Sumidoiro's Blog

15/09/2014

NOS PASSOS DO IMPERADOR (IV)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:28 am

♦ Visitando Lagoa Santa e Matozinhos 

O casal imperial d. Pedro II e dona Tereza Cristina, partiram do Rio de Janeiro, no dia 21.03.1881, sábado, às 6 horas da manhã, para conhecer Minas Gerais. O imperador cuidou de escrever um diário de viagem e a imprensa deu grande cobertura à visita. Parte desses acontecimentos são aqui revividos por Sumidoiro’s Blog(1), em continuação ao Post anterior.

Post - Lagoa Santa praçaPraça central de Lagoa Santa com a matriz de Nossa Senhora da Saúde.

Vindo de Sabará, em 6 de abril, o imperador passou parte do dia em Macaúbas (Santa Luzia), conhecendo as rotinas do antigo recolhimento, que funcionava também como convento e escola de meninas. Depois de jantar, recolheu-se bem cedo, às 9 e pouco da noite. A partir do dia seguinte, iria conhecer o lugar onde viveu o naturalista e paleontólogo Peter Lund(2), e as grutas de Lagoa Santa e Matozinhos. Para isso, teve de retornar no rio das Velhas até a altura de Pinhões e descer na margem esquerda, dali tomando o caminho que levava até Lagoa Santa.

Post - D Pedro miniDiário

ABRIL — 7 — (5a fa) Acordei, às 5. Chegaram ontem os diários do Rio, de 3. Saída às 3¼, até o embarque. Passagem do rio* (*das Velhas), na barca. Partida a cavalo, da margem oposta, às 6h 20′. Bom e lindo caminho. A vista de um alto descobre largo horizonte: Serra do Curral; Pico de Itabira(3); Serra da Piedade. Vim me informando de diversas árvores. O chapadão parece, pelo solo e arvoredo, o de São Francisco, saindo de Piranhas(4). Pequi, fruto de caroço espinhoso, que deve comer-se com cuidado para não ferir a boca e a língua. Barbatimão, que contém muito tanino; pau-terra, casca adstringente, boa para diarreia; bolsa-de-pastor, de casca boa para hidropsia. Depois vi a lobeira, de linda flor; e apanharam dois araticuns, num só ramo. Há os maiores.

Esquecia-me de dizer que, até o embarque, conversei com o padre Lana , muito doente de pericardite (veja ao final: “Memória do padre Lana”). Disse-me que o Instituto de Macaúbas tem seiscentos alqueires de terra. Num lugar chamado Retiro plantam cana, milho, etc. Vi outro padre, Castro, de guedelhas pretas* (*cabelos negros, longos e despenteados), cuja fisionomia revela hipocrisia e mais um que esteve em Petrópolis e missiona* (*prega).

Post - Macaubas - L SantaDe Macaúbas a Lagoa Santa. Em azul: rio das Velhas.

Às 8h ½, avistei a Lagoa Santa do alto de um morro. Lembrei-me do lago de Nicéia* (*na Ásia Menor), cujo aspecto é contudo mais pitoresco, ainda que mais risonho o da lagoa. Já antes tinha descoberto uma parte desta. Vieram pessoas a meu encontro e, entre elas, o dr. Inácio(5) e o barão do Rio das Velhas(6), que muito se parece com o dr. Bonifácio de Abreu(7). É irmão do deputado Fonseca Vianna(8), que já morreu. Monsenhor José Augusto disse-me ter já visto duas seriemas perto de Queluz. Neste caminho, aparecem muitas assim, como emas, estas sobretudo do lado do retiro de Macaúbas.

Post - Pequi & araticumPequi, por fora e por dentro. / Araticum.

A lagoa não corre em meses de seca, que são sobretudo os de julho e agosto. Atravessei o desaguadouro ao chegar ao povoado. As águas correm agora e vão ter ao rio das Velhas, quatro ou cinco léguas abaixo de Macaúbas. A entrada da povoação foi por entre hastes e ramos de bananeiras e outras plantas, algumas floridas, que produziam aprazível efeito.

Almoço, às 10h. Saída, às 11. Igreja* – insignificante, edificada há oitenta anos (*igreja de Nossa Senhora da Saúde). Casa do Lund(9). Percorri-a toda, vendo o quarto onde ele morreu de uma constipação, depois de bastante tempo doente. Falei com Nereu(10), que Lund protegeu desde menino, sendo o pai deste, a quem pedi também informações, leitor de português de Lund; e P. V. Roepstorff cand. fil., secretário dele, desde 1876. Lund vinha, em 1827, para a ilha da Reunião(11), por tísico em segundo grau; porém, tendo de passagem melhorado de saúde, no Rio de janeiro, só tornou em 1830 à Dinamarca. Piorou de saúde e voltou, em 1832, ao Brasil, viajando até Goiás, por Uberaba.

Post - Diário - IVDetalhe de página do Diário.

Fixou-se na Lagoa Santa, em 1834, de onde não saiu mais. Todos dizem ser lugar muito sadio, havendo muitos centenários, um de 137 (anos de idade), tendo morrido há pouco tempo, conforme refere o barão do rio das Velhas. Lund vivia muito retirado e quase que não lia em seus últimos anos. Anteriormente, gostava da companhia de senhoras e de música, cujos preceitos ensinou a Nereu. Este foi seu herdeiro dos bens no Brasil, tendo deixado em Copenhague mais duzentos contos fracos. Escrevia frequentemente ao professor Reinhart, mas sua correspondência e todos os manuscritos foram remetidos para Copenhague. Nereu deu-me notas escritas a respeito de Lund e prometeu-me cópia do testamento de Lund, em dinamarquês, e de suas últimas disposições.

O jardim tem muitas plantas que Lund plantou e removeram para uma casinha que, aí, está sua biblioteca. Não é pequena e compõe-se de obras importantes em anos atrasados, sobretudo relativas que ele cultivava. Perguntei muito se tinha deixado filho ou criara alguma relação afetuosa neste lugar. Responderam-me positivamente que não. Era de proceder castíssimo e muito esmoler. O pai de Nereu contou que, lendo a Lund “As Meditações do Conselheiro Bastos”(12) e, chegando a uma passagem em que estava S. Gregório, ele o mandara parar, assim como noutro lugar, que pareceu-me referir-se à doutrina religiosa. Parece que Lund só tinha a religião natural. Também o pai do Nereu lhe lera, com muito prazer dele, “Paulo e Virgínia”(13).

Post - LobeiraLobeira, o arbusto com a fruta de lobo e sua flor.

Duas escolas, ambas em edifícios acanhados, tendo a de meninas cento e três! Agradou-me algum tanto a professora, contudo, apesar de ser irmã do cura, as meninas não sabem explicar a doutrina. Aproveitei a ocasião para repetir que a doutrina religiosa deve-se ensinar somente na casa paterna e na igreja, ou templo, quando se possa ensinar aí, o que não sucede ainda no Brasil. São 2 (h), vou navegar a lagoa. Dizem-me que, há três anos, nos meses de julho, agosto e setembro, sobretudo, e de oito em oito dias, às vezes, sentiam-se estrondos e abalos de terra, às vezes com o intervalo oito minutos – os estrondos  que pareciam partir de N. E. – e se ouviam em Lagoa Santa e mais longe, e os abalos no lugar da Quinta do Sumidouro, e em sentido horizontal, batendo as vidraças e quebrando-se garrafas.

Post - Nereo & Mulher

Nereo (assim assinava) e esposa.

A lagoa tem, em alguns lugares, bastante fundo, e referem que, para o lado sul, surge uma mina que dá água à lagoa, de que não há notícia que não existisse. Não pude ver a edificação que está no fundo da lagoa, para o lado do povoado, porque há bastante água agora e o céu não estava claro(14). Na volta do passeio da lagoa, que é muito piscosa, não pegando contudo peixe nos anzóis, durante as paradas de barco, mandei que se dirigissem para a banda do escoamento, que não pude ver, por causa do juncal. Dizem ter ¾ de légua de comprido.

Chegada à casa às 4 (h). O Nereu deu-me, em casa do Lund, apontamentos que devem ser exatos. Logo que cheguei a Lagoa Santa, recebi carta de Gorceix dando-me informações sobre o que tenho de ver amanhã e depois. Chegada à casa às 4h. Descanso até o jantar, às 6h, porém, mesmo deitado pensarei e escrevo sobre a viagem. O barão do Rio das Velhas acha fácil a navegação de Macaúbas para baixo e, contudo, nesse trecho é que há as corredeiras onde Liais(15) correu risco. Da foz do Paraúna para baixo, ninguém aponta dificuldades e, dizem todos, que o terreno às margens do rio é fácil para o leito da estrada de ferro. Assim não me pareceu do rio, nem de Macaúbas até Lagoa Santa; verei, na volta para Sabará, quanto se pode julgar andando pela estrada ordinária.

Post - Quero casar“Eu quero me casar”, lundu que alegrou uma noite de d. Pedro II.

O tempo tem estado quente, desde a descida de Ouro Preto para a bacia do S. Francisco, à excessão das primeiras horas da navegação no rio das Velhas. Ouvi ainda sobre Lund que, no momento de ir-lhe ler os diários, o pai do Nereu achou sobre a mesa diversos óculos. Perguntou a Lund para que estavam ali e respondendo-lhe este que, talvez, precisasse de algum para ler-lhe, o que verificou logo, pelo clarear das letras dos diários encheram-lhe os olhos de lágrimas, ou por gratidão ou pelo desgosto da fraqueza da vista. O mesmo pai do Nereu avisou Lund de que um criado deste, de nome Foulon(16), de nacionalidade francesa, o furtava. Lund não quis acreditar mas, por fim,  declarou que, com efeito, via-se obrigado a despedir o Foulon que lhe furtara, talvez cinco contos.

Lund constituiu a Nereu uma pensão vitalícia com sobrevivência de 60$000 mensais à mulher, que principiou a gozar ainda na vida daquele e deixou-lhe no testamento o que possuía no Brasil: dinheiro e duas casas na Lagoa Santa. Depois do jantar, conversei. Veio Nereu com seu violão, sendo acompanhado pela irmã e a mulher. Ele toca com seu gosto e a irmã tem voz agradável e bem afinada. A mulher também cantou agradavelmente o lundu(17) mineiro “quero me casar, quero me casar”. Amanhã tenho de partir para a lapa da Aldeia, às 5h da madrugada. Vou tomar chá e dormir. São 9h.

Post - L Santa - Matozinhos - S LuziaDo Fidalgo Velho para Mocambo e, depois, Matozinhos. Detalhe: Mocambo. Em azul: rio das Velhas. 

VISITANDO AS GRUTAS

• O imperador não foi suficientemente explicito nos relatos. Por isso, em muitos pontos, é necessário apelar à imaginação. É importante, também, levar em consideração o que toca a espaço e tempo, senão as descrições ficam carentes de sentido. Ao final desta postagem, Sumidoiro’s Blog faz comentário procurando trazer mais luzes à narrativa de d. Pedro II.

Post - D Pedro miniDiário

ABRIL — 8 (6ª fª) – 5 h. Saída para a gruta da Aldeia. Chapadão de bela vista de madrugada. Engenho Fidalgo(18). Lapinha(19) pequena, povoação onde se explora uma gruta e bem situada; Poção, engenho de cana; Mocambo, idem, uma das cinco* (*fazendas) do vínculo da Jaguara(20). O caminho tinha sido preparado e estava bom. Quase sempre havia mais ou menos sombra antes de Mocambo e depois ainda, pois o caminho atravessava capoeiras mais ou menos espessas. Passa-se junto ou pouco longe de cinco ou seis depósitos de água das chuvas que, disse-me meu guia, Antônio Fonseca Vianna(21), secam depressa.

Post - Fazenda Mocambo MatozSede da fazenda do Mocambo.

Cheguei à gruta às 11 (h). Bonito mato a precede. Desce-se até defronte do rochedo de calcário pouco cristalino, entremeado de finas camadas de areia. A parte fronteira semelha um magnífico arco ou pórtico, com púlpito externo e um buraco parecendo uma rosácea. Raízes ou trepadeiras que parecem cordas pendem dessa fachada de igreja gótica e insinuam-se por entre as falhas da rocha. Estes cipós são cheios de sal, que sobre eles deposita a água, creio que nitrato de potassa, porque ele abunda no interior dessas grutas onde o apanham.

Post - Cerca GrandeMaciço da Cerca Grande.

À direita, fica a entrada da gruta, que (a) cobre uma espécie de chapéu de chaminé. Belos estalactites na primeira sala, semelhando uma imensa juba e outras bambinelas* (*cortina franjada de janela); passagem reptante* (*desafiadora, difícil) para a segunda sala, que é grande. Há uma parte nesta onde o teto tem cor esverdeada, originada por protococos* (*gênero de algas). Sobre a sala grande há um andar e, penso, que também outro inferior. Gorceix mandou abrir um buraco no fundo da sala grande, porém nada encontrou, senão a entrada provável do andar inferior.

Post - Rocha dos índiosInscrição no Rochedo dos Índios, em Cerca Grande (foto: Erika Bányal).

Na noite passada, já tinha um pequeno osso que eu trouxe. Estive na gruta (por) duas horas, tendo almoçado antes fora dela, debaixo das árvores. A água era salitrosa. Encontrei aí um Manuel Simeão dos Reis, que disse-me como Lund, em companhia, encontrara (?) o esqueleto na gruta da Escrivania(22). Simeão tirava salitre e, depois de achar os dedos dos pés e o resto do esqueleto, procurando mais dera com o crânio. A camada de salitre é relativamente moderna. 2h 10′. Volta de certa altura, seguiu-se outro caminho, pelo lado do Sumidouro, que vi ao longe, à direita, assim como a Quinta, do mesmo nome, num desbarrancado. Chegada às 8h 20′ (em Matozinhos). Comi alguma coisa. São perto de 10h.

Post - ponte Sta LuziaSanta Luzia e a antiga ponte de madeira.

ABRIL — 9 (sábado) 6h – Partimos para Santa Luzia. Esqueceu-me falar de algodoais bonitos que vi. Do junco que cresce às margens da Lagoa Nova, fazem diversas obras em que comerciam. Nereu mandou-me as obras de Lund, que pus à parte em sua livraria. Hei de levá-las para mandar traduzir as que tratam de fósseis, enviando cópia ao Gorceix. Dois dos repórteres(23) foram ver as grutas mais próximas, porém, penso que as acharam cheias de água. Gorceix voltou à Lagoa Santa, às 10 da noite. É preciso subir escada para entrar na gruta da varanda, de onde extraem salitre, com a terra de que ele viu separar nitrato, por meio de água em coadouro.

O barão do Rio das Velhas, ao sair da casa onde pousa, caiu da escada de pedra, de grande altura. Feriu bastante a testa(24) e contundiu fortemente o olho esquerdo. Tem vomitado. Fui vê-lo antes de sair. — DIÁRIO: continua na próxima postagem.

 Post - Casa do barãoSolar do barão do Rio das Velhas (em Matozinhos) onde hospedou-se d. Pedro II.

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FATOS E LENDAS

Post - Sumidoiro MARCA

Pelas palavras do Diário, deduz-se que, quando o imperador referiu-se à gruta da Aldeia, designava o lugar denominado aldeia do Mocambo. Próxima à essa aldeia, havia também a fazenda do Mocambo(25). Ao escrever que Quase sempre havia mais ou menos sombra antes de Mocambo…”, tornou evidente que esse era seu destino. A gruta que visitou estaria localizada naquela região, exatamente no importante maciço da Cerca Grande, o que justificaria o especial interesse em conhecê-la.

Poção seria fazenda dos Poções, que estava no caminho (vide mapa). O correspondente da “Gazeta de Notícias” – (RJ), enviou ao jornal a seguinte nota: “Lagoa Santa, 7 – […] S. M. o Imperador, a comitiva e o Dr. Gorceix pretende visitar amanhã a Lapa, aldeia distante 33 kilometros.” Pois sim, nessa distância se achava a lapa ou gruta da aldeia do Mocambo.(26)

Anotou o imperador que a chegada à gruta se deu às 11:00 h e a visitação durou duas horas. Depois, do lado de fora, à sombra de uma árvore, houve o almoço. Às 2:10 h, a caravana continuou viagem para a cidade de Matozinhos, distante pouco mais de 15 km, considerando a estrada hoje existente. D. Pedro II escreveu: “Volta de certa altura, seguiu-se outro caminho, pelo lado do Sumidouro, que vi ao longe, à direita, assim como a Quinta, do mesmo nome…” Aí, cometeu-se um equívoco, pois o Sumidouro fica à esquerda. O imperador chegou a Matozinhos às 8:20 da noite, para pernoitar no solar do barão do Rio das Velhas.

Post - Relógio do ImperadorEspaço e tempo no percurso Lagoa Santa – Santa Luzia.

Cabe observar outro detalhe no Diário. O visitante anotou que esteve em terras de Mocambo, mas isto não quer dizer que tenha chegado até a sede da propriedade. Entretanto, corre uma lenda de que teria pernoitado na fazenda do Mocambo onde, depois, promoveram uma grande festança em sua homenagem. Sem dúvida, isso é fruto de pura criatividade, mas que foi tomando ares de verdade.

A fantasia chegou ao ponto de ser publicada num jornal, dizendo que “o requinte da recepção ao […] monarca ganhou fama […] É que o barão […] providenciou o que melhor havia no além-mar, para a hospedagem de tão ilustre visitante. Desde louças inglesas, até o puro linho irlandês, sedas de Damasco, pratarias do reino, alfaias do oriente, além do reforço de sua adega com finos vinhos”, etc. Contudo, não houve tal homenagem, nem lá e em lugar nenhum. Após a chegada a Matozinhos, o imperador resumiu tudo em breves palavras: “Comi alguma coisa. São perto de 10 h.” 

Ainda disseram que teria sido convidado para uma caçada “nos campos que antecedem os campos na margem esquerda do rio das Velhas”, e que, para impressioná-lo, mandaram “escravos e perreiros que marcassem as praias com rastros de veados, por intermédio de uma pata de que se guardava dependurada de um dos capitéis da varanda da herdade”. Outra vez falsearam os acontecimentos, pois não haveria tempo para a tal caçada, principalmente porque o rio corre à leste do Mocambo, a  muitos quilômetros de distância. Então já é tempo de colocar as coisas nos devidos lugares.

De qualquer forma, o imperador não deixou de manifestar o agradecimento pelas cortesias que lhe foram prestadas pelo barão – Francisco de Paula. Algum tempo depois, elevou-o a visconde do Rio das Velhas.

Post - Carta de ViscondeDiploma do visconde do Rio das Velhas (Francisco de Paula da Fonseca Vianna).

MOCAMBO E CERCA GRANDE

A gruta da Cerca Grande é o sítio arqueológico mais importante da região de Matozinhos, cujo maciço tem 2 km de comprimento, com sete entradas e treze aberturas para o exterior. Foi uma das primeiras que Peter Lund visitou(27), junto com seu desenhista Peter Brandt(28) e, logo, ambos se encantaram com o que viram. Está em um rochedo de pedra calcária possui uma face íngreme e se estende, do lado posterior, junto a uma várzea que é inundada pela águas das chuvas. São imponentes algumas das suas paredes internas, que chegam a mais de trinta metros de altura e magníficas pinturas rupestres. São muito antigas e algumas parecem ter mais de oito mil anos de idade.

Ali foram encontrados também fósseis humanos, de animais, e artefatos dos habitantes primitivos da região. Denominavam a elevação de Rochedo dos Índios, talvez assim chamada por imaginarem que as inscrições e desenhos, encontrados no seu interior, tivessem sido feitos por “selvagens”. O local era muito conhecido pelos habitantes da região, de onde retiravam salitre, especialmente para a fabricação de pólvora.

Com emoção Lund descreveu seu primeiro contato com a Lapa dos Índios: “Julguei ter diante de mim as ruínas de um vetusto palácio de gigantes e meus olhos demoraram-se na contemplação de uma série de altas arcadas escavadas na asa esquerda, como se esperasse descobrir aí, os vestígios de seus habitantes misteriosos.”

Post - Rochedo Índios modifRochedo dos Índios no Mocambo – Indianerklippen ved Mocambo (d’après P. Brandt).

Em um desenho, Peter Brandt representou um momento em que ele e Lund, montados a cavalo, chegam ao Rochedo do Índios (ilustração acima). Ao pé da elevação, há um pequeno casario, provavelmente habitações dos mocambeiros(29), os negros da Aldeia do Mocambo. Em linha reta, Cerca Grande está a pouco mais de 10 km da cabeceira da pista do aeroporto de Confins e a 13 km da região central de Lagoa Santa. A localização de Mocambo e Cerca Grande pode ser vista pelo Google Maps, colando na janela de busca as coordenadas em negrito: -19.544626, -43.994148 .

Post - O PharolMEMÓRIA DO PADRE LANA

• Falecido em Macaúbas, em 20.12.1886.

No jornal “O Pharol”, de Juiz de Fora (MG), 08.09.1892:

“Eu era seminarista e tinha apenas vinte e um anos de idade. Um de meus professores, que de perto conhecia o padre Lana, citava este nome como um tipo de virtudes e como homem ilustrado, digno, sob todos os pontos de vista, de ser imitado. […] Desejava ardentemente conhecer o padre Lana, que de tanta fama gozava […]

O leitor já sabe que o virtuoso sacerdote […] era capelão e diretor do convento de Macaúbas. Aí residiu trinta e sete anos, santificando a todos que a ele achegavam. Era a alma do convento e dele sempre dependeu a boa administração do estabelecimento. […] Descrever a viva impressão que senti ao ver o padre Lana, na porta da capela do convento, é-me quase impossível, atenta a ideia preconcebida que dele eu fazia […]

Alto magro, corado, cabelos brancos e flutuantes sobre as espáduas, trêmulo como um levita* (*diácono) no dia da ordenação; titubeante e quase sem poder ler a oração do cerimonial episcopal, estava de pé no limiar da porta a figura majestosa do padre Lana, que me fazia lembrar aqueles anacoretas* (*penitentes que vivem na solidão) de que nos falam as crônicas do ermo da Tebaida* (*região do Egito).

Simples no trato, dócil na conversação, resoluto e firme nas respostas, humilde na discussão, o velho quase octogenário se impunha a seus colegas, sem ter essa pretenção […] Possuía vastos conhecimentos de história natural e classificava com facilidade as plantas de nossa flora. Estudando dia e noite, padre Lana não teve a veleidade de conquistar um título científico e os louros de suas lucubrações. Nenhum escrito legou-nos esse inimitável sacerdote […]

Já alquebrado pelos anos e minada sua existência por contínuas enfermidades, o virtuoso padre Lana deixou esta terra por onde passou fazendo o bem e foi-se para a vida da eternidade. Apenas correu a notícia da sua morte, o povo das freguesias vizinhas começou a afluir ao convento de Macaúbas. Todos disputaram à porfia a entrada da porta, para vê-lo e beijar-lhe as mãos, já que não se estendiam para distribuir benefícios aos pobres. Cada um queria possuir uma relíquia, uma lembrança de tão virtuoso sacerdote […]” – Padre João Emílio Ferreira da Silva (fundador do Asilo João Emílio, de Juiz de Fora).

Post - Óbito padre LanaObituário do padre Lana: jornal “A Província de Minas”, Ouro Preto, 29.01.1887, p. 1.

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• Clique com o botão direito e veja todos, “Nos passos do imperador” – de I a VIII) – I  | II | III  | V | VI  | VII  | VIII 

Compilação, adaptação, comentários e arte por Eduardo de Paula

— Imagens cartográficas deste Post foram retiradas de mapa do Departamento Geográfico de Minas Gerais, 1950

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella / Colaboração: Carlos Aníbal Fernandes de Almeida 

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(1) Fonte do Diário: “Anuário do Museu Imperial”, vol. XVIII, 1957, versão e notas por Hélio Vianna. // Sumidoiro’s Blog corrigiu e atualizou grafias de palavras, alterou pontuações, tanto na transcrição do Diário, quanto nos noticiários da imprensa, preservando a integridade do conteúdo. Ainda acrescentou outras notas e ilustrou. // Sumidoiro’s Blog teve acesso à reprodução do manuscrito original, referente ao trecho Macaúbas – Lagoa Santa – Matozinhos – Santa Luzia.

(2) LUND, Peter Wilhelm – Naturalista e paleontólogo dinamarquês (veja o Post “Bendita Lagoa Santa”, agosto, 2011).

(3) Engano de d. Pedro II, o pico de Itabira não é visível de Macaúbas.

(4) Piranhas é município ao oeste do Estado de Alagoas.

(5) MARTINS, Ignacio Antônio de Assis − Visconde de Assis Martins, (Sabará, *16.11.1839 / †02.03.1903). Advogado, juiz e político. Filho de Francisco Assis Martins Costa e Eufrásia Assis. Casou-se com Angelina Silvina Moreira, viúva de Theodoro Barbosa da Silva. Foi deputado provincial, deputado geral e senador do Império do Brasil, de 1884 a 1889.

(6) VIANNA, Francisco de Paula da Fonseca – Nasceu em 02.04.1815, na fazenda dos Angicos que, na época, pertencia à freguesia de Santa Luzia e estava no município de Sabará. É o filho primogênito de José de Souza Vianna e Maria Cândida de Assumpção da Fonseca Ferreira; neto de Bernardo de Souza Vianna e Angélica Maria Pacheco Ribeiro (veja os Posts “A família de Bernardo”, maio, 2011 – “Dumont, Vianna & Cia.”, março, 2012 – e “Notícia de José e Maria”, dezembro, 2013).

(7) ABREU, Bonifácio Francisco de – (Barra, *29.11.1819 / †30.07.1887) Barão da Vila da Barra, médico, político e poeta. Coronel-cirurgião honorário do exército, por serviços prestados durante a Guerra do Paraguai. Foi Presidente das províncias do Pará, em 1872, e de Minas Gerais, em 1876. Sócio do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia.

(8) VIANNA, Antônio da Fonseca – (*1816 / †1871) Médico, deputado provincial (1858/1861) e geral (1861/1868). 

(9) A casa de Peter Lund está situada na região mais central de Lagoa Santa. Foi sendo descaracterizada com várias reformas e, atualmente, abriga um grupo escolar.

(10) SANTOS, Nereo Cecílio dos – (*15.05.1852 / †13.09.1922) Filho adotivo e secretário de Peter Lund (veja o Post “Querido filho Nereo”, setembro, 2011).

(11) Ilha da Reunião – Departamento francês, localizado a leste de Madagáscar, no oceano Índico. A principal é uma das duas maiores ilhas Mascarenhas, sendo sua vizinha mais próxima a Maurícia. Possui várias dependências, em torno de Madagáscar, no Índico e no canal de Moçambique. A capital é Saint-Denis.

(12) BASTOS, José Joaquim Rodrigues de – “Meditações ou discursos religiosos”, Lisboa, 1842.

(13) SAINT-PIERRE, Jacques-Henri Bernardin de – Autor (francês) publicou “Paulo e Virgínia”, em 1788. O clássico da literatura universal representa o ideal do iluminismo, que defendia uma sociedade perfeita onde a felicidade dependeria do respeito aos direitos humanos.

(14) Casa d’água – Versão tropical de casa em estilo norueguês, edificada por Peter Brandt (desenhista de Lund), que estava situada junto ao sangradouro da lagoa. 

(15) LIAIS, Emmanuel – (*15.02.1826 / †05.03.1900) Botânico, astrônomo, explorador e político francês.

(16) FOULON é o correto, mas Hélio Vianna leu e escreveu Toulon. Em Lagoa Santa, vivia a família de um francês, Foulon, proprietário de uma estalagem. O criado citado poderia tratar-se de um familiar dessa pessoa.

(17) Lundu ou lundum, gênero musical e dança folclórica de origem afro-brasileira, criada a partir dos batuques dos escravos.

(18) Engenho Fidalgo – Fazenda junto à cidade de Lagoa Santa. O nome tem origem no sítio próximo, onde foi assassinado o fidalgo espanhol d. Rodrigo de Castel Blanco, a mando do bandeirante Borba Gato (veja o Post “Visita ao Sumidouro”, janeiro, 2014).

(19) Lapinha – Lugarejo, entre Lagoa Santa e a Quinta do Sumidouro, onde existe uma gruta, que também foi pesquisada por Lund.

(20) Jaguara – Fazenda sede do Vínculo da Jaguara, hoje pertencente ao município de Matozinhos (veja o Post “A fazenda de muita história”, janeiro, 2012).

(21) Filho da irmã do visconde do Rio das Velhas, Bernarda Cândida de Souza Vianna (bt 24.09.1822) e do major Antônio Ribeiro da Fonseca.

(22) Escrivania – Lapa localizada na fazenda de mesmo nome, em Prudente de Morais (MG).

(23) Repórteres que acompanharam a comitiva de d. Pedro II: José Carlos de Carvalho, ex-oficial tenente da marinha, da “Gazeta de Notícias”; J. Tinoco, do “Jornal do Comércio”; e J. de Vasconcelos, do “Cruzeiro”.

(24) Anotação de pé de página (p. 89), por Hélio Vianna, na transcrição do Diário: “… o Imperador, sabendo que o Sr. Barão do Rio das Velhas caíra, às 4 horas da madrugada, de uma escada, ferindo o rosto, foi visitá-lo, encarregando o Senhor barão de Maceió de prestar-lhe os socorros […] (que) julgou grave o estado do enfermo, pois hoje, pela manhã, já apresentava […] sintomas de congestão cerebral. O barão de Maceió, dr. Antônio Teixeira da Rocha, era o médico imperial da câmara, que acompanhava suas majestades. Conservou o visconde do Rio das Velhas, na testa, a marca daquele ferimento, conforme pode ser vista em sua fotografia“.

(25) Fazenda do Mocambo – desmembrada do antigo Vínculo da Jaguara (veja o Post “Dumont, Vianna & Cia.”, março, 2012).

(26) “Gazeta de Noticias”, 11.o4.1881, p.1.

(27) O historiador Pedro Ernesto de Luna Filho, citando a primeira passagem de Lund e Brandt pela lapa de Cerca Grande, faz a referência: “Em seguida visitaram a Lapa d’Aldeia…” e nada mais acrescenta. Fonte: tese de pós-graduação “Peter Wilhelm Lund: o auge das suas investigações científicas e a razão para o término das suas pesquisas” (USP, 1967, p. 116).

(28) BRANDT, Peter Andreas – Veja os Posts “Bendita Lagoa Santa” , agosto, 2011 – e “Os olhares de Brandt”, fevereiro, 2013.

(29) Mocambeiro – Aquele que se foragia ou morava em mocambo [refúgio] (diz-se de ou do escravo); quilombeiro.

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8 Comentários »

  1. Muito interessante Eduardo! Tenho que me lembrar de visitar o Mocambeiro e a lapa da Cerca Grande (se é que é possível) na minha próxima viagem a Pedro Leopoldo. A foto da sede da Fazenda do Mocambo parece recente. Ainda deve estar de pé, certo? João Vianna

    Comentário por jbvianna — 16/09/2014 @ 5:29 pm | Responder

    • João:
      Mocambeiro e Mocambo, lá na região, são lugares diferentes. Muito obrigado pelo comentário e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 16/09/2014 @ 7:54 pm | Responder

  2. Gostei de ver a explicação sobre o pequi. Realmente, sem os devidos cuidados os espinhos causam problema. Mas não sabia que naquela região eram encontrados. Só conheço por aqui mais no norte do estado.

    Comentário por sertaneja — 23/09/2014 @ 11:32 pm | Responder

    • Virgínia:
      Lagoa Santa fica a uns 30 km de Belo Horizonte e o clima já se assemelha ao do sertão. Lá tem muito pequizeiro, que produz a flor predileta de Peter Lund e o fruto nutritivo feito carne. A madeira é fortíssima. Pena é que estão cortando para fazer lenha e carvão.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 24/09/2014 @ 9:49 am | Responder

  3. Estive diversas vezes em Cerca Grande, anos atrás, e foi com grande satisfação que vi a foto de lá! Realmente um lugar mágico! Espero voltar um dia.

    Comentário por Ewerton Conde da Matta Machado — 10/02/2015 @ 6:04 pm | Responder

    • Ewerton:
      A região é muito interessante. Por aquelas bandas começa o sertão.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 10/02/2015 @ 8:20 pm | Responder

  4. Prezado Eduardo: Surpreendi-me ao ver quanto seus lindos textos ‘procriaram’. Parabéns por todas as matérias, especialmente as que falam da nossa região. Maria Marilda, sua admiradora, minha amiga e colaboradora em minha Associação, sempre faz referência a você. Encadernei seus textos. O material é muito pesquisado num espaço que existe na Lapinha, que se chama Receptur Lapinha. Lá, a administradora Marta Machado, filha da comunidade, criou uma biblioteca de Educação Patrimonial, para a qual doei a encadernação. Agora, precisa ser acrescida com novos textos, como este sobre a visita do Imperador a Lagoa Santa. Eu também trabalho com cultura. Administro o Museu Arqueológico da Lapinha, criado por meu pai Mihály, na década de 60. O texto sobre a “Visita do Imperador” – parte IV – nos chegou através do ICMBIO, pois componho o Conselho da APA Carste, de Lagoa Santa.
    Atenciosamente, Erika Bányai.

    Comentário por Erika Suzanna Bányai — 24/06/2015 @ 5:37 pm | Responder

    • Erika:
      Muito obrigado por tantas palavras gentis. É desnecessário repetir que sou encantado pela região de Lagoa Santa e sua gente. Vamos todos nós continuar trabalhando por esse nosso amado pedaço de terra!
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 24/06/2015 @ 6:35 pm | Responder


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