Sumidoiro's Blog

01/01/2015

CONHECENDO GONZAGA

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:25 am

♦ Uma vida atribulada 

Escritor talentoso, Tomás Antônio Gonzaga tornou-se um expoente na literatura brasileira. Fazendo política foi infiel à rainha d. Maria I e, por isso, acabou preso e condenado ao desterro na África. Perdeu então um grande amor e teve seu projeto de vida destruído. Tornou-se herói, mas pagou caro pela afoiteza.

Post - Ponte & matriz A DiasLargo do Dirceu (ou de Marília) e, depois da ponte de Marília, a matriz de N. S. da Conceição. 

No Post anterior, relembrou-se a estória da mulher eternizada no poema “Marília de Dirceu”. Gonzaga personifica-se como o pastor Dirceu e sua amada, Maria Doroteia Joaquina de Seixas, é a pastora Marília. A fantasia, em parte calcada na vida real, remete à Vila Rica do século XVIII.

O advogado Gonzaga exercia o cargo de ouvidor da comarca de Vila Rica, quando enamorou-se de Maria Doroteia e estavam de casamento marcado para o início do ano de 1789. Ao mesmo tempo, ele se envolvera na conspiração denominada Inconfidência Mineira. Seus companheiros mais próximos, considerados lideres do movimento, tal como ele, eram pessoas proeminentes e qualificadas. Mas havia também o Joaquim José da Silva Xavier(1), mais conhecido como Tiradentes, um modesto alferes e figura secundária, mas que tanto fez a ponto de perder a cabeça.

Post - Prisão inconfidentesOs revoltosos sendo conduzidos à prisão.

Para a eclosão da revolta, o grupo tinha escolhido o mês de fevereiro de 1789, porque coincidia com a anunciada cobrança do imposto dos “quintos” em atraso, a denominada “derrama”. O momento exato seria o dia 2, segunda-feira, anunciado pela senha “tal dia é o batizado”. Entretanto, o coronel, também inconfidente, Joaquim Silvério dos Reis(2), grande devedor da fazenda real, estava agindo na surdina em troca do perdão de suas dívidas e denunciou os companheiros. Desse modo, o plano fracassou e todos foram presos, processados e condenados.

O mais impetuoso e entusiasmado era o alferes Joaquim José. Na sua trajetória de vida, trabalhara como mascate, minerador, farmacêutico prático e dentista, daí o apelido Tiradentes. Acrescentava à sua versatilidade a fama de falador, iconoclasta e indiscreto, a ponto de incomodar os outros conspiradores. Por seus excessos, o padre Manoel Rodrigues da Costa(3) chegou a chamá-lo aos brios, aconselhando mais discrição, pois já temia que seu excesso de exposição pública poderia levar o plano ao fracasso.

E foi desse modo que entrou na conspiração fadado a ter a cabeça cortada, visto não ter as costas largas tal como os companheiros. Finalmente, no momento do acerto de contas com a coroa e para servir de exemplo aos que ousassem desafiar os donos do poder, era preciso levar alguém ao sacrifício. Assim sendo, o alferes, mero oficial subalterno dos Dragões, era quem apresentava o melhor perfil.

Post - Prisão TiradentesNo ato da prisão, Tiradentes e seu bacamarte.

Quando começou a caça aos revoltosos, o Tiradentes conseguiu fugir, mas logo foi preso, no Rio de Janeiro, em 10.05.1789, ao fim da tarde. Naquela hora, portava apenas um bacamarte, já carregado com pólvora e chumbo, mais umas cartas de recomendação, para auxiliá-lo em pretendida fuga. Certamente, não tinha poder de fogo para enfrentar os soldados do regimento europeu de Estremoz, que vieram ao seu encalço. Ao mesmo tempo, sem maiores dificuldades, os demais conjurados foram presos e submetidos a julgamento. O processo criminal teve início com o devido levantamento de provas e tomada de depoimentos, que ficaram conhecidos como Autos da Devassa(4).

Post - BacamarteO Tiradentes “… se preparou com um Bacamarte, que lhe foi achado no auto da prisão…”

No tribunal, começaram fustigando o alferes, apontado-o como o líder. Na verdade, estava tudo tramado para, devagarinho, ir passando a corda no seu pescoço. Assim, foi ele escolhido para a primeira inquirição, em 22.05.1789, que se deu na fortaleza da ilha das Cobras (RJ). Começou assim:

“… E sendo perguntado como se chamava […] respondeu que se chamava José Joaquim da Silva Xavier, […] E sendo perguntado se sabia a causa da sua prisão […] Respondeu que não.”

Em determinado ponto do depoimento, o Tiradentes deu sinal do seu bom caráter e passou a inocentar o poeta Gonzaga, ao dizer:

“Quanto ao Desembargador Tomás Antônio Gonzaga, sobre o qual lhe têm feitas tantas instâncias, declara que não sabe, que ele fosse entrado* (*tivesse entrado nesta conjuração) […] e que ele Respondente não tem razão nenhuma de o favorear; porque sabe que o dito desembargador era seu inimigo, por uma queixa que o Respondente fez dele ao Ilmo. e Exmo. General Luís da Cunha(5)

Mais adiante, procurou destruir uma versão de que Gonzaga seria o encarregado de escrever as leis do futuro governo:

“E sendo […] instado para que dissesse que era o cabeça, porque a sublevação não havia de ser feita sem isso e quem havia de fazer as leis, que constava tinham sido encarregadas ao Desembargador Tomás Antônio Gonzaga […] Respondeu que já tinha dito que não havia cabeça algum […] Que quanto às leis falou-se que se havia de fazer depois, mas que não sabe que se encarregasse a pessoa alguma e menos ao Desembargador Gonzaga…”

Post - Tiradentes - leitura sentençaA leitura da sentença de Tiradentes (por Leopoldino Faria).

Chegou, então, a hora de ouvir Gonzaga, em 17.11.1789, também na ilha das Cobras. Logo de início ele respondeu:

“… que se chamava Tomás Antônio Gonzaga, […] que estava despachado para Desembargador da Relação da Bahia(6) […] E perguntado se sabia ou suspeitava a causa da sua prisão. Respondeu, que estando na véspera da sua prisão de tarde em sua casa, se juntaram nela o Intendente atual de Vila Rica, Francisco Gregório Pires Monteiro, o ouvidor de Sabará, José Caetano César Manitti, o doutor Cláudio Manuel da Costa, e não está certo se também assistiu o Padre Francisco de Aguiar, e que na presença de todos se queixou o dito Doutor Cláudio Manuel da Costa, por lhe ter constado que se tinha dado uma denúncia […] a ele Intendente, e ao Respondente (Gonzaga) […] e dando razões por que lhe parecia isso impossível, concluiu dizendo que quando eles saíssem, ia fazer uma ode, que tão sossegado ficava no seu espírito…”

Nesse ponto, percebe-se, o poeta Gonzaga já estava como que flutuando e não seria uma lira, ou qualquer outro devaneio, que iria salvá-lo da enrascada em que se metera. Mesmo assim continuou:

“… que tão sossegado ficava no seu espírito, que saíram todos juntos e já tarde para casa, e que ele se foi meter na sua cama, e que no outro dia de manhã, estando ainda deitado, o prenderam […] e que por isso entende ser falsamente envolvido na dita denúncia, a qual versava sobre uma conjuração, ou levante, que se diz que se pretendia fazer na Capitania de Minas Gerais.”

E dando prosseguimento:

“E sendo perguntado, se tinha sido convidado para a conjuração, se nela entrava, ou se dela sabia por qualquer modo que fosse alguma coisa. Respondeu, que nada sabia a esse respeito.”

Outro depoente também tentou inocentar Gonzaga, o padre Carlos Correa de Toledo e Melo(7), este sim um líder de fato, homem poderoso e que sabia das coisas. Em depoimento, no dia 14.11.1789, disse:

…”Que recolhendo-se ele Respondente à sua igreja, e casa da Vila de São José(8) […] e as pessoas que nela estavam, sendo que […] falou também o Desembargador Tomás Antônio Gonzaga; porém é verdade que ele Respondente não sabe se ele era entrado (na conjuração), nunca com ele falo em semelhante matéria, nem por modo algum lhe contou, que dela soubesse…”

Por outro lado, quando o coronel Inácio José de Alvarenga Peixoto(9) depôs, no dia 04.08.1792, referiu-se à presença de Gonzaga numa reunião:

“… estava (Gonzaga) naquela mesma varanda queixando-se de estar com princípio, e ameaço de uma cólica biliosa, que lhe costuma dar, embrulhado em um capote de baeta* (*manta felpuda) cor de vinho, e que pediu uma esteira ao Doutor Cláudio Manuel da Costa, sobre a qual se deitou no primeiro assento da varanda, descendo para o quintal …”

Dá para perceber que o poeta já andava com a saúde frágil e sem fôlego para se meter em tamanha confusão. Parece que sua participação era devida a um especial predicado, sabia escrever com maestria. Aliás, o traidor, Joaquim Silvério dos Reis, foi quem veementemente o acusou de estar encarregado de elaborar as leis para o novo regime. Ora, bastam esses depoimentos para perceber que Gonzaga era personagem secundário.

Post - Joaquim SilvérioVila Rica e Joaquim Silvério dos Reis, o destruidor de sonhos.

HOMEM DE CARNE E OSSO

Thomás Antônio Gonzaga é filho de João Bernardo Gonzaga, brasileiro, e de Tomásia Isabel Clark, portuguesa, com ascendência inglesa. Nasceu em Portugal, na freguesia de Miragaia (11.08.1744), do conselho do Porto. O pai foi ouvidor em Recife (PE), depois transferiu-se para Portugal, com a mesma função. Tomás passou a meninice em Pernambuco, até 1751, e na Bahia, onde permaneceu até 1759, enquanto estudava. Seu nome tem inspiração em Tomásia.

Em 1761, retornou a Portugal onde fez o curso de direito em Coimbra. Depois de formado, exerceu o cargo de juiz de fora em Beja e, durante sua permanência no país, teve um filho natural chamado Luís Antônio Gonzaga. No retorno ao Brasil, teve outro filho natural, em Vila Rica, de nome Antônio Silvério da Silva Murça, que foi adotado por um militar. — Leia o Post “Conhecendo Doroteia”, 01.12.2014.

Desde sua chegada a Minas Gerais, atuando como funcionário público e advogado, sonhou em fazer carreira de sucesso, por isso se aproximou dos poderosos. Além do mais, é nítido que contava com a possibilidade de desfrutar do poder e riqueza das famílias Mayrink-Seixas-Ferrão, gente de sua noiva Maria Doroteia. Entretanto, investia contra os militares, embora na família da noiva muitas pessoas vestissem farda, a começar pelo pai(10), que era tenente-general mestre de campo. Criticava e se opunha até ao governador, o capitão-general Luís da Cunha Menezes, a quem era subordinado. Mas, no meio dessa barafunda, havia o seu temerário envolvimento na Inconfidência que, na verdade, parece que foi mínimo.

Um verso das “Cartas Chilenas”, mostra sua desabrida irreverência:

… Manda, sim, um cartaz, aonde inova
Que, todos os domingos, na parada,
  
Se leia o militar regulamento. 
Indigno e bruto chefe, de que serve
  
Que se leiam as leis, se os malfeitores,
  
Do que mandam, não vêem um só exemplo.  
Tens visto, Doroteu*, o como o chefe
   
Os delitos castiga; agora sabe
   
Da sorte que reparte, aos bons, os prêmios.
   
Morreu um capitão, e subiu logo,
  
Ao posto devoluto, um bom tenente.   
Porque foi, Doroteu? Seria, acaso,
     
Por ser tenente antigo? Ou porque tinha
  
Com honra militado? Não, amigo,
  
Foi só porque largou três mil cruzados! 

 * O amigo e inconfidente Cláudio Manuel da Costa.

Em contrapartida, vários historiadores(11) também fazem restrições ao poeta, entre eles Adelto Gonçalves, lembrando que, “… em 1788, por exemplo, o ouvidor (Gonzaga) se limitou a confirmar a reforma compulsória do capitão Baltazar João Mayrink, pai de sua noiva, Maria Doroteia […]. Não lhe aplicou nenhuma sanção, embora […] tivesse sido afastado do comando do destacamento da Serra Diamantina de Santo Antônio do Itacambiruçu, por crime de tolerância ao contrabando…

Será que o cidadão tudo fazia por idealismo e o amante por amor a Maria Doroteia? Claro que não, parece que não havia muita sinceridade no seu modo de agir, nem numa coisa nem noutra. Para ele nada demais, porque se habituara a encantar as pessoas tirando partido dos olhos azuis e da habilidade no uso da palavra. Mas, afinal de contas, há que se dar um desconto: o homem era feito de carne e osso, e tinha lá suas fragilidades. Ele próprio, ao falar da sua calvície, um pouco se revela no poema:

Já me vai, Marília, branquejando
Louro cabelo que circula a testa,
Este mesmo, que alveja, vai caindo,
E pouco já me resta.

Acrescente-se que, apesar do seu olhar eletrizante e tudo mais, o poeta estava longe de possuir os dotes de Apolo, era de baixa estatura e cheio de corpo. Prova de quanto vale ser poeta para conquistar uma mulher. Maria Doroteia que o diga!

Post - Vista da ilha das CobrasAdeus, Brasil! Rio de Janeiro visto da ilha das Cobras (por Taunay, c. 1828).

CONDENAÇÃO E DEGREDO 

Às vésperas do casamento, no dia 23.05.1789, ocorreu a prisão de Gonzaga. Naquele momento, embora vislumbrasse as piores consequências, ainda imaginava contar com anuência do novo governador – o visconde de Barbacena(12) –, para concretizar o matrimônio. De fato, encaminhara a ele seu pedido, tendo recebido uma enganosa autorização. A alegria durou pouco, pois o visconde logo ordenou sua transferência para a masmorra da ilha das Cobras.

O réu, foi processado e condenado a desterro na África, primeiramente pelo resto de sua vida, no presídio de Pungo-Andongo(13), em Angola, depois com a sentença modificada para degredo de dez anos, na praça forte da ilha de Moçambique(14). Em 25.06.1792, ocorreu o embarque em confortável navio mercante, a corveta Nossa Senhora da Conceição – Princesa de Portugal, em viagem que durou mais de dois meses. (15)

— Rotas da Carreira da Índia*— * Caminho(s) de Portugal à Índia.

Post - Carreira GonzagaCidade de Moçambique: ilha próxima à costa, no oceano Índico. / À direta, país e cidade.

Saindo do Brasil para a África, fez-se o caminho marítimo conhecido por Carreira da Índia, uma rota de tráfico negreiro e comercial, de ida e volta que, passando por Moçambique, levava até Goa e Cochim. O percurso nos mares do sul era cheio de imprevistos, principalmente no trecho onde se contornava o cabo da Boa Esperança. Uma longa viagem, quando Gonzaga teve tempo de sobra para refletir, pensar no futuro, na poesia e relembrar Maria Doroteia.

O viajante degredado portava junto à modesta bagagem um bem precioso, mas nem ele próprio conhecia seu verdadeiro valor, duas partes das liras “Marília de Dirceu”. A primeira escrita em Vila Rica, a segunda na ilha das Cobras, como também a terceira, porém ainda há dúvidas se essa última seria da sua lavra. Mais que a participação na Inconfidência Mineira, foi essa obra poética que projetou seu nome para sempre.

Post - SentençaOrdem para o desterro em Moçambique.

O historiador Ignacio de Vilhena Barboza(16) assim a descreveu a ilha de Moçambique, tal como era na década de 1860:

“A cidade […] tem por brasão de armas […] um escudo com emblemas do martírio de São Sebastião, a quem […] foi consagrada. Não oferece […] bonita perspectiva aos viajantes que a contemplam do mar, tanto por causa da sua situação baixa, como por ser […] pobre de arvoredo …

O interior […] em geral pouco melhor é que o exterior, porquanto as ruas são estreitas e guarnecidas, com raras exceções, de casas mesquinhas e de triste aspecto ou de uma construção pesada e sem elegância […]. Todavia, em compensação, possui alguns largos ou praças espaçosos, alegres, aformoseados com arvores e orlados de bons edifícios …”

— Mapa da ilha:

Post - Planta da ilha

1 – Capela de N. S. do Baluarte • 2 – Fortaleza de S. Sebastião • 3 – Campo de São Gabriel • 4 – Palácio do Governo  • 5 – Largo de São Paulo • 6 – Capela de S. Paulo • 7 – Alfândega • 8 – Convento de S. Domingos (Quartel) • 9 – Igreja e Hospital da Misericórdia (Santa Casa) • 10 – Largo da Sé • 11 – Igreja Matriz • 12 – Casa da Junta da Fazenda • 13 – Casa da Câmara e Cadeia • 14 – Largo do Pelourinho (Bazar) • 15 – Largo de S. João de Deus • 16 – Convento de S. João de Deus • 17 – Lavadouro público • 18 – Capela de N. S. da Saúde e Cemitério • 19 – Forte de Santo Antônio e Capela • 20 – Cisterna • 21 – Ponta da ilha • 22 – Forte de São Lourenço

Gonzaga avistou São Sebastião de Moçambique, em 31.07.1792, dia de Santo Inácio de Loyola. Logo colocaria seus pés naquele mesmo chão onde, no século XVI, havia  caminhado o grande Luís de Camões. O lugar era conhecido dos  navegantes sedentos de favores sexuais como ilha dos Amores. Ali, sempre encontravam ninfas de prontidão, aptas a lhes oferecer afagos e volúpias de toda sorte.

Nos Luzíadas, quando a deusa Vênus oferece aos heróis o prêmio dos prazeres divinos, Camões repete o mito e cita a ilha. No canto I, está assim:

Esta ilha pequena que habitamos
É em toda esta terra certa escala.
De todos os que as ondas navegamos 
De Quíloa, de Mombaça e de Sofala.
E, por ser necessária, procuramos,
Como próprios da terra, de habitá-la; 
E, por que tudo em fim vos notifique.
Chama-se a pequena ilha – Moçambique.

Post - Continente e ilhaMoçambique, à esquerda o país; à direta, a ilha (mapa de J. N. Bellin, 1764).

A ilha do oceano Índico pertence à província de Nampula (vide duas figuras acima) e está situada na baía de Mossuril (A). No continente há três vilas historicamente importantes, Mossuril (B) – que é sede de um distrito de mesmo nome, Cabaceira Grande (C) e Cabaceira Pequena (D). As duas Cabaceiras eram muito frequentadas pelos marinheiros para reabastecer os navios de água, principalmente a Cabaceira Pequena, pela sua posição mais favorável, em frente a fortaleza de São Sebastião. Por outro lado, havia muita atividade comercial na Cabaceira Grande.

Os marinheiros da armada de Vasco da Gama, no mês de março de 1498, em demanda à Índia, foram buscar água no poço da Cabaceira Pequena. Contudo, os mouros, senhores de Moçambique, ao saberem que os forasteiros eram cristãos, resolveram afugentá-los. Naquela escaramuça, consta que morreram três marinheiros da expedição.

A origem da denominação Cabaceira é discutida com resultados inconclusivos. Então, Sumidoiro’s Blog, pedindo auxílio ao dicionário do padre Raphael Bluteau (Lisboa, 1712), atreve-se a lançar uma luz sobre o assunto. Diz o verbete:

“Cabaça – Vaso da casca do fruto, que tem o mesmo nome […] também se chama qualquer vaso de vidro […] proverbialmente: […] “Nem no inverno sem copos, nem no verão sem cabaça.”

Ora, tanto em Cabaceira Grande, quanto em Cabaceira Pequena, foram furados poços para retirar água potável. Pois sim, e as cabaças são recipientes apropriados para armazená-la. Então se entende: quem ia ao poço levava a cabaça e dela teria vindo a palavra cabaceira.(17)

Post - Cabaceira & cabaçasCisterna da Cabaceira Pequena d’onde tiraram água para Vasco da Gama. / Cabaças.

O PARAÍSO DO POETA

Gonzaga teve mais sorte que outros condenados, pois encontrou um pequeno paraíso no degredo. Desde que pisou em terra, foi muito bem recepcionado pelo maioral da colônia Antônio de Melo e Castro(18) – governador –, com assento no Palácio de São Paulo. Mas existia um forte motivo para a boa acolhida, visto ser o mandatário um ex-degredado, que fora reabilitado após uma temporada de recolhimento em Angola. O brasileiro Manuel Galvão da Silva(19) – naturalista –, secretário do governador, foi o emissário que o recebeu com honras no cais de Moçambique. Desses afáveis contatos, resultou a autorização para utilizar as dependências da casa da ouvidoria, cujo titular era José da Costa Dias e Barros. Seria o primeiro sinal da boa sorte que o acompanharia na ilha e de ficar recolhido a prisão nenhuma. E tão logo se instalou na nova morada, conseguiu estabelecer boas relações com os poderosos.

Por sua vez, o referido ouvidor, acometido de doença que o impedia de escrever, também teve motivos para alegrar-se, pois surgia a oportunidade de repassar suas tarefas para Gonzaga. Também, porque ficaria livre para buscar socorro médico em Lisboa. E assim decidiu, embarcando no navio Nossa Senhora da Conceição – Princesa de Portugal, que estava faria a viagem de retorno.

Quatro dias depois, chegava à ilha o ouvidor substituto, Francisco Antônio Tavares de Siqueira. Este, tão logo assumiu o posto, cuidou de nomear Gonzaga promotor da ouvidoria-mor(20). Daí a pouco, o poeta foi outra vez premiado, tornando-se amigo íntimo de um funcionário da casa, o escrivão Alexandre Roberto Mascarenhas, lisboeta, de 40 anos de idade, estabelecido na ilha havia duas décadas.

Post - Forte MoçambiqueFortaleza de São Sebastião e o colorido especial da baía de águas rasas.

Mascarenhas era proprietário de uma casa na rua do largo da Saúde (planta da ilha: nº 18), no bairro alto da Marangonha, para o lado da ponta da ilha. Possuía também terras na Cabaceira Grande, onde tocava lavoura de mandioca. Herdara as propriedades por seu casamento com Ana Maria, filha de d. Juliana França de Sousa, moradora no continente.

Paralelamente à função pública, o escrivão Mascarenhas exercia atividade comercial e possuía alguns escravos, mas não poderia ser considerado traficante negreiro, como disseram alguns historiadores. Enfim, era um homem rico para os padrões da época, mas não um potentado.

Post - Palácio MoçambiqueLargo de São Paulo: palácio do governo, capela e alfândega (década de 1860).

Contudo, chegando o final do ano, época de sol causticante, Gonzaga sentiu o clima ruim e a insalubridade da ilha, caindo doente. Aliás, parece que, desde o Brasil, já não gozava de boa saúde e nos Autos da Devassa há uma referência nesse sentido, por palavras do inconfidente Inácio José de Alvarenga Peixoto ao lembrar:

“que o acareado […] Gonzaga estava naquela ocasião na mesma varanda queixando-se de estar com princípio e ameaço de uma cólica biliosa, que lhe costuma dar (grifo nosso), embrulhado em um capote de baeta* (*agasalho de lã grossa) cor de vinho, e que pediu uma esteira ao Doutor Claudio Manuel da Costa, sobre a qual se deitou no primeiro assento da varanda…”

Durante a doença, logo nos primeiros dias em Moçambique, teve o subordinado Mascarenhas para socorrê-lo, dando-lhe abrigo em sua casa. Foi então que, novamente, a sorte deu um empurrão na sua vida. O amigo, com boa situação econômica, tinha uma filha, de 18 anos de idade, bem apessoada, de muitas prendas e mulata! Com tantos atrativos, a moça fez o sangue ferver nas veias de Gonzaga e se apaixonaram, cada um a seu modo. Ela, provavelmente, movida pelas forças do coração juvenil e ele mais pela ambição.

No dia 09.05.1793, quinta-feira, houve o casamento, na igreja matriz (mapa da ilha: nº 11). A contraente declarou chamar-se “dona Juliana de Souza Mascarenhas, filha legitima de Alexandre Roberto Mascarenhas e de sua mulher dona Anna Maria, natural da freguezia da Cabaceira Grande e n’ella baptizada: que tinha a idade de desenove annos […] e se assignou com o dito reverendo juiz […] Signal + de dona Juliana …”, porque era analfabeta. Chegando a sua vez, o contraente declarou chamar-se “Thomaz Antonio Gonzaga […] que tinha de edade trinta e oito annos* […] que nunca dera palavra de casamento a pessoa alguma…” (21) Diante das circunstâncias, é compreensível que tenha ignorado o compromisso com Maria Dorotéia. — * Na verdade, Gonzaga tinha 48 anos.

Post - Palhoça - Ponta da ilhaPalhoças na ponta da ilha de Moçambique, que lembram outras do Brasil (início do sec. XX).

O casal ficou morando em casa dos pais de Juliana e, ainda em 1893, o sogro, mais jovem que o genro, veio a falecer, aos 41 anos de idade. Ana Maria(22), a sogra, com a morte do marido, transferiu sua casa na ilha para a filha e o genro, e foi morar sozinha nas Terras Firmes* (*continente). Ao mesmo tempo, doou ao casal um palmar junto à sua morada no continente.

Sem dúvida, o casamento equilibrou as finanças do degredado, mas não foi suficiente para satisfazer suas ambições. Para Gonzaga, por vários motivos, conhecer aquela família foi uma enorme felicidade. Mas nem tudo eram flores pois, em 19.03.1793, trocou-se o governador por Diogo de Souza Coutinho(23), que logo ao assumir se indispôs com Gonzaga, pois o via como um “advogado bastantemente venal e sumamente embrulhador e intrigante”.

Nessa mesma época, chegou uma boa notícia de Portugal, a primeira edição de “Marília de Dirceu” havia sido publicada(24). Sem dúvida um forte motivo para renovar seu entusiasmo pela literatura. Por isso é válido imaginar que continuou poetando mas, se for verdade, muitas criações foram desprezadas ou perdidas ao longo do tempo. Contudo, desde o final do século XIX, é conhecido um poema da fase africana: “A Conceição – O naufrágio do Marialva”. Também em Moçambique, em 1881, o poeta José Pedro da Silva Campos e Oliveira disse ter descoberto outro. As duas curiosidades são comentadas ao final deste texto.

No exercício da profissão, Gonzaga prestou serviços de advocacia aos traficantes negreiros da ilha e, como mostrou competência, não lhe faltou trabalho. Anos mais tarde, quando exercia o cargo de juiz interino da alfândega, durante o governo do príncipe regente d. João, sofreu a acusação de ter favorecido os interesses da elite negreira da ilha em detrimento da coroa. Mais um acréscimo na lista de ambiguidades da sua vida.

Post - Interior da ilhaCasario típico da ilha de Moçambique (década de 1860).

ÚLTIMOS DIAS

O inconfidente Salvador Carvalho do Amaral Gurgel(25), que fora também deportado, vivia no continente, em Inhambane. Chegado o ano de 1804, a seu pedido, havia se transferido para a ilha de Moçambique, onde chegara no dia 5 de novembro, para trabalhar como cirurgião-mor. Desse modo, pôde retomar a convivência com o amigo Gonzaga.

Eis que, ao final do ano de 1809, o poeta outra vez adoeceu e Gurgel tratou de lhe prestar assistência médica. Gonzaga sofria de intestinos ressecados e, consta que encomendaram para ele, na botica do Hospital Real(26), no dia 15.12.1809, duas onças de flor de sabugueiro e a mesma porção de unguento amarelo. As tentativas de tratamento não tiveram êxito e, no início de 1810, o solidário Gurgel presenciou o último suspiro do amigo Gonzaga, aos 66 anos de idade.

Há quem diga que, desde quando fora degredado, o poeta manifestara sinais de debilidade física e mental. Tudo é possível, devido às extravagâncias e imprudências, de toda sorte, acumuladas durante a vida. Contudo, não há como saber a causa da sua morte. Seu corpo foi sepultado na igreja do convento de São Domingos, dedicada à Nossa Senhora do Rosário(27). Nessa época, sua mulher Juliana, estava com 35 anos de idade. Os filhos Ana, 15, e Alexandre, menos de um ano. Ela veio a falecer pouco tempo depois e as crianças foram acolhidas pelos familiares de João Vicente Rodrigues de Cárdinas, alto funcionário da alfândega. Através dos filhos, o poeta Gonzaga deixou descendência na África (vide destaque no fim do texto).

Post - Lápide & igrLápide em Nossa Senhora dos Remédios e interior da igreja.

OS DESPOJOS

A respeito do posterior destino dos despojos de Gonzaga, havia muitas controvérsias,  uns diziam que se perderam, outros que poderiam estar em lugar ainda ignorado. Entretanto, em 1936, o presidente Getúlio Vargas decidiu negociar a exumação e traslado para o Brasil, dos restos mortais dos inconfidentes.(28)

A missão foi cumprida, em parte, mas quanto a Gonzaga, o que se fez foi apenas aumentar a confusão. Sim, pois trouxeram ossos que, hoje se sabe, não eram dele e depositaram no Museu da Inconfidência. O realto mais contundente está numa carta do escritor Joaquim Montezuma de Carvalho(29). Disse ele que:

“… quando o governo português tentou satisfazer o pedido brasileiro para devolver os restos mortais dos inconfidentes, o administrador do Mossuril, diante das dificuldades para localizar o túmulo de Gonzaga, abriu mesmo a sepultura do neto do poeta na igreja da Cabaceira Grande e remeteu os ossos que lá encontrou, ‘mas sabendo às claras, como todo mundo sabia (e a própria lápide rezava), que não eram os dos poeta. Mas serviram…’ “.

Post - Moçambique 1911Em frente à Câmara Municipal de Moçambique: proclamação da República Portuguesa, 1911.

Somente alguns brasileiros e por pouco tempo, acreditaram nessa tentativa de atropelo da história. Prova disso é o que publicou Ignacio de Vilhena Barboza – acima citado –, depois da sua visita a Moçambique:

“O asylo da infancia desvalida foi instituído em 1856 no extincto convento de Nossa Senhora do Rosario, outrora da ordem dos pregadores* (*dominicanos). […] Do templo só resta a capella-mor. O corpo da egreja […] foi demolido em 1852 para se aproveitarem os materiaes na reconstrucção da ponte da alfandega. […]

Entre as pessoas illustres […] que jazem nas sepulturas da derrocada egreja, conta-se o poeta lyrico dr. Thomaz Antonio Gonzaga […]. Depois da referida demolição, pretenderam […] trasladar os restos mortaes do distincto poeta para alguma das egrejas da cidade; porém não foi possivel levar-se a execução este honroso pensamento, por estarem confundidas as sepulturas e não se poder averiguar em qual se achavam os ossos do […] poeta.”

Para confirmação de tudo isso, existe mesmo a inscrição na tumba de onde retiraram os ossos enviados ao Brasil, com estas palavras:

“Esta fria campa encerra os restos mortais de Thomas Antonio Gonzaga de Magalhães, filho de Adolfo João Pinto de Magalhães e de d. Anna Mascarenhas Gonzaga. Nasceo a 24 de octubro de 1829 e morreo em 18 de junho de 1855. P.N.A.M. “

Pois bem, os ossos de Gonzaga realmente nunca voltaram a Ouro Preto. O que lá está é parte dos despojos do seu neto ou, talvez, nem isso. Além do mais, ainda permeiam a história do inconfidente muitas memórias e versões que nem sempre traduzem a verdade.

Post - Igr N S RemédiosIgreja de Nossa Senhora dos Remédios, em Cabaceira Grande (década de 1860).

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Post - Sumidoiro MARCA

OS FRUTOS DA ÁFRICA:

A família

O casal Tomás e Juliana teve dois filhos: Ana e Alexandre, com sobrenome Mascarenhas Gonzaga. Este nasceu em 1809 e não se casou. A família começou a crescer quando Ana casou-se com o capitão-mor Adolfo João Pinto de Magalhães (†1860). Tiveram uma filha, Cândida Gonzaga Pinto Magalhães (*1825 †1899), e dois filhos, Tomás Antônio Gonzaga de Magalhães (*1829 †?.06.1855) – que teve vida breve –, e Adolfo João Pinto de Magalhães Filho(30). Sabe-se que deixaram descendência.

Tomás Magalhães teve um filho, que faleceu em 02.03.1861, como consta no jornal oficial(31)“Roberto Thomaz Magalhães filho de Thomaz Gonzaga de Magalhães, e de Domingas Ferreira Mexias, natural de Inhambane, edade 11 annos, falleceo de bexigas* (*varíola).” O elevado número de anotações de óbitos por varíola, naquele período, indica que estava ocorrendo uma epidemia, pelo menos em Inhambane, província e cidade ao sul da ilha de Moçambique. Comparando datas, entende-se que o menino Roberto perdeu o pai quando tinha apenas 4 anos de idade.

Adolfo João Filho casou-se com Carolina Delfina Rodrigues de Cárdinas – em primeiras núpcias – e depois com Amélia Balbina Rodrigues de Cárdinas, gerando oito filhos.(32)

Post - Relação de mortesTomás Gonzaga de Magalhães, faleceu solteiro (?), mas tinha um filho Roberto.

Tomás A. G. Magalhães foi um dos primeiros jornalistas de Moçambique, fundador do “Boletim Official”, periódico lançado em 13.05.1854. Ao falecer, em Moçambique, com apenas 26 anos de idade, mereceu dois necrológios nesse jornal. O primeiro, preenchendo quase uma página, foi assinado pelo cunhado Francisco Borges Santos Bicho(33), casado com sua irmã Cândida. Começa com uma citação do poeta Ovídio e prossegue assim:

“Chamou Deos á sua devina presença a alma do Sr. Thomaz Antonio Gonzaga de Magalhães  filho do Il.mo Sr. Adolfo João Pinto de Magalhães, e de sua já fallecida esposa a Sr.ª D. Anna de Mascarenhas Gonzaga, – neto do nosso cellebre Lyrico Gonzaga; – em intelligencia, nobres sentimentos, e bellos dotes moraes, nunca degenerou de tão illustre estirpe….”

O outro, escrito na cidade de Quelimame(34) e publicado no mesmo jornal, foi assinado com as iniciais C. C. G. – de Cristóvão Colombo Generoso – e diz do falecido que “se não tinha o comércio das musas, não lhe faltava gênio”.

Post - Carolina & João VicenteLápide: filha de Adolfo João Filho – bisneta de Gonzaga. / João Cárdinas, diretor da alfândega.

Tomás A. G. Magalhães, teve um filho que faleceu em 02.03.1861, como consta no jornal oficial(35)“Roberto Thomaz Magalhães filho de Thomaz Gonzaga de Magalhães, e de Domingas Ferreira Mexias, natural de Inhambane, edade 11 annos, falleceo de bexigas* (*varíola).” O elevado número de anotações de óbitos por varíola, naquele período, indica que estava ocorrendo uma epidemia, pelo menos em Inhambane, província e cidade ao sul da ilha de Moçambique. Comparando datas, entende-se que o menino Roberto perdeu o pai quando tinha apenas 4 anos de idade.

Post - Óbito Carolina Bicho

← “Boletim Official”, 07.03.1857.

Cândida – neta de Gonzaga – teve uma filha, que faleceu aos seis meses de idade. Um ano e pouco depois, perdeu outra, com 2 anos de idade(36). Era assim a rotina de quem vivia em Moçambique, a qualquer momento poderia também viver um luto. Uma nota no jornal (imagem à esquerda) revela a dor da perda e relembra uma das meninas:

“Francisco Borges Santos Bicho e sua mulher D. Candida Gonzaga Pinto Magalhães Bicho, em extremo penhorados, por este meio, visto que pelo seu estado de saude, extrema pena e desolação o não podem fazer proprios; agradecem ás dignas e respeitaveis Senhoras, e honrados Cavalheiros d’esta Cidade, que bondosamente lhes deram delicados e sensíveis testemunhos d’interesse e amisade, acompanhando-os na extrema dor da perda de sua unica extremecida e sempre, sempre! chorada filhinha a innocente Carolina C. [Candida] em Moçambique, 3 de Março de 1857.” 

Adolfo João, guarda-mor da alfândega e também tesoureiro geral da Junta da Fazenda de Moçambique, era o marido de Ana – filha de Gonzaga. Esse sim, foi um grande traficante de escravos, e havia outros em sua família. Era uma pessoa complicada, pois diz um documento da época que, “em 13.08.1819, em Moçambique, dos 424 escravos a bordo do brigue espanhol Centenelle […], apenas registou 356 pelo que foi destituído do cargo e preso.(37) 

Da mesma maneira, João Vicente Rodrigues de Cárdinas (38) protetor de Ana e Alexandre –, negociava no comércio de escravos. Ele era diretor da alfândega e num manifesto de carga(39), de 25.08.1818, consta seu nome dizendo que “carregou na fragata Temível Portuguesa, 22 escravos”, provenientes do porto de Quelimane.

PEQUENO MAPA GENEALÓGICO:

Post - Mapa geneal Gonzaga* Casou-se com irmãs: Carolina Delfina e Amélia Balbina Rodrigues de Cárdinas. / Oito filhos.

Uma curiosidade

Em 1881, a “Revista Africana” (40) publicou um poema atribuído a Gonzaga. Comprovar a autoria é impossível, mas que leva seu jeito, leva. Quem o revelou foi o poeta José Pedro da Silva Campos e Oliveira, natural da ilha de Moçambique, onde foi secretário da administração e diretor dos correios. O poema “Os africanos peitos caridosos”:

A Moçambique, aqui vim deportado,
Descoberta a cabeça ao sol ardente;
Trouxe por irrisão duro castigo
Ante a africana, pia, boa gente,
Graças Alcino amigo,
Graças á nossa estrella!

Não esmolei, aqui não se mendiga;
Os africanos peitos caridosos
Antes que a mão infeliz lhe estenda
A soccorel-o correm pressurosos.
Graças, Alcino amigo,
Graças á nossa estrella!

E assim José Pedro explica seu achado:

“N’um exemplar das Lyras do desventurado poeta Thomaz Antonio Gonzaga, que faleceu n’esta cidade de Moçambique, em 1809, encontrei em letra manuscripta uns versos que, embora não trouxessem por baixo o nome do auctor, facilmente mostram pelo estylo e pelo assumpto, serem da lavra do mimoso e distincto poeta brasileiro.

É de crer que esses versos sejam inéditos, pois se não acham estampados nas mais recentes edições das suas obras, nem consta que em outra parte estejam publicados.

Entro em duvida se esta peçasinha poética está completa, ou ficou por concluir. Em todo o caso merece que se bemdiga a memoria do poeta que tão reconhecido se mostrou á consideração que o seu talento e suas qualidades souberam inspirar aos filhos d’esta terra.

Nem d’outro modo podia proceder, nem d’outra maneira podia ser tratado aquelle coração apaixonado, aquelle republicano austero, victima illustre, martyr do amor e da pátria.” J. P. da Silva Campos e Oliveira.

Post - NaufrágioNáufragos, segundo Théodore Géricault (A balsa da Medusa / 1818–1819).

O canto do naufrágio

Em tempos mais recentes – ano de 1958 –, Manuel Rodrigues Lapa encontrou, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, um manuscrito de Gonzaga: o poema épico “A Conceição – O naufrágio do Marialva”, texto original que era dado como perdido. Trata-se de uma narrativa em torno do desastre com o navio Madre de Deus e São José – também conhecido como Marialva –, ocorrido nas proximidades da ilha de Moçambique, em 1802.

Gonzaga conheceu alguns sobreviventes e fez, em verso, sua narrativa do acontecimento, embora se admita que não seja o único autor. O escritor e acadêmico João Manuel Pereira da Silva(41), desde 1847, já dava notícia do poema e, além disso, comentava sobre a decrepitude do poeta ao final da vida. De fato, há muito tempo vinham-se repetindo comentários sobre a sua decadência mental, senão loucura, depois de inúmeros revezes e desregramentos durante a vida. Escreveu Pereira da Silva:

“… o mesmo engenho, que produzira tão sublimes canções, não teve inspirações durante seu exilio […] Os lucidos intervallos eram poucos e fracos fructos produziram; um poemetto, sobre o naufragio da náu portugueza Marialva, não parece sahido de seu estro tão divino; um cantico á Conceição de Nossa Senhora, contém um ou outro verso, um ou outro pensamento poético, bello, elevado; revela porém a desordem do seu espirito, o enfraquecimento de sua inteligência…”

Post - Caligraf & assin GonzagaCaligrafia (poema “A Conceição”) e uma assinatura de Thomaz Antonio Gonzaga.

Tudo o que se disse sobre o estado mental de Gonzaga ficou sem comprovação, ou seja, apenas no campo das hipóteses. Contudo, tomando como parâmetro o Brasil do início do século XIX, onde a expectativa de vida era de 33,7 anos de idade, há de se convir que Gonzaga chegou a Moçambique bem idoso – 48 anos –, já entrado nos caminhos da decrepitude. Desse modo, sua mudança de comportamento poderia ser consequência de doenças próprias da avançada idade ou apenas a mui conhecida caduquice.

• Clique com o botão direito e veja o Post anterior: “Conhecendo Doroteia”. 

Pesquisa, texto e arte de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

(1) XAVIER, Joaquim José da Silva – (bat 12.11.1746 / Rio de Janeiro, †21.04.1792). Dentista (por isso conhecido como Tiradentes), tropeiro, minerador, comerciante e militar. Mártir da Inconfidência Mineira, executado em 21.04.1792. Nascido em uma fazenda no distrito de Pombal, nas proximidades do arraial de Santa Rita do Rio Abaixo, na capitania de Minas Gerais.

(2) GRUTES, Joaquim Silvério dos Reis Montenegro Leiria – (Monte Real, PT, *1756 / São Luís, BR, †17.02.1819). Coronel comandante do Regimento de Cavalaria Auxiliar de Borda do Campo, contratador de entradas, fazendeiro e proprietário de minas. Estava falido, devido aos altos impostos cobrados pela Coroa, motivo pelo qual se engajou na Inconfidência Mineira.

(3) COSTA, Manoel Rodrigues da – (Queluz, MG, *02.07.1754 / Barbacena, MG, †19.01. 1844) Ordenou-se padre em 1780, no seminário de Mariana (MG). Residia na fazenda do Registro Velho, de sua propriedade, no atual município de Antônio Carlos (MG). Na sua casa, hospedou o Tiradentes, que o convenceu a participar na Inconfidência Mineira. Da mesma forma que os outros eclesiásticos inconfidentes – foram cinco –, foi condenado a um ameno degredo de dez anos em Lisboa, em dependências eclesiásticas. Também teve bens confiscados, dentre os quais metade da fazenda Tapera, um título de terras minerais, uma rica biblioteca, móveis, utensílios domésticos, dois escravos, tabaco e uma batina, que atualmente está exposta no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. A fazenda do Registro Velho foi preservada, por ser meação da sua mãe. / Durante sua temporada europeia, viveu quatro anos na fortaleza de São Julião da Barra. Daí passou a recluso no convento de São Francisco. Nesse edifício, funcionou até algum tempo atrás a Biblioteca Nacional de Lisboa. Cumprida a pena, voltou com mais experiência e aptidão para a tocar a vida no Brasil, tendo reassumido, já em 1803, a administração da fazenda do Registro Velho. Dedicou-se também à indústria, fundando uma tecelagem e produziu vinho e óleo de oliva. / Ao mesmo tempo, envolveu-se com a política e participou da primeira Assembleia Nacional Constituinte do Brasil. Foi um dos primeiros sócios do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Depois da Independência do Brasil, elegeu-se deputado por Minas Gerais à Assembleia Constituinte de 1823 e reelegeu-se para a legislatura ordinária de 1826, embora não tenha assumido esse último mandato. / Em 1831, hospedou d. Pedro I na sua fazenda do Registro Velho e, logo depois, recebeu do imperador as ordens de Cristo e do Cruzeiro, e o cargo honorífico de cônego da capela imperial. Paradoxalmente, em 1833, o padre Manuel articulou, na mesma fazenda, o movimento que eclodiu na Revolução Liberal de 1842. / Foi o último dos inconfidentes a falecer.

(4) Auto da devassa – Procedimento instituído pela rainha D. Maria I, com a finalidade de buscar evidências de que o investigado era um inconfidente* (*aquele que se tornara infiel à coroa).

(5) MENEZES, Luiz da Cunha – Capitão-general. Em 10.10.1783, assumiu o governo da capitania de Minas Gerais.

(6) Por decreto de 19.08.1786, Tomás Antônio Gonzaga foi despachado (nomeado) desembargador para o Tribunal da Relação (de apelação) da Bahia.

(7) MELO, Carlos Correa de Toledo e – (Taubaté, SP, *1730 / Lisboa, †1803) Foi deportado sem conhecer sua sentença e preso na fortaleza de São Julião da Barra, depois transferido para a clausura dos franciscanos, em Lisboa, lá falecendo. Nesse edifício, atualmente, funciona a Academia de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. / Padre Toledo foi vigário da Vila de São José, atual Tiradentes. Quando lá chegou, já era um homem rico e cuidou de construir um imponente casarão na rua do Sol. Possuía amplos salões, sala de refeições, biblioteca e um mirante. O imóvel possui belo conjunto de forros pintados, dentre eles dois se destacam: uma natureza morta de frutas regionais e uma alegoria aos cinco sentidos. / Toledo foi um dos mais atuantes na conspiração, tendo aliciado muitos apoiadores e se deslocado inúmeras vezes até Vila Rica para encontrar os companheiros. Para o levante prometeu enviar 150 cavaleiros das suas fazendas e minerações. Desde as primeiras reuniões, quando se dedicavam a planejar o pós-revolução, Toledo sempre manifestou suas posições, que eram das mais radicais.

(8) Vila de São José do Rio das Mortes, atual Tiradentes.

(9) PEIXOTO, Ignacio José de Alvarenga (Rio de Janeiro, *01.02.1742-44 / Ambaca, Angola, †27.08.1792 ou †01.01.1793). Advogado, ex-ouvidor de Sabará, coronel da cavalaria auxiliar de Campanha do Rio Verde (atual Campanha, sul de Minas Gerais) e poeta. Condenado ao degredo perpétuo na África. Casado com a poetisa Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira.

(10) MAYRINK, Baltazar João – (Rio de Janeiro, *1736 / Itaverava, MG, †13 ou 14.01.1815) Capitão e fazendeiro. Reformou-se logo após os acontecimentos da Inconfidência Mineira e recolheu-se em Itaverava (MG), na fazenda do Fundão das Goiabas, onde Maria Doroteia costumava passar as férias. Foi casado em primeiras núpcias (27.08.1765), com Maria Doroteia Joaquina de Seixas Ferrão. Casou-se, em segundas núpcias, com Maria Madalena de São José, com quem não teve filhos.

(11) GONÇALVES, Adelto Rodrigues – (Santos, SP, *16.10.1952) Doutor em letras (literatura portuguesa); mestre em língua e literatura espanhola, e hispano-americana. Escritor, jornalista, historiador e professor.

(12) FARO, Luiz Antonio Furtado de Castro do Rio de Mendonça e – (Lisboa, *07.09.1754 / Lisboa, †07.04.1830) Visconde de Barbacena. / A denúncia feita pelo coronel Joaquim Silvério dos Reis – o inconfidente traidor –, ao visconde de Barbacena, governador de Minas Gerais, em 1789, fez eclodir a perseguição aos inconfidentes. A acusação, dizia que alguns indivíduos pretendiam organizar um motim contra a derrama, ou seja, a cobrança acumulada dos impostos* (*os quintos) atrasados. Visto que os líderes da revolta estavam muito endividados com o erário, essa foi uma grande motivação para sua rebeldia. Naquele ano, a província devia aos cofres públicos cerca de 538 arrobas, ou o equivalente a quase oito toneladas de ouro. — Leia o Post anterior: “Conhecendo Doroteia”, de 01.01.2015.

(13) Pungo-Andongo – Vila no município do Kacuso, província de Malange, em Angola. Pungo-Andongo significa Pedras Altas, mas também é referido como Pedras Negras. Ali os portugueses construíram a fortaleza de Pungo-Andongo (1671), onde eram recolhidos os degredados.

(14) Cidade ilha de Moçambique, situada na província de Nampula, foi a primeira capital do país. Atualmente a capital é Maputo, que já se chamou Lourenço Marques. A palavra Moçambique pode derivar de Musa Al Big, ou Mossa Al Bique, ou Mussa Ben Mbiki, o nome de um xeique, comerciante árabe que governava a ilha, antes da conquista portuguesa. — São 11 as províncias da atual república de Moçambique e suas capitais: Niassa (capital, Lichinga), Cabo Delgado (Pemba), Nampula (Nampula), Zambézia (Quelimane), Tete (Tete), Manica (Chimoio), Sofala (Beira), Inhambane (Inhambane), Gaza (Xai-Xai) – não confundir com Faixa de Gaza / Oriente Médio –, Maputo (Matola) e Cidade de Maputo (Maputo).

(15) Sentença – “No dia 18 de Abril em Conferência, q’. durou até às duas horas da noite, forão sentenciados em Relação* (* em segunda instância) os Réos da Conjuração de Minas Geraes. Sustentarão os Juizes os seus vótos até a decizão dos segundos embargos; e sendo então appresentada na Mesa a Carta Regia de 15 de Outubro de 1790, julgarão sómente o Réo Joaquim José da Silva X.er em execução da pena ultima, q’. mandei executar. / Como o Chanceller remette o traslado de todo o Processo summario, por evitar extensão, não respeito a mudança e última decizão, q’. pela dita Carta Regia houve nos degredos, p.a os quaes, em seu cumprimento se vão expedindo os Réos a medida q’. se offerece ocazião de Embarcações. E já fiz partir para Angola os quatro Réos Ignacio Jozé de Alvarenga, Francisco Antônio de Oliveira Lopes, Jozé Alvares Maciel, e Luiz Vaz de Toledo Piza: e para Moçambique, e Rio de Sena, pelo navio da India* (* da Carreira da Índia) N. Snr.a da Conceição Princeza de Portugal, os sete Réos Thomaz Antonio Gonzaga, Jozé Ayres Gomes, Vicente Vieira da Motta, João da Costa Rodrigues, Antonio de Oliveira Lopes, Victoriano Gonçalves Vellozo, e Salvador Carvalho do Amaral Gorgel. Deos Guarde a V Exª. Rio de Janr. 29 de Mayo de 1792. / Snr. Martinho de Mello e Castro – Conde de Rezende” /// OBSERVAÇÃO – O navio que transportou Gonzaga, “Nossa senhora da Conceição – Princesa de Portugal”, não foi uma embarcação de guerra, como disseram vários historiadores, mas sim um navio mercante, como pode-se ver em um diário de bordo, aberto em 02.05.1783, e preservado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa, sob o código PT/TT/LFF/0064.

(16) BARBOZA, Ignacio de Vilhena – (*1811 †1890) Historiador português. Conheceu a ilha de Moçambique do século XIX e fez detalhada descrição da cidade. O relato é um levantamento histórico e, também, testemunho de como estava o lugar onde viveu Gonzaga, 56 anos após sua morte. – Revista “Archivo Pitoresco”, Lisboa, 1866, vol. 9, p. 220 a 223.

(17) Por alvará régio, de 1809, foi mandado levantar fortins nas duas cabaceiras. Em abril de 1943, o entreposto fortificado da Cabaceira Grande foi proclamado relíquia histórica, bem como a igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Em 1964, o poço batizado de Vasco da Gama, na Cabaceira Pequena, foi tombado como relíquia histórica.

(18) CASTRO, Antônio Manuel de Melo e – (Goa, *1740, Salvador [Bahia], †1795) Em 1770, quando servia como capitão-de-mar-e-guerra da armada real, entrou em conflito com o governador-geral da Índia, João José de Melo, sendo acusado de sedição e destituído do seu posto. Diante disso e, considerado desobediente às ordens régias, perdeu o foro de nobreza, ficou inabilitado para o serviço real e, em consequência, degredado para Angola. Ali permaneceu até sua reabilitação, quando lhe foram retiradas as acusações de que era alvo.

(19) SILVA, Manoel Galvão da – (Bahia, *1750 †1784) Naturalista; chegou a Moçambique em 1784.

(20) Promotor da ouvidoria-mor da Fazenda de Defuntos e Ausentes, Resíduos e Capelas, ao final de 1792.

(21) CASAMENTO de Gonzaga e Juliana (depoimentos) – “Anno do nascimento do Nosso Senhor Jesus Christo de 1793, aos 9 dias do mez de Maio, n’esta capital de Mossambique, na egreja da Sé matriz, sendo prezente o muito reverendo provizor vigario geral e juiz dos cazamentos Francisco Ferreira de Souza, comigo o padre Lino Francisco Rodrigues, escrivão do juizo e auditorio ecclesiastico, foram inquiridos os contraentes Thomaz Antonio Gonzaga e D. Juliana de Souza Mascarenhas presente o mesmo juiz: em fé do que fiz este termo eu dito escrivão, que o escrevi.” // “Depoimento do Contrahente — No dito dia, mez e era supra apareceo, o dito contraente Thomaz Antonio Gonzaga, a quem o dito reverendo juiz fez prestar o juramento dos Santos Evangelhos, em que fez por sua mão direita para debaixo dele dizer a verdade do que soubesse e fosse perguntado. — E sendo perguntado pelo seo nome, de quem era filho, terra logares, e freguesias aonde tem residido, e por quanto tempo, idade, estado e officio que tem; si tem feito algum voto de religião ou castidade, ou si tem algum impedimento para contrahir o matrimonio que pretende; respondeo, que se chamava Thomaz Antonio Gonzaga, filho legitimo do desembargador Jozé Bernardo Gonzaga e de sua mulher D. Thomazia Chargue* (*Clark) Gonzaga, já falecida, natural da cidade do Porto, bautizado na freguesia de S. Pedro do reino de Portugal; que tinha de edade 38 anos* (*na verdade, tinha 48 anos), que era solteiro e nunca fora cazado; que rezidira na mesma cidade do Porto, na cidade de Beja, na de Lisboa, Coimbra, Villa Rica, e actualmente em Mossambique, passando a existencia nas ditas cidades de mais de seis mezes; que nunca dera palavra de casamento a pessoa alguma, nem fizera voto de castidade ou de religião, nem tinha impedimento algum para contrahir o matrimonio que pretendia com D. Juliana de Souza Masquerenhas, a quem conhecia por ter visto de prezente, com quem queria ser casado de sua livre e espontanea vontade, sem constrangimento de pessoa alguma; e mais não disse, e se assignou com o dito reverendo juiz; eu dito escrivão, que o escrevi. / Souza – Dr. Thomaz Antonio Gonzaga.” // “Depoimento da Contrahente — No dito dia, era e mez retro, apareceo a contrahente D. Juliana de Souza Masquerenhas, que jurou aos santos Evangelhos, em que poz a sua mão direita para dizer a verdade do que soubesse. E sendo perguntada pelos interrogatórios atraz feitos ao contrahente, respondeo que se chamava D. Juliana de Souza Masquerenhas, filha legitima de Alexandre Roberto Masquerenhas e de sua mulher D. Anna Maria, natural da freguesia da Cabaceira grande e nella bautizada; que tinha de idade 19 annos, que era solteira e nunca déra palavra de casamento a pessoa alguma, nem fizera voto de castidade ou de religião, nem tinha outro impedimento algum para contrahir o matrimonio, que pretendia com Thomaz Antonio Gonzaga, a quem conhecia pelo ter visto de prezente, e com quem queria ser cazada de sua livre e espontânea vontade, sem constrangimento de pessoa alguma, e mais não disse, e se assignou com o dito reverendo juiz; eu dito escrivão, que o escrevi. / Souza – (sinal +) de D. Juliana de Souza Masquerenhas.” – Fonte: “Revista do Arquivo Público Mineiro”, vol. 7, fasc. 1 e 2, p. 407 a 409.

(22) MASCARENHAS, Ana Maria de Souza – filha de Juliana França de Souza; mãe de Juliana de Souza Mascarenhas (casada com Thomaz Antonio Gonzaga).

(23) COUTINHO, Diogo de Souza – (*17.05.1755 †1829) Na Índia: 82º governador e 49º vice-rei (1816-1821); no Brasil: governador e capitão-general de São Pedro do Rio Grande do Sul (1809-1814), do Maranhão e Piauí (1798-1804); em Moçambique: governador (1793-1798). Chegou a Moçambique doente, sofrendo de lepra e escorbuto. Logo depois adoeceu sua mulher, que veio a falecer. Apesar da saúde precária, demorou-se na ilha e cuidou de um conjunto de obras, avultando a reparação da fortaleza de São Sebastião e a inscrição de uma coluna cilíndrica no novo Largo do Pelourinho. // Gonzaga seria“advogado bastantemente venal e sumamente embrulhador e intrigante” – Fonte: “Arquivo Histórico Ultramarino”, Moçambique, após novembro/1795, cx. 72, nº 58.

(24) A primeira edição de “Marilia de Dirceo” foi publicada em Lisboa, na Tipografia Nunesiana, em 1792. Parte do poema foi composta durante a prisão de Gonzaga na Ilha das Cobras.

(25) GURGEL, Salvador Carvalho do Amaral – (Parati, RJ, *16.02.1762 / Inhambane, †1813 ou 1815) Viveu em Inhambane (Moçambique), onze anos e alguns meses. Ao final de 1804, foi autorizado pelo governador a retornar à ilha de Moçambique, pois estava muito doente. Era casado em Inhambane e, naquele momento, a família ficou ao desamparo. Teve pelo menos cinco filhos, entre eles: Aires Joaquim, Felício Gomes e Luís Gomes.

(26) Botica – O convento dos religiosos de São João de Deus servia de hospital militar. / O hospital militar e civil de São João de Deus ocupava o edifício da mesma invocação, que pertenceu aos religiosos hospitalários. Foi fundado em 1681; ampliado e melhorado em 1703. A igreja do convento serviu de capela ao hospital e, em 1866, estava sendo utilizada como botica e laboratório farmacêutico – Fonte: Revista “Archivo Pitoresco”, Lisboa, 1866, vol. 9 / (nº 16, no Mapa da Ilha).

(27) Sepultado no convento de São Domingos (nº 8, no Mapa da Ilha).

(28) O “Correio da Manhã”, de 21.04.1936, anunciou as providências visando o repatriamento dos restos mortais dos inconfidentes, tomadas pelo então presidente Getúlio Vargas: “Na Fazenda de São Mateus, residência do deputado João Tostes, onde se acha hospedado o presidente Getúlio Vargas, realizou-se, ontem, a assinatura do Decreto repatriando os despojos dos Inconfidentes de 1789 mortos em degredo. O […], atendendo ao apelo que lhe dirigiu há dias o escritor Augusto de Lima Júnior, em carta prefácio das biografias de Gonzaga e Marília de Dirceu, quis dar a esse decreto um significativo realce, assinando-o em território mineiro, num solar de família representativa das virtudes da raça montanhesa. Por isso, fez ir ontem àquela localidade o ministro da Educação, sr. Gustavo Capanema, e o escritor que pleiteara a justa reparação histórica, assinando às treze horas o decreto determinando o transporte para o Brasil das cinzas dos inconfidentes mortos no exílio, e autorizando a publicação em livro dos Autos do processo da Alçada, em 1792.” // O “Jornal do Commercio” (RJ), de 26 e 27.12.1936, noticiou a chegada das cinzas dos inconfidentes, ao Rio de Janeiro, no paquete Bagé: “Chegaram anteontem a esta capital, transportados pelo navio nacional Bagé, os restos mortais dos Inconfidentes […]. As urnas que contêm as cinzas dos primeiros sonhadores da independência do Brasil vieram sob a guarda do escritor e poeta mineiro Augusto de Lima Júnior, que […] foi buscá-las em Lisboa, onde se encontravam, por determinação das autoridades portuguesas. O Governo fará inumar, em Ouro Preto, […]. As cinzas dos Inconfidentes se encontram em treze urnas de cedro, lacradas com os selos do governo português, todas cobertas com bandeiras brasileiras, e estão colocadas na biblioteca do Bagé, que foi transformada em câmara ardente. Durante a viagem, os passageiros do transatlântico brasileiro e a sua tripulação prestavam tocantes homenagens cívicas e religiosas à memória daqueles que souberam sacrificar suas existências pela grandeza da pátria.”

(29) CARVALHO, Joaquim Montezuma de – (Coimbra, PT, *21.11.1928 / Lisboa, †07.03.2008) Advogado. Viveu também em Angola e Moçambique.

(30) MAGALHÃES Filho, Adolfo João Pinto de – Exerceu várias atividades, entre elas, a de 1º escrivão da alfândega (nomeação publicada no “Boletim Official”, 27.06.1863, p. 114); e juiz ordinário da junta de Moçambique, (consta no “Accordão”, publicado no “Boletim Official”, 01.10.1864, p. 211 e 212).

(31) “Boletim Official do Governo da Provincia de Moçambique”, 08.09.1855, p 142, 14.

(32) MAGALHÃES Filho, Adolfo João Pinto de – Primeiro casamento com Delfina Rodrigues de Cárdinas – seus filhos: Adolfo João (Neto), Augusta Carolina, Elizia, Carolina, Herminia; segundo casamento com Amélia Balbina Rodrigues de Cárdinas – seus filhos: João Vicente, Helena e Candida. / Fonte: DIAS, Nivea Nunes, http://www.geni.com

(33) BICHO, Francisco Borges Santos – Escrivão da alfândega de Moçambique. / Publicou necrológio de Tomás Antônio Gonzaga de Magalhães, no “Boletim Official do Governo da Provincia de Moçambique”, 23.06.1855, p. 100.

(34) Quelimane – Capital e a maior cidade da província da Zambézia. Banhada pelo rio dos Bons Sinais e a cerca de 20 km do oceano Índico. Outrora, foi um porto importante do mercado de escravos e ainda é um centro de comércio e da indústria pesqueira.

(35) “Boletim Official do Governo da Provincia de Moçambique”, 21 fev 1863, p. 35.

(36) “Boletim Official do Governo da Provincia de Moçambique” – Publicação de 06.12.1856: “Óbitos no mez de Fevereiro findo – Emilia Candida Bicho, filha de Francisco Borges dos Santos Bicho, natural de Moçambique, de 6 mezes d’idade, Christã.” // Publicação de 23.03.1857: “Óbitos no mez de Fevereiro findo – Carolina Bicho, filha de Francisco Borges dos Santos Bicho, natural idem*(*de Moçambique), de 2 annos d’idade idem* (*Christã).”

(37) CAPELA, José – “Dicionários de Negreiros em Moçambique – 1750/1897”, Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, 2007, p. 121 e 162.

(38) CÁRDINAS, João Vicente Rodrigues de – Diretor da alfândega da ilha de Moçambique – Boletim Official do Governo da Provincia de Moçambique”, 21.10.1854, p. 94.

(39) CAPELA, José – “Dicionários de Negreiros em Moçambique – 1750/1897”, Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, 2007, p. 107, 118 e119.

(40) OLIVEIRA, José Pedro da Silva Campos e – (Ilha de Moçambique [Cabaceira Grande], *17.04.1847 / Ilha de Moçambique, †01.01.1911) Escritor e poeta; funcionário da administração da ilha de Moçambique, estudou em Coimbra e residiu algum tempo em Goa. Fundador e proprietário da “Revista Africana – periodico mensal de instrucção e recreio”, de Moçambique, onde o referido poema foi publicado na edição nº 1, de março de 1881, p. 3. / É considerado um dos pioneiros da literatura moçambicana. — Seu auto-retrato em verso: “Eu nasci em Moçambique, / de pais humildes provim, / a cor negra que eles tinham / é a cor que tenho em mim; / Sou pescador desde a infancia …” etc.

(41) SILVA, João Manuel Pereira da (Vila de Iguaçu, RJ, *30.08.1817 / Paris, †14.06.1898) Advogado, político, romancista, historiador, crítico literário, biógrafo, poeta, tradutor e fundador da cadeira nº 34 da Academia Brasileira de Letras.

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8 Comentários »

  1. Meu caro Eduardo de Paula, como sempre seus textos, além de rigorosamente apoiados em pesquisas, enriquecem a história, além de serem de deliciosa leitura! Grande abraço, Juscelina.

    Comentário por Maria Juscelina de Faria — 01/01/2015 @ 3:43 pm | Responder

    • Juscelina:
      O elogio de uma historiadora respeitada, como você, só pode me envaidecer.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/01/2015 @ 4:06 pm | Responder

  2. Quando li sobre Doroteia, fiquei querendo saber mais sobre Gonzaga e como teria sido sua vida em Moçambique. Pois agora já sei. Só tenho a agradecer! Aproveito para deixar aqui meus votos de um Feliz Ano Novo.

    Comentário por sertaneja — 02/01/2015 @ 1:03 am | Responder

    • Olá Virgínia, sertaneja:
      Aí está o Gonzaga na África. Chegou a hora de também conhecermos a África. Muito obrigado e um feliz Ano Novo,
      do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/01/2015 @ 9:08 am | Responder

  3. Mais um excelente texto. A cada texto seu, vamos descobrindo partes da história que estavam “obscurecidas”! Muito interessante saber que, de fato, os restos mortais de Gonzaga não estão no museu da Inconfidência.
    Grande abraço.

    Comentário por Pedro Mafia — 15/05/2015 @ 5:01 pm | Responder

    • Pedro:
      De fato, os documentos comprovam que os restos mortais de Gonzaga ficaram na África. É preciso ficarmos atentos para certas “histórias” que ensinam por aí e que estão carregadas de fantasias.
      Muito obrigado. Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 15/05/2015 @ 6:25 pm | Responder

  4. Estupendo! Elevou ainda mais meu conhecimento genealógico.

    Comentário por geraldo s. castro — 18/07/2015 @ 11:05 am | Responder

    • Geraldo:
      Muito obrigado pelo aplauso e estímulo.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 18/07/2015 @ 2:02 pm | Responder


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