Sumidoiro's Blog

01/11/2012

ABANDONADOS

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:11 am

♦ Uma história feita de lágrimas.

“Se estamos no alto, Deus é tudo. Se estamos embaixo, Deus é uma compensação para a nossa miséria.” (J. W. Goethe)

 Desde o início dos tempos, os adultos têm maltratado as crianças. Nas antigas civilizações, foram vistas como meros objetos. Religiões pagãs aceitavam, e até estimulavam, a prática de brutalidades contra elas. Por serem consideradas propriedades, podiam ser escravizadas, vendidas, simplesmente descartadas, ou mesmo assassinadas. Até homens tidos como sábios lhes manifestaram desprezo. Muitas foram submetidas a situações degradantes, como a prostituição e a prática de bruxaria. Na antiga Esparta, se a criança fosse considerada defeituosa, era levada ao pai ou ao conselho dos anciãos, que decidiam pelo seu destino. As imperfeitas eram condenadas à morte e lançadas do alto da montanha. 

Miséria, irresponsabilidade e preconceito, podiam levá-las ao pior dos mundos. E as perversidades não tiveram fim, ainda continuam por toda parte e em número assustador.

O deus Saturno devorando o próprio filho (Por Rubens)

Para lidar com essas pobres criaturas, os adultos precisavam lhes colocar um rótulo, criando nuances para acomodar a desgraça no contexto social. Foi assim que inventaram o ilegítimo ou bastardo, o enjeitadoo exposto − aquele sofria um abandono piedoso − e, também, o órfão. Um nome para cada tipo de abandono mas, nas suas santas inocências, as crianças não tinham como perceber o peso da discriminação, que só iriam descobrir quando adquirissem o domínio da razão.

Percorrendo as trilhas dessa cruel história, depara-se também com os filósofos da antiguidade, que encaravam as crianças com desdém. Os gregos Sólon, Platão e Aristóteles, aprovavam o infanticídio. O romano Sêneca não deixava por menos, admitia o afogamento dos nascituros malformados como um procedimento normal. Suas posturas deixaram claro que sabedoria e sensibilidade são coisas diferentes.

Os romanos assimilaram as ideias dos gregos, consubstanciando-as na Lei das Doze Tábuas, que passaram a fazer parte do Direito Romano. Na Tábua IV, foi escrito:

1 – É permitido ao pai matar o filho que nasceu disforme, mediante o julgamento de cinco vizinhos. 2 – O pai terá, sobre os filhos nascidos de casamento legítimo, o direito de vida e de morte, e o poder de vendê-los. 3 – Se o pai vender o filho três vezes, que esse filho não recaia mais sob o poder paterno. 4 – Se um filho póstumo nascer até o décimo mês após a dissolução do matrimônio, que esse filho seja reputado legítimo.

O abandonado Moisés sendo recolhido pela filha do faraó. (Por K.D. Flavitsky)

Contam que, no antigo Egito, havia o costume de abandonar os filhos dentro de cestos lançados no rio Nilo. A Bíblia citou um desses desafortunados, Moisés, cuja mãe era Jocabede e o pai Amram. Diz o Velho Testamento que, “Nesse tempo nasceu Moisés, e era mui formoso, e foi criado três meses em casa de seu pai.” Naquela época, o anúncio de uma profecia sobre o nascimento de um menino, que viria cobrir o país de desgraças, motivou o faraó a ordenar que todos os bebês varões israelitas fossem mortos. Sentindo o iminente perigo, Jocabede, com a intenção de salvar o filho recém nascido, abandonou-o, exposto dentro de um cesto de vime, junto aos juncos do rio Nilo. Por sorte, o bebê foi encontrado e recolhido. O texto sagrado diz ter sido “repelido pela mãe”, pois está escrito: “E, sendo enjeitado, tomou-o a filha do Faraó, e o criou como seu filho.” O inocente recebeu o rótulo errado, sem correspondência com o fato real, mas ficou escrito.

Havia justificativa para o ato de Jocabede, ocorrido em uma situação de desespero, por isso, a mãe achou aquela a melhor alternativa. O traumático início de vida do profeta Moisés mostra como a decisão de abandonar o filho é cercada de imprevisibilidades. As razões são inúmeras e as consequências dolorosas, para ambas as partes.

A frouxidão dos costumes contribuiu para o surgimento de fortes candidatos ao abandono, os bastardos. Nesse aspecto, não faltaram palavras de alerta da Bíblia, para quem infringisse as regras, gerando filhos fora do casamento. No Deuteronômio está dito que “Nenhum bastardo entrará na congregação do Senhor; nem ainda a sua décima geração entrará na congregação do Senhor.” Assim é que, embora todos filhos do mundo sejam concebidos da mesma maneira, o nascer fora da lei divina lhes agregava uma condenação definitiva. Soa absurdo terem sua mácula repassada aos descendentes mas, dizendo que falam em nome de Deus, os religiosos se utilizam desses métodos para coibir os maus comportamentos.

Davi venceu o bastardo Golias e cortou sua cabeça. (Por Caravaggio)

Nos tempos em que os israelitas viviam em guerra contra os filisteus, havia um gigante que ficou famoso. Ele usava capacete de bronze e couraça escamada, e lhe chamavam Golias. Sua figura inspirava terror, não só pela aparência, mas também porque era um espúrio, ou em outra palavra, um bastardo. Quando lutou contra o pequeno Davi, para alívio e felicidade geral da multidão, aquele que era a personificação do mal foi derrotado. Coitado do bastardo!

Outro caso, é o de um bastardo bem sucedido que, de certa forma, aliviou-se do preconceito. Chamava-se Jefté, filho – fora do casamento – de Galaad com uma prostituta. Quando cresceu, expulsaram-no da casa paterna e lhe disseram: “Tu não herdarás nada na casa de nosso pai, porque és um bastardo.” Porém, o menino cresceu e apareceu, tornando-se juiz e general vitorioso do exército de Israel e, dessa maneira, o que fora mal nascido tornou-se um líder amado pelo povo. Viva o bastardo!

OS EXPOSTOS

Foi na antiguidade greco-romana que implementaram o abandono denominado “exposição”, no qual a vítima era “exposta” ou colocada à disposição de quem pudesse recolhê-la. Em Atenas, eles eram expostos junto a um edifício público, chamado Cinosarges(1). Em Roma, eram despejados junto a uma coluna, chamada Lactária, perto do mercado de legumes. Tanto os atenienses, quanto os romanos, tinham estabelecimentos públicos que acolhiam os expostos, mas, se ninguém viesse reclamá-los, passavam a ser propriedades do estado. A consequência é que podiam ser vendidos. De modo geral, no mundo antigo, os filhos abandonados eram a melhor fonte dos mercadores de escravos. 

A coluna Lactária de Roma e o apologista São Justino, defensor dos inocentes.

No século II, São Justino de Roma(2), na primeira Apologia, manifestou-se contra aquelas maldades, tão corriqueiras no mundo pagão:

“… a fim de não cometer pecado ou impiedade, professamos a doutrina de que expor os recém-nascidos é obra de perversos. Primeiro, porque vemos que quase todos vão acabar na dissolução, não só as meninas, mas também os meninos. Do mesmo modo como se conta que os antigos mantinham rebanhos de bois, cabras, ovelhas ou cavalos de pasto, assim se reúnem agora rebanhos de crianças com a única finalidade de usar torpemente delas, e toda uma multidão, tanto de mulheres como de andróginos e pervertidos, está preparada em cada província para semelhante abominação.”

Com o avanço do cristianismo, a criança deixou de ser mero objeto, nascia livre − exclui-se aquelas de pais escravos − e passou a ser vista como pessoa. A igreja e almas caridosas, condoídas com a situação daquelas criaturas, trataram de encontrar remédios para o desamparo. No ano de 529, o imperador bizantino Justiniano(3) criou abrigos denominados brefotrófio. Mais tarde, as ordens religiosas, foram encarregadas, pelos bispos, de criar casas de acolhimento. Uma delas foi o Hospício do Espírito Santo, instalado em Paris, no ano de 1362, que acolhia indistintamente todas as crianças negligenciadas. Mais tarde, limitou-se a receber os filhos legítimos, menores de nove anos de idade(4).

Torre do Abandono, sec. XVIII, França.

Na Alemanha do século VI, existiu em Trier(5), o costume das mulheres desafortunadas entregarem − ou exporem − seus filhos recém-nascidos na igreja, em uma concha de mármore ali colocada para essa finalidade. Os responsáveis pela concha recolhiam os bebês e cuidavam de conseguir alguém que pudesse acolhê-los. Esse procedimento foi precursor daqueles que, mais tarde, se espalharam pela Europa, utilizando as denominadas Rodas dos Expostos ou Torres do Abandono (Tour d’Abandon). Em Marselha, no ano de 1188, existiu, no Hospital dos Cânones de Marselha(6), uma Torre do Abandono.

As rodas eram um recipiente giratório, instalado em uma parede externa da casa de recolhimento, de tal forma que, de fora, não se via o interior do edifício. Junto ao aparato, havia uma corda que, ao ser puxada, acionava uma sineta de alerta, para se recolher a criança. As Torres tinham a forma de uma caixa alta e estreita, contendo uma pequena câmara receptora, que poderia ser giratória, mas eram apenas uma sofisticação da roda. De modo geral, as instituições que recebiam órfãos e enjeitados eram denominadas “hospícios” e várias disponibilizavam a roda.

São Vicente de Paulo e as Filhas da Caridade.

ABANDONO À FRANCESA

Ao alvorecer do século XVII, teve início uma revolução na assistência social da França, quando o sacerdote Vicente de Paulo (Vincent de Paul) abraçou uma grande causa em favor dos pobres, idosos, prisioneiros, doentes e crianças desamparadas. Suas iniciativas resultaram na criação de várias instituições, entre elas, a Confraria das Damas da Caridade (1617), a dos Servos dos Pobres (1621), a Congregação dos Padres da Missão (1625) e as Filhas da Caridade (1633), que teve Luísa de Marillac como cofundadora e Marguerite Naseau como primeira voluntária. Essas religiosas ficaram conhecidas como irmãs Vicentinas.

A Congregação dos Padres da Missão − Congregatio Missionis, CM −, também chamados Lazaristas ou Vicentinos, é composta por padres seculares e leigos consagrados (irmãos). Essa comunidade religiosa instalou-se, primeiramente, no Collège des Bons-Enfants, em Paris. Quando foram transferidos, em 1632, ao priorado de Saint-Lazare − antigo leprosário −, receberam a denominação de lazaristas, em memória de São Lázaro, padroeiro dos leprosos.

Com a ajuda financeira das Senhoras da Caridade de Paris e sob o comando de Luísa de Marillac, as Vicentinas foram encarregadas, por Vicente de Paulo, para um trabalho que exigia especial dedicação, qual seja, o de salvar as crianças abandonadas. Era hábito que as mães miseráveis as depositassem nas portas das igrejas, com esperança de que alguém as recolhessem. Poucas tinham a sorte de serem resgatadas por pessoas de bons sentimentos e, muitas delas, eram retiradas por motivos torpes, ou seja, para serem exploradas na prostituição, no trabalho escravo ou na mendicância. Nesse caso, era frequente estropiá-las, quebrando-lhes uma perna ou a espinha, pois uma criança coxa ou corcunda rendia mais dinheiro.

Procurando amparar essas infelizes, Luísa de Marillac as entregava a babás por ela escolhidas, às quais orientava e supervisionava no atendimento. Quando tinha a felicidade de conseguir alguém que as adotasse, sempre as visitava, verificando se estavam sendo bem tratadas. E fazia mais, quando cresciam e tornavam-se capazes, conseguia-lhes um emprego, dando-lhes a chance de viver por conta própria. Em um período de apenas sete anos, 1.200 crianças foram salvas da miséria e da morte. A grande obra de Luísa foi impulsionada pelas suas vivências, pois ela mesma fora uma menina abandonada.

Contando com o trabalho das Vicentinas, em 1638, Vicente de Paulo criou o Hospital des Enfants Trouvés (Hospital das Crianças Abandonadas), instalado inicialmente perto da Porte de Saint-Victor. Mais tarde, foi transferido para o castelo de Bicêtre, em seguida para perto de Saint-Lazare e, finalmente, para um edifício em frente da igreja de Notre-Dame (gravura abaixo). São também suas criações: o Hospital Bicêtre − para insanos −, o da PitiéSalpetrière”− para os pobres , e o Saint-Nom-de-Jésus  para os idosos.

1 –  Hospital das Crianças Abandonadas, 2 – Hospital de Caridade (Hôtel-Dieu), 3 – Igreja de Notre-Dame (em 1739). 

Os bons exemplos de Vicente de Paulo repercutiram e foram imitados. No mês de abril de 1833, em Paris, um grupo de sete jovens universitários, liderados por Frédéric Antoine Ozanam (*1813 +1853), que tinha apenas 20 anos de idade, criou uma instituição multiplicadora da grande obra, a Sociedade de São Vicente de Paulo, conhecida pelas iniciais SSVP. A organização, fundada em 1833, prosperou e, hoje, está presente em 146 países, com 720.000 membros. O Brasil é o maior país vicentino do mundo, com 45.440 conferências, que mantêm os mesmos objetivos originais de amparo aos necessitados e, de forma especial, às crianças carentes. As religiosas Vicentinas chegaram ao Brasil, pela primeira vez, em Mariana, em 03.05.1849, para cuidar de meninas órfãs e fundar a primeira escola feminina do estado de Minas Gerais(7)

São Vicente de Paulo, as Filhas da Caridade e as crianças.

ABANDONO À ITALIANA

O cristianismo teve um papel fundamental no socorro à infância abandonada. Na Itália, país tradicionalmente católico, prosperaram inúmeras ações em benefício dos pequeninos. Em Milão, no ano de 787, foi fundado, por testamento do arcebispo Dateo, o primeiro asilo para crianças. Esse pioneiro dizia que:

“Na verdade, as mulheres que haviam concebido após um adultério, não têm escrúpulos em matar seus filhos recém-nascidos e, assim, os mandam para o inferno sem a purificação do batismo. Isto porque não encontram um lugar para mantê-los vivos, escondendo o fruto do seu adultério, então os lançam nos esgotos, nos rios e no esterco.” (8) 

A primeira roda italiana começou a funcionar em 1198, em Roma, no Hospital do Santo Espírito em Sassia, por obra do papa Inocêncio III. Em Nápoles, no ano de 1316, surgiu a primeira casa da Europa, com a finalidade específica de recolher órfãos, chamavam-na orfanotrófio e funcionava sob orientação religiosa. No século XIX, havia expressivo número de hospícios que recolhiam crianças abandonadas, doze deles instalados na região da Toscana.

As crianças abrigadas nessas instituições recebiam instrução e preparo profissional, habitando-as a viver com dignidade a vida adulta. Os  mais saudáveis eram destinados ao serviço militar. A história revela que “O hospício de Nápoles − l’Albergo dei Poveri − presta cuidados […] aos órfãos e aos enjeitados, que ali aprendem a ler, escrever, princípios de aritmética, desenho e música; tendo, além disso, várias oficinas, em que contam uma manufatura* (*oficina de artesanato) de coral, uma imprensa e uma fundição de tipos. Os moços robustos são destinados aos serviços das armas; aqueles que, todavia se distinguem, obtêm escusa do serviço militar, nem por isso deixam de ficar sujeitos ao regime da casa, cuja guarda lhes é confiada. Todos os dias […] fazem exercício nos pátios, ao som de músicas guerreiras.” (9)

“Ruota dell’Annunziata”, pintada por um exposto famoso, o italiano Gioacchino Toma (*1836 +1891). 

ABANDONO À PORTUGUESA

É certo que Portugal esteve entre os países pioneiros no socorro aos necessitados. Quanto aos enjeitados, é conhecido o alvará(10) de Filipe III, em 19.05.1618, determinando que todas as Casas de Misericórdia tivessem um regulamento, que contemplasse o acolhimento de crianças desamparadas. No capítulo 33, parágrafo 2º, se lê:

“Achando-se* (*encontrando-se) alguns meninos desta qualidade e constando do seu desamparo, o provedor e demais irmãos da mesa os mandarão acabar de criá-los, tomando-lhe amas enquanto forem de pouca idade e, depois de crescidos, lhes darão ordem conveniente de modo que, por falta de criação venham a ser prejudiciais à República, nem que por falta de ocupação fiquem expostos aos males que a ociosidade costuma causar.”

No parágrafo 3º:

“Havendo alguma pessoa virtuosa, que queira se encarregar da criação e amparo de algum desses meninos, a casa lho largará, porque não deve tomar a seu cargo senão aqueles que não tiverem outro remédio ou sustento.”

Ao atingir a metade do século XIX, quase todas as comunidades mais populosas de Portugal contavam com uma Roda dos Expostos, instaladas sob o amparo das câmaras municipais. As boas intenções, geralmente, não produziam os esperados benefícios e os enjeitados eram tratados com displicência. Até os sete anos de idade, as crianças ficariam sob a tutela e às expensas do poder municipal. Findo esse período, se submeteriam “à lei geral dos órfãos” que, no intuito de protegê-las, acabou por lançá-las no mais completo desamparo.

Pelas ordenações do reino e pelas leis orfanológicas, poderiam ser adjudicados em hasta pública, por quem tivesse interesse pelos seus serviços. Nesses casos, os que pagassem mais levariam os coitadinhos. Felizmente, parece que a lei não vingou, porque poucos se interessaram nesse comércio. A consequência da regulamentação absurda é que, quando atingiam a idade fatal dos sete anos, eram baixados do chamado “livro negro”, mas o poder judicial não os inscrevia no seu e, desse modo, retornavam à condição de abandono.

Uma roda portuguesa, exterior e interior.

ABANDONO À BRASILEIRA

A prática da exposição, importada de Portugal, impregnou os costumes do Brasil colonial e foi adotada por pobres e ricos. Diferentemente da Europa, não foi a fome o principal motivo da maioria dos casos de abandono caridoso, e sim os preconceitos religiosos e sociais, bem como a fragilidade dos valores morais. Tampouco as crueldades, que foram praticadas na Europa, se repetiram no Brasil, pois costumavam recolher os expostos carinhosamente, como simples ato de caridade. Entre os brasileiros, a exposição era vista com naturalidade, talvez pelos sentimentos de caridade que movia a população, na sua maioria católica. Os eclesiásticos consideravam o procedimento de muita serventia, particularmente quando rompiam o juramento da castidade e precisavam amparar os frutos dos seus amores proibidos.

Com o advento da Lei do Ventre Livre (1888), fixaram-se regras para o amparo da criança liberta, que poderia continuar vivendo junto à mãe escrava, sob a tutela do senhor. Dizia a lei: “… filhos menores ficarão em poder o sob a autoridade dos senhores de suas mães, os quais terão a obrigação de criá-los e tratá-los até a idade de oito anos completos.” E ainda: “O governo poderá entregar a associações, por ele autorizadas, os filhos das escravas, […] que sejam cedidos ou abandonados pelos senhores delas, ou tirados do poder destes…” Nessas condições, os senhores poderiam usar a mão-de-obra remunerada dos filhos libertos, até os 21 anos de idade. Mas, o patrão cruel forçava o abandono, porque era uma maneira de evitar despesas e muitos pais chegaram a imaginar que assim encontrariam uma melhor condição de vida. Na realidade, resultou no aumento do abandono e a maioria dessas crianças marginalizadas se tornaram infratoras.

Duas crianças num almoço dos tempos coloniais, tal como bichinhos de estimação. (Debret, detalhe)

Os ricos eram useiros e vezeiros em expor os frutos das suas relações proibidas, que ocorriam, às vezes, dentro da própria família. Falsificando os fatos, montavam um roteiro para encenar o abandono e, dessa maneira, evitavam macular o bom nome do clã. Às vezes, eles próprios acolhiam o tal exposto. Também expunham o filho quando desconfiavam da fidelidade da esposa, ou quando o espúrio pudesse perturbar uma almejada divisão dos bens familiares. Em certos casos, os herdeiros legítimos, iluminados pelo deus do dinheiro, torciam pela morte da criança, temendo que, algum dia, pudesse candidatar-se à partilha.

Por essas e por outras, o famoso jeitinho brasileiro adaptou e, de modo muito especial, a tradição recebida da Europa colocando um pouco de doçura − ou seria esperteza? − no modo de lidar com o abandonado. Quando a mãe era a autora da exposição e entregava o filho, ou filha, a um particular, uma família, ou uma casa de acolhimento, o nome do pai deveria ficar encoberto, embora não necessariamente ignorado. A identidade da mãe poderia ser conhecida, dependendo de como era feita a exposição. Em certas ocasiões, os interessados acordavam entre si o devido sigilo, notadamente quando o exposto era filho de algum membro da família que se dizia receptora.

Faziam tudo muito bem planejado e, para manter a necessária discrição, combinavam o melhor momento e lugar para o descarte. Na alta madrugada, pouco antes do cantar dos galos, ocorria a maioria das exposições. O horário era conveniente, para a movimentação passar despercebida pela vizinhança e, também, para evitar que os bebês ficassem vulneráveis ao ataque das feras noturnas. Eram depositados suficientemente agasalhados e juntava-se um bilhete com recomendações. Ao alvorecer, o exposto já podia ser apresentado à nova família e a notícia corria aos quatro ventos. Deste modo, a encenação colocava quase tudo nos pretendidos lugares mas, nem por isso, aliviava a criança da sua mácula e das suas dores, que carregaria para sempre.

Alegre recepção de um exposto por uma família camponesa. (Por Hubert Salentin)

As casas de recolhimento do Brasil foram poucas. Rodas − ou torres − só existiram três, a primeira em Salvador, em 1725; a segunda no Recife, em 1789; e a terceira em São Paulo, em 1825. O pintor documentarista Jean Baptiste Debret, em 1816, quando esteve no Rio de Janeiro, visitou o asilo de crianças da rua da Misericórdia, e escreveu:

“Esse pequeno edifício de um pavimento é de arquitetura regular. A torre acha-se no meio da fachada, num corpo um pouco afastado, que se assemelha a uma porta falsa.”

Em Minas Gerais, na Vila de Sabará, cogitou-se de implantar a roda pelo menos em duas oportunidades, ambas as vezes sem sucesso. Primeiramente, em 1829, quando a Câmara Municipal fez um pedido ao Governo Geral da Província no sentido de que “… seja permitido (ao Hospital de Misericórdia) a prerrogativa de colocar ali uma roda, para receber expostos, com a necessária ama seca que os trate, enquanto a Câmara convenientemente e como está determinado, cuida de sua educação física, entregando-os a amas, que os aleitem visto que o Edifício não tem capacidade para nele se criarem” (11).

Outra vez, em 11.04.1853, também sob os auspícios da Câmara Municipal, presidida pelo médico Anastácio Symphronio de Abreu(12), foi criada a Beneficência das Senhoras Sabarenses, com a missão de cuidar dos expostos e a instituição contaria com uma roda(13)O artigo 11º, dos estatutos dos expostos, diz o seguinte:

“As crianças da roda trarão um sinal característico, para não se confundirem com as outras. Pode ser um pequeno selo de chumbo pendente do pescoço por uma liga preta, que não possa ser tirada pela cabeça. No selo, estará gravada, de um lado, Municipalidade de Sabará e, mais abaixo, 1853, e, do outro lado, Beneficência das Senhoras de Sabará.”

Também em Minas Gerais, no ano de 1830, em Vila Rica, a Câmara Municipal(14) solicitou providências, para a instalação da roda na Santa Casa de Misericórdia. Entretanto, nenhum dos projetos − de Vila Rica e de Sabará − se concretizou.

Na Alemanha, “caixa de correio” para bebês.

A RODA VIROU CAIXA

A roda foi revivida na Europa, nos últimos dez anos, e está se espalhando pelo mundo. Alegam que uma caixa aquecida, monitorada por enfermeiros, é um benefício para os bebês, melhor do que serem abandonados na rua. A controvérsia também se fez presente, porque a ONU diz que viola o direito da criança. Na Alemanha, onde surgiu, é chamada BabywiegeBabyfenster ou Babyklappe; na Itália, Culla per la vita; na Polônia, Okno życia; na China, 婴儿安全岛, e, no Japão,こうのとりのゆりかご.

Na Polônia, janela sempre aberta aos infelizes.

Os defensores das variadas caixas dos expostos − não importam os nomes − afirmam que elas oferecem, às mães desesperadas, uma forma segura para abandonar bebês indesejados. Aqueles que condenam o sistema, argumentam que as caixas podem ser usadas por pessoas inescrupulosas e até mesmo por cafetões, para forçar suas prostitutas a disporem de um bebê inconveniente. Na Polônia, as religiosas têm apoiado a iniciativa das “Janelas da Vida”, sua moderna versão da roda. Em Varsóvia, já instalaram duas, a primeira com a assistência das irmãs de Nossa Senhora de Loreto e, a segunda, das irmãs Franciscanas da Sagrada Família.

Na cidade de Shijiazhuang, China, no início de 2012, foi instalada uma novidade, a “Ilha do Bebê”, um quiosque em via pública, com a finalidade de receber expostos. No Japão, os “Berços das Cegonhas” estão se espalhando por toda parte e, nesse país de gente disciplinada, afirmam que 30% dos abandonados provêm de mães depressivas. Fazem também um alerta: a educação sexual é muito importante para reverter esse hábito. 

Na China, um quiosque para o abandono.

Em uma dessas caixas dos expostos, na Alemanha, no momento em que a criança é descartada, uma mensagem é disponibilizada, nos seguintes termos:

“Sabemos que o ato de doar o filho não foi fácil para você. Tenha a certeza de que vamos cuidar do seu bebê com carinho, com o melhor da nossa capacidade, de forma a lhe dar um bom começo de vida. Além disso, ao bebê deve-se dar a chance de viver! Se você mudar de ideia e quiser tê-lo de volta, pode retornar a nós com total confiança. Teremos prazer em ajudar e é satisfação nossa saber que pais e filho são capazes de estar juntos. Mesmo que você não faça isso, vamos continuar oferecendo-lhe nosso aconselhamento. Tenha certeza de que você não precisa se preocupar com a polícia lhe procurando. Ligue para nós, estaremos à sua disposição.

Lembre-se: um dia, seu filho terá o desejo de conhecer seu nome. Se você quiser deixar esta informação, teremos prazer em lhe ajudar.”

Na opulenta Europa, o aumento do número de recém-nascidos abandonados – principalmente por imigrantes ilegais – tem contribuído para o renascimento da roda dos enjeitados. Nos quatro continentes e principalmente nos países pobres, a tragédia se repete. No Brasil, o abandono infantil está em franco crescimento, para saber basta acompanhar os noticiários. Por motivos diversos, tanto os miseráveis quanto os ricos têm descartado os filhos, na mais descarada irresponsabilidade. Será que o “correio dos expostos”, com suas caixas postais, vai chegar ao país?

Assista ao vídeo: RECEPÇÃO a uma CRIANÇA ENJEITADA.

Clique na flecha.

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Luísa, a abandonada

Luísa (Louise) de Marillac nasceu em Paris, em 12.08.1591. Teve triste infância, por desconhecer quem seria sua mãe e, talvez, também o seu pai. De fato, ela veio ao mundo em condição misteriosa. Em um registro, lavrado três dias após o nascimento, Luís I de Marillac, cavaleiro, senhor de Ferrières-en-Brie e de Villiers-Adam, comandante de uma companhia de ordenança do rei, dá-lhe uma pensão e nomeia-a sua “filha natural”. Supõe-se que não seria verdade, mas que estaria assumindo a paternidade em benefício de um irmão.

Na orfandade, foi colocada em um convento dominicano, onde viveu amparada por uma tia freira. Ela lhe despertou o gosto pela cultura. Quando completou 12 anos de idade, o pai faleceu e Luísa foi retirada do convento e levada para uma pensão familiar, paga por um homem caridoso. Naquela casa, aprendeu as tarefas domésticas necessárias para ser boa dona de casa. Ao atingir os 22 anos de idade, pensou em tornar-se freira. Entretanto, o destino mudou esse plano de vida e casou-se, em 15.02.1613, com Antoine Le Gras, secretário da rainha Margarida, com quem teve um filho. Pelo matrimônio, passou a ser conhecida como mademoiselle Le Gras(15).

Antoine Le Gras, marido de Luísa de Marillac.

Durante algum tempo, viveu um casamento feliz, mas a adversidade bateu à sua porta, quando seu marido adoeceu e ficou com o temperamento agressivo. Imaginando que estaria sendo punida por Deus, por não ter seguido a vocação de freira, chegou a pensar em separar-se do marido. Entretanto, no dia de Pentecostes, do ano de 1623, suas dúvidas desapareceram ao sentir-se iluminada e compreender que seguia os desígnios de Deus. Acalmou-se e aceitou a convivência com o marido doente. Dois anos depois, Antoine faleceu.

Aos 34 anos de idade, sozinha e abalada, saiu à procura de apoio moral e orientação para sua verdadeira vocação. Naquele momento se aproximou do padre Vicente de Paulo. Nos primeiros instantes, mostrou-se hesitante diante das palavras do santo homem, mas nelas estava sua salvação. Com o religioso, conseguiu encontrar o caminho da vida espiritual e abraçou a missão de ajudar o próximo. Vicente, percebendo a inteligência, cultura e senso prático de Luísa, incumbiu-a de visitar todas as Confrarias da Caridade, que havia fundado em aldeias dos arredores de Paris. Durante suas viagens, àqueles lugares, Luísa conheceu a pobreza e a miséria espiritual da população.

Luísa, Vicente e uma serva, atendendo a um doente. (Pintura da primeira metade do século XVIII – data provável).

No dia 29.11.1633, Luísa reuniu algumas meninas camponesas em sua casa e sob a orientação do padre Vicente, começou a instruí-las para a vida comunitária, a espiritualidade, a oração e a catequese. Alfabetizou-as, ensinou-as a cozinhar, a cuidar da higiene, a atender os doentes e tudo o mais que seria necessário para transformá-las em “boas servas dos pobres”. Em 25.03.1642, fizeram votos de dedicar suas vidas em benefício da pobreza e se transformaram nas primeiras servas da Companhia das Filhas da Caridade.

Divididas em grupos de duas ou três, as servas foram encaminhadas para socorrer os pobres de Paris. Por todo tempo, Luísa mantinha contato, verificando o andamento dos trabalhos e se preocupando com saúde delas. Ao mesmo tempo, as defendeu-as contra calúnias e incompreensões, sempre incentivando-as a não se afastarem da vocação, qualquer que fosse a dificuldade. Houve um momento em que sentiu-se debilitada de saúde mas, apesar disso, nunca se dobrou às dificuldades e aos inconvenientes das viagens, não deixando de visitá-las.

Depois, Luísa treinou algumas de suas servas para educar meninas pobres. Ensinou-as a repassar o catecismo, o aprendizado da leitura, corte, costura e boas maneiras. Elaborou um regulamento, criando normas para o ensino de habilidades e a maneira de tratar essas mocinhas, privilegiando, especialmente as mais carentes. Durante suas visitas, procurou incentivar, aconselhar e tornar as coisas mais fáceis, tanto para os alunos, quanto para as irmãs.

Com o correr do tempo, outro benefício passou a ser prestado pelas Filhas da Caridade. Em vez de dar assistência aos doentes em casa, como tinham o costume de fazer, passaram a cuidar de um número maior deles em hospitais. O Hospital de Angers foi o primeiro a lavrar um contrato com esse objetivo, mediante autorização de Vicente de Paulo e assinado por Luísa de Marillac.

Passados 20 anos de trabalho conjunto, Luísa adoeceu e, em 1657, Vicente de Paulo disse que ela estava “como morta”, mas só veio a falecer em 15.03.1660, aos 69 anos de idade(16). Nos seus derradeiros momentos de vida, Vicente dirigiu-lhe estas palavras: “Vós partis primeiramente; se Deus perdoar meus pecados, espero vos encontrar logo no céu”. Ele faleceu seis meses depois.

Marguerite, a morte pela caridade

Marguerite Naseau, foi a primeira Filha da Caridade. Nasceu em 1594 e, desde menina, trabalhou no campo, cuidando de vacas. Queria ultrapassar o pequeno mundo em que vivia e, por isso, desejou aprender a ler e escrever, para se corresponder com meninas das aldeias vizinhas. Para tanto, comprou um cartão com as letras do alfabeto e saiu à procura de padres ou qualquer um que quisesse ensiná-la a lidar com as palavras. Foi criticada por sua afoiteza, mas o escárnio serviu apenas para lhe dar forças. E, ao conseguir quem lhe ajudasse, teve de fazer longas caminhadas, em jejum, para chegar até o professor de boa vontade.

Mais tarde, conheceu o padre Vicente de Paulo, em Villepreux e, em 19.02.1630, ele fez sua aproximação com Luísa de Marillac, tornando-se a primeira Filha da Caridade. Daí em diante, dedicou-se ao amparo dos pobres, quando corria o período inicial da Guerra dos Trinta Anos. Nas suas lides, não hesitou em oferecer sua cama para uma leprosa, mas veio a contrair a doença. Teve que se internar no Hospital Saint-Louis para se tratar, mas sua cura não se efetivou e, por isso, só pôde servir aos desamparados em breve temporada. A heroína da caridade faleceu em 24.02.1633, aos 39 anos de idade.

Monsieur Vincent, o vencedor do mal

Vicente de Paulo nasceu em 24.04.1581, em Pouy, perto de Dax, departamento de Landes. O nome Vincent significa “vencedor do malNaqueles dias, o país sofria as consequências de  conflitos, internos e externos, e passava por uma situação de desordem social generalizada. Filho dos camponeses Jean de Paul e Bertrande de Moras, passou a infância no trabalho ajudando os pais, como pastor de ovelhas e cuidador de porcos, enquanto seus irmãos mais velhos dedicavam-se à lavoura. O menino fez os primeiros estudos na escola da vila onde morava.

Casa onde nasceu São Vicente de Paulo.

Seus pais perceberam que Vicente era intelectualmente bem dotado e, quando completou quinze anos de idade, o enviaram para aperfeiçoar os estudos na escola de Dax, dirigida pelos padres franciscanos. Depois, foi cursar teologia e, para pagar o curso, tiveram que fazer o enorme sacrifício de vender dois bois. Logo, o pai faleceu e Vicente, percebendo que não podia permanecer vivendo às expensas da família, abriu uma pequena pensão, onde receberia moços de famílias nobres. Ordenou-se padre aos dezenove anos de idade, em 23.09.1600, e, em 1604, recebeu o diploma de teologia pela Universidade de Toulouse.

Ruínas do castelo dos Gondi, em Folleville. À esquerda, igreja do sermão de Vicente de Paulo.

No ano de 1605, retornando de Marselha, onde receberia uma herança, e passando por Narbonne, de navio, foi capturado por piratas tunisianos e vendido como escravo. No cativeiro, conseguiu converter ao catolicismo o seu feitor, que era um renegado, e ambos fugiram para a França, em 1607. Depois desse episódio, passou uma temporada em Roma e retornou à França, em 1608, onde recebeu orientação espiritual do padre Pierre de Bérulle. Foi então que se aproximou do rei Henrique IV e se tornou capelão da rainha Margarida. Após breve temporada na corte, no ano de 1612, foi prestar serviços religiosos em Clichy, nos arredores de Paris.

Madame Marguerite de Gondi, marquesa de Magnelais.

Em 1613, o nobre Philippe-Emmanuel de Gondi, pediu ao padre Bérulle que indicasse um preceptor para educar seus filhos e Vicente foi o escolhido, tendo aceitado a incumbência, assumindo também a função de capelão da igreja junto ao castelo da família, em Folleville(17). Por ter-se tornado mentor espiritual de madame Marguerite de Gondi, ficou ligado por fortes laços de amizade com a família. Durante os anos de 1616 e 1617, quando morou no castelo de Folleville, começou a sofrer de dores nas pernas, doença que carregou por toda vida. Na igreja de Folleville, em 25.01.1617, proferiu um sermão que ficou famoso, porque anunciava a criação da Obra da Missão − semente da congregação dos padres lazaristas −, que teve como desdobramento as inúmeras ações em benefício dos pobres, doentes e desamparados.

Nos tempos da guerra da França contra a Espanha (1635-1659) e a guerra civil (1648 e 1653), o país ficou em estado de caos e miséria. Durante os momentos de crise, Vicente promoveu ações para aliviar o sofrimento da população pobre. Ao mesmo tempo, levantou recursos para socorrer as vítimas de conflitos religiosos que grassavam na Europa. Ainda enviou missionários para trabalharem em prol dos marginalizados no exterior.

Igreja Saint-Jacques − le Majeur − e Saint-Jean-Baptiste, de Folleville.

A fome que grassava na França e na Europa, levava os pais a exporem os filhos, quando não mais podiam alimentá-los, na esperança de que alguma boa alma os acolhesse. Vicente ficara chocado, ao presenciar a maneira degradante como os adultos tratavam as crianças e escandalizara-se ao saber que muitos abandonados eram vendidos por poucas moedas ou, simplesmente, dados de graça. Era comum inúmeras destas crianças ficarem à disposição dos interessados, nas portas das igrejas. Era frequente utilizá-las para mamar em mulheres paridas, necessitadas de retirar o leite corrompido.

Depois de uma vida de luta em prol dos necessitados, Vicente viu chegar o dia 26.09.1660, quando assistiu missa e comungou na capela de Saint-Lazare. Estava muito doente e retornou ao seu leito. Passou a noite em doce tranquilidade, mas repetia, a todo instante, as palavras do Livro dos Salmos: “Deus, in adjutorium meum intende. Domine, ad adjuvandum me festina.” (Ó Deus, vinde em meu auxílio. Ó Senhor, apressa-te em ajudar-me.)

Às 4 h 45 min, da madrugada do dia 27, sereno e sem esforço, veio a falecer, “como uma lâmpada que se apaga vagarosamente, quanto lhe falta o óleo”, aos 79 de idade. Em retribuição ao seu modo gentil e humilde, seus contemporâneos gostavam de chamá-lo de monsieur Vincent. (18)

Por Eduardo de Paula

——— Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

Assista ao filme A VIDA DE SÃO VICENTE DE PAULO − Monsieur Vincent − longa metragem.

Clique na flecha.

———

(1) Cinosarges – Estádio localizado fora dos muros da antiga Atenas, em frente ao templo de Vênus.

(2) JUSTINO DE ROMA, São − (* c. 100, Siquem, Samaria, Terra Santa / + c. 165, em Roma, decapitado). Teólogo, autor das Apologias. Fundou uma escola em Roma, onde iniciava os alunos na nascente religião católica. 

(3) JUSTINIANO, Flávio Pedro Sabácio – Imperador bizantino (Taurésio, *483 / Constantinopla, +565). Foi proclamado imperador, em 527, e tornou conhecido por Justino I. O Império Bizantino brilhou durante seu governo. 

(4) LEGOYT, M. A. – “La France et l’etranger”– Ed. Veuve Berger-Levraut et fils, Paris / Strasbourg, 1865, p. 64 e 65.

(5) Trier – Mais antiga cidade alemã, às margens do rio Mosela. Denominada Augusta Treverorum, em latim, e Trèves, em francês.

(6) CHEVÉ, Charles-François – “Dictionnaire des bienfaits et beautés du christianisme”, J. P. Migne éditeur, Paris, 1856.

(7) A trajetória das Vicentinas, no Brasil, começou pelas mãos do bispo de Mariana, dom Antônio Ferreira Viçoso (*1787 +1875) − retrato ao lado −, responsável pelo convite à sede da congregação, em Paris. Partindo da França e depois de dois meses e dez dias de viagem de navio, em 09.01.1849, chegaram as doze primeiras Vicentinas ao Rio de Janeiro. De lá, retomaram a viagem a cavalo e foram para Mariana (MG), percorrendo trilhas em uma região montanhosa. Sua missão: cuidar de meninas órfãs e fundar a primeira escola feminina do estado. Instalaram-se na Casa da Providência e, enquanto aprendiam português, visitavam pobres e doentes. Aquele lugar foi o berço das Filhas da Caridade, onde foi, posteriormente, criado o Colégio Providência. // A professora Hebe Maria Rola Santos, formou-se normalista em 1949, no colégio. E lembra-se do uniforme: saia de casimira, bem abaixo do joelho, blusa de fustão branco, sapatos de verniz preto e meia de três quartos, num “sol de rachar, a gente de meião e ninguém reclamava”. Conta que as internas só saíam à rua acompanhadas por uma freira ou em grupos e eram admiradas pela população. “As alunas eram o charme de Mariana na época”. A ex-aluna avalia que o colégio formava “para o lar”, ensinando, por exemplo, a fazer sabão e creme dental, além das aulas de trabalhos manuais e economia doméstica. 

(8) FIORIO, Maria Teresa – “S. Salvatore in xenodochio, in Le chiese di Milano”, Electa, Milano, 1985, p. 230

(9)(10) SARMENTO, Ignacio Pizarro de Moraes (Chaves *22.11. 1807 / Chaves +17.05.1870), escritor e poeta português. Fonte da referência: “O Engeitado”, 1846, p. 82.

(11) Arquivo Público Mineiro, SP PP 1/33, cx. 228, pacote 10, 13.05.1829.

(12) ABREU, Anastácio Symphronio de – Médico, natural de Sabará, estudou na Universidade de Erlagen, Alemanha. Vide o Post: “Dois Anastácios”.

(13) PASSOS, Zoroastro Vianna − “Notícia Histórica da Santa Casa de Sabará”, Imprensa Oficial de Minas Gerais, 1929, p.149 a 153:  “Regulamento para os expostos do Município de Sabará”.

(14) “… A Câmara Municipal desta cidade resolveu na sessão de 18 de maio próximo passado que a resolução de 23 de abril de 1830, […] que nesse hospital se estabeleça a Roda de Expostos como declara a referida resolução afim de que a Câmara passa então dar as providências […] Cidade de Ouro Preto de junho de 1836. Ilustríssimos Senhores Provedor e mais oficiais mesários da Santa Casa o presidente Antonio Ribeiro Fernandes / O Secretário Candido Oliveira Jacques” —— “… A Câmara Municipal desta cidade resolveu na sessão ordinária de 2 do corrente que […] não tendo-se podido levar afeito a Roda de Expostos […] O presidente José Baptista de Figueiredo – O Secretário Candido Oliveira Jacques.”Câmara Municipal de Ouro Preto: 308, rolo 65, fl. 1.

(15) “Mademoiselle” e “Madame” são formas de tratamento usadas no francês. No passado, a plebeia era uma «demoiselle» e a mulher da nobreza uma «dame». Assim, cabia tratar a mulher do povo por «Mademoiselle» e uma nobre por «Madame». Após a revolução francesa, generalizou-se o tratamento «mademoiselle» e «madame» às mulheres de qualquer condição social, a primeira forma para as senhoritas e a segunda para mulheres maduras ou casadas.

(16) Santa Luísa de Marillac foi canonizada por Pio XI, em 1934. Desde 1815, seu corpo repousa na capela das Filhas da Caridade, onde a Virgem apareceu à Santa Catarina Labouré. / Capela da Medalha Miraculosa, rue du Bac, 140, 7ème arrondissement, Paris. 

(17) Folleville − Comuna francesa, situada no departamento de Somme, na região da Picardia.

(18) São Vicente de Paulo foi canonizado em 17.06.1737, por Clemente XII. Seu corpo repousa na Capela de São Vicente de Paulo, rue de Sèvres, 95, 6ème arrondissement, Paris. // Em Portugal, traduziram o patronímico de Saint-Vincent-de-Paul por “Paula”, em vez de “Paulo”. Durante muito tempo, também no Brasil, prosseguiram com o equívoco, tratando o santo pelo nome errado − São Vicente de Paula − até que veio a ser corrigido. // As festas de São Vicente de Paulo são em 19 de julho.

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4 Comentários »

  1. Eduardo:
    Muito rica sua pesquisa sobre os comportamentos humanos. Emocionante! Muito bom este Post.
    Maria Marilda

    Comentário por MARIA MARILDA PINTO CORREA — 01/11/2012 @ 11:43 am | Responder

    • Marilda: Essa história mostra a maldade humana e nos aponta o caminho do bem. É um aprendizado para todos.
      Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/11/2012 @ 12:07 pm | Responder

  2. Magnífico, Eduardo!
    Trabalho edificante. Estou divulgando entre os “vicentinos” de Sabará, pelo conteúdo histórico da SSVP e pela citação do eminente médico sabarense Anastácio Symphronio de Abreu, personalidade marcante (ignorada aqui) muito bem descrita em “Dois Anastácios”.
    Muito agradecido.

    Comentário por José Celso da Silva Pyramo — 01/11/2012 @ 7:02 pm | Responder

    • José Celso:
      Agradeço seu estímulo e o empenho em divulgar essa história. São Vicente de Paulo é meu santo e meu herói. Essa gente que colaborou com sua obra também é admirável.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/11/2012 @ 7:41 pm | Responder


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