Sumidoiro's Blog

01/04/2013

PERFIL DE CÂNDIDO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 6:22 am

♦ Um filho do Sumidouro

Cândido nasceu em 1822 e foi batizado(1) na capela de Nossa Senhora do Rosário da Quinta do Sumidouro, filial da paróquia de Lagoa Santa, no dia 29 de abril. Filho de Josefa Fernandes de Azevedo e Antônio de Souza Vianna. Seus avós paternos são Thereza Moreira e Bernardo de Souza Vianna, patriarca de numerosa família mineira. A convite do irmão, Felicíssimo de Souza Vianna, transferiu-se para a vila de Curvelo onde fez a sua vida, tornando-se um dos cidadãos mais notáveis do lugar. Cândido teve convivência muito próxima com Felicíssimo, dez anos mais velho, de quem recebeu muita orientação e influência. A vida de ambos se entrelaçou.

Post - Cândido batizadoArquivo da Cúria Metropolitana de Belo Horizonte: Batismos de Santa Luzia, 1818/25, fl. 93.

Um pequeno relato(2), de Augusto de Vianna do Castello, filho de Felicíssimo:

“… Dos muitos tios paternos pouco tenho a dizer, porque pouco os frequentei e estava no colégio, fora de Curvelo, quando morreram o tio Cândido (de Souza Vianna) e o tio João (João Francisco de Assis de Souza Vianna). Do primeiro guardei recordações mais numerosas e mais vivas porque, grande amigo do meu pai, tinha o hábito a que não faltava de aparecer todas as manhãs, para tomar chá, entre 5 para 6 horas.

Somente chuvas mais fortes o impediam de cumprir esse ritual. Conversavam um pouco e, se o tempo era bom, saiam a passeio pela cidade, muito pequena então, pois ia da ponte do (ribeirão) Santo Antônio ao largo da Igreja Nova. O tio Cândido era pouco loquaz, ouvia mais do que falava. Permanecia assentado, os braços descidos num ora noutro sentido, pontuando a conversa com apartes que não variavam: ‘pois é’, ‘sim senhor’. Usava, o ano todo, roupa de brim pardo, de linho, fizesse frio ou calor.

Eu o observava, com curiosidade infantil, porque muito me impressionara o retrato a óleo, pintado pelo Carlo Penuti(3), que ele tinha na sala de visitas, fardado de coronel da Guarda Nacional, da qual era comandante na comarca de Paraopeba.

Post - Cândida & Cândido 1Maria Cândida Pereira da Costa e seu marido coronel Cândido de Souza Vianna (por Carlo Penuti).

Deixando a atividade comercial, na qual adquiriu fortuna maior do que a dos irmãos, fez-se capitalista. Disse-me o coronel Tertuliano Pena(4), de quem era amigo, ser tio Cândido um capitalista típico: dinheiro não lhe ficava parado na gaveta sem render juros. Ao aproximar-se a entrada de alguma quantia, cuidava de procurar para ela novo tomador. Abominava a lavoura, a pecuária e o comércio de gado, muito em voga já naquela época. Dizia que não era louco para implantar quatro pés em uma nota de 10 mil. Era esse o preço de um boieco e não gostaria de vê-lo fugir e desaparecer, furtado ou picado de cobra.”

Continuando, Vianna do Castello, chama atenção para o perfil político do seu tio:

“Nunca tomou parte ativa na política local, limitando-se a apoiar e sustentar meu pai. Educou todos os filhos − formados em medicina −, com exceção do Candinho − major Cândido José de Azevedo Vianna − que, por motivo de saúde, teve de abandonar os estudos no segundo ano do curso médico, e o Tibúrcio (Tibúrcio Augusto), graduado em farmácia na escola de Ouro Preto. Dos filhos, o doutor Antonico (Antônio) é o que mais se lhe parece, no físico e na moral, com a diferença de que tio Cândido era baixo e cheio de corpo.

Post - Curvelo colorUma rua da Curvelo antiga, onde os irmãos Felicíssimo e Cândido passeavam juntos.

Na mesma correspondência, se referiu a uma investida maliciosa que foi publicada em um livro − no ano de 1940 −, fantasiando sobre um suposto divisionismo entre os Viannas e os Mascarenhas. Esta é sua versão, acredite quem quiser:

“… Vou referir-me a um fato, relatado […], de modo burlesco, para honra e louvor do Caetano Mascarenhas(5) e para que não se ridicularize o tio Cândido. Conta o autor dessa obra que o Caetano, no período da guerra do Paraguai, serviu em Curvelo, como ajudante de ordens do comandante da Guarda Nacional − Cândido de Souza Vianna −, que o fazia de criado para dar recados e até para ajudá-lo a fardar-se. Certo dia, indignado com a humilhação, o Caetano, ao enrolar na cintura do tio Cândido a comprida faixa de seda do fardamento e passando a última volta, deu, maldosamente, tão forte arranco que ele ficou a rodar como pião.

Depois do incidente, nunca mais chamou o Caetano para ajudá-lo a fardar-se e o dispensou dos baixos misteres em que o empregava. A mentira é evidente e por completo balda de verosimilhança. Um homem de mais de setenta quilos de peso não poderia rodar como pião, ao empuxo dado à última volta da faixa, a não ser que fosse um Hércules o autor da maroteira. Não duvido que o Caetano tivesse forte desejo de praticar o ato que se divulgou como realizado, mas a verdade é bem diversa.

Post - Isaura & Augusto← Isaura Mascarenhas Pinto & Augusto de Vianna do Castello

O Caetano, durante a guerra do Paraguai, foi requisitado […] por indicação do meu pai, para não ser enviado ao campo de batalha, onde o Brasil perdeu mais de 100 mil homens. Meu pai manteve excelentes relações de amizade com o velho Mascarenhas((6) − pai de Caetano − e com o coronel Domingos Diniz(7), dos quais, entre velhos papéis guardados, encontrei cartas amistosas a ele dirigidas.

Nesse tempo, já devia estar em Curvelo o dr. Pacífico que, por indicação do meu pai, foi presidente da Câmara Municipal, no período 1873/76, logo depois de finda a guerra. A família Mascarenhas tem outros e melhores títulos de benemerência, que dispensam invencionices inverossímeis e grotescas. Não fosse a intenção de achincalhar, a farsa seria insignificante e é justo o confronto. Enquanto fazia o único filho, em idade militar (João Baptista, filho de Felicíssimo), alistar-se no batalhão de Voluntários da Pátria, ao mesmo tempo requisitava o Caetano, como ajudante […], exatamente para não ir à guerra em defesa do Brasil.”

Post - FardamentoEspada e acessórios do fardamento do coronel Cândido.

Completando as palavras de Vianna do Castello, o historiador Antônio Gabriel Diniz(8) mostrou que, quando surgiram as primeiras divergências entre Viannas x Mascarenhas, o envolvido era o irmão de Caetano − chamado Pacífico − e  já haviam passados mais de três anos do fim da guerra do Paraguai. Assim disse:

“… o dr. Pacífico Gonçalves da Silva Mascarenhas(9) exerceu o cargo de presidente da Câmara, no período 01.10.1873 a 07.01.77, […] Compunham a Câmara […] o dr. Cândido Luiz Maria de Oliveira, como segundo votado, João Batista de Souza Vianna, herói do Paraguai […] Tertuliano Pena, Antônio Higino Martins do Rego e José Pereira de Carvalho. […] foi nesta ocasião que o dr. Pacífico começou a estremecer politicamente com o major Felicíssimo de Souza Vianna.”

TODOS À GUERRA

Os patriotas de Curvelo  que não foram enfrentar a guerra de fuzil e baioneta(10), dali mesmo combateram com a arma do dinheiro. Até o vigário da vila, indiretamente, decidiu romper com o quinto mandamento. A diferença de apenas um mil réis, propiciou ao monsenhor Boaventura de Nossa Senhora da Guia Bandeira a honra de capitanear a lista de doações, com o valor de cento e um mil réis. Depois vieram Felicíssimo de Souza Vianna, Cândido de Souza Vianna, José Gonçalves Mascarenhas e d. Jerônima Ribeiro de Souza, com cem mil réis cada um. Estes foram os maiores contribuintes, logo seguidos por aqueles que ofereceram cinquenta mil réis, até chegar em valores menores, cada qual dentro de suas disponibilidades.

Post - Cândido patTenente-coronel Cândido: “Decreto de 17 de janeiro de 1863 … fls. 82 do livro 7º de Patentes …”

É sabido que, na pequena comunidade, as fogueiras políticas ardiam com fortes labaredas e sempre havia algum padre atiçando o fogo. Com veemência, Vianna do Castello censurou o vigário Bandeira que, desabusadamente, se imiscuía na política. Contou que, certa feita, o religioso chegou a excomungar seu pai, tentando envenenar a opinião pública contra ele. Seu relato:

“… padre Bandeira, homem trêfego, espírito maldoso, que não escolhia armas para ferir os adversários. Certa vez, num domingo, depois da consagração, voltou-se para a assistência e proclamou, em alta voz: ‘— Perante a hóstia consagrada está excomungado o major Felicíssimo de Souza Vianna’. Processou também o dr. Cândido de Oliveira(11), por furto de uma imagem de santo. Intrigante, sem escrúpulos, agitador e turbulento. Tantas fez que meu que o meu pai o processou por calúnia e obteve sua condenação. Esta não foi executada porque o padre Bandeira apareceu e pediu perdão, que meu pai concedeu e ainda o convidou para almoçar.”

Post - Soldado & fotoCena de combate de guerrilha e soldado da guerra do Paraguai, com fuzil e baioneta.

A má fama do monsenhor Bandeira foi relembrada numa breve biografia(12), pelo padre Boaventura Leite, onde destacou seu desejo de atropelar os irmãos amigos:

“A política envolveu-o demais, prejudicando o seu ministério. Opôs-se intrangisentemente a Felicíssimo de Souza Vianna, um dos grandes homens de Curvelo no império que, por três vezes, exerceu o cargo de presidente da Câmara Municipal […] Em Curvelo, respondendo uma ação judicial contra ele, disse que a razão da denúncia ‘vem ser a sua oposição, que tem feito nas eleições de 1864 e 1865, para eleitores, vereadores e juízes de paz, contra as candidaturas de Felicíssimo […] e Cândido de Souza Vianna.’ ” 

Esse padre Bandeira, que passou feito um furacão por Curvelo, ali azucrinou “gregos e troinanos”, até que mandaram-no baixar na paróquia do vilarejo do Morro da Graça. No livro da matriz, está anotado seu último registro paroquial; foi o de um matrimônio, datado de 27 de abril de 1877, que lavrou na qualidade de vigário colado(13). Tempos depois, seu sucessor acrescentou, na mesma anotação e em seguida à sua assinatura, o seguinte: “Falleceu a 28 de Outubro de 1878, no Curvelllo (Discollou). O autor da frase irônica foi o padre José Joaquim da Silveira, demonstrando seu alívio por se ver livre da desagradável companhia(14).

Post - Amanak & Chap & EspNo Almanak Administrativo de MG (1864): parentes e amigos no poder. / Chapéu, esporas e fita da farda de Cândido.

Cândido exerceu também o cargo de Juiz de Paz de Curvelo e foi investido no posto de tenente-coronel da Guarda Nacional, aos quarenta e um anos de idade (1863). Cinco anos depois, recebeu a comenda de Cavaleiro da Ordem da Rosa (1868). Era pessoa prestimosa e querida, como se denota nas recomendações do vigário Antônio Dias Ferreira(15), em seu testamento (20.04.1855), quando escreveu:

“… Deixo forra a minha escrava Laura, parda, de idade cinco anos e dez meses, filha de uma crioula de nome Renovata, que vendi ao Senhor Cândido de Souza Vianna. […] A crioula Maria, que rematei em praça, servirá à dita Laura, dez anos, em cujo termo se lhe passará carta de liberdade e, ao dentro deste prazo, se a dita crioula tiver filhos, tão bem gozarão da liberdade – Rogo, ao Senhor Cândido de Souza Vianna e a Senhora Dona Antônia, mestra de meninas, queiram no momento do meu falecimento, fazer a esmola de puxar as duas inocentes, Laura e Maria, para debaixo de suas honrosas sombras e patrocínio. […] Rogo ao Senhor Cândido de Souza Vianna queira ser meu primeiro testamenteiro, em segundo lugar ao Senhor Sargento Mor Modesto José de Souza, em terceiro lugar, ao Senhor Coronel Jerônimo Martins do Rego […] Vila de Curvelo, vinte de Abril de mil oitocentos e cinquenta e cinco // Padre Antônio Dias Ferreira”

Post - Ordem da Rosa CândidoD. Pedro II: “… Nomear Cavalleiro da Ordem da Rosa o Tenente Coronel Candido de Souza Vianna…”

Para conhecer o perfil político de Pacífico Mascarenhas, há uma pequena descrição de Antônio Gabriel Diniz, que diz:

“Militou na política curvelana, que chegou a dominar, na qualidade de chefe respeitado e prestigioso, por mais de seis lustros […] Era liberal. Não foi republicano propagandista. Também não fora abolicionista declarado, tanto que, quando saiu de Curvelo para a corte − era deputado geral, 1886/89 − e, depois, reeleito ao congresso constituinte, 1890/93 […] Enfrentou duras lutas políticas contra o “vianismo” no município, em duas épocas diferentes. A primeira, contra o major Felicíssimo Vianna, de quem era companheiro até o ano 1887; a segunda, contra o dr. Vianna do Castello e seu irmão dr. Álvaro Vianna. […] Sentindo-se politicamente realizado, passou o manus(16) aos moços. Mas o seu prestígio não se arrefeceu na área eleitoral. Desafiado pelos “vianistas”, em 1912, à última hora concorreu […] e perdeu a eleição de vereador, por diferença mínima de votos para o candidato adversário, o dr. Antônio (Antonico) de Souza Vianna.

Em 1917, sentiu que era bom para o município o acordo político. Acabar-se-ia com as lutas partidárias, que dividiam os valores curvelanos. De fato, o discurso proferido pelo dr. Augusto de Vianna do Castello, na recepção popular que lhe fizeram os curvelanos, em 20.03.1921, comprovam os benefícios do apaziguamento político.”

Post - Largo VoluntáriosLargo (Praça) Voluntários da Pátria / 1 – Paço municipal 3 – Igreja do Rosário 4 – Fórum e cadeia 13 – Capelinhas

A GUERRA

Quando foi declarada a guerra do Paraguai, a comunidade curvelana aderiu em peso ao movimento. A Câmara Municipal − presidida por Felicíssimo de Souza Vianna − no dia 21.01.1865, abriu inscrições para os denominados Voluntários da Pátria e, dentre a população de cerca de nove mil habitantes, apresentaram-se sessenta e dois patriotas. Louvando o ato de coragem desses homens, o presidente brindou cada um com um laço de fita verde-amarela. Em seguida, todos partiram em passeata pelas ruas da vila, quando foram calorosamente aplaudidos. Ninguém foi à guerra contra a vontade e entre os destemidos soldados estavam o citado João Baptista de Souza Vianna e mais outro filho de Felicíssimo − este não foi citado por Vianna do Castello −, que assinava Octaviano Franco de Azevedo. A paternidade ocorreu na condição de homem solteiro, mas ambos foram amparados e educados da mesma maneira que os demais filhos.

Post - Pça VoluntáriosLargo dos Voluntários da Pátria, em frente à igreja do Rosário (Por P. A. Brandt, 1834/35)

Finda a guerra, a boa notícia chegou a Curvelo no dia 02.04.1870 e um grupo de cavaleiros, foi receber os vitoriosos a grande distância, ainda na estrada. No momento da entrada triunfal na vila, toda a população foi para as ruas e os fogos pipocaram no ar, em efusiva recepção. Correram muitas lágrimas, tanto de alegria pelos que estavam voltando, quanto de tristeza pelos que morreram em terra estrangeira. Até altas horas da noite, com as portas e janelas iluminadas por lanternas, prosseguiram as homenagens aos heróis. Entre eles estava João Baptista de Souza Vianna, que lutou na retirada da Laguna e voltou no posto de tenente, com três condecorações. Mais tarde, foi investido no posto de vice-presidente da Câmara Municipal de Curvelo.

Em 1871, o entorno da antiga igreja do Rosário era o lugar mais importante da vila. Em frente ao modesto templo havia um descampado, que batizaram de largo dos Voluntários da Pátria, em homenagem aos soldados heróis. Nos idos de 1906, a igreja foi demolida para construir a atual basílica de São Geraldo e, com o passar do tempo, a perda da memória histórica fez com que a população passasse a chamar o logradouro de praça da Basílica.

Post - Caetano - O velho - AntonicoCaetano e o pai, Antônio (o velho) Mascarenhas. / Doutor Antonico.

Quanto aos Viannas e os Mascarenhas, não resta dúvida de que as afinidades superaram as divergências e uma prova disso são os inúmeros casamentos entre filhos das duas famílias. O próprio Augusto de Vianna do Castello casou-se com Isaura Mascarenhas Pinto e o filho de Cândido, Antônio Vianna (dr. Antonico), casou-se com Amélia Diniz Mascarenhas.

Cândido constituiu duas famílias, primeiramente quando relacionou-se com Júlia Honorata Benício, filha do major José Fellipe Benício, com quem teve a filha Leopoldina (Dina) Auta Vianna, cuja paternidade reconheceu. Sua descendente casou-se com Antônio (Totonho) de Souza Netto e tiveram sete filhos. Sua segunda mulher, sob matrimônio, foi Maria Cândida Pereira da Costa, filha de Júlia Hypolita Pereira da Silva & José Pereira da Costa, com quem teve oito filhos − ela era irmã de Maria Sérgia Pereira da Costa, mulher do seu irmão Felicíssimo

Pelo que se sabe, seus nove filhos lhe deram vinte e sete netos. Ainda há muitas histórias para se contar.

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A Guarda Nacional

Post - Felicíssimo miniatura← Felicissimo de Souza Vianna, um dos líderes da Revolução Liberal.

Com a abdicação de d. Pedro I, o Brasil foi governado pelo sistema de regência, pois o herdeiro do trono, que mais tarde tornou-se d. Pedro II, ainda era uma criança, tinha pouco mais de cinco anos de idade. Uma das primeiras medidas dos regentes foi a criação da Guarda Nacional, em decreto do dia 18.08.1831. Durou até 1922, quando foi desmobilizada.

Seus membros eram recrutados entre os cidadãos eleitores e seus filhos, com renda anual de duzentos mil réis nas cidades grandes e cem mil réis nas comunidades menores. Esses homens não eram militares de carreira mas, depois de convocados, passavam a fazer parte do serviço ordinário, bem como da reserva da instituição. Embora fosse subordinada aos presidentes das províncias e ao ministro da justiça, a Guarda Nacional estava alicerçada no poder político local, portanto era um instrumento operado pelos mais aquinhoados. Por isso é que ficou na memória popular, de forma às vezes irônica, a figura do “coronel” da roça.

Apenas nas ocasiões de guerra esses paramilitares atuavam como auxiliares das forças regulares de primeira linha. Em 1842, quando ocorreu a Revolução Liberal(17), a Guarda de muitas comunidades se insurgiu contra o poder central, que culminou com duas batalhas, a de Lagoa Santa e a de Santa Luzia, em Minas Gerais, onde os soldados liderados por Teófilo Ottoni enfrentaram as tropas do duque de Caxias, alinhado com os conservadores. No primeiro confronto os liberais saíram vitoriosos, no segundo – Santa Luzia – os soldados de Pedro II derrotaram os liberais, encerrando o conflito com a vitória final.

Os liberais da vila de Curvelo tiveram uma participação importante na Revolução Liberal. Seus oficiais e soldados lutaram com destemor e, entre eles, estava o major Felicíssimo de Souza Vianna. Com a derrota e para não ser preso, o empolgado combatente teve que se refugiar, ficando afastado do seu domicílio durante dois anos.

Post - Caxias & SolanoA guerra do Paraguai

← Duque de Caxias / Francisco Solano López

A causa principal foi a pretensão do ditador, Francisco Solano López(18), de conquistar terras na região da bacia do Prata. Nessa guerra, A causa principal foi a pretensão do ditador, Francisco Solano López(18), de conquistar terras na região da bacia do Prata. N……Nessa guerra o Paraguai lutou contra a Tríplice Aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai. O objetivo do Paraguai era obter uma saída para o oceano Atlântico. A guerra eclodiu em novembro de 1864 e durou até 1870, quando um navio brasileiro foi aprisionado pelos paraguaios no rio Paraguai. Logo depois, em dezembro de 1864, as tropas paraguaias invadiram o estado do Mato Grosso e, no começo de 1865, fizeram o mesmo em Corrientes (Argentina) e logo em seguida no Rio Grande do Sul.

Em 01. 05.1865, Brasil, Argentina e Uruguai selaram um acordo para enfrentar o Paraguai, contando também com a ajuda da Inglaterra. No dia 11.06.1865, ocorreu um dos principais enfrentamentos, a batalha de Riachuelo. A vitória brasileira neste combate naval foi determinante para a derrota do Paraguai. Em abril de 1866, ocorreu a invasão do Paraguai e, em 1869, sob a liderança de Duque de Caxias, os militares brasileiros chegaram a Assunção. A guerra terminou em 1870, com a morte de Francisco Solano López, em Cerro Cora.

Morreram cerca de trezentas mil pessoas, entre civis e militares. Cerca de 20% da população paraguaia foi dizimada e destruídas a indústria e a economia. Do lado do Brasil, o prejuízo financeiro com as despesas de guerra foi extremamente elevado e acabou por prejudicar a economia. Por outro lado, houve expressivo lucro para a Inglaterra – apoiadora da a Tríplice Aliança – que aumentou sua influência na região.

Post - Chico Diabo

Chico mata Chico

← José Francisco Lacerda

É comum que os fatos históricos sejam deturpados com o correr do tempo, tanto por esquecimento como por fantasias dos narradores. A versão paraguaia da guerra é uma e a dos brasileiros é outra. Nas palavras dos vencedores, a morte de Solano López é atribuída ao cabo José Francisco Lacerda, vulgo Chico Diabo, (*1848, Camaquã / †1893, Cerro Largo) e ocorreu no 1º de março de 1870, não longe das margens do rio Aquidaban, em território paraguaio. Chico era de origem humilde e, ainda menino, empregou-se numa casa de carnes de um italiano, em São Lourenço do Sul (RS), município vizinho à Camaquã, sua terra natal. No seu ofício, fabricava produtos como charque, linguiça, salame e aprendeu, na prática, algumas noções de anatomia.

Em 1863, quando contava apenas 15 anos de idade, Chico descuidou-se e um cão entrou no recinto onde estava guardada a carne, devorando alguns pedaços. Ao tomar conhecimento do ocorrido, pelo próprio Chico, o italiano passou a agredi-lo. O sangue subiu à cabeça do menino, que tomou uma faca e matou seu patrão. Assustado com o malfeito, fugiu e caminhou sem rumo durante um dia e uma noite, sem parar sequer para descanso. Então, foi refugiar-se na casa dos pais, onde chegou somente na manhã seguinte.

Ao perceber um vulto, ao longe, a mãe de Chico exclamou: “Garanto que é aquele diabinho que vem vindo”. Por causa dessa história, ganhou o apelido de Chico Diabo, que o acompanharia pelo resto da vida.

Seus pais, temendo represálias pelo assassinato, providenciaram sua mudança para a propriedade de seu tio Vicente Lacerda, em Bagé. Mais tarde, em 1865, passou pelo local um destacamento dos Voluntários da Pátria, comandado pelo coronel Joca Tavares, que ia se juntar aos combatentes brasileiros no Paraguai. Convidado a integrar ao contingente, Chico aceitou. Na Guerra, Chico, já então promovido a cabo, celebrizou-se por haver matado, na Batalha de Cerro Cora, o ditador Francisco Solano López, com toda a maestria no uso das armas brancas, assimilada nos tempos de açougueiro. Com um certeiro golpe de lança na virilha penetrou na barriga do ditador, perfurando bexiga e intestinos. Para completar os ferimentos suficientemente fatais, o soldado gaúcho João Soares ainda arrematou com um tiro de revólver.(19)

Ao matar o ditador, Chico teria descumprido ordens superiores para que fosse capturado vivo. Mas os historiadores divergem quanto a esta interpretação, alguns afirmam que havia uma recompensa de cem libras de ouro para quem o matasse. Segundo fontes da época, o imperador d. Pedro II não autorizou que Chico Diabo recebesse uma medalha pelo ato de bravura, temeroso de que, na Europa, imaginassem que Solano López fora morto após ser preso. Outras fontes revelam que Joca Tavares fazia parte da maçonaria, da qual Solano era membro e, por esse motivo, recusou a enfrentá-lo em combate.

No entanto, Chico recebeu como recompensa cem novilhas(20) e se apoderou da faca de ouro e prata que López trazia consigo quando foi morto e na qual constavam, gravadas em ouro, as iniciais FL, coincidentemente as mesmas do nome de Chico. A lança usada pelo militar brasileiro encontra-se no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro. Para a glória de um Chico e a desgraça do outro, na época foi muito cantada uma quadrinha: “O cabo Chico Diabo, do diabo Chico deu cabo”.

Finda a guerra, em 1871, Chico casou-se com a prima, Isabel Vaz Lacerda, com quem teve quatro filhos e trabalhou de capataz em várias estâncias. Em 1893, quando se encontrava no Uruguai, a serviço de Joca Tavares, faleceu repentinamente. Anos depois, para receber os restos mortais do marido, a viúva Isabel teve que contratar um uruguaio para roubá-los. Seu corpo foi sepultado novamente no cemitério da Guarda, em Bagé.

O destino dos heróis

Quem conta é A. V. Castello, sobre seus irmãos soldados:

“O tenente João Batista de Souza Vianna era alegre, prazenteiro, espirituoso e folgazão. Meu pai forneceu-lhe fundos para a casa de comércio, que ele não geriu bem e liquidou. Falava bem e com facilidade e fazia defesas no juri. Casou-se com d. Hygina, filha do negociante Antônio Dias, de Matozinhos, professora pública em Santa Luzia, onde morreu esse meu irmão. Em 1896, por lei, os Voluntários da Pátria, com serviços na guerra do Paraguai, tinham preferência e garantias de nomeação para cargos públicos. Meu pai fê-lo requerer o provimento no cartório de notas, vago em Santa Luzia, o que não conseguiu, pois estava afastado da política, em divergência com os Mascarenhas.

O outro meu irmão, Octaviano, era nômade e vivia correndo o mundo, como professor particular. Uma vez por outra, aparecia em Curvelo, em visita à família. Faleceu em 1928, na cidade do Castelo, no Espírito Santo, sem deixar família. Não confundir […] o tenente João Batista de Souza Vianna, que foi vice-presidente da câmara de Curvelo, com o major João Francisco de Assis de Souza Vianna, pai da Flávia e do Chiquinho Vianna. O primeiro era filho e o segundo irmão do meu pai.” (21)

Por Eduardo de Paula

Colaboração: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) Arquivo da Cúria Metropolitana de Belo Horizonte − Batismos, Santa Luzia, 1818/25, fl.93: “Aos vinte e nove de Abril de mil oitocentos e vinte e dous na Capella da Quinta de licença Parochial o Padre Manoel de Araujo Ferreira Quintão baptizou e pôs os Sanctos oleos a Candido inocente filho legitimo de Antonio de Souza Vianna, e Josefa Fernandes de Azevedo; forão padrinhos José Thimotheo de Freitas, e Dona Ignacia Michaella Henriques de Freitas, do que se fez este assento que assignei. / O Vigro. Manoel Pires de Miranda”

(2) CASTELLO, Augusto de Vianna do (Augusto de Azevedo Vianna) − Carta a Antônio Gabriel Diniz, do Rio de Janeiro, em 22.12.1948.

(3) PENUTI, Carlo − Veja o Post “Na guerra e na paz”.

(4) PENA, Tertuliano Ferreira − *25.10.1838 †02.04.1912 (veja o Post “A família do Capitão”).

(5) MASCARENHAS, Caetano − *07.08.1844 †08.03.1938. Um dos fundadores da da fábrica de tecidos do Cedro & Cachoeira. 

(6) MASCARENHAS, Antônio Gonçalves da Silva (o velho) – *1795 / bt 1796 – capela de Santa Quitéria – †12.01.1884, filho de Antônio Gonçalves Mascarenhas e Joaquina Maria da Conceição. Casado com Policena Moreira da Silva. Filhos: Antônio Cândido, Antonino, José, Escolástica, Custódia, Francisca, Victor, PacíficoCaetano, Bernardo, Maria Theodora, Sebastião e Francisco.

(7) COUTO, Domingos Diniz − Vereador em Curvelo, alternadamente, de 01.07.1837 a 1894, pelo Partido Conservador. / Era filho do capitão Domingos Diniz Couto, este batizado em 15.08.1805, na capela de Contagem, paróquia de Curral d’El Rei (MG) e falecido em 17.03.1872, na fazenda Bom Sucesso, Curvelo. Já residia em Santo Antônio do Curvelo, quando foi criada a vila, em 13.10.1831. Exerceu cargos eletivos e chefiou o Partido Conservador, juntamente com Jerônimo Martins do Rego e o major Modesto José de Souza. Morava na fazenda Laranjeiras e fundou a Bom Sucesso. Tinha enorme escravatura e, no seu espólio, deixou as fazendas Jequitibá, Ponte Nova, Paiol, Bom Sucesso, Laranjeiras, Saco das Laranjeiras, Marinho e outras.

(8) DINIZ, Antônio Gabriel − “Dados para a história de Curvelo” (vol. I) – edição do autor com a Prefeitura Municipal de Curvelo, 1975, p. 178 e 179.

(9) MASCARENHAS, Pacífico Gonçalves da Silva − *07.06.1843 †03.01.1923. Médico e político. Vereador e presidente da câmara municipal de Curvelo em várias legislaturas; deputado geral de 1886 a 1889; deputado constituinte de 1890 a 1893; senador estadual, deputado federal; vice-presidente do estado de Minas Gerais.

(10) Fuzil: arma de fogo; baioneta: arma branca, que se adapta ao cano do fuzil e é utilizada na luta corpo a corpo.

(11) OLIVEIRA, Cândido Luiz Maria de − *06.07.1845, Ouro Preto †23.08.1919, Rio de Janeiro. Filho de Cândido Teodoro de Oliveira e Luiza Maria Agostinha de Oliveira. Formado em Direito pela Faculdade de São Paulo (1865); promotor público da Comarca de Ouro Preto; procurador fiscal da Tesouraria de Fazenda, em Ouro Preto; juiz municipal de Curvelo; senador (1886); conselheiro do Imperador; membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; lente de Legislação Comparada; diretor da Faculdade de Direito (RJ). Participou da Comissão que organizou os Projetos de Código do Processo, foi Membro da Comissão Internacional de Jurisconsultos em Montevidéu (colaborou com o Projeto de Direito Internacional privado). Ocupou as pastas de Guerra (1884) e da Justiça (1889) e, interinamente, por uma semana, a da Fazenda (20.07.1889 /28.07.1889). Com a proclamação da República, desligou-se das atividades políticas. Mandatos: vereador (1867 a 1868), deputado provincial (1869 a 1872 – 1873 a 1875 – 1877 a 1877, deputado Geral (1878 a 1881 – 1882 a 1884 – 1885 a 1885 – 1887 a 1889. Comendas: Ordem da Rosa, Grã-Cruz da Ordem de Sant’Ana (Rússia). Foi autor de diversas obras jurídicas. 

(12) (13) (14) LEITE,  João Batista Boaventura − “Morro da Garça no centenário da paróquia”, edição do autor, 1966, p. 121 a p. 129.

(15) FERREIRA, Antônio Dias (veja o Post “O capitão e sua família”).

(16) Manus, em latim: poder; fig. bastão.

(17) Revolução Liberal: os derrotados, com a subida do Partido Liberal ao poder, em 1844, foram anistiados.

(18) LÓPEZ, Francisco Solano − *24.07.1827, Assunção /†01.03.1870, Cerro Cora. Presidente vitalício do Paraguai, de 1862 à data de sua morte.

(19) O laudo do óbito foi elaborado pelos cirurgiões do exército brasileiro, drs. Manoel Cardoso da Costa Lobo (de Sergipe) e Militão Barbosa de Carvalho (de Minas Gerais). 

(20) Novilha: vaca jovem, que ainda não pariu; vaquilhona, no linguajar gaúcho.

(21) Carta de Augusto de Vianna do Castello a Antônio Gabriel Diniz, de 28.11.1948.

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10 Comentários »

  1. Eduardo, um bom trabalho de história que, sem sua pesquisa, é provavel que nunca seria lembrado.
    Parabéns!
    Maria Marlda Pinto Correa – cidadã de Lagoa Santa

    Comentário por maria marilda pno correa — 01/04/2013 @ 7:39 am | Responder

    • Marilda:
      A você, que tem sido sempre minha leitora, meu muito obrigado e o abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/04/2013 @ 8:17 am | Responder

      • Maria Rosa:
        Suas palavras ajudam-me a prosseguir com ânimo. Faço o convite para que leia uma continuação do Post no meu Blog auxiliar. Aqui: http://docsdosumidoiro.wordpress.com
        Um abraço e o agradecimento do Eduardo.

        Comentário por sumidoiro — 02/04/2013 @ 4:20 pm

  2. Eduardo:
    Uma bela homenagem aos seus antepassados. Presente magnifico para os descendentes, que saberão reconhecer a sua dedicaçao e trabalho. Um tributo merecido a uma tradicional família mineira. Parabéns!
    Maria Rosa Claussen Lagrange.

    Comentário por Maria Rosa Claussen Lagrange — 01/04/2013 @ 3:50 pm | Responder

  3. Parabéns por mais este belo trabalho, Eduardo. Não deixo de ler seus Posts.
    João Vianna

    Comentário por João Vianna — 02/04/2013 @ 2:35 am | Responder

    • João:
      Agradeço o estímulo. Com entusiasmo, continuo o meu trabalho.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/04/2013 @ 7:03 am | Responder

  4. Eduardo: Foi um prazer ler o seu trabalho.Estou terminando uma pesquisa sobre a Igrejinha do Rosário, em Curvelo. Por isso, as ilustrações e informações relativas a ela em seu trabalho são preciosas. Se você tiver mais fontes sobre a Igrejinha do Rosário, e se puder compartilhar comigo, ficarei agradecido. Parabéns, Geraldo Álvares, de Curvelo.

    Comentário por Geraldo Rodrigues Álvares — 02/01/2014 @ 5:28 pm | Responder

    • Olá Geraldo:
      Não possuo mais nada sobre a igrejinha. Dizem que pode existir alguma coisa arquivada em Diamantina.
      Muito obrigado pelo aplauso ao meu trabalho.
      Um abraço do
      Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/01/2014 @ 7:01 pm | Responder

  5. Oi, boa-noite.
    Sou do Brasil, sou um Lopez verdadeiro. Fico muito feliz por ser um Lopez. Obrigado.

    Comentário por edilson lopes — 11/07/2016 @ 9:53 pm | Responder

    • Edilson:
      Meus parabéns! Devemos reverenciar nossos antepassados. Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 11/07/2016 @ 10:17 pm | Responder


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