Sumidoiro's Blog

01/09/2014

NOS PASSOS DO IMPERADOR (III)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:48 am

♦ Visitando Sabará e Santa Luzia

O casal imperial d. Pedro II e dona Tereza Cristina, partiram do Rio de Janeiro, no dia 21.03.1881, sábado, às 6 horas da manhã, para conhecer Minas Gerais. O imperador cuidou de escrever um diário de viagem e a imprensa deu grande cobertura à visita. Parte desses acontecimentos são aqui revividos por Sumidoiro’s Blog(1), em continuação ao Post anterior.

Post - Sabará vistaSabará.

No dia 4 de abril, o imperador, ainda permanecia em Congonhas do Sabará (atual Nova Lima) e, depois de jantar, conversou até perto de 10h. Segundo suas palavras a noite estava belíssima. O diretor da mina de Morro Velho mostrou-lhe lindos cristais de rocha, alguns continham piritas que irisavam. Aquele brilho iluminou a imaginação de d. Pedro II, pois sabia que ainda havia muitas riquezas a conhecer. Para a seguinte etapa da viagem partiu no dia 5, de madrugada, quando então veria tesouros históricos das Minas Gerais.

O então bispo de Mariana, d. Antonio Ferreira Viçoso, cuidou da boa recepção ao imperador no recolhimento de Macaúbas, em Santa Luzia, onde iria pernoitar, enviando uma carta com recomendações. Porque seria uma sexta-feira, avisou: “é preciso fazer todo esforço para ter peixe”. E, no que tocava à etiqueta, acrescentou: “ficará contente com bom agasalho e cordialidade”.(2)

Post - D Pedro mini

Diário

DE CONGONHAS DO SABARÁ AO SABARÁ

ABRIL — “5 (3ª fª) − Banho, leve refeição e partida, as 6h. Conversei muito com o diretor de Morro Vermelho(3), até perto de Sabará. Segui primeiro o bom caminho, que serve de passeio ao diretor e sua família, até pouco além de um dos pontos de dinamite. Bela vista do lado da serra do Curral, avistando-se, ao longe, as pontas da serra da Piedade. Garoa forte.

Cento e oitenta brocas, cada uma de três palmos de fundo e menos de polegada de diâmetro, cheia de um a três cartuchos de dinamite, dão a duas toneladas por explosão de mina, trezentos e sessenta toneladas de minério por dia. Escolhe pelo peso do minério. Os pilões, etc., moem duzentos e cinquenta por dia. Fazem a apuração do ouro de nove em nove dias e uma barra de ouro de um mil seiscentas oitavas é o resultado do trabalho dos nove dias.

Cada mineiro inglês dirige o trabalho de treze a quinze brocadores. Não admitem trabalhadores − homens só − senão de doze anos para cima. Têm quatrocentos animais de carga, sobretudo para condução de carvão que fazem da árvore candeia. A madeira vem do lado de Jaguarão* (*Jaguara(4)) e Caeté. Esqueci-me de dizer que a maior parte das mesas são fixas e com couros, como as vi no Assis Jardim; e de que assisti ontem a cupulação que prova* (*provoca) uma perda de ouro de vinte e sete por cento, segundo disse o diretor.

Post - Capela Arraial novo - P IICapela de Santana do Arraial Velho.

Chegada ao Arraial Velho, onde foi o antigo Sabará. Estavam aí o deputado Assis Martins(5) e outros. O rio das Velhas já foi navegado por vapor pequeno, desde pouco abaixo do Arraial Velho(6). A chegada a Sabará é bonita. Entro na casa onde hospedou-se meu pai, às 9½. Pouco antes da cidade, na margem oposta, vê-se um sobrado onde nasceu o Paulo Barbosa(7). Almoço às 10½. Saí ao meio-dia. Liceu com internato para poucos, na casa que foi do barão do Cruvelo* (*Curvelo).(8) O aluno de latim traduziu bem Tito Lívio. Os de francês não têm má pronúncia. O de geometria desagradou-me, assim como os de geografia. A casa não é boa. Quatro aulas, duas de meninos e duas de meninas.

Visitei a igreja do Carmo, que nada tem de notável e a casa onde nasceu o Sapucaí(9) e foi vendida ao desembargador José Lopes da Silva Viana. Tem jardim maltratado com um chafariz. Colhi um ramo de mangueira, que dizem ter sido plantada pelo Sapucaí, de caroço de manga trazida de Alagoas. A vista para ambos os lados − serra do Curral e da Piedade − de que vi alumiada pelo sol, uma parte penhascosa, são bonitas.

Hospital da Misericórdia. Mal situado. Estava limpo. Na sala do consistório, estão os retratos do fundador do vínculo da Jaguara(10), de onde provém a renda do hospital do finado barão de Sabará(11), que tem excelente fisionomia e mais dois padres benfeitores. Esperam aumentar a renda com o resto da liquidação do vínculo. Pensam em fundar casa para lázaros, mas lembrei que era melhor empregar o dinheiro no hospital geral e que, no Rio de Janeiro, havia muito lugar para lázaros. Tenho visto muitos papos também aqui. O diretor do Morro Velho disse-me que a mulher, só de beber água num lugar, começou a criar papo(12), operando-se dele na Inglaterra, do que ficou uma pequena cicatriz.

Jantar às 5½. Te Deum no Carmo. Ruim música. O vigário, irmão do cônego Roussin, pregou bem. Depois recebi. As ruas têm ladeiras e são calçadas de pedras que espetam os pés.”

Post - Rio das Velhas - Rç GdeVista do rio das Velhas, em frente a atual igreja de Roça Grande.

ABRIL — “6 (4ª fª) − Acordei, às 5. 6h ¼. Começo a navegar o rio das Velhas(13) uma braça* (* 2,2m) de fundo de areia – 6h 35′. Capela arruinada de Sto. Antônio da Roça Grande(14). Margens com mais ou menos árvores, formando muitas vezes mato espesso. O patrão(15) Antônio Moreira disse que tinha ido à barra do rio das Velhas em um mês, por causa da demora de oito dias para conserto da barca. O rio começa a baixar em abril e a encher de 7bro* (* setembro) por diante. De Maquiné para baixo há pedras. Até lá areia.

De Sabará ao córrego do Malheiro 1h ¾ percorrida em 1h ¼ – 8h 20′, Fazenda do finado barão do Sabará, na margem esquerda. 8h 40′, Antonio do Bosque, alarga bastante o rio. – 9h. Temperatura da água 19º ¾- do ar 20º – 9h ½. José Correia, margem esquerda. Bonito lugar. O rio é bastante largo, de 150 m, talvez. 9h 50′. Bicas. Tem-se visto algumas plantações de milho e muitas macaúbas. 10h. Temperatura da água 25º, do ar 21º ¾. A 1m de profundidade, 21º. – 10h. Avista-se a igreja de Sta. Luzia, à margem direita, no alto da montanha.

Post - Santa Luzia p P IISanta Luzia vista do rio das Velhas (desenho de d. Pedro II).

O rio tem sempre apresentado quase que o mesmo fundo e de areia. Há bastante espraiados e vi gado vindo das margens até quase metade do rio, que é menos largo que o Jacuí. 11h 5′. Vê-se a ponte. Chegamos às 11h 1¼. Almoço e, pouco depois, conversei com o dr. Modestino Franco(16), que julga que a estrada de ferro deve ir até a foz do Paraúna. Partida às 12h ½. – 1h 5′. Lugar das estacas, resto de trabalhos de mineração. Vamos devagar, porque o barco pode bater. Fica perto do lugar chamado Carreira Comprida(17). 1h 25′. Defronte da casa da fazenda da Carreira Comprida. 1h ½. Acabou a estacada.

Post - Barcos em Santa LuziaPonte de madeira sobre o Rio das Velhas em S.ta Luzia / 1 – Barca que conduz SS. MM. e comitiva / 2 – Barca que conduz banda de musica e criadagem / 3 – Casa onde deu-se o almoço / 4 – Desembarque / 5 – Casas em meia ruina / 6 – Estrada / 7 e 8 – Muito povo à espera do desembarque e muitos chapéos de sol (desenho de José Códea – JC).

2h 12′. Ponta de areia que se adianta da margem esquerda, no lugar Taquaras.. 2h 4′. Passou-se a ilha das Taquaras que tem seu comprimento […] 2 ¾. Margem direita, fazenda de Joaquim Moreira das pedras… O rio aqui é bastante fundo. 3h 5′. Ribeirão da Mata. 3h. Muitas macaúbas (acrocomia sclerocarpa Mat. St. Hilaire – Voyages dans les provinces de Rio, etc. 1ère partie, vol. 2, pág. 377). 3h 35′. Passamos por defronte da casa do engenho de cana do major Frederico Dolabela(18), Encerra-Bodes, irmão do Dr. Modestino de Santa Luzia. 4h. Avista-se a serra da Piedade, do lado para onde o rio corre.

Post - Macaúbas pátioRecolhimento de Macaúbas, onde pernoitou d. Pedro II, vindo de Sabará.

4h 26′. Fazenda Pinhões, de cana, na margem direita. As canas têm aparecido bonitas. Pedimos algumas, que nos atiraram para bordo. 5h. Grande montanha, onde se vê uma que se me afigura parede de pedra calcária, na margem esquerda. Mais de perto, parece-me rocha xistosa. 5h 10′. Rio Vermelho, à direita. Já avistei a casa do estabelecimento que é grande. Grande volta, Sarilho, na margem esquerda, que serviu para embarque de madeira.

5 ½. Chegada ao porto de Macaúbas. 6 ½. Fui ver a igreja – nada tem de notável – colégio, 32 meninas, cujas respostas satisfizeram, tocando duas piano a quatro mãos e sendo as escritas bonitas como as dos colégios das irmãs de caridade; e recolhimento – 39 recolhidos – que é extenso. A renda para tudo é de 11 contos. O diretor Padre Lana(19), mineiro, pagou 40 contos da dívida. Tem um pequeno engenho de cana que não trabalha. Não possui escravos. Permitiu a edificação de casas de vivenda de que os moradores só têm usufruto. Talvez devessem dividir as terras e vendê-las em lotes, onde se cultivaria a cana que o engenho reduziria a açúcar. Deitei-me às 9 e pouco, depois do jantar.  DIÁRIO: continua na próxima postagem.

Post - Gazeta

ABRIL  13 − A “Gazeta de Notícias” (RJ), publicou:

Do nosso correspondente, recebemos, ontem, a seguinte carta:

Macaúbas, 6 de abril. / Depois da visita que fizemos às importantes minas de Morro Velho, […] seguimos a nossa peregrinação por estes sertões, dirigindo-nos à cidade de Sabará. Aí, Suas Majestades fizeram, no mesmo dia, as visitas do estilo e, como sempre, às carreiras, esforçando-se embalde por ver tudo com minuciosidade, coisa inteiramente impossível […] para quem segue um programa de viagem organizado com uma notável originalidade.

De Sabará, seguimos para Santa Luzia e, daí, para Macaúbas, onde pernoitamos. A viagem deste último trecho […] fizemos por água, servindo-nos do rio das Velhas, que oferece franca e agradável navegação neste tempo. Sempre é cheia de belezas e surpresas agradáveis a viagem fluvial, quando é através de uma zona opulenta de riquezas naturais e habitada por um povo simples, pouco ambicioso, acostumado ao trabalho limitado, mas capaz de andar, e andar muito, para vir só às barrancas do rio ver o imperador que vai águas abaixo. Fizemos a viagem pelo rio para aproveitar a correnteza, que é aproximadamente de três milhas por hora; e, deste modo, avançamos com mais comodidade uns sessenta e cinco quilômetros de caminho.

Post - Bat St LuziaSanta Luzia, 1842: tropas d. Pedro II, comandadas por Caxias, derrotam os liberais (por Célio Nunes).

A volta para o Sabará será feita por terra, com o fim duplo de evitar uma viagem de muitas horas contra a correnteza e de percorrer os campos de Santa Luzia, onde, a 19 de agosto de 1842, o povo mineiro de trezentos dos seus valentes compatriotas, a perfídia que tanto lhe custou.(19) É triste ouvir-se, ainda hoje, dos poucos vencedores vencidos que existem, a narração imparcial dos episódios que se deram durante aquela tremenda luta […].

Iremos ao campo onde se encontraram os rebeldes com os legalistas e, lá, estudaremos as posições que ocupavam ambos e ouviremos as indicações que nos forem ministradas, por uns e outros, para depois tirarmos, ou uma confirmação do que pensamos a respeito, ou uma transformação tal que nos venha esclarecer as objeções desastrosas que pesam sobre uma das vitórias do exército legal, nos primeiros tempos do segundo império.

Em Macaúbas contemplamos, com doloroso sentimento, um já bem vetusto convento, onde está estabelecido um recolhimento, sob a proteção de Nossa Senhora da Conceição. Toda a povoação de Macaúbas é […] um tristonho recolhimento, que ainda conta trinta e duas freiras, trinta e nove educandas e dez meninas serventes.

De umas informações que teve a bondade de nos dar o respeitável padre Lana, procurador do recolhimento, soubemos que foi fundador deste estabelecimento, em 12 de agosto de 1714, o pernambucano Felix da Costa, que veio da sua província para Minas Gerais pelo rio São Francisco, com três anos de viagem e em companhia do seu irmão, o capitão Manoel da Costa Soares, que também trazia a família.

Post - Macaúbas recolhRecolhimento de Macaúbas, em segunda edificação.

Por causa de uma aparição a Felix, em ocasião que estava acampado na margem do São Francisco, empreendeu a execução dessa obra. Para isso, conseguiu do bispo − então de Minas e Rio de Janeiro −, d. Francisco de São Jerônimo, provisão para tirar esmolas, para a edificação do recolhimento. Em 1716, foi o recolhimento bento, pelo vigário da vara do Sabará e, logo depois, foram recolhidas doze donzelas.

O bispo d. frei Antônio de Guadalupe visitou-o por diversas vezes e tomou-o sob sua proteção, concorrendo poderosamente para a construção do segundo recolhimento, que foi bento, assim como a sua igreja, por provisão do bispo d. frei João da Cruz, em 13 de dezembro de 1743, e em ato seguido, foram para aí transferidas as recolhidas do primeiro recolhimento. O estabelecimento é, até hoje, regido por seus estatutos, dados pelo bispo de Mariana, d. Frei Manuel da Cruz e que foram aprovados por d. Maria I de Portugal, em 1789. […]

Post - Gazeta do NorteMAIO — 1 – Jornal “A Gazeta do Norte”, publicou:

Já escrevi, hoje (Sabará, 5 de abril), uma ligeira carta em que dei notícia da chegada de Suas Majestades. Foi uma bonita festa que aqui fizeram […] É bastante falada a hospitalidade franca e generosa dos mineiros […] Guarda Sabará a lembrança de ter sido berço de um sábio, o venerando marquês de Sapucaí; aí também nasceram os drs. Ignacio Martins e João da Cruz Santos, abalizado professor de línguas na corte. O território de Sabará foi descoberto pelos paulistas […] O tenente-general Manoel de Borba Gato, encontrando muita riqueza de ouro e pedras preciosas nos arredores, atraiu para ali grande população. A 9 de julho de 1711, a junta do governo, sendo governador Albuquerque(20), elevou a vila com o título de Vila Real do Sabará […] ficando considerada cabeça da comarca. […]

Sabará tem sido testemunha de diversos fatos notáveis. Em 1707, frei Francisco de Menezes aí fomentou a revolução(21) de que, depois, se tornou chefe Vianna* (* Manoel Nunes Vianna), que foi aclamado governador de Minas e que repeliu, em Congonhas do Campo, o governador do Rio, d. Fernando Martins Mascarenhas. O motivo dessa revolta foi a arrematação do talho da carne verde, que ele fizera de sociedade com o sargento-mor Francisco Amaral Gurgel. Encontrando, porém, grande oposição nas Minas e, principalmente, em Sabará, por parte dos paulistas Júlio César e d. Francisco de Rondon, tomou a deliberação de agregar-se a Vianna, aconselhando a revolta.

Para isso, fingiram amizade com os paulistas e, sob o pretexto de terem ordens régias, para recolher em um depósito todo armamento disperso, conseguiram deixar seus inimigos inermes e, marchando para hoje capital da província, logo que chegaram, Vianna, nomeando ministros e magistrados, constituiu-se ditador.

O frade foi expulso de Minas pelo governador Albuquerque e, por causa dele e outros da sua força, baixou El-Rei a carta régia […] na qual proibiu a passagem para Minas de quaisquer frades ou clérigos que não fossem missionários.

Em 1842, foi esta cidade um dos teatros […] da célebre revolução de Santa Luzia(22). É esta uma questão que não está ainda resolvida. Pende do juízo imparcial da história, a verdade de alguns fatos que se deram. É, fora de dúvida, que alma da revolução […] fora o finado senador Teophilo Ottoni, que tinha como seu secretario o atual senador José Pedro Dias de Carvalho.

Ainda existem mineiros que tomaram parte nesse movimento* (*Barão). Entre outros, os srs. Visconde de Prados, monsenhor Augusto Ferreira da Silva, cônego Joaquim Camillo de Britto, hoje visconde de Sapucaia e tantos outros.

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Post - Ritta Cass Macaúbas

← Ritta Cassimira Pereira da Silva, aluna de Macaúbas.

BREVE HISTÓRIA DE MACAÚBAS

por “Sumidoiro’s Blog” 

Datam de 1750 os primeiros estatutos do recolhimento de Macaúbas. Havia neles uma série de prescrições regulando o comportamento e a vida espiritual das recolhidas, como a prática do silêncio, da caridade, da obediência, da castidade e da pobreza. Em 1781, ocorreram modificações, entre elas a obrigatoriedade de uso do hábito da Conceição – azul e branco – e assim permanece até os dias atuais.

As orações eram a rotina predominante para as moças que viviam isoladas do mundo educando-se, realizando trabalhos manuais e outras prendas domésticas mas, também tocando piano. A música era essencial para cultivar os modos delicados e, também, para espantar tristezas de quem vivia naquele lugar ermo.

Outra utilidade teve Macaúbas, a de proteger esposas e filhas de fazendeiros quanto eles se ausentavam. Havia o receio de que elas ficassem ao desamparo em longos períodos de afastamento, nos casos  de viagens, falecimentos ou outros motivos. Um documento de 1871 confirma o costume, informando ser ali “mais conveniente e seguro asilo, não só das donzelas e das viúvas, se querem dedicar a Deus Nosso Senhor”, como também “das casadas que, por legítima causa, não vivem em companhia de seus maridos.”

Em certa época, tornaram-se frequentes as visitas familiares de pessoas do sexo feminino na clausura. Entretanto, porque tal prática tumultuava o cotidiano de Macaúbas, tiveram que cancelar a permissão. Isso provocou a saída de algumas recolhidas, entre elas as filhas da famosa Chica da Silva, que eram internas e ali viviam confortavelmente, junto com suas escravas(23). Diante disso, revoltada com a proibição, a poderosa ex-escrava retirou suas filhas. Uma delas, Quitéria Fernandes de Oliveira, retornou a Macaúbas, cinco anos mais tarde, com a filha Mariana, deixando entregue às religiosas um bebezinho, de apenas oito meses de idade.

Post - CoqueirosMacaúba, palmeira que deu nome ao recolhimento de Macaúbas.

Foi na segunda metade do século XVIII que o recolhimento passou a funcionar como estabelecimento educacional, recebendo meninas oriundas de famílias ricas e importantes das Minas Gerais. Em 1854, Antônio José Ribeiro Bhering, secretário da Instrução Pública, apresentou um relatório ao presidente da província, dizendo: “ahi se aprende a ler, escrever, contar, lingua Franceza, Geographia, Musica, Coser, Bordar, Doutrina Cristã, e tudo que He necessario a uma boa mãe de Familia.”

Uma menina natural de Curvelo (MG), Ritta Cassimira Pereira da Silva(24), perdeu o pai ainda muito jovem e sua mãe se sacrificou para que pudesse estudar. Naquela época, eram poucas as mulheres que recebiam alguma instrução formal, mas a menina teve a sorte de ser matriculada em Macaúbas, em 19.02.1859, com dez anos e sete meses de idade. A viagem até lá, percorrendo cerca de 160 km, se fazia a cavalo e demorava vários dias. Informa o histórico escolar da aluna identificada pelo número 83 que, no dia 17.04.1859, começou a frequentar as aulas de “musica vocal” e, em 26.11.1861, aulas de piano. Deve ter sido boa distração e deleite para espantar as dores da saudade.

• Clique com o botão direito e veja todos, “Nos passos do imperador” – de I a VIII) – I  | II  | IV  | V  | VI  | VII  | VIII    

Compilação, adaptação e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) Fonte do Diário: “Anuário do Museu Imperial”, vol. XVIII, 1957, versão e notas por Hélio Vianna. // Sumidoiro’s Blog corrigiu e atualizou grafias de palavras, alterou pontuações, tanto na transcrição do Diário, quanto nos noticiários da imprensa, preservando a integridade do conteúdo. Ainda acrescentou notas e ilustrou.

(2) Documento manuscrito dos arquivos de Macaúbas – Informação da pesquisadora Maria Juscelina de Faria.

(3) Morro Vermelho – Distrito de Caeté, região de mineração.

(4) Fazenda da Jaguara. Leia os Posts “A fazenda de muita história”,  janeiro, 2012 – “Promessa furtada”, fevereiro, 2012 – e “Dumont Vianna e Cia.”, março, 2012.

(5) MARTINS, Ignacio Antonio de Assis – Senador do império e visconde de Assis Martins. Leia os Posts “A festa do Barão”, maio, 2014 – e “Nascido para matar”,  julho, 2014.

(6) Arraial Velho – Vilarejo próximo a Sabará, onde, pela primeira vez, foi encontrado ouro pelo bandeirante Borba Gato. O sítio era denominado lavra do Arraial Velho de Sant’Ana.

(7) SILVA, Paulo Barbosa da – Primeiro mordomo de d. Pedro II, natural de Matozinhos e não de Sabará, como imaginou d. Pedro II. 

(8) FREIRE, Joaquim José Meireles – Barão do Curvelo, falecido em 1877.

(9) VIANNA, Candido José de Araujo – (Congonhas do Sabará, *15.09.1793 / Rio de Janeiro, †23.01.1875) Visconde e marquês de Sapucaí. Não nasceu em Sabará, como imaginou d. Pedro II. Bacharel em direito, foi deputado constituinte em 1823 e deputado geral representando Minas Gerais, por três mandatos. Também ministro da fazenda e ministro da justiça, conselheiro de estado, deputado geral. Por decreto imperial, de 17.09.1828, foi governador do Maranhão. Presidente de província de Alagoas. Senador de 1840 a 1875, eleito pela província de Minas Gerais. Ocupou a presidência do senado de 1851 a 1853. Foi ainda procurador da coroa, fiscal do tesouro e ministro do Supremo Tribunal de Justiça, ministro da fazenda e nomeado membro extraordinário do Conselho de Estado, a partir da data de sua criação. Em 1839, foi nomeado mestre de literatura e ciências positivas de d. Pedro II, quando era herdeiro do trono; posteriormente, também cuidou da educação da princesa Isabel. 

(10) GUIMARÃES, Antônio de Abreu – Português, fundador do Vínculo da Jaguara, vasta extensão de terras, com benfeitorias, que foram vinculadas a uma negociação com a coroa portuguesa, a troco de quitar impostos que lhe eram devidos. Leia os Posts “A fazenda de muita história”, janeiro, 2012 – “Promessa furtada”, fevereiro, 2012, e “Dumont, Vianna & Cia”, março, 2012.

(11) PACHECO, Manoel Antônio – 1º Barão de Sabará (* c. 1783, Açores / †14.02.1862. Presidente da Irmandade da Misericórdia do antigo Hospital Abreu Guimarães, atualmente Santa Casa de Misericórdia de Sabará.

(12) Papo – Má informação do diretor de Morro Velho, acreditando nos conceitos correntes à época. A doença se manifestava pelo aumento da glândula tireóide, provocando uma protuberância no pescoço. Era consequência da falta de iodo na alimentação; por isso, adotou-se adicioná-lo ao sal de cozinha, o sal iodado.

(13) Partiu na barcaça Cônego Santana (ver desenho de José Códea, acima: chegada a Santa Luzia).

(14) O arraial foi fundado, em 1676, pelo bandeirante Borba Gato onde encontrou terras férteis e plantou uma roça. O lugar levou o nome de Bom Retiro da Roça Grande ou simplesmente Bom Retiro. Ali também edificou uma modesta capela de adobe – demolida e substituída por outra mais sólida –, em devoção a Santo Antônio. Daí o nome atual da vila: Santo Antônio da Roça Grande. Consta ter sido o primeiro arraial da região aurífera do Rio das Velhas.

(15) Patrão – Aquele que dirige ou comanda um barco.

(16) FRANCO, Modestino Carlos da Rocha – médico, político e administrador.

(17) Carreira Comprida, propriedade de tenente-coronel Antônio da Fonseca Ferreira. Veja o Post “Carreira de Santa Luzia”, dezembro, 2012.

(18) DOLABELLA, Frederico Antônio – Major. Chegou a Minas Gerais vindo do Rio de Janeiro, para combater na Revolução Liberal, de 1842, comandada pelo Duque de Caxias. O major fixou-se em Lagoa Santa, depois de receber do imperador uma sesmaria, cujas terras ficam na margem esquerda do rio da Velhas. São cortadas por uma estrada que leva a Lagoa Santa, cujo seguimento é a atual rua Conde Dolabella. O caminho começa no rio e ficou conhecido como Estrada do Imperador, tendo recebido a denominação porque por ela passou d. Pedro II, em 1881. // Alguns fazendeiros derrotados da Revolução Liberal, temendo retaliações, embrenharam-se nas matas de Manhuaçu (MG), vindos de Santa Luzia, Catas Altas, Mariana e cidades da região de Juiz de Fora. Curiosamente, o major Dolabella também se transferiu para Manhuaçu e não incomodou os derrotados. Em Lagoa Santa, distribuiu suas terras com os filhos, entre eles, um que ganhou proeminência, Alfredo, que veio a se tornar o conde Dolabella.

(19) LANA, Joaquim José de Oliveira Lana – Natural de São Batolomeu, município de Ouro Preto; ordenado por d. Antonio Ferreira Viçoso, em 16.03.1850. Foi, como seu primo Manuel Dias da Costa Lana, capelão de Macaúbas.

(20) CARVALHO, Antônio de Albuquerque Coelho de (Lisboa, *1655 / Angola, †1725), governador do Rio de Janeiro no início do século XVIII. Em 09.11.1709, por Carta Régia, foi separada a Capitania do Rio de Janeiro a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, confiando o novo governo a Antônio de Albuquerque. Assim sendo, tomou posse como 1o governador da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, em Santos (18.02.1710), que fora criada por Carta Régia, de 09.11.1709. Governou até em 31.08.1713.

(21) Revolução dos Emboabas.

(22) Revolução de 1842, também denominada Revolução Liberal ou Revolução dos Luzias. Os revoltosos liberais foram derrotados, em Santa Luzia, pelas tropas do duque de Caxias, enviado por d. Pedro II. Cabe notar que, dias antes em Lagoa Santa, as tropas imperiais sofreram grande revés em combate com os liberais. Entretanto, quando estes caminharam para Santa Luzia, mas já estavam com seus homens exaustos, famintos e sequer possuíam suficiente munição. Assim, a vitória final não demandou muito esforço aos bem armados combatentes do duque de Caxias.

(23) As filhas da ex-escrava Chica da Silva e João Fernandes de Oliveira – contratador de diamantes – recebiam visitas fora do Recolhimento. Para a mãe, João Fernandes mandou construir a Casa do Serro, onde Chica se hospedava quando ia visitar as filhas, que tinham celas especiais construídas pelo pai e entregues ao Recolhimento como parte do dote das meninas. Situava-se junto ao corpo principal do edifício, do lado esquerdo (norte), e dela sobrou apenas um paredão em ruínas. O nome Casa do Serro seria para lembrar o Serro Frio, onde teria nascido Chica da Silva, mais precisamente o arraial de Milho Verde. A documentação se encontra no acervo do Mosteiro, em diversos manuscritos avulsos. – Informação da pesquisadora Maria Juscelina de Faria.

(24) SILVA, Ritta Cassimira Pereira da – (*13.07.1848 / †24.03.1914). Filha do tenente Antônio Pereira da Silva e de Ignez Maria da Conceição Pereira da Silva; casada com o capitão Evaristo Antônio de Paula. Leia o Post “O capitão e sua família”, julho, 2011.

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9 Comentários »

  1. Mais uma vez excelente, Eduardo. Tenho sempre acompanhando o Blog. Vai ter a continuação? Quero ver se tem alguma evidência da estada de d. Pedro em Matozinhos.
    Abs
    JBPezzini

    Comentário por Joao Pezzini — 01/09/2014 @ 10:05 am | Responder

    • João:
      Claro, vamos passar por Matozinhos. Aguarde. Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/09/2014 @ 10:18 am | Responder

  2. A narrativa continua interessante e os comentários dos jornais da época valorizam o texto. Qual seria a dúvida sobre a revolução de 1842? A derrota impingida a Caxias na primeira batalha? Alguns Viannas estavam do lado dos Liberais. Teriam fugido também para Manhuaçu? Há um antepassado meu, Cândido José de Souza Vianna, do qual se perdem os registros de casamento e batizado dos filhos, justamente depois de 1842. Teria vivido na fazenda Palestina, segundo relatos, mas não localizei esta fazenda.
    Forte abraço, João Vianna.

    Comentário por jbvianna — 01/09/2014 @ 5:20 pm | Responder

    • João:
      Sobre a revolução de 1842, estou formando minha opinião. Como sempre, a história foi escrita pelos vencedores. Ainda estou estou formando minha opinião e penso que muita coisa precisa ser reescrita. Vou entrar em contato com você pelo seu endereço de email. Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/09/2014 @ 5:41 pm | Responder

  3. Ótimo, como sempre!

    Comentário por Margaret Campolina — 08/09/2014 @ 12:48 pm | Responder

    • Margaret:
      Muito obrigado. Dentro de uma semana publico uma continuação.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 08/09/2014 @ 4:51 pm | Responder

  4. Este Recolhimento de Macaúbas é de encher as vistas. Se nas fotos causa emoção, imagine ver de perto.

    Comentário por sertaneja — 09/09/2014 @ 12:10 am | Responder

    • Olá Virgínia:
      Tanto a edificação quanto a história causam emoção. O interior é maravilhoso, mas a ele poucos têm acesso. Se for do sexo masculino, as restrições são ainda maiores. Há coisas que posso ver apenas com a imaginação.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 09/09/2014 @ 8:40 am | Responder

  5. Muito bom conhecermos nossa historia! Parabéns!

    Comentário por Ewerton Conde da Matta Machado — 10/02/2015 @ 3:34 pm | Responder


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