Sumidoiro's Blog

01/01/2014

VISITA AO SUMIDOURO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:40 am

♦ Setenta e nove anos atrás

No ano de 1916, um sacerdote italiano foi enviado a Havana Cuba para trabalhar como diplomata, adido na sede da nunciatura apostólica de Cuba e Porto Rico, ali permanecendo até 1920. Depois disso, percorreu vários países da América Latina, trabalhando tanto em missões da igreja quanto em pesquisas etnológicas, arqueológicas e históricas. Esteve na Colômbia, Honduras, México, Guatemala, San Salvador, Nicarágua, Chile, Bolívia, Brasil e Paraguai, onde faleceu em 1954. Seu nome: monsenhor Federico Lunardi, diplomado em filosofia, teologia, direito civil e canônico, além disso, um pesquisador nato.

Post - Lunardi & casa B GatoMonsenhor Federico Lunardi e a casa de Borba Gato (montagem sobre foto de Tibor Jablonsky)

Ávido de conhecer populações indígenas, Lunardi não poupou esforços para atingir os mais longínquos lugares. Enfrentou condições precárias em inúmeras viagens, muitas vezes viajando em montaria a cavalo. No Brasil, onde permaneceu de 1931 a 1936, dedicou-se a investigar os caiapós, carajás, xavantes e bororos. No ano de 1935, interessado em arqueologia, visitou a região do Sumidouro (MG) e, em 1948, publicou(1) um texto sobre sua experiência. Nesse trabalho, revela o que ali viu e ouviu, ao mesmo tempo que discorre sobre o passado do lugar, que foi palco de acontecimentos envolvendo, o bandeirante Borba Gato(1), preposto do seu sogro Fernão Dias(2), que se ausentara viajando pelo sertão à cata das esmeraldas.

Depois de conhecer o sítio arqueológico do Mocambo − hoje faz parte de Matozinhos (MG) −, dirigiu-se à vila do Fidalgo (novo), depois atingiu a Quinta do Sumidouro, em seguida o Fidalgo (antigo) e, finalmente, Lagoa Santa. Para bom entendimento, é importante distinguir os dois povoados, pois que o Fidalgo, dito antigo, hoje é apenas uma fazenda no município de Lagoa Santa. A origem do nome vem do personagem que, no ano de 1681, tumultuou o cotidiano daquele pedaço de chão, o fidalgo espanhol d. Rodrigo de Castel Blanco. Era ele administrador-geral, enviado pelo príncipe regente de Portugal, para inspecionar os trabalhos em busca das minas.

Post- Caminho de LunardiPercurso de Lunardi, do Fidalgo(novo) a Lagoa Santa.

O nobre representante fracassou na sua tarefa, porque se desentendeu com Borba Gato, tendo sido assassinado por ele ou por seus comandados. E esta última possibilidade é a que tem sido a mais aceita pelos historiadores. Dizem que morreu, com tiros de arcabuz, atocaiado no alto − ou cerro − de um caminho que liga a Quinta do Sumidouro a Lagoa Santa. No mesmo lugar foi enterrado e ali erigiram uma cruz de madeira pela memória do infeliz. Desde então, sempre que o lenho apodrece, alguma pessoa caridosa o substitui e lá está, para quem quiser ver, pertinho da fazenda do Fidalgo (antigo).

Embora contenha alguns equívocos de interpretação, o relato de Lunardi é uma cativante aula de história, porque discute fatos até hoje controversos. Importante é que o faz citando documentos e confrontando testemunhos. Por outro lado, ao se referir a uma casa da Quinta do Sumidouro, abriu uma polêmica, ao dizer que ouvira, do então proprietário, ter ela pertencido a Borba Gato e não a Fernão Dias, como quiseram outros. Perdoando alguns pequenos escorregões, vale a pena ler o seu texto, que vai aqui resumidamente.

Assim Lunardi descreve o Sumidouro:

Post - Lunardi miniatura

A REGIÃO DAS LAPAS

Depois de ter percorrido a estrada que de Belo Horizonte leva a Mocambo, dei a volta pela Lagoa Santa e Vespasiano, para regressar à capital mineira. Nessa região, a pré-história convida a meditar sobre o homem das cavernas no Brasil, porque é ali […] um dos seus mais pitorescos lugares – donde viveu e morreu, e assentou sua tumba, o primeiro e mais importante pesquisador e vulgarizador dessa região, o dr. Lund. É nessa região que parece se tem chegado a juntar as imensas, profundas e belíssimas cavernas calcárias do Brasil. Nesse caminho, passei pelo Sumidouro, às nove horas da manhã, do dia onze de setembro de 1935. Desde a estrada, que dá uma volta muito grande, se distingue, no fundo, a lapa do Sumidouro, nome que lhe deu o bandeirante.

Diogo de Vasconcelos(4), contradito com muita razão por Taunay(5), o chama com o nome de Anhanhonhacanhura, que quer dizer “água parada que some no buraco do mato”, cuja palavra e tradução alteradas foram derivadas do poema “Vila Rica”, de Cláudio Manuel. Seja o que for, na lapa do Sumidouro é verdade que a água chega a desaparecer para, depois, reaparecer, não muito longe, pelo rio das Velhas, ao passo que, no tempo das chuvas, a água enche a bacia e forma uma lagoa de duas léguas de circunferência. Quando eu passei a lagoa estava seca.

Post - Lagoa Sumidouro LunardiLagoa do Sumidouro. No morrete, à esquerda, fica a lapa em que a água escoa.

A SERRA DAS PEDRAS BRANCAS FULGURANTES

A estrada dá volta e começa a subir; a lapa do Sumidouro desaparece da nossa vista, porque o caminho corre atrás da lapa, que assim está, coberta pelo terreno da roça. Aqui o cascalho, as pedras fulgurantes, semeadas por todo o cerro, não são verdes, senão brancas, passando pelo amarelo rosado; tudo aí dá a impressão que a serra é de ouro e de prata. Chegamos ao povoado, que está formado quase exclusivamente de uma casa, ao largo da via, à direita(6), e de uma igrejinha* (*Capela de Nossa Senhora do Rosário)(7), de estilo barroco colonial. O altar-mor tem suas quatro colunas douradas, talhadas em espiral, na forma salomônica. A porta do tabernáculo é redonda, em forma de grande hóstia. Dizem que seja do Aleijadinho. A casa foi de Borba Gato.

Post - Casa Borba Gato frenteCasa de Borba Gato, antes de ser batizada como Casa de Fernão Dias (foto de Lourival).

A QUINTA DO SUMIDOURO

O arraial do Sumidouro está semeado de antigas macaúbas, ou coqueiros, que formam uma paisagem toda particular. O senhor Antônio da Costa Leite e Silva(8), proprietário da casa de Borba Gato e da chácara de Fernão Dias Pais, mostrou todos os lugares mais curiosos dessa terra histórica, onde parecia que os fatos tinham passado ontem. A casa de Borba Gato estava em reparação. Foi pintada novamente; porém, a construção é  ainda a mesma que fez esse genro de Fernão Dias. Efetivamente, as portas de madeira, dura e antiga, conservavam ainda a sua cor primitiva de terra amarela opaca, e as umbreiras, e as vergas, pintadas diferentemente, com uma cor de terra rosada escura, segundo o uso do tempo.

Post - Casa de BorbaFundos da casa de Borba Gato (foto de Lourival).

Continuando a caminhar detrás da igreja, vê-se a primeira roça de Fernão Dias: em baixo está à vista o rio das Velhas e, na outra parte do rio, aparece o assento(9) de Sabará. Toda a terra é de cor rosada, com muito cascalho resplandecente.

Na Quinta, à direita do caminho, um pedaço fechado de terra conserva ainda na escritura o nome de “chácara”, é neste recinto que se observam grandes plataformas de pedra, ou de cimento e, cá e acolá, pedras antigas lavradas. Na Quinta do Sumidouro, como também no rio das Velhas, se vêm, ainda, muitas catas e lavras de ouro; em baixo, há registro de água e aterro para lavragem de ouro ligado com a lavra; existe ainda, na Quinta, o rego, ou canal, por onde passava a água que vinha do Sumidouro e corria para a lavra.

A PRIMEIRA CAPELA

À direita, na trilha, em frente da “chácara”, se conserva  quase intacto um pequeno forno, bem construído, para cozer os tijolos e, mais adiante, afloram da superfície do solo, salientando por uns trinta centímetros, os restos dos quatro postes de madeira dura, antiga, de cor vermelha escura, ficando em quadriláteros (vide nota abaixo). Um dos paus ocupa o meio da trilha e a distância, entre uns e outros, será de dois metros e meio. Corroídos pelo tempo e quase desaparecendo, assinalam o lugar onde ficou a primeira capela de Minas Gerais, que Fernão Dias fez levantar perto da casa de Borba Gato, na Quinta de São João do Sumidouro, que foi o primeiro e verdadeiro povoado desta terra das esmeraldas. Assim informou o culto proprietário, sr. Antônio da Costa Leite e Silva. Aliás, parece que não existem documentos que provem exatamente este descrito.

NOTA Resto de madeira da primeira capela de Minas na Quinta do Sumidouro, oferecido ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro por monsenhor Federico Lunardi, membro correspondente do Instituto […] leva a data de 11 de setembro de 1935. Nesse dia, acompanhado pelo ilustre filho da terra mineira, monsenhor Carlos Vasconcelos, bispo auxiliar de Algisa, e pelo padre João Crisóstomo de Andrade, vigário de Matozinhos do rio das Velhas, dando uma volta para visitar […] Lagoa Santa, semeada de importantes lapas e cavernas calcárias, não quis deixar de conhecer o Sumidouro. Nesse lugar, de história quase lendária, foram mostrando lugar e restos da primeira capela de Minas Gerais. […] tiramos três lascas de madeira de cor vermelha escura, que ainda ficam na que foi, no tempo de Fernão Dias Pais, a Quinta de São João do Sumidouro. Um pedaço foi destinado ao Instituto Histórico Mineiro; outro se tirou para o museu que, na cidade de Mariana, fundou e dirige […] d. Helvécio Gomes de Oliveira. O terceiro, maior, me foi entregue – ei-lo aqui – para ser conservado no museu deste secular Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.     

Post - Capela N S Rosário lateralCapela de Nossa Senhora do Rosário (a segunda): atrás dela ficava a roça de Fernão Dias.

Para supor que esse quadrilátero, do qual falei […] foi uma capela – a primeira capela de Minas – é necessário demonstrar que os capelães, que acompanharam a bandeira, chegaram até o Sumidouro. […] Seja o que for, os dois capelães, ainda que repartissem o trabalho entre as várias turmas dos sertanejos da jornada, deveram estabelecer um ponto de partida no Sumidouro, no qual havia a Quinta de Fernão Dias e uma espécie de povoação quase estável, que servia à roça e à bandeira. Portanto, chegaram seguramente os dois padres ao Sumidouro e, ali, estabeleceram sua capelinha, de uns dois metros e meio de lado, coberta seguramente de palha. E, no documento citado, da câmara de São Paulo, os padres aparecem como os últimos a abandonar a Fernão Dias. […] No Sumidouro reuniu-se a primeira população estável de Minas Gerais e ele deve ter sido o ponto principal de apoio, para o descobrimento das minas das esmeraldas. Aqui foi semeada a raça de Fernão Dias, que ainda leva o nome de Quinta do Sumidouro.

E Lunardi procura decifrar o assassinato do administrador-geral:

Post - Lunardi miniaturaO FIDALGO

D. Rodrigo era espanhol. Desde 1673, exercia o cargo de procurador de Minas, de São Paulo e São Vicente, com pouco lucro e grandes despesas, sem nenhuma sorte. Sem saber que havia falecido, o príncipe havia-o deposto, por ordem de 23 de dezembro de 1682. Aliás, este fidalgo era de estorvo em São Paulo. Dificuldades grandes passou, antes de encontrar quem o acompanhasse ao Sumidouro e Matias Cardoso(10), parece que o acusou ao rei. Os índios fugiam e as pedras preciosas apareciam em São Paulo em mãos de diversos indivíduos.

Derby(11) afirma que o grande serviço de Fernão Dias “foi iniciar o sistema de estabelecer celeiros, de modo a dar maior permanência aos caminhos abertos, incluindo um ponto, pelo menos, de ocupação permanente, o do Sumidouro, onde ficou Borba Gato com parte da expedição”. O ilustre geólogo, ao examinar a questão topográfica da lendária Sabarabuçu, parece reconhecer a identidade do Sumidouro com o lugar que atualmente leva este nome, perto da Lagoa Santa e do arraial do Fidalgo(12). “Este nome, conforme uma tradição referida por uma das testemunhas do processo de Tiradentes, comemora a morte violenta de um fidalgo e governador, que não pode ser outro senão d. Rodrigo Castelo Branco, morto pelo pessoal de Borba Gato, perto do seu posto de Sumidouro”.

E que o Sumidouro fosse importante se deduz da atestação de d. Rodrigo, ao receber o oferecimento das roças das mãos do filho de Fernão Dias: “podia o dito administrador mandar tomar posse das ditas feitorias e mantimentos e, parece, quando quisesse, com toda sua tropa para o areal* (*areial? arraial?) do Sumidouro, no qual eu vi e achei, abundantemente, criação e mantimentos de toda sorte, de que fiquei maravilhado e muito contente, por ser, naquele deserto, nesso* (*imediatamente) para sustento e muito importante para serviço em que andamos”.

E, noutro documento, firmado no mesmo Sumidouro, por d. Rodrigo, se acrescenta:

“… y asi mesmo allé en esta Rosa del Sumidouro abundansia de milio e fregon y prinsipio de mandioca, como tambien criason de Puercos q. el dicho Gobernador Fernan Dias Paes abia mandado fabricar por sus esclabos, y con grandes dispendios de su azienda en esmeraldas”.

Post - Morte Fernão DiasA morte de Fernão Dias, por Antônio Parreiras (detalhe).

[…] Por outra parte, na câmara municipal de São Paulo, no primeiro de setembro de 1681, ao apresentar o enviado d. Rodrigo de Castelo Branco o saquinho com as esmeraldas de Fernão Dias, o escrivão municipal assentou: “Foram descobertas pelo governador Fernão Dias Pais, no reino dos Patachos […] Já ia recolher-se ao Arsenal do Sumidouro(13), quando adoecera em caminho, morrendo com muita parte dos seus índios domésticos.” Então, relatou o ajudante Cunha que o cerro das esmeraldas estava sob a vigilância de José Castilho, “havendo ainda a expedição de Fernão Dias Pais estabelecido roças em dois pontos, além do Sumidouro”.

Post - Cruz do fidalgo← Cruz do fidalgo (em 1990), do livro “Memórias de Lagoa Santa”.

A CRUZ DE MADEIRA DO CERRO DO FIDALGO

Seguindo o caminho do Sumidouro a Lagoa Santa, passa a estrada aos pés de uma pequena elevação arredondada, como um montículo nem de grande altura, nem de grande extensão. À direita, na margem do caminho, havia uma cruz de madeira, mais alta que dois metros e meio, de que quando eu passei restava somente o sinal, porque, desde pouco, se havia queimado.

Era costume, como ainda hoje, colocar essa memória; e para que os transeuntes rezassem uma prece pelo defunto, se fixava à vista na beira do caminho, embora o fato tivesse acontecido mais afastadamente. É o caso, no caso do assassínio do Fidalgo. Diz-se que o Fidalgo vinha pelo caminho da Lagoa Santa e que o Borba Gato, que morava  no Sumidouro, o estava observando, desde a elevação do cerro que, aliás, atualmente não está coberto de mato e, parece que, naquele tempo tampouco, tendo uma altura de setecentos a oitocentos metros sobre o nível do mar.

Na esplanada houve discussão: a certo ponto Borba Gato sacou o arcabuz, atirou e matou o fidalgo. Esta tradição é possível. Impossível é a cena descrita por Pedro Taques(14) e reproduzida por Setúbal(15), de que Borba Gato deu um empurrão a D. Rodrigo e o atirou do alto de uma cata, resultando a morte. Impossível, porque no cerro do Fidalgo não há alturas que o permitissem atirar para baixo. Nem havendo mato, como parece, era difícil poder atirar com o arcabuz sem ser vista. Que o fato tivesse acontecido na estrada é coisa mais natural. A cruz de madeira estaria posta no mesmo lugar. Mas não há provas. Será difícil have-las. Como bem declara Taunay […]

Segundo reza a tradição local, o cerro do Fidalgo recebeu este nome pela morte violenta acontecida ali do fidalgo d. Rodrigo de Castel Blanco. Pedro de Taques, na sua “Nobiliarchia Paulistana” […], faz a narrativa da bandeira de Fernão Dias e da entrada de d. Rodrigo, seguida de sua morte (setembro ou outubro de 1682, segundo Taques):

“Estando em São Paulo Matias Cardoso de Almeida, chegou, em 1680, o dito administrador geral d. Rodrigo de Castelo Branco, a dispor a sua jornada para o sertão da serra de Sabarabuçu, a que vinha mandado pelo sereníssimo príncipe senhor d. Pedro. […] D. Rodrigo saíra da Bahia com d. Jorge Soares de Macedo e trinta soldados de sua guarda; no Rio de Janeiro recebeu mais vinte soldados e um alferes. Trouxe por capitão-mor o Revmo. Félix Pais Nogueira, provido na Bahia, a 3 de setembro, com 83$920, por ano. Chegou à vila de Santos, em novembro de 1678. Para fazer a sua estrada para Sabarabuçu, levou a Matias Cardoso de Almeida, com patente de tenente-general, e lhe passou patente em São Paulo, em 28 de janeiro de 1681.

Post - Casa Borba reformadaEdificação restaurada e batizada como o nome de Casa de Fernão Dias (museu).

Marchou d. Rodrigo à direita do sertão e aportou ao arraial de São Pedro, onde veio a encontrar d. Garcia Rodrigues Pais(16). Já ali o achou nas matas do rio Paraipeba, no dia 26 de junho do dito ano […] Depois que chegou d. Rodrigo, voltou Garcia Rodrigues para o seu arraial do Sumidouro, ao qual chegou depois o dito d. Rodrigo, para tomar posse dele e dos mais arraiais que lhe havia oferecido; e também tomou posse, em nome de Sua Alteza, de todos os cerros, dos quais o governador Fernão Dias havia extraído esmeraldas.

Isto foi o que unicamente obrou d. Rodrigo todo o tempo que lhe durou a vida, até o mês de setembro de 1682, com tantas e tão avultadas despesas que, já antes do seu falecimento, tinham chegado notícias nos reais ouvidos de Sua Alteza, que se dignou mandar recolher, ao sobredito d. Rodrigo, por ter vindo a conhecer a sua nulidade.

Entre os paulistas que se achavam no sertão das esmeraldas e arraial do Sumidouro, era Borba Gato (depois lugar-tenente-general-do-mato em Minas Gerais, pelos anos de 1708), que, observando a inação de d. Rodrigo […], sem se aplicar a fazer entradas no sertão, para com os exames se descobrir o desejado fim, para que Sua Alteza o havia despachado, com tantas honras e mercês, distribuindo-se e consumindo-se da sua real fazenda uma muito considerável soma de dinheiro, com alguma liberdade lhe estranhou, ao dito Borba, o amortecimento em que se achava, desde que chegara àquele sertão, aplicando-se só a mandar fazer caçadas de aves e animais terrestres, para o regalo e grandeza de sua mesa e, travando-se de razão menos comedida, o sobredito Borba se precipitou tão arrebatado de furor que, dando em d. Rodrigo um violento empuxão, o deitou ao fundo de uma alta cata, na qual caiu morto.

E chegando a São Paulo está notícia, os oficiais da câmara deram conta a Sua Alteza, em carta de 2 de novembro de 1682.”

Post - Fidalgo novo Lagoa do Sumidouro e arraial do Fidalgo (novo), ao fundo. 

O MISTÉRIO NA TRAGÉDIA

O que conta Pedro Taques está baseado nos documentos do Arquivo da Câmara de São Paulo, da Secretaria do Conselho Ultramarino e outros documentos respeitáveis. Porém, como esses documentos tinham por base os dizeres e interesses particulares, em certos casos devem ser examinados e confrontados com outros, submetidos à devida crítica. Paulo Setúbal, no seu livro “O sonho das esmeraldas”, parece admitir a versão de Taques, porém a comenta com a nota seguinte:

“Bento Fernandes, na Memória, compilada por Silva Pontes, diz que d. Rodrigo, em meio à altercação que teve com Borba gato, foi alvejado e morto por dois pagens deste. Taques, porém, que é muitíssimo fidedigno, dá ao caso a versão acima que partilhamos”. Estamos, pois, diante de duas versões. Numa delas, tem por base o exame da topografia, sem o qual, neste caso, nada se pode adiantar.

A magistral obra de Basílio de Magalhães(17) (“Expansão geográfica do Brasil colonial”) deixa inata a dúvida:

“Ou porque o fidalgo castelhano – diz Basílio de Magalhães – lhe exigisse os petrechos bélicos e obediência igual à que lhe rendera Garcia Rodrigues, ou por qualquer outro motivo até hoje ignorado, – o certo é que, entre os dois, se abriu conflito e d. Rodrigo ali tombou exânime, em fins de outubro de 1681, ou no fundo abrupto de uma cata, a um empurrão de Borba Gato (como narra Taques), ou varado por uma carga de trabuco, que o paulista destemeroso, ou um dos seus pagens (esta, talvez, uma atribuição posterior dos interessados em inocentar o Borba), lhe apontara ao peito”.

No entanto, é de observar que Pedro Taques não fala de pólvora, senão de que Borba Gato “observou a inação de Castel Blanco… aplicando-se só a mandar fazer caçadas de aves e animais terrestres para o regalo e grandeza da sua mesa“. Também deve considerar-se que o assassínio se deu a um ano de distância da morte do bandeirante, quando já d. Rodrigo havia tomado posse de todas as fazendas, minérios e cereais. Portanto, é necessário buscar alguns outros argumentos e razões para dar solução ao assunto. Enquanto a narração, imaginada por Diogo de Vasconcelos, na sua “História Antiga de Minas Gerais”, está completamente destruída por Taunay […].

Verdade é que, enquanto o filho de Fernão Pais, no arraial do Sumidouro, entregou todos os bens que havia no Sabarabuçu, ao contrário o padre João Leite da Silva, irmão do descobridor das esmeraldas, protestava contra a intrusão de d. Rodrigo e pedia se impedisse, a quem quer que fosse, a ida às terras das esmeraldas, descobertas por seu irmão (Conforme Taunay).

Entre as duas versões existe uma terceira, na comunicação feita pelo governador fluminense ao Conselho Ultramarino […] segundo a publicação na “Paulística”, de Paulo Prado(18) […]. Diz: “Em 28 de agosto, do mesmo ano, mataram a d. Rodrigo de Castel Blanco, administrador das minas, indo marchando por uma estrada, lhe deram três tiros no mato e, logo, caíra morto, e que inda não se sabia quem fossem os matadores”.

Post - Cap Fidalgo 2 temp Dois tempos: capela de Santana, no Fidalgo (antigo), em Lagoa Santa.

A DATA DA MORTE DO FIDALGO

Ainda sobre a data da morte não concordaram, até agora, os autores. Diogo de Vasconcelos a marca em 20 de outubro. Basílio de Magalhães […] aceita que “a morte do Fidalgo espanhol ocorreu em fins de 1681 e foi devida a um ato de violência, praticado por Manuel de Borba Gato − fato que se atribui, também, a um dos pagens ou escravos deste famigerado paulista”. Alfredo Ellis (Júnior)(19) […] assegura que “a morte do fidalgo espanhol teve lugar, porém, em meados de 1682,” […] como, com muita razão, afirma […] Pedro Taques, e não em fins de 1681, como pretendeu corrigir o grande Basílio de Magalhães.

A data verdadeira, porém, do assassínio de d. Rodrigo encontrou-se num papel do Arquivo da Marinha e Ultramar, do governador fluminense Duarte Teixeira Chaves ao Conselho Ultramarino, papel publicado pela primeira vez por Paulo Prado, em sua “Paulística”:

“Senhor, o Governador do Rio de Janeiro, Duarte Teixeira Chaves, em carta de 25 de Novembro do anno passado dá conta a Vossa Alteza em como tivera aviso do sertão de S. Paulo que, em 28 de agosto do mesmo anno, mataram a D. Rodrigo de Castel Blanco, administrador das Minas, hindo marchando por uma estrada lhe deram tres tiros do mato, e logo caira morto e que ainda não se sabia quem fossem os matadores. Que ao Ouvidor Geral daquellas Capitanias que se achava em correição na villa de Santos, fizera aviso tirasse inteira informação deste caso, para o dar a Vossa Alteza, e soubesse si ficára alguma fazenda que pertencesse a Vossa Alteza, do que escreveu, do que escreveu o Governador do Rio de Janeiro, Duarte Teixeira Chaves, de matarem a D. Rodrigo de Castel Blanco, administrador das Minas e do que ordenar sobre este particular. / Lisboa, 29 de Abril de 1683”.

A carta citada vem a resolver a questão da data do falecimento. Porém outra, da câmara de São Paulo, escrita anteriormente, em 2 de novembro do mesmo ano, explica porque das demoras em dar notícia ao rei. Diz assim […]:

“A 21 de outubro deste presente anno veiu por leves noticias vulgarmente* (* pela boca do povo) que haviam morto o administrador geral das Minas D. Rodrigo de Castel Blanco na paragem chamada Sumidouro, distante desta villa mez e meio de viagem, e como andava no real serviço de Vossa Alteza, o que se tem averiguado ser certa a morte, e não termos mais conhecimento nem nos consta que pelas noticias, nem sabermos que cometesse o delito nos pareceu dar conta a Vossa Alteza deste sucesso que, como leaes vassallos não devemos faltar em seu real serviço a cuja vida prospere o ceu felizes annos para amparo de sua monarchia”. 

Post - Tiro de arcabuzAtirando com arcabuz.

Assim se sabe porque a notícia da morte, acontecida em 28 de agosto, foi conhecida em São Paulo somente a 21 de outubro; e, para que chegasse a São Paulo, necessitava um mês e meio; empregou ainda mais tempo para se conhecer no Rio de Janeiro, donde a pôde o governador enviar ao Rei, em 25 de novembro. Não foi demora grande, não, porque, como se explica nas cartas referentes, foram feitas também investigações, porém, inutilmente, e a notícia da morte de D. Rodrigo chegou incompleta.

Morto o fidalgo, o que mais importou do assassínio foi por a salvo tudo o que podia pertencer à fazenda real e informar à corte. Os autores do delito, [foram] completamente ignorados, ainda que fosse indicado Borba Gato como autor ou mandante; e ele pertencendo a todos: parentes ou amigos. Não havia nada que fazer.

Do assassínio do fidalgo não ficou senão a memória no nome do cerro ou morro do Fidalgo, perto da outra memória: o Sumidouro. Ficou outro sinal: a cruz de madeira, na beira do caminho que leva ao arraial de São João do Sumidouro.

Post - Borba Gato no SumidouroBorba Gato, senhor do Sumidouro. / No morrete, ao fundo, fica a lapa onde a água desaparece.

Lunardi explora também o lado do mandante ou autor do crime:

Post - Lunardi miniaturaBORBA GATO

O genro do descobridor das esmeraldas, Borba Gato, foi apresentado como tipo do homem arrebatado e arrogante, pelo fato de haver sido suspeitado autor ou mandante do assassínio do Fidalgo.

Paulo Prado escreve que “por prudência, ou com a consciência pouco tranquila, homiziou-se nos sertões da Bahia, longe da margem direita do rio São Francisco … Ali − reza a tradição − nos sertões do rio Doce, viveu entre a indiada, chegando a ser cacique de uma tribo. Mais tarde, contando com a proteção de amigos e da família poderosa, passou-se para as cercanias de Pindamonhangaba, num canto discreto entre a serra do Mar e a vila de Paraitinga. Ao findar o século XVII, o governador Artur de Sá e Meneses obteve-lhe o perdão real e o posto de tenente-general. Na clássica longevidade de paulista antigo, morreu aos noventa anos, na sua fazenda de Paraopeba”. 

Félix Guizard Filho(20) (conforme Taunay), estudando melhor o caso, pensa que “ainda não chegou o tempo de falar com segurança”: em todo o caso, na linha de Ubatuba tinha e aí parece, viera sua família. O que em todo caso não deixa dúvida, foi a boa vontade do governador. Não sei se foi porque seu cunhado, Garcia Rodrigues Pais, intercedera em seu favor, como comenta Guizard; ou pela valiosa cooperação que ele podia oferecer ao descobrimento das minas, como efetivamente aconteceu, achando em 1700-1701 as minas de ouro, das quais sacou um presente de trinta arrobas desse metal para o governador, que o levou ele mesmo para Portugal.

Basílio de Magalhães, referindo esta versão, supõe que o Borba Gato nunca foi perdoado pelo rei; nem se perdoavam tais crimes naqueles tempos; só tacitamente e de fato obteve o perdão do governador. Com efeito, ele foi nomeado “tenente-general na jornada do descobrimento da prata de Sabarabuçu”, com a patente lavrada no Rio de Janeiro, em 15 de outubro de 1698.

Não tenho autoridade nem letras para entrar neste assunto, para julgar faltam os os elementos positivos comprovantes e somente há sugestões que se apresentam interessadas, nos autores antigos. Em todo caso, parece que se documentos e fatos colocam positivamente, ele de alguma maneira faltam tacitamente.

Post - Mapa da QuintaQuinta do Sumidouro e parte do Fidalgo (novo). / (Imagem: Google maps)

Quero ante todo chamar a atenção sobre a carta da câmara de São Paulo ao Regente, a 2 de novembro, dando conta da morte de D. Rodrigo […] “nem consta que pelas notícias, nem sabermos quem cometesse o delito…” Na outra carta, do Governador Duarte Teixeira ao Conselho Ultramarino […], de 25 de novembro de 1682, comunicada ao Príncipe em 29 de abril de 1683, em Lisboa, se dizia também: “e que ainda não se sabia quem fossem os matadores.” Que o ouvidor geral daquelas capitanias que se achava em correição na vila de Santos fizer aviso tirasse inteira informação deste caso, para o dar a Vossa Alteza e soubesse se ficara alguma fazenda, que pertencesse a V. Alteza […]

“Não existem outros documentos sobre o caso. Ainda mais: os autores mais próximos da morte de D. Rodrigo se contentam com lendas e não acusam positivamente a Borba Gato do assassínio, nem dizem se foi mandante. Passaram dezesseis longos anos (1682-1698) desde a morte do fidalgo, até a nomeação de Borba Gato. Não existem notícias certas, senão suposições e lendas, da atividade de Borba Gato durante todo este lapso de tempo. Mas não deve isto causar estranheza, quando se pensa que tampouco sobre seu genro Garcia Rodrigues Pais não há notícias certas.

As atividades recomeçaram com a nomeação para ir ao descobrimento das minas. Acusa-se de arrebatado ao Borba Gato; e não se faz caso da veemência com que o padre João Leite da Silva defendeu os direitos de seu irmão Fernão Dias contra D. Rodrigo. E, se o Borba Gato fosse de caráter tão veemente, penso que não poderia haver assistido por sete anos seu sogro, com tanta paciência e tanto desvelo e com um caráter tão diverso. E não se haveria ocultado; ao contrário, poderia haver afrontado a situação. Seja o que for, apesar de que Taques e Fernandes atiram sobre ele a culpa do assassínio, nos documentos fica de pé que ninguém o acusou: que ao príncipe chegou a notícia sem os nomes dos acusados; nem tampouco suspeitas: “nem sabemos quem cometesse o delito, não se sabia quem fossem os matadores”, dizem as cartas enviadas ao príncipe.

Toda a preocupação concentrou-se em saber “se ficara alguma fazenda, que pertencesse a V. Alteza”. E Sua Alteza, em resposta, a 25 de maio de 1683 (Conforme Taunay), apresentava-se a ordenar ao ouvidor geral que estava em Santos, “devassasse o caso o caso com toda a exação e acautelasse os interesses da Coroa, pondo a fazenda da malograda expedição em segurança com toda brevidade”. E dois anos mais tarde desaprovava os atos de D. Rodrigo, o ordenava o confisco do seu espólio “até se averiguar se as despesas que fez foram por ordem minha”.

Como se vê, nada contra o Borba Gato: nem são nomeados os que acaso poderiam alegar direitos: somente se devia por a salvo a fazenda real. É tudo. Portanto, depois de dezesseis anos, e com a experiência do mato que deveria ter Borba Gato, encontrou natural, have-lo tenente-general naquela região onde nasceu e se fez grande a sua celebridade.

Post - Capela N S RosárioA segunda capela da Quinta do Sumidouro (N. S. do Rosário), em dois tempos. 

CONCLUSÃO

Ignoram-se, até o presente, os fatos íntimos da tragédia. Pela história, ficou aí o cerro do Fidalgo, cuja memória está fincada na cruz de madeira que, até hoje, existiu e que será reposta na beira do caminho. Essa tragédia, fato misterioso, quase sem solução, veio a solucionar uma época de fiscalização estéril, odiosa, de um enviado soberano que, antes de encontar pedras preciosas e metais para a coroa, pensava em dispendiosas caças para sua mesa diária.

Antes da morte do grande bandeirante, se desagregou a bandeira, mas o pedaço que ficou com o chefe deu com as esmeraldas. A morte de Fernão Dias tornou* (*fez retornar) a São Paulo a bandeira. A aparição no sertão de D. Rodrigo de Castel Blanco não fez senão dar maior brio a Fernão Dias, para que, num último esforço antes de morrer, desse com as pedras apetecidas. Sua morte foi fecunda, porque na sua bandeira nasceram os formidáveis pesquisadores de Minas Gerais, Manuel de Borba Gato e Garcia Rodrigues, que revelaram as imensas riquezas escondidas nas entranha daquela terra bendita.

Monselhor Federico Lunardi – Rio de Janeiro, 19 de dezembro de 1935

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Post - Borba Gato miniatura

Gabolices e fanfarronadas na terra do Borba

Segundo relata Diogo de Vasconcellos, em “História Antiga das Minas Gerais”, d. Rodrigo de Castel Blanco, “homem fino e amável”, chegara à Quinta do Sumidouro autorizado por um regimento que lhe dava poderes ilimitados para administrar as minas, embora “Fernão Dias, por uma provisão anterior e também legítima, havia sido nomeado governador de sua leva e do distrito de seus descobrimentos e conquistas, poder em que havia ele Borba Gato sucedido, como os alvarás permitiam.” Com dois mandões no mesmo quintal, estavam então instaladas as preliminares para o futuro conflito. Além do mais, pelo seu caráter dado a gabolices e fanfarronadas, e dizendo-se mui influente na corte, o fidalgo tornou-se antipático, irritando ao Borba e aos seus brutos apoiadores.

Acrescenta Vasconcellos, que d. Rodrigo era “um perdulário da fazenda real, infiel mandatário do rei, pois, em vez de prosseguir nos descobrimentos, procrastinava no arraial o serviço em regalos e banquetes, entregue à libertinagem. O arraial, nesse tempo, era em verdade abastecido de víveres; farto de peixe finíssimo e de caça delicada; e, sobretudo, não lhe faltavam as provisões de vinho e conservas transportadas de São Paulo […] A soldadesca de d. Rodrigo vivia à toda rédea na licença; e os potentados daquela quadra relapsa não primavam de escrúpulos, em uma sociedade apenas emersa do materialismo pagão. Os dias passavam-se em jogos e caçadas; as noites em orgias, ao som de guitarras e violas.”

Até que, na fatídica sexta-feira, 28 de agosto de 1682, para o fidalgo a festa acabou.

Elaboração e arte por Eduardo de Paula

Revisão de Berta  Vianna Palhares Bigarella.

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(1) LUNARDI, Federico − (Livorno, Itália, *07.12.1880 / Assunção, Paraguai, †11.11.1954) — Fonte: “A primeira capela de Minas Gerais na Quinta do Sumidouro” – Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – v. 192, jul/set, 1946.

(2) Família de Fernão Dias Paes* (*grafia antiga), segundo informe de sua mãe, Maria Leite da Silva, casada com Pedro Dias Paes Leme, em seu testamento (17.04.1667): “Declara ter sido casada com Pedro Dias de quem teve quatro filhos e cinco filhas a saber, Paschoal Leite Paes, já defunto; o Capitão Fernão Dias Paes; Pedro Dias, já defunto; e o padre João Leite da Silva; Maria Dias mulher de Domingos Rodrigues; Izabel Paes, já defunta; Potencia Leite mulher de Manuel Carvalho; Veronica Dias mulher de Manuel Ferraz; e Sebastiana mulher de Bento Pires Ribeiro…” Fonte: http://www.projetocompartilhar.org/SAESPp/marialeitedasilva1667.htm // Cabe ressaltar que, embora o bandeirante não assinasse Leme, seu pai o trazia no sobrenome. Portanto, foi arbitrária a intenção de muitos historiadores, algum tempo atrás, de lhe confiscar o patronímico Leme. // Fernão Dias Paes (São Paulo, *1608 / †1681, Minas Gerais) casou-se com Maria Garcia Rodrigues Betting (ou Betim). Tiveram os seguintes filhos: Lucrécia Leme da Silva, Garcia Rodrigues Paes, Mariana Paes Leme, Pedro Dias Leite, Custódia Paes, Maria Leite, Marianna Dias Paes Leme, Isabel Paes da Silva e Catarina Dias Paes. // Depois de percorrer os sertões, durante quatro anos, e de ter fundado vários arraiais, Fernão Dias encontrou um punhado de pedras verdes. Não eram esmeraldas, como imaginara, mas apenas turmalinas. E não houve tempo suficiente para que pudesse constatar a realidade, porque logo morreu, atacado por uma febre no meio do mato, à beira do rio das Velhas (dito Guaicuí, pelos bandeirantes, ou Uaimii, pelos índios), no outono de 1681. O lugar fica na região da atual Várzea da Palma, um pouco ao sul de Pirapora, norte de Minas Gerais. Narrando sua morte, Diogo de Vasconcellos diz assim: “… nas terras chãs do Guaicuí, os miasmas das carneiradas* (*febres palustres) o assaltaram; e, cada dia agravando-se os padecimentos, sucumbiu à vista do Sumidouro.”

(3) Manoel de Borba Gato nasceu em São Paulo, em 1649. Casou-se com Maria Leite, filha de Fernão Dias Paes & Maria Garcia Rodrigues Betting. Foi investido no posto de tenente-general-do-mato, após 1968. Quando faleceu, ocupava o cargo de juiz ordinário da vila de Sabará (MG). Há três versões sobre o local do seu sepultamento: nas capelas de Santo Antônio ou na de Santana, no Arraial Velho de Sabará, ou em Paraopeba (MG), onde possuía uma fazendinha. Muitos dizem ter falecido em idade avançada, em torno dos 90 anos de idade, mas há quem estabeleça a data no ano de 1717 e, nesse caso, a aritmética indicará cerca de 68 anos de idade. Por isso, a dúvida persiste.

(4) VASCONCELLOS, Diogo Luís de Almeida Pereira de − (Mariana, *08.05.1843 / Belo Horizonte, †?.06.1927) Historiador, político, jornalista e advogado.

(5 ) TAUNAY, Afonso d’Escragnolle − (Nossa Senhora do Desterro, *11.07. 1876 / São Paulo, †20.o3.1958) Biógrafo, historiador, ensaísta, lexicógrafo, romancista e professor.

(6) Ao largo da via, à direita: quer dizer, à direita do caminho que vai do Fidalgo (novo) à Quinta do Sumidouro.

(7) O viajante Richard Burton, em 1867, conheceu a Quinta do Sumidouro e escreveu: “… arraial de uma só rua, com uma capela muito nova, dedicada a Nossa Senhora do Rosário; foi trabalho, principalmente, do padre italiano Rev. Rafaelle Speranza…” / Em “Viagem de Canoa de Sabará ao oceano Atlântico”.

(8) Em 1867, Richard Burton anotou em“Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico”“O Sr. Leite, um inteligente dono de armazém da Quinta, que fica a 750 metros do rio, assegurou-me que a terra ali estava sujeita a abalos…” O testemunho leva à cogitação de que a pessoa citada poderia ser pai de Antônio da Costa Leite e Silva, que esteve com Lunardi. Por sua vez, o armazém seria a antiga casa de Borba Gato, pois sabe-se que, até algum tempo atrás, ali realmente funcionou um comércio.

(9) Assento de Sabará = território de Sabará. Contudo, na outra margem do rio das Velhas, naquele ponto da Quinta do Sumidouro, avista-se, em maior amplitude, território pertencente a Jaboticatubas. Sabará está noutra situação.

(10) ALMEIDA, Matias Cardoso de – Por provisão, de 13.03.1673, foi eleito capitão-mor e adjunto do governador Fernão Dias, que fizera a solicitação. Sua maior tarefa teve início em, quando foi provido, em 28.01.1681, no posto de tenente-general da tropa ou gente da leva de d. Rodrigo de Castel Blanco. 

(11) DERBY, Orville Adalbert − (Kellogsville, Nova Iorque, *23.07.1851 / Rio de Janeiro, †27.11.1915) Geólogo e geógrafo, naturalizado brasileiro.

(12) Fidalgo (antigo) − O primitivo arraial, hoje, é apenas uma fazenda, situada em Lagoa Santa. Nada tem a ver com o Fidalgo (novo) da lagoa  do Sumidouro.

(13) Arsenal do Sumidouro − A denominação não deixa dúvidas de que aquele pedaço de chão era principalmente um quartel militar.

(14) LEME, Pedro Taques de Almeida Pais − 
(São Paulo, *?.06.1714 / †03.03.1777) Militar, genealogista, e historiador. 
Filho de Bartolomeu Pais e Leonor de Siqueira, sobrinho-neto de Fernão Dias Paes e tetraneto de Brás Cubas. Sargento-mor, foi transferido para as minas de Goiás, encarregado de criar e organizar a cobrança de impostos. De volta a São Paulo, foi nomeado guarda-mor das minas de ouro. 

Destacam-se, entre suas obras, a “Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica” e a “História da Capitania de São Vicente”.

(15) SETÚBAL, Paulo de Oliveira − (Tatuí, *01.01. 1893 / São Paulo, †04.05.1937) Escritor e autor de obras de temática histórica.

(16) PAES, Garcia Rodrigues − Filho, companheiro e auxiliar de Fernão Dias, e que teria sido encarregado pelo pai de enviar, a São Paulo, as supostas esmeraldas que encontrara.

(17) MAGALHÃES, Basílio − (Barroso, *17.07.1874 / Lambari, †14.12.1957) Historiador, folclorista e professor.

(18) PRADO, Paulo da Silva − (São Paulo, *20.05.1869 / Rio de Janeiro, †03.10.1943) Advogado, cafeicultor, investidor, mecenas, historiador e escritor.

(19) ÉLLIS Júnior, Alfredo – (São Carlos, *06.06.1896 / São Paulo, †13.06.1974) Historiador, sociólogo, ensaísta e professor. 

(20) GUISARD Filho, Félix − (Raiz da Serra, *31.03.1890 / Taubaté, †06.10.1964) Médico, historiador, empresário e político.

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19 Comentários »

  1. Eduardo, como os outros, mais uma interessante abordagem. A propósito, ainda existe a cruz no lugar, indicando o local da morte do Fidalgo?
    Abs. João Pezzini

    Comentário por Joao B Pezzini — 01/01/2014 @ 10:12 am | Responder

    • Olá João:
      Ainda existe uma cruz, que substitui a anterior que apodrece. Sempre uma pessoa caridosa cuida de fazer esse serviço.
      Muito obrigado pelo comentário. Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/01/2014 @ 11:07 am | Responder

  2. Prezado Eduardo, estou fazendo um trabalho sobre Lagoa Santa e tenho uma dúvida. No caminho para a Quinta, próximo ao arco do Parque do Sumidouro, tem um cruzeiro com a inscrição 1807-1994. Um outro substituído está caído ao lado. Você sabe a quem ele foi erguido? Não consegui encontrar esse cruzeiro de D. Rodrigo, me disseram que está na Fazenda Fidalgo. Obrigada e parabéns pelo seu trabalho. Espero ter a oportunidade de conhecê-lo para conversar sobre as histórias da região. Abraço e feliz 2014.

    Comentário por Julia Pinheiro — 01/01/2014 @ 12:09 pm | Responder

    • Júlia:
      Não conheço a história desse cruzeiro no caminho para a Quinta. O cruzeiro do d. Rodrigo fica perto da fazenda do Fidalgo, numa estradinha de terra que faz ligação com a Lapinha. Muito obrigado pelo aplauso. Também gostaria muito de conhecê-la.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/01/2014 @ 6:54 pm | Responder

      • Obrigada, Eduardo.
        Ainda não consegui descobrir.
        Abraço,
        Julia

        Comentário por Julia Pinheiro — 16/02/2014 @ 11:12 am

      • Júlia:
        Vou lhe dar outra orientação para descobrir o cruzeiro do Fidalgo. Vá ao “Google Maps” e preencha, na janela de busca, a referência numérica -19.612028, -43.930917 Dê “Enter” e pronto.
        Desse modo você terá o mapa e a fotografia do satélite. Use o “zoom”. O cruzeiro fica pertinho da fazenda do Fidalgo, em Lagoa Santa. Não confundir com o arraial do Fidalgo, que fica às margens da Lagoa do Sumidouro.
        Um abraço do Eduardo

        Comentário por sumidoiro — 16/02/2014 @ 3:57 pm

  3. Eduardo,
    Cada artigo seu converte-se em uma excelente aula de História, esclarecendo alguns pontos obscuros, que ainda persistem na historiografia das Gerais.
    Particularmente, não sei se é por afinidade, ou mesmo por algum fenômeno espiritual, você responde, justamente, às dúvidas que estou vivenciando no momento em minhas pesquisas.
    É um verdadeiro privilégio poder desfrutar de seus conhecimentos e de sua amizade.
    Grande abraço de Ivana.

    Comentário por Ivana Maria de Aguiar Ribeiro — 01/01/2014 @ 7:52 pm | Responder

    • Ivana:
      Gostei do “fenômeno espiritual”. Aliás, desconfio que são os espíritos que colocam estas histórias nas minhas mãos. Afinal de contas, não sou historiador. Agradeço os elogios e digo que também prezo muito sua amizade.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/01/2014 @ 7:59 pm | Responder

  4. Eduardo,
    Sempre que vou ao Sumidouro (sou um amante das cavernas e da história de Minas, então há poucos lugares melhores do que lá), procuro contar aos meus acompanhantes alguns acontecimentos de seus primórdios. Com este seu (mais uma vez) excelente, bem pesquisado artigo, serão bem mais ricas as minhas pobres conjecturas. Parabéns!

    Comentário por Pedro Conde Lobo Martins — 02/01/2014 @ 10:43 am | Responder

    • Pedro:
      Muito obrigado pelo comentário. Vamos divulgar nosso querido e abandonado Sumidouro.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/01/2014 @ 4:33 pm | Responder

  5. Eduardo,
    Mais uma bela pesquisa. Na minha próxima viagem a Minas, quero passar por estes caminhos que você ilumina.
    Parabéns.

    Comentário por João Vianna — 04/01/2014 @ 7:54 am | Responder

    • João:
      Você tem a obrigação de conhecer o Sumidouro, porque suas raízes estão lá. Vá antes que acabem com ele. A especulação imobiliária e outros interesses econômicos avançam a todo vapor, e o poder público não faz nada.
      Obrigado pelo estímulo. Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/01/2014 @ 8:36 am | Responder

  6. Agradeço por nos proporcionar tantos conhecimentos a respeito da nossa História. Seu blog é uma preciosidade para pessoas que respeitam a memória e os antepassados. Fiquei fascinada com a casa de Borba Gato (ou será de Fernão Dias?) e tomei a liberdade de copiá-la. Que tristeza saber que tivemos uma que poderia, depois de recuperada, ter ficado assim bonita. A mais antiga residência da cidade de Montes Claros, que pertenceu ao Alferes José Lopes de Carvalho, foi demolida sem motivo justificável. Lamentável. Felizmente há lugares onde ainda preservam as riquezas que temos.

    Comentário por Virginia Abreu de Paula — 05/01/2014 @ 12:19 am | Responder

    • Olá Virgínia:
      Vamos formar um exército de defesa da nossa história e patrimônio cultural. Muito obrigado pelo comentário.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 05/01/2014 @ 10:04 am | Responder

  7. Eduardo, graças a você e ao seu valioso blog tomei conhecimento da importância histórica do Sumidouro. No último domingo, fui lá para conhecer os lugares por onde viveram muitos dos meus antepassados. Parabéns mais uma vez e obrigado por compartilhar seus conhecimentos.
    Tarcísio

    Comentário por Tarcísio Americano Barcelos — 29/01/2014 @ 10:24 pm | Responder

  8. Eduardo, boa-noite!
    Sou Dóris e, por alguns anos, frequentei com assiduidade a fazenda do Fidalgo e entornos. Sempre me interessei pelas histórias que lá ouvi. Vi que estão atribuindo á um determinado ponto como o local da “Cruz do Fidalgo”. Tenho a impressão de que era outro o lugar que se via a Cruz do Fidalgo. Estou em dúvida! Gostaria de saber, baseado em que pesquisas foi “identificado” o atual local da Cruz do Fidalgo. Agradeço-lhe, desde já, a atenção e parabenizo pelo excelente blog!

    Comentário por Doris Bonini — 16/05/2014 @ 1:58 am | Responder

    • Dóris:
      Escrevi sobre a cruz do Fidalgo apoiado no que li, ouvi e nos vários documentos antigos que possuo. Percorri, também, o trecho de estrada que vai da Lapinha à fazenda do Fidalgo. Também não posso garantir que o lugar marcado pela cruz seja o ponto exato onde tombou o espanhol. Aliás, esses fatos muito afastados no tempo sempre vêm carregados de incertezas. Entretanto, creio que a história como um todo é bastante verossímil.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 16/05/2014 @ 9:32 am | Responder

  9. Eduardo, boa tarde! Apos enviar o post fui procurar minha prima que foi proprietaria da Fazenda do Fidalgo. Ela me confirmou que esta que em sua época o local presumido da Cruz do Fidalgo é o mesmo que vc aponta em suas pesquisas. Me disse porem que havia outra cruz, essa no caminho do Sangradouro até a Fazenda e que pertencia ao cemitério dos escravos. obrigada pela atenção! Abraços,
    Doris

    Comentário por Doris Bonini — 16/05/2014 @ 5:26 pm | Responder

  10. (Eduardo, me perdoe os erros ortograficos pois estou em um laptop que teima em não obedecer a certos comandos)

    Comentário por Doris Bonini — 16/05/2014 @ 5:28 pm | Responder


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