Sumidoiro's Blog

01/10/2012

AO LUAR DO SERTÃO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:56 am

♦ Uma festa de casamento

Contam que o capitão era muito severo, embora fosse muito carinhoso com os filhos. Ritta lhe deu quatorze filhos, três anjinhos morreram logo. Dos que ficaram, sete eram mulheres. Criou-as com todo zelo, por isso, quando chegou a hora de namorar, foi preciso que as moças fizessem malabarismos. A filha Clarice se esforçou e conseguiu realizar a proeza: namorou, casou e multiplicou. Certo dia, começou a rememorar tudo e, com alegriadecidiu contar para suas filhas como foi que um moço roubou seu coração.

Na casa de seus pais, em Curvelo, o rigor com as filhas era tanto que o capitão chegou a pintar, com tinta fosca, os vidros das janelas. Desta maneira, não poderiam ver os rapazes passando na rua. Mas, as meninas sempre tinham alguma inventiva, para burlar as imposições do pai. No caso das janelas, foi simples e prática, rasparam a tinta fazendo um buraquinho em cada uma, para poderem desvendar os mistérios do mundo exterior.

Clarice frequentava, amiúde, todos os buraquinhos e, de tanto ver um moço bonito passando pela calçada, apaixonou-se por ele. Foi um namoro virtual, durante algum tempo, vivido apenas na imaginação. Conversas e carinhos trocava só pelo pensamento, através dos buraquinhos da janela. Mas, na sua inocência, não imaginava que o pai estava agindo e tinha lá seus planos secretos. Eis que, certo dia, o capitão adquiriu uma peça de fino e caro tecido, que levou à melhor costureira da cidade, encomendando seis vestidos, um para cada filha ainda solteira, iguaizinhos, tanto na padronagem quanto no modelo.

Quando a modista entregou a encomenda, o capitão pediu à sua mulher, Ritta Cassimira, que preparasse as melhores iguarias para receberem uma visita. É que um moço, chamado João Pinto de Carvalho Júnior, o havia abordado e pedido a mão de uma das meninas em casamento. O jovem estava ansioso para se aproximar da moça, pela qual também se apaixonara à distância. As seis irmãs, em alvoroço, se prepararam para a recepção. Não seria a primeira vez que aconteceria um relacionamento desse jeito, isso era comum no passado.

No dia devidamente aprazado, o candidato a noivo compareceu à casa do capitão. Ali, dentro do cerimonial de praxe, foram feitas as apresentações, trocadas palavras gentis, e servidos refrescos e variados quitutes. Nesse meio tempo, é claro, todas as meninas ficaram em profunda expectativa. Qual seria a escolhida pelo moço bonito? Num certo momento, o capitão com um gesto pediu silêncio e anunciou que João queria se casar com Clarice. Foi um susto para todas as meninas, para Clarice maior ainda, mas, também, a maior alegria de sua vida. Exatamente, porque João era o rapaz que ela vinha namorando, pelo buraquinho na janela. Com o noivado assumido e o matrimônio programado, o relacionamento prosseguiu, de corpo presente, sob o olhar atento do capitão.

Residência do capitão Evaristo e Ritta Cassimira, onde fizeram buraquinhos nas janelas.

A segunda parte da história foi o casamento, em 21.06.1902, sábado de inverno, período dos mais belos dias e noites do sertão. Quem escreveu foi Maria Janira, filha de Clarice, muitos anos depois:

” Vieram à minha memória uma série de fatos, que minha mãe contou-me sobre o mais belo dia de sua vida: o seu casamento. Foi realizado em cerimônia simples e íntima, na residência dos seus pais, capitão Evaristo Antônio de Paula e Ritta Cassimira de Paula, tendo como celebrante monsenhor Xavier Rolim.

Como era habitual, os convidados foram levar os noivos à futura residência do casal, no Alto do Tote, próximo à casa de vovô. Em Curvelo, não havia iluminação elétrica. Meu pai, então, instalou um lampião de querosene no teto da sala de visitas. Mas, aconteceu um imprevisto, o lampião despencou, deixando todos no escuro. Todavia, os ânimos não se arrefeceram. Daí, dirigiram-se para o pátio interno da casa, confortável e espaçoso. Por felicidade, o luar do sertão ajudava. Sob a linda claridade e ao som das sanfonas, as danças regionais e folclóricas dominaram o ambiente.

Agora, um episódio que mamãe jamais esqueceu, assim ela contou-me, com arzinho malicioso. Todos, ao toque do mais animado, deram-se as mãos, formando um grande círculo. Excelente oportunidade, está se vendo, daqueles jovens segurar as mãos das namoradas. Mamãe, com seu lindo vestido de noiva, e papai formalizado, à maneira da época, foram convidados para o centro da roda, tornando-se alvos da atenção geral.

É mamãe que ainda conta-me. Longe dos olhares severos e vigilantes de seus pais – eles estavam afastados – as cinco irmãs, ainda solteiras, não perderam a oportunidade, tornando-se descontraídas e muito alegres. Até monsenhor Rolim, ainda jovem, compartilhou da alegria contagiante, participando das brincadeiras ricas de inocência. A partir daí, convidados e noivos cantaram e dançaram, ao som da sanfona, o estribilho:

Olha a noivinha, doce, doce, / Caiu no laço, doce, doce, / Embaraçou, doce, doce / Em nós de amor. / Põe aqui o teu pezinho, / Bem juntinho ao meu. / Ao tirar o teu pezinho, / Um abraço dar-te-ei.

Para as irmãs de mamãe, este dia foi inesquecível. Disseram-me que esta foi a única festa de que participaram desacompanhadas dos pais. Quase de madrugada, voltaram pra casa transbordantes de alegria, na companhia dos irmãos, cunhados, primos e convidados, entre eles, Amador Penna e Bella Salvo. Enfim, este é um exemplo das festas nupciais no Curvelo antigo. Naquela hora, uniam-se harmoniosamente à alegria, a simplicidade, o respeito, e a pureza de atitudes e de sentimentos.” — por Maria Janira de Paula Pinto.

Clarice de Paula Pinto e detalhe do jornal “A Borboleta”.

Clarice se casou aos 18 anos de idade e foi homenageada com um poema, na primeira página do jornal “A Borboleta” − “orgão licterario dedicado ao bello sexo”−,  publicado em 24.06.1902. O poema “O brinde“, dedicado “a D. Clarisse, no venturoso dia do seu consórcio”, diz assim:

Permiti, ó cara amiga, / Neste dia tão faustoso, / Que contentes vos ergamos / Nosso brinde jubiloso. —— Vossa vida se deslize / Na maior prosperidade; / Vosso lar seja o modelo / De completa felicidade. —— Junto ao caro, terno esposo / Encha o vosso coração. / Paz, ventura em longa vida, / Na mais perfeita união. —— Seja para vós a terra / Delicioso paraíso; / Vossos dias se deslizem / Em um perene sorriso. —— Sobre essa bela grinalda / Ponha o nosso Criador / Seu olhar terno, bondoso, / Que conserve o vosso amor!

Curvelo, 21 de junho de 1902 – A Borboleta.

Dito e feito! Enquanto viveu, Clarice foi uma pessoa alegre e soube manter perene seu sorriso, como aconselhou o poema. Quando partiu, ficaram entre suas lembranças essa delicada história, do dia mais feliz da sua vida.

No escurinho do cinema

No ano de 1910, oito anos depois do casamento de Clarice, a cidade de Curvelo esteve alvoroçada, com a criação do primeiro cinema(1). Constavam do programa de inauguração “sete belíssimas fitas, acrescida de mais uma, oferecida às famílias curvelanas”, assim anunciou a imprensa local. Naqueles tempos de cinema mudo, as imagens tomando vida no pano branco, deixavam todo mundo embasbacado. Praticamente não se falava em outra coisa na cidade. Então, para agradar a esposa Clarice, que nunca tinha ido ao cinema, João prometeu levá-la para assistir a uma sessão. Antes disso, seu propósito chegou aos ouvidos do capitão Evaristo, que desconfiado, resolveu tomar algumas providências. Para o patriarca, que estava com 75 anos de idade, seria inadmissível deixar a filha, sozinha com o marido, no escurinho daquela sala, onde aconteciam coisas que lhe pareciam estranhas. Comprou, então, uma completa fileira de cadeiras, para o horário de matinê. Juntou as filhas ainda solteiras, as outras casadas, mais sua mulher Ritta, e foram todos ao cine Aquidabã. Adoraram o espetáculo, é claro. E, sorte do capitão, é que ainda não havia beijo nas fitas de cinema. ** 

——— (Foto acima: Evaristo e Ritta, montagem)

O casal João Pinto de Carvalho Júnior e Clarice de Paula Pinto teve os seguintes filhos: Diva, Zilda, Maria Janira, Fausto, José, Edmundo, Luciano,Vicente e Heloísa.

(Foto ao lado: João Pinto de Carvalho Jr.)

O casal Evaristo Antônio de Paula e Ritta Cassimira de Paula (Pereira da Silva, de solteira) teve os seguintes filhos: Elvira, (Aristóteles, falecido ainda criança), Aristóteles, (Alcibíades, falecido ainda criança), Alcibíades, (Antônio, falecido ainda criança), Lavínia, Sylvia, Eurípides, Clarice, Nicolina, João Baptista, Mercedes e Ritta. Evaristo foi capitão da Guarda Nacional, fazendeiro e comerciante. Destaque, na sua biografia, é o fato de ter sido a primeira pessoa a levantar suspeitas sobre o inseto barbeiro, como causador da moléstia que ficou conhecida como mal de Chagas.

—— ** O relato do cinema foi contado, mais ou menos assim, por Heloísa de Paula Pinto, ao autor deste Post, que é bisneto paterno do capitão. .

Leia mais, clicando com o botão direito:  “O capitão e sua família” ; “O capitão e o barbeiro”.

Por Eduardo de Paula

(1) DINIZ, Antônio Gabriel − “Dados para a história de Curvelo”, vol. 1, Editora Comunicação, 1975, p. 251: “A primeira tentativa de estabelecimento do cinema em Curvelo, deve-se à empresa Matias, Sena & Cia., proprietária do cinema Aquidabã. Estreiou no dia 09.02.1910, no Salão Curvelano (na rua da Estação)…”

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13 Comentários »

  1. Eduardo: Sua história, de tão interessante daria uma boa novela. Muito bom seu Post, parabéns, Maria Marilda – Lagoa Santa.

    Comentário por maria marilda pinto correia — 01/10/2012 @ 8:10 am | Responder

    • Marilda: Agradeço seu gentil comentário e o estímulo que se repete.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/10/2012 @ 10:23 am | Responder

  2. Belo e emocionante relato. Parabéns pelo seu trabalho.

    Comentário por João Bahia Vianna — 01/10/2012 @ 8:58 am | Responder

    • João: Muito obrigado pelo estímulo.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/10/2012 @ 10:25 am | Responder

  3. Eduardo: Que história bonita! Esta festa de casamento me fez lembrar as lindas festas de São João na fazenda dos meus tios. A sanfona de seu Bê chorando sem parar, os violões e o pandeiro ritmado do Bastião. E todos felizes, em ciranda, à volta da fogueira. A suave luz do luar do sertão nos iluminava e despertava paixões. Obrigada pelo belo Post, que me trouxe estas memórias.

    Comentário por Maria Rosa Claussen Lagrange — 01/10/2012 @ 5:52 pm | Responder

    • Maria Rosa: Que bom você ter gostado. Eu também passei muito tempo em roda da fogueira.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/10/2012 @ 6:51 pm | Responder

  4. Sabia que gostaria antes de começar, porque você capricha. Admirável. Fotos espetaculares também.

    Comentário por Virginia Abreu de Paula — 13/04/2014 @ 8:38 pm | Responder

    • Vírgínia:
      Fico feliz de saber que você gostou. Estou com uma série de Posts no forno, para publicar durante o ano.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 13/04/2014 @ 9:35 pm | Responder

  5. Bom-dia Eduardo, acabo de descobrir que minha avó é citada em seus posts como Elvira, filha do capitão Evaristo de Paula, sabia de alguma ligação, mas não exatamente qual era. Sou da família Canabrava, que veio ao Paraná abrir fazenda. Fiquei muito feliz com seu Blog! Tem mais informações de Elvira?
    Atenciosamente,
    Denise Canabrava de Castro.

    Comentário por Denise — 12/08/2014 @ 11:04 am | Responder

    • Denise:
      Muito obrigado pelo comentário. Sou bisneto do capitão Evaristo. Tenho mais informações, sim. Vou entrar em contato com você pelo seu endereço de email.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 12/08/2014 @ 3:18 pm | Responder

      • Estou eufórica com sua resposta! Estou, há dias, envolvida com este assunto fascinante e acabo de descobrir que meus tataravós eram primos, Carolina Maria de França Canabrava e coronel Antônio Francisco de França Canabrava. Não tenho muitas notícias de Osório de França Canabrava, mas vou trabalhando. Meu avô Décio de Souza Canabrava fez uma bela história, aqui no noroeste do Paraná. Sou arquiteta e trabalho com um grupo de museólogos, compilando histórias e executando museus. Agora, para a minha alegria, o assunto da vez será o pioneiro Décio Canabrava. Gostaria muito de poder contar com seu apoio.
        Você é de qual família?
        Atenciosamente, Denise Canabrava de Castro.

        Comentário por Denise — 12/08/2014 @ 4:17 pm

  6. Que linda história! Leva-nos a sonhar com os anos já passados. Nos últimos tempos, este blog, convida-nos realmente a sumir…

    Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 11/02/2017 @ 3:38 pm | Responder

    • Vania:
      Fico feliz de lhe trazer alegrias com os meus textos.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 11/02/2017 @ 5:27 pm | Responder


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