Sumidoiro's Blog

22/07/2010

ALÉM DA MEDICINA

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 6:08 am

♦ Uma história do sertão

Os professores  Milton Carneiro(1) e  Anis Rasi(2) descreveram(3) fatos curiosos e pouco conhecidos fora do mundo acadêmico, ocorridos durante a descoberta(4) da Doença de Chagas, no início do século XX. O palco dos acontecimentos foi Lassance (Minas Gerais), antiga São Gonçalo das Tabocas, que fica entre Curvelo e Pirapora. Ali vivia uma população extremamente miserável, atacada por várias doenças, dentre elas aquela transmitida pelo inseto denominado barbeiro, até então desconhecida.

Ambos referem-se às curiosas histórias de duas necropsias, que transcendiam à própria prática da medicina e que foram relembradas pelo Dr. Belisário Penna, um dos membros da equipe médica de Carlos Chagas, ao proferir seu discurso de posse como sócio honorário da Academia Nacional de Medicina, em 1921. A primeira necropsia foi feita numa criança do sexo feminino, de 4 meses de idade, chamada Alberta e que faleceu em 7 de junho de 1910. Assim Belisário descreveu como foram contornadas as dificuldades de sua equipe para realizá-las:

“Carlos Chagas declarou que, custasse o que custasse havia de autopsial-a e recolher o material para estudos. Lembrou-se de exhumar o cadaver, á noite, e no proprio cemiterio, fazer a autopsia. Oppuz-me formalmente a esse alvitre, que daria lugar a graves desgostos e contratempos, se de leve se suspeitasse do facto. Comprar o cadaver, por maior que fosse a somma offerecida, nem pensar em tal naquelle meio.

Post - Chagas & Belisário Carlos Chagas e Belisário Penna.

Recorremos então a um ardil sentimental e piedoso, que deu resultado completo. Por absoluta carencia de recursos dos paes da criancinha, ia ser ella inhumada, sem feretro, e simplesmente envolvida em lençol. Propuzemos-lhe então que levassem para nossa casa o pequeno cadáver, porque o vestiriamos com decencia, e mandariamos preparar um bonito feretro, realizando-se no dia seguinte pela manhã o enterro.

Para justificar a offerta, allegamos os nossos sentimentos piedosos, e o facto de havermos tratado a criancinha. Gratos e enternecidos acceitaram os paes a offerta, levando para nossa residencia o pequeno cadaver, que, á noite, portas e janellas fechadas e calafetadas, foi por nós autopsiada, retiradas as visceras, o cerebro e a medulla. Cheias as cavidades de algodão, recomposto o cadaver, foi vestido, coberta a cabeça com uma bella touca e mettido num caixão. Pela manhã realizou-se o enterro, sem que os paes, ou quem quer que fosse suspeitasse, sequer, do que se passára. No dia immediato eu embarcava para aqui, afim de entregar a Oswaldo Cruz esses despojos preciosos, que intensa luz projetaram sobre a grande descoberta de Chagas”. E continuou Belisário Penna: “Como conseguir, sem hospital, a autopsia num caso chronico da doença? Adoece gravemente um homem de cerca de trinta annos de idade, residente a duas leguas da povoação, meu companheiro de varias caçadas, e caso typico da modalidade cardiaca da doença, sem bocio nem perturbações do systema nervoso. Era um caso perdido. Convencemos os parentes de que a unica probabilidade de salvação do doente, consistia numa assistencia medica ininterrupta, não praticavel na sua morada. Propunhamos, pois, recebel-o em nossa casa, onde o tratariamos com todo o desvello. Está claro que só dispunhamos de acommodação para o doente. Acceita a proposta, foi elle removido para nossa residência, onde falleceu dez dias depois, á tardinha, sendo autopsiado durante a noite por nós dois e pelo saudoso Gaspar Vianna, então presente em Lassance. Eis como se realizaram as duas primeiras autopsias, que evidenciaram a acção pathogenica do Trypanosoma cruzi, e cujos estupendos resultados se acham registrados em notaveis trabalhos de Carlos Chagas, de Gaspar Vianna e do Instituto Oswaldo Cruz”.

Gaspar Vianna, médico herói.

MÉDICO HERÓI

Pouco tempo depois da importante descoberta, anunciada em abril de 1909, iria acontecer outro fato emocionante, envolvendo o participante das necropsias, Gaspar de Oliveira Vianna, um gênio da ciência médica. É o que revela sua história de vida(5). O jovem, nascido em Belém do Pará, filho órfão do português Manoel Gomes Vianna, que contava apenas com o apoio da mãe, Leonor Jesus de Oliveira, um irmão mais velho e duas irmãs, tinha uma obstinação, estudar medicina. Viveu sua adolescência mergulhado nos livros de ciência, interessado em curiosidades, cheio de dúvidas e à procura de respostas. Já no curso secundário começou a se interessar pela carreira médica. Para concretizar seu sonho, mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1903. Logo no primeiro ano na Faculdade de Medicina chamou a atenção do professor de histologia, Eduardo Chapot Prévost, passando a colaborar ativamente com o mestre em suas aulas, emprestando-lhe sua coleção de lâminas para o ensino da matéria. Conquistou um histórico escolar pleno de notas máximas. O impulso à sua carreira veio em seguida, em 1908, quando foi convidado para ser o chefe do serviço de histopatologia do Instituto Oswaldo Cruz, um ano antes de completar o curso superior. Seu brilho e competência levou-o, quando médico, a descobrir a cura de uma doença considerada até então incurável, a leishmaniose. O trabalho do patologista foi então publicado em alemão e teve repercussão mundial. Realizou ainda outros trabalhos importantes para a Medicina Tropical, sobre micoses e sobre a evolução do Trypanosoma cruzi nos tecidos humanos e de animais. Mas eis que, enquanto trabalhava na necropsia de um cadáver, de uma incisão acidental ao se abrir a caixa torácica, esguichou líquido pleural na sua boca, produzindo grave infecção tuberculosa. A contaminação evoluiu, provocando sua morte(6) dois meses depois. Aos 29 anos, o médico herói foi vítima da devoção à ciência.

Por Eduardo de Paula

(1) CARNEIRO, Milton − *16.10.1902 +22.01.1975, Prof. de Parasitologia e Anatomia Patológica, da Universidade Federal do Paraná, Membro da Academia Paranense de Letras.

(2) RASI, Anis − Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás.

(3) CARNEIRO, Milton − “História da doença de Chagas”, Curitiba: s.n., 1963. 91p.; RASI, Anis − “Um Tributo a Carlos Chagas”, Revista de Patologia Tropical, v.38, out-dez, 2009.

(4) Veja o Post “O capitão e a doença de Chagas“.

(5) Fonte: Diário do Pará (13.04.2010)

(6) *11.05.1885 +14.06.1914

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2 Comentários »

  1. Eduardo,
    Gostamos muito de seu trabalho.
    Nestes depoimentos, verificamos que, médicos daquela época como Dr. Carlos Chagas, Dr. Gaspar Viana, Dr. Belisário Pena e outros colaboradores arriscavam suas proprias vidas nos sertões, para descobrirem a etiologia das Doenças de Chagas, Malária e outras. Para conseguirem orgãos humanos à pesquisa científica, tinham até que praticamente executar um sequestro manso de cadáveres (chagásicos), depois entregá-los à família após extrações de determinados orgãos, sem que os familiares soubessem, como observamos no exposto.
    BH, 17-08-10
    Um abraço,
    Carlos Recife .

    Comentário por Carlos Alexandre de Ulhôa Recife — 17/08/2010 @ 10:27 am | Responder

    • Carlos: Obrigado pelo estímulo. É bom saber que você se interessa pela nossa rica história. Retribuo seu abraço.

      Comentário por sumidoiro — 17/08/2010 @ 7:04 pm | Responder


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