Sumidoiro's Blog

01/06/2018

TERAPIA DO RELÓGIO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:14 am

♦ Tal pai tal filho, tal mãe tal filho.

Post - No último domingo do mês, como de hábito, a família fora visitar o Joca(1) na casa de alienados. Lá, ao serem recebidos pelo velho médico, tiveram as primeiras notícias do paciente:

“- Ele vai indo muito bem. Desde que passou a frequentar nossa Oficina de Criatividade, tem apresentado sensíveis progressos. Ultimamente, está com os pés mais na terra e, a qualquer tempo, devo lhe dar alta.”

Diante de tão animadoras notícias, a mãe do Joca, dona Jorgina(2), foi tomada de alegria:

“- Que maravilha doutor Higino(3)! Nem imaginava que ele se libertaria das más influências recebidas do pai, aquele vagabundo, que nunca achou tempo para trabalhar. Razão da nossa eterna penúria.”

“- Como assim?” – indagou o médico. 

E dona Jorgina revelou a origem da sua grande mágoa: 

“- É isso! Desde que nos casamos, se apegou aos livros e adquiriu a mania de escrever poesias.”

Ao ouvir tão duras palavras, Higino pediu serenidade, mas passou a duvidar da alegada negatividade paterna:

“- Inacreditável! O Joca me passa outra impressão. É muito dedicado e criativo…”

Porém, de modo incisivo, veio a manifestação da mãe: 

“- Criativo, em quê?”

Então, o médico se esforçou para explicar: 

“- Ora! Aqui, na nossa Oficina de Criatividade, buscamos motivar os participantes para que deem asas à imaginação. Explico, imaginar é a arte de criar no cérebro coisas que nunca existiram. Nisso, seu filho é um verdadeiro prodígio! Desde o momento em que passou a frequentar nossa Oficina, tem apresentado ideias magníficas.

Pois saiba que tudo começou fortuitamente, quando se deparou com um relógio de parede adormecido porão da enfermaria. Naquele momento, teve forte emoção, de modo que logo manifestou grande afeto pela máquina.

Algum tempo depois dessa experiência, foi movido por forças ocultas que o fizeram revelar-se como excelente relojoeiro, um verdadeiro autoditada no ofício. Sua primeira obra foi mesmo trazer de volta à vida o relógio abandonado, agora devidamente reformado e lidando com o tempo sem vacilar. Não atrasa nem adianta um segundo sequer. E Joca, toda vez que vai recuperar qualquer outro relógio, tem dito que sente a mãe ao seu lado. E vou dizer mais, ao dar por terminado cada conserto, saúda a senhora dizendo: ‘Viva mamãe! Deus no céu, mamãe na terra!”

Para que tudo ficasse bem claro, Higino ainda tentou mostrar a sabedoria escondida no relógio:

“- Devo lhe dizer que as coisas passaram a ganhar sentido quando, na caixa de madeira do relógio, Joca percebeu uma inscrição em latim, “Reditus aeternus”, que assim traduzimos: “Eterno retorno do mesmo.”(4) De fato, palavras intrigantes, até que captamos a natureza da mensagem. Era uma frase gravada por antigo dono, com a ponta de um canivete e, certamente, falando da sua relação com o tempo. Pois não é que o pensamento movimentou nosso espírito? Haja filosofia!” 

Contudo, sem compreender o que acabara de ouvir, dona Jorgina gaguejando passou a falar mais alto:

“- Valha-me nosso senhor Jesus Cristo! Então ele piorou!”

Ao ouvir isso, o doutor Higino tratou de defender o interno com veemência:

“- Não é o que pensa minha senhora, o Joca é um iluminado e disso estou convicto.” 

Daí, ele lançou um olhar para o alto, fez uma pausa e prosseguiu: 

“- De que mesmo estávamos falando? Era de outra coisa… Ah, lembrei-me, da admiração do seu filho pela senhora.”

Contudo, dela logo surgiu uma indagação:

“- O que o senhor quer dizer com isso?” 

E didático foi o esclarecimento do médico: 

“- Sim! Ele deixou claro que é herdeiro da sua habilidade de costureira. Contou-me que a senhora consegue passar um fio pelo buraco da agulha até de olhos fechados. Quer maior dádiva que essa, para qualquer pessoa que queira lidar com as miudezas dos relógios?

E vou dizer mais, acredito que, para ele, o relógio de parede passou a representar a senhora mesma, quase que por inteiro, praticamente uma duplicata. Vocês dois dormem no mesmo quarto, quero dizer ele e o relógio, pendurado num prego sobre a cabeceira. Alterou até o gênero do objeto, referindo-se a ele como “minha máquina”. Sempre que está a seu lado, a trata pelo diminutivo Mama, carinhosamente.

Olha! Tem mais… Está vivendo feliz, como se tivesse retornado ao seio familiar, pois que, durante os sonhos, tem conversado também com o pai. Pouco a pouco, nesses devaneios noturnos, foi tomando gosto pelos livros e aprendeu a escrever poesia. Tal pai tal filho!”

A essa altura, dona Jorgina denotando estar estupefata, mal conseguiu pronunciar duas palavras:

“- Não acredito!”

Nesse ponto, o doutor Higino sentiu-se obrigado a fazer importantes revelações:

“- Pois creia-me senhora, falo a verdade! Sua obra literária é maravilhosa. Acaba de escrever um poema intitulado A Fábrica de Tempo. Com muita arte explica como é possível construir o tempo. Suas palavras muito me inspiraram e estou com a ideia de, em breve, quando me aposentar, investir minha poupança numa fábrica de tempo.

Vou produzir e distribuir tempos metafísicos*, em três tipos de embalagem: Tempo de Antanho, Tempo Light e Tempo Vitaminado. Cada qual tem sua utilidade e especificidade, mas todos servem para estimular setores da mente. Quero ter estoque suficiente, de modo que os consumidores não fiquem sem tempo.” — * Metafísica é o que está além da física, ou seja, além das leis da natureza.

Mas dona Jorgina pediu uma pausa e indagou:  

“- Vem cá, o senhor não se esqueceu do Tempo Normal?”

“- O normal não existe!” – assegurou o médico. “Na minha vida eu nunca vi o normal, nem aqui dentro, nem lá fora…”

E continuou Higino:

“- O Tempo de Antanho é o que concentra tudo que ocorreu, ou seja, é o outrora. Antes, quero esclarecer que o outrora está em permanente distanciamento do presente. Assim, depois de ingerir o Antanho, você mergulha em algum lugar do passado e participa efetivamente dele. É o presente no passado, mas lá você entra como uma retardatária, evidentemente. O mais interessante do Antanho é que, à medida que ele vai perdendo efeito, o usuário começa a voltar à sua condição temporal anterior. Creio que esse produto terá boa acolhida entre os historiadores. 

Por sua vez, o Tempo Light ajuda a ativar os sentidos, de modo que habilita a perceber em detalhes cada instante do desenrolar da vida. Quanto ao Tempo Vitaminado, dá forças para quem quiser perscrutar o futuro. Nisso está a sua especial qualidade, porque ele tende para o infinito e, evidentemente, custará mais caro, porque está entre as “coisas” que duram para sempre.

Trocando em miúdos, esses tempos servem para lidar com o Antes, o Agora e o Depois

Digo mais, o Tempo Light, apesar do nome, é o mais útil e poderoso, porque estimula intensamente o tato, o olfato, o paladar, a audição e a visão – principalmente esta última. De modo que, tão logo é metabolizado, potencializa-se a capacidade de perceber o Agora e de captar microtempos, quanto também miuçalhas, por menores que sejam seus tamanhos. Creio que será o mais consumido e, por isso, vou colocá-lo a um preço bem acessível.

Mas faço um alerta, se você abusar na dose de Tempo Light, seu tempo poderá minguar perigosamente, o que é pouco recomendável. Ainda não há comprovação, mas é possível que, num determinado instante, se chegue ao nada(5). De qualquer maneira, creio firmemente que a ANVISA(6) aprovará as minhas drogas.

Nunca pensei que isso pudesse acontecer, mas acho que vou ficar rico com esse empreendimento!”

Porém, no instante seguinte, logo após Higino finalizar sua fala, dona Jorgina pediu esclarecimentos:

“- Doutor, não tenho nada com isso, mas como o senhor vai medir os seus tempos? Na balança, na régua e no relógio certamente não será.”

Daí, o médico franziu a testa, rapou a garganta, mas permaneceu mudo, o que fez dona Jorgina mudar de assunto:

“- O senhor está se sentindo bem? Quantas horas são? Não posso perder mais tempo, o último ônibus sai agorinha mesmo. Fica com Deus!”

Por Eduardo de Paula

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(1) Joca é diminutivo de Joaquim, nome que vem do hebraico Yehoyaqim e designa o 19º rei de Judá (597 a.C / 587 a.C.), o qual se estendeu ao nome do pai da Virgem Maria, São Joaquim. / Esse rei de Judá – o Joaquim – foi acusado de idolatria e, por força do nome, o Joca estava a fazer o mesmo com o relógio.

(2) Jorgina é derivativo de Jorge que, por sua vez vem de geo (terra) + ergon (trabalho), portanto nome apropriado para aquele que trabalha a terra; lavrador. Assim sendo, o nome veio a calhar para Jorgina, mulher muito trabalhadeira.

(3) Higino vem do grego hygeinos, palavra ligada à deusa Hygeia, filha de Asklepios, deus da medicina. Ela representava a saúde, a limpeza e a sanidade. Na antiga Roma, Asklepios era dito como Esculapius (Esculápio) – deus da medicina e da cura – e passou a ser relacionado com o sol, enquanto Hygeia era dita como Salus (tradução: Saúde), que seria a lua. Desse modo, se explica porque o saudável (?) doutor Higino era tão aluado.

(4) “Eterno retorno”, também dito como “eterno retorno do mesmo”, é um conceito filosófico originalmente abordado por Heráclito, herdado pelos filósofos estoicos e que chegou até aos pensamentos de Friedrich Nietzsche (século XIX).

(5) Segundo o físico Stephen Hawking, antes da grande explosão que gerou o universo – o Big Bang –, havia “basicamente nada”. Existiria, sim, um tempo imaginário, que se comporta como uma quarta dimensão.

(6) ANVISA: Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

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01/05/2018

A RAPOSA ROMÂNTICA

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:56 am

 ♦ Corajosa, sincera e inspirada

A história ensina que, durante os séculos XVIII e XIX, ocorreram vários movimentos artísticos, amiúde eles se interpenetravam. Ao mesmo tempo, a Revolução Industrial e a Revolução Francesa também estiveram a provocar grande impacto no contexto histórico da época, em todos os sentidos.

O XVIII foi um período marcado pelo movimento intelectual do Iluminismo, também denominado Século das Luzes(1)O propósito seria iluminar a sociedade com novas ideias, de modo a romper com os modelos ditados pelo Absolutismo(2)

Por sua vez, o XIX foi um século de grandes invenções, descobertas e efervescência nas artes em geral. Nesse momento é que ressurgiu uma raposa para marcar presença.

A raposa fura o lobo: Renart e Ysengrim. 

ois corriam os anos entre 1760 e 1780, quando efervesceu o movimento literário Sturm und Drang* – nascido na Alemanha – e que tinha entre seus líderes o poeta Goethe(3). Eles estavam a contestar o ideário racionalista do Iluminismo e os estilos artísticos do Rococó(4) e do Neoclassicismo(5), ainda dominantes no período. Em pouco tempo, especialmente no que toca à literatura e às artes plásticas, os conflitos foram gerando desdobramentos, de modo a influenciar o pensamento artístico de toda a Europa e mesmo de terras mais distantes. — * “Sturm und Drang” (Tempestade e Ímpeto). O nome deriva da peça homônima de Friedrich Klinger (1752-1831). 

Os adeptos da nova corrente literária almejavam criar uma nova arte, que fosse mística, selvagem e espontânea, ou seja, quase primitiva, onde o maior valor seria a sensação – empfindung, dizendo no termo alemão – aquela que deveria se sobrepor à razão.

Uma grande influência recebida pelo Sturm und Drang veio de Herder*, introdutor do culto à genialidade que dependia da inspiração, não importando de onde viesse. Acreditando nisso, os poetas do movimento voltaram seus olhos para Homero, Shakespeare e, também, para as manifestações populares. — * HERDER, Johann Gottfried – filósofo e escritor alemão. 

O suicídio de Werther, ilustração para “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (de Goethe).

De modo a definir o que pretendiam, lá na Alemanha já existia o adjetivo romantisch – romântico – referindo-se ao estilo de antigas poesias que ainda vicejavam entre o povo. Haviam surgido nos tempos medievais, num ambiente dominado pelo cristianismo, e eram comumente divulgadas pelos trovadores.

Pois bem, num certo momento, a escritora madame Stäel* começou a se interessar pelas novas ideias e passou a divulgar o Romantismo (Die Romantik, em alemão) entre os franceses. Para isso, como tradução na sua língua, utilizou o termo “Romantisme”. Da França veio para Portugal e Brasil, com o nome de Romantismo.

Na cultura europeia, foram destaques do Romantismo: Goethe – na literatura e no teatro –, especialmente com “Os Sofrimentos do Jovem Werther” e o “Fausto”; Chopin – na música –, como pianista e compositor; Delacroix – na pintura –, considerado um gênio do estilo; Victor Hugo, com a peça de teatro Hernani”. A lista completa é imensa e muito rica.

Em “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, o personagem principal – Werther – conhece Lotte, noiva de Albert. Ele passa a frequentar a casa de Lotte e acaba se apaixonando por ela que, contudo, ama seu noivo. Porém, o intrometido não consegue arrebatar Lotte e morre por amor. Daí, o amigo Wilhelm, logo após a morte de Werther, descreve a tragédia muito romanticamente, assim:

 “Pela manhã, às 6 horas, o criado entrou no quarto com a luz. Encontrou o seu senhor no chão, viu a pistola e o sangue. Chamou-o, mexeu nele. Nenhuma resposta, ainda agonizava. Correu em busca dos médicos e de Albert. Lotte ouviu alguém tocar a campainha e um tremor fez convulsionar todos os seus membros […]. Tinha atirado na cabeça, logo acima do olho direito, fazendo saltar os miolos. Pelo sangue espalhado no espaldar da cadeira, concluiu-se que realizara seu intento sentado à escrivaninha; caíra em seguida, rolando convulsivamente em volta da cadeira. Estava estendido de costas, perto da janela, inerte, todo vestido e calçado, de casaca azul e colete amarelo. […] Do vinho, bebera somente um copo.” (6)

Chopin ao piano em uma noite romântica.

Pois bem, há de se notar que, na Península Ibérica e desde longínquas eras, existia outro gênero poético, o Romanceiro, que serve para nomear um conjunto de romances. Trata-se de sátiras e canções de amor, algumas em estilo épico, que haviam se espalhado por Espanha e Portugal. Essas últimas, são chamadas canções de gesta e narram gestos heróicos. Numa delas, há uma fala dirigida ao rei don Sancho(7), o primeiro dos Algarves: 

Rey don Sancho, rey don Sancho, | Rei don Sancho, rei don Sancho,
no digas que no te aviso; | não digas que não te aviso; 
que del cerco de Zamora | que do cerco de Zamora
un alevoso ha salido; | um traiçoeiro saiu;
Bellido Dolfos se llama, | Bellido Dolfos se chama,
hijo de Dolfos Bellido; | filho de Dolfos Bellido;
cuatro traiciones ha hecho, | quatro traições cometeu,
y con esta serán cinco. | e com esta serão cinco.
Si gran traidor es el padre, | Se grande traidor é o pai,
mayor traidor es el hijo.
| maior traidor é o filho.

Um romance de amor jogralesco, descoberto em 1421, é o mais antigo efetivamente documentado(8), escrito em um vernáculo misto de castelhano e catalão, que começa assim:

Gentil dona, gentil dona, dona de bell parasser… Gentil dona, gentil dona, dona de belo parecer…

Por sorte, com o advento do Romantismo, o Romanceiro retomou suas forças e está muito vivo. Quem fez um belo e profícuo trabalho nesse sentido foi o português Almeida-Garret(9). Seus livros em três volumes, intitulados Romanceiro, foram publicados a partir de 1828, contendo uma série de baladas medievais, recolhidas e atualizadas pelo autor. U’a amostra:

Onde vais alva e linda,
Mas tão triste e pensativa,
Pára, celeste Adozinda,
Da cor da singela rosa
Que nasceu ao pé do rio?
Tão ingênua e tão formosa
Como a flor, das flores brio,
Que em serena madrugada
Abre o seio descuidada
À doce manhã d’abril! etc.

No Brasil, a obra literária fundadora do Romantismo foi “Suspiros Poéticos e Saudades”, de Gonçalves de Magalhães(10), em 1836. Isto é, cerca de meio século depois de ter nascido o movimento alemão. Nestes versos, o poeta mostra seu estilo com o tempero brasileiro:

Quem, penetrando as negras catacumbas,
Escondidas da terra nas entranhas, 
Dos mártires cristãos leitos de morte,
Onde não entra o sol, nem entra a lua,
E só pequena luz, na mão do guia,
Trêmula, moribunda bruxuleia,
Como pálida estrela, ou como um olho
Do gênio habitador daquelas trevas;
Quem não se enche de horror? 
Quem falar pode?
Só ver, e emudecer; a língua é fraca;
As grandes comoções não se descrevem. / Roma, abril, 1835.

Nas artes pláticas

Como propagador do Romantismo na pintura, merece especial destaque Delacroix. Refletindo a importância do artista, há palavras de Baudelaire(11) quando se fez de crítico de arte. Assim falou sobre o pintor:

“… De uma paixão imensa, duplicada por uma vontade formidável, tal foi o homem. Mas ele dizia sem cessar: ‘Pois que considero a impressão transmitida ao artista pela natureza a coisa mais importante a traduzir…’ “

E acrescentou:

“Jamais, apesar de sua admiração pelos fenômenos ardentes da vida, Eugène Delacroix não será confundido entre essa turba de artistas e literatos vulgares, cuja inteligência míope se abriga atrás da palavra vaga e obscura de realismo.”

De fato, o Realismo* que surgira na década de 1850, após a Revolução Francesa(12), foi uma das consequências do ideário do Iluminismo, que pretendia representar o mundo aparente sem “artificialismos”, evitando as convenções, o exotismo e o sobrenatural. Contudo, através dos tempos, o figurativismo realista tem sido praticado nas artes visuais, sempre prevalecendo o alto domínio da técnica mas, amiúde, mas quase sempre com pouca qualidade expressiva. — * O Realismo perdeu fôlego ao aproximar-se o final do século XIX. 

“Cristo no mar da Galileia”: pintura romântica, por Delacroix.

Também o pintor espanhol Goya(13) foi um romântico e mais que isso, considerado um dos fundadores do Modernismo. Gostava de pintar coisas inacreditáveis, monstros, espetáculos de bruxaria e mais coisas do gênero. Assim sendo, não comungava com o ideário iluminista. Entretanto, ao mesmo tempo em que usava a imaginação, sabia tirar proveito das forças da razão. Uma de suas gravuras mostra um homem cabisbaixo – ele próprio – atormentado por um bando de morcegos esvoaçantes. E, com uma frase complementa a cena, dizendo:

“El sueño de la razón produce monstruos(14)“. — “O sonho / sono da razão produz monstros.” 

No Museu do Prado (Madri), há um manuscrito referente à mesma gravura, que pode ser assim traduzido:

“A fantasia, isolada da razão, somente produz monstros impossíveis. De outro modo, quando unida a ela (a razão), é a mãe da arte e fonte dos seus desejos.” 

Rastreando a palavra

O nome romantismo, em sentido amplo, não caiu do céu, veio de Roma. Seu nascedouro está na língua vulgar – sermo vulgaris ou linguagem comum. Dela vem a palavra romane, que designava o vernáculo* local, ou seja, o meio de comunicação popular, aquele que permitiria uma expressão mais calorosa e espontânea do que na língua erudita. Partindo do mesmo princípio, as línguas nativas de vários povos ficaram ditas como romance. — Vernáculo: língua própria de um país ou de uma região. / Do latim “vernacŭlus, a, um”, no sentido de escravo nascido na casa do amo; ou doméstico, de casa, nascido ou produzido no país ou no lugar, nacional. 

Na Idade Média, chamavam de romance à prosa e ao verso escritos na língua nativa, não importa qual fosse o país.  As obras narravam aventuras imaginárias, criadas de modo a despertar o interesse geral. Vai daí que, por meio do romance, qualquer pessoa podia externar os sentimentos com naturalidade e verdadeira emoção. Em italiano, se diz romanzo, ou melhor, romanzo volgare*. — * Romance popular.

Assim é que as palavras romance, romanceiro, romântico, romanesco e romantismo, desde há muito tempo, têm servido para traduzir o que provém dos sentimentos e dos sonhos, tudo aquilo que se sobrepõe à realidade aparente.

O lexicógrafo e hispanista italiano, Girolamo Vittori(15) (século XVII), contribuiu para esclarecer o assunto. Disse, no seu dicionário:

“Romanceiro – Um livro cheio de tais histórias em forma de canções. De passagem, é preciso aqui dizer que esta palavra Romant, dita antigamente como a linguagem latina ou romana, foi corrompida por toda parte, como cada um quisesse, até mesmo nos confins da Alemanha e da Lorena, onde chamam Romant a linguagem que não é o alemão. / Romancista – compositor de Romans; tradutor em língua vulgar; compositor de romance; que é o romance da língua particular.” — Traduzido do verbete em francês.

Jograis divertindo o povo.

Também o padre Raphael Bluteau(16), no seu dicionário (1720), define da seguinte maneira:

Romance – O mestre Venegas quer que romance seja advérbio, formado do verbo (palavra) latino romane, por falar romanamente, porque tinham uma lei os romanos, que lhes proibia dar ouvidos aos embaixadores, quando falavam em outra língua que não a romana. Tem esta palavra romance vários significados.

Em primeiro lugar, romance significa a língua própria, natural e vulgar de qualquer terra. […] Camões*, num rio de Melinde, diz que seu nome, no romance** da terra, é Obi. Vê cá a costa do mar, onde te deu / Melinde (cidade) hospício (abrigo) gasalhoso e caro / O Rapto rio nota, que o Romance/ Desta terra chama Obi (rio Obi), entra em Quilmance (cidade de Quelimane).** ” — * Nesse ponto, Camões fez uma analogia com a língua portuguesa que, outrora, foi um romance. – Luzíadas, 1572. /  ** Língua obi, falada em Quelimane, Moçambique. – Canto X, estância 96.

Mais esclarece Bluteau, no suplemento do dicionário:

QUILMANCE – Lugar situado na boca do rio Rapto, chamado por outro nome Obi, junto (próximo) ao rio de Melinde.”

Ainda no dicionário, Bluteau complementa: 

Romance, no dito sentido, Língua Vernácula. Na sua miscelânea quer Miguel Leitão que o falar em Romance seja como quem diz: falar Romano. […] Romance – No canto 10 dos sonetos de Camões, sobre a oitava 96, acrescenta Manoel de Faria, que qualquer livro traduzido do latim em vulgar, também se chama Romance, ainda que a tradução seja feita em versos com suas consonâncias e não só em latim, senão de um vulgar em outro, como o dito autor afirma ter visto muitas vezes, intitulado esse Poema traduzido em castelhano e dizia Lusíadas em Romance.”

O padre Bluteau, no Suplemento do seu dicionário, também disse:

Rapto* rio do qual faz menção João de Barros […] aonde diz: ‘Nas serras do reino, aldeia nasce o rio Obi, a que Ptolomeu chama Rapto’ […] Também se chama romance à prosa, para se diferenciar do verso, por ser ela mais vulgar que ele. […] Romancear – traduzir em língua vulgar e natural da terra. […] Romancista – o compositor de uma casta de versos a que chamam romance, ou o tradutor de obras de peregrino idioma, na língua da sua terra; ou aquele que não sabe latim e não só na sua língua exercita a arte que professa.”

A raposa “romântica”

A poética medieval, falada ou escrita em romance, denota que a ideia primitiva do romantismo estava sedimentada na cultura popular da Europa e cujos maiores divulgadores foram os menestréis. Em forma de manuscritos, datam do século XII e início do século XIII.

Entre eles, há o Le Roman de Renart*, em francês, que é o mais famoso conjunto de histórias de animais produzidas na Idade Média, resultado de várias autorias e totalizando 26 capítulos. A inspiração veio das fábulas do grego Esopo e do poema épico de escárnio da autoria de Nirvadus, escrito em latim, em 1148 ou 1149, cujo personagem principal é o lobo Ysengrimus**, que é hostilizado pela raposa Reinardus***. Mestre Nirvadus foi um monge andarilho flamengo, natural de Gent***. Através dele é que começou a ser vulgarizada a história do lobo, que tem suas maquinações destruídas pela maldosa e heróica raposa. — * Romance de Renard, em português. ** Ysengrin, em francês. / *** Reinart, em francês. / *** Gent, hoje na Bélgica.

” Le Roman de Renart”, em francês antigo, por volta de 1400.

Ao estabelecer semelhanças entre o animal e o homem, a narrativa visava criticar a sociedade do mundo feudal. No conjunto, predomina a ironia, mas plena de lições de moral. Nessa tônica é que Ysengrin aparece travestido em monge-bispo, para que o herói Renart o trate impiedosamente, de modo a emocionar e açodar a revolta de quem lê ou assiste o desenrolar da narrativa.

Em francês antigo, a palavra para raposa é  goupil* mas, depois que ganhou fama, “renart” virou o sinônimo preferido, trocando o t por d, ou seja, renard. — * O nome “goupil” vem de “vulpeculus” ou “vulpecula”, diminutivo de “vulpes” (raposa), em latim. 

Vê-se que a palavra roman, ao dar título ao poema, serviu para dizer da história popular de Renart, escrita em romance, ou seja, no vernáculo dos franceses e não em latim. Nesse contexto é que muita gente ainda fala e escreve em alguma língua românica ou neolatina(17), entre elas o português.

No latim culto (sermo cultus) diziam:

“Illa claudit semper fenestram antequam cenat.”

No latim vulgar (sermo vulgaris):

“Ea claudit semper illa fenestra antequam de cenare.”

No português:

“Ela fecha sempre a janela antes de jantar.”

O poeta Fernando Pessoa(18), a seu modo, soube bem definir o que seria romântico, no seu sentido mais profundo:

“É preciso ser um realista para descobrir a realidade. É preciso ser um romântico para criá-la.”

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Àquela época do Sturm und Drang, a antiga raposa continuava circulando, mas pouca gente havia atentado para isso. Talvez Goethe, com sua enorme sensibilidade a tenha visto. Mas, para quem ainda não a viu, sempre haverá a oportunidade de vê-la, porque é imortal.

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Um Romancero para chorar. Ouça:

Pesquisa, texto, traduções e arte de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) Iluminismo – período também dito como Século das Luzes, da Ilustração ou da Filosofia.

(2) Absolutismo – teoria política que defende a ideia de que uma pessoa – rei ou monarca – deve deter o poder absoluto. O momento culminante foi com o rei Luís XIV, conhecido como rei Sol.

(3) GOETHE, Johann Wolfgang von – (Frankfurt, Alemanha, (*28.08.1749 / Weimar, Alemanha, †22.03.1832) Escritor, esteta, pesquisador científico e estadista.

(4) Rococó – estilo artístico surgido na França, após a morte de Luís XIV, em 1715. É marca do período que termina com a Revolução Francesa, em 1789.

(5) Neoclassicismo – movimento cultural da Europa Ocidental, de meados do século XVIII. Teve larga influência na arte e cultura de todo o ocidente, até meados do século XIX. Seus limites são muito imprecisos. O neoclassicismo teve seu auge entre meados do século XVIII e as primeiras décadas do século XIX.

(6) No romance de Goethe, o jovem Werther conta ao amigo Wilhelm a história do seu amor impossível pela bela Lotte, compromissada em casamento com outro. Artista, sensível às coisas da natureza e do amor, ele não consegue esquecê-la e, no final, comete suicídio com um tiro de pistola na cabeça. Quando o livro foi lançado na Europa, milhares de jovens passaram a se vestir como o protagonista. Dizem que a história foi inspirada em uma paixão não correspondida (Charlotte Buff – imagem ao lado) de Goethe , que afirmou ter matado Werther para que ele próprio não morresse.

(7) Sancho II de Castilha – (*1038 ou 1039 / †07.10.1072) Primeiro rei de Castilha [por conquista] e, depois, da Galícia e Leão. / Dolfo Bellidos – é considerado um personagem lendário, mas seu nome está documentado, em 1057, como Vellit Adulfiz.

(8) Romance copiado en 1421 (imagem abaixo), por Jaume de Olesa, natural da ilha de Maiorca, quando estudava em Bolonha (Itália). Diz assim: “Gentil dona, gentil dona, / dona de bell parasser, / os pies tingo en la verdura / esperando este plazer.  Por hi passá ll’escudero / mesurado e cortés; / les paraules que me dixo / todes eren d’emorés. / Thate, escudero, este cuerpo, / este cuerpo a tu plazer, / las tetillas agudillas / qu’el brial quieren fender.  Allí dixo l’escudero: / No es hora de tender, / la muller tingo fermosa, / fijas he de mantener, / el ganado en la sierra / que se me ua a perder, / els perros en las cadenas / que no tienen que comer. Allá vayas, mal villano, / Dios te quiera mal fazer, / por un poco de mal ganado / dexas cuerpo de plazer. ||| L’escorraguda es: / Mal mi quero mestra Gil, / e faslo con dretxo / Bien me quie su muger / qui’m etxa en e son letxo.”

Post - GentilTradução: “Gentil dama, gentil dama, / dama de bel parecer, / os pés tenho na relva / esperando este prazer Por aí o escudeiro passou / Cheio de mesuras e cortês; / as palavras que me disse / todas eram de amores. / Acorda, escudeiro, este corpo, / este corpo a teu prazer, / as tetinhas agudinhas / que a seda querem furar. Ali disse o escudeiro: / Não é hora de atender / a formosa mulher que vejo, / a obrigação é de cuidar, / do gado pastando na serra / que senão me vai a perder, / os cães estão nas correntes / e não têm o que comer. Lá vais, mau vilão, / Deus te queira mal fazer, / por pouco de mau ganhado / deixas o corpo do prazer. ||| O desfecho é: / Mal me quer mestre Gil, / E o faz bem direito / Bem me quer sua mulher / Que me deixa em seu leito.” 

——— Outro exemplo do romanceiro espanhol, uma balada proveniente de comunidades de judeus sefarditas: “Yo me levantaría un lunes / Un lunes por la mañanita / Tomare yo mi cantarito / Y la fuente fuera por agua • Y a la mitad de aquel camino / Con mi amor me encontraré / Tiró me la manika al cuello / La gargantilla me tocara • Tate tate tu el caballero / Desha me, iré para mi casa / Me lavaré mi lindo cuerpo / Me pondré camisita blanca • Me ciñeré mi cinturita / Con una kushaka morada / Me peinaré mi cavesika / Me pondré camisita blanca • Tate tate que no hay dote / Desha el amor para la noche / Tate tate que no hay nada / Desha el amor para mañana. • Dai de a la suegra una sardina / Y a la nuera una gallina / Dai de a cenar al desposado / Dai de a cenar que no ha cenado.” 

Tradução: “Vou acordar segunda-feira, / Na segunda de manhãzinha. / Meu potinho vou pegar, / Pra buscar água na fonte . • Já na metade do caminho, / Meu amor encontrarei. / Pelo pescoço vai me abraçar  / E no meu colar tocará. • Acorda, acorda cavaleiro, / Deixa-me, irei para casa. / Lavarei meu lindo corpo, / Vestirei camisinha branca. • Cinturinha vou rodear, / Com uma fita vermelha. / Vou  enfeitar meus cabelos, / Vestirei camisinha branca. • Acorda, acorda, que dote não há, / Deixa o amor p’ra denoite. / Acorda, acorda, que nada há, / Deixa o amor pr’amanhã. • Dá à sogra uma sardinha / E à nora uma galinha. / Dá jantar ao desposado, / Dá-lhe o jantar, que não jantou.” — Cantado por Ester Davida, natural de Tanger, em 10.07.1978.  

(9) ALMEIDA-GARRET, João Baptista da Silva Leitão de – (Porto, *04.02. 1799 / Lisboa, †09.12.1854) foi um escritor e dramaturgo romântico; visconde; orador, par do reino, ministro e secretário de estado honorário de Portugal.

(10) MAGALHÃES, Domingos José Gonçalves de – (Rio de Janeiro, *13.08.1811 / Roma, †10.07.1882) Ensaísta, poeta, professor, diplomata e político. Participou de missões diplomáticas na França, Itália, Vaticano, Argentina, Uruguai e Paraguai.

(11) BAUDELAIRE, Charles-Pierre – (Paris, *09.04.1821 / Paris, †31.08.1867) Poeta; crítico de arte, assinando Baudelaire Dufays. Um dos precursores do Simbolismo e fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora tenha participado de diversas escolas. Sua obra teórica teve grande influência sobre os artistas plásticos do século XIX.

(12) Revolução Francesa – O dia 14.07.1789 marca o início da Revolução Francesa com a Queda da Bastilha (um pequeno forte que servia de prisão), em Paris. O dia 09.11.1799 selou o fim da era, com o início do governo de Napoleão.

(13) LUCIENTES, Francisco José de Goya y – (Fuendetodos, Espanha, *30.03.1746 / Bordéus, França, †16.04.1828) Pintor e gravador.

(14) O escritor inglês Aldous Huxley (*26.07.1894 / †22.11. 1963), entusiasta do uso da droga LSD como estimulante dos processos mentais, escreveu sobre a gravura de Goya: “A legenda ‘El sueno de la razón produce monstruos’ admite mais de uma interpretação. Quando a razão dorme, o absurdo e as criaturas repugnantes da superstição acordam e ficam ativas, levando suas vítimas a um ignóbil frenesi. Mas não é só. A razão pode também fazer sonhar sem dormir, pode intoxicar-se, tal como ocorreu na Revolução Francesa, quando houve o sonhar acordado em prol de um progresso inevitável, em nome da liberdade, igualdade e fraternidade, mas impondo a violência, em nome da autossuficiência humana e pelo fim da tristeza.” Pois bem, a Revolução Francesa foi influenciada pelos ideais do Iluminismo, porém contestados por Goya e, assim sendo, a mensagem na sua gravura se revela ambígua.

(15) VITTORI, Girolamo – (Bolonha, Itália, *1549 / Genebra, Suíça, †?). Fonte da citação: “El Tesoro de las tres lenguas francesa, italiana y española”, 1614.

(16) BLUTEAU, Raphael – (Londres, *04.12.1638 / †Lisboa, 14.02.1734) Religioso da Ordem dos Clérigos Regulares e grande lexicógrafo da língua portuguesa; autor do “Vocabulário Português e Latino”.

(17) NEOLATINO / NEOLATINA – adjetivo designativo das línguas modernas derivadas do latim, como o português, o espanhol, o catalão, o provençal, o italiano, o francês e o romeno, ou aquelas de nações ou povos procedentes dos antigos Romanos; o mesmo que novilatino(a).

(18) PESSOA, Fernando Antônio Nogueira – (Lisboa, *13.06.1888 / Lisboa, †30.11.1935) Poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português.

01/04/2018

O SILVO DO AMOR

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 6:45 am

♦ Receita para a felicidade a dois

Tudo começou com um fiu-fiu(1), aquele assovio de conquista. E deu certo, o moço e a moça se encaminharam para o altar…

uando José decidiu se casar com Maria das Graças, pensava em viver feliz para sempre. Ela também… De início, construíram uma casinha com jardim. Após o enlace, tudo estava tão bom que tratavam-se de Queridinha e Jotinha, enquanto cuidavam das flores e trocavam juras de amor. Nessa época, usavam a mesma língua, para dizer as mesmas coisas.

Assim permaneceram, até que nasceu o primeiro filho e, daí, tudo mudou. Foi quando a rotina de felicidade passou a sofrer interferências inesperadas do pimpolho. O agente do mal estava sempre com dores de barriga, enchia múltiplas fraldas de xixi e cocô, ficava febril por qualquer motivo e provocava um mundo de atropelos.

Depois vieram à luz mais um, dois, três, quatro, afinal, um montão de gente miúda, para tirar os enfeites da vida do casal. Contudo, devido aos contratempos e de modo a aliviar suas dores, Queridinha passou a transferir responsabilidades ao Jotinha. Àquela altura, voltara a chamar o indivíduo simplesmente de Jota. Desde então, usando a mesma língua e torcendo as palavras, passaram a dizer coisas diferentes. Nisso está a sutileza da mudança de Jotinha para Jota.

Porém, o coitado também já estava sobrecarregado de tantos dissabores. Como consertar o chuveiro, as torneiras que não paravam de pingar, o esgoto que sempre entupia, o ferro de passar que parava de esquentar, etc. Verdade é que Jota amava Queridinha e, por isso, ainda aprendeu a trocar fraldas, cozinhar, lavar e passar, pregar botões e até mesmo cerzir roupa. Ou seja, transformara-se num marido moderno, como tem ditado a nova regra. Ainda mais, para atender às crescentes despesas da família, costumava fazer horas extras no trabalho.

Contudo, na ânsia de amainar os seus sufocos, o coitado procurou alívio nas amizades e voltou com elas a frequentar, aos sábados, as peladas de futebol, das quais se tornou juiz. Desse modo, aprendeu a usar o apito com maestria. Por fim, depois de cada jogo, fazia relaxamento no boteco com a turma, até altas horas da noite. Como consequência, sempre voltava meio bêbado para casa… Normalmente, entrava na habitação sorrateiramente e com uma mudez pétrea.

Vai daí que, num dos seus piores dias, Queridinha deflagrou uma guerra de palavras que, aliás, já vinha ocorrendo, mas em nível medianamente civilizado. Foi quando se exacerbou ao perceber o marido entrando no seu quarto, cambaleante, lá pela madrugada, e disse:

“- Bem que mamãe falou para eu não me casar com você. Não quero mais viver com um bêbado, que só pensa em bola e cerveja. Quero me separar!”

Pois bem, como Jota ainda estava com o raciocínio meio embotado pela bebida, de pronto arremeteu um tiroteio de palavras:

“- O quê? Você está falando sério ou está apenas querendo me agradar?

Por sorte e para não deixar romper o último fio que os unia, surgiu um sábio sacerdote que conseguiu apagar, temporariamente, o incêndio relacional. Da parte de Jota, aconselhou-o a ficar monossilábico e, quando sentisse saudade de lidar com as palavras, que as procurasse nos livros, especialmente os de filosofia. Da parte de Queridinha, ficar sempre com a boca cheia d’água mas, se não fosse possível, contar até dez antes de dizer alguma coisa. Na pior das hipóteses, sair a fazer tricô ou concentrar-se em palavras cruzadas.

Para si, Jota logo assumiu os preceitos do orientador religioso e Queridinha, de sua parte também. Assim sendo, ao ensimesmarem-se, cada um no seu canto, o relacionamento do casal entrou num estado de paz contida. Claro que com riscos de novas explosões. Mas, tempos depois, por alguma força misteriosa da natureza, ocorreu um evento notável. A imensa caixa d’água da residência começou a vazar e inundou a sala de jantar. Assim sendo, diante da emergência e seguindo a tradição, Queridinha berrou:

“- Chama os ôme!

Melhor dizendo: “- Chama os homens.” Essa é uma recomendação muito feminil, em todas as situações desse tipo. Mas, infelizmente, não havia nenhum “ôme” disponível para o socorro urgente. Então, o jeito foi o Jota, ele mesmo, subir no telhado…

Contudo, no afogadilho, o bombeiro improvisado se esqueceu de levar as ferramentas necessárias e, lá das alturas, passou a pedir socorro aos gritos:

“- Balde, alicate, chave de cano…”

Mas, nada! Dona Queridinha não ouvia e a água continuava jorrando. O jeito foi Jota resolver tudo por si próprio, subindo e descendo escada. Afinal de contas, conseguiu consertar a caixa d’água e, mais uma vez, salvar o casamento. Também notou que, sem que percebessem, ambos estavam se comunicando aos berros e já havia algum tempo. Assim, pôde entender o porquê de Queridinha não atender aos seus chamados. Ela ficara medianamente surda, de tanto ouvir gritaria de criança e música baiana.

E, como sempre há males que vêm para bem, Jota teve uma luminosa ideia para restabelecer a boa convivência. Pois foi contando com sua experiência em apitar jogos de futebol, que resolveu implementar, entre ele e a mulher, uma linguagem de sinais. Usava o apito e os gestos, que havia assimilado das lições de um famoso árbitro de futebol(2), que dizia:

“Falem com os jogadores e com a plateia sem precisar falar!”

Exemplificava aquele mestre juiz que, no meio do campo, com um simples gesto de mão e um breve “pi”, o jogo tinha que ser interrompido. Sendo mais longo, o “piii” servia para indicar que foi aplicado um cartão amarelo ou vermelho. Quando ocorria uma falta mais pesada, emitia-se um “piiiiiiiii”. Além disso, sabe-se que a melodia dos “pis” pode produzir um mundo de reações, como até mesmo fazer rir e chorar.

Assim sendo, depois que Jota modulou o silvo do apito ao nível de audição de Queridinha e usando toda sorte de gesticulações, nunca mais precisou da palavra para falar, nem gritar. Normalmente, quando queria chamar sua “amada” dava uns silvos agudos e altos, depois completava com a gesticulação. Quando queria pedir um copo d’água, dava um silvo moderado e mostrava a língua seca, e adormecida. E assim por diante…

Até hoje, devido ao estratagema, estão convivendo muito bem, com tudo funcionando nos conformes, mesmo quando o apito não está disponível. Nesses casos, emite o silvo com os dois dedos na boca. Tem mais… Aproveitando o seu know-how, Jota está com a ideia de criar um curso de orientação de casais. Desse modo, enquanto estiver na sala de aula e dialogando com os alunos, poderá voltar a falar. As classes seriam do tipo unissex, oferecido para casais, desde que apenas um dos parceiros tenha perda de audição, evidentemente. Um deles ajuda o outro a escutar, melhor dizendo, quem ouve apita no ouvido do surdo(a). O slogan de propaganda seria assim:

“Um silvo de apito fala mais que mil palavras.”

Assim sendo, Queridinha e Jotinha, estão discutindo o empreendimento educacional, mas sem apitar, porém comunicando-se por escrito em latim, que felizmente aprenderam no ginásio. Já decidiram que a parte administrativa e contábil ficará por conta de Queridinha, pois ela lida muito bem com a frieza dos números.

———

Contudo, é preciso lembrar que nada vem do nada, visto que Jota e Queridinha estavam a praticar um tipo de comunicação que, mutatis mutandis, existe há séculos na comunidade de La Gomera(3), uma das ilhas Canárias. Trata-se de uma transposição fonética do espanhol local. Assista:

O Silvo Gomeiro

Por Eduardo de Paula

———

(1) No Brasil, o fiu-fiu chegou trazido pelo cinema de Hollywood mas, agora, infelizmente está em desuso. Nos países de língua inglesa, é chamado de “wolf-whistle” – assovio do lobo – e virou moda na época da Segunda Guerra mundial, quando os marinheiros popularizaram o silvo usado no mar, mas então dirigido às mulheres que tinham o poder de despertar sua libido. Atualmente, o fiu-fiu tem sido classificado como assédio moral ou sexual.

(2) Juiz de futebol Arnaldo César Coelho.

(3) La Gomera, em português Gomeira: ilha com 370 km² de área, a segunda menor das ilhas principais do arquipélago das Canárias. Coordenadas geográficas 28° 06′ N 17° 08′ O, na costa da África.

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