Sumidoiro's Blog

01/07/2014

NASCIDO PARA MATAR

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 12:00 am

♦ O homem que mandava embora

Num jornal do Rio de Janeiro, de 02.11.1889, contaram um pedaço da história de Fortunato, o mais famoso carrasco de Minas Gerais, falecido seis anos antes. O relato é veraz, embora contenha pequenas falhas de informação, e se confirma através de testemunhos em inúmeras publicações na imprensa de Ouro Preto (MG). O autor(1), jornalista renomado, escreveu para a “Gazeta de Notícias”:

Post - Fortunato & forcaFortunato, a vida para ele era coisa de somenos importância.

O CARRASCO FORTUNATO

Por José Ferreira de Araújo

“Era um homem jovial, o verdadeiro tipo desses bons tropeiros dos sertões de Minas que, à noite, nos pousos, divertem os camaradas rasgando uma chorada chula na viola, enquanto, ao longe, pasta a boiada. Quem não conhecesse a terrível história daquele homem, ao vê-lo risonho, de bentinhos e patuás ao peito, sempre a falar em Deus e Nossa Senhora, estaria longe de julgar que era ele o célebre carrasco, terror da província de Minas Gerais.

O crime não deixara naquele rosto as estrias do remorso. O sangue que ele derramava, por conta da justiça, não lhe produzia no espírito impressão alguma. Fizera-se carrasco como quem se faz sapateiro. Enforcar um homem era, para ele, como se deitasse umas tombas* (*remendasse sapatos). Chamava-se Fortunato e foi o último carrasco que tivemos. Usava de uma frase especial para dizer que havia justiçado um criminoso: “- Mandei-o embora”. 

A vida, para ele, era coisa de somenos. E, se o quisessem ver alegre, era dizer que preparasse para ir enforcar um réu. Nas vésperas da execução, mostrava-se Fortunato de uma expansibilidade extraordinária. Ria, falava consigo mesmo, gesticulava e punha-se até a cantarolar. Para o criminoso, a quem tinha de mandar embora, era ele de uma ternura quase paternal. Tinha, então, extremos de delicadeza e, falando-lhe, uma doçura verdadeiramente feminil na voz.

No momento, porém,  em que deitava a corda ao pescoço do miserável, dilatavam-se-lhe os olhos e brincava-lhe no rosto uma alegria feroz. Os gestos eram então sacudidos e nervosos. Rápido como um relâmpago, cumpria o seu degradante e infame dever, recuperando, logo depois, a calma e a tranquilidade de um justo.

Dormia aquele homem como pode dormir quem nunca teve um mau pensamento, nem praticou uma ação indigna. Tinha amor ao ofício e exercia-o com prazer. Era um tipo digno de estudo, o carrasco Fortunato; e, graças à obsequiosidade de pessoa que o conheceu, podemos hoje oferecer aos leitores alguns dados sobre a vida desse sinistro personagem, que figurou em tantas tragédias judiciárias.

Post - Cadeia O PretoCadeia de Ouro Preto, morada fixa de Fortunato.

Fortunato nascera em 1811, em Lavras, na província de Minas Gerais. Era filho de Jerônimo e Engrácia, escravos como ele, de Antônio Carlos Garcia. Era negro e tinha bastos bigodes. As barbas, em carapinha, emolduravam-lhe o rosto cheio e arredondado. O olhar era vivo e cintilante. As orelhas apresentavam tamanho fora do natural, e como que se moviam quando ele falava com animação. O abdome, volumoso e crescido, bem como mas costas notavam-se duas grandes cicatrizes. Tinha sessenta e duas polegadas* (*1,57m) de altura, era analfabeto e apresentava um aleijão na mão esquerda.

Fortunato era estimado na fazenda pelo seu humor folgazão e porque sabia entreter os seus míseros companheiros de cativeiro, por meio de histórias que ele contava com certa graça. Um dia, porém, revoltado por ter sido castigado, premeditou um assassinato e o executou com a maior calma. Foi vítima do miserável uma infeliz mulher, sua senhora, de nome Anna Custódia de Souza, esposa do fazendeiro Garcia. Recolhido à prisão, e transferido depois para a cadeia de Ouro Preto, foi ele condenado a galés perpétuas(2), como incurso no grau máximo do art. 192 do código criminal, em virtude do art. 194 do código do processo, por sentença datado de 13 de novembro de 1868, tendo havido apelação, que não foi decidida.

Post - No leito de morteFortunato esperando a morte, na cadeia de Ouro Preto (foto: Arquivo Público Mineiro).

Tinha ele vinte e quatro anos de idade, em 1835, quando fez a sua estreia como carrasco. Estava preso, mas não tinha sido ainda condenado. É esta a longa série dos seus sinistros trabalhos:

– No dia 20 de março de 1835, seguiu de Ouro Preto para Itabira, onde enforcou um criminoso, voltando a 2 de junho de 1840 para a sua prisão. Foi uma estreia auspiciosa. Fortunado mostrou-se orgulhoso ao ver que, nesse dia, era alvo dos olhares da multidão e trabalhou limpamente. Sim, ele nascera para aquilo!

– A 26 de setembro de 1840, seguiu para Caeté, onde foi cumprir o seu fatal dever, recolhendo-se a 1 de outubro de 1843.

– A 21 deste último mês, seguiu para Piranga, onde executou o réu Antônio Cabra, voltando a 30 do mesmo mês.

– A 6 de novembro, seguiu para Itabira, recolhendo-se a 20 do mesmo mês.

–  A 10 de outubro de 1846, partiu para Três Pontas, regressando a 18 de novembro.

– A 1 de dezembro, desse ano, seguiu para Pitangui, onde enforcou o réu Balduíno, escravo de Antônio Nunes Carneiro, regressando a 20 de janeiro de 1847.

– A 1 de março, seguiu para Barbacena, onde executou o réu Fernando José de Araújo, regressando a 20 do mesmo mês.

– A 30, ainda desse mês, seguiu para o Piauhy (Pium-i), regressando a 20 de junho de 1847.

– A 23 de janeiro, seguiu para a Conceição do Serro, regressando a 20 de fevereiro de 1849.

– A 26 de maio, seguiu para Uberaba onde fez diversas execuções, recolhendo-se a 28 de julho, do mesmo ano.

– A 5 de outubro, seguiu para S. João Nepomuceno, regressando a 30 de novembro.

– A 18 de dezembro, ainda de 1849, seguiu para o Serro, onde executou o réu José Africano, recolhendo-se a 15 de janeiro de 1850.

– A 26 de fevereiro, seguiu para Araxá, voltando a 28 de abril.

– A 27 de setembro, seguiu para o Curvelo, a fim de executar o réu Celestino, regressando a 17 de outubro (leia o Post “Vida e morte”).

– A 11 de novembro, seguiu para S. João Del Rei, para executar o réu João, escravo de Francisco José Antônio Guimarães, seguindo dali para Barbacena, a 4 de dezembro, para executar o réu Antônio Moçambique, e recolhendo-se a 20 de janeiro de 1851.

– A 30 de junho, de 1852, seguiu de novo para S. João Del Rei, para executar o réu Fortunato Crioulo, recolhendo-se a 31 de julho.

– A 23 de agosto, seguiu para o Curvelo, onde enforcou o réu João Paulo Pereira, recolhendo-se a 27 de setembro.

– A 7 de outubro, seguiu para Mar de Espanha, a fim de executar o réu Germano e recolheu-se a 9 de novembro.

– A 6 de maio de 1853, seguiu para Rio Preto, a fim de executar os réus Marcelino Crioulo e Antônio Malvadão, assassinos de seu senhor, Luiz José de Paula, e recolheu-se a 10 de junho.

– A 1 de julho, seguiu para Curvelo, onde executou o criminoso Cassimiro Pereira da Silva, regressando a 1 de setembro.

– A 7 de outubro, seguiu para Barbacena, regressando a 8 de novembro.

– A 16 de julho de 1854, seguiu para Curvelo, recolhendo-se a 4 de agosto.

– A 5 de setembro, seguiu para Mar de Espanha, regressando a 10 de outubro.

– A 17 de novembro, seguiu de novo para Mar de Espanha, onde executou os réus Antônio Cabinda, Antônio Angola e Pedro Noddão, voltando a 30 de dezembro.

– A 18 de maio de 1855, seguiu para Jacuí, recolhendo-se a 1 de junho.

– A 19 do mesmo mês, seguiu para Pouso Alegre, onde enforcou o réu José, escravo, regressando a 20 de julho.

– A 8 de outubro, seguiu para Piranga, onde executou os réus Antônio Bento Monteiro e Inês, escrava, regressando a 21 de outubro de 1856.

– A 4 de novembro, seguiu para Caldas, regressando a 30 de dezembro.

– A 16 de novembro de 1857, seguiu para Leopoldina, onde executou os réus David, Amâncio* (*ou Américo), Vicente e Joaquim, recolhendo-se a 13 de janeiro de 1858.

– A 14 desse mesmo mês, seguiu para Mariana, onde enforcou o célebre criminoso José Joaquim Gomes da Fonseca, mais conhecido como Tira-Couro, regressando a 20, ainda desse mês.

– A 7 de abril, seguiu para Sabará, a fim de executar os réus Peregrino e Rosa* (*as rés Peregrina e Rosa), recolhendo-se a 20 de abril.

– Finalmente, a 19 de julho, seguiu para Diamantina, onde enforcou o réu Arcanjo, regressando a 20 de setembro, desse mesmo ano de 1858.

Post - Final de vidaNo “Provincia de Minas”, 19.07.1883: um abraço no crucificado.

Ainda exerceu ele seu funesto ofício em diversas localidades, tendo-lhe passado pelas mãos mais de cinquenta criminosos. Um ano depois da sua última execução, começou Fortunato a mostrar-se amodorrado, tristonho, sombrio, manifestando, a cada momento, a profunda saudade que tinha dos belos tempos em que trabalhava. 

– Vocês querem então que eu morra? – dizia ele muita vezes aos guardas da prisão. – Então, não há por aí mais ninguém a quem eu tenha de mandar embora? Já não se faz mais justiça nesta terra? 

Pouco a pouco, foi Fortunato perdendo a robustez da sua musculatura de aço e aquela constante jovialidade que fazia dele um carrasco alegre. A definhar lentamente, chegou Fortunato até a idade de setenta e dois anos, e faleceu a 9 de julho de 1883, deixando de si tristíssima recordação na província de Minas Gerais. Dele se pode dizer que foi um homem que soube exercer limpamente o seu miserável ofício, pois o fazia como se não houvesse nascido para outra coisa. Em Minas Gerais, tornou-se lendário o sinistro nome desse carrasco, de quem damos hoje o retrato.” (* Desenho na abertura deste Post.)

———

Post - Gazeta do NorteUm repórter da “Gazeta do Norte”(3), que acompanhou o imperador d. Pedro II em sua viagem a Minas Gerais, no ano de 1881, deu outro testemunho, embora com alguma divergência ao relato de José Ferreira de Araújo:

“Não deixarei de citar o nome do carrasco que, ainda hoje, vive e é preso daquela cadeia* (* de Ouro Preto). Chama-se Fortunato, é filho de Lavras, desta provincia. Tem, hoje, 72 anos. Entrou para a cadeia a 7 de Junho de 1833, começando a servir de carrasco em 1835. Foi condenado a galés perpetuas por ter assassinado sua mulher Anna Custodia de Jesus. Tinha então 25 annos. Até 1877 fez 89 execuções em diversos pontos das provincias do Rio de Janeiro e Minas. Fortunato vive na enxovia* (*cárcere escuro e úmido) das galés e, como ha grande curiosidade em vê-lo, esconde se quasi sempre para não ser chamado, visto e interrogado. Pede sempre esmola no fim de qualquer conversa com algum visitante.” 

———

UM EPISÓDIO

contado por um homem ilustre, que conheceu de perto o carrasco:

Por Diogo de Vasconcellos

“Em junho de 1870, dia que não me lembro, às 10 horas da manhã, subiam pela rua do Ouvidor de Ouro Preto (atual rua Cláudio Manuel), alguns deputados provinciais, quando encontram uma escolta conduzindo dois presos, um deles Jeremias, condenado à morte e o outro, Fortunato, o carrasco. Iam para Uberaba, onde se devia fazer a execução.

Avistando os deputados, Jeremias atirou-se aos pés de um deles, o meu inolvidável amigo, dr. Ignacio de Assis Martins(4)“- Pelo amor de Deus! Valei-me! Vou para a forca!” Impressionados e comovidos, os deputados seguiram, dali mesmo, para o palácio.

Eu era, então, o secretario do governo(5)“Diogo – dizia-me o Ignácio – vimos aqui te pedir para entender-se com o presidente; que mande recolher a escolta, escolta que leva o desgraçado para a forca, até que o imperador despache a petição de graça que vamos redigir.”

Post - Pça TiradentesDiogo de Vasconcellos, Ignacio Martins e praça Tiradentes, Ouro Preto, final do sec. XIX.

Os deputados, imediatamente, saíram e foram para a assembleia. Em menos de duas horas, eu recebia a petição que, sem demora, mandei preparar na secretaria, para seguir pelo correio, que partia às 2 horas e levava dois dias a chegar ao Rio. Entretanto, ao passo que os deputados trabalhavam na petição, me entendi com o presidente que, então, era o meu velho mestre e amigo dr. José Maria Correia de Sá e Benevides.

Eu mesmo estava surpreendido, por ignorar a partida de Jeremias. É verdade que, por minhas mãos, tinha passado a ordem para se fornecer ao chefe de polícia uma força, que conduzisse presos a Uberaba, mas não me passava pela mente se tratar de semelhante destino. Imagine-se, pois, minha aflição. O presidente observou-me que, em todo caso, a escolta se achava em marcha e não era regular o expediente que eu solicitava. Além disso, ponderou-me que, em se tratando de uma petição, ao imperador, parecia inconveniente antecipar com o despacho.

Nesse caso, expedisse eu a ordem reservada ao comandante da escolta para ir demorando a marcha, falhando pelo caminho, de modo a ganhar tempo. Esta ordem transmitida ao coronel César, comandante do corpo, foi logo cumprida por um portador, que a entregou em Queluz (Conselheiro Lafaiete). Efetivamente, a escolta dobrou os dias em caminho e mais não se demorou por ter-lhe sido insuficiente a provisão das tropas. Chegaram finalmente a Uberaba.

Ali, a população horrorizada se opôs à execução, por modos indiretos. Não houve carpinteiro que preparasse a forca, nem se achou madeira em parte alguma. O comandante da escolta, porém, mandou, não sei por qual capricho, os soldados ao mato e, ele mesmo com um destes, que entendia do ofício, erigiu o terrível patíbulo. Mas não havia, nem houve, quem lhe vendesse a corda.

E os dias passavam, sem chegar a notícia da petição de graça. Finalmente, o comandante mandou a Franca um soldado comprar corda mas, com tal felicidade que, no dia em que ele chegou a Uberaba, também chegou o correio, trazendo, no Diário Oficial, a comutação da pena. O juiz municipal, que estava aterrado pelo dever de presidir a execução, saltou de contente. Suspendeu a execução e esperou o decreto. Jeremias voltou para Ouro Preto a cumprir sua pena de galés perpétuas.

Surgindo, porém, a república, o marechal Deodoro expediu um decreto do governo provisório, mandando por em liberdade todos os réus condenados em virtude da famosa lei draconiana, de 10 de julho de 1835. Ora, o Jeremias foi um deles e eu o vi livre em minha casa, na Água Limpa, lembrando-se da parte que tomei na sua tragédia.

Hoje, 13 de maio… Felizes vós, ó moços, que não vistes a escravidão e que não vereis manchando a luz de vossos olhos, a triste e horrenda figura dos patíbulos! Seja a glória da geração a que pertenço, ter preparado para vós uma pátria mais ditosa!” — Escrito em Belo Horizonte, em 13.05.1908.

Post - ForcaO teatro do horror

Nos atos de violência, tais como esses aqui narrados, não há como rotular uns de anjos e outros de demônios. Aqueles criminosos, em sua grande maioria, eram negros e pobres, e que viviam sob o jugo cruel do regime escravista. Foram levados ao crime justamente pela opressão a que eram submetidos. Também é preciso que se diga que a igreja católica foi partícipe e muito oportunista nesse teatro do horror. Sempre havia um padre ao lado do cadafalso, não apenas para encomendar a vítima, mas também para pronunciar discursos, que empolgavam a multidão presente ao espetáculo.

A imprensa de Ouro Preto(6), após o enforcamento do facínora Tira-Couro, deu notícia: “Ante hontem, 16 do corrente, foi executada, em Marianna, a sentença de pena ultima, imposta ao réu José Joaquim Gomes da Fonseca […] Fomos informados de que o réu manifestara grande resignação, e que, do alto do patibulo, pedira perdão a todos que se achavão presentes ao acto. Assistiram-no e acompanharão os rvm. os srs. padre Carnaglioto e o conego Roussin, recitando este, ao findar-se a execução, um discurso analogo, que muito comoveu ao numeroso auditorio.”

Esse vaidoso orador, o cônego José de Souza e Silva Roussin(7), era um ferrenho escravagista e vivia criando problemas por onde passava. Um dos seus incontáveis atos de destemperança foi manter sob cativeiro uma freira − Antonia Clara de Abreu e Lima −, ex-escrava, liberta há mais de vinte anos.

Como já foi dito, o algoz Fortunato dirigiu-se a Leopoldina, em 16.11.1857, para fazer um dos seus servicinhos. Naquela oportunidade, enforcou quatro indivíduos − David, Américo, Vicente e Joaquim −, que haviam assassinado o norte-americano Michael Jackson (veja ilustração abaixo). Valha-nos Deus, esse nome parece que não traz sorte!

Post- Condenados a forcaTrecho do relatório do governo da província, 1858.

O jornal “Correio de Minas”, de 04.05.1857, havia noticiado a morte do estrangeiro:

“Em dias de Setembro, foi assassinado no Districto de S. José do Parahyba, o americano Michael Jackson, por escravos que conduzia para vender. O respectivo subdelegado deo prontas providencias, tanto para arrecadação dos bens, que deixava o morto, como para a prisão dos réos, em numero de 7, dos quaes foi um absolvido, e 6 condenados à morte pelo Jury da Villa Leopoldina.”

Post - ForcaO caso de Rosa e Peregrina

Ÿ Pouca lenda e muita história

Moradores de Sabará, o brigadeiro Jacinto Pinto Teixeira e sua mulher Maria do Carmo Pinto Teixeira, viviam na rua Direita com suas escravas Peregrina, Luísa, Tecla, Balbina, Quitéria e Jesuína. Diziam que a esposa, apesar de muito bonita, era ruim feito uma caranguejeira. Certa feita, compraram uma nova escrava, de nome Rosa, mas o marido cometeu a imprudência de dizer que a jovem tinha lindos dentes e belo sorriso. Foi o bastante para despertar ciúmes em Maria do Carmo. Bastou que Jacinto saísse em viagem, Maria do Carmo passou a executar um plano elaborado em sua mente doentia, mandou seus capangas arrancarem os dentes de Rosa e, no retorno do marido, entregou-lhe numa bandeja o presente macabro.

As demais escravas, que viviam sob o jugo do casal, revoltadas com a barbaridade cometida, arquitetaram o plano de matar Maria do Carmo. Assim, no momento aprazado, revoltadas e enfurecidas, derrubaram a patroa a golpes de machado e mão de pilão, debaixo da escada do casarão ainda existente na rua d. Pedro II. E não deu outra, o corpo da megera caiu inerte ao chão, desfigurado ao ataque das assassinas, fato que ocorreu no dia 05.06.1856.

Post - Rosa & Peregrina condenadasApelação não atendida das condenadas Rosa e Peregrina (“Correio Official de Minas”, 12.11.1857).

A polícia aprendeu todas, mas imputou a culpa às escravas Rosa e Peregrina que, apavoradas, logo em seguida, conseguiram escapar, buscando refúgio na casa do padre, advogado e poeta José Marciano Gomes Batista. A doçura do bardo e o socorro da fé não foram suficientes para lhe darem guarida, e acabaram na prisão. O mesmo ocorreu com as demais escravas que, denunciadas, foram submetidas a julgamento. Mas tiveram a infelicidade de cair nas mãos do inflexível juiz Quintiliano José da Silva(8).

No dia 12.02.1858, o presidente da província, comunicou ao juiz de Sabará que Rosa e Peregrina não haviam recebido clemência e ordenou que fossem tomadas as providências finais. E, em 12.08.1856, saiu a ordem de execução de Rosa e Peregrina, autoras do homicídio; as demais, foram condenadas à pena de sessenta açoites cada uma e, também, à de portarem soldada ao pescoço uma argola de ferro, como sinal de infâmia. Só escapou a escrava Quitéria que, por sorte, na hora fatídica, encontrava-se atada pelos pés ao tronco.

Post - Catacumbas Sabará

O portão das catacumbas.

Foi, então, convocado o carrasco Fortunato, para cuidar da etapa final do justiçamento, o qual se consumou no dia 14.04.1858, em patíbulo montado no terreno das catacumbas, situadas em frente à igreja do Carmo de Sabará.

Daquela feita, o carrasco agiu com desleixo, porque, logo após o enforcamento, ao recolher-se o corpo de Rosa, constatou-se que ainda estava viva. Há uma explicação para isso. Conta-se que Fortunato não era afeito a enforcar mulheres, pois se abalava ao ver a terrificante imagem de sofrimento estampada em seus rostos. Vai ver que descuidou-se na hora de apertar o laço e teve de retornar com Rosa ao cadafalso para finalizar o serviço, assim aumentando o sofrimento dela e dele.

Mas a história não terminou aí. O bárbaro acontecimento gerou uma lenda na cidade de Sabará e, até hoje, dizem que se ouve, em certas horas noturnas, gemidos e clamores de inocência vindos do antigo cemitério da igreja do Carmo, onde desencarnaram a tão sofrida escrava. Houve um tempo em que chegaram a considerá-la santa, principalmente no meio da população de origem africana, pois socorreria os pobres nas aflições e doenças.

Então? O ciúme doentio de d. Maria do Carmo, ao interpretar mal o elogio a uma dentadura, fez desandar a tragédia. Sua atitude serviu apenas para semear sofrimentos e provocar uma sucessão de mortes, começando com a dela. E vejam que o marido era um ancião – mais de oitenta anos de idade –, doente e decrépito! Passados dezessete meses do seu assassinato, veio a morte do brigadeiro e, finalmente, as de Rosa e Peregrina. Abaixo seguem os registros dos óbitos:

Post - Óbito Maria do CarmoRegistro de d. Maria do Carmo – Livro de óbitos de Sabará, 1840-1875, p. 71 v.

“Aos seis de Junho de mil oitocentos, e cincoenta, e seis nas Catacumbas da Veneravel Ordem 3a da Senra do Carmo se deo sepultura a Ex.ma Dona Maria do Carmo Pinto Teixeira, Cazada com o Ex.mo Brigadeiro Jacintho Pinto Teixeira, não recebeo Sacramentos por ser sua morte violenta, assassinada por suas escravas, foi incomendada Parochialmente com Solemnidade e assistencia mais de cinco Sacerdotes de que fes este assento / O Vigr.o Ecomd.o Antonio José Vianna” 

Post - Jacinto falecimentoRegistro de Jacinto – Livro de óbitos de Sabará, 1840-1875, p. 81.

“Aos desaseis de Novembro de mil oitocentos, e cincoenta e sete nas Catacumbas da Veneravel Ordem terceirada Senr.a do Carmo se deo sepultura ao Exm.mo Brigadeiro Jacintho Pinto Teixeira, Viuvo, de idade de mais de oitenta anos, faleceo de infermidade interior, so foi absolido, e ungido por lhe faltar a sensação; foi Parochialmente incomendado com Solemnidade, e a assistência mais de quatro sacerdotes, com a encomendação da Orde˜* (*ordem ) pelo padre Mestre* (*professor) Antonio Firmino Roussin na falta do Commissario de que fez este assento / O Vigro Encom.do Antonio José Vianna”

Post - Rosa & Peregrina falecimentoRegistro de d. Rosa e Peregrina – Livro de óbitos de Sabará, 1840-1875, p. 83.

“Aos catorze de Abril de mil oitocentos, e cincoenta e oito no Cemiterio desta Matriz se deo sepultura as duas Rés, Roza, e Peregrina, Crioulas, condenadas por justiça a pena ultima, que sofrerão, pella hostilidade com q. matarão a sua Senra, escravas do Brigadeiro Jacintho Pinto Teixeir.a, e foram sufradas* (*sofreram a pena), e encomendadas / O Vigr.o Encomdo Antonio José Vianna”

———

Transcrição, texto e arte de Eduardo de Paula

Colaboração: Ivana Maria Aguiar Ribeiro / Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

 

• Clique com o botão direito e veja a sequência: “Fortunato algoz”.

(1) ARAÚJO − José Ferreira de Souza (Rio de Janeiro,†21.08.1900) − Foi dos mais conceituados jornalistas das últimas três décadas do século XIX. Era respeitado internacionalmente e gozava de imenso prestígio entre seus colegas brasileiros, e também estrangeiros. Durante muitos anos trabalhou como redator chefe da “Gazeta de Notícias” do Rio de Janeiro.

(2) Galé − prisão e/ou prisão com trabalho forçado.

(3) “Gazeta do Norte”: Fortaleza (Ceará), 26.04.1881, p. 2.

(4) MARTINS, Ignacio Antonio de Assis − Visconde de Assis Martins, (Sabará, *16.11.1839 / †02.03.1903). Advogado, juiz e político. / Veja o Post “A festa do barão”.

(5) VASCONCELLOS, Diogo Luís de Almeida Pereira de − (Mariana, *08.05.1843 / Belo Horizonte, †?.06. 1927) Historiador, político, jornalista e advogado.

(6) “Correio Official de Minas”, Ouro Preto, 18.01.1858, p. 4.

(7) ROUSSIN, José de Souza e Silva − Cônego, professor e político. Vereador em Ouro Preto e deputado pela Província de Minas Gerais.

(8) SILVA, Quintiliano José da Silva − (Curral d’El Rei, *23.12.1802 / †1889) Magistrado, político e presidente da província de Minas Gerais (de 17.12.1844 a 20.12.1847).

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7 Comentários »

  1. Eduardo:
    Aprecio demais esses artigos sobre a história de Minas e do Brasil. Tenho compartilhado todos eles em meu modesto blog e os amigos/leitores, que também os leem, do mesmo modo têm externado seu prazer na leitura. Parabéns e muito obrigado, Luiz David.

    Comentário por Luiz V. David — 01/07/2014 @ 7:07 am | Responder

    • Luiz:
      Fico alegre com o que você está dizendo.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/07/2014 @ 8:53 am | Responder

  2. Eduardo,
    mais uma história interessante, que nos remete aos tempos do Império. Se não perdi algum pedaço da história, fica a pergunta e uma dica para a continuação: por quê o condenado Jeremias era tão estimado, a ponto da própria população não desejar seu enforcamento?
    Parabéns e um grande abraço,
    João Vianna

    Comentário por João Vianna — 01/07/2014 @ 7:34 am | Responder

    • Olá João:
      Quanto ao Jeremias, nossa imaginação pode correr solta. Os humildes sempre foram muito maltratados pelos brutos, apesar de serem queridos pelas pessoas de bom coração. Ainda é assim. Caridade é também civilidade.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/07/2014 @ 8:49 am | Responder

  3. Eduardo, só para esclarecer, as filhas de Chica da Silva e João Fernandes ficavam dentro do Recolhimento, com suas escravas. Para a mãe, João Fernandes mandou construir a Casa do Serro, onde Chica se hospedava quando ia visitar as filhas, que tinham celas especiais construídas pelo pai e entregues ao Recolhimento como parte do dote das meninas. A documentação se encontra no acervo do Mosteiro, em organização, em diversos manuscritos avulsos. Abraço, Juscelina.

    Comentário por Maria Juscelina de Faria — 01/09/2014 @ 7:20 pm | Responder

  4. Existe algum indício da passagem de D.Pedro II por Lagoa Santa ou regiões próximas? Obrigada.

    Comentário por Josiane Simões — 12/03/2015 @ 12:23 pm | Responder

    • Josiane:
      Há sim. Leia o Post “Nos passos do imperador (IV)”, ou melhor, leia a série completa.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 12/03/2015 @ 4:23 pm | Responder


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