Sumidoiro's Blog

01/12/2011

OS BICHOS DO BRASIL

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        ♦ E o dragão da bondade, especialmente.

Era uma vez um alferes… Nasceu em Vila Rica, em 1775, e ali viveu, até mudar-se para Portugal. Destacou-se, não como militar, mas por sua produção literária, particularmente ao cantar, com muita graça, a natureza brasileira dos tempos coloniais. Joaquim José Lisboa(1), na sua “Descrição Curiosa das Principais Produções, Rios e Animais do Brasil, principalmente da Capitania de Minas Gerais”, fez história sem querer ao escrever um versinho:

Temos abob’ra do mato,

Trapoiraba, herva do bicho,

Que se applica por esguicho

Aos que sentem corrupção.

Erva-de-bicho: polygonum hidropiper.

Mas que corrupção era essa, dos tempos coloniais? Tratava-se de uma degradação física, provocada por moléstia mal conhecida. Para a alegria do poeta, curava-se com ajudas da natureza. Na flora brasileira, encontravam remédio para tudo, usavam abóbora do mato, trapoeraba e erva-de-bicho.

O lírico alferes, nas notas finais do seu livrinho, enalteceu a erva-de-bicho, dizendo que “é estimabilíssima para mezinhas dos corruptos, cuja mezinha, extraída do suco dessa erva, sem se cozer e ajuntando-se-lhe algumas pimentas malaguetas e sumo de limão-francês, destrói a corrupção, refresca o corpo e sara as dores de cabeça.”

A erva-de-bicho era também recomendada para almorreimas ou, melhor dizendo, para hemorróidas. Visto que o desconforto provocado tanto pela corrupção quanto pelas almorreimas ocorresse no mesmo lugar, pela voz do povo surgiu o diagnóstico aleatório, seguido do tratamento à base do palpite.

PODER DO DRAGÃO

Em 1772, o português Luís de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres(2), para tomar posse como governador da capitania do Mato Grosso, fez uma grande viagem em montaria, do Rio de Janeiro até lá. Não disse ter adoecido no caminho, mas deixou claro em seu diário:

“Casca de pau chamado sangue de drago [dragão], quanto mais grosso milhor, bem cozida em um tacho, tomar ajudas dela e banho da mesma água é excelente para corrução [corrupção].

No dicionário, corrução é o mesmo que corrupção, quer dizer decomposição física. Mas do que se tratava? Era uma doença grave? Certamente que sim. E a infusão cozida no tacho? A casca, que o governador citou, era de uma árvore existente tanto no Brasil, quanto no Peru, Equador e Colômbia – o Croton lechleri, que possui propriedades semelhantes às do gênero Dracaena.

Croton lechleri, árvore tropical que produz o sangue-de-dragão brasileiro. 

O sangue-de-dragão genuíno, mais conhecido pelos portugueses, provinha da árvore denominada Dracaena draco ou dragoeiro, endêmica nos arquipélagos das Canárias, Açores e Madeira. No ano de 1402, Jean de Béthencourt(3), conquistador e depois auto-intitulado rei das Canárias, noticiou que essas árvores constituíam uma enorme riqueza das ilhas. Mais tarde, a partir de 1424, no início da colonização da ilha da Madeira pelos portugueses, exportaram grande quantidade de sangue-de-dragão, usado com a principal finalidade de tingimentos. De acordo com Charles Reade(4), escritor inglês da metade do século XIX, no acabamento do famoso violino Stradivarius era aplicada uma camada de verniz divino, preparado com sangue-de-dragão.

Dragoeiro (Dracaena draco), com idade próxima a 1000 anos, em Tenerife, arquipélago das Canárias.

O interesse muito antigo pela planta ficou também comprovado pelo navegador veneziano Alvise da Cà da Mosto(5) que, no ano de 1445, esteve no arquipélago português da Madeira e disse ter encontrado muitas árvores na ilha de Porto Santo:

“nela [na ilha] se acha ainda sangue de drago, o qual nasce de algumas árvores que há nela, o qual sangue é goma […] e tira-se deste modo: dão-se alguns golpes de machado no pé da árvore…”

O sangue-de-dragão é noticiado desde o século I d.C. Nessa época, um navegador grego escreveu sobre a ilha de Dioscórida, no Iêmen, hoje denominada Socotra, onde existem muitos dragoeiros. A palavra Socotra provém do sânscrito “dvipa sukhadhara”, ilha da felicidade(6). Escritores gregos antigos chamavam o sangue-de-dragão de cinabre ou vermelhão da Índia.

PALAVRA DO PADRE

No século XVIII, o padre e dicionarista Raphael Bluteau(7), escreveu sobre o produto que é cheio de controvérsias:

“Sangue de Drago – É uma espécie de goma, que por incisão se destila em licor […] vermelhas como sangue. […] Mina de uma árvore do tamanho de pinheiro […] os frutos se parecem com ginjas […] disseram alguns que, tirada desse fruto a pele, aparece a figura de um dragão, de onde lhe veio o nome. […] Há outras duas gomas […] que tem alguma semelhança com esta, que se dá o nome de Sangue de Drago […] de umas plantas das ilhas Canárias […] e outra se cria na ilha de São Lourenço…”  

De tão famoso, disse ainda Bluteau, passaram a falsificá-lo: 

“… Em Holanda se falsifica o Sangue de Drago e se faz vermelho com pau do Brasil […] mas não é bom usar dele para remédios.”

E continuou, tentando esclarecer a autenticidade do dragão:

“… escreve Plínio(8) que o verdadeiro Sangue de Dragão é o que corre e se coalha das feridas do dragão, depois das brigas, que muitas vezes tem com o elefante.” 

Assim também foi demais! O padre Bluteau não pôs fé no que escreveu, por isso tentou esclarecer as coisas:

“… O sangue de Dragão, que se usa nas boticas, é licor congelado a modo de refina, que se destila das árvores […] as quais se chamam dragões. Sangram os moradores da terra estas árvores, dando-lhes golpes na casca, onde acode a umidade que têm, e ali se coalha e faz em refina, vermelha, dura e transparente.”

Segundo Plínio, remédio bom é sangue coalhado das veias do dragão. (por Vittore Carpaccio, 1516)

Bluteau falou também de um mal-do-bicho e assim o descreveu:

“He uma enfermidade causada de hum bicho que se gera […] nos intestinos crassos & principalmente no intestino recto, junto ao cesso, em que este bicho vive da corrupta humidade & putrefação das taes partes, em que causa muita dor, roendo a substancia dellas; e não sô em o Reyno de Angola e Estados do Brasil padecem os homens essa enfermidade, mas também na Europa, sobrevindo este mal à convalecencia de outros, principalmente nos que saem dos Hospitaes & não tem commodidade de limpeza & nos que por sua condição são sórdidos em doenças dilatadas. Vejase Miguel Savonarola no livro Vermibus cap. I. Aonde faz menção de muitas espécies de bichos, que fora as lombrigas, se geram no corpo humano & causaõ morte.”

Apesar da erudição, o padre não sabia de tudo, pois tal verme nunca existiu, tratava-se de uma infecção bacteriana. Continuou Bluteau, dizendo que eram três bichos, o segundo, o bicho-de-pé(9):

“No Brasil se gera nos pés hum bicho, que no seu principio he como huma pulga & crescendo vem a ser da grossura de um grão de trigo…” e, o terceiro, o bicho que “se gera nas pernas como uma corda de viola; este frequenta mais a costa da Mina …”, aí sim, seria o “verme da Guiné”, causador de uma devastadora filariose(10). Em latim, nomeou cada um dos três, que aleatoriamente chamou de vermes(!):

“O primeiro […] se pode chamar Morbus ex verme intestino recto innato. O segundo e o terceiro […] morbus ex verme, pedi, vel cruri innato.

Retirada de verme da Guiné, semelhante a uma corda de viola.

Um instrumento, muito usado no combate ao pseudo-bicho do intestino, foi o sacatrapo, que facilitava a aplicação de um composto de pólvora, aguardente, pimenta e fumo na parte afetada. Sobre a palavra sacatrapo, no dicionário Bluteau explica:

“He um ferro retorcido ou fio de arame retorcido, pegado a hua [uma] vareta & com hua ponta no cabo, com que tirão nas espingardas & outras armas de fogo as buxas.”

PALAVRA DO LEIGO

Um contemporâneo de Bluteau, o médico-leigo português, Miguel Dias Pimenta(11), residente no Recife (PE), em 1707, publicou um trabalho sobre o bicho. Título: “Noticias do Que He o Achaque do Bicho, definiçam do seu crestame(n)to, subimento, corrupção, finaes & cura até o quinto grao, ou intensaõ delle, suas differenças & cõplicações com que se ajunta.” 

Abriu seu texto, escrevendo: Seus sinaes & cura, até o quinto gráo delle sómente, no sexto & ultimo se declara que cousa seja corrompimento do sesso…” 

No entendimento de Dias Pimenta, seria um bicho misterioso, por “mais que dizerem todos a hua voz ser bicho, o que ninguem afirmará vio.”

Falou, de modo um pouco confuso, da filariose africana, que se manifestava nas extremidades inferiores das pernas e pés: 

“He sem duvida, que em algu[m]s naturaes da costa da Mina, o que naõ succede em todos, ne[m] sômente na sua regiaõ; porque aos de lá sahem, nesta lhes dá hum achaque de Bicho, gerado pelos mesmos humores, descidos de sima aos pés & congelando-se, à semelhança de hua lombriga, das grandes do estomago […] amarrando-lhe a cabeça, que logo lança de fora […] ha um pauzinho, indo-o torcendo nelle pouco a pouco, atté que o arranca fora…” 

Dias Pimenta não ficou nisso e apresentou mais uns habitantes do país:

“He também se[m] duvida, que na nossa America ha hua espécie de Bichitos do feityo & cor das pulgas, muy diminutos no tamanho, criados da mesma causa […] estes entrando principalmente nos pés, se criam ao tamanho de hum graõ de milho grande, gerando dentro de si muitas lendeasinhas brancas, que cursando fora, na terra, ou ainda no sapato, se acabam de aperfeyçoar na cor & cada huma a outro Bicho […] & crear da mesma sorte outros muytos.”

Olha aí o bicho-de-pé! Desta maneira, o autor apontava em direção à falta de higiene que é, de fato, a causa primordial daquela e da variedade de moléstias que atingiam, principalmente, os negros cativos. Comenta-se que, apesar de não ser médico, Dias Pimenta comprava escravos doentes, obtinha muito sucesso combatendo o mal-do-bicho e assim podia revendê-los com lucro. Mas, aí já era a corrupção do médico pelo dinheiro…

Trabalho de Miguel Dias Pimenta sobre o mal-do-bicho, com 176 páginas.

PALAVRA DO COMERCIANTE

Em 1896, o português Joaquim Ferreira Moutinho(12), durante sua permanência de 18 anos no estado do Mato Grosso, escreveu sobre o mal-do-bicho, dizendo:

“A corrupção é o maculo, molestia oriunda da Costa d’Africa que ataca os negros e, principalmente, os de Angola e Moçambique; e que reina na Dinamarca. […] Consiste em uma inflamação septica […] que passa facilmente a um estado gangrenoso. […] Ao menor descuido desenvolvem-se […] bichos e varejas. […] O doente chega ao desfalecimento completo. […] N’este estado a morte é proxima, se não cede a molestia ao curativo quasi barbaro […] Consiste em clysteres de poaia, de água com summo de limão descascado com polvora, pimenta da terra, de licor de Labarraque misturado com agua de emulsão camphorada, de agua creosotada; em suppositorios de limão descascado com polvora, pimenta malagueta e erva do bicho e applicação de calollomelanos ou de rapé.”

Moutinho viu a doença disseminada e percebeu que provinha dos maus hábitos de higiene, pois escreveu: 

“Muitas pessoas não acreditam nesta enfermidade que, afinal, é tão comum que, em pouco tempo de estada por esses lugares (em Mato Grosso), se tem ocasião de conhecel-a. […] Evitando-se beber as aguas do rio na occasião das enchentes […] porque essas aguas ancharcadas adquirem certa malignidade […] e tendo como dissemos um freio ás paixões acompanhado de certos preceytos hygienicos, o maculo dificilmente se fará sentir.”

Cena da vida de escravos, as maiores vítimas das doenças.

PALAVRA DO NEGRO

A palavra máculo, usada por Moutinho,  tornou-se a denominação mais apropriada para o mal-do-bicho. Origina-se do quimbundo makulu, que corresponde a (oma)kulo, no umbundo(13). Persistem controvérsias sobre a patologia do máculo. No debate, há vozes de fora do Brasil, como o médico português João José Cúcio Frada(14) que, em 2004, publicou “O Mal-do-Bicho: novas luzes sobre uma velha doença”. Na sua opinião, as deficiências alimentares seriam as principais indutoras e estariam relacionadas ao escorbuto e ao beribéri. De fato, a precária dieta dos escravos é uma justificativa ao fato do máculo acometer principalmente os negros.

PALAVRA DO ACADÊMICO

O membro da Academia Real de Ciências de Lisboa, Luiz Antônio de Oliveira Mendes(15), apontou três causas de doenças frequentes entre os negros, as carneiradas (febres palustres), o mal de Luanda e o mal-do-bicho. Em 1812, escreveu, dizendo que a última era consequência das duas anteriores:

“A terceira qualidade de doenças agudas, que costumaõ attacar a escravatura, proguedindo-se na sequella dellas vem a ser a que se chama […] do bicho, ou corrupção intestinal […] que, havendo-a, se dá a conhecer pelo máo cheiro que tem o quarto em que está o enfermo. 

Esta […] enfermidade he tambem proveniente da primeira e ordinario anda junta com a segunda, […] porêm muitas vezes acontece […] com independencia de todas as outras…”

Falou também do verme da Guiné, que disse ser:

“… a doença do bicho, de outra qualidade da que já fallámos […] Este bicho que se cria nos corpos dos pretos […] Procura-se pelo corpo do escravo aonde ele esteja e, de ordinario, se acha nos braços e nas pernas. Achado o bicho, que é semelhante a uma linha branca, fina e torcida; […] com a ponta de hum alfinete  ou pao muito fino se afasta a pelle e logo o bicho deita a […] cabeça para fora. […] Prende-se a cabeça delle com um fio de retroz, que […] em hum pequeno pao, se vai enrolando. […] Se acaso […] o bicho quebrar-se […] está desenganado o escravo que morre, porque vem inchaçaõ e gangrena…”

Não se esqueceu do bicho-de-pé:

“… huma das enfermidades que maltrataõ a escravatura […] vem a ser o Bicho […] o qual nasce em o corpo e mãos, e com muito maior força em os pés…”

E aproveitou para aconselhar:

“… que sendo o corpo da […] escravatura diariamente lavado […] e demais disto os pés calçados, o que é facil na America […] pela abundancia e barateza da courama, ella se libertaria […] desta enfermidade, que tanto a maltrata, attenua e emmagrece.

A esse respeito ajuntarei uma observação minha: Que além […] do asseio e lavagem, seria bom untar-se o pé da escravatura com o azeite de Dendé; o que ella assim pratica por todo o corpo em o seu paiz natalicio; pois que certamente os Bichos naõ procurarião fazer alli entrada e criaçaõ…”

Samuel Purchas, ao centro, em detalhe da página título de um dos seus livros, 1625.

PALAVRA PELO ÍNDIO

No ano de 1591, o aventureiro inglês Anthony Knivet chegou ao Brasil, acompanhado por piratas e foi preso pelos portugueses. Em regime de cárcere ou liberdade, viveu no país até 1599. Relatanto suas vivências pelo mundo, escreveu um extenso manuscrito, vendido por bom dinheiro para Richard Hakluyt. O texto caiu em mãos de Samuel Purchas(16), que o reescreveu e publicou na sua coleção de livros “Purchas his Pilgrimage”. Por esse relato, fica-se sabendo que Knivet embrenhou-se pelo interior do país, com um grupo formado por brancos, escravos negros, mulatos, indígenas e, pelo menos, um mestiço, este lhe ajudara em uma fuga. Citou(17) o mal-do-bicho nos índios:

“Eles têm vermes que rastejam em seus traseiros, que consomem suas entranhas; para o que eles usam o remédio de fatias de limão e pimenta verde, colocando lá dentro com água salgada.”

Em 1763, o professor François de Boissier de Sauvages(18), no seu livro “Nosologia Methodica”, fez referência ao máculo, dizendo ser procedente de Angola e relacionou-o ao beribéri. Revelou que a patologia existiu entre os silvícolas brasileiros e era denominada teicoaraíba. O autor era renomado médico e botânico, portanto habilitado a discorrer sobre o assunto. Citou, também, as diferentes denominações: “Tenesmus orientalis [!], Bitios angolensium”, “Doença de bicho” e “Bicho del culo”.

Tratado médico de Gomes Ferreyra, dedicado a Nossa Senhora da Conceição.

PALAVRA DO CIRURGIÃO

O cirurgião português, Luís Gomes Ferreyra(19), que atendeu nas minas de ouro e em Sabará (MG), não mostrava firmeza quando precisava diferenciar hemorróidas de mal-do-bicho, como se vê na sua obra médica “Erario Mineral”, publicada em 1735. Nela dedicou um capítulo inteiro à ’enfermidade a que chamão corrupção do bicho.”

Ferreyra começou explicando:

“Corrupção do bicho não he outra cousa, senão huma largueza e relaxação do intetino recto, e seus musculos, ou por outro nome se chama o sesso; mais ou menos largo; e segundo a mayor ou menor largueza, assim será a mayor ou menor corrupção. […] Os prognosticos desta enfermidade, no seu principio, não tem perigo algum […] A primeira cousa, que se deve fazer, he assentar-se […] em uma bacia de agua morna e tomar um banho, lavando e chapejando o sesso muyto bem e por muitas vezes […] bastará tomar alguns banhos para sarar das ditas queyxas, porque poderáõ proceder de almorreymas…”

No dicionário de Bluteau,“sesso” é o orificio do trazeyro ou pouzadeyro.” E prosseguiu Ferreyra no seu aconselhamento, dando algumas receitas, uma delas usando a famosa erva-de-bicho:

“… tome ajudas de cosimento de herva do bicho […] por ser assim chamada por ser aprovadissima para tal enfermidade, e na America de todos conhecida, que logo farey memoria della, para se conhecer em Portugal, pois ha em varias partes sem duvida alguma, e tambem posso affirmar […] haver no dito Reyno a tal enfermidade…” 

Esclareceu sobre a erva-de-bicho:

“Esta herva costuma aparecer em touças, com muitos nós, e muitos braços, metendo-se huns pelos outros, não muito alta; as folhas são compridinhas a modo da folha de oliveira […] nestas Minas ha grande abundancia della e, pela especifica virtude, que tem para a doença chamada corrupção do bicho, todos a estymaõ muito…” 

Segundo o cirurgião, mal-do-bicho seria denominação brasileira, embora a doença tivesse existido em Portugal. Escreveu:

“… não porque haja bicho vivente naquela parte […] mas porque os primeiros que no Brasil conheceram a esta doença […] lhe deraõ este nome […] e dizem mais, que depois que deram para se lavarem por baixo […] logo o mal foi cessando […] dahi lhe ficou o costume, que hoje ha em todos os habitadores da America, principalmente as mulheres, em o fazerem a miudo […] e também como se deu naquella erva tão excellentissima para curar a doença tão terrivel…”

Coitado do Ferreyra, ele próprio sofreu do mal e teria se curado em menos de 24 horas, como revelou: 

“… Eu padeci esta doença […] duas vezes, de uma se me foraõ as dores de cabeça com um lavatorio por baixo […] como cousa de milagre; de outra não quiz cessar a dor de cabeça […] senão metendo quartos de limão na via, que ficando para o outro dia dentro, amanheci saõ.” 

Retrato de Willem Piso e páginas do livro publicado juntamente com Georg Marggraff.

PALAVRA ANTIGA

No início do século XVII, o naturalista holandês Willem Piso(20) esteve no Brasil, acompanhando a comitiva de Maurício de Nassau(21). Foi quando ficou conhecendo “os bichos do Brasil” e sua cura, tal como era feita, principalmente através da farmacopeia indígena. Naquela época, conviveu com Georg Marggraff(22), médico particular de Nassau, com quem publicou, em 1648, uma obra conjunta, a “Historia Naturalis Brasiliae”, acrescida de um apêndice por Johannes de Laet(23). Nela há anotações de Piso, referindo-se aos parasitas que chamou de Bicho del culo (máculo), de Brasilianis tunga (bicho-de-pé) e de Guineensibus vermiculis (bicho da Guiné)Referiu-se, também, à erva-de-bicho, dizendo ser do gênero “pagimirioba”, a qual, sob a forma de pasta, era muito recomendada para combater o antraz − mais comum em animais − e ulcerações. Talvez sejam as mais antigas referências, de cunho científico, sobre essas doenças existentes no Brasil.

O mal-do-bicho parece ter se disseminado pela América do Sul. Em um manuscrito, de 1745, o botânico francês Joseph de Jussieu(24) fez descrições sobre a doença, que pôde observar em sua passagem por Quito, no Equador. Nos seus comentários, remetendo-se ao que tinha lido no texto de Piso, concluiu tratar-se da mesma patologia. Escreveu o seguinte:

“… esta doença se manifesta nos vivos, como nos cadáveres, por uma dilatação excessiva […] do ânus […] em Quito a doença é tratada por charlatães…”

ARTE DA GUERRA

Ao longo da história, os criativos habitantes do interior do Brasil desenvolveram uma tecnologia para o enfrentamento ao bicho-de-pé. Sobre o orifício de entrada do parasita, esfregavam um pouco de cachaça, depois cobriam com um pedaço de toicinho. Em não mais que uns dois minutos, devido à embriaguês do bicho, o paciente passava a notá-lo em agitação dentro da cápsula. Sentindo-se sufocado, o invasor procurava evadir-se, à busca de oxigênio. Naquele momento, com a ajuda de uma espremida, era remetido para dentro do toicinho.

Modernamente, pode-se utilizar o mesmo procedimento, substituindo os componentes por álcool 92º GL e vaselina sólida; dá para ver o bichinho entrando na substância transparente. Com a ponta de uma agulha, é possível prestar uma ajudinha ao bêbado na sua fuga inglória. Processo rápido e indolor, para os dois contendores.

Santos Marrocos ao pai: “… aflições, desgostos e trabalhos, quaes nunca pensei soffrer…” (12.04.1811)

MORRENDO PELA BOCA

No século XIX, um funcionário proeminente da corte portuguesa, veio para o Rio de Janeiro, trazendo a biblioteca real – 60.000 mil livros – e com a missão dela cuidar. Seu nome, Luís Joaquim dos Santos Marrocos(25), filho de bibliotecário e professor de filosofia. Desde então, colheu desventuras, começando ao sair da barra de Lisboa, no mês de abril de 1811, e manifestou suas angústias em correspondência ao pai:

“Meu pai e Senhor do Coração: Esta foi feita entre Ceo e agoa, sobre mil afflições, desgostos e trabalhos, quais nunca pensei soffrer…”

Mas o pior estava por vir, depois que chegou ao Rio de janeiro, em 17.06.1811. Parte da culpa caberia à rude culinária nacional, causadora de problemas proctológicos. Santos Marrocos não se adaptou à nova cozinha e, apesar dela e de tudo o mais, suportou viver no Brasil até o seu falecimento, em 17.12.1838, quando tinha 57 anos de idade. Em uma mensagem ao pai, datada de 28.09.1813, contou o motivo dos seus maiores sofrimentos e como foram aliviados graças a uma receita do Padre Teixeira(26):

“… Supondo a dor procedida de hemorróidas —  Um frango inteiro sufocado, com sangue, penas e tudo, posto ao lume em uma panela a cozer com meia camada de água, depois de cozido e bem delido, coar a dita água, quando estiver em porção de um quartilho; espremer o mesmo frango num pano forte e, dividindo a dita água ou caldo em duas porções iguais para dois dias, se tomará uma ajuda com uma porção morna, juntando-se-lhe uma colher de sopa de açúcar refinado e outra de banha de flor de laranja.”

Em 12.05.1814, permanecia desanimado:

“Eu tenho passado muito doente, cheio de aflições e desgostos, e não podendo, para minha desgraça, dar ao meu corpo enfermo algum descanso da cama, vejo-me abatido com a moléstia das hemorróidas que me dão maior incômodo, por ser nesta terra moléstia péssima…” 

Passaram-se dois anos e, 10.06.1816, continuava na mesma:

“Esta quadra não me tem sido favorável […] a mim, com o flagelo de hemorróidas, que neste país são mais suas ativas do que em Portugal…”

Será que ninguém se lembrou de oferecer, ao bibliotecário do rei, os remédios da terra? A erva-de-bicho ou o sangue-de-dragão teriam sido ótimo socorro, melhor que comer frango sufocado.

NO TEMPO DA VOVÓ 

Até hoje, encontram-se formulações da erva-de-bicho no comércio. No século passado, o farmacêutico Joaquim Henrique Cardoso, desenvolveu uma série de medicamentos e  produziu-os, associado a Osório de Moraes, residente na cidade de Coromandel (MG). A pequena indústria farmacêutica nasceu naquela cidade, com o nome Cardoso & Moraes, fabricando pomada e pílulas de Erva-de-Bicho Imescard, pílulas De-Lussen, Auris-Sedina e Veragridol. A pomada e pílulas de Erva-de-Bicho, e as Pílulas De-Lussen, anteriormente eram produzidas no Laboratório Silva Araújo, do Rio de Janeiro. O sócio Cardoso deixou a firma em 1929 e o nome mudou para Laboratório Osório de Moraes. Graças à aceitação dos seus produtos, a empresa prosperou e ainda existe. O famoso medicamento permanece no seu catálogo. Quem viveu no tempo dos bondes, ainda se lembra dos reclames (anúncios) da erva-de-bicho.

Reunião de bruxas com sangue-de-dragão.

DRAGÃO VITORIOSO 

Quanto ao dragão, não ficou para trás. Mantém a inequívoca fama e, pelas mil e uma utilidades, a demanda pelo seu sangue só têm crescido. Os indígenas que habitam as florestas tropicais da América do Sul, usam-no para estancar sangramentos, como cicatrizante, anti-infeccioso e anti-febril. Várias empresas farmacêuticas têm se interessado em produzir medicamentos a partir do sangue-de-dragão, já existindo projetos implantados com estes objetivos.

Dizem que, nas festas do Ano Novo chinês, dão cor aos enfeites e aos dragões de papel com a tintura vermelha brilhante. A par da sua serventia para medicamentos, cosméticos e artesanato em geral, o produto tem sido muito apreciado pelos praticantes das artes do esoterismo e da bruxaria. Segundo os adeptos, o sangue-de-dragão pode ser usado para produzir encantamentos, fazer invocações, evitar malignidades e coisas do gênero. Sob a forma de tinta, é útil para redigir mensagens endereçadas ao mundo das sombras.

Agora, atenção! Conselho dos poetas: mantenham o dragão longe das crianças e dos animais de estimação.

Por Eduardo de Paula

(1) LISBOA, José Joaquim − “Descripção Curiosa…”, folheto publicado em 1804; reedição pela Coleção Mineiriana / Fundação João Pinheiro, 2002: estudo crítico por Melânia Silva Aguiar). − Alferes, agregado ao Corpo de Pedestres de Minas Gerais, por decreto do dia 2 de março de 1803 (fonte: “Gazeta de Lisboa”, 5 de abril de 1803). 

(2) Vide os Posts “A Grande Viagem”e “Viajando pela Comarca de Sabará”

(3) BÉTHENCOURT, Jean de − Fidalgo normando (*1362 +1425). No seu livro “Les canarians”, 1402, relatou a conquista do arquipélago e fez várias referências ao sangue-de-dragão.

(4) READE, Charles – Escritor inglês (*08.06.1814 +11.04.1884). Em “Readiana”, Dana Estes & Company, Boston, 1899.

(5) DA MOSTO, Alvise da Cà − (*1492, Veneza +18.07.1488, Veneza).

(6) SOCOTRA − Nome provem de “dvipa sukhadhara”, ilha da felicidade, em sânscrito.

(7) BLUTEAU, Raphael − “Vocabulario Portuguez & Latino”, Lisboa, 1720. 

(8) PLÍNIO – (Gaius Plinius Secundus) − “Historia Naturali”, 1543.

(9) Vide o Post “Um exército invencível”.

(10) Filariose ou filaríase − Doença parasitária tropical, causada por nematóides.

(11) PIMENTA, Miguel Dias − “Noticias do que he o achaque do bicho…”, Oficina de Miguel Menescal, Lisboa, 1707.

(12) MOUTINHO, Joaquim Ferreira − “Noticia sobre a Provincia de Matto Grosso…”, São Paulo, 1869.

(13) BOSSARD, Eric − “La médecine traditionnelle au centre et à l’ouest de l’Angola”, Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa, 1996. / MÁCULO = (oma)kulo, no umbundo.

(14) FRADA, João José Cúcio − Médico, antropólogo e etnógrafo; professor da Faculdade de Medicina de Lisboa e da Universidade Atlântica, em Lisboa (* 08.05.1947).

(15) MENDES, Antônio de Oliveira − Em “Memórias Econômicas da Academia Real de Ciências de Lisboa”, tomo IV, Lisboa, 1812.

(16) PURCHAS, Samuel − Escritor inglês, viajante (*1575[?] +1626). Em 1613, publicou o primeiro volume da série “Purchas his Pilgrimes”.

(17) Citação em: “Purchas his Pilgrimage or Relations of the World and the Religions”, by Samuel Purchas, printed by William Stansby, 1614 – “Chapter 4, America, The ninth Booke, page 839.”

(18) SAUVAGES, François de Boissier de − Médico e botânico francês (* 12.05.1706  +19.02.1767) . / Em “Nosologia methodica…”, Amstelodami, vol. III/2, 1763, p. 150: “teico araiba”.

(19) FERREYRA, Luís Gomes − “Erario Mineral”, Lisboa, 1735.

(20) PISO, Willem − (*1611, Leiden +28.11.1678, Amsterdam).

(21) NASSAU-SIEGEN, Johan Maurits van Nassau-Siegen, em “neederlandês”− (*17.06.1604 +20.12.1679). Governador dos domínios da Companhia das Índias Ocidentais no Brasil.

(22) MARGGRAFF, Georg − Naturalista e matemático alemão (20.09.1610 +?.01.1644). Realizou três expedições em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

(23) LAET, Johannes de − Geógrafo holandês e editor de mapas (*1581 +1649), diretor da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.

(24) JUSSIEU, Joseph de − Botânico francês, conhecedor de matemática, astronomia e medicina (03.09.1704 +11.04.1779). Esteve no Peru e no Equador, trabalhando na medição de um arco de meridiano.

(25) MARROCOS, Luís Joaquim dos Santos − (*17.07.1781, Lisboa +17.12.1838, Rio de Janeiro). Filho primogênito de Francisco José dos Santos Marrocos, bibliotecário e professor de filosofia. 

(26) TEIXEIRA (Padre) − Religioso que atendia à família da duquesa de Cadaval.

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2 Comentários »

  1. Eduardo: Grata pela grande lição de farmacologia e patologia. Muito bem elaborado o texto. São interessantes os fatos medicinais que acometem o terceiro mundo, mas que ocorreram também na Escandinávia, precisamente na Dinamarca, primeiro mundo e mais antiga monarquia européia. Parabéns pelo talento.
    Maria Marilda.

    Comentário por Maria Marilda — 01/12/2011 @ 10:28 am | Responder

    • Marilda: Outra vez, muito obrigado pelo comentário. Fico feliz de saber que gostou.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/12/2011 @ 12:08 pm | Responder


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