Sumidoiro's Blog

01/02/2013

OS OLHARES DE BRANDT

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:27 am

♦ Na Lagoa Santa, um pintor de dois estilos

Num sábado, 17 de outubro de 1835, dois europeus adentraram a pequena vila de Lagoa Santa (MG). Eram o cientista Peter Wilhelm Lund − dinamarquês −, e o pintor Peter Andreas Brandt − norueguês. Tão logo apearam dos cavalos, Lund dirigiu-se a Brandt e exclamou: “Aqui, sim! Aqui está bom para se viver!” O companheiro tinha sua opinião, um tanto contraditória, que manifestou mais tarde em carta a um político norueguês(1): “A bela natureza que me cerca não tem nenhum atrativo, apesar disso, apresenta riqueza e esplendor, de tal ordem, que não podemos sequer imaginar em nosso país…” Os dois fixaram residência na vila e trabalharam juntos até o falecimento de Brandt. Lund queria fazer ciência, Brandt fazer fortuna, esses foram seus principais objetivos. Vamos falar um pouco do artista que tinha dois olhares para ver o mundo.

Post - Brandt na molduraBrandt por Brandt copiando inscrições no Brasil. / Retrato do pintor na Noruega.

Brandt nasceu em 14.06.1792, na cidade de Trondhjein, localizada à beira-mar, junto à foz do rio Nid. Fundada em 997, nos primeiros tempos foi capital do império viking e posto comercial, com o nome de Kaupangen, até o ano de 1217. Depois, chamou-se Nidaros, até receber a denominação atual, em 01.01.1838. Hoje, é a terceira cidade mais populosa do país. Até o ano de 1814, a Noruega pertencera ao reino da Dinamarca e, após a independência, travou inúmeras lutas pela existência. 

O biografado casou-se, em 1814, e gerou três filhos. Teve formação de escriturário, foi editor e lecionou desenho técnico. Morou também em Bergen, onde estabeleceu-se como comerciante. A vocação artística manifestou-se cedo, mas sem oportunidade de cursar belas-artes ou mesmo frequentar grandes museus, buscou o aprendizado no auto-didatismo. Sua história está precariamente documentada e com muita interpretação equivocada. Alguns dos seus biógrafos lhe atribuíram, como artista, uma competência exagerada.

Ousadamente e com dinheiro emprestado, Brandt enveredou-se no ramo da imprensa, fundando o jornal “Finmarkens Amtstidende”, em 02.01.1832, de vida curta; depois, em 1835, teve outra experiência, lançando a revista “Skilling-Magazin”, que ficou pouco tempo em suas mãos. Essas duas tentativas de fazer fortuna, num país devastado por crises políticas e com a economia frágil, mostraram-se infrutíferas e deixaram-no irremediavelmente endividado. Daí, sem condições de honrar os compromissos, Brandt resolveu tentar a sorte noutro lugar, ou melhor dizendo, fugir para a América do Sul.

Post - Lagoa Santa & AlmanakLagoa Santa, em 1842 (Heaton & Resburg) e Brandt comerciante de molhados (no Almanak de 1864).

Desde que chegara ao Rio de Janeiro, na virada do ano de 1834, aos 42 anos de idade, Brandt desejou conhecer Lund. O primeiro contato entre os dois ocorreu no mesmo ano, na vila de Curvelo (MG), onde Brandt estava trabalhando com um coletor de ossos e explorador de salitre, o dinamarquês Peter Claussen. Convencido por Lund, deu uma pausa nos seus planos de fazer fortuna, aceitando auxiliá-lo como desenhista científico − com boa remuneração, sem dúvida − e se transferiram para Lagoa Santa. Apenas os conhecimentos de desenho técnico não seriam suficientes para a empreitada assumida, porque não dominava satisfatoriamente a especialidade. Teria, então, de enfrentar desafios.

O jornal Finmarkens Amtstidende e a revista Skilling-Magazin.

Pelos variados serviços que o auxiliar lhe prestava, Lund ficara muito satisfeito, como manifestou em carta a um irmão:

“… o destino adicionou essa pessoa ao início de minha […] trilha por aqui e como eu prezo infinitamente por esse tesouro da providência, que em tão alto grau promoveu meu trabalho e tornou minha estadia aqui suportável. Eu tive tanta sorte de encontrar nele não somente um artista, mas também um colaborador, verdadeiro e perseverante, em todas as minhas atividades. Ele passa a limpo os meus tratados (pois ele possui uma excelente caligrafia), e serve como leitor quando estou cansado do trabalho, me acompanha em minhas viagens e é o mais zeloso trabalhador nas grutas, cuida de mim quando estou doente e assume a função de empregado, servindo as visitas, quando tenho hóspedes em casa; em resumo, ele se sacrifica da manhã até à noite, quando fico doente. Dia e noite a meu serviço e tudo isso com uma boa vontade que não me canso de apreciar.”

Mas o desejo de ganhar dinheiro persistia e, em certo momento, Brandt inventou de fabricar vinho de frutas na pequena vila, cuja população girava em torno de três mil e quinhentos habitantes. Na sua perene falta de habilidade para os negócios, esqueceu-se de que faltaria freguesia para adquirir o produto na pequena “venda de molhados”, instalada junto à sua residência(2). No ano de 1860, o fabriqueiro − encarregado das finanças da paróquia − pagou-lhe a importância de 6$750 réis, por uma encomenda de serviço de encadernação dos livros da igreja(3). Fez também investimentos em outros maus negócios, usando parte do salário que ganhava de Lund, repetindo fracassos financeiros que o acompanharam por toda vida. E, para aumentar os seus tormentos, a família que largou na Noruega vivia pedindo dinheiro.

Post - Brandt encadernaçãoContabilidade do pagamento a Brandt, por um serviço de encadernação, em 16.07.1860.

OS DESENHOS

Brandt fez um dos seus primeiros desenhos, no Brasil, ao percorrer o chamado Caminho Novo, que levava a Minas Gerais. Foi quando conheceu a sede da fazenda Samambaia, em Petrópolis (RJ), que também teve o nome de Belmonte. Era um ponto de pernoite, situado entre morros e junto a um pequeno córrego, na subida da serra. Lugar muito aprazível, no meio de um bosque exuberante. A edificação, ainda existente − junto a um parque ecológico −, funciona como “hostel”, sendo tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Brandt retratou o imponente casarão toscamente, com pobreza de detalhes, e cometeu nítidos erros de perspectiva (abaixo).

Post - SamambaiaFazenda Samambaia, em Petrópolis (por Brandt, detalhe).

Nos seus desenhos, Brandt costumava aplicar aguadas para produzir algum destaque. Para pintar, preparava as próprias tintas a partir de poucos pigmentos, usando a técnica da têmpera ou guache que, afinal, é mais ou menos a mesma coisa(4). Sua palheta limitava-se aos matizes básicos − amarelo, azul e vermelho − e seus desdobramentos por misturas, o que, inevitavelmente, resultava num colorido pobre. Além da carência instrumental, a limitada bagagem de conhecimentos comprometia sua desenvoltura artística.

Post - MonocromáticaLagoa do Sumidouro, versão em sépia (por Brandt, detalhe).

Nas trilhas dessa suspeita, vale fazer um passeio investigativo na imaginação, mas com pouca fantasia:

“Dois amigos saíram para uma nova jornada no Sumidouro, distante seis léguas de Lagoa Santa. As montarias eram um cavalo baio e o outro castanho. Usavam chapéus de aba larga, para se protegerem do sol, calçavam botas de canos longos e vestiam agasalhos de mangas compridas. No Sumidouro há um exército de minúsculos inimigos, que não perdoam os forasteiros. São os borrachudos, carrapatos, bichos-de-pés e outras más companhias. Os cavaleiros estavam capitaneados pelo cachorro de estimação, que avançava à frente, abrindo caminho e latindo, ora de alegria, ora alertando os viajantes.

Na chegada ao querido Sumidouro, repetiu-se um momento de alegria e entusiasmo, quando avistaram o maciço da lapa refletindo-se nas águas serenas. A cena merecia ser eternizada no papel e Brandt tomou a iniciativa de registrá-la. Duas pinturas a têmpera foram feitas e presenteadas ao amigo Lund que, entusiasmado, cuidou de guardá-las com carinho.”

Post - Lagoa SumidouroLagoa do Sumidouro, versão colorida (Por Brandt, detalhe).

Existe outra versão da mesma cena, que tentaram atribuir também a Brandt, mas trata-se de um croqui aperfeiçoado das duas anteriores, que teve a finalidade de ser publicado em um livro do botânico Eugen Warming(5). Ele esteve em Lagoa Santa, após o falecimento de Brandt, em 1862, para substituí-lo, tendo sido presenteado por Lund com os dois originais. A cópia, certamente feita por Warming, serviria de modelo para a produção de uma matriz. Havia artistas que faziam esse tipo de transferência e que eram especializados nos processos de impressão da xilografia, gravura em metal ou litografia. (6)

Post - Ponta-secaTrês árvores, em técnica de gravura em metal (por Rembrandt, sec. XVII – detalhe).

No referido croqui, há muita desenvoltura técnica quanto à noção de profundidade, proporções, detalhes e liberdade gestual, ou seja, tudo denota competência do autor. Na casinha à esquerda, os traços do telhado mostram a cobertura com a superfície ligeiramente curva, tal e qual fazem os bons desenhistas. Os dois cavaleiros e as montarias estão representados com muita naturalidade. A caligrafia de Warming também está presente, fazendo algumas indicações, como a palavra “sandbords” (bancos de areia). Houve quem dissesse que o croqui seria de Brandt e que Warming seria um usurpador do trabalho alheio, mas tal afirmativa é um enorme exagero.

Post - des Warming Sumidouro 2Gesto espontâneo e traço competente no croqui (Warming?) para reprodução (detalhe).

Antes de embarcar para o Brasil, Warming, que já tinha bom domínio de desenho, preparou-se para a nova missão e fez um curso de aperfeiçoamento com o desenhista botânico Theodor Bayer(7). Na introdução do livro(8) que depois publicou − Lagoa Santa −, teceu alguns comentários:

“… a 17 de fevereiro de 1863, embarcava eu, em Copenhagen […] em um brigue dinamarquês para o Rio, onde cheguei a 27 de abril. […] parti a 28 de maio […] e, depois de 42 dias de viagem, enxerguei, pela primeira vez, aquele inolvidável lugarzinho, onde passei tão felizes e despreocupados anos.[…] Permaneci em Lagoa Santa até o dia 24 de abril de 1866 …”

Durante os três anos que permaneceu em Lagoa Santa, ele fez vários desenhos e Lund lhe repassou outros de Brandt, que ficaram em sua posse. Quando foram transferidos para a Dinamarca e arquivados, os deixaram com precária identificação. Daí, surgiram muitas confusões sobre as diversas autorias.

Post - Desenho WarmingCerrado, próximo a Lagoa Santa, copiado de esboço por Warming (gravura em metal).

O PROFESSOR 

É evidente que Brandt não possuía os conhecimentos necessários para fazer desenho científico e, por isso, precisou de auxílio. E foi encontrá-lo em Lund, que sabia pintar animais e insetos com satisfatório domínio técnico. Esta habilidade era importante para os naturalistas e Lund, ainda nos tempos da infância, já começara a se adestrar na arte, copiando os desenhos das obras de Buffon(9). Tinha, portanto, alguma experiência e é quase certo que orientou Brandt.

Post - Lund e besourosBesouros e Lund, o autor.

Devidamente instruído, Brandt teve como desenhar os ossos da coleção de Lund e, sem dúvida, conseguiu resultados admiráveis. Na sua tarefa, tendo os pequenos modelos ao alcance da mão, podia fazer medições precisas e ainda contava com o auxílio de uma lupa potente. Era muito habilidoso com o lápis e sabia fazer aguadas, conseguindo representar, com fidelidade, luz, sombra e variações tonais.

Post - Crânios & OlharFiguras do crânio de um rato-de-espinho, captadas pelos olhares de Brandt, com o auxílio de uma lupa.

LÁ E CÁ

Quando viveu sua aventura sul-americana, Brandt era um homem maduro e com fortes raízes na sua terra. Especialmente porque lá deixou mulher, filhos e negócios pendentes. Do lado de cá, no Brasil, com preocupações de toda sorte e morrendo de saudades, vivia atormentado, como demonstrou numa carta a um amigo:

“… Em alguns dias, viajo com esses senhores por seis milhas, daqui até as grutas, o que poderia ser demasiado interessante se eu não estivesse acometido da mais dolorosa saudade de casa, significativamente originada por saber que minha esposa e minhas crianças estão na mais desamparada situação…”

Post - Trondhjem portoVista do porto em Trondhjein e os armazéns com telhados típicos.

De fato, não havia como esquecer seus entes queridos e especialmente Trondhjein, lugar onde nasceu e viveu por longos anos. Por isso, tinha repetidas crises de depressão e mau humor, como certa feita escreveu Lund:

“… o rabugento desprezo que passou a ser uma característica tão saliente na sua visão de vida e que, frequentemente, me deixava preocupado por uma outra ação desesperada …”

Esse homem que perdera o chão, professava a religião luterana, e tinha também um grande temor, era o de ser enterrado no cemitério da igreja católica de Nossa Senhora da Saúde da Lagoa Santa, como acontecia com a maioria dos habitantes da vila. Para aliviar mais esse sofrimento, Lund teve que comprar um pequeno terreno, onde construiu um cemitério particular para o amigo. Como se vê, Brandt era um homem complicado, de fio a pavio.

Casas d’água com telhados noruegueses, na Trondhjem dos dias de hoje.

Para atenuar as saudades, Brandt criou um artifício. Decidiu replicar, em Lagoa Santa, um pedacinho da Noruega, ao qual chamou de “casa d’água”. Era uma edificação feita em madeira, inspirada na arquitetura dos armazéns do porto de Trondhjen e assentada na beira do lago. Possuía um telhado típico da terra dos vikings e um atracadouro para seu barco − o Galathea −, batizado com o mesmo nome da famosa corveta dinamarquesa, aquela que realizou três viagens científicas pelo mundo. Dizem que seu filho, Nicolai, o único que veio visitá-lo, teria ajudado no término da construção. Não seria exagero dizer que Brandt navegava na Lagoa Santa como se estivesse nas águas de um fiorde(10).

Casa d’água da Lagoa Santa: versão tropical de casa Trondhjem (por Warming).

O OLHAR PRIMITIVO

Desde sempre as paisagens da Noruega encantaram Brandt e foram por ele perpetuadas em algumas pinturas. São bucólicos registros de lugares que conheceu, nos quais sempre acrescentava gente e animais, para dar vida à paisagem. No Brasil, surpreendeu-se diante da cena tropical e, com o mesmo olhar nórdico, pintou a natureza usando sua habitual receita, o que mudou radicalmente foi a cor do céu.

Erros graves de perspectiva e proporção, especialmente na igreja (por Brandt, na Noruega – detalhe).

A dificuldade de representar profundidade nunca foi superada por Brandt, porque esta é uma questão que exige algum conhecimento de, pelo menos, duas coisas: perspectiva e cor. É importante saber que as cores também representam profundidade, o que se faz através das tonalidades. O que se vê, nas suas pinturas, é o colorido praticamente chapado, ou seja, bidimensional. Isto é próprio dos artistas primitivos e, por isso, assim deve ser denominado o seu estilo.

Nas academias de belas-artes, aprende-se que a estatura da figura humana corresponde a sete vezes e meia a altura da cabeça. Para mostrar a figura mais esguia, ensinam que se faça o desenho mais alongado, na medida de oito cabeças. Nesse sentido, Brandt foi um exagerado, pois chegou a desenhar figuras com mais de treze cabeças. Essa afronta às proporções é visível em todos os seus trabalhos livres − desenhos ou pinturas −, e não há como afirmar que fosse plenamente intencional. Tudo indica que contribuía para isso algum defeito de visão, associado naturalmente à notória falta de conhecimentos.

Post - A casa de LundFiguras desproporcionadas de cavaleiro e cavalo, e casa de Lund inclinada (por Brandt – detalhe).

Tal alongamento e inclinação das figuras faz lembrar o pintor El Grego(11) que, dizem, sofria de estrabismo e astigmatismo. Seria este mesmo motivo que levava Brandt a desenhar figuras distorcidas?  Contrariando algumas opiniões, de quem deduziu que as distorções fossem expressão de um artista revolucionário, nada indica que teria verdadeiramente esta intenção ou sequer competência para tanto. Existe uma pintura (acima) que mostra a casa de Lund, o lago e a serra, mais um cavaleiro e um caminhante, em que todos os pecados do mau pintor estão evidentes. O desenho é ruim, a falta de proporções é gritante e a técnica muito pobre. É mais uma comprovação de que o croqui da lagoa do Sumidouro não é de sua autoria.

Como se sabe, quando Brandt fazia desenho científico, contava com o auxílio de uma poderosa lente de aumento. Por outro lado, para ver ao longe, não possuía recurso adequado, então, o jeito era deixar por conta dos olhos defeituosos e usar a imaginação. E, quando assim procedia, felizmente o resultado costumava ser muito bom.

Post - Lapa VermelhaUm “sonho” de Brandt habitado por homens gigantes (detalhe).

Distantes dos ossos de Lund, os olhares distorcidos de Brandt lhe permitiam penetrar além da realidade corriqueira, sem compromissos de qualquer espécie. Então, livremente podia pintar aquilo que chamara de “riqueza e esplendor” da natureza. O resultado dessas suas incursões na imaginação assemelha-se ao dos artistas chamados primitivos, auto-didatas que não se prendem aos cânones acadêmicos. Esse estilo, mais que evidente, não diminui o valor estético das obras de Brandt, porque nenhuma arte impõe semelhança com a realidade, muito antes pelo contrário. Por isso é que o pintor merece perdão, pelos pecados cometidos com o pincel.

Post - O sonhoO sonho de Rousseau (“Le rêve”, detalhe).

Uma das pinturas de Brandt, que retrata Lund escavando, faz lembrar Henri Rousseau(12), um dos mestres do gênero primitivo ou ingênuo, “naïf”, como dizem os franceses. Comparando-a com a outra, denominada “Le rêve”, do autor francês, são percebidas as similitudes dos olhares de ambos. Embora tenham vivido em diferentes épocas, os dois artistas têm muito em comum, embora não se falasse em pintura primitiva nos tempos de Brandt. O devaneio do pintor da Lagoa Santa aconteceu muito tempo antes, quando Lund, no meio de uma revoada de borboletas, revolvia os mistérios da lapa, sendo observado por ratos-de-espinho.

Post - Ratos de espinhoOs segredos da lapa revelados pelo olhar primitivo de Brandt (detalhe).

O termo “naïf” foi usado, pela primeira vez, justamente para nomear esse estilo de Rousseau, que fugia dos padrões acadêmicos e mesmo da corrente revolucionária da época, o pós-impressionismo. A palavra serviu para designar esse gênero de pintura que sempre existiu, mas não tinha nome. Em 1870, o poeta Arthur Rimbaud, num raro momento de inspiração, usou-a para debochar de uma pintura que lhe pareceu mal feita. Na gozação, conseguiu fazer bem feitos os seus versos(13):

NO CABARÉ VERDE, cinco da tarde

Oitavo dia já, depois de detonar as botas / Na pedreira da estrada. Cheguei em Charleroi. / — No Cabaré Verde: eu disse solta / Um pão com manteiga, e um pernil meio frio. /// Feliz da vida, estiquei as pernas sob a mesa / Verde: viajei nos olhares “naïfs” / Do papel de parede. – E foi uma beleza / Quando a moça de olhos vivos e tetas imensas /// — Essa aí não se assusta com um beijo! — / Sorrindo, trouxe o sanduíche no jeito / E o pernil num prato colorido. Só /// O pernil rosado e branco, perfumado por uma / Pitada de alho, e uma imensa loura gelada, sua espuma / Dourada por um raio perdido de sol.

Como se vê, a revelação do “mal feito” tocou fundo a alma de Rimbaudt. Então, para coroar toda essa história, fica faltando aparecer alguém, que saiba penetrar nos olhares “naïfs” de Brandt e deles tirar outro poema.

Texto e arte por Eduardo de Paula

Post - Rousseau & El Greco & Rimbaud

Rousseau, El Greco e Rimbaud.

(1) BIRCH-REICHENWALD, Christian − Membro do parlamento, governador, ministro e prefeito, na Noruega (*04.01.1814 +08.07.1891).

(2) Almanak Administrativo de Minas Gerais, ano 1864 − “Comerciantes da Freguezia de Nossa Senhora da Saude da Lagoa Santa”, p. 192. // Ditos de Molhados (bebidas): Honorato Francisco Pereira Braga, José Marques Ferreira, Joaquim da Fonseca Ferreira, Luiz Gustavo Fullão (Foulon), Pedro André Branth (Peter Andreas Brandt) / Ditos de gêneros do país: Americo José Coutinho da Fonseca, Antonio Pereira de Carvalho, Antonio Porfírio Baptista, Antonio de Souza Ferreira (Lagoinha), Bernardino Rodrigues de Faria Sudré, Felisberto da Costa Vianna, Felisberto José de Moura, Ignacia Lucianna Ritta, João Peixoto de Mello, Joaquim Antonio Siuve, Joaquim Pereira de Mattos, Joaquim de Oliveira e Silva, Joaquim Soares Fagundes, Joaquim Francisco da Silva, Joaquim de Souza Menezes, Luiz Alves dos Santos, Luiz Cirilo dos Santos, Marcianno Teixeira da Costa (Confins), Pedro José de Araujo Valle, Pedro Pereira de Carvalho, Zeferino Alves de Deos (Lagoinha). // Observação – As informações não foram atualizadas, porque Brandt falecera em 1862.

(3) Arquivo da Cúria Metropolitana de Belo Horizonte − Documentos Eclesiásticos, Lagoa Santa, 1858/71.

(4)A têmpera é uma técnica de pintura, cuja tinta é preparada com pigmentos ou corantes, mais um aglutinante, que pode ser uma emulsão de água e gema de ovo, ovo inteiro, ou somente a clara. A técnica têmpera foi largamente utilizada na arte italiana, nos séculos XIV e XV, tanto em afrescos como em painéis de madeira. A indústria de tintas artísticas adotou o nome para designar um produto semelhante, a “têmpera guache”, mas que usa outro aglutinante. De fato, o guache se origina do italiano “guazzo”, cujo aglutinante é, tradicionalmente, a goma-arábica.

(5) WARMING, Eugenius (Eugen) Bülow − Biólogo, desenhista e fotógrafo dinamarquês (*03.11.1841 †02.04.1924).

(6) São técnicas de gravura: a xilografia, em madeira; a gravura em metal − geralmente chapa de cobre ou zinco −, nas modalidades, da ponta-seca, buril e água-forte (em ácido); e a litografia, em pedra calcária. Essas técnicas ainda são usadas com finalidade artística.

(7) BAYER, Johan Christian Theodor – Pintor naturalista dinamarquês (*06.11.1817  †28.04.1861) 

(8) WARMING, Eugenio − Tradução brasileira fac-similar: “Lagoa Santa e a Vegetação de cerrados brasileiros”, Editora Itatiaia, 1973, p. 10 e 11. (Original: “Lagoa Santa et Bidrag til den biologiske Plantegeografi”, Eugenius (Eugen) Bülow Warming, 1892).

(9) LECLERC, Georges-Louis (Comte de Buffon) − Naturalista, biólogo, matemático e autor francês (*07.09.7.1707 †6.04.1788). Sua obra “História Natural”, com ilustrações riquíssimas, é considerada uma das mais completas do gênero já publicadas.

(10) Os fiordes situam-se, principalmente, na costa oeste da península escandinava. São grandes entradas do mar entre montanhas rochosas.

(11) THEOTOKÓPOULOS, Doménikos (El Greco) – Pintor, escultor e arquiteto grego que fez carreira na Espanha (Creta, *1541 / Toledo, †07.04.1614).

(12) ROUSSEAU, Henri − Conhecido também como “le douanier” (o aduaneiro), por ter trabalhado como inspector de alfândega (Laval, *21.05.1844 / Paris, †02.09.1910).

(13) RIMBAUD, Arthur – (Charleville, *20.10.1854 / Marseille, †10.11.1891) – “No cabaré verde” – Adaptado de tradução de Rodrigo Garcia Lopes.  // Original: “Au cabaret-vert, cinq heures du soir – outubro – 1870 // Depuis huit jours, j’avais déchiré mes bottines / Aux cailloux des chemins. J’entrais à Charleroi. / – Au Cabaret-Vert: je demandai des tartines / Du beurre et du jambon qui fût à moitié froid. /// Bienheureux, j’allongeai les jambes sous la table / Verte: je contemplai les sujets très naïfs / De la tapisserie. – Et ce fut adorable, / Quand la fille aux tétons énormes, aux yeux vifs, /// – Celle-là, ce n’est pas un baiser qui l’épeure ! – / Rieuse, m’apporta des tartines de beurre, / Du jambon tiède, dans un plat colorié, /// Du jambon rose et blanc parfumé d’une gousse / D’ail, – et m’emplit la chope immense, avec sa mousse / Que dorait un rayon de soleil arriéré.”

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8 Comentários »

  1. É sempre um prazer ler os seus posts no primeiro dia do mês. Continue o belo trabalho, e conte comigo se precisar de ajuda em alguma pesquisa.

    Comentário por João Vianna — 01/02/2013 @ 9:28 am | Responder

    • João:
      Leitores entusiasmados como você me animam a escrever. Quero contar com sua colaboração e agradeço as generosas palavras.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/02/2013 @ 11:40 am | Responder

  2. Eduardo de Paula, parabéns:
    Neste seu Post, encontrei novidades que nenhum lagoano conheceu. Excelente pesquisa, evidenciando nomes de pessoas que fizeram o arraial de Lagoa Santa. Ótimo este Post, resultado de trabalho sério. Lagoa Santa agradece emocionada.
    Maria Marilda Pinto Correia – Cidadã de Lagoa Santa.

    Comentário por maria marildapinto correia — 01/02/2013 @ 9:48 am | Responder

    • Marilda:
      Você sabe que meu coração se aquece, quando penso em Lagoa Santa.
      Agradeço suas palavras muito gentis.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/02/2013 @ 11:42 am | Responder

  3. Eduardo:
    Trabalho excelente de pesquisador e de artista observador. Revelou um lado desconhecido de Brandt e apontou suas fragilidades técnicas como desenhista. Muito apropriada a comparação com os “naïfs”. Seus desenhos ajudam-nos a penetrar no mundo de Lund, nas cavernas da região e na beleza bucólica da Lagoa Santa do passado. Sei que é muito admirada por todos aqueles que tiveram e têm o privilégio de conhecê-la.
    Uma leitora agradecida, Maria Rosa Claussen Lagrange.

    Comentário por Maria Rosa Claussen Lagrange — 01/02/2013 @ 5:42 pm | Responder

    • Maria Rosa:
      Suas simpáticas palavras dão-me ânimo. Ao escrever esses textos, estou descobrindo histórias de Minas Gerais que têm me empolgado. Pretendo continuar.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/02/2013 @ 7:37 pm | Responder

  4. Caro Eduardo,
    Herbert Richers Jnr, ator, produtor e pesquisador me passou seu “blog”. Alíás, gostaria de parabenizá-lo pela qualidade de seu trabalho. Estou lhe escrevendo para informar que a fazenda Samambaia está ativa e cada vez mais bonita. Sou o administrador e último herdeiro de Antônio Leite Garcia, proprietário da antiga sesmaria. Após 40 anos de ausência, regressei à terra natal para recuperar o patrimônio da família. Gostaria muito de obter sua ajuda no resgate da história da fazenda Samambaia. Cordiais saudações desde Petrópolis/RJ/ Jean-Charles Barreto Góes, administrador

    Comentário por Jean Charles Barreto Góes — 03/03/2015 @ 6:39 pm | Responder

    • Jean-Charles:
      Obrigado pelo gentil comentário. Vou entrar em contato através do seu endereço de email.
      Cordialmente, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/03/2015 @ 4:42 pm | Responder


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