Sumidoiro's Blog

01/11/2013

QUERO SER PADRE

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:04 am

♦ Marcados pelo sangue

No começo da história brasileira era extremamente difícil ordenar-se sacerdote, situação que perdurou durante o período em que os preceitos da Inquisição nortearam a igreja católica. O movimento envolveu vários países e teve suas raízes na baixa idade média, estendendo-se até o século XIX. A denominada inquisição portuguesa afetou diretamente o Brasil e foi abolida, em 1821.

Post - Missa RugendasMissa em Pernambuco (por Rugendas, detalhe).

A genealogia da Inquisição mostra que sua primeira versão nasceu com a finalidade de combater a sociedade secreta dos católicos albigenses ou cátaros − da região do Languedoc, sul da França −, gente que repudiava a igreja de Roma e os seus princípios. Por isso, foram considerados heréticos mas, para eles, o papa é que era herético. Segundo o teólogo do século XIII, Alanus de Insuli(1), a palavra cátaro vem de catus (gato, em latim), pois os seguidores da seita faziam coisas ignóbeis em seus conciliábulos, como beijar o traseiro de gatos, simplesmente porque se parecia com a face de Lúcifer.

A versão é controversa, mais que isso, inverossímil, contudo é preciso observar que esse povo tem origem em pagãos, os celtas, cuja religião era politeísta. Segundo as crenças, tudo na natureza possuía alma, talvez venha daí uma possível veneração dos cátaros pelos gatos. Além do mais, acreditavam em um Deus do bem, que era puro espírito e outro criador do mundo material, esta parte uma obra maléfica.

Post - CarcassoneCidadela de Carcassonnne, em terras dos albigenses ou cátaros, fundada pelos celtas com o nome Carsac. 

No meio dessas extravagâncias, em 1022, dois monges, que nada tinham a ver com o conflito religioso, foram queimados vivos, acusados pela igreja católica de adorar o diabo. Como se vê, vem de longa data o costume de lançar pessoas na fogueira, incinerando corpos, crenças e supostas sujidades. Com o passar do tempo, o procedimento evoluiu e o fogo purificador passou a justificar, também, a destruição de livros proibidos, ou seja, ideias supostamente perniciosas. Realmente, o maligno esteve à solta e sua obra perdurou pelos séculos.

Até meados do século XII, o vaticano tentou conter, na base do diálogo, o chamado catarismo mas, com a eleição do papa Inocêncio III(2), em 1198, houve um endurecimento nas relações. Sucederam-se, então, conflitos provocados por ambos os lados. Um deles, em 1208, quando o representante eclesiástico Pierre de Castelnau foi assassinado, em represália por ter excomungado um nobre cátaro. O incidente foi a gota d’água para que, no mesmo ano, o Vaticano autorizasse uma guerra santa, ou Cruzada Albigense, contra o povo que habitava o Languedoc, a primeira e única cruzada contra os próprios cristãos. Assim ficou conhecida, porque albigenses era denominação mais antiga e apropriada para se referir aos cátaros.

Em julho de 1209, na cidade de Béziers, sete mil fiéis, de ambos os sexos, foram chacinados, inclusive crianças. Em 1244, duzentos cátaros foram queimados vivos numa grande fogueira e a tortura se generalizou. Prenúncio de piores acontecimentos foi a insólita atitude de afogar uma mulher num barril de vinho, simplesmente porque não quis confessar supostos pecados.

Post - Traseiros do capetaA ilustração do livro de Tinctor, em dois detalhes: reverência ao traseiro do gato e do bode (cópias).

Existiu outro grupo, afim aos cátaros e suas tradições, que também fôra acusado do inusitado procedimento de reverenciar traseiros de animais. Trata-se da seita dos valdenses, cuja criação é atribuída ao pregador itinerante Peter Waldo(3) − dele vem a denominação −, um dos precursores da reforma protestante. Foram taxados de bruxos e, desse modo, retratados pelo frade inquisidor dominicano Johannes Tinctoris(4), num manuscrito produzido em torno do ano 1460. Tem o título de “Sermo contra sectam vaudensium” (Sermão contra a seita dos valdenses) e é ilustrado com uma série de bruxas cruzando os ares em suas vassouras, acompanhadas de vários diabos e um deles, em terra, oferecendo a região glútea de um bode para a adoração dos adeptos. Dois outros, aparecem à parte, destacadamente, na mesma prática, ora com um cão, ora com um gato (ilustração acima), tal e qual faziam os cátaros. Mas é preciso fazer uma ressalva, quem desse modo contou a história dos cátaros e valdenses foi a igreja católica.

Post - Expulsão cátarosExpulsão dos cátaros de Carcassonne, em 1209.

A Inquisição, que a princípio viera para combater o catarismo, foi aperfeiçoada pelo papa Gregório IX(5) ao editar a bula Licet ad capiendusem fevereiro de 1231, um estatuto jurídico para melhor combater as heresias e primeiro passo para o surgimento do Tribunal da Inquisição ou Santo Ofício. Logo adiante, em 1233, com a promulgação de outra bula, nomeou os frades dominicanos para liderarem o trabalho de investigação e julgamento dos hereges. Dessa maneira, a máquina opressora passou a funcionar bem azeitada contra os supostos inimigos da fé católica. 

Aqueles que tinham a desventura de cair nas garras da Inquisição eram presos, amiúde torturados e julgados sob segredo. No caso de serem condenados, anunciavam as sentenças em solenidades denominadas autos-da-fé. Em seguida, a autoridade civil aplicava o devido castigo, que variava, entre a repreensão, multa, açoitamento, confisco de bens, perda de liberdade, degredo ou morte, muitas vezes na fogueira. A Inquisição funcionou na França, Espanha, Portugal, Itália e estendeu-se pelo sacro-império romano. Mais tarde, chegou também às Américas.

Post - Torquemada← Torquemada, frade dominicano.

A versão espanhola foi certamente a mais terrível. Fundada pelos reis católicos Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão(6)teve início em 1479, prosseguindo até 1834. Surgiu como consequência da reconquista da Espanha das mãos dos árabes muçulmanos  mouros , que haviam dominado o país e da política de conversão dessa gente e dos judeus ao catolicismo. Em 1481, Fernando e Isabel indicaram o dominicano Tomás de Torquemada(7) para investigar e punir alguns conversos, especialmente os judeus, que se diziam aderidos ao catolicismo, mas que continuavam a praticar suas antigas religiões em segredo. Nessas condições, alguns deles, agindo disfarçadamente, conseguiram se tornar padres e até mesmo bispos. Foi nesse momento que a chamada política de “limpeza de sangue” ganhou força e passou a ser aplicada

Os judeus dubiamente convertidos e os mouros, eram também chamados marranos. Segundo o dicionarista padre Raphael Bluteau(8), trata-se de um “adjetivo injurioso, que se diz ao mouro, ou judeu que se abstém de carne”, melhor dizendo, aquele que não come carne de porco. À sua maneira, o dicionarista Antônio Houaiss(9) define o significado, dizendo: “Na Espanha e Portugal, designação injuriosa que se dava outrora aos mouros, especialmente aos judeus batizados, suspeitos de se conservarem leais ao judaísmo.”

Post - Fernando e IsabelFernando II e Isabel I. 

Transcorrida pouco mais de uma década da sua introdução na Espanha, a Inquisição conseguiu ficar pior, quando Isabel e Fernando, pelo decreto régio de Alhambra, de 31.03.1492, ordenaram a conversão forçada de toda a população judaica da Espanha ou sua expulsão. A maioria pertencia a um grupo conhecido como sefarditas ocidentais. Por sorte, naquele momento, durante o reinado de d. João II, viviam tranquilamente em Portugal muitos judeus ricos e proeminentes. Influenciado por eles, o soberano português decidiu oferecer acolhimento a cerca de sessenta mil judeus, mas com a condição do pagamento de oito ducados de ouro, na época um dinheirão. Desse modo, puderam comprar um breve período de relativo sossego.

O reinado seguinte, foi assumido por d. Manuel I, em 1495, e ele também fez sua parte, mostrando-se tolerante com os que não podiam pagar. Durante os dois reinados e aproveitando-se da situação favorável, o número de refugiados ascendeu a cerca de noventa e três mil pessoas. Cabe notar que, embora houvesse restrições, eram permitidas a investidura de judeus em cargos políticos ou administrativos e ainda podiam casar-se com cristãos-velhos. Na condição de cristão-novo, não havia sequer impedimento de acesso a cargos eclesiásticos.

Post - D. João III - detalhe← D. João III, o Piedoso.

Entretanto, chegou a hora em que d. Manuel I desejou se casar e justamente com Isabel de Aragão, filha dos reis católicos de Espanha − Isabel I e Fernando II −, que aceitaram o matrimônio com a condicionante de que os judeus fossem hostilizados também em Portugal. Então, o soberano enamorado cedeu à imposição e, por decreto de 1496, primeiramente obrigou os que não quisessem receber o batismo a abandonar o país, no prazo de dez meses, sob pena de confisco e morte.

No ano seguinte, adotou um subterfúgio, proibindo que se indagasse das crenças dos novos convertidos, que passaram então a ser conhecidos como cristãos-novos. Atendida parte da imposição dos sogros, o casamento ocorreu, em outubro de 1497, mas as ações coercitivas prosseguiram e, por alvará de 1499, d. Manuel I criou mais um embaraço, dificultando aos conversos a saída do reino, de modo a evitar a evasão de capitais do país.

Todavia, momentos dramáticos ocorreram, inesperadamente, durante a Páscoa de 1506, quando, em 19 de abril, domingo, eclodiu uma revolta popular contra os cristãos-novos, sob o comando dos frades dominicanos, que se prolongou por três dias. Movida pelo fanatismo, a multidão violou, torturou e matou centenas de pessoas acusadas de judaísmo. O episódio ficou conhecido como Massacre de Lisboa e foi o estopim para recrudescer o anti-semitismo em Portugal. Daí em diante, muitas famílias passaram a abandonar o país.

Post - D. ManoelD. Manuel, o Venturoso, e Lisboa do século XV, ao fundo.

Em 1521, assumiu o trono d. João III − filho de d. Manuel I −, homem muito religioso e devoto, por isso, cognominado O Piedoso. Então, contrariando sua aura de bondade, permitiu que a Inquisição chegasse também às terras portuguesas. Foi o papa Clemente VII(10) que a formalizou pela bula Cum ad nihil magis, em 17.12.1531, mas, um ano depois, anulou a decisão. Retomando a iniciativa, em 23.05.1536, instituiu-a definitivamente. Tal como nos demais reinos ibéricos, ela tornou-se um organismo a serviço da coroa, com a denominação de Tribunal do Santo Ofício. E toda a população foi convocada a denunciar os casos de heresia de que tivesse conhecimento.

Atendendo aos propósitos iniciais, a inquisição portuguesa se estendeu aos territórios do império ultramarino. Entretanto, na prática, foi mais rigorosa em Portugal do que nas colônias e sem dúvida mais branda que a espanhola. Denota isso a existência de um decreto proibindo que o povo insultasse, apedrejasse ou cuspisse nos réus e nos condenados, porém, admitia-se que as crianças caridosamente pudessem lançar pedras.

A rotina fez com que os inquisidores, por qualquer suspeita, passassem a averiguar supostos casos de bruxaria, adivinhação, sodomia, pedofilia, zoofilia, bigamia e muito mais. Houve um momento, no século XVI, que a sanha de punir ficou fora de controle, chegando ao ponto de exigir a intervenção do papa Sisto V para amainar os ânimos. A partir dessa época, cristãos-novos, mouros, negros, mestiços e indígenas foram impedidos de exercerem cargos públicos, militares, religiosos e de ingressarem em universidades, sob a alegação de possuírem “sangue infecto”, sendo considerados pertencentes a uma “raça impura”.

Post - Camões & igrejaAviso do Santo Ofício investindo contra o falecido Camões.

O inquisidor geral era indicado pelo rei e nomeado pelo papa, daí terem existido vários oriundos da família real. Porém, o poder ilimitado da Inquisição acabou gerando conflitos, tanto com o rei, quanto com os próprios religiosos, especialmente os jesuítas, que tornaram-se seus oponentes. A atuação dos tribunais estendeu-se a áreas muito sensíveis e são incontáveis os absurdos cometidos em nome da fé, atingindo a vida social, a política e a cultura. Tolheu-se a livre manifestação do pensamento, prejudicando o desenvolvimento intelectual, especialmente proibindo a publicação de livros sem censura prévia. Quem se aventurava a fazê-lo, corria o risco de ter a obra proibida. 

Nem mesmo Luís de Camões (*c. 1524 †10.06.1580) escapou de acusações, motivadas pelo texto dos “Lusíadas”. O ataque foi post-mortem, porque sua obra havia sido aprovada pelo sensor da igreja antes de ir ao prelo, na primeira edição, de 1572. É esta a autorização do frei Bartolomeu Ferreira:

“Vi por mandado da Santa & geral inquisição Inquisição estes dez Cantos dos Lusiadas de Luis de Camões […] e o Autor como Poeta, não pretenda mais que ornar o estilo Poetico, não tivemos por inconveniente yr esta fabula dos Deoses na obra conhecendoa por tal & ficando sempre salva a verdade de nossa Sancta Fé, que todos os Deoses dos Gentios* (*indígenas, pagãos) sam Demonios. E por isso me pareceo o livro digno de se imprimir…”

O livro teve continuado sucesso e numa edição de 20.07.1640, cismaram de acusá-lo de “desencaminhar nas matérias de nossa Santa Fé Católica”. Para essa finalidade, o Santo Ofício publicou um aviso, taxando-o de herético e apóstata. Alertavam sobre o conteúdo então considerado pecaminoso “… no qual se contem muitas coisas indecentes à pureza de Nossa Religião Católica, escandalosas e ofensivas às orelhas dos fiéis cristãos…” Sem mais nem menos, o autor ficou proibido, sessenta anos após sua morte. O acontecimento mostra como a sanha inquisitorial foi se exacerbando ao longo do tempo. Coitado do Camões!

Post - Processo VieiraPágina de rosto do processo do Pe. Vieira: “… morador nesta de Coimbra, prezo em hua das casas de custodia…”

Mais tarde, em 1665, também sobrou para um notável homem da igreja, o missionário jesuíta padre Antônio Vieira, que teve atuação no Brasil. Lá em Portugal, acusaram-no de defender o fim das distinções entre cristãos-velhos e cristãos-novos, bem como a permissão para que os judeus pudessem aplicar seus capitais em empreendimentos comerciais. De fato, cometera tremenda ousadia porque, para tal, seria necessário reformar os preceitos da Inquisição. 

Em consequência, foi preso e mantido sob custódia, processado e finalmente condenado. A sentença determinou que não mais poderia ter voz ativa nem passiva, consequentemente proibido de pregar; que ficaria recluso no Colégio ou Casa de sua religião, de onde não sairia sem termo assinado pelo Santo Ofício; que assinaria um termo obrigando-se a não tratar mais das proposições de que foi arguído, nem por palavra nem por escrito, e mais o pagamento das custas. Seu castigo só não foi maior devido à sua incontestável fortaleza moral e prestígio. Foi esse mais um exemplo dos exageros da Inquisição portuguesa.

Post - PombalMarquês de Pombal, quem aboliu a distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos.

O padre Raphael Bluteau, referiu-se à Inquisição portuguesa no seu dicionário, publicado em 1713. Assim entendeu e explicou, em dois verbetes:

Post - Pe Bluteau retr← Padre Raphael Bluteau.

“Inquisição — Tribunal Eclesiástico, estabelecido para inquirir sobre os erros da fé Católica e sobre a corrupção dos costumes. Este Santo Tribunal, introduziu neste Reino o Católico zelo de seus Príncipes. El-Rei D. João, o Terceiro, alcançou a concessão dele primeira vez do Sumo Pontífice Clemente VII, no ano de 1531. Foi reduzido, à forma que hoje tem, pelo Sumo Pontífice Paulo III, no ano de 1536, à instância do mesmo Rei. O primeiro bispo Inquisidor foi Dom Diogo da Silva, Bispo de Ceuta; o segundo foi o Cardeal D. Henrique, filho del-rei Dom Manoel, etc. Tem Portugal três tribunais do Santo Ofício da Inquisição; o de Lisboa, cabeça dos mais, onde reside o Inquisidor Geral, que sempre é Bispo e seis Inquisidores, que chamam do Conselho Geral ou Mesa Grande, com seu Secretário e outra mesa chamada pequena, com três Inquisidores, um deles Presidente e alguns Deputados, que não tem número certo, e a de Évora e Coimbra, que constam de menor número de ministros, Fidei Quaesitorum Tribunal ou Senatus.

Inquisidor — Ministro da Santa Inquisição, que tem autoridade para inquirir sobre a herética pravidade* (*maldade) e depravação dos costumes.”

DO OUTRO LADO DO OCEANO

Uma grande leva de convertidos portugueses imigrou para o Novo Mundo, especialmente para o Brasil, quando, em 1516, d. Manuel I os incentivou, oferecendo ferramentas gratuitamente aos que aceitassem colonizar o país. A proposta mostrou-se muito conveniente, porque estariam fugindo da Inquisição. Entretanto, embora tivessem trocado os nomes, não havia como apagar o passado e, na nova pátria, permaneceram sendo discriminados, do mesmo modo, por motivo da origem étnica.

Nos bancos escolares, é corriqueiro ensinar que o povo brasileiro surgiu da miscigenação entre homens brancos – predominantemente portugueses –, mais negros e ameríndios. Mas, um detalhe importante às vezes passa despercebido, embora seja relevante, é que, entre os brancos, havia expressivo número de judeus. Ocorreram inúmeros processos contra habitantes do Brasil mas, se comparados com Portugal e Espanha, o número é significativamente menor.

Sem dúvida, no Brasil, a Inquisição se meteu em verdadeira barafunda, principalmente devido às diversidades étnicas e culturais da população. Imprudentemente, além dos cristãos-novos, mouros e toda gente branca, os inquisidores ousaram jogar no mesmo balaio negros, mulatos, mamelucos, cafuzos e indígenas. Entre eles, é claro, eram comuns práticas tais como bruxaria, feitiçaria, superstição, bigamia, sodomia, falsificação, blasfêmia e mais um punhado de coisas. De fato, um prato cheio para inquisidor nenhum botar defeito. Mas, como evitar que toda essa gente, vivendo livremente numa imensidão de país e recebendo a estimulante energia do sol tropical, não fosse impelida a praticar um montão de heresias?

Post - Luzia Pinta doc“… nos cárceres da luz do dia aonde se acha Luzia Pinta […] e moradora na Villa do Sabará a prendais…”

Emblemático foi o caso(11) de Luzia Pinta, negra angolana, ex-escrava, moradora de Sabará (MG), que professava religião africana e amava dançar o calundu, prática mal vista pela igreja. No Brasil, essa mulher havia aderido à fé católica e recebido o batismo, desde então praticando com sinceridade as duas religiões. Mas os padres, em certo momento, entenderam que Luzia, pelo ganhame de umas poucas moedas, teria feito um pacto com o demônio e, com seu auxílio, andava fazendo adivinhações e curando doentes. Só assim seria capaz de realizar tais feitos sobrenaturais, pensavam os religiosos. Na verdade, foi apenas um pretexto, já que não admitiam concorrências, pois milagres eram exclusividade da igreja católica. Pela sua impertinência, a infeliz foi denunciada, presa, transportada para Lisboa, torturada, processada, perdeu seus bens e, finalmente, condenada ao degredo.

Também chama atenção o processo de um índio(12) que, pela infelicidade de ter sido catequizado, teve de se submeter às leis da igreja. Ao ser batizado, ganhara o nome de Alberto Monteiro, era carpinteiro e viveu no Grão-Pará (atual estado do Pará). Certa feita, impelido pela santa ingenuidade, falou demais e revelou aos quatro ventos o que tinha feito para satisfazer seu intenso apetite sexual. Em consequência, foi acusado de superstições e feitiçaria. Na condição de réu, os inquisidores forçaram sua confissão e tudo mais, usando um palavrório para ele assaz enigmático, certamente com o intuito fazê-lo assumir o suposto mal-feito. 

Post - Processo índioProcesso do índio Alberto Monteiro, carpinteiro.

Nas páginas do processo, datado de 1742, anotaram como quiseram, dizendo que o índio fôra “fortemente tentado na sua concupiscencia, invocára o demonio, e lhe fallára pela forma segte.* (* seguinte) : 

“… Diabo, se tu me fizeres a minha vontade, permittindo-me, q’ durma com esta m.er* (*mulher), eu te prometo fazer-te o q’ tu quizeres, e me podes levar contigo = E que não obstante não ter o demonio resposta por modo algum, e sentir no mesmo tempo hum grande abalo no coração, de q’ concebêra temor de Ds.* nosso Sr.* (* Deus nosso Senhor) o poder castigar, nem por isso deixára de repetir a da.* (*dita) invocação e fazer novo offerecimto* (*oferecimento) de si ao demonio pa.* (*para) conseguir o seu depravado intento, …”

Ao final, a volúpia do carpinteiro namorador lhe rendeu a seguinte sentença: auto-da-fé privado, abjuração de veemente, penitências espirituais, absolvido “ad cautelam” e pagamento das custas. Tudo isso por uma coisica de nada!

Post - Acusação pe PugasProcesso do padre Pugas, o confessor endemoninhado.

Outro caso(13), está relatado em um processo, também de 1742, contra o padre Antônio Álvares Pugas, que era useiro e vezeiro em praticar o crime de “solicitação”, previsto nas leis eclesiásticas de Gregório IX. A heresia, muito comum no período colonial, ocorria quando o confessor, tirando proveito da situação, fazia propostas amorosas à pessoa confitente. E para que nenhum padre ficasse em dúvida, dizia-se em latim: “solicitatione facta in Confissionario, vel ocasione, aut prætextu confessionis.” Traduzindo para o português: solicitações feitas no confissionário, ou em outra ocasião, a pretexto de confissão(14)Apesar disso, não foram poucos os religiosos que transformaram os confissionários em verdadeiros quiosques do amor. O acusado, padre Antônio, era capelão na freguesia de Roça Grande (Sabará – MG) e foi denunciado por várias mulheres que se sentiram ofendidas pelos seu arroubos amorosos. 

E era mesmo com a presença do arrenegado que as coisas aconteciam no confissionário, porque consta do termo de denúncia que:

“… disse palavras amatorias* (*de amor) e dirigidas ad turpia* (*ad turpia: abreviatura de sollicitatio ad turpia = pedido para procedimento obceno) no acto sacramental da Confissão a […] Ignez das Chagas de Jesus; como tambem estando no lugar com o pretexto de ouvir de confissão a Custodia da Piedade […], lhe pedira osculos* (*ósculos = beijos); e ouvindo tambem de confissão a […] Appolonia da Ressureição acusando-se esta de solicitações […] lhe disse palavras por onde ella entendeu q. o delato* (*denunciado) desejava sucedesse o mesmo com ella…” 

Padre Antônio naturalmente se defendeu, mas com desculpas esfarrapadas. Já preso nos cárceres da Inquisição, em Lisboa, declarou que não tivera “nenhum tocamento” com qualquer confitente, “porque o ralo do confissionário é tão miúdo que, pelos buracos, não passa cabeça de um dedo”.

Post - ConfissionárioNo confissionário, nem sempre com Deus presente.

Também o vigário da paróquia de Nossa Senhora do Pilar das Congonhas, da atual cidade de Nova Lima (MG), Manuel Pinheiro de Oliveira, esteve metido nos desvarios. As mesmas mulheres e mais outras, voluntária ou involuntariamente, se envolveram em relacionamentos com esse sacerdote e, quando o caldo entornou, sem piedade, resolveram assumir o papel de acusadoras. 

Padre Manuel enfrentou processo(15)em 1742, e uma das testemunhas de acusação foi uma mulher muito braba, como o próprio nome indica − Violante dos Anjos −, que teve o prazer de jogar no mesmo balaio vários religiosos. Foram, além do já citado Antônio Álvares Pugas − processado à parte −, o referido vigário Manoel, mais João Luiz Brabo, vigário de Roça Grande, e João Costa, capelão da Lapa (hoje Ravena). Parece até que o tinhoso* (*capeta) estava supervisionando o desenrolar dos acontecimentos! 

Um pouco das palavras de Violante aos inquisidores: … que os padres Manoel Pinheiro de Oliveira, João Costa, e Antonio Alvares Pugas, e João Luiz Brabo erão costumados* (*acostumados) arrotar amores, e dizer palavras torpes no confissionario e hé o que se sabe aserca* (*acerca) da capacidade e juizo dos ditos Padres e mais…” (ilustração abaixo). Ao final, o vigário Manuel foi condenado a auto-da-fé privado, abjuração de leve, proibição de confessar, suspensão do exercício da ordem, por oito anos, e expulsão do bispado.

Post - Violante depoimentoA brabeza de Violante dos Anjos contra os padres “costumados (a) arrotar amores”.

Semelhantes fatos se repetiram com outro personagem, anos mais tarde, em Santa Luzia (MG), quando um sacerdote se assanhou com uma fiel e foi denunciado pela vítima pelo tal crime de “solicitação”. A manifestação, contra João Rodrigues Viegas, se deu em 1797, mas não teve eco, certamente porque a frágil denunciante era negra e escrava, e ele, provavelmente, tinha costas largas(16)Mas isso vem de longa data na história brasileira… Diz a denúncia:

“Snr. Rvdo. (Reverendo) e Doutor Nicolao Gomes Xavier / Catharina Angola escrava de Serafim Gonçalves Lima, na Quaresma próxima passada se foi confessar com o Padre Joam Rodrigues Viegas e este in confissione lhe disse que fosse a sua caza, sem lhe dizer mais couza alguma; e como ella ficasse na suposição q (que) seria para fim do … me pedio para desencargo de sua consciencia, que denunciasse a V M (Vossa Mercê) de cazo que lhe havia acontecido. A denunciante e o Reverendo denuncionado são moradores deste Arraial de Sancta Luzia. Deos guarde a V M por muitos anos com boa saúde como deseja … / Sancta Luzia 21 de Mayo de 1797 / Seu Subdito e … / Manoel Pires de Miranda (vigário de Santa Luzia).

Post - Catharina AngolaRepúdio de Catharina Angola à solicitação do padre namorador.

Recentemente, no dia 02.10.2013, o atual papa Francisco, em audiência geral na Praça de São Pedro, no Vaticano, chamou a atenção para os pecados que, há tanto tempo, vêm atormentando a Igreja. Suas palavras(17):

“… em que sentido a Igreja é Santa, se vemos que a igreja histórica, em seu caminho através dos séculos, teve muitas dificuldades, problemas, momentos escuros? Como pode ser santa uma igreja feita de pecadores? Homens pecadores, mulheres pecadoras, padres e freiras pecaminosas, pecadores, pecadores, bispos, cardeais pecadores, o Papa pecador”.

E disse mais:

“Como é que pode ser uma Igreja santa assim? […] A Igreja é santa porque vem de Deus que é santo […] A Igreja, que é santa, não rejeita os pecadores, não rejeita todos nós! Não recusa, porque chama todos: os recebe, também está aberta aos mais distantes, chama a todos para deixarem se envolver pela misericórdia, ternura e perdão do Pai, oferece a todos a oportunidade de encontrá-lo, de caminhar para a santidade.”

Até aqui, falou-se de um lado sombrio da igreja e não há como negá-lo e nem cabe escondê-lo. Pelo contrário, deve ser revelado porque ensina. É preciso separar e não esquecer essas tristes passagens mas, também, é necessário ressaltar a valorosa atuação da igreja em benefício dos povos que tem sido brilhante e positiva, há séculos. Uma notável contribuição é a história que deixou preservada em documentos de toda sorte, como os das investigações para admissão ao sacerdócio. É o próximo tema. 

Post - Papa Urbano VIIIPapa Urbano VIII, introdutor da limpeza de sangue.

O CAMINHO PARA A BATINA

Impunha-se, a quem almejasse seguir carreira eclesiástica, a comprovação da “limpeza de sangue”, que foi instituída, no ano de 1635, pelo papa Urbano VIII(18), especialmente para vedar o benefício aos cristãos-novos. Através do “Breve De Puritate Sanguinis”, introduziu-se o procedimento com o nome de inquirição “De Genere, vita et moribus”, que se traduz por “De ascendência (geração), vida e costumes” (19). A distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos, persistiu até 1773, quando o marquês de Pombal a aboliu, por decreto(20). Apesar da decisão, por muitos anos continuou o temor de que alguma pessoa de sangue impuro se habilitasse ao sacerdócio. 

Os procedimentos para a admissão ao sacerdócio eram demorados, porque exigia-se inúmeros testemunhos e comprovações. Ao final, aqueles que passavam pelo rigoroso crivo da igreja, dividiam as glórias com os consanguíneos. É por isso que toda família queria ter entre os seus pelo menos um padre com o atestado de boas origens, que era dividido com o grupo de pessoas e lhes conferia honroso status social. Por outro lado, esses processos são preciosos como fontes de pesquisa para historiadores e genealogistas. 

Post - Doc d FreiMandado de Publicandis de Antônio Martins Fagundes.

Em Minas Gerais, inúmeras habilitações foram conduzidas sob o mando de d. Frei Manuel da Cruz, bispo de Mariana. Um dos candidatos, Antônio Martins Fagundes Filho, submeteu-se à investigação “De genere, vita et moribus”. Ao ser aprovado, teve seu “Mandado de Publicandis” afixado na matriz de Nossa Senhora da Conceição de Vila Rica (Ouro Preto – MG), em 28.08.1762. O documento(21) revela detalhes da admissão sacerdotal e mostra suas nuanças. Diz assim, ao pé da letra:

Post - São Bernardo← São Bernardo, o melífluo* (*doce feito mel).

“Dom Fr. Manoel da Cruz, Da ordem do Doutor Mellifluo S. Bernardo, por mercê de Deos, e da Santa Sé Apostolica, primeiro Bispo deste novo Bispado de Marianna, e do Concelho de Sua Magestade, que Deos guarde, &c. Aos que o presente nesse Mandado de publicandis virem, ouvirem, ou dele noticia tiverem, saude, e paz para sempre em JESUS Christo nosso Senhor, que todos he verdadeiro remedio, luz, e salvação. Fazemos saber, em especial ao Reverendo Vigario da Freguezia de N. Sra. da Conceição de Villa Rica(22) em como por sua petição nos enviou a dizer Antonio Martins Fagundes fo. lego. de Antonio Martins Fagundes e de Rosa Maria … do que ele com o favor de Deos pertendia ser ordenado de Ordens Menores e Sacras pedindo-nos por fim sua petição, lhe mandassemos continuar suas diligencias de vita, & moribus, visto se achar habilitado de genere Seo Patrimonio, e por Nós admitido, em cumprimento do que por nosso despacho mandamos passar a presente Carta de publicandis, pela qual ordenamos a toda pessoa, ou pessoas de qualquer qualidade, gráo, preeminencia, estado, ou condição que sejão, assim homens, como mulheres, com pena de obediencia, e de excomunhão mayor, ipso facto incurrenda, digão, e descubram todos, e quaisquer defeitos, ou impedimentos, que souberem do dito habilitando Antonio Martins Fagundes que lhe prohibão as Ordens, que pertende, conteudos nos Interrogatorios seguintes.

1 Se o habilitando he bautizado, e chrismado?

2 Se he, ou foy Herege, Apostata da nossa Santa Fé, ou filho, ou neto de Infieis, Hereges, Judeos, ou Mouros, ou que fossem prezos, ou penitenciados pelo Santo Officio?

3 Se he legitimo havido de legitimo matrimonio?

4 Se tem parte de nação Hebrea, ou de outra qualquer infecta, ou de Negro, ou de Mulato?

5 Se he cativo, e se sem licença de seu Senhor se quer ordenar?

6 Se he corcovado, ou aleijado de perna, ou braço, ou dedo, ou tem outra deformidade, que cause escandalo, ou nojo algum a quem o vê?

Post - Diabo a cavalo← Diabo medieval montado a cavalo.

7 Se lhe falta a vista especialmente no olho esquerdo, ou se tem tal bellida* (*catarata) em alguns deles, que cause deformidade?

8 Se he enfermo de lepra, ou gota coral* (*epilepsia), ou de outra doença contagiosa?

9 Se he vexado* (*atormentado), ou assombrado do Demonio?

10 Se he abstêmio de maneira, que quando bebe vinho, lhe venhão vomitos; ou pelo contrario he demasiado no beber vinho, ou se se toma dele?

11 Se cometteo algum homicidio, ou se por alguma via foy causa dele: se cortou membro algum, ou foy causa disso, ainda que fosse por autoridade de justiça, como sendo Juiz, acusador, testemunha, Meirinho, Notario, Accessor, ou Procurador?

12 Se foy causa de algum aborto, fazendo mover alguma mulher?

13 Se he bigamo por qualquer especie de bigamia?

14 Se he blasfemo, arrenegador, ou costumado a jurar, revoltoso, taful* (*vaidoso, janota), ou de ruins conversações?

15 Se he concubinario, ou tido, e havido por homem incontinente?

16 Se cometteo algum crime pelo qual esteja querelado* (*questionado), ou denunciado às Justiças Seculares , ou Eclesiasticas?

17  Se por algum delicto fez penitencia publica, ou se incorreo infamia de facto, ou de direito?

18 Se está ecommungado, suspenso, ou interdicto?

19 Se tem, ou teve alguma tutoria, ou officio de administração da fazenda Real, ou de alguma pessoa, em razão da qual seja obrigado a contas?

Post - Miniatura← Miniatura do Mandado de Publicandis. 

20 Se he cazado por palavras de presente, ou futuro, tendo jurado, ou prometido receber alguma mulher?

21 Se vem constrangido a tomar Ordens por força, ou medo grave, que lhe faça alguma pessoa?

22 Se he frequente em se confessar, e comungar?

23 Se he natural deste Bispado, ou se nelle se tem feito compatriota?

24 Se tem idade para receber as Ordens, que pretende, como convem a saber: se tem entrado em vinte e dous anos para Epistola, em vinte e três para Evangelho, e em vinte e cinco para Missa?

25 Se está suspenso por se ordenar antes de idade legitima, ou por ser ordenado fora dos tempos determinados por direito, ou sem licença do seu Prelado, ou por falto?

26 Se no Beneficio, Pensão, ou Patrimonio, a cujo titulo se ordena, ha algum engano, pacto, ou simulação, porque não fique seguro, e se dele está de posse pacificamente?

27 Se exercitou algum acto de Ordens estando censurado?

28 Se tem renunciado o Beneficio, ou admitido a Pensão, ou alheado o Patrimonio, a cujo titulo se ordena, o declarem, e digão ao Reverendo Paroco, que esta publicar, em segredo dentro em três dias; e debaixo da mesma pena de excomunhão mayor, nenhuma pessoa maliciosamente o queira impedir. E mando ao reverendo Paroco da sobredita Freguezia lea esta, e publique em voz alta, e intelligivel em sua Estação em hum dia festivo, e depois de lida, e publicada, fixará esta nas portas da Igreja, onde estará três dias continuos, para que chegue à noticia de todos, e findos eles, a tirará, e passará Certidão nas costas desta, da publicação, e fixação, com o teor dos impedimentos das pessoas, que lhe sahirem, as quaes assinarão o seu dizer com ele Reverendo Paroco, e remeterá tudo fechado ao escrivão, que esta sobscreveo. Dada nesta Cidade Marianna, sob o sello da nossa Chancelaria, e final do nosso Reverendo Provisor, o Doutor Ignacio Correa de Sá aos 23 dias do mez de Agosto de mil setecentos 62 annos. E eu Antonioa sobscrevi.

No verso:

“Bernardo Joseph da Encarnação, Presbitero Secular e Coadjutor nesta Parochia de Nossa Senhora da Conceição de Villa Rica & Certifico que em o dia festivo, que contára vinte e quatro do corrente mês de Agosto, a Estação da Missa, denunciei o Mandado de Publicandis retro e, de lido e publicado, o fixei nas portas desta Igreja Matriz, onde esteve três dias continuos e até o presente não me saiu pessoa alguma com impedimento no que nele se faz menção; nem até agora sei de impedimento algum Canonico que impedir possa ao denunciado às ordens que pretende. Por ser a verdade e sendo necessario o juro in verbis sacerdotis. Villa Rica 28 de Agosto de 1762.”

Pois era assim… Naquele tempo, ao dizer: “- Quero ser padre”, o candidato tinha de fazer exame de sangue.

Texto e arte de Eduardo de Paula

Revisão de Berta Vianna Palhares Bigarella

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Post - Auditório Ecles

Do juiz das justificações de genere
e forma que nelas deve guardar

(Extraído do Regimento do Auditório Eclesiástico do Arcebispado da Bahia, ordenado por d. Sebastião Monteiro da Vide, ano de 1853)

“De Juiz das Justificações de Genere servirá quem nós nomearmos, por provisão nossa, e fará sem primeiro ser por nós assinada e selada, com o selo da nossa Chancelaria e jurar perante o nosso Chanceler, como os mais Ministros; e de outra sorte não exercerá o tal cargo.

Os que pretenderem ordenar-se neste nosso Arcebispado, sendo filhos dele, se habilitarão primeiro de Genere; para o que nos farão petição, declarando de quem são filhos; e se são de legítimo matrimônio; de onde são naturais e moradores e dizendo mais nela os nomes de seus avós paternos e maternos; as freguesias e terras; Bispados de onde são naturais e donde são ou foram moradores, e donde trazem suas origens. E depois de ser remetida por nós ao Juiz das Justificações, antes de mandar fazer diligência alguma se informará pelos Párocos, donde os sobreditos forem naturais, secretamente da limpeza do sangue do habilitando, vida e costumes, e da limpeza de seus pais e avós, o que fará por carta sua, que enviará aos Párocos, encomendando-lhes a brevidade, e que o informem por carta cerrada com verdade e segredo, tomando informação com as pessoas que lhe parecer, dando-lhe o juramento dos Santos Evangelhos, para dizerem a verdade e guardarem segredo.

[…] E se o habilitando mudar o apelido (sobrenome) ou a origem de algum ascendente, depois de principiadas as inquirições, lhe será recebida a advertência, mas não se moverá o Juiz das Justificações facilmente a crê-lo, principalmente havendo em aquela parte contra ele má fama, nota, ou suspeita dela; pois se pode presumir que o faz pela excluir; mas informar-se-há da verdade, e esta seguirá não fazendo caso da nova origem, nome, ou apelido, mais que em quanto se verificar por outras inquirições, provas ou razões verossímeis.

[…] Quando for possível, se procurará que as testemunhas se perguntem em lugar secreto, aonde possam declarar livremente o que souberem, […]

Forma dos interrogatórios — […] Se o dito habilitando, seus pais e avós, paternos e maternos, todos e cada um per si foram e são inteiros e legítimos Cristãos velhos e de limpo sangue, sem raça de Judeu, Mouro, Mourisco* (*mouros convertidos), Mulato, Herege, nem de alguma infecta nação reprovada; ou nascidos de pessoas novamente convertidas à nossa Santa Fé Católica, sem haver fama, rumor ou suspeita em contrário, ou se a houve, donde nasceu e de que pessoas.

Se alguma das ditas pessoas incorreu em infâmia alguma, ou de defeito, ou de direito, ou cometeu crime de heresia, ou foi penitenciada pelo Santo Ofício…”

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Post - Mapa CarcassonneCarcassonne

É uma comuna francesa do departamento de Aude, na região do Languedoc-Roussillon, onde existe a cidadela de mesmo nome. A população é de 43.950 habitantes. Situa-se a noventa quilômetros a sudeste de Toulouse, entre os Pirineus e o maciço central francês. Está na encruzilhada de duas vias terrestres em uso desde a antiguidade. A fronteira com a Espanha fica bem próxima, ao sul, e o mar Mediterrâneo, logo à leste. A cidadela, cercada de muralhas, foi construída entre o final do século IX e início do século X. Restaurada no século XIX, seu conjunto arquitetônico está tombado, desde 1997, pela UNESCO, como patrimônio cultural da humanidade.

Post - NomesAlguns nomes de famílias judias e criptojudias(23) 

(Extraídos do Dicionário Sefaradi de Sobrenomes)

A — Abreu Abrunhosa Affonseca Affonso Aguiar Ayres Alam Alberto Albuquerque Alfaro Almeida Alonso Alvade Alvarado Alvarenga Álvares/Alvarez Alvelos Alveres Alves Alvim Alvorada Alvres Amado Amaral Andrada Andrade Anta Antônio Antunes Araújo Arrabaca Arroyo Arroja Aspalhão Assumção Athayde Ávila Avis Azeda Azeitado Azeredo Azevedo

B — Bacelar Balão Balboa Balieyro Baltiero Bandes Baptista Barata Barbalha Barboza/Barbosa Bareda Barrajas Barreira Baretta Baretto Barros Bastos Bautista Beirão Belinque Belmonte Bello Bentes Bernal Bernardes Bezzera Bicudo Bispo Bivar Boccoro Boned Bonsucesso Borges Borralho Botelho Braganca Brandao Bravo Brites Brito Brum Bueno Bulhão

C — Cabaço Cabral Cabreira Caceres Caetano Calassa Caldas Caldeira Caldeyrao Callado Camacho Camara Camejo Caminha Campo Campos Candeas Capote Carceres Cardozo/Cardoso Carlos Carneiro Carranca Carnide Carreira Carrilho Carrollo Carvalho Casado Casqueiro Casseres Castenheda Castanho Castelo Castelo-Branco Castelhano Castilho Castro Cazado Cazales Ceya Cespedes Chacla Chacon Chaves Chito Cid Cobilhos Coche Coelho Collaco Contreiras Cordeiro Corgenaga Coronel Correa Cortez Corujo Costa Coutinho Couto Covilha Crasto Cruz Cunha

D — Damas Daniel Datto Delgado Devet Diamante Dias Diniz Dionísio Dique Doria Dorta Dourado Drago Duarte Duraes

E — Eliate Escobar Espadilha Espinhosa Espinoza Esteves Évora

F — Faísca Falcão Faria Farinha Faro Farto Fatexa Febos Feijão Feijó Fernandes Ferrão Ferraz Ferreira Ferro Fialho Fidalgo Figueira Figueiredo Figueiro Figueiroa Flores Fogaca Fonseca Fontes Forro Fraga Fragozo França Francês Francisco Franco Freire Freitas Froes/Fróis Furtado

G — Gabriel Gago Galante Galego Galeno Gallo Galvão Gama Gamboa Gancoso Ganso Garcia Gasto Gavilão Gil Godinho Godins Góes Gomes Gonçalves Gouvea Gracia Gradis Gramacho Guadalupe Guedes Gueybara Gueiros Guerra Guerreiro Gusmão Guterres

H/I — Henriques Homem Idanha Iscol Isidro Jordão Jorge Jubim Julião

L — Lafaia Lago Laguna Lamy Lara Lassa Leal Leão Ledesma Leitão Leite Lemos Lima Liz Lobo Lopes Loução Loureiro Lourenço Louzada Lucena Luiz Luna Luzarte

M — Macedo Machado Machuca Madeira Madureira Magalhães Maia Maioral Maj Maldonado Malheiro Manem Manganes Manhanas Manoel Manzona Marcal Marques Martins Mascarenhas Mattos Matoso Medalha Medeiros Medina Melão Mello Mendanha Mendes Mendonça Menezes Mesquita Mezas Milão Miles Miranda Moeda Mogadouro Mogo Molina Monforte Monguinho Moniz Monsanto Montearroyo Monteiro Montes Montezinhos Moraes Morales Morão Morato Moreas Moreira Moreno Motta Moura Mouzinho Munhoz

N — Nabo Nagera Navarro Negrão Neves Nicolao Nobre Nogueira Noronha Novaes Nunes

O — Oliva Olivares Oliveira Oróbio

P — Pacham/Pachão/Paixão Pacheco Paes Paiva Palancho Palhano Pantoja Pardo Paredes Parra Páscoa Passos Paz Pedrozo Pegado Peinado Penalvo Penha Penso Penteado Peralta Perdigão Pereira Peres Pessoa Pestana Picanço Pilar Pimentel Pina Pineda Pinhão Pinheiro Pinto Pires Pisco Pissarro Piteyra Pizarro Pombeiro Ponte Porto Pouzado Prado Preto Proença

Q — Quadros Quaresma Queiroz Quental

R — Rabelo Rabocha Raphael Ramalho Ramires Ramos Rangel Raposo Rasquete Rebello Rego Reis Rezende Ribeiro Rios Robles Rocha Rodriguez Roldão Romão Romeiro Rosário Rosa Rosas Rozado Ruivo Ruiz

S — Sá Salvador Samora Sampaio Samuda Sanches Sandoval Santarem Santiago Santos Saraiva Sarilho Saro Sarzedas Seixas Sena Semedo Sequeira Seralvo Serpa Serqueira Serra Serrano Serrão Serveira Silva Silveira Simão Simões Soares Siqueira Sodenha Sodre Soeyro Sueyro Soeiro Sola Solis Sondo Soutto Souza

T/U — Tagarro Tareu Tavares Taveira Teixeira Telles Thomas Toloza Torres Torrones Tota Tourinho Tovar Trigillos Trigueiros Tridade Uchôa

V/X/Z — Valladolid Vale Valle Valença Valente Vareda Vargas Vasconcellos Vasques Vaz Veiga Veyga Velasco Velez Vellez Velho Veloso Vergueiro Viana Vicente Viegas Vieyra Viera Vigo Vilhalva Vilhegas Vilhena Villa Villalao Villa-Lobos Villanova Villar Villa Real Villella Vilela Vizeu Xavier Ximinez Zuriaga

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(1) DE INSULI, Alanus (ou Alain de Lille) −  Lille, *ca. 1128 / Cister, †1202. Teólogo e poeta francês. Pouco se sabe sobre sua vida. — Há quem conteste sua versão de que cátaro vem de catus. Outra hipótese é que teria origem no grego katharós, o mesmo que puro, porque os adeptos pregavam e praticavam uma vida de pureza.

(2) Di SEGNI, Lottario dei Conti (papa Inocêncio III) – *1160 ou 61 / +16.07.1216. Foi papa de 08.01.1198, até a morte. Nascido em família nobre italiana.

Ao assumir o pontificado, convocou o IV Concílio de Latrão, o mais importante concílio da Idade Média, que teve importantes reflexos em diversos campos teológicos. Foi quem convocou a Cruzada albigense e a Quarta Cruzada ao Oriente, assim como uma Quinta Cruzada, que não chegou a presenciar.

(3) WALDO, Peter (Valdo, Valdes ou Waldes, também Pierre Vaudès ou de Vaux) − *c. 1140 †c. 1218. Foi próspero comerciante, em Lyon, até que abandonou as coisas materiais para abraçar uma vida de “perfeição evangélica”.

Post - Tinctor ilustr(4) TINCTOR, Jean − Frade dominicano e membro da Inquisição. / O livro “Sermo contra sectam vaudensium”, foi publicado por volta de1470/80, em Bruges. Foi dos primeiros a relatar o comportamento maléfico dos adeptos da seita dos valdenses. Seus escritos ajudaram na eclosão da cruzada de caça às bruxas. É também um dos dois ou três primeiros livros da história a retratar bruxas voando em vassouras. // Na ilustração (à esquerda), a imagem completa, como está no sermão de Tinctor.

(5) ANAGNI, Ugolino (papa Gregório IX) − Anagni, *ca. 1160 / Roma, †22.08.1241. Foi pontífice de 1227 a 1241.

(6) Isabel I de Castela (*22.04.1451 / †26.11.1504) e Fernando II de Aragão (*10.03.1452 / †23.01.1516). Ela foi rainha de Castela entre 1474 e 1504, rainha-consorte da Sicília a partir de 1469 e de Aragão, desde 1479. Ele foi rei de Aragão, da Sicília, de Nápoles e de Navarra, conde de Barcelona e rei consorte de Castela e Leão. Ambos receberam do papa o direito de serem chamados Reis Católicos.

(7) TORQUEMADA, Tomás de − Valladolid, *1420 / Ávila, †16.09.1498. Frade dominicano, inquisidor geral dos reinos de Castela e Aragão, e confessor da rainha Isabel I, conhecido como “O grande inquisidor”. Em 1452, foi eleito prior do Convento de Santa Cruz, em Segóvia. A ele atribuem a condução de cerca dois mil e duzentos autos-da-fé. Após completar a expulsão dos judeus, Torquemada recolheu-se no convento de São Tomás, em Ávila, onde passou seus últimos anos convencido de que desejavam envenená-lo. Por esse motivo, trazia consigo um chifre de unicórnio, considerado eficaz antídoto. Contudo, faleceu de morte natural.

 (8) BLUTEAU, Rafael – Londres, *04 .12.1638 / Lisboa, †14.02.1734. Filho de pais franceses. Clérigo regular da ordem de São Caetano, chegou a Portugal em 1668. Primeiramente, havia trocado Londres por Paris, com a mãe, fugindo das agitações quando faleceu o rei Carlos I, da Inglaterra. Estudou humanidades no Collège de la Flèche, em Paris e, depois, no colégio dos jesuítas, em Clermont. Frequentou as universidades de Verona, Roma e Paris. Doutorou-se em teologia, em Roma. Na França, destacou-se como pregador. Teria aprendido muito rapidamente a língua portuguesa e distinguiu-se como orador da igreja, sendo muito admirado e respeitado pela corte portuguesa.

(9) HOUAISS, Antônio – Rio de Janeiro, *15.10.1915 / Rio de Janeiro, †07.03.1999. Intelectual brasileiro, filho de libaneses. Professor de português, filólogo, escritor, crítico literário, tradutor, diplomata, enciclopedista, ministro da cultura e membro da Academia Brasileira de Letras.

(10) MEDICI, Giulio di Giuliano de’ (papa Clemente VII) – Florença, *26.05.1478 / Roma, †25.09.1534. Filho bastardo de Giuliano de Médici. Foi um controvertido pontífice, com fama de hábil político e diplomata. Contudo, incapaz de compreender os movimentos religiosos que se formavam e de desenvolver uma política consistente em assuntos seculares. Teve a inusitada atitude de declarar como relíquia o prepúcio sagrado de Jesus e estimular sua veneração, concedendo indulgência aos peregrinos que fossem visitar o relicário. Sua incapacidade de elevar o nível moral da Igreja contribuiu o avanço da Reforma. Clemente VII morreu envenenado, depois de lhe servirem uma refeição à base de Amanita phalloides, um cogumelo altamente tóxico, conhecido também como cicuta verde.

(11) Arquivo Nacional Torre do Tombo, Lisboa – Processo de Luzia Pinta, referência: PT/TT/TSO-IL/028/00252.

(12) Arquivo Nacional Torre do Tombo, Lisboa – Processo de Alberto Monteiro, referência: PT/TT/TSO-IL/028/02693.

(13) Arquivo Nacional Torre do Tombo, Lisboa – Processo de Antônio Álvares Pugas, referência: PT/TT/TSO-IL/028/00256.

Post - Universa Theologia(14) RONCAGLIA, Constantino – “Universa Moralis Theologia”, tomo II, Veneza, 1760 – Título:  “De Confessario Sollicitante”, p. 113 a 119.

(15) OLIVEIRA, Manoel Pinheiro de – Informação no processo: Quarenta e sete anos de idade, vigário da igreja de Nossa Senhora do Pilar das Congonhas, bispado do Rio de Janeiro, clérigo presbítero. Natural de Pinhel, bispado de Viseu. Residente no arraial das Congonhas, termo de Sabará, Minas Gerais, bispado do Rio de Janeiro. Filho de José Rodrigues Brás e de Clara Pinheiro. O réu formou-se na faculdade dos Sagrados Cânones, universidade de Coimbra. Data da prisão: 12.12.1742. Sentença: auto-da-fé privado de 01.07.1744. Abjuração de leve, privado de confessar, para sempre, suspenso do exercício de suas Ordens, por oito anos, e pelo mesmo tempo degredado para fora do bispado do Rio de Janeiro, não poderia entrar mais na freguesia de Nossa Senhora do Pilar das Congonhas, instrução na fé católica, penitências espirituais e pagamento de custas. Por despacho de 09.09.1746, foi levantada ao réu a suspensão do exercício das suas ordens, para que pudesse dizer missa. / Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 8123 / Código: PT/TT/TSO-IL/028/08123.

(16) Arquivo Nacional Torre do Tombo, Lisboa – Denúncia de Catharina Angola contra o padre João Rodrigues Viegas, referência: PT/TT/TSO-IL/028/13495.

(17) Audiência Geral do Papa Francisco, 02.10.2013, Praça de São Pedro − Cari fratelli e sorelle, buongiorno! […] “Come può essere santa una Chiesa così?”. — “Per rispondere alla domanda – ha osservato – vorrei farmi guidare da un brano della Lettera di san Paolo ai cristiani di Efeso. L’Apostolo, prendendo come esempio i rapporti familiari, afferma che ‘Cristo ha amato la Chiesa e ha dato se stesso per lei, per renderla santa’ (5,25-26). Cristo ha amato la Chiesa, donato tutto se stesso sulla croce. E questo significa che la Chiesa è santa perché procede da Dio che è santo, le è fedele e non l’abbandona in potere della morte e del male (cfr Mt 16,18) E’ santa perché Gesù Cristo, il Santo di Dio (cfr Mc 1,24), è unito in modo indissolubile ad essa (cfr Mt 28,20); è santa perché è guidata dallo Spirito Santo che purifica, trasforma, rinnova. Non è santa per i nostri meriti, ma perché Dio la rende santa, è frutto dello Spirito Santo e dei suoi doni. Non siamo noi a farla santa: è Dio, è lo Spirito Santo, che nel suo amore, fa santa la Chiesa!”. — “Voi potrete dirmi: ma la Chiesa è formata da peccatori, lo vediamo ogni giorno. E questo è vero, eh! Siamo una Chiesa di peccatori; e noi peccatori siamo chiamati a lasciarci trasformare, rinnovare, santificare da Dio. C’è stata nella storia la tentazione di alcuni che affermavano: la Chiesa è solo la Chiesa dei puri, di quelli che sono totalmente coerenti, e gli altri vanno allontanati. Questo non è vero! Questa è un’eresia. La Chiesa, che è santa, non rifiuta i peccatori; non rifiuta tutti noi! Non rifiuta, perché chiama tutti: li accoglie, è aperta anche ai più lontani, chiama tutti a lasciarsi avvolgere dalla misericordia, dalla tenerezza e dal perdono del Padre, che offre a tutti la possibilità di incontrarlo, di camminare verso la santità. […]

(18) BARBERINI, Maffeo (papa Urbano VIII) – Florença, *05.041568 / Roma, †29.07.1644. Pontificado de 06 .08.1623 até 29.07.1644. Oriundo de  família florentina de grande influência.

(19) Em Portugal, para dar início à habilitação de Genere, era necessário o depósito da quantia necessária para despesas. Desde 1842, os recibos eram assinados pelo tesoureiro da Mitra e o comprovante de pagamento passava a constar da instrução do processo. Iniciava-se com a petição do habilitando, dirigida ao bispo da sua diocese, onde constava a filiação, a naturalidade dos pais, nomes e naturalidade dos avós paternos e maternos. Depois, fazia-se a inquirição de testemunhas e emitia-se certidão das declarações feitas, juntando-se as certidões de batismo do habilitando e de seus ascendentes, as certidões de casamento dos pais e avós, podendo ainda constar as declarações dos ofícios dos pais e avós paternos e maternos, as cartas de compatriota, entre outros documentos. A sentença confirmava, ou não, a informação genealógica do habilitando.

(20) MELO, Sebastião José de Carvalho e (marquês de Pombal) – Ministro de d. José I. Por sua influência, em 25.05.1773, o rei promulgou uma lei abolindo as diferenças entre cristãos-velhos e cristãos-novos, além de revogar decretos e disposições discriminatórias contra os cristãos-novos. As penalidades pelo simples uso do termo cristão-novo, por quem quer que fosse, por escrito ou oralmente, eram rigorosas. Se partisse do povo, açoitamento em praça pública e banimento para Angola; dos nobres, perda dos títulos, cargos, pensões e condecorações; do clero, banimento de Portugal. Em 01.10.1774, a lei foi regulamentada por decreto, sujeitando os veredictos do Santo Ofício à sanção real. Com essa restrição, deu-se um golpe mortal na Inquisição portuguesa, mas a extinção formal só ocorreu em 1821, durante seção das Cortes Gerais.

(21) Mandado de publicandis de Antônio Martins Fagundes Filho, arquivado no Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

(22) A igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição está situada no bairro de Antônio Dias (Ouro Preto), um dos mais antigos arraiais e precursor da antiga Vila Rica. A edificação primitiva datava de 1705, mas dela nada restou. A partir de 1727, sob a supervisão do mestre de obras Manuel Francisco Lisboa, pai de Aleijadinho, iniciou-se a construção da que atualmente existe.

(23) Criptojudeu − Aquele que pratica secretamente a religião judaica. / Cripto vem do grego kriptein (esconder-se). Daí, cripta: sala, caverna, antro ou galeria subterrânea, como em uma igreja. Santos e mártires eram frequentemente enterrados em criptas. Pelo mesmo motivo, criptografia significa escrita feita em paredes de cavernas.

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4 Comentários »

  1. Eduardo:
    Mais um artigo bem interessante. Sua pesquisa mostra com exemplos brasileiros e mineiros os exageros cometidos durante a Inquisição. Belo trabalho!

    Comentário por João Vianna — 01/11/2013 @ 10:21 am | Responder

    • Olá João:
      É isto mesmo, vamos vivendo e aprendendo. Muito obrigado.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/11/2013 @ 10:39 am | Responder

  2. Espetacular. Para ler e salvar! Para mim, duplamente interessante, porque faz alguns anos que venho estudando sobre os cátaros. Tenho profunda identificação com esse povo. Se realmente vivemos várias vidas, com certeza fui um deles. :) Fiquei sabendo agora da origem celta, o que ainda não tinha visto e que torna tudo ainda mais interessante, pois também tenho uma coisa que me puxa para os celtas. O que me espantou sobre eles foi ver o tanto que eram evoluídos naquele tempo. Isto é, as mulheres tinham o mesmo valor que os homens! Ninguém se casava… e pode crer que isso para mim é evolução, conviviam com pessoas de qualquer crença… e, ainda por cima, eram vegetarianos. A teoria de que existe um Deus bom, que nada tem a ver com o Deus divulgado pelo Vaticano, dá sentido a essa vida. Agradeço por me dar mais preciosas informações sobre eles, que não gostavam do nome cátaros, por motivos justificáveis, agora que sabemos o que queria dizer. A propósito, adoro gatos. Não contente de me proporcionar tanto material para ler, por dias e dias, vem de quebra a parte da inquisição portuguesa, espanhola e brasileira. Olha, eu descendo de cristãos-novos. Família Mendonça e também Abreu. E de onde vieram os Mendonça? Do Allambra. De modo que, ainda, tenho mais coisas para ler com vagar e apreciação. Obrigada e parabéns.

    Comentário por Virginia Abreu de Paula — 06/11/2013 @ 1:59 pm | Responder

    • Virgínia: Também eu, quando pesquiso para escrever meus textos, tenho aprendido muito. Sinto que ainda há muita história escondida. Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 08/11/2013 @ 9:40 am | Responder


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