Sumidoiro's Blog

01/10/2014

NOS PASSOS DO IMPERADOR (V)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:53 am

♦ De Matozinhos a Sabará e retorno a Ouro Preto 

O casal imperial d. Pedro II e dona Tereza Cristina, partiram do Rio de Janeiro, no dia 21.03.1881, sábado, às 6 horas da manhã, para conhecer Minas Gerais. O imperador cuidou de escrever um diário de viagem e a imprensa deu grande cobertura à visita. Parte desses acontecimentos são aqui revividos por Sumidoiro’s Blog(1), em continuação ao Post anterior. Depois de passar por Lagoa Santa e Matozinhos, o Diário descreve o retorno, cujo percurso foi por caminho diferente da ida, passando pelo Capão – atual Vespasiano – e continuando até Santa Luzia. Dali, voltou a Ouro Preto, por caminho diferente ao da ida.

Post - Santa Luzia & retr Pedro IISanta Luzia: A – igreja matriz; B – casarão onde, em 9 de abril, foi acolhido d. Pedro II.

Em 9 de abril, o imperador madrugou para a longa viagem de volta – cerca de 70 km –, de Matozinhos a Santa Luzia. Saída às 6:00 h e chegada às 10:30 h da manhã. Transporte nessa rapidez certamente foi de caleça* (*carruagem), cuja velocidade variava em torno de 16 km por hora. 

Post - D Pedro mini

RUMO A SANTA LUZIA

Diário — ABRIL  9 (sábado)  – … O caminho é por chapadão, descendo-se todavia para passar o ribeirão da Mata (em Vespasiano, antigo Capão) e o Córrego Sujo(2); e outros poucos lugares, até a grande descida para a ponte de Santa Luzia. Desse alto, onde Gorceix mostrou massas anfibólicas(3), a vista é belíssima, descobrindo-se ao longe a cidade de Santa (Santa Luzia) sobre uma montanha. Aí cheguei à 10½. Almoço. 12h. Igreja matriz; as duas aulas em salas estreitas, agradando-me somente a de meninos(4). Câmara e cadeia de alçapão na mesma casa ruim. Padrões métricos mal conservados. Soldados de espingarda, mas sem baioneta, nem sabre.(5) Misericórdia* (*Santa Casa de…) em mesquinha casa(6) fundada pela baronesa de Santa Luzia, com apólices que o marido deixou por testamento. Fiquei em excelente casa que foi dos barões de Santa Luzia(7) e agora pertence a filha do segundo barão(8), casada com o deputado Frederico de Almeida. Recebeu-me o tio, desembargador aposentado Antônio Roberto de Almeida, sua mulher e família. O doutor Modestino é filho do segundo barão.

Saí às 2 e pouco conversando com Roberto de Almeida; Modestino, presidente da Câmara, e João Alves dos Santos(9), tio de José Alves dos Santos, que vi em Mogi Mirim (SP). A renda da Câmara é de menos de dois contos por ano! João Alves disse-me que o melhor é levar a estrada de ferro até a barra do rio das Velhas. Gorceix disse-me, em caminho, que cinquenta litros de milho compram-se de 2 a 4$000, quando as estradas estão más e que, em Arassuaí, oitenta litros vendem-se por oitocentos réis. Tenho notado a grande diferença entre a forma do solo e vegetação das duas margens (do rio das Velhas). A esquerda de chapadões e árvores pequenas e a direita muito acidentada, e com árvores grandes, e de muito maior viço.

Post - Curral del Rei 1896       Curral del Rei e serra do Curral, em 1896. Ao fundo, à esquerda, igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem.

RUMO A SABARÁ

O caminho, até descer para Sabará, tem aspectos belíssimos de um lado, até as terras do lado do Serro e Diamantina, e de ouros a serra da Piedade com seu morro recortado de itabirito como o Donner Kugel, que se vê das montanhas que dominam o lago Hallstatt e a serra do Curral, avistando a povoação de Curral del Rei (atual Belo Horizonte). A cidade de Santa Luzia avista-se até menos de duas léguas de Sabará. A trovoada e diversas mangas(10) de água, do lado do serro (serra) do Curral, destacando-se do grosso das nuvens fiapos destas, com formas extravagantes e os raios do sol dando às montanhas, por entre nuvens, cores variadíssimas, tornava a paisagem encantadora.

Ao descer para Sabará, começou a cair chuva. O sol transformava num monte de ouro o (ilegível) da capela, creio que do Bom Jesus. Desabou, por fim, uma trovoada de água açoitada fortemente pelo vento. Cheguei molhado como um pinto à casa do coronel Jacinto(11) pouco antes das 6h. Recebi cartas de Saraiva e de Dantas, ambas do dia 3. Jantar. Vou, daqui a pouco, a um teatrinho particular. Veio um fulano Viana, da parte do diretor do Morro Velho, para acompanhar-me à mina de Cuiabá(12) da mesma companhia. O professor primário de Sabará tem também aula noturna, percebendo 25$000 de gratificação por mês.

Ontem à noite, quando eu voltava para Lagoa Santa, fuzilava do lado do sul, de onde veio igualmente a trovoada desta tarde. No caminho de Santa Luzia para cá, vimos granito alterado. Na margem oposta do rio da Velhas, segundo Gorceix, não se observa granito. Nos terrenos granitóides ou grés decompostos, crescem as maiores e mais viçosas árvores. A imperatriz disse-me ter-lhe falado uma francesa, que parece ser madame Toulon, que se fez conhecida por ter pertencido à companhia dramática francesa, que representou no São Januário.

Post - Teatro SabaráTeatrinho de Sabará.

O teatrinho não é feio e muito melhor que o de Barbacena. Representaram duas peças, de dois e um ato, e sofrivelmente para curiosos. Faltam 25′ para meia-noite.

10 (domingo) – Acordei. Vou ouvir missa no oratório da casa (do coronel Jacinto) e sair às 6h. Fui a casa onde morava habitualmente monsenhor José Augusto. Pertence-lhe assim, como outras, ao pé (próximas). Queria mostrar uma imagem da Nossa Senhora das Dores de seu oratório. É grande, porém não tem nada de notável. Na sala de retratos de Saldanha Marinho(13); (do) bispo do Ceará, hoje arcebispo da Bahia(14); (de) Ferreira Lages* (*Lage)(15); (do) marquês de Barbacena(16), (do) Gordon(17) e creio que mais outros; rede para a sesta. Segui para a matriz. A mais bonita igreja, internamente, que tenho visto. Duas galerias laterais com arcos a que correspondem os altares. Côro elegante. Obra de talha dourada de bom gosto. Quadros na sacristia de que o melhor é o da ressurreição. Penso que são os que Saint-Hilaire elogia.

Post - Sabará igr NS Conceição-Sabará: igreja de Nossa Senhora da Conceição.

RUMO A CUIABÁ

Continuei para Cuiabá. Atravessam-se os rios Gaia e Cuiabá, onde não há ponte e, com a cheia, serão intransitáveis. No caminho, o comendador Viana, mandado pelo Morrison, disse-me que pedras de calçada, ao sair de Sabará, tinham 75% de ferro; que uma mina perto desse ponto consumiu 1.000 mil contos a uma companhia sem proveito e que havia pés de café de cem anos, dando setenta a oitenta barris de vinho um vinhedo da casa de um italiano, porque tem uva branca e preta muito boas.

Às 8 (h), pequeno arraial, quase abandonado de Pompéu(18), onde houve mina de ouro. 8¾ (h). Cuiabá, onde me esperava Morrison. Almoço. Pouco antes da 10 (h), fui ver turbina de queda de água de 50 pés, correndo 250 pés cúbicos por minuto, com força de 55 cavalos que comprime o ar, que move as brocas do túnel. Passei pelos pilões, sistema antigo. A mina dá, por hora, 2½ oitavas ou menos por tonelada. O sistema é o antigo. Está assentando vinte pilões de novo sistema.

Entrei no túnel a que faltam, ainda,  200 a 300 br.* (*braças) até chegar ao veeiro, tendo já 400 br. de comprimento e boa largura, e altura. Vi trabalhar duas brocas. Podem trabalhar quatro. Fura, cada uma, polegada por minuto, ou pouco mais de minuto, duzentos e cinquenta pancadas por minuto. Num mês se abrem 13 a 15 braças de túnel. A pedra do túnel é xistosa. O chão do túnel fica a 45 metros, se não me engano, inferior ao alto da montanha. O veeiro corre (…no sentido) N.O.- S.E.

RUMO A CAETÉ

Às 11 (h) segui viagem. Há logo grande subida. Bela vista, terreno muito montanhoso. Despediu-se Morrison. Vista da serra da Piedade com o cimo dentado. Cobriam-no, em parte, as nuvens. Bastante calor que ameaçava chuva, sendo indício de tempo incerto o nublamento do cimo da Piedade. Encontro de caetenses (caeteenses). Conversei largamente com o coronel Agostinho dos Santos, casado com uma irmã do finado dr. João Pinto Moreira(19), sobrinho do visconde de Caeté(20). Esta região é mineira e criadora. Não vejo agora o capim gordura (Tristigios glutinosa – antes Melinis multiflora) que abundava no terreno que atravessei para ir à gruta da Aldeia.

Post - Matriz CaetéMatriz de Caeté – Nossa Senhora do Bom Sucesso.

Na volta para Sabará, à tarde, descobri o pico de Itabira. Viu-se, por fim, em parte, a matriz de Caeté, numa depressão do terreno e, descendo aí, cheguei às 2h 6′. Vi, no alto da serra da Piedade, a capela (leia o Post “No palco da vila”) e indicaram-me, em posição inferior, o asilo fundado pelo vigário de Caeté, Domingos José Evangelista, de quem o coronel Santos diz muito bem, assim como do juiz municipal Melo, de Pernambuco. O coronel tem dois filhos no Seminário de Mariana, Carlindo de tal Santos; e Santos de tal Santos(21). Às 3¼ (h), matriz. É grande e elegante externa e internamente. Duas colunas que sustentam o coro e as pias são de serpentina das circunvizinhanças, segundo ouvi a Gorceix.

Aulas de meninos regidas por professora casada e de meninas. Casas muito acanhadas. Agradou-me mais a de meninas. A casa da câmara é decente. Os padrões não se guardam aí! Cadeia em parte (?) de alçapão, porém melhor que a de Santa Luzia. Livros escritos irregularmente e falta o de termos de visita. Guardas com clavina. O serviço da polícia, na província, é muito mal feito. Gorceix disse-me ter trazido pedras de sua excursão, quando o deixei em Sabará.

Logo que cheguei a Caeté, falei com o vigário aposentado Jacinto. Homem muito inteligente e dado às boas letras. Pregou aqui por ocasião de minha coroação e recebeu meu pai. Tomei um banho morno e, às 6½ (h), jantarei. Tenho me esquecido de dizer que me falam de magabeiras desde que deixei Sabará, porém ainda não vi nenhuma.  Já exportaram da província borracha da mangabeira(22), segundo ouvi ao monsenhor. Vi bons papos também aqui (bócio endêmico) e o vigário tem princípio dele. Aparecem, sobretudo, em gente de cor, talvez pela comida. Em Cuiabá, mina que estava abandonada, recomeçaram os trabalhos que visitei só há três anos.

Visitaram-me três das asiladas da serra da Piedade com a diretora. São trinta e nove pobres, e dez que pagam alguma coisa. Também falei a Lott e não Lottis, e a outro sócio português. Que o Descoberto (minas do…) dá pouco ouro por ora. Lott está no Brasil desde 1835 e é casado com brasileira(23). O vigário aposentado deu-me cópia da memória de uma décima (estrofe de dez versos), em português e latim do senador Gomide(24). Estava com muito sono e custou-me a chegar às 9h.

Post - Santa Luzia a Ouro PretoCaminho do imperador.

11 (2ª fª) 5h – Acordei. Tomei banho frio na banheira. Ontem li Saint-Hilaire, as pinturas que ele elogia na matriz do Sabará são do coro e não as da sacristia que, aliás, parecem-me melhores. O vigário de Caeté, ontem, ao jantar, disse que uma tia dele tinha sido amiga da irmã Germana(25), milagrosa de que fala Saint-Hilaire. O vigário, apesar de inteligente, parece-me crendeiro. À 6h parto para o Caraça. O vigário dá-me cópia da inscrição da matriz. Lenda do vigário Henrique Pereira, que a ela se refere e vem publicada no almanaque mineiro. Em Caeté, há um chafariz de pedra de 1800. A capela do alto da serra da Piedade não foi feita por esforços do vigário, mas sim há mais de um século.

RUMO A GONGO SOCO

Ao sair da cidade de Caeté, apreciei a vista que é bonita. A casa do barão de Catas Altas, João Batista Coutinho(26), duas vezes cunhado de São João Marques(27), por suas mulheres. Dono do Gongo Soco que, talvez, desse 300.000 contos de ouro. Era pródigo atirando moedas ao povo. Belo mato. Lavra abandonada de Luís Soares(28), marido de Bárbara Horta Barbosa, irmã mais velha de d. Antônia. Mulher caçadora de veados e que se vestiu de militar, para fingir que prendia o oficial legalista André Saturnino da Costa Pereira, em nome de José Feliciano(29). Aí, também, ia o Barbacena(30) e monsenhor José Augusto, que me contou histórias da irmã Germana, nascida na Roça Nova e que, depois da morte (de) seu diretor espiritual, o padre José Gonçalves, recolheu-se a Macaúbas.

Post - Casa barão Catas AltasCasa do barão de Catas Altas, em Gongo Soco (foto de 1913).

Aí a visitou monsenhor com o bispo Viçoso(31). José  Augusto trocou seu traje com o de outrem e a irmã Germana só deixou a rigidez catalética ao contato das mãos de José Augusto, não sucedendo o mesmo com o vestido de padre. Referiu-me casos de aparente adivinhação de uma afilhada sua, muito nervosa, que vive em São João del Rei, curada com banhos de mar. Ficou de ma apresentar, assim como dar o parecer do dr. Gomide sobre a irmã Germana, que era tida por santa, o que fez com que o povo se fizesse levantar contra Gomide, por causa do parecer.

Edifícios estragados de Gongo Soco. Lugar curioso, por causa das escavações antes de chegar àqueles e à Casa Grande, que julgo ter sido a do engenho do Gongo Soco. Caminhos sobre a ganga, terra argilosa misturada com itabirito, que é composta de quartzo, óxidos de ferro e de manganês e, às vezes, argila branca, indício de ser aurífera. A jacutinga é a itabirito friável. Antes do lugar de Luís Soares, passei pela casa de João Soares do Pari. Há nesta casa bonitos trabalhos de junco, formando os tetos dos aposentos, segundo o monsenhor. Na conversa com Gorceix,  aprendi bastante que ele reputa os quartzitos com ouro, de grãos diminutíssimos, em sua massa de formação mais antiga que os de grãos grossos, tendo-se ouro depositado na massa dos primeiros quartzitos – ou itabirito – por dessulfurização produzida pelo calor, podendo, à causa do tempo, ser substituída pela distância de origem do calor.

Hei de ler o trabalho de Pissis – Les soulevements au Brésil – publicado nas Memórias de Ciências(32). Gorceix também explicou-me porque não havia árvores frondosas em terreno de salitre; o o terreno é aí pouco permeável às raízes.

Post - Gongo Soco 1Arraial de Gongo Soco, em 1839 (por Ernst Hasenclever – acervo de Regina Harlfinger).

Cheguei ao lindo campo onde serpeia o ribeirão do Socorro, que vai desaguar engrossado no Piracicaba, afluente do Doce. Tenho visto bastante capim gordura. Parei aí, no lugar chamado Ilha, porque o rodeiam o ribeirão e um riacho afluente dele. Queria ver o sistema primitivo de separar o ferro do minério. Botam carvão, acendem-no em uma espécie de buraco de fogão de alvenaria e, depois, camadas alternadas de jacutinga (itabirito aurífero em decomposição) e carvão, até encherem o vão. Depois de 4 horas, tiram a lapa de ferro, separando com martelo a borra. O ventilador é de água e também o monjolo martinete, que bate o ferro e serve também de laminador por esse modo.

Disse-me o neto de um fulano Marques(33), dono agora do estabelecimento que separa até doze arrobas de ferro por dia. Gorceix disse-me que se vende, nas circunstâncias de 2 a 3$000 a tonelada e, no Ouro Preto, por 12. O carvão também chega a quarenta e tantos mil réis, no Ouro Preto, por tonelada, custando doze, se não me esqueço, perto dos lugares onde fazem onde em covas ou caeiras ou medas, preferindo o primeiro sistema para o sistema primitivo. A ganga* (*resíduo não aproveitável), por sua porosidade, é preferida para os fornos catalães* (*fornos rústicos). A forja que visitei pareceu-me a de Tubalkain.

CHEGADA A MORRO GRANDE

Custou-me a apanhar a liteira, apesar de trotar bastante. Diversos cavaleiros, entre eles Afonso Pena(34), vieram a meu encontro. A caravana entrou reunida, de novo, em Morro Grande, pouco depois 11½ (h). A igreja é pelo risco da de Caeté. Saint-Hilaire teve razão de falar dela. Almocei e falei a diversas pessoas, às filhas de um irmão do barão de Catas Altas e viúva de outro irmão de João Alves de Souza Coutinho, que com ela casou aos oitenta anos e procurou-me em São Cristóvão (palácio de …), com um pedido de comenda, tendo sido guarda de honra e acompanhado meu pai nesta província; do barão de Cocais, casado com uma prima, a viúva, mãe do Modesto da Aninha, o juiz municipal de Santa Bárbara de Salvador Albuquerque do Pau Amarelo, um representante da mina de Cocais, que não dá, agora, nem 3% de ouro em tonelada; a câmara municipal de Santa Bárbara e outras pessoas.

Post - Gogo Soco 2Mineração de Gongo Soco, em 1839 (por Ernst Hasenclever – acervo de Regina Harlfinger).

PASSAGEM POR BRUMADO

Em caminho, depois de sair de Caeté, conversei com o engenheiro da mina do Descoberto, cujo nome soou-me como Geech. Diz ele que espera que a mina renderá muito. Pareceu-me inteligente. Esteve empregado em diversas minas do oriente. Julgo ter-lhe ouvido que estão abrindo túnel para encontrarem o veeiro. Partida de São João, à 1½ (h). O caminho margeia o rio. Ponte da barra do Caeté, perto de onde se encontram os rios São João, continuação do Socorro e outro que vem do lado do Caeté.

Depois, margeia-se o rio de Brumado. Escavações curiosas de explorações antigas de ouro. A povoação do Brumado tem suas casas, sendo a principal a que pertenceu a Sebastião Pena, avô do deputado. Aí parou meu pai. Disse-me o deputado que havia na casa bonitas pinturas. Pouco adiante, despediu-se ele, depois de dizer-me que a principal indústria atual destas várzeas é a criação de mares. No município de Santa Bárbara o número de crias anual é de dois a três mil. Avistam-se elevadas e pitorescas montanhas de formas pouco comuns de rocha, mas que não contém ferro.

———

Post - Caraça por JCColégio do Caraça, com a velha igreja, como viu d. Pedro II (por J. Códea).

Retornando a Ouro Preto, o ponto alto do percurso foi o famoso colégio do Caraça. A chegada foi em 11 de abril, à noitinha. O imperador dedicou todo o dia seguinte a conhecer o educandário. 

Post - D Pedro mini

Diário

CHEGADA AO CARAÇA

ABRIL   11 (2ª fª) – … Desde que se começa a subir a serra do Caraça cresce a beleza da paisagem e, do alto, descobre-se vastíssimo horizonte e, depois, uma das mais belas cascatas que eu conheço, que forma lençóis e tanques, e corre depois em fundo vale, estreitado pelas montanhas de que já falei. Nunca admirei lugar mais grandiosamente pitoresco do que este. O caminho passa por cima de uma cascata que parece sumir de repente(35).

Continuei, como anteriormente, por dentro da mata e por cima das pedras. Felizmente, o belo luar sempre deixa ver um pouco o lugar, por onde se anda mesmo debaixo de árvores e, num lugar de grandes lagos, perigoso para liteira, alumiava a lua com todo seu esplendor. O cruzeiro fulgurava em nossa frente e, à esquerda, vênus (planeta) faiscava quase sobre a montanha. Não posso escrever tanta beleza. Por fim, dobrando uma ponta do morro, aparece de repente o edifício do Caraça iluminado e de que descem pela encosta duas filas de luzes. Altíssimos rochedos em anfiteatro formavam o fundo do quadro. Era belíssimo, mas a lua e as estrelas elevam-me os olhos a maior altura.

Apeei-me e subi com as filas das luzes. Passei pela capela que constroem e cuja arquitetura agradou-me. Tomei meu banho, depois de conversar um pouco com o superior Clavelin(36) e diversos professores, sobretudo com o nascido em Constantinopla, de família grega(37). Jantar às 7¾. Depois informei-me dos estudos com o superior. Tenho muito que fazer amanhã. Vi no caminho muitas flores e árvores de madeira de lei, como tatajiba (ou tatajuba) e óleo vermelho.  DIÁRIO: continua na próxima postagem.

Post - Caraça hojeCaraça e santuário atual. Ao fundo, à direita: ruína da biblioteca incendiada.

• Clique com o botão direito e veja todos, “Nos passos do imperador” – de I a VIII) – I  | II  | III  | IV  | VI  | VII | VIII  

Compilação, adaptação, comentários e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

———

(1) Fonte do Diário: “Anuário do Museu Imperial”, vol. XVIII, 1957, versão e notas por Hélio Vianna. // Sumidoiro’s Blog corrigiu e atualizou grafias de palavras, alterou pontuações, tanto na transcrição do Diário, quanto nos noticiários da imprensa, preservando a integridade do conteúdo. Ainda acrescentou notas e ilustrou.

(2) O córrego Sujo é afluente do ribeirão da Mata, cuja bacia compreende os municípios de Capim Branco, Confins, Esmeraldas, Lagoa Santa, Matozinhos, Pedro Leopoldo, Ribeirão das Neves, São José da Lapa, Vespasiano e Santa Luzia, onde deságua no rio das Velhas.

(3) Anfíbolo – substância assim chamada por se assemelhar a outros minerais. É essencialmente composto de sílica, de cal e de magnésio, mas pode conter óxido de ferro, óxido de manganês. Cristaliza em prismas oblíquos de base romboidal. F. gr. Amphibolos (ambíguo).

(4) A manifestação do imperador, sobre o mau aproveitamento escolar dos alunos de Santa Luzia, provocou comentário de um político conservador, que estava presente: “- Governo de Liberais, majestade!”

(5) Baioneta – arma branca que se adapta na extremidade do cano da espingarda ou fuzil; sabre – arma branca, reta ou curva, com lâmina afiada só de um lado.

(6) Hospital São João de Deus – ainda existente -, fundado em 1840, por Manoel Ribeiro Viana (*1767 †1844), que tornou-se primeiro barão de Santa Luzia.

(7) Imponente residência situada no centro histórico de Santa Luzia – rua Direita -, denominada Solar da Baronesa.

(8) FRANCO, Quintiliano Rodrigues da Rocha – (*1788 †1854), 2° barão de Santa Luzia (em 1846), casado com a viúva do primeiro barão, Maria Alexandrina de Almeida.

(9) SANTOS, João Alves dos – (*Jaboticatubas, MG / †Jaboticatubas), filho do tenente- coronel Francisco Alves dos Santos Vianna – senhor de engenho, e de Maria Cecília de Souza Vianna (irmã de Francisco de Paula Fonseca Vianna, o visconde do Rio das velhas).

(10) Manga de água ou tromba d’água; por extensão, chuva de pouca duração.

(11) D. Pedro II, como também seu pai d. Pedro I, foram recebidos no solar de Jacinto Dias, que atualmente abriga a prefeitura de Sabará. A construção, de 1773, havia pertencido ao padre José Corrêa da Silva. Esse religioso foi acusado de crimes de inconfidência, entre eles de manter em Sabará “um colégio jesuítico” em sua residência, chamado pelo povo de Colégio São Roque, e que funcionava como uma espécie de sociedade literária. Portador de uma imensa biblioteca com vários títulos de autores jesuíticos (então censurados), Corrêa da Silva era o líder intelectual do grupo e foi acusado de atacar verbalmente o rei e o marquês de Pombal.

(12) Cuiabá, atualmente denomina-se Mestre Caetano (distrito de Sabará).

(13) MARINHO, Joaquim Saldanha – Líder maçônico, jornalista, sociólogo e político. Quando foi presidente da Província de Minas (1865/1867), mandou construir, uma ponte de madeira em Sabará, para transpor o rio das Velhas. O engenheiro foi Henrique Dumont, pai do aviador Santos Dumont.

(14) SANTOS, Luiz Antônio dos – (Angra dos Reis (RJ), *03.03.1817 / Bahia, 11.03.1891) Marquês do Monte Pascoal.

(15) LAGE, Mariano Procópio Ferreira – (Barbacena, 23.06.1821 / Juiz de Fora, †14.02.1872) Engenheiro e político, construtor da primeira estrada pavimentada do país, a União e Indústria, entre Petrópolis e Juiz de Fora.

(16) HORTA, Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira – (Mariana, *19.09.1772 / †13.06.1842) Militar, diplomata e político; primeiro visconde com grandeza e marquês de Barbacena.

(17) GORDON, James Newell – Superintendente da “St. John d’el Rey Mining Co.”, mina de Morro Velho.

(18) Pompéu – Atualmente é um bairro de Sabará, situado no centro do distrito de Mestre Caetano. Foi fundado,  no alvorecer do século XVIII, pelo paulista José Pompéu, um dos primeiros descobridores do ouro. Dizem os historiadores que teria sido morto pelos revoltosos Emboabas, em 1708.

(19) MOREIRA, João Pinto – (Caeté, *15.05.1836 / Caeté, †09.02.1876) Advogado e deputado provincial e geral.

(20) VASCONCELOS, José Teixeira da Fonseca – (Santa Quitéria *c. 1770 / Caeté, †10.02.1838) Médico, advogado, juiz e político; primeiro presidente da província de Minas Gerais e senador do império.

(21) SANTOS, Santos e – O mesmo nome e sobrenome.

(22) A mangabeira – hancornia speciosa – fornecia um tipo de látex com o qual produziram borracha e guta-percha, produto que foi muito usado pelos dentistas, em obturação e moldagem dentária.

(23) LOTT, Edward William Jacobson – (Exeter, Devon, Inglaterra, *04.06.1812 / Caeté, †1900), casado com Maria Theresa Caldeira Brant, neta de Felisberto Caldeira Brant, o Contratador de Diamantes; avô do marechal Henrique Batista Dufles Teixeira Lott.

(24) GOMIDE, Antônio Gonçalves – (*1770 †1835) Médico; senador do império por Minas Gerais.

(25) Veja o Post “No palco da vila” – abril, 2012.

(26) COUTINHO, João Baptista Ferreira de Souza Azeredo – (†1839) Capitão-mor e primeiro barão de Catas Altas. Proprietário de Gongo Soco.

(27) LEME, Pedro Dias Paes – (*1722 †1868) Marquês de São João Marcos; descendente do bandeirante Fernão Dias Paes. Foi casado com Rita Ricardina de Souza Coutinho da Cunha Porto e, depois, com Mariana Carolina de Souza Coutinho da Cunha Porto, ambas filhas de José Alves da Cunha Porto e de Mariana Perpétua de Souza Coutinho.

(28) GOUVEIA, Luiz Soares de (nome completo). 

(29) CUNHA, José Feliciano Pinto Coelho da – (*01.12.1792 / †09.07.1869) Militar e político brasileiro; primeiro e único barão de Cocais. / Participou do movimento da Independência, em 1822, e, em 1830, elegeu-se deputado geral do Império. Em 1833, fundou a Companhia de Mineração Brasileira da Serra de Cocais, associado aos ingleses da “National Mining Company”. Em 1835, foi noeado governador da província de Minas Gerais. Durante a Revolução Liberal, de 1842, foi nomeado pelos revoltosos seu comandante-chefe, lutando ao lado de Teófilo Ottoni, cônego Marinho e outros.

(30) PONTES, Felisberto Caldeira Brant – (*18o2 †1906) Segundo visconde de Barbacena, filho do marquês de Barbacena.

(31) VIÇOSO, Antônio Fereira – (*1787 †1875) conde da Conceição, sétimo bispo de Mariana.

(32) PISSIS, Pierre Joseph Aimé – (França, *17.05.1812 / Santiago do Chile †21.01.1889) Geólogo, geógrafo, desenhista e pintor. A obra citada foi publicada pela Académie des Sciences de L’Institut National de France.

(33) MARQUES, Manoel Martins (nome completo).

(34) PENA, Afonso Augusto Moreira – (Santa Bárbara, *30.11.1847 / Rio de Janeiro, †14.06.1909. Advogado e jurista. Deputado geral de de 1882 a 1885; Ministro da Guerra, Agricultura e Justiça; Governador de Minas Gerais, vice-presidente e presidente da República.

(35) Sumidouro é a denominação do lugar onde essas águas desaparecem.

(36) CLAVELIN, José Júlio – (*07.04.1834 †07.04.1909) Francês, padre lazarista (vicentino).

(37) COLLARO, Socrate – O padre se dizia natural da Pérsia, atualmente Irã.

 

Anúncios

3 Comentários »

  1. […] NOS PASSOS DO IMPERADOR (V) […]

    Pingback por Nos passos do Imperador – Luiz Viana David — 01/10/2014 @ 9:01 am | Responder

  2. Muito bom artigo, Eduardo! A partir de Matozinhos, a história é desconhecida para mim. Este padre Socrate Collaro pode ter inspirado o nome de um tio avô meu – Sócrates Colaro Vianna.
    Um grande abraço,

    João Vianna

    Comentário por jbvianna — 01/10/2014 @ 4:05 pm | Responder

    • Olá João:
      Sim, tem fundamento sua observação, o nome pode ter vindo do padre.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/10/2014 @ 8:28 pm | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: