Sumidoiro's Blog

01/02/2014

O CAVALEIRO DA LUA (I)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:38 am

♦ Ou Pedro, que virou curvelano. 

No início da década de 1860, um homem maduro e bem apessoado foi recolhido a um asilo de loucos, em Camberwell(1), na periferia de Londres. O doente costumava sentar-se cabisbaixo, durante dias ou semanas, quase mudo e apático, em um canto do seu quarto solitário. De vez em quando, tinha explosões de excitação repetindo frases incoerentes, nas quais pronunciava com clareza apenas a palavra “flax-cotton”. Cavaleiro Claussen, assim chamavam o infeliz.

Post - Cavaleiro Claussen“Flax-cotton! Flax-cotton!”

Era natural da Dinamarca e batizado como Peter Nicolas, em 1801, filho de Peter Olivarius Clausen(2). É  voz corrente que veio para a América do Sul fugindo da justiça e em busca de fortuna, mas é certo que chegou primeiramente ao Brasil, quanto contava pouco menos de vinte anos de idade. Fisicamente, foi descrito(3) em um livro de registro de estrangeiros, do Rio de Janeiro, como sendo de constituição normal, com rosto redondo, olhos azuis, cabelos louros e barba. Foi soldado, vendedor ambulante e espião na época da guerra entre Brasil e Argentina. Embora não tivesse formação apropriada, também se envolveu com a investigação científica e esta foi a atividade mais marcante de sua vida.

Logo adaptou seu sobrenome para soar como duplo “s”, como se fala em dinamarquês: Claussen. Na década de 1820, Peter Nicolas Claussen acompanhara o botânico e naturalista alemão Friedrich Sellow(4), em uma expedição ao Uruguai, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Naquela oportunidade, fez sua iniciação em ciências naturais. Algum tempo depois, decidiu trabalhar por conta própria e foi viver em Cachoeira do Campo, nas proximidades de Ouro Preto (MG). Mudou-se de novo, quando adquiriu a fazenda Porteirinhas, no município de Curvelo (MG), onde plantou lavoura de mandioca e cana. Ao mesmo tempo, explorava salitre e recolhia fósseis nas inúmeras grutas da região, que vendia para colecionadores na Europa. Foi, sem dúvida, um mercenário e aventureiro, como demonstrou no decorrer da vida.

Post - F PorteirinhaFazenda Porteirinhas, de Claussen (desenho de Peter Brandt).

Mais tarde, passou a assinar Pedro Claudio Dinamarquez e se casou com Claudina Candida de Britto(5), reivindicando a naturalidade brasileira. Para tanto, entrou com um pedido à câmara municipal de Curvelo, no dia 09.04.1834, nos seguintes termos:

“Termo de declaraçam feita pelo extrangeiro Pedro Claudio Dinamarquez, na forma da Ley da Naturalizaçam. // Aos nove dias do mez de Abril de mil oitocentos e trinta e quatro, […] na sala das Seções da Camara Municipal desta Villa do Curvello, […] compareceu Pedro Claudio, natural do Reino de Dinamarca, requerendo ser admittido à fazer a declaraçam determinada na ley […] ao que foi admittido pela Camara sem mais formalidade em razão de ser cazado com Brasileira; […] declarou que professava a religião Catholica Romana, que sua Patria é o reino da Dinamarca, é o mesmo oriundo de Copenhagen, […] e que pretende fixar seu domicilio no Brasil, cuja declaraçam fazia a fim de dar principio a sua naturalizaçam, por quanto sendo cazado com Brasileira a Ley lhe facilitava os meios. Para constar mandou o Presidente da Camara lavrar este termo, […] eu Manoel Pereira da Silveira, Secretario da Camara, o escrevi. (a) João Marcianno de Lima, Presidente. (a) Pedro Claudio Dinamarquez.” (6)

Post - P DinamarquezRequerimento de Pedro, que virou curvelano.

O também dinamarquês e famoso paleontólogo Peter Lund(7), quando chegou a Curvelo, em 10.10.1834, ficou conhecendo Claussen, que lhe sugeriu a exploração arqueológica de grutas, onde havia muitos fósseis. Tiveram breve período de convivência, pois logo se desentenderam e Lund mudou-se para Lagoa Santa (MG), levando consigo um auxiliar de Claussen, o desenhista norueguês Peter Andreas Brandt(8). De qualquer maneira, ficou devedor do conterrâneo, por lhe ter mostrado aquelas que chamou de “cavernas de ossos”.

Claussen permaneceu em Curvelo até 1837, mas retornou a Cachoeira do Campo, morando na localidade pelo menos até 1839. Durante esse período, fez também pesquisas geológicas e continuou mantendo contatos com Lund, tendo ambos trocado informações e favores. Em 1840, associou-se ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro como correspondente, tendo frequentado algumas reuniões. Em uma delas, o seu membro-fundador, brigadeiro Raimundo da Cunha Mattos(9), apresentou uma proposta para que Claussen examinasse misteriosas pinturas descobertas em uma lapa de Minas. A ata da 39ª sessão, que contou com a presença de Claussen, informa:

“… Pedindo a palavra o Sr. Pedro Clausen, fez sciente ao Instituto que […] copiara as principaes pinturas existentes nas rochas […] da dita gruta, […] Leu-se então uma carta na qual […]  fazia a descripção da […] gruta, […] acompanhava a carta 4 desenhos coloridos […] da Lapa das Pinturas, […] Presando infinitamente o valioso serviço prestado pelo Sr. Pedro Clausen, o Instituto approvou que os desenhos fossem remettidos […] para serem publicados […] O mesmo Sr. Clausen apresentou um mappa Geologico da Provincia de Minas Geraes, levantado por elle durante 16 annos de trabalho…” (10)

Post - mapa ClaussenAo fundo mapa  do quadrilátero ferrífero (detalhe) e palavras na ata do Instituto Histórico.

Pelo comunicado de Claussen ao Instituto, é possível deduzir que, logo depois do seu contato com Sellow, passou a trabalhar no mapa geológico. Ainda no ano de 1840, decidiu deixar o Brasil, como anunciou o secretário cônego Januário da Cunha Barbosa, no relatório(11) da 2ª Seção Pública do IHGB, de 27.11.1840, ao dizer que “partia para a Dinamarca o nosso sócio o Sr. Claussen, que de bom grado se encarregou de levar os nossos agradecimentos, os nossos diplomas e revistas” à Sociedade dos Antiquários do Norte, estabelecida na capital daquele país. O mapa do quadrilátero ferrífero, foi publicado em 1841.

No ano de 1842, Claussen retornou ao Brasil e, em 1843, declarou ter encontrado uma rica mina em Sete Lagoas (MG). A referência(12) está no “Diccionario Geographico, Histórico e Descriptivo, do Império do Brazil”:

“MELANCIA – Sitio da provincia de Minas-Geraes, no territorio de Sete-Lagoas, onde o naturalista Pedro Claussen achou em 1843 uma mina riquissima de cobre, chumbo e prata de que apresentou as amostras ao presidente da provincia Soares Andrea.” 

Trata-se da fazenda das Melancias, em Sete Lagoas (MG), propriedade de descendentes do curvelano Alcibíades de Paula(13), cujas terras, na época de Claussen, eram mais extensas, incluindo a Lapa do Chumbo, onde hoje se explora uma pedreira calcária. Alguns historiadores impropriamente designam o local como “lugarejo”, embora ali não existisse um aglomerado de casas habitadas para merecer tal título.

O autor deste Post conheceu a fazenda no início da década de 1940 e viu, junto à sede, ruínas de uma fábrica de tecidos com teares de madeira. Tratava-se da Companhia Industrial Melancias, produtora de tecidos de algodão, crus e tintos(14). Então, pode-se concluir que o nome Melancias era explicitamente atribuído à fazenda, pela sua notória importância.

Post - MelanciasFazenda das Melancias em dois tempos: primeira metade do século XX e década de 1960. 

Lund e Claussen enviaram muitos fósseis para a Europa. O cientista Charles Darwin(15) teve conhecimento das coleções e ambos foram citados com admiração na sua obra “A origem das Espécies”, em 1859. O material mostrou-se muito útil para o embasamento da sua teoria da evolução. Ao tratar da relação entre animais do mesmo tipo, em diferentes lugares do planeta, referiu-se à América Latina, escrevendo:

” … Este parentesco é ainda mais evidente na maravilhosa coleção de ossos fósseis produzida pelo senhor Lund e Claussen nas cavernas de Brasil. Fiquei muito impressionado com esses fatos que insisti enfaticamente, em 1839 e 1845, sobre esta ‘lei de sucessão de tipos’ − sobre ‘esse maravilhoso parentesco, no mesmo continente, entre os mortos e os vivos’.”

Post - Charles DarwinCharles Darwin: “… maravilhosa coleção produzida por Lund e Claussen…”

Na sua sina de colecionador de insucessos, Claussen foi condenado em um processo de falência, em Londres, no ano de 1847. Mais um embate com a justiça, pois havia fugido para o Brasil por motivo de uma fraude. A notícia foi publicada(16) no periódico “The Jurist”:

“Londres, 08 de dezembro – Peter Claussen: Newman Street, Oxford Street, em Middlesex, fabricante, negociante e vendedor ambulante. Em 20 de dezembro, às 12:30h e 25 de janeiro, às 11:30h; Corte de Falências do Tribunal de Justiça de Londres: Of. Assist. Turquand; Sols. Lawrence & Co., Old Jewry-chambers – Executado em 07 de dezembro.” 

Possuindo conhecimento científico informal mas qualificado, Claussen empenhou-se no estudo de manufaturas têxteis. É muito provável que sua iniciação nas artes da tecelagem tenha ocorrido nos tempos de plantador de algodão em Curvelo. A cidade foi um polo pioneiro e irradiador da indústria de tecidos no Brasil.

Sua investida na área têxtil foi uma tentativa de se livrar da situação de instabilidade financeira em que vivia. Depois de anos de investigações, chegou à conclusão de que a fibra de linho − planta largamente cultivada na Europa −, poderia suprir as necessidades de matéria prima têxtil do continente. Convenientemente trabalhada, seria economicamente mais vantajosa que o algodão importado e, portanto, poderia substituí-lo. O produto recebeu o nome de “flax-cotton”; traduzindo: algodão de linho.

Post - Crystal Palace“Crystal Palace”, sede da “Great Exibition”.

Claussen transferiu-se para a Europa, no final da década de 1840, e tentou promover várias de suas invenções, além do “flax-cotton”. Já no início da década seguinte, a imprensa lhe deu muita publicidade, embora tenha também falsificado sua história de vida. Assim, prestigiosas publicações criaram a fantasia de que, quando viajou para a França, conseguiu ser introduzido na corte francesa e lhe deram o título de cavaleiro, Chevalier, como se diz em francês. Mas, na verdade, ganhara honraria semelhante no Brasil, aquela que era conhecida como Imperial Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo(17). Este é o motivo pelo qual o cavaleiro da Ordem de Cristo foi transformado em Chevalier, quando chegou na Europa. No seu país natal e na França, obteve apenas honrarias, mas nenhum apoio de ordem prática.(18)

Na Inglaterra, o semanário “The Spectator” deu grande cobertura aos feitos de Claussen, ao mesmo tempo fabricando algumas inverdades, que perduram até hoje nas suas biografias. Uma delas dizendo que, quando estivera na França, casara-se pela segunda vez(19), com uma jovem francesa. Entretanto, há provas de que Claudina foi o derradeiro e mui dedicado amor de sua vida, como este Blog revelará no próximo Post.

Desanimado diante dos insucessos e pressionado pela pobreza, o cavaleiro vislumbrou uma oportunidade na Feira Internacional de Londres, em 1851, que aconteceria no Hyde Park. Então, ali apresentou o “flax-cotton” com todo estardalhaço possível. Para isto, preparou uma série de amostras de artigos confeccionados com o novo produto, mostrando em detalhes como foram processados. O jornalista norte-americano Horace Greeley(20) visitou a feira e ficou impressionado com um tear circular, que Claussen também apresentou no evento. E publicou um comentário:

“M. Claussen tem também um tear circular na feira, no qual sacos e meias podem ser tecidos sem costura […] Esse tear pode ser operado manualmente com facilidade (claro, vapor ou água é mais barato) e funciona com rapidez e sem falhas. Menciono isto apenas como prova do seu gênio inventivo e para corroborar a favorável impressão que me causou. Não vi nada mais inventivo, no imenso departamento dedicado à maquinaria inglesa, do que esse tear.”

Claussen tentara vender sua criação para fábricas da Irlanda, situadas em Kildinan. Nessa época, trocou cartas(21) pedindo apoio ao diretor do Museu da Indústria Irlandesa, em Dublin, sir Robert Kane. Em uma delas, datada de 25.08.1851, e enviada de Londres, escreveu:

“… Mr. Thomas Graves […] tem interesse em minha patente, para Kildinan, com o propósito […] de preparar seda em escala de produção e, tendo total confiança nele, escrevi-lhe […] para tudo preparar, de modo que possas investigar completamente e tenha como informar sobre a viabilidade do meu processo. […] Eu já encomendei o maquinário necessário para ser enviado a Kildinan e, em alguns dias a fábrica de Mr. Dargan está em condições, para que seja feita sua inspecção. […] Solicito que escreva a (Mr. Graves) […] manifestando seu interesse na efetivação. […] Solicito a inclusão do meu folheto sobre ‘Flax’. / P. Claussen.

Post - Claussen to KaneCorrespondência de Claussen pela venda da patente do “flax-cotton”.

Na promoção do invento, Claussen argumentava que a produção seria extremamente simples e muito mais segura que o método até então usado. Os fabricantes se alvoroçaram com a novidade, mas agradeceram as propostas e continuaram trabalhando da mesma maneira. Preferiram usufruir da mão de obra barata de operários semi-escravos que, frequentemente, eram vítimas de gravíssimos acidentes operando máquinas de tecnologia primitiva. Alegavam que o novo processo exigiria grandes adaptações nas fábricas. Também os produtores de Lancashire disseram(22)“Por que vamos usar esse tecido, se temos algodão em abundância?” Claussen ainda insistiu: “A longo prazo é mais conveniente, pois pode-se usar matéria prima nacional e máquinas a vapor, abandonando o rude trabalho manual.” 

Há muito tempo era conhecido o alto risco desses acidentes, principalmente nas máquinas de cardagem do algodão movidas a rodas d’água. Tais fatos, certamente, motivariam a adoção dos novos processos. Mas a argumentação de Claussen soou como a voz do pregador no deserto, encerrada a feira seu esforço caiu no vazio.

O pensador Karl Marx(23) conheceu a máquina que compunha o badalado invento de Claussen e referiu-se a ela na sua obra “O Capital”, de maneira crítica: “o tear circular que, operado pela mão de um único trabalhador, tece 96 mil malhas por minuto, será uma mera ferramenta.” Marx, foi um dos que se horrorizou com as tragédias que se repetiam na indústria de tecidos. Também fez referência às fábricas que operavam em Kildinan:

“Em uma fábrica de separação de fibras, em Kildinan, perto de Cork, ocorreram entre 1852 e 1856, seis acidentes fatais e sessenta mutilações; cada uma delas  poderia ser evitada com o uso dos mais simples equipamentos, ao custo de alguns ‘shillings’. […] Os sérios acidentes […] são horripilantes. Em muitos casos, uma quarta parte é arrancada do tronco e também ocasiona morte ou miserável incapacidade e sofrimento.”

Post - Marx & CapitalKarl Marx conheceu o tear de Claussen e as indústrias de Kildinan.

A denúncia de Marx não era novidade. Uma investigação feita pelo parlamento britânico, em 1832, mostrou as condições desumanas a que submetiam aquela gente que tocava a indústria. Nesse mesmo ano, Michael Sadler, membro do parlamento britânico, foi encarregado de fazer uma investigação nas fábricas e cuidou de entrevistar operários. Seu relatório destacou uma vítima de acidentes, Mary Bucktrout, uma menina de 14 anos de idade:

“Ela estava trabalhando na sala de cardagem da fábrica de linho de Mr. Holdsworth, em Leeds, e sofreu um acidente quando retirava resíduos de fibras da máquina, por ordem do contramestre, o qual − diz ela − certa feita ameaçou multá-la em seis “dimes”, se não cuidasse de manter sua máquina limpa. Ela perdeu, por isso, em um acidente, o braço direito, um pouco abaixo do cotovelo e o polegar da mão esquerda. Seu chefe deu-lhe então um “shilling” e seu pai, que é um pobre operário, com cinco filhos, viu-se obrigado a sustentá-la desde então.” (24)

(Leia mais sobre Mary no fim da página)

Quando morou na Leicester Square, em Middlesex – um condado na periferia de Londres –, Claussen já procurava promover seus inventos. Talvez o primeiro tenha sido um propulsor para barcos a vapor, com a patente concedida em 23.07.1846 e registrada em 23.01.1847:

“Peter Claussen, de Leicester Square, no condado de Middlesex, […] um aparelho para propulsão e exaustão; e para comprimir ar e corpos aeriformes. […] Esta invenção […] para […] propulsão de vasos ou barcos pela popa […] barcaças, carruagens e veículos, por meio de rodas com polias ligadas ao navio ou carro, para ser movido e impulsionado por vapor ou outra força motriz, através da fixação de uma corda ou corrente em cada extremidade da estrada ou canal, e passando-a sobre as rodas de polia…” (25)

Post - Claussen propulsorPropulsor inventado por Claussen.

Outra criação foi um método de preservação das lavouras de batatas, que eram muito atacadas por doenças. Sua fórmula recebeu aplausos no meio científico e entre os agricultores. No “33o Encontro da British Association”, realizado em 1853, Claussen apresentou um relato, dizendo:

“… eu estava envolvido em realizar vários experimentos sobre o efeito do sulfato de cal sobre substâncias vegetais […] fiquei surpreso que a decomposição não tivesse ocorrido nas partes […] que haviam sido submetidas à ação do sulfato, enquanto que aquelas que não tinham sido tratadas foram completamente deterioradas. Entre os vegetais experimentados estavam algumas batatas…” (26)

Post - Claussen potatoesSobre o agrotóxico de Claussen. 

Dois anos depois, em 1855, na mesma Bristish Association, Claussen apresentou mais três informes, com os seguintes títulos:

1On the Hancornia speciosa, Artificial Gutta-Percha and Índia Rubber; 2 –  On the Employment of Algae and Other Plants in the Manufacure of Soaps; 3 –  On Papyrus, Bonapartea and other Plants wich can furnish Fibre for Paper Pulp.” (27)

O primeiro, versava sobre a Hancornia speciosa, uma árvore que conheceu no Brasil, a mangabeira, produtora de um tipo de látex, com o qual pretendia fabricar borracha e guta-percha, este um produto que foi muito usado pelos dentistas, em obturação e moldagem dentária. O segundo, sobre a utilização de algas e outras plantas na produção de sabão. O terceiro, sobre a fabricação de papel a partir de fibras de diversas plantas, especialmente da Bonapartea juncoidea, muito comum na Austrália.

Bem antes de Claussen, os indígenas conheciam as propriedades do vegetal. Também os viajantes cientistas Spix e Martius(28), durante a viagem que fizeram pelo Brasil (1817-1820), conheceram e escreveram sobre a mangabeira e o seu fruto, a mangaba:

“…nas regiões quentes e secas do sertão […] é cultivada […] como nas províncias da Bahia, Pernambuco e Ceará, junto com a goiabeira e o ananás. Contém suco leitoso, pegadiço, rico de resina que, endurecida, talvez pudesse ser utilizada como goma-elástica comum. Com os frutos, costuma a gente do lugar preparar um refresco agradável e nutritivo que, entretanto, se tomado em demasia daria colorido à pele e à esclerótica.”

Post - Claussen jornaisNa imprensa, o fracasso do “flax-cotton”.

Sem dúvida, a criação do “flax-cotton” repercutiu pelo mundo, despertando muito interesse na agricultura e indústria têxtil. Entretanto, o processo mostrou-se defeituoso, quando foi submetido a testes. Dois jornais da cidade de Boston (USA), o “New England Farmer” e o “Atlantic News”, noticiaram as conclusões negativas. Na verdade, Claussen era um pseudo-inventor, especialista em reciclar ideias alheias e, se tivesse sido capaz de vender o linho fantasiado de algodão, teria virado um gênio do “marketing”.

Muitas adversidades começaram a surgir a partir de um incêndio ocorrido em uma fábrica de Claussen, instalada em Bromley. A publicação “Anual Register”, de 1854, anotando os acontecimentos do ano, relembrou o acontecimento:

“Fevereiro – ” […] Cerca de 5:30h da tarde, ocorreu um incêndio na “Fábrica de linho, cânhamo e juta”, em Bromley, que foi quase totalmente dstruída. O local, pavimentado quase totalmente de terra, compreende a fábrica principal, casas de máquina, salas de aprendizes, salas de secagem e um grande depósito. O fogo foi percebido, primeiramente, por um garoto empregado na fábrica […] Quando o telhado desabou, uma tremenda chuva de faíscas foi lançada ao ar, caindo em cima das pilhas de juta e cânhamo no quintal […] Ao mesmo tempo, o vento soprou com força e em poucos minutos várias pilhas de cânhamo e outros artigos estavam em chamas. Ao longo da noite toda a redondeza foi inteiramente iluminada pela luz intensa do fogo, que não foi extinta somente na noite seguinte. […]” 

Post - Claussen incêndioIncêndio na fábrica, início das derrotas.

O festejado Chevalier, que fez tanto barulho por quase nada, está amplamente citado no semanário “The Spectator”(29), em 1862, num artigo sobre a indústria têxtil europeia, cujo foco era a crescente dependência à matéria prima importada, o algodão. O título do artigo é “King Cotton” − Rei Algodão − e, nas primeiras linhas descreve o lunático de Camberwell.

Post - The Spectator“The Spectator” revela o fim do homem infeliz.

É muito possível que a ideia do “flax-cotton” tivesse sido inspirada na criação da irlandesa Lady Moira(30) − Elizabeth, condessa de Moira −, terceira esposa do Earl of Moira(31), homem dito afável e conquistador. Em 1775, Lady Moira converteu refugos de linho e cânhamo em algodão. No anuário da “Transactions of the Society of Arts” (1783), foram publicadas cartas, assinadas por seu marido, informando que as fibras eram fervidas num meio alcalino, ou numa solução de soda extraída de algas e depois lavadas. Lady Moira era pessoa muito admirada como antiquária e pelo vasto conhecimento que tinha sobre tecelagem e produção de vestimentas, como também por ser uma incentivadora das artes literárias.

Portanto, 76 anos antes do estardalhaço de Claussen na Feira Internacional de Londres, o “flax-cotton” já havia sido inventado por uma senhora deveras muito inteligente, capaz e bem intencionada. Dando sua contribuição para chegar mais perto da verdade, o dr. George C. Schaeffer(32) − químico, norte-americano −, em artigos para o “United States Patent Office”, sobre suas pesquisas de fibras (1852/1854), fez referência ao então muito comentado “flax-cotton”, de Claussen, dizendo que um método semelhante foi usado pelos chineses por muitos séculos.

Post - Lady MOIRA lettersNotícia no anuário: Lady Moira (retrato) produziu “flax-cotton”, em 1775. 

Apesar do seu empenho, nenhum dos projetos espetaculosos de Claussen vingou, mas assim mesmo não desistiu. Já psicologicamente estremecido e falido, continuou lutando em busca do sucesso. Até que sofreu um acidente e teve que ser intenado em um hospital para tratamento. Alí sua saúde degenerou-se, sendo então transferido para o asilo de loucos de Camberwell e, depois, para o de Stone House, onde permaneceu até a morte, em 1872. O tempo todo, durante sua internação, o lunático repetia obcecadamente: “flax-cotton, flax-cotton”… (33)

• Clique com o botão direito e veja todos, “O cavaleiro da lua” II | III 

Texto e arte de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

———

Post - Mary BucktroutMary Bucktrout, uma menina de 14 anos de idade

Por Michael Sadler (*03.01.1780 †29.07.1835), membro do Parlamento Britânico.

“Ela estava trabalhando na sala de cardagem da fábrica de linho de Mr. Holdsworth, em Leeds, e sofreu um acidente quando retirava resíduos de fibras da máquina, por ordem do contramestre, o qual − diz ela − certa feita ameaçou multá-la em seis “dimes”, se não cuidasse de manter sua máquina limpa. Perdeu, por isso, em um acidente, o braço direito, um pouco abaixo do cotovelo, e o polegar da mão esquerda. O chefe deu-lhe então um “shilling” e seu pai, que é um pobre operário, com cinco filhos, viu-se obrigado a sustentá-la desde então.

Ela havia trabalhado por dois anos na mesma fábrica. Mary é uma menina muito interessante e está matriculada, atualmente, na St. John’s School, sob os cuidados do dr. Hook, vigário de Leeds, recebendo instrução para que possa dirigir uma escola infantil.

Fiquei extremamente satisfeito em ouvi-la fazendo uma leitura e vendo sua redação. A maneira como empunha sua caneta é bastante curiosa. Para tanto, ela usa um aparato feito de couro, que imita dois dedos de uma luva de mão esquerda, estes são fixados juntos e conjugados a um pequeno tubo que recebe a caneta, de maneira que possa movê-la no ato de escrever. Nessa escola, há também uma governanta que perdeu um braço, acidentada em uma fábrica.”

Fonte: DODD, William  “The factory system illustrated”, Frank Cass and Company Ltd., Oxfordxire, 1968, p. 20 e 21.

———

(1) Camberwell House Lunatic Asylum, aberto em janeiro de 1846. Por volta de 1859, o hospital possuía 318 internos, eram 247 indigentes e 71 particulares.

 (2) Claufen (“f” soando como duplo “s”) = Claussen (klauˀsən): patronímico dinamarquês significando filho (sən) de Klau (diminutivo de Nicolau). Curiosamente, o personagem era duas vezes Nicolau (Nicolas Clausen).

 (3) HOLTEN, Birgitte & STERLL, Michael − “P. W. Lund e as grutas com ossos em Lagoa Santa”, Editora UFMG,  2011, p. 133 a 143.

 (4) SELLOW, Friedrich − (Potsdam, *1789 / Brasil †??.10.1831) – Faleceu por afogamento do rio Doce, aos 42 anos de idade. 

 5) BRITTO, Claudina Cândida de − (*1823 † ?.06.1863) − “Pedro Cláudio, naturalista, 33 anos, em 1840 viajou para Antuérpia junto com a esposa Claudina Cândida de Britto, de 22 anos…” / Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, Registro de Estrangeiros, col. 417, v. 7, fl. 34 − Fonte: HOLTEN, Birgitte & STERLL, Michael – “P. W. Lund e as grutas com ossos em Lagoa Santa”, Editora UFMG, 2011, p. 133.

 (6) Arquivo Público Mineiro − CV-003: Atas da Câmara Municipal de Curvelo.

 (7) LUND, Peter Wilhelm − (Copenhagen, *14.06.1801 / Lagoa Santa, †25.05.1880) – Vide também os Posts “Bendita Lagoa Santa” e “Querido filho Nereo”

 (8) BRANDT, Peter Andreas − (*1792 / Lagoa Santa, †1862).

 (9) MATTOS, Raimundo José da Cunha − (Faro, *02.11.1776 / Rio de Janeiro, †1839) Militar (brigadeiro) e historiador luso-brasileiro.

 (10) “Revista Trimestral de História e Geografia (IHGB)”, tomo II, 05.04.1840, p. 270.

 (11) “Revista Trimestral de História e Geografia (IHGB)”, 2ª edição (em 1858), tomo II, suplemento, ano 8 (1840), p. 578.

 (12) SAINT-ADOLPHE, J. Cr. Milliet de − “Diccionario Geographico, Histórico e Descriptivo, do Império do Brazil”, Paris, 1845, p. 83

 (13) PAULA, Alcibíades de – (Curvelo, *02.12.1872 / Sete Lagoas, †28.10.1924) Filho do capitão Evaristo Antônio de Paula e de Ritta Cassimira Pereira da Silva. Vide os Posts “O capitão e a Doença de Chagas” e “O capitão e sua família”. // Ladislau Netto, em “Investigações Históricas e Scientificas sobre o Museu Imperial e Nacional do Rio de Janeiro” (1870), escreve na página 86: “O proprio Claussen, […] deixando-se iludir pelo aspecto de uma galena ferrifera de Melancias, perto de Sabará, mandou-a ao ministro do Imperio como mineral de prata.”

(14) Companhia Industrial Melancias: operava com 960 fusos, 49 teares e produzia 40.000 mil metros anuais de tecidos. Fonte: “Anuário de Minas Gerais”, 1906, edição n° I.

 (15) DARWIN, Charles Robert − (Shrewsbury, *12.02.1809 / Downe, Kent, †19.04.1882) Naturalista britânico. Primeira edição do seu livro “A Origem das Espécies”: 1859 (“On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life”).

 (16) “The jurist”, London, vol. XI, nº 570, 11.12.1847, p. 506.

(17) O genealogista Hugo Forain Jr. encontrou o documento de concessão do título de Cavaleiro, no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.

 (18) “Chambers’s Journal  of  popular literature, science and arts”, London and Edinburgh, vol. XVIII, 20.12.1862, p. 388 a 390. 

 (19) Semanário “The Spectator”, Londres, 16.08.1862, p. 907.

 (20) GREELEY, Horace – “Glances at Europe: in a series of letters from Great Britain, France, Italy, Switzerland, etc.”, New York, Dewitt & Davenport, 1851, p. 52.

 (21) Great Britain Parliament − “Accounts and papers of the House of Commons”, 1852, vol. 24, p. 378.

 (22) Semanário “The Spectator”, Londres, 16.08.1862, p. 907.

 (23) MARX, Karl − “CAPITAL, a critique of political economy”: Tradução da 3ª edição alemã por Samuel Moore e Edward Aveling , editada por Frederick Engels, revista e ampliada de acordo com a 4ª edição alemã por Ernest Untermann, 1906, p. 406 e 527.

 (24) DODD, William −“The  factory system illustrated”, Frank Cass and Company Ltd., Oxfordxire, 1968,  p. 20 e 21.

 (25) “The patent journal and inventor’s magazine”, vol. II, de 28.11.1846 a 22.05.1847, Ed. Charles Barlow and Philip Le Capelain (The Patent Office), London, p. 638 e 639: “Peter Claussen, of Leicester Square, in the county of Middlesex, gentleman, for improvements in methods of an apparatus for proplelling and exhausting and copressing air and aeriform bodies. Patent dated July 23rd, 1846, Enrolled January 23rd, 1847. – This invention … etc.”

 (26) “Report of the twenty-third meeting of Bristish Association for the advancement of science”, (Hull, September, 1853) – John Murray, Albemarle St., 1854, p.38.

(27) “Report of the twenty-fifth meeting of Bristish Association for the advancement of science”, (Glasgow, September, 1855) John Murray, Albemarle St., 1856, p.103 e 104.

 (28) SPIX, Johann Baptist (*1781 +1826) & MARTIUS, Carl Friedrich von (*1794 †1868) − “Viagem pelo Brasil”, vol. II, Itatiaia, 1981, p. 107.

 (29) Semanário “The Spectator”, Londres, 16.08.1862, p. 907.

 (30) RAWDON, Elizabeth (Lady Moira) − (*23.03.1731 †11.04.1808) Filha de Selina Shirley e Theophilus Hastings.

 (31) RAWDON, John − (*17.03.1720 †20.06.1793) Primeiro “Earl of Moira”. Foi um “peer” irlandês, título nobiliárquico da“Peerage of Ireland”, sendo “earl” uma palavra vem do norueguês antigo “jarl” e é equivalente a conde.

 (32) SHAEFFER, George Christian − (* 08.12.1814 †04.10.1873) Engenheiro, químico e geólogo norte-americano. / Fonte: “35ª Covocação, 2ª Seção, Documento nº 35 – Relatório da Comissão do Congresso dos Estados Unidos (01.03.1865): “Investigações para testar a praticabilidade de cultivar e preparar linho ou cânhamo como substituto do algodão”

(33) Internação em Camberwell foi divulgada pelo semanário “The Spectator”, Londres, 16.08.1862, p. 907. 

 

 

 

 

 

Anúncios

2 Comentários »

  1. Prezado, o artigo é interessante. Gostei do seu blog, principalmente pelo conteúdo de denúncia. Mas contém um pequeno erro. Marx não disse que o tear de Claussen era uma mera ferramenta. Neste trecho do Capítulo 13 do Capital, Marx está tratando de diferenciar o que é ferramenta do que é máquina. Ele então critica a visão que diz que ferramentas são movidas pelo homem e as máquinas por uma fonte externa, como animais ou vapor. Ao apresentar a visão que ele está criticando ele diz que, de acordo com essa visão, esse tear circular seria uma simples ferramenta, quando na verdade está claro para todos que ela é uma máquina.

    Comentário por Rafael — 13/07/2015 @ 4:36 pm | Responder

    • Rafael:
      Agradeço sua colaboração. Reli meu texto e constatei que nele está dito que Marx escreveu “na sua obra ‘O Capital’, de maneira crítica”. No sentido de que estava desmerecendo a máquina do Claussen ao chamá-la de ferramenta. Esse deve ser o entendimento. Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 13/07/2015 @ 4:51 pm | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: