Sumidoiro's Blog

01/02/2014

O CAVALEIRO DA LUA (II)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:39 am

♦ Um grito de socorro

No início da década de 1860, um homem maduro e bem apessoado foi recolhido a um asilo de loucos, na periferia de Londres. O doente costumava sentar-se cabisbaixo, quase mudo e apático, durante dias ou semanas, em um canto do seu quarto solitário. Com frequência, tinha explosões de excitação repetindo frases incoerentes, nas quais pronunciava com clareza apenas a palavra “flax-cotton”. Chevalier Claussen, assim chamavam o infeliz.

Post - Claussen & Stone HouseO sofrimento do Cavaleiro da Lua (montagem sobre foto recente de “Stone House”).

Era dinamarquês e batizado como Peter Nicolas, em 1801, filho de Peter Olivarius Clausen mas, depois, acrescentou um “s” ao sobrenome, para soar como duplo “s”, como se fala em dinamarquês. É voz corrente que Peter Nicolas Claussen veio para a América do Sul fugindo da justiça e em busca de fortuna, mas é certo que esteve primeiramente pelo Brasil, quanto contava pouco menos de vinte anos de idade. Em seguida, visitou o Uruguai e Argentina em breve temporada, retornando ao Brasil, onde construiu a maior parte de sua história de vida, a qual pode ser melhor conhecida no Post anterior, “O cavaleiro da lua (I)”.

Post - Tear ClaussenDurante algum tempo, viveu em Curvelo (MG), onde foi fazendeiro e, dizendo-se casado com uma brasileira, pediu e obteve a naturalização brasileira. Nesse ato, fez um requerimento assinando como “Pedro Claudio Dinamarquez”. Sua mulher chamava-se Claudina Cândida de Britto Claussen, mas não se tem nenhuma informação sobre o lugar onde nascera e nem quem seriam seus pais.

← Tear manual circular de Claussen.

Tendo feito várias invenções, a mais importante o produto têxtil que denominou “flax-cotton”, Claussen decidiu retornar à Europa, no final da década de 1840 e, no ano de 1851, deslocou-se para a Dinamarca, Inglaterra e França, onde apresentou a novidade mas, pelo seu invento, obteve apenas honrarias e nenhum apoio de ordem prática. Entre outras coisas, alguns biógrafos disseram que naquela estada europeia teria se casado, pela segunda vez, com uma jovem francesa. Entretanto, trata-se de uma enorme falsidade, como revelam os documentos agora encontrados. Pois que sirva esta revelação como mais um alerta, para mostrar que existem “fábricas de história”!

O personagem, que já demonstrara ser um colecionador de insucessos, vislumbrara oportunidades na Feira Internacional de Londres, em 1851, que aconteceria no Hyde Park. Lá apresentou o “flax-cotton”, com todo estardalhaço possível e, realmente, a invenção repercutiu pelo mundo. Entretanto, o processo mostrou-se defeituoso, porque Claussen era de fato um pseudo-inventor, especialista em reciclar ideias alheias e, na sua impetuosidade, sempre queria resultados imediatos que nunca chegavam a bom termo. No caso do “flax-cotton”, se tivesse sido capaz de vender esse linho fantasiado de algodão, teria virado na verdade um gênio do “marketing”.

Post - Correio MercantilCarta de Claudina de Britto Claussen, no Correio Mercantil (detalhe).

Chegou ao ponto que, ao que parece, o próprio Claussen sentira a aproximação da hora da verdade e passou a ter crises de mau-humor, com suas naturais consequências. Numa delas, se acidentou e procurou atendimento médico. A partir daí, quem escreveu a história foi sua mulher, Claudina Cândida de Britto Claussen que, retornando ao Brasil, com saúde precária, pediu auxílio pelo marido. Seu grito de socorro foi publicado em correspondência ao “Correio Mercantil”, do Rio de Janeiro, de 03.04.1863, e revela os momentos finais do Cavaleiro da Lua, o inventor que foi internado em um hospital de lunáticos londrino.

O grito de Claudina:

SOCORRO!

“Senhor redator — Li, nas colunas do seu jornal, de 27 de março próximo passado (ano de 1863), um trecho tendente* (*referente) à descoberta do cavaleiro Pedro Claussen, sobre o linho e todas as outras plantas fibrosas, transformadas por processos químicos ao estado de poderem ser misturadas com lã, seda e algodão; e fiadas nas máquinas de fiar algodão. Em resposta ao seu artigo supracitado, cabe-me dizer que estas descobertas se realizaram perante a Sociedade Real de Agricultura de Londres e muitas outras; e no Grande Júri da Grande Exposição de Londres, em 1851, que as aprovou plenamente, obtendo ele, da Grã-Bretanha, com a proteção* (*endosso) do parlamento, a patente inglesa, assim como em todos os outros países da Europa e da América.

Formaram-se companhias em Paris, por meio das quais se verificou a realidade e excelência desta descoberta, fabricando-se, com essas matérias primas, combinadas em várias proporções, tecidos de todas as castas, que granjearam as pessoas que se dedicaram a essas manufaturas um produto real.

Post - Hosp S Bartolomew“Saint Bartholomew’s Hospital”, conhecido também como “Barts”.

Infelizmente, porém, como costuma acontecer em quase todas as descobertas grandiosas, o seu autor, meu marido Pedro Claussen, por circunstâncias muito complicadas e impossíveis de serem aqui explicadas, se achou na posição de ser obrigado, por uma queimadura que teve no pé, a entrar no hospital S. Bartolomeu, em Londres. Sendo meu marido de um caráter arrebatado, a violência de suas dores o fez sair, por um instante, fora de si, dando com o pé uma pancada no enfermeiro que o curava. Nesse momento, usou-se para com ele de todos os meios, os mais cruéis, metendo-se-o em uma camisa de força, estado em que o conservaram por mais de dois meses. Em todo esse tempo, era acometido de grandes acessos de febres, durante os quais variava.

No fim desse tempo, foi transportado para a casa de saúde dos alienados ‘Cambre Viel House’ (Camberwell House), dirigida pelo Dr. Paulo (John Hayball Paul), nos arredores de Londres. Lá, achando-se rodeado de alienados de todos os gêneros, suas faculdades mentais subiram* (*sofreram) uma pequena alteração, que a liberdade e o gozo* (*prazer) de reunir-se à sua família, entregue aos seus exercícios habituais, que formavam todo o alimento e encanto de sua vida, faziam desaparecer incontinente. Máxime* (*principalmente) regressando ao seu país adotivo, onde passou toda a sua mocidade e poderia, então, prestar grandes serviços, continuando em sua carreira de descobertas, em que ele fazia consistir toda a poesia e a felicidade desta vida.

Post - Camberwell & dr Paul“Camberwell House Asylum”, hospital de doentes mentais e dr. John Hayball Paul.

Eu, sua mulher, tenho feito todos os esforços possíveis para melhorar sua posição* (*situação), até que uma grave moléstia pôs-me na impossibilidade de dar passadas para o complemento do meu projeto, mas tenho em meu poder documentos preciosos e algumas amostras de matéria prima, assim como de alguns tecidos.

À vista destas declarações e do estado em que me acho, sujeita a findar meus dias antes de completar minha missão, aproveito o ensejo do momento das suas publicações, para fazer subir ao governo de meu país estas minhas revelações sinceras desse estado de coisas, a respeito das citadas descobertas, que têm marcado uma época célebre no progresso das ciências do século, produzindo reformas tão grandiosas e rendosas, em um ramo tão importante das indústrias nacionais, como os tecidos, e bem assim de seu inventor, cuja reclamação para seu país adotivo, além de ser um ato louvável de humanidade, seria uma fonte de prosperidade e utilidade, para um país como este, em que abundam tantos produtos vegetais, de que se pode fazer fontes de riqueza e renda nacional, pela exportação para os países da Europa que os não possuem.

Post - Hospital da GamboaHospital de Nossa Senhora da Saúde (Gamboa).

Aproveito pois o ensejo, como digo, para erguer minhas vozes no leito da enfermidade e mesmo – quem sabe? –, já junto à morte, para fazer chegar ao conhecimento dos sábios administradores do estado que o cavaleiro Pedro Claussen, que tem feito a admiração e entusiasmo dos sábios do século; e que por seus inventos ficou senhor de milhões, se acha hoje esquecido do mundo, recolhido como alienado em ‘Comber Viel House’ (Camberwell House), em Londres. E, de onde retirá-lo, só caberá ao governo brasileiro a glória, que até aqui pode ter, ainda mesmo por intermédio de recursos a outras nações.

Sua esposa, que se acha hoje enferma na casa de Saúde do morro da Saúde.

Claudina de Brito Claussen”

———

Post - RetratosDois retratos e uma carta

O desapreço pela arte e patrimônio cultural é tradição brasileira. Não fora isso, os rostos de Claudina e Peter talvez pudessem ser hoje conhecidos, através de dois retratos. O “marchand” Ruqué, do Rio de Janeiro, anunciou (imagem ao lado), no “Correio Mercantil” (23.04.1863), a venda dessas pinturas, exatamente nos dias em que Claudina esteve internada em tratamento de saúde. Fica evidente que, ao dispor de bens de alto valor sentimental, a infeliz senhora revelava a dificuldade financeira pela qual estaria passando.

Sua correspondência denota fluência verbal e vocabulário bastante satisfatório, considerando o nível geral de instrução das mulheres da época. Entretanto, apesar do seu perfil de pessoa aparentemente preparada e desenvolta, isto não bastaria para vencer as dificuldades de viver sozinha num pais estrangeiro. Deve ter passado maus momentos na Inglaterra, doente e distanciada do marido durante seu recolhimento em Camberwell.

Post - Hospital & obituárioEntrada antiga do Hospital de Nossa Senhora da Saúde. / Obituário, “Correio Mercantil”.

O fim de cada um

No Rio de Janeiro, Claudina esteve internada no antigo Hospital de Nossa Senhora da Saúde, onde normalmente eram acolhidos indigentes e ao qual se referiu como “casa de Saúde do morro da Saúde”. Esse estabelecimento, também conhecido como Hospital da Gamboa, foi edificado numa elevação, próxima à praia de mesmo nome, na região portuária, o morro da Gamboa e não morro da Saúde, como ela se referiu. Ela faleceu vitimada por tuberculose pulmonar, três mêses após a divulgação do apelo em prol do marido e foi sepultada em 26 de junho de 1863. Completara quarenta anos de idade, portanto nascera em 1823. O “Correio Mercantil”, de 28.06.1863, publicou o obituário.

Post - Hospital de indigentesO hospital para indigentes, Nossa Senhora da Saúde ou Gamboa, em duas publicações do sec. XIX.

A história de Claussen ainda não foi completamente revelada. Em 30.12.2013, o pesquisador Jean-Claude Clausen Lagrange divulgou importante informação: “Possuo o registro de sua morte em 1872. Dois obituários do mesmo ano, em jornais ingleses, confirmam que e o Chevalier Claussen faleceu com setenta e dois anos de idade. A ficha médica não traz data de nascimento completa, apenas o ano. De outros internos do hospital existe data de nascimento, por inteiro. A data anotada foi transferida do hospital que, pela primeira vez, cuidou de Claussen e transferida para os arquivos dos manicômios de Camberwell e Stone House.”

Post - Stone HouseComplexo de “Stone House”.

A última morada

Depois de algum tempo, Claussen foi transferido de Camberwell para outro nosocômio, conhecido como “The City of London Lunatic Asylum”. Este foi inaugurado, em 1862, para abrigar duzentos e vinte pacientes pobres. Em 1924, trocaram seu nome para “City of London Mental Hospital” e, em 1948, para “Stone House Hospital”. Atualmente, a sólida edificação é uma ruína razoavelmente bem preservada e, em dezembro de 2013, foi anunciada a intenção de transformá-la em um condomínio particular, com duzentas e cinquenta e cinco unidades residenciais.

post-placa-stone-housePlaca alusiva à fundação do “City of London Mental Hospital”.

O asilo funcionava sob a forma de comunidade autônoma e seguia modelo típico do século XIX, contando com uma pequena fazenda, uma capela, uma ala para doenças infecciosas e um cemitério. O conjunto de edifícios está localizado em Dartford, a 25 km de Londres, que é a mais importante cidade do condado de Kent. Bem próximo, ainda existe o cemitério, denominado “Bow Arrow Lane Cemetery”, onde enterravam os pacientes falecidos. O campo-santo está ao abandono e tudo que resta são algumas decrépitas sepulturas, tomadas pelo mato. Ali está sepultado Peter Claussen, desde 1872, mas sem identificação do túmulo. Sua história de solidão começara ainda em vida, pois Claudina havia falecido nove anos antes, pouco tempo depois de sua internação em Camberwell.

Se, algum dia, descobrirem sua sepultura, não se esqueçam que o Cavaleiro da Lua era naturalizado brasileiro. E, se lhe presentearem com uma lápide, por favor, acrescentem estas palavras: “Aqui jaz o curvelano Pedro Cláudio Dinamarquês”.

• Clique com o botão direito e veja todos, “O cavaleiro da lua” I  | III 

Texto e arte de Eduardo de Paula

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2 Comentários »

  1. Obrigada por compartilhar esse conhecimento.
    Depois que Lund e Brandt saíram da Fazenda Porteirinhas, em Curvelo, sabia que Claussen voltou para a Europa, mas esses novos detalhes são surpreendentes.
    Abraço,
    Julia

    Comentário por Julia Pinheiro — 16/02/2014 @ 11:25 am | Responder

    • Júlia:
      Aguarde o próximo Post. Vou contar mais coisas do Peter e da Claudina.
      Muito obrigado. Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 16/02/2014 @ 4:00 pm | Responder


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