Sumidoiro's Blog

01/04/2012

NO PALCO DA VILA

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 12:03 am

♦ Uma história de fingimentos

A antiga vila de Caeté foi palco para atores de vários gêneros. Mereceu destaque Manuel Nunes Viana − líder da guerra dos Emboabas − que pode ser considerado um grande fingidor pois, apesar de ser semianalfabeto, chegou a se arvorar como governador de todas as Minas. 

Outros artistas, de menor proeminência, personificaram figuras instigantes. Eram os eremitas, os místicos e até uma “santa” de nome Germana, todos de muito talento para saber atrair e cativar a multidão. Os eremitas gostavam de morar no ermo, por isso foram para a serra, onde havia a ermida de Nossa Senhora da Piedade, um ponto estratégico roçando as nuvens e pertinho do céu. É curioso, mas a maioria desses solitários ama as plateias. A belíssima paisagem, que se descortinava em volta da ermida, tornava o cenário perfeito para fazer teatro. 

Ajustada ao novo tempo, a história continua se repetindo. Quem quiser ver não precisa ir longe, nem procurar em lugar ermo, por todo lado proliferam os fingidores.

O imaginário popular era chegado a beber na fonte da teatralidade, como já se ouvia na lenda(1) da criação da capela de Nossa Senhora da Piedade de Caeté. Contam que, no vilarejo da Penha, vivia um harmonioso casal de ricos e bondosos agricultores e, para completar sua felicidade, só faltava um fruto da venturosa união. Então, para legitimar seu amor, os Céus lhe deram uma filha, que nasceu incapaz de falar, com a mudez selando seus lábios para sempre. Os pais, tocados por tão grande desventura, fizeram mil promessas, invocando a piedade da Santa Virgem.

Certo dia, quando subiam pelo caminho da montanha, viram sua filha nos braços de um anjo. Diante dos pais extáticos ante a visão celeste, a menina correu aos seus braços e balbuciou: mamãe, papai! Devolvida a filha, o anjo bateu asas e voou, desaparecendo nas nuvens. O casal estarrecido, mas feliz com o acontecimento, fez promessa de agradecer ao Senhor e construir, com as próprias mãos, uma capela no alto da serra. Foram em frente, e um pequeno templo foi erigido com todo sacrifício. Dizem, também, que os restos mortais do casal e de sua filhinha descansam no chão da capela.

Tempos depois, por volta de 1758, o português Antônio da Silva − o Bracarena − chegou a Caeté, em busca de vida nova.(2) Mestre de cantaria que era, trazia consigo o propósito de usar sua habilidade para construir uma capela, por motivo de ter alcançado uma graça. Há quem diga que foi a de obter riqueza no Brasil. Outros dizem que foi fugindo da Inquisição, versão que não faria muito sentido pois, nesse caso, não gostaria sequer de sonhar com igreja, capela ou padre.

Quando Bracarena ouviu a lenda da Muda da Penha, se encantou com a história e decidiu edificar seu templo em pedra e cal, no mesmo lugar do outro. Iniciou a obra em 1767. Construiu também, ao lado, uma casa dividida em pequenas celas, para residência de eremitas − não eram sacerdotes − e abrigo de peregrinos. Muitos desses homens solitários ali viveram e o lugar tornou-se muito visitado pelos devotos da Virgem.

Esses relatos, que vêm de longa data, embora tenham misturado fatos reais e imaginário, foram incorporados à história de Caeté e da Serra da Piedade. Justifica-se, pois ninguém vive sem um pouco de fantasia.

O ESPETÁCULO CONTINUA

Três eremitas se instalaram na serra da Piedade e passaram a receber aplausos de uma grande plateia de romeiros. O trio era pragmático e perito em tirar vantagens com encenações. Podiam viver no ócio e no prazer, tudo em nome de Deus. Depois, uma moça de nome Germana se juntou a eles. No seu caso, praticava a arte pela arte ou, simplesmente, tinha o desejo de virar santa. Naquela época, o sábio Auguste de Saint-Hilaire(3), quando viajava pela comarca de Sabará, escreveu sobre essa gente que viu de perto. Começou dizendo:

“Os eremitas que ocupam a espécie de monastério na serra da Piedade, são simples leigos. Usam um grande chapéu e uma batina, ou melhor, uma espécie de ‘robe de chambre’ preto […] eram apenas três: dois pequenos mulatos, muito ativos, e um velho branco que, confesso, provocou-me desejo de rir, por seu ar distraído, por seu semblante rubicundo e sua cabeleira postiça, velha e dilatada, já meio roída pelos ratos.”

A mais nova capela de Nossa Senhora da Piedade.

Ao pé da montanha havia uma fazenda, com terras muito férteis, à qual pertencia a capela. Saint-Hilaire ficou admirado delas estarem ociosas, pois sabia fazer parte da tradição cristã que os eremitas cuidassem do seu cultivo. Por isso escreveu:

“… eles acham muito mais cômodo recorrer à caridade pública e não querem subir logo a montanha. É preciso convir, todavia, que seu trabalho não seria suficiente à subsistência e à manutenção da capela […] esses dois jovens mulatos, cheios de vida e saúde, deviam, parece-me, […] começar por tirar partido das terras […] antes de recorrer à generosidade dos fiéis.”

Daí citou o que disse outro viajante, o barão de Eschwege(4), sobre os eremitas da brasileiros, de modo geral:

“Chamam-se ermitões (eremitas) homens que, ordinariamente, para expiar seus pecados, tomam a resolução de montar guarda a uma capela e pedir esmolas para a sua conservação. Eles se cobrem com uma espécie de hábito; deixam crescer a barba e, algumas vezes, a própria cabeleira. Carregando uma caixa envidraçada, contendo a imagem do padroeiro da igreja, percorrem a região, fazem beijar a imagem às pessoas que vão encontrando e, por isso, recebem esmolas em dinheiro e objetos. Alguns fazem o voto de levar esse gênero de vida até o fim dos seus dias, mas a maioria a isso se dedica por um certo tempo.”

E completa Eschwege:

“Aqui, como em muitas outras coisas, introduziram tristes abusos; com efeito, vários desses eremitas não tomam o hábito senão para viverem à custa do próximo e vão beber nas melhores tavernas, com o dinheiro que a generosidade pública lhes ofereceu.”

Eremita, com caixa envidraçada pendurada ao peito, encontra militar. (Gravura de 1821)

RETRATO DE UMA DEVOTA

Por outro lado, Saint-Hilaire ficou impressionado com um relato, que ouvira repetidamente por toda parte. Falavam de uma devota de Nossa Senhora, aquela chamada Germana, moradora de Caeté, que teve a oportunidade de conhecer, em janeiro de 1818. Essa mulher, naquela data aos 36 anos de idade, certamente tinha distúrbios de ordem física e mental mas, nem por isso, deixava de ser uma grande atriz. Nas suas performances, entrava em estado cataléptico e postava-se de braços abertos, durante dois dias, imitando Cristo crucificado. As plateias ficavam boquiabertas com o que viam, daí sua fama foi crescendo e passou a atrair multidões. Diante disso, procurou melhor espaço para propagar sua arte e obteve autorização dos padres para morar na serra da Piedade. Ali abrigada, passou a fazer apresentações duas vezes por semana.

Na época, dois médicos clínicos, examinaram a beata, ou irmã Germana, em seus êxtases e concluíram que, embora fossem manifestações de uma pessoa enferma, realmente a mulher era uma santa. E deram seu parecer:

EXAME  — A enfermidade começou há anos, por dismenorragia proveniente da ação diminuída do sistema sanguíneo, de que se seguiram movimentos irritativos retrógrados do canal alimentar, como anorexia, vômitos, histéricos, etc.

Estes movimentos espasmódicos continuam quase sempre, porém com circunstâncias tão singulares e tão extraordinárias que merecem a maior atenção.

I – A enferma não toma quase alimento, e nas sextas-feiras e sábados nada absolutamente. Segundo a ordem natural é impossível viver e conservar o vigor que apresenta e tacto fisiognômico: deveria ter caído em tal debilidade, que extinguisse o princípio vital. Não se pode referir este caso por anorexia admirável, enfermidade raríssima porque durante o espaço desta, o enfermo atacado não pode tomar alimento, nem bebida alguma. No caso presente a enferma toma sempre algum alimento fora aqueles dias notados; mas é quase nada, e insuficiente para sustentar a vida, porém ela vive, fala e parece gozar de perfeita saúde, à reserva dos ataques mencionados.

II – Desde a meia-noite de quinta-feira a cada semana, há uns tempos para cá, todo o dia da semana, até a meia-noite de sexta para sábado fica na postura de crucificada, assim se conserva com os músculos tão rijos e tão tensos, que ninguém pode tirar os membros da posição em que estão, nem apartar um pé que está como que encravado no outro; a cabeça inclinada ao lado esquerdo; um estado de insensibilidade, joelhos curvados, pulso natural e, de quando em quando, suspende-se a cabeça e braços, e pés simultaneamente; como aconteceu logo que a vimos comungar ontem, neste mesmo estado de insensibilidade, excitando-se por um modo admirável ao chegar a Sagrada Forma.

Neste estado, notamos algumas vezes motos convulsivos em todo o corpo, gemidos, que denotam angústias, e aflições, e então se alteram os pulsos. Em todo este espaço de tempo parece que a alma reconcentrada não toma parte alguma nos movimentos voluntários do corpo, tudo cessa, e continua a circulação do modo referido com os movimentos impetuosos do poder sensório.

Parece que este fato, tão verdadeiro e de tão pública notoriedade, por si mesmo manifesta o que isto é, e que não nos fica mais lugar algum de passar avante. Julgamos terminada a questão: nós seríamos mentirosos e temerários se ousássemos submeter ao juízo médico um fato que só nos enche de admiração e de respeito para com o Ser Supremo, na consideração da bondade infinita de Jesus Cristo, nosso amabilíssimo redentor. Vinde, oh incrédulos, e vede se nos dizeis que há uma espécie de melancolia, que consiste em erro de imaginação, e que os enfermos atacados deste mal, se julgam transformados em animais, ou em outras coisas, como aquelas moças curadas pelo pastor Melampo, as quais se julgaram transformadas em vacas, e que tal fora a enfermidade de Nabucodonosor, etc.

Sim, é, é verdade que há essa enfermidade, e também rara, mas o que a padece não tem intervalo algum de melhoramento, a sua imaginação roda sempre no mesmo erro, até que se cure, porém a consideração tão viva da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo não faz enfermos, mas santos.

Tudo o quanto fica referido atestamos unanimemente, e juramos aos Santos Evangelhos.

Serra da Piedade, em dois de abril de mil oitocentos e catorze. // Antônio Pedro de Sousa e Manuel Quintão da Silva.”

Regularmente, com data marcada, Germana libertava suas serpentes. (Ilustr. “d’après” Caravaggio)

TESTEMUNHO DE SAINT-HILAIRE

“Conheci na serra da Piedade uma mulher de quem falavam muito nas comarcas de Sabará e Vila Rica. A irmã Germana, tal o seu nome, fora atacada, 10 anos antes (escrito em 1818), de afecções histéricas, acompanhadas de convulsões violentas. Fizeram-na exorcismar; empregaram-se remédios inteiramente contrários ao seu estado e o mal se agravou. Ao tempo de minha viagem, ela chegara havia já muito tempo, ao ponto de não poder mais deixar o leito, e a quantidade de alimentos, que ela tomava a cada dia, era pouco maior da que se dá a um recém-nascido. Não comia carne e recusava igualmente gorduras, não podendo sequer tomar um caldo. Alguns doces, queijo, um pouco de pão ou farinha, constituíam todo o seu alimento. Recusava a se alimentar e, quase sempre, era preciso obrigá-la a comer alguma coisa. 

Era voz geral que os costumes de Germana haviam sido sempre puros e a conduta irrepreensível. Durante o curso da moléstia, sua devoção crescia a cada dia: queria jejuar completamente às sextas e sábados. A princípio sua mãe quis impedi-la, mas Germana declarou que, durante esses dois dias, era-lhe inteiramente impossível ingerir qualquer alimento e, daí por diante, passou-os na mais completa abstinência.

Para satisfazer sua devoção pela Virgem, se fez transportar à serra da Piedade, onde fora erguida a capela sob a invocação de Nossa Senhora da Piedade, obtendo permissão para morar nesse asilo. Lá, certo dia meditando sobre os mistérios da paixão, entrou em uma espécie de êxtase. Seus braços se enrijeceram e se estenderam formando uma cruz. Suas pernas também se cruzaram e ela se manteve nessa atitude durante 48 horas. À época da minha viagem, havia quatro anos que esse fenômeno ocorrera pela primeira vez e, daí por diante, se repetiria semanalmente. A irmã Germana tomava essa atitude estática na noite da quinta para a sexta-feira, permanecendo assim até a noite de sábado para domingo, imóvel, sem proferir nenhuma palavra e em absoluto jejum.

Vila de Caeté, com serra da Piedade ao fundo. (Gravura de Rugendas, detalhe)

Os rumores desse fenômeno se espalharam pelos arredores e milhares de pessoas, de todas as classes, testemunharam-no. Acreditou-se em milagre e a irmã Germana foi proclamada santa. Dois cirurgiões dos arredores contribuíram para aumentar a veneração pública, declarando que o estado da doente era sobrenatural. A afirmativa foi manuscrita e cópias, em grande número, circularam de mão em mão. Entretanto, um médico de grande cultura, o dr. Gomide, da Universidade de Edimburgo, achou por bem refutar a declaração dos dois cirurgiões e, em 1814, mandou imprimir no Rio de Janeiro, sem o nome do autor, uma pequena brochura, cheia de ciência e de lógica, onde prova, citando uma multidão de autoridades, que os êxtases de Germana eram nada mais que resultado de uma catalepsia.

O povo se dividiu nas opiniões, mas a multidão continuou a subir ao alto da serra, para admirar o prodígio teatral. Entretanto, o bispo de Mariana, padre Cipriano da Santíssima Trindade, que era homem ajuizado e competente, percebeu a inconveniência das numerosas reuniões, motivadas pela presença da irmã Germana na serra da Piedade. Assim, para atenuar as consequências do pretenso milagre, proibiu a celebração de missas na montanha, sob o pretexto de que o rei não dera permissão.

Várias pessoas ofereceram a Germana abrigo em suas casas, mas ela preferiu a do seu diretor, homem grave, de idade avançada, que residia na vizinhança da montanha. Os devotos ficaram muito preocupados com a proibição do bispo de Mariana, mas não sossegaram, solicitaram diretamente ao rei a permissão de celebrar missas na capela da serra, sendo atendidos. Germana foi então levada novamente ao alto da serra e, de tempo em tempo, seu diretor ia ali rezar missa. Na ocasião da minha viagem, a freqüência de peregrinos e curiosos se renovava semanalmente.

Pouco tempo antes da minha estada ali, um novo prodígio começara a se manifestar na pretendida santa. Todas as terças-feiras  experimentava um êxtase de algumas horas, seus braços deixavam a posição natural e, enquanto ele durasse, ficavam cruzados atrás das costas da doente. No correr da conversa que tive com o seu confessor, disse-me ele que, durante algum tempo, não soubera como explicar esse fenômeno, mas lembrara-se que a terça feira, rotineiramente,  era o dia dos devotos meditarem sobre os sofrimentos de Jesus crucificado.

Quando cheguei pela primeira vez no alto da serra, fui recebido pelo diretor da enferma. Ouvira insinuações a respeito do desinteresse e da caridade desse eclesiástico. Conversamos durante muito tempo e não me pareceu desprovido de instrução. Falou-me de sua penitência sem nenhum entusiasmo. Desejava, segundo me disse, que homens competentes estudassem o estado de Germana e, a única censura que fez ao dr. Gomide, foi de ter escrito seu opúsculo sem se dar ao trabalho de ver a enferma. Se o que esse padre me relatou sobre sua ascendência sobre Germana não foi exagerado, os partidários do magnetismo animal dai provavelmente tirariam grande proveito, em apoio à doutrina. Afirmou-me, com efeito, que em meio às mais terríveis convulsões, era bastante que tocasse na doente para acalmá-la.

Detalhes da edição francesa (1833): “Voyage dans le district des diamans…”

Quando Germana se acha em seus periódicos êxtases, seus membros adquiriam tal rigidez que seria mais fácil quebrá-los que dobrá-los. Mas, se é possível acreditar no testemunho do seu confessor, por pouco que tocasse o braço ou a mão da doente, ele os colocava na posição que quisesse. O confessor de Germana havia lhe ordenado que comungasse em um dos dias de êxtase e, certa feita, quando fora levada à igreja, se levantara do leito em movimento convulso e ajoelhada, mas com os braços sempre cruzados, recebeu a santa hóstia. Desde essa ocasião, sempre repetiu a comunhão no meio de seus êxtases.

Aliás, o diretor de Germana falava sempre com muita simplicidade do seu domínio sobre a pretensa santa. Atribuía-o à docilidade da enferma e ao respeito pelo caráter sacerdotal, acrescentando que qualquer outro eclesiástico poderia obter os mesmos resultados. Esse homem dizia-me, com aquela confiança que os magnetizadores exigem de seus adeptos: a obediência dessa pobre moça é tal que, se lhe ordenar que passe uma semana inteira sem se alimentar, ela não hesitará em atender-me e nada sofrerá. Mas acrescentava: receio ofender a Deus com uma experiência dessa.

Pedi para ver Germana e fui levado ao pequeno quarto onde ela ficava permanentemente deitada. Percebi seu rosto sob um grande lenço que se prolongava adiante de sua testa. Pareceu-me não ter mais de 34 anos, idade que efetivamente lhe atribuíam. Sua fisionomia era doce e agradável, mas indicava grande magreza e debilidade extrema. Perguntei-lhe como se achava e, com voz quase sumida, respondeu-me que se achava melhor do que merecia. Tomei-lhe o pulso e surpreendi-me de achá-lo acelerado.

No altar da capela: Nossa Senhora da Piedade, pelo escultor Aleijadinho (século XVIII).

Voltando na sexta-feira ao alto da montanha, fui, pela segunda vez, ao quarto de Germana. Ela se achava sobre seu leito, deitada de costas, com a cabeça envolta em um lenço. Seus braços estavam em cruz, um deles, detido pela parede, não tivera a liberdade de estender-se completamente. O outro estendia-se para fora da cama e estava sustentado por um tamborete. A doente tinha as mãos extremamente frias, o polegar e o indicador estavam esticados, os outros dedos fechados, os joelhos dobrados e os pés colocados um sobre o outro. Nessa posição Germana conservava a mais perfeita imobilidade. Seu pulso era apenas perceptível e poder-se-ia acreditá-la morta se seu peito, devido à respiração, não agitasse ligeiramente a coberta. Experimentei, várias vezes, dobrar seus braços inutilmente. A rigidez dos músculos aumentava, em conseqüência de meus esforços, e me convenci de que se insistisse poderia prejudicar a doente. Na verdade, fechei suas mãos várias vezes, mas logo que largava seus dedos eles retomavam à posição anterior.

A irmã de Germana, que habitualmente cuidava dela, e que se achava presente na ocasião de minha visita, disse-me que essa pobre moça não se apresentava sempre tão calma durante seus êxtases, como nesse dia. E que, na verdade, seus pés e braços ficavam constantemente imóveis, mas que ela frequentemente gemia e suspirava. Sua cabeça se agitava sobre o travesseiro e movimentos compulsivos se manifestavam, principalmente lá pelas 3 horas, momento em que Jesus Cristo expirara.

Antes de subir à serra para ver Germana durante seus êxtases, pretendera experimentar nela a ação do magnetismo animal, mas a presença de várias testemunhas impediu-me de fazê-lo com regularidade. Entretanto, sob o pretexto de tomar o pulso da doente, coloquei minha mão esquerda sobre a sua e pus-me na disposição de espírito exigida aos magnetizadores. Nenhum resultado obtive, mas, para ser exato, devo confessar que minha atenção era desviada sem cessar, pela presença de testemunhas e por suas conversas.

Deixei a serra da Piedade no dia seguinte àquele que vira Germana em êxtase. Distanciando-me da região em que ela residia, não mais ouvi falar a seu respeito e ignoro qual tenha sido o fim dessa infeliz.”

Saint-Hilaire e o livreto de Gomide,”Impugnação Analítica” ao exame clínico da “santa”, publicado em 1814.

ECOS DO PRESTÍGIO

Quando foi para a serra da Piedade, Germana teve como confessor o padre José Gonçalves Pereira. No retrospecto de suas visitas pastorais a várias localidades, realizadas entre 1821 e 1825, frei José da Santíssima Trindade(5), bispo de Mariana, escreveu sobre os dois:

“… foi capelão da […] Nossa Senhora da Piedade, cuja capela é muito devota; a ela corriam muitas pessoas de romaria e outras a fazer suas confissões gerais com aquele padre e até umas mulheres de vida escandalosa em Sabará foram tocadas da graça, pelo cheiro da virtude que respirava a sobredita capela e deixaram sua vida pecaminosa, segundo a notícia.

Este padre, que é instruído em matérias morais, não é menos nos conhecimentos de teologia mística e exemplar nos seus costumes e obediência aos seus superiores; toda sua aplicação é na direção das almas. […] Tem sido caluniado de alguns poucos afetos à religião e até delatado aos superiores eclesiásticos, porém jamais comprovam os crimes, satisfazendo-se unicamente de clamarem contra a sua credulidade nas suas dirigidas. Nessa classe há uma célebre irmã Germana, assaz nomeada em toda esta província, que primeiro estava debaixo da direção do padre José… [seu confessor].

E prosseguiu:

“… Esta Germana, desde a sua infância, mostrou amor à virtude e na sua mocidade enfermou, a ponto de existir entrevada, com os nervos todos encolhidos, e a sua figura é de uma menina reduzida a um esqueleto, sempre humilde, paciente e conforme com a vontade de Deus, sem admitir outra comida, e parca, que feijão e ervas; apenas houve falar no amor de Deus nas Suas grandezas e Paixão de Jesus Cristo, fica logo transportada.”

Referiu-se também a outros religiosos que presenciaram os êxtases:

“… Assim observaram os cônegos e mais pessoas que acompanharam Sua Excelência Reverendíssima na visitação do ano de 1822, na ocasião da comunhão, e é a forma pública máxime de alguns sacerdotes que a tem observado nas quintas e sextas-feiras e no tempo da comunhão. Esforçou-se o médico Gomide para querer persuadir que pode ser embuste, ou malícia, ou moléstia natural, mas o certo é que mais parece sobrenatural.”

Frei José da Santíssima Trindade e a velha capela da serra da Piedade. (Foto de 1947)

O citado médico Antônio Gonçalves Gomide(6) decidiu dar um basta a tanta encenação, escrevendo o opúsculo de 32 páginas, “Impugnação Analítica ao exame feito pelos clínicos Antônio Pedro de Souza e Manuel Quintão da Silva, em uma rapariga que julgaram santa, na capela de Nossa Senhora da Piedade da Serra”. Em seu trabalho refutou, ponto por ponto, o parecer dos clínicos. No meio científico sua argumentação foi bem aceita e, embora frei José da Santíssima Trindade tivesse discordado, ainda é admirada por muitos estudiosos das doenças mentais.

Gomide, nasceu em Minas Gerais, onde fez seus primeiros estudos. Depois, foi para Portugal, doutorou-se em direito na universidade de Coimbra e estudou medicina na universidade de Edimburgo, na Escócia. Embora não tenha visitado a irmã Germana, seu texto denota que tinha o melhor conhecimento científico da época para, mesmo à distância, fazer a contestação. Entretanto, é necessário salientar que, no início do século XIX, a natureza desses distúrbios não era suficientemente conhecida.

Hoje, sob os olhares da antropologia social, é possível compreender melhor essa gente da serra da Piedade. Todos eles − sem exceção −, eremitas, religiosos, “santa” e plateia, certamente eram movidos por forças poderosas. Também as doenças da irmã Germana não estavam apenas no corpo material, ela sofria de grave distúrbio da alma. Nesse particular, as modernas ciências da psiquê permitem dar boas explicações. Na última página do seu livreto, Gomide deixou escrito:

“N.B. – De nenhum modo (como se manifesta no conteúdo deste opúsculo) me propus a impugnar a possibilidade de haver pessoas devotas, inspiradas e santas, porém, canonizar os santos pertence exclusivamente à Igreja e, ao filósofo, compete descobrir e promulgar a verdade natural.”

O ensinamento de Gomide soa como um alerta aos que costumam se encantar com a voz da multidão. Mesmo quando ecoa através de alguns doutores, nem sempre é a voz de Deus. Não adianta fingir.

– – – – – – – – –

Houve um momento em que a popularidade da “santa” estava crescendo demais e seu prestígio começou a incomodar a igreja. Então, por ordem de frei Cipriano de São José, bispo de Mariana, irmã Germana foi levada pelo padre José Gonçalves Pereira para o arraial de Roças Novas, distrito de Caeté, onde permaneceu durante algum tempo. 

Germana Maria da Purificação nasceu em 1782. Em 17 de setembro de 1843, foi transferida para o Recolhimento de Macaúbas, em Santa Luzia (MG), e os momentos de transe continuaram se repetindo, até a sua morte. Frágil mas longeva, faleceu em 1856, pouco antes de completar 74 anos de idade(7)(8)

Por Eduardo de Paula

– – – – – –

(1) VEIGA, José Pedro Xavier da − “Ephemerides Mineiras”, vol. I , janeiro a março, Imprensa Oficial de Minas, Ouro Preto, 1897, p. 254.

(2) Bracarena é uma corruptela de Barcarena, vila portuguesa no conselho de Oeiras. Na época dos descobrimentos, ali existiu uma fábrica de armas e de pólvora. Era comum os imigrantes adotarem a denominação da terra de origem como sobrenome.

(3) SAINT-HILAIRE, Auguste de − (Augustin François César Prouvensal de Saint-Hilaire) – “Viagem pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil”, Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 2004, p. 67 a 70.

(4) ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von − (Auer Wasserburg, Hesse, 10.11.1777 / Kassel, 01.02.1855), também conhecido por barão de Eschwege. Geólogo, geógrafo e metalurgista alemão. Contratado pela coroa portuguesa, para fazer levantamento do potencial mineiro do Brasil.

(5) SANTÍSSIMA TRINDADE, dom frei José da (*Porto-PT, 04.07.1762 / Mariana-BR, +1835). Sexto bispo da Arquidiocese de Mariana, de 1821 a 1825. // OLIVEIRA, Ronald Polito / LIMA, José Arnaldo Coelho de Aguiar − “Visitas pastorais de dom frei José da Santíssima Trindade”,  Fundação João Pinheiro (BH), 1998, p. 121 a 124. 

(6) GOMIDE, Antônio Gonçalves − (Minas Gerais, *1770 / +16.02.1835) – médico, formado em Edimburgo, membro da Assembléia Constituinte Brasileira, de 1823, eleito senador do império por Minas Gerais, em 22.01.1826. A impugnação de A. G. G. pode ser lida aqui: http://www.archive.org/details/impugnaoanal00gomi

(7) No relato da visita, em 1818, Saint-Hilaire revela a idade de Germana, 34 anos, portanto, nasceu em 1782.   

(8) FARIA, Maria Juscelina − pesquisadora da Fundação João Pinheiro (MG): “Nota histórica – Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de Macaúbas: um recolhimento mineiro do século XVIII”, revista Análise e Conjuntura, jan./abr., 1987, p. 125:  “…Germana […] em 17 de setembro de 1843, recebida no Recolhimento de Macaúbas, no qual ficou até a sua morte, em 1856″. 

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4 Comentários »

  1. Olá Eduardo:
    Muito interessante este post. Nunes Viana foi isso aí e muito mais… Muito bem!
    Abraços,
    Margaret Campolina-Fortuna de Minas

    Comentário por Margaret Campolina — 03/04/2012 @ 1:10 pm | Responder

    • Margaret:
      Muito obrigado pelas gentilezas. Nunes Viana é um personagem interessantíssimo. Por estas Minas passou cada um!
      Um abraço do
      Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/04/2012 @ 8:02 pm | Responder

  2. Parabéns Eduardo! São artigos como este que enriquecem a história de Minas.

    Comentário por Rosilene Dias-Caeté — 14/08/2013 @ 1:28 pm | Responder

    • Olá Rosilene:
      Muito obrigado pelas gentis palavras.
      Cordialmente, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 15/08/2013 @ 8:44 am | Responder


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