dos Órgãos é muito bonito, apesar dos terrenos acidentados que têm a se enfrentar. Então, seguimos por um atalho que serpenteia sobre o flanco de uma montanha e, à medida em que subíamos uma rampa, nossos olhares admirados começaram a abraçar um imenso horizonte. No meio da viagem, deparamos com um vale coberto de culturas, cortadas por numerosos córregos, moitas de bambu e algodoais. Ao fundo, avistava-se o mar, iluminado por um sol esplêndido. Naquele ponto, a paisagem estava emoldurada por uma cintura de rochedos negros, coroados de árvores verdes.

Logo que chegamos ao pico mais elevado o ar estava mais fresco. Ali, as espécies vegetais têm formas particulares, devido ao ambiente especial em que vivem. As borboletas também são diferentes, porém não são aqueles imensos morphos que vivem felizes no Corcovado, mas argynnis e argus.

Chegamos às 2 horas à casa do senhor Marsh – o proprietário da fazenda da Serra –, esse homem logo mostrou-se amável e distinto. Sua residência pareceu-nos confortável e bem equipada, e dele recebemos cordial e educada hospitalidade. Posso dizer algumas palavras do que deduzimos sobre nosso anfitrião…

Há cerca de uma vintena de anos, vivia no Rio um jovem negociante inglês, possuidor de grande fortuna. Morava numa residência suntuosa, muito bem montada e com numerosos escravos. Desfrutava de todo luxo, num padrão de vida de tanta opulência, que não importava se aquilo estivesse ocorrendo no novo ou no velho mundo.

De repente, esse jovem gentleman anunciou aos seus amigos que iria retirar-se para o interior, para viver no isolamento. Tivesse acontecido numa cidade francesa, certamente se assustariam com tal determinação e nem mesmo no Rio seria muito diferente. Somente os ingleses estão acostumados a conviver com esse tipo de excentricidade. Dentro dessa ótica, para eles, pareceria natural qualquer fuga para o exterior, afim de cometer suicídio ou fazer uma viagem aos antípodas.

Serra dos Órgãos: Fazenda da Serra, do senhor Marsh (por W. G. Ouseley)

Pois bem, depois de adquirir sua grande propriedade na serra dos Órgãos, esse jovem aventureiro foi tomar posse de seus domínios. E, numa atitude muito própria dos ingleses, resolveu colocar a grande fazenda a funcionar. Para isso, teve que contar com o trabalho de 300 escravos, de modo que a despesa se tornou elevada.

É bom lembrar que, na serra, situada bem acima do nível do mar, a temperatura não excede os 22 graus centígrados. Essa circunstância despertou no gentleman a ideia de estabelecer ali um caravansarai*, onde os viajantes pudessem viver algum tempo junto às belezas primitivas da natureza, mas comodamente instalados. Seria, também, uma casa de refrigério, destinada aos sofredores do Rio para que pudessem reconfortar-se sob a influência do ar fresco da montanha. Um retiro tranquilo, onde os homens fatigados desse mundo, cansados das preocupações que trazem os negócios, pudessem refugiar-se em completo isolamento. — * Pousadas para caravanas, que havia no Oriente Médio, Ásia Central e Norte da África.

Foi com essa finalidade que construiu a imensa casa, dividida em enormes apartamentos, para quem viesse com acompanhantes. Tinha também disponíveis pequenas habitações de três quartos, destinadas a quaisquer pessoas que decidissem viver longe da sociedade.

Esse filho de Albion*, educado no meio burguês, conhecia nossa literatura, era homem sem fronteiras e sabia exercer a profissão com habilidade. Além do mais, todos sabiam que era muito honesto nos negócios, de modo a não colocar o dinheiro em primeiro lugar. Com essas qualificações, conseguia administrar com sucesso seu castelo e pousada. —  * Albion: nome celta ou pré-céltico da Grã-Bretanha.
post-estrada-real

← Do Rio a Nova Friburgo, a excursão do doutor Yvan.

Contava com um gerente engravatado, usando luvas e bem vestido, que recepcionava os forasteiros e lhes oferecia gentil hospitalidade. Além disso, suprindo a falta de alguém mais próximo, essa mesma pessoa lhes servia à mesa com muita gentileza. Tinha ainda o auxílio de um vulgar açougueiro e mais um jovem serviçal para cuidar de receber os pagamentos dos hóspedes.

Logo que nossa comitiva chegou à serra dos Órgãos e para que ficássemos juntos, o gentil hoteleiro colocou à nossa disposição uma bela habitação, construída no meio da mata. Ao redor dela, haviam abatido árvores gigantescas que estavam a obstruir o acesso, o que resultou numa praça circular, convertida naturalmente em pátio.

Devido à poderosa fecundidade desse solo, os reis destronados da floresta foram substituídos por arbustos de flores brilhantes: quaresmeiras, brincos-de-princesa vermelhos, paineiras floridas, mimosas e cássias amarelas. A própria casa parecia um buquê de flores. O teto e as paredes estavam invadidos por trepadeiras de maracujá, cujos ramos penetravam pelas frestas no interior de todos os quartos. Estávamos num verdadeiro palácio de flores. O mais que víamos eram pétalas brilhantemente coloridas. O ar que respirávamos estava pleno de doces perfumes.

Por ter sido experiência de primeira vez, descrevo com cuidado esse intricado entrelaçamento de plantas, que vivem nas prodigiosas alturas. Sob a sombra de abóbadas, onde o sol mal penetra, há uma mistura de bambus, cipós e arbustos. A serra dos Órgãos é um desses lugares mais altos do Brasil, onde as plantas tentam se sobrepor umas às outras. Buscam nutrir-se com pouco de luz, mas ali também morrem. Quando se plantam algumas laranjeiras, bananeiras ou moitas de abacaxi, é certo que não se desenvolverão a contento e terão vida breve.

Os fazendeiros têm que ser hábeis para produzir nessas terras, sem a necessidade de aumentar o número de escravos. Para isso, têm procurado fazer melhoramentos em raças equinas, investir na produção de mulas e ao cultivo de frutas e legumes da Europa. A cultura de vegetais de origem europeia estava longe de dar bons resultados, nas tentativas do senhor Marsh. A maioria tinha boa aparência, mas quase todas as frutas careciam de bom sabor.

A pera perdia seu perfume e as uvas as propriedades refrescantes. A maçã, que parece mais adaptada ao clima, desenvolve-se razoavelmente, mas perde seu gosto original; o fruto têm a forma alterada e as sementes não se desenvolvem. Quanto aos outros vegetais, excetuando o feijão e a batata*, têm pouco agradecido ao solo americano mas, quase todos, me pareceram bem degenerados. — * A batata (Solanum tuberosum) é originária das regiões andinas. Lá é cultivada há 8 mil anos.

post-rio-inhomirimCaçando anta no rio Inhomirim (por Rugendas).

Na serra dos Órgãos tem-se uma agradável estada: a temperatura é deliciosa e os lugares são deslumbrantes. Nosso palácio de flores é frequentado por todas as criaturas aladas da região. Borboletas e besouros, vestidos como personagens de Perrault*, volteavam e zumbiam constantemente ao nosso redor. Papagaios, tangarás e colibris não se cansavam de visitar nossa casa. Essas delicadas aves, vestidas de brilhos, frequentavam o apartamento da senhora Lagrené mas, de tanta insistência, chegavam mesmo a cansar. — Charles Perrault, autor de contos de fadas.

Naquele lugar, tivemos o prazer de conviver com um velho médico que, além de dar assistência profissional aos hóspedes do senhor Marsh, servia de cicerone para os visitantes de mais distinção. Esse doutor tinha uns 60 anos de idade, mas era vigoroso e alerta. Sua fisionomia radiante, seu sorriso e atitudes educadas, denotavam possuir espírito elevado e bondade.

Ele nos falou de suas vivências nos quatro cantos do mundo. Fôra médico da marinha, titulado como Cavaleiro de Cristo*, diretor de explorações coloniais e, sempre que podia, procurava ser útil. Eu apreciava vê-lo nas nossas andanças falando de política, literatura e economia social. Enfim, de tudo que pode-se esperar de um homem inteligente. Sempre se dirigia a mim para discutir algum tema científico. — Honraria oriunda da antiga ordem eclesiástico-militar dos Templários.

Durante oito dias na Serra, ficamos por conta dos gostos e sugestões do senhor Marsh. Meus companheiros faziam diariamente passeios a cavalo pelos seus vastos domínios em torno da pousada. Quanto a mim, pela manhã, sempre mergulhava no interior da floresta, em busca de certos seres diminutos que vivem sob as cascas das árvores. Lembro-me bem e com alegria, dessas minhas aventuras no meio do silêncio.

Um negro cuidava de carregar minha bagagem, nela havia uma coleção sortida de redes, alicates e caixas. Eu carregava o equipamento até onde aguentava e, com uma machadinha na mão, cortava galhos das árvores. Do mesmo modo, rompia os arbustos entrelaçados de cipós que impediam meu caminhar. Com emoção, levantei as cascas de árvores caídas, onde abrigavam-se numerosos besouros. Diante de tantas surpresas, os tangarás, os pica-paus vermelhos e os papagaios chegavam a parecer aves vulgares.

post-cac%cc%a7adaCaçada na serra do Mar (por Rugendas).

O Brasil é a terra prometida dos naturalistas. As regiões montanhosas são as mais interessantes. Para aqueles que não desejarem estender demais a viagem, recomendo a querida serra dos Órgãos, onde vão encontrar tudo que possam imaginar. Costumam caçar onças nessas montanhas, a espécie carnívora mais temida das terras americanas. Para o caçador, seu enfrentamento é demasiadamente perigoso, mas há a opção pela anta, que tem maneiras mais dóceis e sociáveis. Muitas vezes, encontrei esse imenso paquiderme ao longo dos rios e na beira dos lagos. Fiz muitas vítimas entre os tatus, mas com alguma dificuldade, porque sempre estavam bem distantes de mim. O leitor certamente ficará surpreso, mas digo que as serpentes são muito raras nessa parte do Brasil.

Um réptil muito comum na serra é o iguana*, um grande lagarto, robusto, ágil e audacioso, que sobe nas árvores para caçar pequenas aves. Eu os vi atravessando as estradas, tentando capturar pequenos quadrúpedes. O senhor Marsh matou vários durante nossa estada, para servir à nossa mesa essa fina riqueza da culinária brasileira. — * Provavelmente um teiú.

Era meu propósito percorrer as alturas da serra dos Órgãos, até que chegou o esperado momento. Assim foi que, lá no cimo, consegui colocar as mãos na base dos grandes tubos de granito. Naquele momento era turva minha visão da pedra e vi nuvens transparentes movendo-se devagarinho. Em alguns instantes, percebi minha voz misturando-se com os ruídos da floresta, tal como fosse de u’a música do início do mundo, guardada naqueles nichos da pedra.

Admirei, lá embaixo, a cena magnífica de um tapete de folhagens contrastando com o mar azul. Na vasta extensão líquida, formavam-se cabos, enseadas e promontórios. E, para completar, o vento e o sol pareciam estar produzindo esculturas sobre as ondas. Porém, no meio dessa solitude, não fui capaz de perceber sequer uma habitação e isso fez surgir em mim um sentimento de tristeza. Assim, pude compreender que uma paisagem só se completará se tiver alguma manifestação da atividade humana.

post-selva-exuberanteÍndios na selva exuberante (por Rugendas).

Extenuado e sozinho, sentei-me à beira de um riacho e, de imediato, ouvi uma voz, mas não era dos escravos que me acompanhavam. Falava em inglês e contentei-me a responder com displicência, sem sequer voltar os olhos para verificar de onde vinham as palavras. Respondi como pude:

‘- Que deseja, senhor? Não compreendo o inglês.’

Ouvi a resposta:

‘- Esses franceses são engraçados!’– com um acento tipicamente britânico. ‘- Acham que todo mundo conhece sua língua. Falam apenas o francês!’

Então levantei-me, vi a pessoa e repliquei:

‘- Tem razão. Os franceses têm a pretensão de acreditar que sua língua é universal. Mas sofrem pelo descuido, sempre que metem o nariz fora da sua terra.’

Meu interlocutor plantara-se sobre um rochedo, tal e qual um caçador de camurça na borda de um precipício, rígido sobre as pernas. Vestia polainas de couro e um traje arredondado, e trazia uma enorme faca pendurada na cintura. Seu rosto rosado e de tez fina, tinha como moldura uma bela barba ruiva. Era grandão e forte, e sua aparência transmitia um jeito franco e aberto, o que contava a seu favor. Então, depois de lançar-me um olhar explorador, aquele filho de Albion anunciou:

‘- Sou mister Braone*. Você quer repousar em minha casa? Gosto muito dos franceses.’ — * Corruptela do inglês Brown ou Browne.

Daí, eu disse meu nome e, usando a mesma fórmula que adotara ao tratar comigo, acrescentei:

‘- Com muito prazer, vou descansar na sua casa. Gosto muito dos ingleses.’

Acredito que, ao exagerar na minha assertiva, devo isso à maneira bizarra como ocorreu nosso encontro.

Então, depois de atravessar uma fenda circular, cavada numa pedra de granito, pude alcançar a propriedade de mister Braone. Devo afirmar que esse moderno Prometeu gentilmente estendeu-me sua mão. Porém reconheço que, ao observar seu rosto corado, fez-me pensar que havia um abutre a roer-lhe o coração. No meu modo de entender, somente um louco, ou um sábio, poderia viver naquele isolamento. Perguntava a mim mesmo: em qual dessas categorias poderia classificar meu novo relacionamento?

O senhor Braone introduziu-me a um pequeno salão devidamente mobiliado. Era um cômodo comprido e estreito, vazado por três janelas acortinadas e mobiliado com um sofá, mais cadeiras de vime. Instalou-me diante de u’a mesa, sobre a qual estavam garrafas de vinho do Porto, licor, conhaque e rum, e havia um grande livro ao lado.

post-negras-de-debretNegras retratadas por Jean-Baptiste Debret.

Logo que me assentei, o senhor Braone, desculpando-se, retirou-se por instantes. Um quarto de hora depois voltou, conduzindo sob o braço uma jovem negra. Essa moça, que poderia ter bem uns 18 anos, estava trajada com um vestido branco e um enorme xale, do uso de algumas damas inglesas. Cobria-se com um chapéu azul, harmonizando com o resto do traje e calçada com sapatos rústicos, em couro preto, que cobriam-lhe os peitos do pés. Suas mãos vestiam luvas. Ela denotava estar muito desconfortável assim vestida.

A pobre criatura tinha um ar de pânico, expressão comum aos negros daquelas plagas. Trazia três fortes cicatrizes abaixo do nariz. Quase todos os negros a pouco introduzidos nas colônias europeias têm esses sinais, resultantes de algum ferimento que, propositalmente, costumam aplicar-lhes na juventude. Isso ajuda na constatação de suas identidades, contudo, não submetem a essa barbaridade os negros crioulos* . — * Crioulo: negro nascido e criado no Brasil.

O senhor Braone postou-se diante de mim, ainda com sua companhia apoiada nos braços e ambos inclinaram-se ao mesmo tempo. Então, referindo-se à jovem negra, disse ele: ‘- Esta é madame Braone!’

Contive o riso e cumprimentei a bizarra dupla, mas faltaram-me palavras para fazer algum comentário. O gentleman, depois de inclinar-se mais uma vez, rodopiou sobre os pés e afastou-se, levando consigo aquela singular madame Braone.

post-negra-c-xale← Negra com xale.

Ainda não havia me recuperado do susto, quando reapareceu o senhor Braone dando o braço a outra negra. Essa, mais jovem que a primeira, usava certamente os mesmos trajes que a outra desvestira, mas como a anterior era de porte mais avantajado, dessa feita parecia um vestido de cauda. O senhor Braone, fiel aos costumes do seu país, o qual estava a adotar nessas apresentações, se inclinou de novo diante de mim, dizendo:

‘- Esta é outra madame Braone.’

Diante da declaração inusitada, dessa feita não foi possível me conter e dei uma imensa gargalhada. Minha barulhenta hilaridade não incomodou o anfitrião. Contentou-se em olhar para o alto e logo exclamou:

‘- Oh! Esses franceses, se escandalizam com tudo!’

E eu retruquei:

‘- Não se escandalizam exatamente com tudo, meu caro senhor Braone, de fato os franceses se encantam com tudo!’ Por favor – acrescentei, sem poder conter o riso – quem foi o padre que abençoou o duplo casamento? Talvez possa recorrer a ele em caso de necessidade.’

Sem pestanejar, prosseguiu o senhor Braone:

‘- O padre sou eu. Casei-me por conta própria.’

‘- Meu caro senhor Braone, ao praticar esse jogo, você acabará pendurado como um cão e amaldiçoado como um judeu! A poligamia é um caso abominável e maldito.’

‘- Oh! Oh!’– disse o gentleman. ‘– Em França e Inglaterra eu estaria perdido, sim! No Brasil, não! Não serei condenado, aqui sou visto como Abraão e Jacó, e bem farei se povoar esse deserto.’

‘- Mas você é cristão, suponho…’

‘- Em Londres ou Paris, sim. Aqui sou patriarca. Conheço a Bíblia melhor que você my dear* (*meu caro). É o único livro que tenho lido há seis anos’– apontando o grosso volume sobre a mesa. ‘É dela que tiro minha única regra de conduta. A Biblia não é, como se pensa, a história de um povo. É a lei escrita, tomando como exemplo os homens na civilização, na barbárie e no patriarcado. Aqui vivo no patriarcado… Oh, não! Jamais serei condenado!’

‘- Meu caro senhor Braone, admiro sua interpretação da Bíblia, mas ela é novidade! E você compreende perfeitamente seus deveres de patriarca?’

‘- Oh, sim! Compreendo bem. Você vai ver…’

Logo em seguida, pegou um chicote que estava pendurado atrás da porta. A empunhadura desse instrumento de correção possuía um apito, do qual tirou sons agudos. Imediatamente, vi adentrar no salão cinco ou seis figurinhas grotescas, de cor marrom, que se postaram silenciosamente, lado a lado, na posição de soldados em armas. O inglês mirou-os com satisfação e, em seguida, me disse:

‘- São os pequenos Braones! Quando crescerem, deixar-lhes-ei tudo que aqui possuo: esta casa, estas montanhas, estas terras. Serão mais ricos do que se fossem filhos de escravos e, então, tratarei de me ocupar com a tarefa de povoar Sidney*… Oh! Se todos fossem iguais a mim, todas as colônias logo estariam como formigueiros!’ — * Sidney, na Austrália.

De fato, fiquei pasmo diante do senhor Braone. Até então, não podia acreditar que alguém pudesse ser tão louco, mas aparentando ser normal. Depois de um momento de silêncio, prossegui:

‘- Você bem sabe que, retornando à França, eu relatarei sua maneira de viver e as circunstâncias em que nos conhecemos, mas ninguém irá acreditar.’

‘- Oh! Certamente, não lhe darão crédito’ – replicou vivamente o gentleman. ‘- Os franceses irão considerar esses fatos por demais extraordinários para acreditar. Quanto voltar, ao dizer apenas o que viu, é claro que vão lhe acusar de ter inventado. Oh, sim!’

Essa ideia do senhor Braone feriu-me, por conter tanta franqueza. Assim, estou procurando escrever exatamente, muito exatamente o que pude ver, e não quero ser acusado de exagero.

Ao decidir ir-me embora, o senhor Braone tentou convencer-me a passar a noite com ele. Contudo, não pude atender ao seu desejo, pois meu grupo iria partir da serra na manhã seguinte e teríamos que fazer a viagem a pé, durante o dia. Diante disso, o senhor Braone conduziu-me à saída, passando pela cozinha, onde vi uma negra velha ocupada em preparar dois macacos, que tinham não mais que 60 centímetros de comprimento.

Naquele momento, disse-me o senhor Braone, mostrando a iguaria:

‘- Se desejar permanecer, eis nosso jantar!’

post-saturno-devorando← Saturno devorando o próprio filho (por Francisco de Goya).

Fiquei horrorizado! Naquele momento imaginei-me convivendo com um monstro. Os dois pequenos corpos davam a impressão de serem criancinhas. Veio ao meu pensamento aquela cena de Saturno devorando seus filhos. Mas, na sua postura impassível, o inglês tranquilizou-me, dizendo que poderia comer os macacos sem ser taxado de canibalismo. Então apenas apertei sua mão, que cordialmente me estendera…

Voltei à nossa pousada na serra e os companheiros pediram para que narrasse os acontecimentos do dia. Contei-lhes da visita ao senhor Braone, mas eles não acreditaram numa palavra sequer. Como iríamos partir no dia seguinte, não puderam verificar a veracidade dos fatos, por isso permaneceram apenas com a minha versão. Depois disso, fiquei matutando sobre a profecia do senhor Braone e, hoje, acredito que o patriarca da serra é um sábio.

No momento de deixar nossa deliciosa habitação, aproximou-se de mim um negro – era o companheiro de minhas caminhadas – e ele estendeu-me timidamente as mãos. Entendi que pedia um agrado e, então, dei-lhe algumas moedas. Mas recebeu-as sem entusiasmo e ainda mantendo a mesma expressão de súplica. Nesse caso constrangedor, lembrei-me do senhor Braone, ao dizer-me que quando um negro depara-se com um branco, sempre estende suas mãos vazias, mas não a pedir qualquer coisa de material.

Imploram, sim, algo de espiritual, uma espécie de benção(2). E o costume é dizer: ‘- Que Deus te faça Santo!’* Mas penso que mais correto seria responder a tal prática com uma atitude de sinceridade e harmonia, pois essa gente desafortunada merece. Por que não dizer?: ‘- Que Deus o faça merecedor da liberdade!’ — * Expressão antiga, semelhante ao “Que Deus te abençoe!”, mas especialmente dirigida aos negros.

Porém, estou convicto que esse voto como o precedente, ambos certamente iriam se perder no espaço e no tempo, sem qualquer eco. Isso porque, no martirológio* do Brasil, não há nenhum santo negro.” — * Lista com nomes de santos.

post-no-paraibaNatureza exuberante na região do rio Paraíba do Sul (por Debret).

NA REGIÃO DO PARAÍBA

caminho que estávamos a percorrer atravessava a serra dos Órgãos, até chegar às margens do rio Paraíba*. Nos afluentes desse rio, encontram-se populações caboclas**. Elas vivem do produto da caça e da pesca, mas dedicam-se também a algumas atividades produtivas. É nessas comunidades que a maioria dos viajantes estrangeiros têm vindo estudar os hábitos dos indígenas, pois são eles os legítimos representantes do antigo povo da terra***. Da mesma maneira, no século passado, o chevalier M. Florian pesquisou, no entorno de Paris, os hábitos arcaicos dos camponeses. — * Rio Paraíba do Sul, corre ao norte da serra dos Órgãos. // ** Caboclo: indivíduo nascido de branco e índio. // *** Índios puris e coroados.

Mantivemos nossa rota durante boa parte da jornada, até notarmos que nosso principal guia havia nos abandonado sem avisar. Certamente foi consequência da infeliz ideia de terem lhe oferecido uma dose de aguardente. Tivemos então de aguardar seu retorno e, nessa expectativa, fizemos pausa em um parador, lugar de repouso dos tropeiros dessas plagas.

No momento em que ali chegamos, havia uma caravana estacionada numa praça circular. Esse albergue primitivo compõe-se de um galpão coberto de folhas de palmeira e serve de repouso para os viajantes. Há também um curral ao lado, para prender os animais. Nessas ocasiões, as mulas são descarregadas e os negros aproveitam para preparar sua comida.

Tendo em vão esperado nosso guia, decidimos a continuar meio sem rumo, por algum tempo. Até que o encontramos tranquilamente deitado ao pé de uma árvore, desfrutando da condição de homem livre que era. Depois de retomar em segurança a caminhada, penetramos numa admirável floresta de palmeiras e samambaias arborescentes*. A presença desses vegetais anunciava que estaríamos descendo em direção às regiões mais quentes. Também a atmosfera causava essa impressão. — * Samambaiaçus. Do tupi-guarani: sama-mba = o que torce; açu = grande.

post-floresta-serra-do-marNatureza da serra do Mar (por Debret).

Durante todo tempo, atravessamos esse lugar com admiração, até chegarmos onde dois caminhos se cruzavam. Ali, encontramos um negro velho que nos orientou. Deveríamos seguir uma trilha à direita, onde haveria uma casa por perto. Diante disso e sem hesitação, adentramos numa espécie de ravina* estreita e íngreme, rodeada por árvores gigantescas. — * Escavação no solo produzida por chuvaradas.

Aos intervalos, encontramos magníficos bovinos a nos encarar com curiosidade. Quando nos aproximamos, alguns animais mostraram-se enraivecidos, outros decidiram nos acompanhar por algum tempo. Depois, foram nos abandonando, ao mesmo tempo em que lançavam olhares admirados. Contudo, a presença da criação não foi indicativa de alguma casa, pois somente a encontramos somente 1 hora depois, ao descermos uma forte rampa. Era um miserável casebre, rodeado por um enorme descampado (pasto fechado, manga), utilizado para guardar os animais. Um mulato, sua mulher e filhos eram os proprietários.

Disseram eles existir uma venda, distante 1 hora daquele lugar, cujo proprietário era Pedro Espanhol. Desse modo sendo orientados, daquela morada partimos. Depois de 12 horas de marcha, às 7 horas da noite, deparamo-nos com uma horrível habitação. Ali, uma velha e seu filho, feioso homenzinho de um pé torto, eram os únicos moradores. Tão logo nos aproximamos, apressaram-se em dizer que não podiam oferecer comida nem abrigo. O proprietário estaria ausente e não poderiam fazê-lo sem sua autorização, principalmente devido ao avultado número de viajantes que éramos. Logo disse a velha:

‘- Tomem suas montarias e sigam até a fazenda do capitão Custódio, onde poderão receber completa hospitalidade, sem que nada lhes custe. Meu filho os acompanhará, se quiserem.’

Mas ali ainda permanecemos por alguns instantes. Diante da porta de entrada havia um enlameado, onde um porco alimentava-se de restos de comida. O interior era escuro e mal-cheiroso, e não havia sequer um cobertor para servir de agasalho, nem uma cadeira para sentar. No quintal, via-se um punhado de patos e um cão sarnento acompanhando a velha.

Houve tanto empenho da mulher em nos despachar, que nos apressamos a atender seu desejo. De fato, a tal venda do senhor don Pedro Espanhol mais parecia um covil de bandidos do que um albergue. Verdade é que ficamos admirados com a sabedoria e sutileza da velha, por ter-nos afastado daquela imundície.

Depois dessa breve parada, tornamos a montar em nossas mulas, porém acompanhados do homenzinho do pé torto, novo guia da nossa cavalgada. Uma hora após a partida, chegamos à casa do capitão Custódio. A entrada da fazenda estava fechada por uma porteira. Os cães ladraram e os escravos se apressaram a receber nosso grupo, que já estava a adentrar impetuosamente. Sem tardar, o Pé Torto pediu para falar com o senhor administrador, que acorreu prontamente.

Nosso porta-voz lhe expôs as dificuldades e o desejo de encontrar uma pousada. Tão logo recebeu o pedido, o homem abriu a porteira. Daí, adentramos por um largo corredor, através do qual alguns negros nos guiaram portando tochas. O habitáculo ao qual fui conduzido era de padrão inferior ao do resto da casa. Compunham-no três pequenos cômodos contíguos, com a aparência de quartos de vestir. Ali jogamos esteiras para descansar, enquanto aguardávamos o jantar. Desde o amanhecer, nada havia entrado em nossos estômagos, senão um pouco de farinha de mandioca e uma xícara de chocolate.

Finalmente, às 10 horas, sentamo-nos à mesa. O jantar compunha-se de aves, uma porção de arroz, feijões pretos – parecendo pérolas negras – e farinha de mandioca. Tanto pela fadiga, quanto pelo sono, não conseguimos permanecer muito tempo na sala. Por isso, logo fomos nos meter debaixo das cobertas e, então, caímos em sono profundo. Logo na madrugada, às 4 horas, já estávamos de pé. Os escravos saiam das suas casas com destino ao trabalho. Ouvimos ruídos de carpintaria e pancadas em bigornas.

A fazenda lembra uma pequena vila. A habitação do capataz é circundada pelas dos escravos. Há também edificadas, todas próximas, cobertas para a preparação do chá, do café e do açúcar. O chá só começou a ser cultivado no Brasil há uns 20 anos e já apresenta considerável produção. A exportação tornou-se a mais importante graças ao seu condicionamento em caixas, no mesmo feitio daquelas que vêm da China.

Contudo, é preciso considerar que existe uma grande diferença entre o chá do Brasil e o do Celeste Império. O chá brasileiro, pelo seu aroma e azedume adstringente, nada tem em comum com o chinês. Acredito mesmo que o do Paraguai*, que de fato não é um chá, é preferível ao chá brasileiro. — * Chimarrão. 

post-moendaEngenho de açúcar (por Rugendas).

Quanto à fabricação do açúcar, penso que deixa muito a desejar. Os fazendeiros não têm noção dos atuais progressos dessa indústria, tal como ocorre na Europa. De acordo com o capitão Custódio, os equipamentos para a confecção dos produtos compõem-se apenas de uma moenda, cinco caldeiras – dispostas em série – e um aparelho destilador.

A moenda é tocada por uma roda d’água, que faz funcionar três cilindros de metal. Esse mecanismo é insuficiente para retirar das hastes toda a sacarina contida. As caldeiras, onde se faz o clareamento e o cozimento do xarope, são no processo de fundição. O espessador e a própria disposição do forno, não permitem regular o fogo de maneira conveniente. Quanto ao destilador, para produzir a aguardente – a cachaça –, é no feitio daquele construído séculos atrás por Arnaud de Villeneuve. É a mesma máquina que vimos desenhada nos livros de alquimia.

A aparelhagem deficiente e o processo tosco, fazem com que o produtor deixe de retirar da cana tudo que ela pode oferecer. Perde-se grande quantidade de substância cristalizada e seus álcoois exalam um gosto desagradável. Porém, apesar de tantas coisas negativas, compensa a fecundidade dessa terra, pois ajuda os produtores a obterem lucros consideráveis, mais do que em outros países tropicais.

As mesmas considerações sobre o açúcar, podem igualmente aplicar-se à produção do café. A polpa do fruto é muito mal aproveitada, devido ao descuido no serem ensacadas. Isso afeta o processo de fermentação, prejudicando a qualidade final do produto. Em algumas fazendas na vizinhança do Rio de Janeiro, a colheita tem sido aprimorada. Primeiramente lavam os frutos, imediatamente após a colheita. Em seguida, os remetem a um descascador, onde são separadas as partes moles das duras. Na fazenda do capitão Custódio cultiva-se um pouco de arroz e a produção tem alcançado os mesmos níveis das melhores terras da Índia. E, tal como lá, pode-se obter várias safras anuais no mesmo solo.”

Texto, tradução, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

CONTINUA no próximo Post. / Clique e leia mais: “Rio Antigo (I)” e “Rio Antigo (II)”

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(1) LAGRENÉ, Théodore de – (*14.03.1800 / †26.01.1862) Chefe da missão e, posteriormente, embaixador extraordinário da França na China. Casado com Warinka Doubenski – senhora Lagrené – (*1806 /†1901), que fora demoiselle d’honneur da imperatriz da Rússia.

(2) QUE DEUS TE FAÇA SANTO – Extrato do jornal “Sete d’Abril”, Rio de Janeiro, 16.12.1835, p.3: … se despedio o pobre negrinho com um Deus te faça Santo.” // Em “A Madresilva”, drama de J. S. Mendes Leal, Lisboa, 1847, p. 43: “… Deus te faça Santo… Endiabrado! E a serafina!… Ora, louvado Deus…”. / Serafina: variedade de baeta espessa, geralmente com desenhos ou debuxos.

01/06/2017

RIO ANTIGO (II)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:44 am

♦ A cidade e os arredores

Em 1844, o médico francês Yvan Melchior-Honoré, acompanhando uma missão oficial francesa, chegou na então capital do Brasil, em 28 de janeiro.(1) Este Post é o segundo, em seguimento ao anterior, parte do relato que fez da sua visita.

post-palacio-s-cristova%cc%83oResidência imperial: Paço de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista.

NA CIDADE

logo que chegamos ao Rio de Janeiro, visitamos diversos estabelecimentos dessa grande cidade. Escalamos as montanhas, percorremos por todo lado a graciosa baía, vimos as ilhas que ela abriga e, enfim, perguntamos: ‘- Quem aqui governa?’ Enganar-se-ia aquele que imaginasse quem seriam aqueles homens postados sob os arcos do Paço Imperial*, vestidos em trajes militares e em permanente ócio. Tampouco seriam os raros padres vistos nas ruas, quem pudesse levar-nos a acreditar que tudo giraria em torno da sua força moral, à qual o povo estaria submetido. — * Palácio Imperial e sede administrativa.

Por outro lado, dúvida não resta, seria necessário procurar o poder naqueles que possuíssem propósitos mais elevados. Porém percebe-se logo que, neste país distante, poucos são os homens dedicados ao benefício do povo, embora nem agentes secundários para tanto existam. Cada indivíduo age por si só, sob sua própria vontade e seus interesses, dentro do que, aparentemente, lhes parece permitir a lei. Enquanto aguardava a apresentação da minha comitiva à sua majestade – o Imperador –, essas dúvidas tomaram conta do meu pensamento.

post-pac%cc%a7o-imperialPaço Imperial – sede do governo e casa de despachos –, no centro da cidade.

O encontro com d. Pedro II teve lugar no Paço de São Cristóvão, residência oficial, situada a pouca distância da capital, num lugar bem arejado e de uma perfeita salubridade. O Imperador possui um porte elegante, sua fisionomia é grave, embora juvenil, denotando também inteligência e bondade. Cabelos louros e olhos cobertos por longos cílios, dão ao seu rosto uma expressão de charmosa candura*. — * D. Pedro II tinha 18 anos de idade e estava recém-casado.

Sua majestade vestia dragonas de tenente-general e o traje completo fazia lembrar o velho uniforme da cavalaria. Mas não se tratava de uma vestimenta autenticamente militar, a qual faria completar sua postura naturalmente distinta. Gostaríamos de ter sentido um sinal de mais de ousadia e mais poder vindos do comandante, nesses dias de fundação do vasto e ainda mal organizado império. Além disso, sua aparência denotava pouca propensão à pratica de exercícios físicos mas, talvez, lhe faltasse a energia necessária.

Recebemos do imperador boas-vindas, com gentileza e simplicidade. Fomos também apresentados à Imperatriz e à princesa Januária*, que fala francês com extrema desenvoltura e graça. Quando estivemos no palácio, nossa acompanhante, a senhora Lagrené, permaneceu conosco por mais de 1 hora. Depois que nos retiramos, ainda ficou lá por muito tempo. Na nossa audiência, estávamos liderados pelo senhor Lagrené(2), ministro plenipotenciário e chefe da missão. Ele estava acompanhado da esposa, senhora Lagrené e duas filhas, senhoritas Gabrielle e Olga. — * Januária, irmã de d. Pedro II e filha de d. Pedro I.

post-pedro-palacioD. Pedro II, em 1842. Ao fundo: Paço de São Cristóvão, na configuração mais antiga.

O palácio de São Cristóvão não tem a mesma grandeza e magnificência de Saint-Cloud, de Neully, nem de qualquer das residências reais da França. Entretanto, tudo ali é confortável e de bom gosto. O Imperador, que ama apaixonadamente a literatura francesa, coleciona muitos livros da nossa língua e, numa sala, vimos novidades literárias da França, arranjadas sobre mesas e porta-livros.

É impossível passar pela residência imperial sem ter lembranças da mademoiselle princesa de Joinville* que, quando morou nessa casa, foi seu ornamento e deu-lhe vida. As boas memórias que deixou e o interesse pelo seu nome ainda repercute no Rio. São resultado dos seus melhores sentimentos de afeto, os mesmos que incutiu à sua nova família na França(3). — * Francisca, irmã de d. Pedro II, havia se casado.

De São Cristóvão partimos ao fim do dia e vimos numerosas viaturas passando ao nosso lado. Havia muita movimentação em torno do palácio. E não poderia ser de outra forma, o ministério fôra dissolvido e estavam a constituir outro. Para nós, isso não despertou maior interesse e, por isso, logo nos afastamos. Porém, continuamos pensando no jovem imperador, calmo e sério, em cujos ombros repousavam os destinos de um imenso império. Nessas condições, via acumular inúmeras demandas em torno de si. Consequência daquilo que havia prometido às pessoas de bom coração e inteligência elevada.

post-teresa-_-francisca-_-januariaImperatriz Tereza Cristina. / Francisca – princesa de Joinville – e Januária, irmãs de d. Pedro II.

Os brasileiros de origem portuguesa, por serem homens de raça ibérica, têm hábitos descuidados, mas são ardentes e apaixonados em suas ações. Por vezes, tornam-se exaltados e vingativos, sobretudo quando tomados pela ambição ou pelas paixões, tais como a raiva ou o amor. Por outro lado, nota-se que é próprio deles evitar convivências muito próximas. Em vista disso, em sua maior parte, vivem fechados em seu núcleo familiar. São verdadeiros santuários, onde ninguém entra com facilidade, porque mantêm as portas sempre cerradas.

Por outro lado, quando alguém se atreve a lançar um simples olhar às suas donzelas cativas, sua mulher legítima ou seu escravo, o chefe despótico redobra as precauções. Pelo lado da religiosidade, mostra-se de profunda ignorância e se atêm apenas às práticas exteriores do culto. Nesse aspecto, o guia espiritual não exerce sobre ele qualquer influência e não poderia ser de outra forma.

Nessa terra, a maioria dos padres são europeus e foram afastados da sua diocese por algum delito. É o motivo pelo qual foram recolhidos a essas longínquas paragens mas, apesar disso, continuam a demostrar falta de qualquer reserva no seu comportamento. A hierarquia episcopal é impotente para manter a disciplina e quase não existem sacerdotes nativos. A única maneira de regenerar esse corpo gangrenado, seria subordinar a administração das paróquias a uma congregação religiosa. Tomei conhecimento de que, para tentar corrigir esse péssimo estado de coisas, alguns sábios prelados haviam feito gestões no sentido de que se enviassem missionários.

post-m-yvan← Doutor Yvan Melchior-Honoré.

O enfraquecimento da fé entre a população é um sinal de deterioração do caráter nacional. Por outro lado, se vê que toda essa gente da cidade vai adquirindo, dia-a-dia, um caráter cada vez mais francês. Essa tendência é facilmente explicável, pelo fato de grande número de brasileiros terem estudado na França. As pessoas de maior influência social, tais como médicos, advogados e jornalistas, são franceses. Além do mais, devido ao hábito que têm em adquirir seus objetos dos desejos das mãos de comerciantes franceses, tais como aqueles de moda pessoal, os móveis, vinhos e tecidos, acabam então por se identificarem, cada vez mais, com o nosso estilo de vida.

Digo ainda, sem falso orgulho, que a civilização francesa penetra não apenas pelos seus próprios agentes, mas graças a certas mulheres que, ao verem aproximar seu próprio outono, fazem tudo para imitar o que há de melhor em Paris. Por isso é que se vê, em certos salões do Rio, pessoas a praticarem os mesmos hábitos fúteis de Mabille* e Chateau-Rouge**. Infelizmente, o modelo que vem de outro país, faz com que eles também adotem muitos dos seus vícios e menos das qualidades. — * “Le Bal Mabille”: salão de dança, fundado em 1831 – Paris; ainda existe. / ** Praça do “Chateau Rouge”, situada no “18º arrondissement” – Paris.

Tão numerosa é a população de origem francesa no Rio que, nos arredores da cidade, instalaram-se casas noturnas e cabarés populares, frequentados quase que exclusivamente por operários do nosso país.

post-m-delahante

← Fernand Delahante, diplomata francês.

Num dia de domingo, eu e o senhor Fernand Delahante(4), estávamos a descer do Corcovado, mas já atormentados pela fadiga. Porém, em certo momento, necessitando reparar nossas forças, saímos procurando por um repasto n’algum lugar. Por ali mesmo, alguém nos indicou uma venda, situada a alguns passos do nosso caminho. Então, subimos um aclive e deparamos com uma pequena colina coberta de árvores floridas. No momento em que nos aproximávamos da habitação, ouvimos gargalhadas e cantorias bem francesas, um anúncio de que iríamos encontrar compatriotas e com quem faríamos amizade.

Chegando lá, de fato deparamo-nos com uma quarentena de jovens operários. Havia numerosas mesas cujos apoios eram tonéis e, em torno delas, cantavam e bebiam com alegria recordando a pátria! Além do vinho e dos convivas, tudo era francês, e mais a dona do cabaré, a senhora Breissan – mulher exuberante e alegre. Ela possuía resposta pronta para qualquer pergunta e parecia ser muito querida pela clientela. Então, logo aderimos à pequena multidão e, com esses bravos e efusivos convivas, passamos a repartir prazeres. Não faltaram os temperos, nem os vinhos.

A maioria dos operários orgulhava-se da sua posição e nenhum deles se arrependia de ter abandonado seu país, por algum tempo, para fazer fortuna. Contudo, suas conversas não tinham por tema a França, embora de vez em quando denotassem saudade. ‘- Ah! Se a França tivesse o clima do Rio, a baía do Rio, os ferros e o carvão da Inglaterra!’, gritavam a uma só voz. Porém, nenhuma palavra soava de modo a acreditar que faziam isso ou algo mais pela pátria!

Mal sentamos à mesa comum, abordaram-nos com vivacidade querendo saber notícias. A cada pergunta, denotavam o mais vivo e verdadeiro amor pela terra natal. Indaguei, à senhora Breissan, se os operários de outras nações frequentavam seu estabelecimento. Ela respondeu:

post-alto-corcovadoVista do alto do morro do Corcovado (por Alfred Martinet).

‘Aparecem alguns, de vez em quando. De todo modo, aqui as coisas têm ido bem, a não ser pelo pagamento que recebemos pelo trabalho e pela precária qualidade das mercadorias, e bem como pela pouca clientela. Porém, quando o tema das conversas é a França e suas batalhas, as cabeças se esquentam, surgem conflitos, brigam e não há como se entenderem.

Outro dia, entraram em luta com uns ingleses que, embora sejam calmos na aparência, não são menos sensíveis quando se trata da honra nacional. Prefiro vê-los apartados e, se brigarem, desejo que não se machuquem.’

Essas palavras da senhora Breissan bem definem o caráter dos nossos trabalhadores no exterior. Seu calor patriótico é sempre excessivo, arrogante e mesmo um pouco selvagem. Isso se dá porque essa gente ingênua entende que somos superiores em tudo. E, em caso de discussão, não encontram argumentos que possam substituir a força muscular que Deus lhes deu. Foi nesse ambiente que passamos uma parte da tarde a contar casos, entre nossos bravos compatriotas, até que partimos, encantados com sua verve, sua franqueza e seu bom humor.”

NA TIJUCA

o dia seguinte, levantei-me às 5 horas da manhã para visitar o lugar chamado Tijuca, situado a pouca distância da cidade. O dia estava delicioso, o frescor do ar e o céu, de uma pureza admirável. Decidi então juntar-me ao pessoal do meu grupo que, não contando comigo, já havia partido. Tão logo me aprontei, escolhi um bom cavalo e saí alegremente a galope, pela estrada que conduzia ao jardim botânico. O caminho é ornado com belas habitações, próximas aos lagos interiores que se comunicam com o mar.

Depois de 1 hora de animado passeio, alcancei os companheiros num lugar muito pitoresco, chamado Gávea. Naquele momento, preparavam-se para atravessar uma extensão de água salgada denominada Lagoa*, comunicante com o mar. — * Lagoa Rodrigo de Freitas. 

post-lagoa-r-freitasLagoa Rodrigo de Freitas (por Nicola Facchinetti, c. 1884).

Éramos muitos, embora contássemos com duas pirogas longas e estreitas, as únicas embarcações que o ‘almirante desse Mediterrâneo’ nos ofereceu. Contudo, para acomodar a todos, ele usou de um estratagema que pareceu-me criativo. Colocou, sobre as pirogas, um par de pranchas largas e amarrou-as fortemente, de modo a todos transportar nesse precário veículo. Depois remou cautelosamente, para realizar a travessia do lago. As margens da lagoa são adoráveis! Em meio a flores azuis, grandes libélulas inclinam-se e banham suas cabeças na água. E há, grudadas nos arbustos, milhares de ostras brancas, que se assemelham a pétalas murchas.

Mas, tenho de confessar: naquele instante, emocionei-me com tanta beleza na natureza. Porém, a cada movimento que fazia, meus companheiros de viagem reprimiam meu entusiasmo, de modo a tornar um tanto cansativas as nossas 2 horas de navegação.

Chegando à terra, dirigimo-nos a uma plantação de café, onde encontramos negros dedicados a almoçar. Eram homens de 30 a 40 anos de idade, escuros como couro envernizado, troncudos e bem musculosos, e pouco vestidos. Uns acendiam o fogo; alguns deles, já agrupados em roda, comiam espigas de milho e conversavam. Outros tantos, permaneciam à beira do lago, recolhendo pequenos crustáceos para assar na brasa ardente.

A ração desses escravos compunha-se de farinha de mandioca, ou milho verde, e alguns crustáceos, que eram acrescentados como suplemento alimentar muito necessário. Ainda estávamos a observar essa cena animada, quando trouxeram nossos cavalos e, dali, retomamos nosso roteiro em direção à Tijuca, onde chegamos 1 hora depois.

post-cascata-da-tijucaOs dois rochedos (à esquerda) e a cascata da Tijuca (por Débret).

Em meio a essa natureza espetacular e plena de magnificência, num país cujos riachos parecem rios caudalosos, há montanhas vestidas de flores. Elas furam as nuvens com seus picos agudos. Há, também, exuberante vegetação que invade até mesmo os rochedos e que deslumbram os turistas quando chegam à Tijuca. Ali, depara-se com um curso d’água de pouca força e com uma cascata que despenca na direção de dois rochedos, de 30 pés de altura*, superpostos um ao outro, alcatifados de trepadeiras emaranhadas e árvores frondosas. — * 30 pés = 9,144m.

Os viajantes mais curiosos têm o dever de guardar essas impressões. Mas, se por ventura as revelarem a outrem, todos que quiserem repetir seus passos devem tirar suas próprias conclusões. Porém, que não sejam influenciados pelos padrões dos viciados em monomanias admirativas! Creio que foi por isso que nossos guias ficaram um pouco frustrados, diante do nosso desapontamento(4) frente a propalada beleza da floresta da Tijuca*. — * Entende-se que os viajantes transpuseram a serra por dentro da mata.

Em compensação, trataram de nos conduzir ao vale do Jacarepaguá (na vertente oposta da serra) que, segundo eles, abriga uma residência imperial*. Ah! Esse edifício é apenas um castelo de recreio, ou simplesmente uma espécie de fazenda. É uma habitação cercada por vasto jardim, onde crescem algumas espécies vegetais originárias da Índia. As lavouras de cana-de-açúcar, de milho e de arroz são o principal ornamento de um terreno fértil. Provavelmente, é pela fartura do que ali se produz, que os brasileiros chamam o lugar de celeiro imperial. — * Talvez a fazenda da Taquara (ver nota ao fim do texto).

Atravessamos Jacarepaguá sem tocar os pés na terra… Tomados pela fadiga, cobertos de poeira, queimados pelo sol, apressamo-nos, até chegar a uma habitação situada ao pé da Pedra da Gávea, montanha que se há que se ultrapassar por quem queira chegar ao Rio*. Nessa outra fazenda, recebemos amável acolhimento de uma francesa – a proprietária –, de modo que, por instantes, pudemos esquecer o cansaço da jornada. — * Retorno margeando o oceano.

Essa senhora tinha por volta de 40 anos de idade, mas aparentava menos, e mostrava-se notavelmente bela. Seus traços eram de adorável perfeição: a testa alta e lisa, os olhos grandes e negros, cobertos por longos cílios, a boca pequena, e sempre com um sorriso. Sua pele, de uma brancura diáfana, era adornada por alguns contrastes, que faziam lembrar pétalas de rosa de Bengala*. — * Flor vermelho-magenta, da região de Bengala; também nome de um corante.

post-rj-atualConcepção artística (simplificada) do Rio de Janeiro atual.

No momento em que chegamos, a bela fazendeira estava recostada num divã instalado no salão do andar térreo e iluminado por tênue claridade do dia. Vestia-se com um penhoar de musselina azul; seus braços e ombros estavam descobertos. Os cabelos negros, trançados com arte, formavam uma coroa enfeitando a cabeça.

Aos seus pés, acomodava-se uma jovem pálida, de aparência doentia e ar contrafeito. Essa pobre criatura, desgraçada, sofredora, privada dos atributos próprios da idade, contrastava com a bela e a vivaz patroa, irradiante em frescor e graça. Embora em idade outonal, a mulher permanecia com todos os charmes da juventude. Era uma demonstração das injustiças da natureza! Diante da serviçal enfastiada e da figura ao divã, meus olhos tentavam encontrar, escondido atrás de uma cortina, algum querubim* vermelho, pronto a pronunciar algumas palavras dedicadas a essa bela rainha. — * Querubins são seres angelicais, que se envolvem na adoração e louvor a Deus. 

Imediatamente, negras de porte elegante nos serviram confeitos e frutas, o que é raro no Brasil. Eram escravas de, no máximo, 20 anos de idade. Seus corpos esbeltos estavam cobertos com uma anágua branca, atada aos quadris, e mais um pano de cor viva a adornarem negligentemente os ombros.

Dizem, no Rio, que nossa bela compatriota chegou ao Brasil logo depois de ter rompido suas ligações com um dos maiores nomes literários da nossa época. A história é pouco crível e, se fosse verdade, o próprio poeta teria trazido tal fato à tona. Nos dez volumes das ‘Confissões’ (6), que ainda desejo ler, gostaria de encontrar alguma alusão à bela solitária da Pedra da Gávea.

Percorremos as terras da nossa anfitriã. É um grande cafezal, que ocupa mais de 100 escravos. Em certo momento, quando os escravos perceberam sua patroa, largaram o trabalho e acorreram rapidamente a lhe beijar as mãos. Foi uma cena bizarra ver esses negros, com três quartos do corpo nu, tocarem seu “museau”* proeminente nas mãos brancas e doces de nossa compatriota. — * Ao usar a palavra “museau” = focinho, o autor revela exacerbado preconceito. 

O curioso é que denotavam alguma satisfação em prestar a reverência, oferecida com muita humildade. A senhora, agraciada com essas homenagens, as recebia na mais perfeita indiferença. Eu diria que esse ato de submissão respeitosa acontecia sem que ela sequer notasse, tão distraída estava.

Finalmente, partimos desse charmoso isolamento ao declinar do dia. A brisa da tarde balançava as folhas das bananeiras, como se fossem imensos leques, e o frescor agradável nos fez esquecer o terrível calor que sentíamos durante a jornada. Logo que chegamos à vertente oposta da Pedra da Gávea, os desfiladeiros tornaram-se perigosos. Nossos cavalos desceram a ladeira passo a passo e, mesmo assim, vários companheiros sofreram acidentes de certa gravidade. Enfim, atingimos o Rio, depois de uma ausência de 18 horas. Passamos mais de 12 horas montados a cavalo.”

Continua no próximo Post. 

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post-sumidoiro-marcaRefúgio nos arrabaldes

No fim do ano de 1843, o imperador d. Pedro II e sua irmã, a princesa Januária, adoeceram e foram recuperar a saúde na referida fazenda da Taquara, localizada em Jacarepaguá. A imperatriz Tereza Cristina os acompanhou. Isso explica que o imperador, quando recebeu o doutor Yvan Melchior-Honoré em palácio, ainda em estado de convalescença, possa ter passado aquela impressão de que lhe “faltasse a necessária energia”, como descreveu o visitante. Saiu na imprensa:

“Tendo S. M. o Imperador partido hontem de manhã para a fazenda da Taquara, afim de que S. A. Imperial possa mais facilmente restabelecer-se da enfermidade que acaba de sofrer […] ficando (…assim) suspensas as audiencias nos Paços de S. Cristovão e da cidade…”“Jornal do Commercio”, 15.11.1843, p.1.

“S. A. I. a Sra. D. Januaria, que continua a residir na fazenda da Taquara, não compareceu na corte. Anunciamos porem com muito prazer que a augusta princesa se acha quasi de todo restabelecida. S. M. a Imperatriz que […] acompanhou constantemente a princesa imperial durante a sua grave enfermidade, assistiu ante-hontem ás festas da corte…”“Jornal do Commercio”, 03 e 04.12.1843, p.1.

“O sr. Lagrené, enviado extraordinario e ministro plenipotenciario de S. M. o rei dos Francezes […] teve hontem a honra de ser admitido com pessoas de sua comitiva, em audiencia particular, por S. M. O Imperador, no paço da Boa-Vista. […] Em seguida, o Sr. Lagrené e todas as pessoas de sua comitiva forão apresentadas a S. M. a Imperatriz, que já tinha se dignado receber em audiencia particular, e com afabilidade que lhe é propria, a Sra. de Lagrené.”“Jornal do Commercio”, 04.02.1844.

• Clique e leia os Posts: “Rio Antigo (I)” e “Rio Antigo (III)”

Texto, tradução, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) MECHIOR-HONORÉ, Yvan – “De France en Chine”, Librarie de L. Hachette, Paris, 1855.

post-t-lagrene(2) LAGRENÉ, Théodore de – (*14.03.1800 / †26.01. 1862) – à direita, na foto (1844) à esquerda. Chefe da missão e, posteriormente, embaixador extraordinário da França na China. Casado com Warinka Doubenski – senhora Lagrené – (*1806 / †1901), que fora demoiselle d’honneur da imperatriz da Rússia. Isto talvez explique a deferência da família real com a visitante, que permaneceu em palácio depois da comitiva ter se retirado.

(3) BRAGANÇA, Francisca Carolina Joana Leopoldina Romana Xavier de Paula Micaela Rafaela Gabriela Gonzaga de – (Rio de Janeiro, *02.08.1824 / Paris, †27.03. 1898), Princesa de Joinville, quarta filha de d. Pedro I e d. Maria Leopoldina. Marido: Francisco Fernando de Orléans.

(4) DELAHANTE, Fernand – (*1822) Diplomata. Nomeado adido da Embaixada Francesa, Pequim, 1843.

(5) Naquele trecho percorrido pelo doutor Yvan, a floresta estava devastada. Desde o início do século XIX, estiveram a derrubar suas árvores, tanto para uso da madeira, bem como para plantar lavouras de cana-de-açúcar e café. Isso fez com que os mananciais secassem e a cidade passou a sofrer com a falta de água potável. A partir de 1862, d. Pedro II promoveu o reflorestamento.

(6) HOUSSAYE, Arsène – (*28.03. 1815 / †26.02.1896) Escritor, novelista e poeta. Autor de vasta e bastante medíocre obra. Encantado com as banalidades da vida social da sua época, talvez por isso mesmo, produziu literatura que obteve retumbante sucesso. Publicou “Les confessions, souvenirs dans demi-siècle – 1830/1880”, a obra citada pelo dr. Yvan Melchior-Honoré. Portanto, o autor de “De France en Chine” imaginou ali encontrar, sobre a bela rainha da Pedra da Gávea, alguma narrativa apimentada.

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