Sumidoiro's Blog

01/11/2010

REPÓRTER RUGENDAS

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:07 am

♦ Mais que um esteta.

Muitos consideram o estudo da história insípido, se é narrada em tom doutoral, de maneira fria e complicada. São levados ao desapreço pelo passado e, assim, contribuem para que muitas memórias documentais fiquem escondidas nas gavetas, registros desapareçam, monumentos sejam destruídos. O interesse fica então restrito ao reduzido círculo das academias e os povos é que saem perdendo, pois seus retratos ficam incompletos, imprecisos e, às vezes, deturpados. No âmbito popular, na verdade, pouco se conhece sobre os tempos da escravidão e há visões distorcidas. Uma infinidade de páginas sobre essa época foram produzidas, mas, a maioria, sem a competência e a habilidade ao descrever lugares, gentes e fatos como fez o pintor Rugendas. Não que ele fosse ou sequer pretendesse ser historiador, mas auxiliado pelo seu talento para a pintura, conseguiu produzir, de maneira cativante, um documento honesto e sensível de momentos importantes do Brasil antigo.

Porão de navio – Mercado de escravos – Castigos públicos (por Rugendas).

O alemão Johan Moritz Rugendas(1), esteve no Brasil duas vezes, entre março de 1822 e maio de 1825, depois de julho a agosto de 1846. Na primeira, tinha dezenove anos de idade e participava da expedição do barão Georg Heinrich von Langsdorff(2). Em consequência de desentendimentos, abandonou o grupo e decidiu prosseguir viagem por conta própria, permitindo-se livremente percorrer seu caminho, o que o levou a produzir uma obra pessoal, sem interferências alheias.

Da segunda vez, já um artista amadurecido, veio concluir o projeto inicial da sua carreira, de documentar o império colonial brasileiro. Seu objetivo não foi simplesmente artístico, mas o de produzir gravuras para o ávido mercado consumidor da Europa, curioso de imagens de povos e lugares desconhecidos. Primeiramente, realizou desenhos e pinturas, para serem reproduzidos através da técnica da litografia(3), que, em grande parte, referem-se aos escravos. Em um texto complementar, descreveu o que viu e opinou de modo incisivo, denunciando as barbaridades que presenciara. O artista ficou profundamente chocado, ao se deparar com os negros vivendo sob o cruel regime da escravidão e não se calou, manifestando ao mundo o seu inconformismo.

À esquerda, uma matriz litográfica; à direita, tiragem de uma cópia.

Seu trabalho foi publicado, pela primeira vez em 1835, com sucessivas edições que obtiveram enorme repercussão. Trechos do livro que levou o nome de “Viagem Pitoresca Através do Brasil(4):

“É, sem dúvida, durante o trajeto da África para a América, que a situação dos negros se revela mais horrível. […]Embarcam-se anualmente, cerca de 120.000 negros da costa da África, unicamente para o Brasil, e é raro chegarem a seu destino mais de 80 a 90 mil. Perde-se, portanto, cerca de um terço durante uma travessia de dois meses e meio a três meses.

Reflita-se sobre a impressão cruel do negro diante da separação violenta de tudo que lhe é caro, sob os efeitos do mais profundo abatimento ou a mais terrível exaltação de espírito, unidos às privações do corpo e aos sofrimentos da viagem, […] Esses infelizes são amontoados num compartimento cuja altura raramente ultrapassa cinco pés. Esse cárcere ocupa todo o comprimento e largura do porão do navio; aí estão eles reunidos em número de duzentos a trezentos, de modo que para cada homem adulto se reserva apenas um espaço de cinco pés cúbicos. […] O mais das vezes, as paredes comportam, à meia altura, uma espécie de prateleira de madeira sobre a qual jaz uma segunda camada de corpos humanos. Todos, principalmente nos primeiros tempos da travessia, têm algemas nos pés e nas mãos e são presos uns aos outros por uma comprida corrente.

Acrescentamos, a essa deplorável situação, o calor ardente do Equador, a fúria das tempestades e a alimentação, a que não estão acostumados, de feijão e carne salgada, a falta de água, […] Às vezes acontece ficar um cadáver vários dias entre os vivos. […] ao menor sinal de sedição, não se distingue ninguém; fazem-se impiedosas descargas de fuzil nesse antro atravancado de homens, mulheres e crianças.

[…] Os navios negreiros não estão sujeitos a nenhuma quarentena, nem no Rio de Janeiro e em nenhum outro porto do Brasil […] Algumas vezes, são obrigados a permanecer vários dias ancorados à entrada da barra ou no porto, mas a duração do atraso depende unicamente do capricho ou do interesse da alfândega ou do médico-mor. […] Logo que o negociante obtém licença para desembarcar seus escravos, são eles colocados na alfândega, donde são registrados depois do pagamento dos direitos de entrada.

[…] Da alfândega são os negros conduzidos para os mercados, verdadeiras cocheiras: aí ficam até encontrar comprador. A maioria dessas cocheiras está no bairro do Valongo, perto da praia. Para um europeu, o espetáculo é chocante e quase insuportável. Durante o dia inteiro esses miseráveis, homens, mulheres, crianças, se mantêm sentados ou deitados perto das paredes desses imensos edifícios e misturados uns aos outros; […] Seu aspecto tem algo horrível, principalmente quando ainda não se refizeram da travessia. […] São alimentados com farinha de mandioca, feijão e carne seca. Não lhes faltam frutas refrescantes”.

Rugendas em três tempos: jovem(5), idade madura e idoso(6).

UM RESTO DE ESPERANÇA

Continua Rugendas no seu texto:

“A única coisa que parece inquietá-los é uma certa impaciência em conhecer seu destino final, por isso o aparecimento de um comprador provoca entre eles, muitas vezes, explosões de alegria; […] Infelizmente, quando se vendem escravos, raramente se toma em consideração os laços de parentesco. Arrancados a seus pais, a seus filhos, seus irmãos, esses infortunados explodem às vezes em gritos dolorosos…

[…] Ao chegar à fazenda, confia-se o escravo aos cuidados de um outro mais velho e já batizado. Este o recebe na sua cabana e procura fazê-lo, pouco a pouco, participar de suas próprias ocupações domésticas; ensina-lhe também algumas palavras de português. É somente quando o novo escravo se acha completamente refeito das consequências da travessia, que se começa a fazê-lo tomar parte dos trabalhos agrícolas dos outros. É então o seu primeiro protetor que o instrui. Durante muito tempo sua inabilidade e sua fraqueza são consideradas com boa vontade. Todas essas preocupações tornam a entrada do escravo, em sua nova condição, mais leve, não sendo por isso de estranhar que os negros em geral se mostrem bastante contentes e logo esqueçam suas desventuras anteriores. Isso é tanto menos surpreendente quando muitos deles foram escravos em sua pátria e eram mais maltratados do que na América”.

É VERDADE

À esquerda, anúncio de compra de escravos doentes; à direita, relação de passageiros do barco Santa Maria.

Os sentimentos que invadiram Rugendas não foram exagerados, nem seus relatos fantasiosos. Para que não pairem dúvidas de como era o regime da escravidão, é interessante conhecer um pouco dos milhares de documentos que comprovam a desgraça que perdurou até o final do século XIX. Veja-se, por exemplo, o texto do anúncio publicado no “O Jornal”, de 31.03.1857. Assim está escrito:

“Comprão-se escravos tisicos e de enfermidades graves; na rua do Nuncio n. 3.”

Qual seria o destino desses corpos tuberculosos ou devastados por doenças graves? Para o bom entendedor um pingo é letra…

Com que naturalidade encarava-se a escravidão! O “Diario Official do Imperio do Brasil, Anno de 1864, Quinta feira, 25 de Junho, Numero 139”, enumerou os passageiros de um barco que navegaram em águas plácidas pela costa brasileira. Compunham o grupo pessoas mui distintas, algumas nem tão distintas e outras tão-somente mercadorias a entregar:

“Relação dos passageiros sahidos ontem para Santos no paquete a vapor Santa Maria – João Rodrigues dos Santos Camargo e 1 criado […] padre Miguel Corrêa Pacheco, D. Maria J. C. Braga, 2 sobrinhos e 2 criados, […] Antonio Gomes de Amorim e 1 filho, […] os Inglezes P. W. Sharp e sua família, o Alemão S. de Pottere, a Franceza Mme. R. Grenzelle, o Americano H. M. Lane […] 26 trabalhadores e 78 escravos a entregar.”

Essa barbaridade haveria de ter um fim. Assim, desde 1850, começara a declinar o tráfico de escravos. Progressivamente, a mão de obra escrava estava sendo substituída por imigrantes europeus assalariados. Esses vinte e seis trabalhadores embarcados poderiam ser mão de obra estrangeira e os demais escravos.

Convocação para recuperar escravos fugidos (Diário Oficial do Império do Brasil, 16.06.1864).

É curiosa outra publicação que se fez, dirigida a senhores da alta sociedade que estariam sendo privados de seus valiosos bens:

“EDITAL – Pela secretaria da policia da Provincia do Rio de Janeiro se faz publico que se achão recolhidos à casa de detenção desta cidade, à ordem do Sr. Dr. Chefe de policia […] os escravos seguintes: José, Crioulo, que declarou pertencer a Francisco Macedo; Bonifacio, Crioulo, a Antonio Silva; Ambrosio, Crioulo, a Francisco de Souza Barros; Antonio Congo, a João Antonio Fernandes Pinheiro; Joaquim, Moçambique, a Manuel Aguiar Vallin; Simião, Benguela, a José Lourenço de Gouvêa; Miguel, Cabinda, a Ignacio Pinto Bandeira; Agostinho, Crioulo, a Maria Isabel da Visitação Freire; Manoel, Congo, a Pedro Baratta; Luiz, Pardo, a F. Gardini; Leonardo, Crioulo, a Antonio Pougeth da Silva; e Jorge, Angolla, ao barão de Mauá(7). – Convida-se portanto aos interessados a comparecerem quanto antes nesta secretaria a fim de reclamarem os referidos escravos, com documentos comprobatorios de propriedade. Nictheroy, 15 de Junho de 1864. – O secretario da policia, Leopoldo Henrique Castrioto(8).

Documento(9) do império: anotação do nascimento de Antônia, filha de Balbina.

NOVOS TEMPOS

Contudo, não foi fácil por fim à escravatura. Precisou de um processo longo e sofrido, que começou com a Lei do Ventre Livre(10), passando pela Lei dos Sexagenários(11) e, finalmente, chegando à Lei Áurea. Ao longo de muitos anos, sucederam-se inúmeros embates entre os que defendiam e os que desejavam o fim da escravatura, incluindo, é claro, os que sofriam o mal na própria carne, os negros cativos.

Até o final do século XIX, perdurou o domínio absoluto do senhor escravista, como está demonstrado na nota de regulamento do império, emitida em Curral Del Rei – atual Belo Horizonte, capital de Minas Gerais:

“NOTA No. 42 (Art 6o …)  Joaquim Antonio da Costa Araujo, residente neste municipio, declara que no dia 12 de Março de 1872, nasceo de sua escrava preta, de nome Balbina, casada, serviços domesticos, que se acha matriculada com os ns. 1662 oitavo da matricula geral do municipio e 8 da relação apresentada pelo mesmo Costa Araujo, huma criança preta, do sexo feminino, baptizada com o nome de Antonia. – Provincia de Minas Geraes, município de Sabará, parochia de Curral d’El Rey, 20 de maio de 1872 – Joaquim Antonio da Costa Araujo.”

Em 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel(12) sancionou a Lei Áurea, abolindo a escravatura. Para a pobre menina Antônia, que completara dezesseis anos e dois meses de idade, não houve necessariamente grande mudança, apenas se descortinou um novo horizonte. Pena que Rugendas não teve a alegria de viver essa data, havia falecido em 1858. Mas o genial artista, também arguto repórter amador, está incluído no rol dos combatentes pela liberdade dos escravos. É um prazer conhecer Rugendas.

Por Eduardo de Paula

(1) RUGENDAS, Johann Moritz (Augsburg, 29.03.1802 – Weilheim, 29.05.1858).

(2) LANGSDORFF, Georg Heinrich von (18.02.1744 – 29.06.1852) – Médico e explorador, nascido na Prússia e naturalizado russo.

(3) Litografia, processo de impressão que usa como matriz uma pedra calcária. Há inúmeras edições das gravuras de “Viagem Pitoresca Através do Brasil”, como a da Editora Itatiaia, com o titulo de “O Brasil de Rugendas” (em offset), 1998.

(4) “Viagem Pitoresca Através do Brasil”, brochura, 8a. edição, Editora Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo,1979.

(5) Rugendas, auto retrato aos 25 anos (coleção Francisco Hederra).

(6) Rugendas, imagem fotográfica em talbotipia, por Franz Hanfstaengl. Data: antes de 1852.

(7) SOUZA, Irineu Evangelista – Barão, depois visconde de Mauá (1813-1889); industrial, banqueiro, político e diplomata, um símbolo dos capitalistas empreendedores brasileiros do século XIX. Curiosamente, como demonstra o edital neste Post, possuía um escravo fugido, embora tenha entrado para a história como liberal, abolicionista e contrário à Guerra do Paraguai; tornou-se “persona non grata” no Império.

(8) CASTRIOTO, Leopoldo Henrique – Bacharel secretário de polícia, depois segundo oficial da Secretaria da Agricultura; obteve dois anos de licença, para tratamento de saúde na Europa, com vencimentos integrais (Annaes do Parlamento do Brasil – Camara dos Deputados – 1867 – Tomo I; Sessão em 26 de Julho de 1867).

(9) Documento do arquivo de Carlos Aníbal Fernandes de Almeida: “Espaço Cultural Nilde Fernandes”

(10) Lei do Ventre Livre (28.09.1871), considerava livres todos os filhos de escravos nascidos a partir dessa data.

(11 Lei dos Sexagenários / Lei Saraiva-Cotegipe (1885): lei ambígua, que regulava a extinção gradual do elemento servil.

(12) Dona Isabel, princesa imperial do Brasil (13.05.1888), e o ministro da agricultura, conselheiro Rodrigo Augusto da Silva, assinaram a Lei Áurea.

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4 Comentários »

  1. Eduardo:
    Parabéns pelo assunto escolhido, de rara sensibilidade. Mostra uma face triste de nossa história, a qual Rugendas bem captou. Daí, perceber esta cultura de raízes, marcante em nosso povo.
    M.M.

    Comentário por maria marilda pinto corea — 03/11/2010 @ 7:03 am | Responder

    • Marilda: Como sempre, recebo seu valioso estímulo, que dá ânimo para continuar escrevendo.
      Muito obrigado,
      Eduardo

      Comentário por sumidoiro — 03/11/2010 @ 8:44 am | Responder

  2. Caro Eduardo, não li com a devida atenção este seu precioso blog, quando ler farei um comentário mais digno. Obrigado por este trabalho tão esclarecedor e interessante.
    José Eduardo de Oliveira – Patos de Minas

    Comentário por Professor — 23/12/2011 @ 9:26 am | Responder

    • Prezado Eduardo:
      Fico feliz de saber que tenho um leitor tão entusiasmado.
      Muito obrigado,
      Eduardo

      Comentário por sumidoiro — 23/12/2011 @ 9:45 am | Responder


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