Sumidoiro's Blog

07/09/2010

NO TEMPO DO IMPERADOR

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 3:45 pm

♦ A guerra dos luzias

O menino acordou no palácio. Tinha pouco mais de cinco anos de idade e seu pai, o imperador, abandonara o país naquele dia, 7 de abril de 1831, deixando-lhe sua coroa sobre a cama, um presente indesejado. Seis dias depois, papai Pedro I, já a bordo da fragata britânica Warspite, recebeu uma carta enviada pelo garoto, que já sabia ler e escrever. Com lágrimas nos olhos, o ex-imperador leu e enviou resposta emocionada, chamando-o de “meu querido filho e meu imperador”.

Pedro II, o menino imperador; à direita, Palácio da Cidade. 

Havia chegado a hora do menino habituar-se a caminhar sozinho. Sozinho não, José Bonifácio de Andrade e Silva(1) fora nomeado seu tutor. Logo no dia 9 de abril, a preceptora Mariana Carlota(2), sua mãe de criação, que lhe dedicava muito carinho, levou-o de carruagem até o Paço da Cidade. Ali, ainda chocado com a ausência do pai – d. Pedro I – e da madrasta, ficou aterrorizado diante da multidão. Sob tiros de canhão, foi aclamado imperador, aos cinco anos de idade. O pequeno “órfão” foi também cuidado com afeto por um veterano de guerra, o preto Rafael, que o carregava nos ombros e lhe dava refúgio no seu quarto, quando não queria estudar.

Santa Luzia. (A. Riedel, 1869, detalhe) 

O amparo de José Bonifácio durou pouco, pois, em 1834, foi substituído por Manuel Inácio de Andrade Souto Maior Pinto Coelho – marquês de Itanhaém –, homem de nome comprido, com poucas idéias, mas honesto. Felizmente, o novo tutor, soube escolher aqueles que lhe dariam uma educação primorosa.

Com tanta rigidez foi criado, que transformou-se numa pessoa tímida. Teve infância triste e solitária, contudo soube superar suas carências por ser intelectualmente bem dotado, inquieto e curioso. Nesse tempo, superava sua solidão no refugio dos estudos e dos livros. Aprendeu também a desenhar e, usando o lápis com habilidade, se distraía, colocando no papel bonitas imagens captadas pelo olhar sensível. Assim foi preenchendo a existência com coisas de verdadeiro valor e se tornou homem de grande cultura. Fragilidades à parte, faltariam adjetivos ao descrever suas boas qualidades, seus valores intelectuais e humanos. Pela pouca idade, não poderia exercer o poder e, assim sendo, foi instituído um triunvirato para representá-lo, num regime de regência, que produziu os mais conturbados dias da história do país. Coitado do imperador… Nesse período regencial ocorreram tumultos políticos de toda sorte, chegando ao ponto do povo pedir sua investidura ao trono, como se cantou numa quadrinha:

“Queremos Pedro II

Embora não tenha idade!

A Nação dispensa a lei

E viva a Maioridade!”

Para por fim ao caos e restaurar a ordem, foi declarada sua maioridade prematuramente. Desta forma, quando completou 15 anos, em 2 de dezembro de 1840, findou o período de regência e d. Pedro II foi colocado no trono. Naquele momento, os políticos de diferentes tendências, cada grupo menosprezando o opositor, disputavam ferozmente o poder, achando que seria fácil conquistá-lo. No princípio, seu governo apoiou-se no Partido Liberal, que triunfara sobre o Conservador, mas, um ano depois, este voltou à carga, pregando medidas reacionárias que deixavam clara a disposição da retomada do poder.

Diante do acirramento das divergências, o imperador dissolveu a Câmara, mas estourou a Revolução Liberal, primeiramente com um levante na Província de São Paulo, em maio de 1842, que teria desagradáveis reflexos como era de se esperar, se espalhando também por Minas Gerais. D. Pedro II ainda não tinha completado 17 anos e se deparou com essa tremenda encrenca. Para se livrar do enorme incômodo, o muito jovem imperador convocou um brilhante militar, com a missão de pacificar as províncias, o brigadeiro Luiz Alves de Lima e Silva, futuro duque de Caxias. Naquela hora, d. Pedro II, que nunca quis o poder e que sempre fora amigo da paz, deve ter-se lembrado do dia da sua aclamação no Paço da Cidade e dos tiros de canhão.

Sabará, em 1842.  (Litografia de Heaton & Resburg, detalhe)

A GUERRA

No dia 07 de junho, ocorreu o combate de Venda Grande (Campinas), quando os revolucionários, com inferioridade numérica, foram surpreendidos e batidos. É claro, Caxias estava mais bem preparado. Em 10 de junho, Barbacena (MG) foi transformada em sede dos revolucionários. Naquele momento, o deputado geral Teófilo Ottoni se dirigiu a Minas, assumindo o comando da revolução na região de Santa Luzia (MG). O conflito prosseguiu, com vitórias e derrotas de ambos os lados, prevalecendo o poder das tropas de Caxias, até que caminhou para a decisão final em terras de Sabará, Lagoa Santa e Santa Luzia.

Para se ter idéia do estado de espírito das populações da beira do Rio das Velhas, no palco das batalhas finais, basta saber que Dona Francisca morreu de susto, como escreveram em sua certidão(3) de óbito:

21 ago 1842, na Matriz, Dona Francisca Marcianna de Assis e Castro, cazada com o Capitao Anastacio José Gonçalves de Abreu, brancos, faleceu segundo constou de susto da revolucao, por essa mesma causa, sem sacramento, porque estava distante da cidade e nao se podia entao andar pelos caminhos, foi de licenca minha acompanhada e encomendada pelo Reverendo Vigario Manuel Roberto da Silva Diniz e mais sacerdotes. O Vig.ro Encom.do Joao Alves Pacheco.”

Casa em Santa Luzia, quartel general dos revolucionários e uma das janelas perfurada por tiros.

Em Lagoa Santa, vivia o famoso paleontólogo Peter Wilhelm Lund, que ficou aflito com os acontecimentos, conforme descreveu em carta(4) dirigida ao zoólogo J. T. Reinhardt:

“O senhor […] soube, pelos jornais, que uma revolução aconteceu em [..] São Paulo e Minas. Infelizmente as mais pesadas nuvens de tempestade pairam agora sobre esta parte do país, onde também pipocam explosões em Santa Luzia […] Deste modo, fui envolvido por todos os inconvenientes e perigos de tal crise, […] toda a bela estação foi perdida para as excursões – e aqui na minha […] casa tive poucas oportunidades de prosseguir com as minhas investigações, já que todos os meus pensamentos estavam voltados para assegurar as minhas coleções, que, por esta razão, empacotei em baús para estarem prontas em caso de qualquer incidente.”

Os momentos cruciais do conflito foram de escaramuças, correrias e confrontos, ocorridos em cidades próximas, Sabará, Santa Luzia e Lagoa Santa. Finalmente, ocorreu a batalha decisiva em Santa Luzia, no dia 20 de agosto de 1842. O historiador e participante da Revolução Liberal, cônego José Antônio Marinho, descreveu(5) que um grupo de combatentes se deslocara de Curvelo em direção à região de Sabará. Suas palavras:

“… marchava da Villa do Curvello, a 46 leguas de distancia, uma columna de trezentas e cincoenta praças, dirigidas pelo Coronel de legião Luiz Euzebio d’Azevedo. Faziao parte d’ella os vereadores da Camara Municipal, e mais cincoenta pessoas importantes do Municipio”.

Acompanhava as forças de Curvelo o major Felicíssimo(6) de Souza Vianna, um dos vereadores da cidade, que aprovaram a participação da comunidade na causa liberal. Entre os rebeldes da região de Santa Luzia estavam o tenente-coronel José(7) de Souza Vianna e seu filho Francisco de Paula Fonseca Vianna – futuro barão e, depois, visconde do Rio das Velhas. Os três Viannas eram parentes próximos(8) e, certamente, contavam com a aprovação e a solidariedade do grupo familiar. Alinhavam-se com os legalistas, da região de Santa Luzia, os Teixeiras da Costa, entre eles o comendador Manoel Teixeira da Costa, casado(9), em primeiras e depois em segundas núpcias, com filhas do tenente-coronel José de Souza Vianna.

No dia 4 de agosto, houve uma batalha feroz em Lagoa Santa, quando os revoltosos, liderados por Téofilo Ottoni(10), mostraram todo seu ânimo pelo combate. Pessoas valentes da população local também envolveram-se no confronto, conforme relato do cônego Marinho:

“Merece especial menção o comportamento d’uma Senhora, cujo nome sinto ignorar (É ella tia d’Adriano José de Moura), que nos momentos mais criticos, mostrou uma coragem superior não só a seu sexo, mas ainda a de muitos homens, aos quais animava e exhortava para que acudissem ao fogo, distribuindo ella mesma a munição, e fazendo-a conduzir para as differentes trincheiras, apesar das balas, que cruzavão pelo pateo da casa, pelos telhados, paredes, e pelas ruas com um zunido aterrador.”

Batalha de Lagoa Santa. (Litografia de Heaton & Rensburg)

Uma litografia, de Heaton & Rensburg, mostra a cena do combate com uma descrição na legenda:

“ARRAIAL DE LAGOA SANTA — [1. Lagoa Santa] — [2. Matto da Jangada, onde um soldado do Corvello commandava a emboscada de 40 praças que derrotarão as forças do Coronel Manoel Antonio Pacheco(11), compostas de 750 praças, ficando o ditto Coronel gravemente ferido.] — [3. Sangrador, onde o Tenente Pedro Lataliza, com 18 praças, e havendo só 6 armas,  fez debandar Faustino Francisco com 200 praças que comandava.] — [6. Casa de Carlos Joaquim dos Santos, onde se intrincheiraram Manoel José de San Payo e Moyses de Souza Caldeiras e mais três moços do Corvello. Fizerão debandar 250 praças, commandados por Antonio Julio, Damas e Laurenço (legalistas)]

OUTRAS HISTÓRIAS

Fatos curiosos, ocorridos naqueles dias, envolveram personagens ligados por amizade e parentesco, pertencentes às famílias Vianna e  Teixeira da Costa, ambas tradicionais nas regiões de Santa Luzia e Curvelo.

Cabe também notar que, no imaginário de muita gente, prevaleceu a história virada de cabeça para baixo, dizendo que os liberais teriam ganho a batalha final, embora não seja esta a verdade. Recentemente(12), a ilustre jornalista luziense Anna Marina Vianna, que também é Teixeira da Costa, demonstrou surpresa ao descobrir tal fato. Conta que “um dos orgulhos da memória foi conservado com o maior zelo: as balas disparadas durante a Revolução Liberal de 1842, que continuam nas janelas. […] Mas, pelas lendas da família, nas quais acreditei, […] Teófilo Otoni deu […] uma corrida em Caxias. A cidade conserva até uma região conhecida como Carreira Comprida, por onde os soldados da legalidade teriam fugido. Pois não é que está tudo errado?”

Fazenda do Engenho, no atual Parque Estadual do Sumidouro.

Na verdade, os revoltosos é que foram submetidos às tropas de Caxias, a maioria debandou, poucos ficando  prisioneiros. Porém, a versão falsa e maliciosa, de que teriam saído em correria pela Carreira Comprida, pode ter sido plantada pelos legalistas. Curiosamente, no imaginário popular, o que foi derrota virou vitória gloriosa, sinal de que os liberais ainda são bem queridos. Inúmeros foram presos e, mesmo os que não foram, sofreram muitas hostilidades por parte dos conservadores, embora seja difícil dizer que, politicamente, tenha havido vencedores. O tenente-coronel José de Souza Vianna, um dos que foram presos, ficou recolhido na cadeia de Ouro Preto(13). Desde então, os liberais passaram a ser conhecidos por Luzias, em virtude do nome da cidade onde ocorreu a derradeira batalha.

Antiga ponte de madeira no rio das Velhas, em Santa Luzia.

O major Felicíssimo de Souza Vianna foi muito feliz em sua fuga e, por incrível que pareça, recebeu refúgio de um chefe conservador, o comendador Manoel Teixeira da Costa, como relatou seu filho Augusto de Vianna do Castello, em carta (17.11.1948) ao historiador Antônio Gabriel Diniz(14):

“Vencido o levante no combate de Santa Luzia, refugiou-se na Fazenda do Engenho do Comendador Teixeira da Costa, chefe conservador, até que o governo imperial concedeu annistia aos rebeldes, reconhecendo os postos dos officiais das forças rebeldes. Explica-se o asylo dado por um chefe conservador a um liberal rebelde: o comendador Teixeira da Costa era casado com uma irmã do Visconde do Rio das Velhas, prima irmã de meu pae.”

Em 14 de março de 1844, d. Pedro II concedeu anistia aos revoltosos, sendo que, até aquela data, Felicíssimo desfrutou de confortável refúgio em casa do parente comendador. Também deve ter feito frequentes visitas aos seus pais, Antônio de Souza Vianna e Josefa Fernandes de Azevedo, que moravam ali pertinho, numa fazenda na região do Sumidouro(15), recebendo deles o carinho de que tanto necessitava. Mas é assim mesmo, família, família, política à parte… Desta forma e, consequentemente, com a colaboração do imperador, a paz se fez. Por essas e por outras, d. Pedro II ficou conhecido como “o magnânimo” e Caxias, “o pacificador”.

E vai que o imperador nunca mais esqueceu-se das Minas Gerais, que conhecia só de longe. Tanto que, trinta e nove anos nos depois, veio conhecer de perto o palco da revolução, onde passou dias inesquecíveis, na santa paz, e em alegre convívio com liberais e conservadores. Bem, mas aí já é outra história…

Por Eduardo de Paula

(1) José Bonifácio de Andrada e Silva (13.06.1763 – 06.04.1838) naturalista, estadista e poeta brasileiro, conhecido como “Patriarca da Independência”.

(2) Mariana Carlota de Werna, viúva portuguesa, aia e camareira-mor, a quem d. Pedro carinhosamente chamava de Dadama.

(3) Pesquisa de Vânia Lúcia de Oliveira, em 13.07.2006, Centro de História da Família, filme 1252318, item 5, óbitos em Sabará, Minas Gerais, página 15 verso.

(4) København: Det Kongelige Bibliotek, NKS 2838. 14/01/1843

(5) MARINHO, José Antônio – “História do Movimento Político que no Anno de 1842 Teve Lugar na Província de Minas Geraes”, 1844.

(6) Major Felicíssimo de Souza Vianna, filho de Antônio de Souza Vianna, sobrinho do tenente-coronel José de Sousa Vianna.

(7) José de Souza Vianna, meio-irmão de Antônio de Souza Vianna, ambos filhos de Bernardo de Souza Vianna.

(8) Veja os Posts  “De onde vem o primeiro Vianna” e “Viana: a terra, o nome”.

(9) Comendador Manoel Teixeira da Costa, casado, em primeiras núpcias com Maria Cândida e em segundas núpcias com Maria Luiza, filhas de José de Souza Vianna.

(10) Teófilo Ottoni, político e um dos líderes da Revolução de 1842.

(11) Coronel Manoel Antônio Pacheco, primeiro e único barão de Sabará.

(12) Coluna de Anna Marina, jornal Estado de Minas, 19.08.2010, Caderno Cultura, p.2.

(13) Informação do historiador Hélio Vianna: “Digesto Econômico”, n. 216, p. 69 – 1970 – Associação Comercial de São Paulo.

(14) Historiador Antônio Gabriel Diniz (01.09.1891-26.10.1969), membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

(15) Antiga região do Sumidouro, onde viveu o bandeirante Fernão Dias Paes.

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2 Comentários »

  1. Eduardo: Suas histórias, verdadeiras preciosidades, pela verdade mostrada em rica e respeitável bibliografia. Zeloso pela região, eleva a família Vianna que nela habita e sente honra em pertencer a ela. Nossa região, “a grande Sabará”, ficaria mais pobre e menor sem suas pesquisas. Parabéns.
    Como filha de Lagoa Santa, destas “águas santas das gerais”, sinto-me cravada em parte desta saga. Saga de Sabarabuçu, onde ecos do passado gritam socorro, pedindo o olhar para trás, a sabedoria.

    Comentário por mara marilda — 07/09/2010 @ 4:39 pm | Responder

    • Marilda: Como sempre suas palavras são valioso estímulo. Pretendo continuar garimpando histórias da nossa terra de todas as riquezas. Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 07/09/2010 @ 6:21 pm | Responder


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