Sumidoiro's Blog

01/09/2012

HISTÓRIA DO ARCO-DA-VELHA

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 6:46 am

 ♦ Quando a velha põe o arco, enxuga a chuva.

O livro do Gênesis começa dizendo:

“1.1. No princípio, Deus criou os céus e a terra. – 1.2. A terra estava deserta e vazia, as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. – 1.3. Deus disse: ‘Faça-se a luz!’ E a luz se fez.”

O segundo relato, conta da criação do homem e da mulher. E o Criador os fez de modo que pudessem apreciar e lidar com a matéria, cuidando de lhes dar as ferramentas dos cinco sentidos, sendo mais rico o da visão. Daí em diante, cada qual, por força da singularidade, passou a ver a natureza com a sua luz, melhor dizendo, a seu modo. Então, ao reconhecer as coisas, trataram de nomeá-las e foram acumulando conhecimento. Da mesma maneira, prosseguiram os seus descendentes.

O criador e as criaturas.

Com o mundo iluminado, a natureza foi se revelando para Adão e Eva, toda coloridaMas, ao chegar a noite, as cores desapareciam e era preciso uma explicação para isso. Seria obra de algum fantasma? Era sim e, por isso, quando foi desvendada, deram-lhe o nome de espectro solar. As primeiras respostas caíram do céu, pois estavam no arco-da-velha. Esse é um dos nomes do arco-íris, que é também é chamado de arco-celeste, ou “rainbow” (em inglês), “arcobaleno” (em italiano), “arc-en-ciel” (em francês), etc. Uma versão popular, muito admirada pelas crianças, associa o arco-da-velha à curvatura da corcunda de uma mulher idosa e decrépita. Outra, atribuindo uma origem divina à palavra, é revelada no antigo dicionário(1) do padre Bluteau:

“Arco celeste ou, como diz o vulgo, Arco da velha. Diz Fr. Hector Pinto, que os Portuguezes lhes deraõ este nome porque, na Ley velha, disse Deos que nas nuvens poria este Arco por final de paz entre si & os homens. Os cultos lhe chamaõ Iris.”

Íris, personificação do arco celeste e mensageira dos deuses (por P. N. Guérin, detalhe).

Em uma tradução moderna da Bíblia, está escrito desta maneira:

Gênesis, 9.16. — Quando o arco-íris estiver nas nuvens, eu o contemplarei como recordação da aliança eterna entre Deus e todas as espécies de seres vivos sobre a terra”.

Desde priscas eras, o homem quebrou a cabeça para entender o fenômeno da luz e da visão. Platão, o filósofo grego, também deu uma explicação mística, atribuindo essas maravilhas aos deuses. Disse que havia um fogo nos olhos e outro nos objetos e, quando os dois se juntavam, surgia a visão do mundo. O seu personagem Timeu fala assim:

“… (Os deuses) fabricaram em primeiro lugar os olhos, portadores da luz, tendo-os ali fixado pela seguinte razão: essa espécie de fogo que não arde, antes oferece uma luz suave; os deuses engendraram-no de modo a que, a cada dia, se gerasse um corpo aparentado […] Quando o fogo se afasta, ao cair da noite, separa-se do fogo de que é sua imagem afim (o fogo dos objetos) […] Então, cessa a visão e gera-se o convite ao sono.” (Vide quadro no final do Post)

Fantasias à parte, a ciência moderna desvendou as bases físicas, biológicas e psicológicas da percepção. Demonstrou que a certeza do que se vê é individual, variada e mutável, porque depende do cérebro de cada um. Esse processo particular, mutatis mutandis, conecta não só os humanos, mas todos os seres vivos ao mundo exterior. Foi também provado que a natureza é incolor, portanto, o que existe são apenas sensações. Então, admirar o arco da aliança enfeitando a paisagem é pura emoção multicolorida!

Descartes e seu desenho, explicando como uma gota d’água decompõe a luz para formar o arco-íris.

A velha do arco levou um susto quando, no século XVII, um cientista brilhante começou a desvendar os seus mistérios. Foi o filósofo, matemático e físico René Descartes(2), que desenvolveu uma teoria convincente sobre o arco-íris. Em 1637, no texto “Les Météores”, mostrou como ocorria o fenômeno, explicando que gotículas de água, em suspensão na atmosfera, provocavam desvios nos raios luminosos e produziam o efeito das luzes coloridas. Para comprovar sua teoria, imitou a natureza, repetindo a decomposição da luz usando um prisma de cristal.

Descartes: à esquerda a separação da luz do sol na gota d’água e, à direita, no prisma de cristal.

A explicação mais elaborada sobre a origem das cores foi dada, mais tarde, por Isaac Newton(3). Pode-se dizer que desnudou a velha ou, melhor dizendo, fez uma descoberta do arco-da-velha porque, também utilizando um prisma de cristal, conseguiu decompor a luz branca. Depois, interpondo outro prisma em posição invertida, sob o foco de luzes coloridas, recompôs a luz branca. Desta maneira, confirmou a descoberta e tirou uma série de conclusões.

O cientista inglês só cometeu uma imprudência, ao dizer que, no seu prisma, como no arco-íris, havia sete cores. Nada disso, no arco-íris há cinco cores e, do mesmo modo, através do prisma. Os adeptos da numerologia sempre tiveram admiração pelo sete, um número carregado de fantasias e parece que Newton embarcou numa delas. Até hoje, há quem se abale com os sete dias da criação, os sete paraísos, as sete pragas, os sete pecados capitais, os sete anões e os sete gatos de sete fôlegos(4).

Newton e Goethe, um pé no céu, outro na terra.

No século XIX, um gênio, que também era poeta, implicou com a teoria de Newton, seu nome: Johann Wolfgang von Goethe(5). Durante trinta anos ele investigou e elaborou o que considerava sua obra máxima, o tratado “Teoria das Cores”, publicado em 1810. No seu trabalho, refutou a afirmativa de Newton, negando existir tanta variedade de cor num simples raio de luz branca. Ainda discordou em vários pontos, mas equivocou-se na sua interpretação da decomposição das cores no prisma. Sua teimosia levou-o para outros caminhos e acabou por criar os fundamentos da percepção cromática. 

Para entender as ideias conflitantes, é preciso considerar que Newton enfatizou o fenômeno físico − a cor energia − e Goethe foi mais adiante, investigou a física, mas também a química e a fisiologia da cor. Queria saber o porquê das sensações produzidas pela cor e, movido por sua alma de poeta, realizou a proeza de misturar a ciência com a vida. Foi dessa maneira que ambos, Newton e Goethe, abriram as portas para as inúmeras descobertas que se sucederam, na física, na estética, na comunicação social e na psicologia. 

Após a chuva, incontáveis gotículas de água funcionam como prismas, resultando no arco-íris.

Pela soma de cores-energia se produz outra cor-energia, cujo resultado tende para o branco e, por isso, é denominada mistura aditiva. Foi disso que tratou Newton. Por outro lado, na cor-sólida, que é produzida na associação de tintas, pigmentos e tinturas(6), o resultado tende para o preto e, por isso, é chamada mistura subtrativa. Este era assunto para Goethe tratar com desenvoltura, porque tinha conhecimentos de desenho e pintura. A cor-sólida é aquela que está nos materiais que têm a capacidade de absorver e/ou refletir luz e, evidentemente, não são fontes de luz.

Newton: a decomposição da luz no prisma e o círculo cromático de sete cores (por Claude Bontet).

Para seguir adiante com esta explanação, é necessário abandonar as nomenclaturas mais correntes sobre cores, porque são imprecisas e, até mesmo, confusas. Assim sendo, de agora em diante, fica melhor usar vernáculo mais apropriado. As cores que surgem da decomposição da luz são puras e, cada uma tem um nome ou matiz.

São o vermelho-laranja, o verde e o azulvioleta, e são considerados primários, porque todos os demais surgem deles. A soma dos três restabelece o branco. Pela soma de dois matizes primários, surgem os secundários: o amarelo, o azul-ciano e o vermelho-magenta. Quando se faz mistura aditiva de pelo menos duas cores, a resultante é sempre uma cor mais luminosa que a componente mais clara, porque, também nesses casos, caminha-se para o branco.

Aditivas: Vermelho-laranja + verde = amarelo; verde + azul-violeta = azul-ciano; azul-violeta + vermelho-laranja = vermelho-magenta. 

A teoria de Goethe causou muito impacto, porque era focada em elementos mais palpáveis, como as cores dos objetos e dos materiais usados para colorir. O seu círculo cromático trouxe praticidade para lidar com as tintas. Nesse contexto, as ideias de Goethe repercutiram entre os educadores, mas muitos não souberam interpretá-las. Como consequência, os equívocos foram repassados de boca em boca e, até hoje, continuam produzindo estragos de toda sorte, porque poucos sabem diferenciar cor-energia de cor-sólida.

As subtrativas de Goethe: Amarelo + vermelho = laranja; vermelho + azul = violeta; azul+ amarelo = verde.

As cores-sólidas − tintas, pigmentos e corantes −, funcionam inversamente e são matizes primários: o amarelo, o azul-ciano e o vermelho-magenta. A mistura dos três produz o preto. Pela mistura de dois matizes primários, surgem os secundários, que são o verde, o azul-violeta e o vermelho-magenta(7). Quando se faz mistura subtrativa, a resultante é sempre uma cor mais escura que a componente mais clara. Nesse caso, caminha-se para o preto ou, dizendo de outra maneira, para as trevas, que é a negação da luz.

Post - Aditição & SubtraçãoFaixa superior, cores para mistura aditiva. Faixa inferior: cores para mistura subtrativa.

Exemplo prático de mistura aditiva é a televisão em cores, onde as imagens são formadas pela combinação de minúsculos pontos coloridos, nos matizes vermelho-laranja, verde e azul-violeta, que são cores primárias de energia. Essa energia atinge os olhos do espectador.

Inversamente, os matizes azul-ciano, amarelo e vermelho-magenta são as cores primárias de cor-sólida. Teoricamente, os pintores poderiam fazer todas as cores usando apenas as três, mas há limitações próprias dos pigmentos e corantesEntão, quando querem obter melhores resultados, apelam para o uso de uma palheta mais extensa, cujas cores-sólidas possuam melhores qualidades físicas e químicas.

Pontos luminosos se misturam e formam imagens, que se deslocam até os olhos do observador.

A luz visível é apenas uma fração da energia que está contida no espectro eletromagnético, que foi descoberto no século XIX, por James Clerk Maxwell(8). Essa descoberta teve inúmeras utilidades e levou ao desenvolvimento da televisão, rádio, microondas e muito mais. Na região das ondas mais longas estão as ondas de rádio, televisão, microondas e os ditos infravermelhos; na região das ondas mais curtas, estão os ditos ultravioletas, raios-x e os raios gama. Na região intermediária, situa-se a luz visível, cujos extremos são o vermelho-laranja − onda mais longa − e o azul-violeta − onda mais curta. Na região invisível, junto ao vermelho-laranja, fica o dito

Espectro eletromagnético: Vermelho-Magenta não é cor do espectro, pois é mistura dos dois extremos.

infravermelho; e, além do azul-violeta, também invisível, fica o dito ultravioleta (!). 

Como essas denominações das cores são de fato inapropriadas, dizer simplesmente ultravioleta é pouco. Na palavra, está apartada um violeta solitário, ignorando o azul, do azul-violeta. Mais apropriado seria fazer a união dos dois, passando a dizer ultra-azul-violeta, para designar a radiação além da onda mais curta. E, em nome da mesma clareza, valeria dizer “infra-vermelho-laranja”. (Vide nota no fim do Post) 

Um modo prático de trabalhar com as tintas se dá na reprodução de imagens pela imprensa. De modo que usam pontos coloridos, que são denominados azul-ciano, vermelho-magenta e amarelo. A esses três acrescenta-se o preto para superar falhas dos pigmentos − e, assim, conseguem produzir todas as cores. Tecnicamente o processo é denominado CMYK, derivado do idioma inglês: Cyan, Magenta, Yellow, BlacK.  Este é um sistema subtrativo. 

Outro exemplo de reprodução de imagens é através de luzes coloridas, como ocorre nos aparelhos de televisão. Três tipos de pontos coloridos produzem todas as cores. São eles o vermelho-laranja, o verde e o azul-violeta, por isso, o processo é denominado RGB, letras iniciais de Red, Green e Blue (blue-violet = azul-violeta). Este é um sistema aditivo.

Esquerda: CMYK, azul-ciano, vermelho-magenta, amarelo e preto. Direita (dois detalhes): RGB, vermelho-laranja, verde e azul-violeta.

A radiação eletromagnética, responsável pela luz visível, está na faixa de comprimentos de onda entre 380 nm e 780 nm. Ela é incolor, como também o resto do espectro, porque o universo não tem cor e tudo surge da energia. O estímulo de células foto-receptoras, existentes na retina, produz impulsos que, através do nervo ótico, são enviados para serem processados no cérebro. É ali que reside a visão de cada um, porque cada indivíduo sente o que pode e como pode.

Porém, há os daltônicos que não conseguem ver certas cores, como também há aqueles que enxergam mais e melhor. Por outro lado, entre a maioria das pessoas, há aquelas que foram naturalmente bem-dotadas na sua capacidade visual, outras porque se educaram para isso.

O pintor faz misturas subtrativas. Ao fim de cada jornada de trabalho a paleta fica escura.

Em 1802, houve mais um avanço no conhecimento da cor. Thomas Young(9) afirmou que, nos olhos, havia três tipos de células sensíveis à radiação eletromagnética, correspondentes ao trio vermelho-laranja, verde e azul-violeta. Sua descoberta foi aperfeiçoada por Hermann Ludwig Ferdinand von Helmholtz(10) e, então, passou a ser conhecida como teoria tricromática de Young-Helmholtz.

Essas células, denominadas cones, ficam na região da retina, denominada fóvea. Na periferia da fóvea, existe outro tipo de células, denominadas bastonetes que têm a função de permitir a visão noturna das formas e dos movimentos, mas não identificam as cores. Por isso, à noite, os humanos enxergam o mundo descolorido.

À noite, quando os cones repousam e os bastonetes trabalham, todos os gatos ficam pardos.

Os olhos são semelhantes a câmeras fotográficas. Dizendo simplificadamente: na frente do globo ocular há um orifício, para dar passagem à luz − a pupila −; depois uma lente − o cristalino −; no fundo do globo ocular, a parte que funciona como um filme − a retina −; e, finalmente, a conexão para o cérebro − o nervo ótico. Durante o dia, os cones trabalham, porque são ativados pela energia eletromagnética. À noite, os cones têm mínima função, pois há carência de luz. Nessas horas, as pupilas se abrem, para entrar mais energia e, assim, torna-se possível perceber formas descoloridas, graças justamente aos bastonetes. 

Objeto > ondas de luz > olho (córnea, íris e pupila, cristalino, retina e fóvea, nervo óptico) > impulso nervoso > cérebro.

O muito sábio padre Antônio Vieira(11) tinha lido Descartes. Em 1645, quando fez um sermão, ensinou:

“Na íris ou arco celeste, todos os nossos olhos jurarão que estão vendo variedades de cores: e contudo ensina a verdadeira Filosofia que naquele arco não há cores, senão luz e água”.

Depois, em 1651, em outra fala, acrescentou:

“Isto que chamamos céu é uma mentira azul e o que chamamos arco-íris ou arco-celeste, é outra mentira de três cores”.

Mais adiante, em 1669, disse mais, considerando o arco-íris como fenômeno físico, e acabou por renegar a velha do arco:

“O rústico, porque é ignorante, vê muita variedade de cores no que ele chama Arco da Velha; mas o filósofo, porque é sábio e conhece que até a luz engana (quando se dobra) vê que ali não há cores, senão enganos corados e ilusões da vista”.

Também o padre tinha muita razão!

Identificando a cor

Sempre houve dificuldade em uniformizar os nomes das cores. Um grande avanço ocorreu quando Albert Munssel(12), em 1905, organizou o conjunto de todas as cores dentro de um sólido. Dessa maneira, usando três coordenadas, denominou cada tonalidade com precisão, representando numericamente o matiz, o brilho e a saturação. Esse sistema, baseado na percepção, atualmente é muito utilizado, principalmente na indústria. Outro sistema, o CIE, desenvolvido pela “Commission Internationale de l’Éclairage”(13), usa também três coordenadas e é muito apropriado para classificar misturas aditivas.

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Íris, por toda parte

Na mitologia grega, Íris é a personificação do arco-íris e também a mensageira dos deuses. É tida como deusa dos céus e do mar, e ligação dos deuses com a humanidade. Ela é capaz de percorrer todo o planeta com a velocidade dos ventos. Também pode mergulhar nas profundezas do mar e do inferno. 

Afora a íris dos céus, há outras íris terrenas, que são muitas. Uma delas está na em torno da pupila, que é o orifício do olho por onde entra a luz. A expansão ou contração da pupila permite a passagem de maior ou menor quantidade de luz. A íris é também um gênero de plantas, que produz flores de cores vivas e matizadas. Por outro lado, a palavra iridescência identifica um fenômeno de reflexão, tal como se vê nas bolhas de sabão, nas asas dos beija-flores, nas marcas de segurança de papel moeda, nos discos compactos (CD’s), etc. Têm a aparência daquilo que o vulgo chama de “furta-cor”

As íris dos olhos são únicas, tal como as impressões digitais, de fato não existe uma igual a outra. A partir dessa particularidade, foram desenvolvidos aparelhos para a identificação de pessoas. Os resultados são superiores às demais técnicas utilizadas, pois a probabilidade de duas íris serem idênticas é estimada em cerca de 1 em 1078

Platão:

Trechos do diálogo de Timeu e Crítias 

Fala de Timeu sobre rostos e órgãos dos sentidos:

“Considerando que a parte da frente é mais nobre e própria para governar que a parte de trás, os deuses nos deram a capacidade de caminhar para diante. Então, era preciso que a parte anterior do corpo humano tivesse características distintivas e dissemelhantes da parte posterior. Foi por isso que, em primeiro lugar, os deuses dispuseram o rosto naquela parte exterior da cabeça e, sobre ele, repartiram os instrumentos que atendem a todas as necessidades da alma.

[…] Entre os instrumentos, produziram primeiramente os olhos, portadores da luz, tendo-os ali fixado pela seguinte razão: essa espécie de fogo que não arde, oferece uma luz suave; os deuses fizeram-no de tal modo que, a cada dia, se gerasse um corpo aparentado. O fogo puro que há dentro de nós, irmão do outro (o fogo dos objetos), fizeram que ele fluísse suavemente pelos nossos olhos e de modo contínuo; e foi por isso que comprimiram ao máximo o centro dos olhos (a pupila), de tal forma que bloqueasse a outra espécie mais grosseira, […] e deixasse filtrar somente a a espécie pura. Dessa maneira, assim que a luz envolve o fluxo visual, os semelhantes se fundem, formando um só corpo […]

Onde quer que se projete o fogo que jorra do interior dos olhos, encontra-se e choca-se com o que provém do exterior. Forma-se, assim, um conjunto homogêneo de impressões, devido às suas semelhanças. E, se esse vier a tocar algum objeto, ou se for tocado, transmite seus movimentos por todo o corpo até a alma e produz a sensação a qual denominamos enxergar.

Quando o fogo exterior se afasta, ao cair da noite, o fogo interior, por cair sobre um elemento diferente dele, altera-se e extingue-se, pois a sua natureza não é a mesma do ar que o rodeia, já que não tem esse fogo. Então cessa a visão e vem o convite ao sono. de fato, quando fecha a proteção que os deuses engendraram para a visão − as pálpebras − essa proteção preserva o poder do fogo interno. Ele dispersa-se e os movimentos interiores se acalmam. Na calmaria, gera-se o sossego e uma vez gerado um sossego profundo, abate-se um sono com poucos sonhos; mas, quando restabelece algum tumulto, dependendo da sua natureza e dos lugares onde ficam, produzem no interior simulacros que se assemelham a objetos exteriores e interiores, […] e que são recordados ao acordar.”

Fala de Timeu sobre as cores:

“Resta-nos […] um quarto gênero de sensação […] que nós chamamos de cores. É uma chama que emana de todos os corpos […] de modo a produzir a sensação. […] Serão designados da seguinte maneira: o branco é o que dilata o raio visual e o preto é o que faz o contrário. Quando se trata de um movimento mais pungente, de uma […] ou outra espécie de fogo, que choca com o raio de visão e o dissocia até os olhos, irrompendo com violência pelas entradas dos olhos, dissolvendo-as, fazem correr delas essa torrente de água misturada com fogo, a que chamamos lágrimas.” (14)

A luz de Newton

Retrato: 1706, dois anos após publicar “Optiks”.

Newton foi reverenciado na Inglaterra, no século XVIII, como o maior dos cientistas. Inúmeras foram suas descobertas, dentre elas o teorema binomial, o cálculo, a lei da gravitação e a natureza das cores. Ele acreditava que, no comando de tudo e acima da ciência, havia a mão de Deus. Suas palavras:

“Devemos acreditar que há um só Deus ou Monarca Supremo a quem devemos temer, guardar as suas leis e dar-lhe honra e glória. […] Devemos acreditar que Ele é o Deus dos judeus, que criou os Céus e a Terra e tudo o que neles existe, como o expressam os Dez Mandamentos, de modo a que possamos agradecer-lhe pela nossa existência e por todas as bênçãos desta vida, e evitar o uso do Seu nome em vão ou adorar imagens ou outros deuses”. Esta era a sua luz.

Arquivados na Biblioteca Nacional de Israel há uma série de manuscritos do cientista, nos quais ele interpreta a Bíblia, fazendo inclusive uma previsão do final dos tempos, pela leitura dos textos do Livro de Daniel. E chegou à conclusão de que o mundo deve acabar por volta do ano de 2060. “Ele pode acabar além desta data, mas não há razão para acabar antes”, escreveu.

A luz de Goethe

Retrato: 1787, Goethe na Campanha, Itália, por J. H. W. Tischbein (detalhe).

Nos anos de 1786 e 1788, Goethe fez sua primeira viagem à Itália, quando conheceu o país, de ponta a ponta. Naquele momento, encantou-se com a natureza e as luzes da cultura greco-latina. Além da muita erudição, sabia desenhar. Por isso, pôde bem apreciar os pintores renascentistas, inovadores na representação em perspectiva e peritos no domínio da luz e da sombra. Essas vivências, certamente, contribuíram para que pudesse desenvolver sua “Teoria das Cores”. Logo depois de conhecer as pinturas de Paolo Veronese(15), escreveu:

“Meu velho dom de ver o mundo, com os olhos do pintor cujos quadros acabei de contemplar, conduziu-me a um pensamento singular. É evidente que os olhos se formam em consonância com os objetos, que divisaram desde a infância, e, sendo assim, o pintor veneziano há de ver tudo com maior clareza e limpidez do que outros homens. Nós, que vivemos numa terra ora imunda, ora poeirenta, incolor, a obscurecer qualquer reflexo, muitos até, talvez, em cômodos apertados, não podemos, por nós próprios, desenvolver uma visão assim jubilosa.”

Desde que descobriu a Itália, transformou-se num adorador do sol e assim foi até o seu último dia de vida. No dia 22 de março de 1832, Goethe estava sentado em uma poltrona, ao lado da cama. Devido a um resfriado, sua saúde havia declinado nos derradeiros dias. Era, então, o momento do alvorecer e o quarto ainda estava escuro. Goethe respirava ofegante e fez um sinal com a mão, chamando o criado. O serviçal aproximou-se e ouviu suas últimas palavras suplicantes: “Abram a janela, para que entre mais luz”.

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Por Eduardo de Paula

Antes de se retirar, ouça a canção (clique na flecha)

(1) BLUTEAU, Raphael – “Vocabulario Portuguez & Latino”, Lisboa, 1720.

(2) DESCARTES, René – (La Haye en Touraine, *31.03.1596 / Estocolmo, †11.02.1650), filósofo, físico e matemático francês.

(3) NEWTON, Isaac (Woolsthorpe-by-Colsterworth, *04.01.1643 / Londres,†31.03.1727), cientista inglês, mais reconhecido como físico, matemático, astrônomo, alquimista, filósofo natural e teólogo.

(4) O simbolismo dos números permeia a escrituras. No Livro do Apocalipse, de São João, há uma passagem dramática, com destaque para o sete. Apocalipse 11: 19 – E abriu-se no céu o templo de Deus, e a arca da sua aliança foi vista no seu templo; e houve relâmpagos, e vozes, e trovões, e terremotos e grande saraiva. “Ap. 12: 1 – E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça. / 2 – E estava grávida, e com dores de parto, e gritava com ânsias de dar à luz. / 3 – E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas.” Não se deve confundir a Arca da Aliança, que era uma caixa, com o arco-íris.

(5) GOETHE, Johann Wolfgang von − (Frankfurt am Main, *28.08.1749 / Weimar,†22.03.1832), escritor alemão, pensador e cientista. 

(6) As tintas são produzidas, basicamente, utilizando um pigmento ou corante, um aglutinante e uma carga (para dar corpo). O pigmento ou corante é usado para dar cor e pode ser natural ou de origem química. O corante é menos perene que o pigmento.

(7) Através das misturas, gera-se uma sucessão de cores que formam um “continuum” também denominado “círculo cromático”. Isso é valido tanto para as misturas aditivas, quanto para as subtrativas.

(8) MAXWELL, James Clerk − (Edimburgo, *13.06.1831 / Cambridge,†05.11.1879), físico e matemático britânico.

(9) YOUNG, Thomas − (Milverton, *13.06.1773 / Londres,†10.05.1829), físico, médico e egiptólogo britânico. 

(10) HELMHOLTZ, Hermann Ludwig Ferdinand von − (Potsdam, *31.08.1821 / Charlottenburg,†08.o9.1894), médico e físico alemão.

(11) VIEIRA, Antônio − (Lisboa, *06.02.1608 / Salvador (Bahia),†18.07.1697), religioso, escritor e orador da Companhia de Jesus.

(12) MUNSELL, Albert Henry − (*06.01.1858 / +28.06.1918) pintor norte-americano, professor de arte e criador do Munsell Color System.

(13) CIE − Comissão Internacional de Iluminação, originalmente denominada “Comission Internationale de l’Eclairage”.  É dedicada à cooperação mundial e à troca de informações sobre a ciência e arte da luz e da cor, iluminação, fotobiologia, visão e tecnologia de imagem. Criada em 1913, desde então tem sido aceita como autoridade no assunto e, como tal, é reconhecida pela ISO como um organismo de normatização internacional.

(14) PLATÃO − “Timeu e Crítias, ou a Atlândida”: nesse texto, pela primeira vez, fala-se da história da Atlântida, fruto de diálogos entre Sócrates, Timeu, Hermócrates e Crítias. Nele Platão recria fatos e personagens de geração anterior à sua. Na época, Sócrates teria menos de 50 anos e Platão seria ainda um menino. O personagem central, Crítias, é bisavô de Platão, o qual teria 85 anos de idade, e contava a história da Atlântida, tendo sido precedido por Timeu que, por sua vez, fazia a descrição de um sistema cosmogônico.

(15) VERONESE, Paolo − Nascido Paolo Cagliari (Verona, *c.1528 / Veneza,†19.04.1588), pintor maneirista da renascença italiana.

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6 Comentários »

  1. Eduardo, bom-dia. Esse seu tema é singular. Parabéns, você é deveras diversificado. Muito bom falar em luz. Parabéns, Maria Marilda.

    Comentário por MARIA MARILDA PINTO CORREIA — 01/09/2012 @ 7:46 am | Responder

    • Marilda: Como sempre, você é minha leitora da primeira hora e grande incentivadora.
      Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/09/2012 @ 8:12 am | Responder

  2. Eduardo: Que trabalho interesante e bonito. Aprendi muito através dele.
    A partir de agora, apreciarei mais as flores e as obras de arte.
    Parabéns pelo excelente trabalho de pesquisa. Maria Rosa.

    Comentário por Maria Rosa Claussen Lagrange — 02/09/2012 @ 2:14 pm | Responder

    • Maria Rosa: Como é bom ter uma leitora como você. Dá-me coragem de continuar escrevendo.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/09/2012 @ 7:49 pm | Responder

  3. Eduardo: Adoro ler suas histórias, continuam sendo muito interessantes, o que faz a gente aprender sempre mais um pouquinho. Continue essa sua bela jornada! Um grande abraço, Kathya.

    Comentário por Kathya — 04/09/2012 @ 10:36 am | Responder

    • Olá Kathya: Eu também aprendo, quando pesquiso para escrever meus textos. Fico feliz de saber que você tem gostado.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 05/09/2012 @ 9:14 pm | Responder


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