Sumidoiro's Blog

15/08/2014

NOS PASSOS DO IMPERADOR (II)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:20 am

♦ Visitando Morro Velho

O casal imperial d. Pedro II e dona Tereza Cristina, partiram do Rio de Janeiro, no dia 21.03.1881, sábado, às 6 horas da manhã, para conhecer Minas Gerais. O imperador cuidou de escrever um diário de viagem e a imprensa deu grande cobertura à visita. Parte desses acontecimentos são aqui revividos por Sumidoiro’s Blog (1), em continuação ao Post anterior.

Post - D. Pedro II a cavaloCom bom-humor, Angelo Agostini, mostrou d. Pedro II no sobe e desce pelas montanhas de Minas.

O imperador era homem de grandes qualidades humanas, culto, observador, cultivava as delicadezas, não se julgava superior e aceitava opiniões sem preconceitos. O jornalista, ilustrador e chargista Angelo Agostini, proprietário da “Revista Illustrada”, que acompanhou a excursão, era useiro e vezeiro nas críticas a d. Pedro II mas, nem por isso, ele sentia-se incomodado. Várias cenas da viagem foram documentadas na publicação, assinadas com o pseudônimo JC ou José Códea(2).

Post - Agostini & PedroAngelo Agostini e Pedro Luiz Pereira de Sousa.

Em um dos desenhos, Agostini (JC) retrata a si mesmo, cavalgando ao lado de Pedro Luiz Pereira de Sousa(3) e coloca  a legenda: “Pedro Luiz montado n’um burrinho pequenino. O outro sou eu.” Representa no desenho também o imperador e diz: “Imperador cavallo escuro pequeno. S. M. é o único que traz chapéo alto”. Aliás, d. Pedro II portou a insinuante cartola durante toda a viagem, mas Agostini não ficou atrás, pois usou um chapéu muito engraçado, chamando a atenção de toda gente por onde passava.

DE OURO PRETO A CONGONHAS DO SABARÁ

• Congonhas do Sabará: atual Nova Lima

Diário

Post - D Pedro miniABRIL — 2 – (Sábado) 6 h, partida. Entrada na igreja de Antônio Dias. Esculturas em pedra sobre a porta. A rua que aí conduz chama-se do Alvarenga. Bela vista para o lado da cidade, ao aproximar-se do antigo jardim botânico. Lá fui. Abandonado. Belas jabuticabeiras. Ainda há pés de chá. Guardam na casa a pólvora – vinte barricas. O estado vendeu por cinco contos, a prazos, esta propriedade tão aproveitável. Teria ficado talvez melhor aí, que no Saramenha, a escola agrícola.

Subida da serra que divide as águas do rio Doce de águas do rio das Velhas. Alto da Pedra de Amolar. Vasta e bela vista. O caminho é todo muito pitoresco. Descobri, ao longe, o rio das Velhas. Chafariz do tempo do governo(4) de d. Rodrigo de Menezes, 1722, creio eu. Arraialzinho dos Taboães, com ponte.

Post - Igr Cachoeira CampoMatriz de Nossa Senhora de Nazareth, Cachoeira do Campo.

11 (h) – Cachoeira do Campo, arraial de muitas casas. Almocei; fui orar à igreja que tem dois altares laterais, que muito me agradaram por seus lavores de talha. Visitei só a coudelaria(5). Casa arrumadíssima. O arrendatário, fulano Castro, não quis responder-me claramente sobre a extensão das terras e as cabeças de gado, por causa de pequena renda que paga e, assim mesmo, sem tê-lo feito pontualmente. A terra da coudelaria é só de meu usufruto, mas a fazenda do Buraco, igualmente arrendada ao mesmo, é minha propriedade. Pensarei em aproveitá-las para colonos.

Voltei à casa, onde vi uma cadeira de forma antiga, onde meu pai se assentou e um Murta(6), de oitenta e oito anos, que lhe cuidava dos animais de viagem. Entreguei as duas cartas de alforria dadas pelo dr. Fernandes Torres(7) a dois cônjuges; ao marido, estando ausente a mulher.

O arrendatário das duas fazendas disse-me que, cada alqueire, produziu já oito carros de mantimentos. Fui ver as aulas de meninos e de meninas. Casas acanhadas. Naquela os alunos estavam ausentes, porém nesta achei meninas interrogando a uma e a professora, irmã de um Modestino, discípulo de preparatórios da Escola de Minas, pareceu-me muito inteligente.

Partida a 1½ e chegada a Casa Branca, às 4. Caminho sempre belo. Vi bem a serra de Capanema(8) e sua garganta. Foi por aí que nasceu o barão de Capanema. Orei na igreja. Jantar. Concerto, leitura dos diários do Rio, de 30, última data. Deitar às 9 h.

Post - Casa Branca paisagemPaisagem de Casa Branca com aflorações de minério de ferro (Por Marianne North, sec. XIX).

Diário

Post - D Pedro miniABRIL — 3 (Domingo) − Missa dita pelo monsenhor, pouco antes das 5 h. Partida, às 6 h 20′. Manhã fresca, com belíssima, linda paisagem. Atravesso mato de capoeira. 7½ (h). Ponte de Ana de Sá, sobre o rio das Velhas, pouco largo, raso, com pedras. Alto de Peres. Pico de Itabira(9), com suas duas pontas. Na ponte de Ana de Sá, atirei um raminho no rio. Conversei, quase todo o tempo, com o Gorceix, sobre geologia e geognosia. Chegada ao bonitinho arroio do rio das Pedras, com suas duas capelas e palmeiras, às 9 h.

Almoço. Seguimos às 10. O caminho continua pitoresco e vi,  ainda ao longe, do lado direito,  o vale de uma mina de São Vicente, cuja igreja avistara antes de chegar a Rio das Pedras(10). Atravessaram-se diversos córregos, até chegar, às 2¼, ao pequeno arraial de Santo Antônio(11), tendo observado, pouco antes, bonitas plantações de café todo carregado de frutos ainda verdes e de feijão. Atravessa-se uma ponte maior ao entrar no arraial, de onde segui, deixando atrás as liteiras, às 2½. O caminho margeia o rio das Velhas, que já faz vista aí e pode ser atravessado por canoas.

Post - Pico do ItabiritoCaravana de d. Pedro II, com pico do Itabirito – dizia-se Itabira – ao fundo (por JC).

Sítio de d. Florisbela, do lado oposto do rio, muito bonito, com suas altas macaúbas. O coco desta palmeira dá azeite, fazendo-se da polpa sabão e das folhas excelentes cordas. Esse sítio parece uma ilha de verdura. Antes de Santo Antônio, vieram ao encontro dois empregados de Morro Velho. Na longa ponte de Santa Rita, que atravessa o rio, estava o diretor de Morro Velho(12) e muita gente. Ia olhando distraído, diversas mulheres correram para mim e, espantando-se o cavalo, caí dele(13). Não foi nada, montei noutro, oferecido pelo diretor de Morro Velho e continuei a andar.

Post - Queda cavaloNa queda do cavalo, o dedo de Deus socorreu o imperador (Por A. Agostini, capa da “Revista Illustrada”).

Tomei, à esquerda, para a lavra de Assis Jardim(14). Fui até o engenho, seis pilões; couros sobre que* (*os quais) passa a água com o pó do minério e bateias que, agitadas circularmente pela mão, fazem depositar o ouro que se lavou dos couros. A água, que por eles passou, vai depositar mais longe o pó do minério que ainda se aproveitar* (*aproveita), pelo mesmo processo. Tiram quatro a seis oitavos de tonelada de minério. Por curiosidade, trabalhei um pouco de bateia.

Post - Nova Lima panoramaNova Lima, antiga Congonhas do Sabará.

Um filho de Jardim é o único que faz este trabalho. A mina, segundo me disse Gorceix, é a céu aberto, com trezentos metros de extensão e um e meio de largura. Ainda apanhei as liteiras pouco adiante, na ponte Santa Rita. Vim conversando com o diretor de Morro Velho. Passei pelo arraial de Congonhas do Sabará* (*atual Nova Lima) e cheguei à casa de residência do diretor ainda com bastante luz.

A vista do alto, de onde se desce para o arraial, é muito bela. Muita gente reunida. Só de homens empregados pela companhia há seis mil. Tomei um bom banho morno, tendo antes visto da varanda o fogo de artifício; jantei às 71/5 (7½ ?) e, pouco depois, deitei-me. Amanhã é que hei de colher informações sobre a mina. O diretor já me deu algumas. Contratou a iluminação pela eletricidade, produzida na máquina Gramme. Diz que o recurso está a extinguir-se. Dá seis a oito oitavas por tonelada; pilando, por dia, duzentos e cinquenta. Ao chegar, vi, ao lado do caminho, um depósito de pó que já fora aproveitado, mas ainda contem ouro de, talvez, cento e vinte mil toneladas.

Post - Chegada a Morro VelhoRecepção a d. Pedro II, em Morro Velho. Ao fundo a Casa Grande, onde pousou o imperador (por JC).

Diário

Post - D Pedro miniABRIL — 4 – (2ª fª) − Acordei, às 5½. Banho frio. Vai começar a tarefa do dia. Antes do almoço, às 11½: amalgamação. O ouro, talvez, não esteja todo puro, sem combinação química que impeça, em parte, a liga com mercúrio. O minério é o quartzito de piritas, uma delas muito arsenical. Por isso, segundo alegaram, deixaram de prosseguir num ensaio de hostulação* (*ustulação).

Tiram só de três a quatro oitavas em tonelada. As mesas, sobre que corre a água com o pó, são prismáticas triangulares. Depois de correr a água quinze metros, viram-nas; e a face que despejar a água e sobre que houve o depósito, lavam-na com uma manga de bomba; e essa água é que vai por a amalgamação, onde, depois de misturada com metade quase de mercúrio, é bem agitada na água; e a massa que fica, espremida através de um saco de camurça, para que saia o mercúrio livre.

Forma-se um bolo que vai ao forno sublimando-se o mercúrio, que, apesar de condensado, depois perde-se quase na razão da metade. Pilões, cento e tantos, sistema ordinário, e duas mãos chamadas de elefante que fazem o trabalho de vinte e cinco pilões. Mesas de percussão, em que a água com o pó se divide em três porções de diferente concentração. A água, que escorre das mesas, cai sobre uma espécie de bateia grande emborcada e sobre cuja parede fique* (*fica?) pó com pouca água.

O que não se aproveita vai para o que chamam praia. Como já disse, retificando, já há aí cento e cinquenta mil toneladas, onde o ouro acha-se quase na mesma proporção, porque há diversos motivos para que as águas de resíduo cheguem à praia, com a mesma ou quase a mesma condensação do princípio.

Post - Morro VelhoMorro Velho (por A. Riedel, 1868/69).

Gorceix tomou nota de tudo. A pedra vem da mina por trilhos e em vagonetes, que são puxados pela força de uma turbina; atravessam pequenos túneis. Antes do minério ir para os pilões, elefante e arrastos, que são como galgas, onde são arrastadas, por cadeias, grandes pedras; é quebrada numa máquina que trabalha como duas queixadas de ferro, cuja força muscular [ilegível] da turbina. Olhei de cima do precipício os estragos da mina que se incendiou; diz o diretor que por malefício. Na volta para casa, entrei na biblioteca. Possui boas obras inglesas, sobretudo as de viagens modernas na América do Sul e interior da África.

Saída, de novo, à 1½. Hospital, que está bem arranjado. As latrinas ficam inodoras pela queda de carvão ou terra, produzida pelo movimento. Lançam-se depois longe, e num buraco, as matérias excrementícias. Capela católica. É grande, porém pouco cuidada. Às 3, estava na boca da mina. Vesti-me como mineiro, com minha vela pregada com argila ao chapéu.

Post - Descida minaMorro Velho: o casal imperial trajado para visita à mina e a descida de elevador (por JC).

Gorceix tomou nota de tudo. A pedra vem da mina por trilhos e em vagonetes, que são puxados pela força de uma turbina; atravessam pequenos túneis. Antes do minério ir para os pilões, elefante e arrastos, que são como galgas, onde são arrastadas, por cadeias, grandes pedras; é quebrada numa máquina que trabalha como duas queixadas de ferro, cuja força muscular [ilegível] da turbina. Olhei de cima do precipício os estragos da mina que se incendiou; diz o diretor que por malefício. Na volta para casa, entrei na biblioteca. Possui boas obras inglesas, sobretudo as de viagens modernas na América do Sul e interior da África.

Saída, de novo, à 1½. Hospital, que está bem arranjado. As latrinas ficam inodoras pela queda de carvão ou terra, produzida pelo movimento. Lançam-se depois longe e num buraco as matérias excrementícias. Capela católica. É grande, porém pouco cuidada. Às 3 estava na boca da mina. Vesti-me como mineiro, com minha vela pregada com argila ao chapéu.

Começou a descida no ascensor às 3½. Movimento muito suave. Muita água escorria das paredes do poço. Em ¼* (*quinze minutos) tocávamos o fundo a 457 metros. Há outro andar inferior que vi bem dos poços, estando o fundo bem alumiado com estopa queimada, velas, magnésio, etc. O diretor queixa-se de que o veio vai a terminar, porém, a qualidade e disposão* (*disposição) das rochas parece indicar o contrário. Tem revestido o interior da mina com madeiras enormes(15) e, um deles, ficou achatado em pouco tempo, como um chapéu de pasta. De algum tempo, começaram a não escavar tudo, conservando partes da rocha como pilares, o que parece mais razoável, embora não o tivesse feito para tirarem mais ouro.

Post - Dentro da minaDentro da mina: ao centro, d. Pedro II e acompanhantes. Sentado na pedra, desenhista A. Agostini (por JC).

Demorei dentro da mina mais de 1½. Arrebentaram minas que pareciam ruído de terremoto e agitavam o ar dentro de espessas paredes de pedra. A subida fez-me igualmente bem. Antes das 6, já tomara eu um banho morno. O diretor disse-me que os empregados e operários contribuem com 1$000, por mês, para acudir aos que não podem trabalhar. É grande partidário dos trabalhadores chins* (*chineses). Antes do banho, fui com o diretor ver, posto que de longe, os três canos que formam um sifão, conduzindo  água para movimento das máquinas. A água vem da serra do Curral(16). A extensão de todos os regos é de cerca de nove léguas. O jantar foi às 7¼ e, depois, conversamos, até perto de 10.

Noite belíssima. O diretor mostrou lindos cristais de rocha achados na mina. Alguns contêm piritas que se irisam. O maior salário de empregado, nos trabalhos da mina, é de 15££ por mês. Trabalham dia e noite, em três turmas que se revezam. As brocas são pagas por empreitadas e, alguns, abrem-nas em três horas. A melhor madeira empregada é a baraúna. Não vi a capela protestante. Há escola para os meninos filhos dos trabalhadores e empregados. Na botica do hospital aviam receitas dos trabalhadores e empregados; e de todos os que têm relações domésticas com eles. — DIÁRIO: continua na próxima postagem.

———

NA IMPRENSA

Post - JornalJornal “A Provincia de Minas”, de Ouro Preto:

No Morro Velho, tiveram os augustos viajantes esplêndida recepção e, a 4 do corrente, […] desceram às minas, situadas […] abaixo do nível da terra, tendo antes vestido sobre a roupa costumes de brim-lona e pondo chapéus de couro duro, com uma vela presa na copa. Antes da descida à mina, os augustos viajantes haviam visitado, além das oficinas da companhia, a capela católica, a biblioteca e o hospital. Neste, S. M. […] deixou-se pesar, verificando-se o peso de sete arrobas e onze libras* (*109 kg), dignando-se, também, assinar seu nome no livro do hospital, onde estão inscritos os dos visitantes, com menção do peso e altura. O imperador, além dos 500$ que deu para os operários da companhia, e que já noticiamos, mandou distribuir 300$ pelos pobres da freguesia de Congonhas de Sabará. Também em Casa Branca, S. M. distribuiu muitas esmolas. – Publicado em 17.04.1881

Post - Gazeta do NorteJornal “Gazeta do Norte”, de Fortaleza, Ceará:

Suas Majestade Imperiais partiram […] de Casa Branca e só pararam no lugar denominado Rio das Pedras, para almoçar. A viagem foi boa, graças aos bons caminhos. É escusado dizer que o sol atormentou-nos horrivelmente. Isso não impediu-nos de apreciar os esplêndidos panoramas de serras e contrafortes, que se avistam do alto de qualquer monte.

A viagem continuou assim, até a imensa ponte do Rio das Velhas. Além dela, achava-se muita gente, da qual faziam parte Ignacio Martins(17), o sr. P. Morrison, superintendente da S. John del-Rei Mining Company(18)  e muitos empregados da companhia.

[…] Depois que Sua Majestade se despediu do sr. Morrison, chicoteou o cavalo e, instantes depois, quando subia uma pequena elevação, olhou para trás como que para chamar alguém. Nessa ocasião, o cavalo em que ia montado espantou-se com os vestidos de umas mulheres que tinham ido postar-se em um barranco, para verem passar os augustos viajantes, e […] o imperador, perdendo o equilíbrio por causa do brusco movimento do animal, caiu de costas no chão. – Publicado em 27.04.1881

Post - Antiga casa grande Morro VelhoCasa Grande, residência do sr. Morrison, onde hospedou-se d. Pedro II.

O sr. conselheiro Lima Duarte, que já tinha aproximado […] saltou imediatamente do seu animal, mas um homem que estava ali perto, levantou logo Sua Majestade. O sr. Morrison ofereceu alguma bebida e Sua Majestade não quis aceitar senão água de Seltz(19). Sua Majestade ficou extremamente pálido. […]

Foi esplendida a recepção que tiveram […] aqui. Uma grande cavalhada acompanhou-os, desde a ponte até a entrada do arraial de Congonhas do Sabará, no fim do qual está estabelecida a companhia de mineração. As casas da companhia são tantas que formam outro arraial. Suas Majestades entram no jardim da casa do sr. Morrison entre alas de súditos ingleses, de um lado senhoras e crianças, de outro homens, que levantaram hurras […] Estão alojados em casa da companhia (imagem acima). Amanhã desceremos à mina.

Morro Velho, 4 de Abril, meia-noite – Ontem […] dei notícia da chegada de Suas Majestades a esta verdadeira colônia inglesa. […] Hoje já posso dizer, com mais segurança, que Sua Majestade nada sofreu. Serão necessários pelos menos três dias […], para o exame de tudo o que há para ver, tais e tantos são os grandes maquinismos para a extração do ouro. Sua Majestade não demora, aqui, senão o dia de hoje. É uma empresa superior às minhas forças, apesar da boa vontade que tenho, o poder dar as notícias de certas coisas que vejo. […]

Post - Casa Grande 2Outra imagem da Casa Grande, com congado de negros (por A. Riedel, 1868/69).

A viagem tem sido agradável para uns esplêndidos panoramas que se observam do alto dos morros […] e desagradável para outros que estão fatigadíssimos. Algumas pessoas […], quando apeiam do animal, mal podem ficar em pé. A companhia de mineração […] preparou uma deslumbrante recepção […]. Enfeites foram não foram preciosos, porque, como é sabido, as residências dos ingleses já são por si muito elegantes, com lindos jardins, etc.

Limitaram-se a levantar bandeiras brasileiras em diversos pontos e o pavilhão inglês em frente ao hospital da companhia. No portão do jardim da residência do sr. Pearson Morrison (imagem acima), onde se hospedaram Suas Majestades(20), liam-se as […] inscrições: “Vivam S.S. M.M Imperiais”, do lado externo e “Welcome to Morro Velho”, do lado interno. Suas Majestades estão alojados numa bela e aprazível vivenda. A casa tem, na frente e dos lados, uma espaçosa varanda; e todas as acomodações são muito confortáveis.

À noite, iluminaram-se o jardim da residência […] e as casas dependentes da companhia. Tanto a iluminação como o fogo de artifício, queimado às 9 horas da noite, agradaram muito.

Post - Seleção inglesaSeleção inglesa de futebol – Copa do Mundo, 1950 – hóspede da Casa Grande.

Hoje, às 7 horas da manhã, visitarão as oficinas da companhia. É um estabelecimento que deve ter sido montado com grande despesa e sacrifício, à vista da distância que há a percorrer de Barbacena até aqui […]. A companhia tem, no Morro Velho, quatorze empregados de categoria superior, 57 mineiros, 15 ferreiros, 12 carpinteiros, 23 pedreiros, 45 ferreiros de cor, e, talvez, 400 escravos. […]

Às 3 horas da tarde, Suas Majestades dirigiram-se para a estação, donde se desce às minas de ouro, […] vestiram […] costumes de brim-lona e puseram chapéus de couro duro, tendo uma vela de sebo espetada na copa. E assim paramentados, desceram por um aparelho elevador, composto de duas gaiolas (nome dado aqui). […] percorreram as minas, que estão situadas a 435 metros abaixo do nível da terra. […] Quem vê […], fica encantado, parece estar vendo um palácio de fadas! Não há outra frase que explique o que são as minas de Morro Velho, senão esta. É o belo horrível! – Publicado em 27.04.1881 e 28.04.1881

• Clique com o botão direito e veja todos, “Nos passos do imperador” – de I a VIII) – I  | III  | IV  | V  | VI  | VII  | VIII   

Compilação, adaptação, comentários e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

———

(1) Fonte do Diário: “Anuário do Museu Imperial”, vol. XVIII, 1957, versão e notas por Hélio Vianna. // Sumidoiro’s Blog corrigiu e atualizou grafias de palavras, alterou pontuações, tanto na transcrição do Diário, quanto nos noticiários da imprensa, preservando a integridade do conteúdo. Ainda acrescentou notas e ilustrou.

Post - José Códea(2) O autor dos desenhos assinou JC ou José Códea, sobrenome que, trocando o assento – côdea – significa pedaço de pão duro. Usar esse pseudônimo pode ter sido uma gozação de Angelo Agostini, ademais ele tinha vários. Na “Revista Illustrada” usou-se diversas vezes a palavra côdea no verdadeiro sentido de pão duro. O estilo, o traço e as legendas manuscritas são próprios de Agostini (ilustração à esquerda).

(3) SOUSA, Pedro Luiz Pereira de – (Araruama – RJ *13.12.1839 / †16.07.1884) Advogado, político e poeta. Patrono da cadeira n.o 31 da Academia Brasileira de Letras.

(4)  MENEZES, Rodrigo José Antônio de – (* 12.02.1750 †13.05.1807) Governou de 1780 a 1783, portanto, 1722 é data equivocada.

(5) Coudelaria, onde se criam cavalos. Origina-se de “coudel”, antiga denominação de capitão de cavalaria. O estabelecimento foi instalado em Cachoeira do Campo pelo governador d. Antônio de Noronha para melhoramento de raças equinas.  Mais tarde, sediou o Quartel dos Dragões D’El Rei. Em 1893, foi  cedido aos padres salesianos para instalarem o Colégio Dom Bosco. Atualmente, funciona como centro de convenções, lazer e turismo ecológico, com o nome de Centro Dom Bosco.

(6) MURTA, Manuel de Neves – Companheiro de caçada de d. Pedro I (pai de d. Pedro II), numa de suas viagens a Minas Gerais.

(7) TORRES, Fernandes – Filho do senador José Joaquim Fernandes Torres.

(8) Serra de Capanema, em Itabirito. O barão de Capanema – Guilherme Schüch, depois Guilherme Capanema –, nascido nesse lugar (*17.01.1824 / +28.07.1908), era filho único de Josefina Roth (suíça) e Roque Schüch (austríaco), engenheiro, mineralogista e bibliotecário da imperatriz Leopoldina, que lá esteve fazendo pesquisas mineralógicas e botânicas, em 1824. Guilherme é bisavô do político Gustavo Capanema.

(9) Pico de Itabira, porque a localidade chamava-se Itabira do Campo mas, depois, mudou para Itabirito e pico do Itabirito. Ficou então conhecida por Itabira a antiga Itabira do Mato Dentro, cidade situada a nordeste da capital Belo Horizonte.

(10) O arraial do Rio das Pedras foi um grande centro de mineração e surgiu nos primórdios da capitania. Desde 31.12.1943, passou a ser denominado Acuruí e a integrar, como distrito, o município de Itabirito.

(11) Santo Antônio do Rio Acima.

(12) MORRISON, Pearson.

(13) O repórter Tinoco, do “Jornal do Comércio”, narrou o acidente: “Depois que Sua Majestade se despediu do sr. Morrison, chicoteou o cavalo e, instantes depois, quando subia uma pequena elevação, olhou para trás como que para chamar alguém. Nessa ocasião, o cavalo em que ia montado espantou-se com os vestidos de umas mulheres, que tinham ido postar-se em um barranco para verem passar os augustos viajantes e S. M., o imperador, perdendo o equilíbrio por causa do brusco movimento do animal, caiu de costas no chão.”

(14) JARDIM, Assis – Tenente-coronel.

(15) Muita madeira era proveniente da fazenda da Jaguara, situada à beira do rio das Velhas, depois de Santa Luzia, rio abaixo.

(16) Serra do Curral – Seu nome alude a Curral d’El Rei – antiga vila –, que foi demolida para construir a atual capital, Belo Horizonte, situa-se na região leste do município. Faz parte do maciço da Serra do Espinhaço.

(17) MARTINS, Ignacio Antônio de Assis – Visconde de Assis Martins, (Sabará, *16.11. 1839 / †02.03.1903), juiz e político brasileiro. Filho de Francisco Assis Martins Costa e Eufrásia Assis. Casou-se com Angelina Silvina Moreira, viúva de Theodoro Barbosa da Silva. Bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo. Deputado provincial, deputado geral e senador do Império do Brasil, de 1884 a 1889. Leia os Posts “A festa do barão” e “Nascido para matar”.

(18) No século XIX, a Saint John Del Rey Mining Company iniciou a exploração de ouro em Congonhas do Sabará (Nova Lima). Mais de 170 anos depois, o patrimônio minerador passou a ser controlado pela Anglo-Gold, atualmente Anglo-Gold Ashanti, após a fusão com a Ashanti Goldfields, em 2004. 

Post - Água de Seltz

(19) Água de Seltz – Bebida não-alcoólica, feita com água e ácido carbônico (veja rótulo, à esquerda, de 1889). / O nome com que foi batizado o produto – Água de Seltz – e que, mais tarde, adaptaram para o conhecido Alka-Seltzer, vem das fontes de águas minerais de Neider Seltzer, na Alemanha. Foi e tem sido também chamada de soda, muito apreciada quando é bebida sozinha ou, também, misturada em diversos coquetéis alcoólicos. Tem aspecto borbulhante que provém, basicamente, da grande quantidade de gás carbônico existente na sua composição. Houve época em que os médicos a prescreviam para muitas utilidades, desde os desconfortos do aparelho digestivo, até mesmo nas descamações de pele, neste último caso* misturando-a com leite de jumenta. – *Fonte: Chamber’s Cyclopaedia, 1753.

20) A Casa Grande é um casarão do século XIX construído pela família do Padre Antônio Pereira de Freitas, um dos primeiros proprietários da Mina de Morro Velho. Quando foi adquirida pelos ingleses, serviu de moradia aos superintendentes da mineração e, no presente, está transformada em “Centro de Memória Morro Velho”, da Anglo-Gold Ashanti. Depois de receber d. Pedro II e d. Tereza Cristina, passou por grandes reformas. O príncipe de Gales, que se tornaria o rei Eduardo VIII, e o duque de York, segundo na linha sucessória, haviam chegado ao Rio de Janeiro, em 25.03.1931, em visita ao país. Naquele mesmo ano, estiveram em Morro Velho e hospedaram-se na Casa Grande. Da mesma maneira, em 1920, ali foram acolhidos o rei da Bélgica, Alberto I, e sua mulher Isabel da Baviera. Sua visita a Minas Gerais levou à criação da Companhia Belgo-Mineira. Em 1950, a residência abrigou a seleção inglesa de futebol, durante a Copa do Mundo.

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8 Comentários »

  1. Eduardo,
    ficou muito boa a continuação! A leitura é leve e dá prazer. Aguardo pela passagem do imperador por Santa Luzia.
    Abraços,
    João Bahia Vianna

    Comentário por jbvianna — 15/08/2014 @ 2:07 pm | Responder

    • Olá João:
      Daqui a duas semanas lançarei a continuação. Muito obrigado e um abraço do
      Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 15/08/2014 @ 2:59 pm | Responder

  2. Como sempre, excelente pesquisa!
    Aguardo a continuação.

    Comentário por Julia Pinheiro — 16/08/2014 @ 2:19 pm | Responder

    • Júlia: Muito obrigado. Daqui a 15 dias, publicarei mais uma continuação.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 16/08/2014 @ 3:01 pm | Responder

  3. Acompnaheio a viagem com grande interesse. Engraçado ver como d. Pedro II achou as latrinas muito boas. Para aquela época, seriam boas mesmo. Nem pensavam, também, no perigo das minerações. Ou talvez soubessem, mas minerar era mais importante que cuidar da saúde. Levei um susto quando soube que ele caiu. Estava muito entretida na leitura! Obrigada por nos proporcionar a descoberta de nossa história.

    Comentário por sertaneja — 21/08/2014 @ 10:40 pm | Responder

    • Virgínia:
      Aguarde a próxima etapa da viagem. Para quem não conhece, há muitas surpresas pelo caminho. Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 22/08/2014 @ 8:19 am | Responder

  4. É sempre muito bom saber sobre nossa história!

    Comentário por Ewerton Conde Da Matta Machado — 09/02/2015 @ 8:47 am | Responder

    • Ewerton:
      Sim, você tem razão. É bom conhecer nossa história, também para saber quem somos.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 09/02/2015 @ 9:05 am | Responder


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