Sumidoiro's Blog

01/02/2015

MEMÓRIAS DO MAR (I)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 12:03 am

♦ Do Rio de Janeiro ao oceano Índico 

Pascoe Grenfell Hill(1) foi capelão da marinha inglesa. Em sua atividade, conheceu o tráfico negreiro que se fazia pela Carreira da Índia e escreveu dois livros sobre o tema. O primeiro – Cinquenta Dias a Bordo de um Navio Negreiro no Canal de Moçambique – vai publicado aqui, dividido em quatro partes.

Post - Navio & BookRelato de uma temporada de surpresas no mar.

PARTE I — Introdução, dirigindo-se a Lord Ashley, Membro do Parlamento: “… respeitosamente ofereço a V. Sa. as seguintes páginas, […] de notas apressadamente escritas no convés de um navio negreiro, pela correção e fidelidade dos seus detalhes, admito que possam merecer alguma atenção, . […] Pascoe Grenfell Hill / Cabo da Boa Esperança, 03 de setembro de 1843.”

Letra OHigh Majesty Cleopatra, de 26 canhões, comandado pelo capitão C. Wyvill(2), foi liberado para zarpar em direção ao porto do cabo da Boa Esperança, em abril de 1842, conduzindo o tenente-general sir William Gomm à ilha Maurício(3), recentemente nomeado seu governador. Partira de Spithead, ao final de julho e havia chegado ao Rio de Janeiro, no dia 6 de setembro. Eu estava, naquele momento, no Malabar, navio de 74 canhões, do capitão George Sartorius, atracado no Rio e, tendo em vista a oportunidade e devido a bondade do oficial superior Purvis, foi-me concedida a transferência para o Cleopatra.

É inigualável a magnificência do porto (na baía) do Rio de Janeiro, estreito na entrada, mas se espalhando em uma circunferência de 17 léguas. Suas centenas de ilhas e montanhas que o circundam, oferecem uma nova paisagem a cada olhar. São cobertas com a vegetação mais rica, desde o contorno das praias até as encostas. Por detrás, as montanhas mais altas, no limite da visão, misturam seus cumes com as nuvens. Compõem cenas de variedade e beleza que dificilmente podem cansar os olhos. A cidade, situada ao lado esquerdo de quem chega de barco, está a 4 ou 5 milhas (≅ 6,5 ou 8 km) da entrada do porto.

Post - Praia de NiteróiPraia de Bragança (por William Havell).

A costa intermediária, dividida em várias pequenas baías, está cravejada com bonitas aldeias e casas de campo. Estas são ainda mais numerosas do lado de Bragança (hoje, Niterói), oposto ao Rio, refúgio favorito dos habitantes durante os calores de verão. Um barco a vapor faz a travessia a cada hora, durante o dia. O cenário desse lado não é tão grandioso, mas tem mais suavidade. O contraste é enorme entre a quietude e isolamento, diferentemente ao barulho e agitação da cidade.

O costumeiro local de desembarque, no Rio, fica em frente ao Hotel Pharoux, um edifício muito grande e bonito, com vista para o cais, o mercado e a grande praça. Nela, são destaques o palácio do imperador, um convento carmelita – agora usado para finalidades seculares –, e, ao lado dele, a capela real. A agitação no cais é constante, com passageiros tomando os barcos ou fazendo carregamento de mercadorias.

Mais movimentado e cheio de gente é o mercado, com sua profusão de frutas tropicais e legumes, e, acima de tudo, povoado por diferentes tipos humanos, de todas as cores de pele e conformação física. Tudo ali se mistura, oferecendo curiosa e animada cena. Na província do Rio de Janeiro, a proporção da população de cor em relação ao branco, de modo geral, provavelmente não é inferior a 20 para 1.

Post - Porto RioPorto do Rio de Janeiro, visto da ilha das Cobras (Eugene Ciceri, 1852).

Nas plantações do interior, onde a proporção é ainda maior, os sofrimentos dos negros são, sem dúvida, mais severos. Na metrópole, apesar da sua condição, não denotam tristeza, tal como chegamos a imaginar. Aqui, certamente, a aparência dessa multidão alegre e heterogênea, se assemelha à das classes populares da maioria dos países. Exuberante alegria se manifesta quando estão reunidos junto aos seus pares, ao redor dos pequenos fogos de carvão em que fritam o peixe, ou fervem a raiz de mandioca e a batata-doce.

O trabalho mais árduo, presenciado nas ruas, é o dos carregadores de café que transportam pesados sacos na cabeça, na maior ligeireza, ao som de alguns troços chacoalhando dentro de uma bexiga. O líder do grupo agita o apetrecho, enquanto os demais o acompanham com suas cantorias. Os patrões determinam o número de horas que devem dedicar a essa labuta e, quando sobra uma parte do dia, podem trabalhar em benefício próprio.

Desse modo, torna-se viável que, num tempo razoável, possam comprar a liberdade. Assim é que, no momento em que liberam o negro da escravidão, merecem os brasileiros um crédito. Pois que, dando-lhe o direito da completa dignidade, rompe-se com o desprezo e ignomínia de que, por conta da cor, sua raça ainda é vítima em outros países escravistas.

Post - Grupo de negrosUma negra de sorte e alguns negros de menos sorte, com seu patrão (Brasil).

A situação dos escravos domésticos, no Brasil, é mais favorável do que em quaisquer outros lugares. Mas, apesar de não serem comuns casos de crueldade, sem dúvida, frequentemente, são submetidos a trabalho excessivo, mal alimentados e maltratados. Nesses casos, depende dos caprichos do proprietário embrutecido ou avarento.

Mesmo os mais humanos, insistem que é impossível botar os negros a trabalhar sem o uso da vara. “II faut les frapper” *, comentou uma senhora francesa para mim. Legalmente, a flagelação pode ser infligida apenas por sentença de um magistrado, cuja penalidade, em geral, é extremamente pesada. — * É preciso açoitá-los.

Assisti a um dos leilões de escravos, que ocorrem geralmente a cada semana, tendo sido previamente anunciado na imprensa. Cerca de 25 escravos, de ambos os sexos, decentemente vestidos, estavam sentados em bancos, atrás de uma mesa comprida. Cada um, quando chegou a sua vez, levantou-se para ser melhor visualizado pelos arrematadores. Olhares desolados pareciam expressar o sentimento de degradação, por serem colocados à venda. Os preços raramente ultrapassavam 300 mil réis, cerca de £ 31.

Mas é de se supor que eram colocados em leilão os que possuíam menores atributos e, por isso, seriam menos valiosos. Amiúde, depara-se com negros nas ruas movendo-se lentamente, com os pés aguilhoados, ou com um colar de ferro pesado em volta do pescoço, normalmente denotando serem fugitivos recuperados. Anúncios de negros fugidos, muitas vezes, preenchem uma coluna inteira nos jornais diários. Em alguns desses, tomados ao acaso, no “Jornal do Commercio”, de 13 de agosto de 1842, encontrei o seguinte:

“Desapareceu no dia 16, deste mês, na rua do Cano, no 2, um negro barqueiro, chamado Sebastião, natural de Inhambane (em Moçambique): bastante forte, de média estatura, vestido com uma camiseta suja e calças brancas, e acompanhado por um cão preto, que responde pelo nome ‘Cara-linda’. Quem puder prendê-lo e levá-lo para a Casa de Correção, e dar informações no endereço acima, receberá boas alvíssaras* — * Boas recompensas.

Post - Debret escravos caféEscravos carregando café (Debret, RJ, 1826).

“Fugio, no dia 8 do corrente, ás oito horas da manhã, ao Dr. José Júlio de Freitas Coutinho, morador na Rua do Hospício no 106, uma preta sua escrava, de nome Maria, de nação Congo, a qual terá 25 annos de idade; é mais preta do que fula, tem cabelo cortado a gaforina, e é bem feita de corpo; tem bonita physionomia, dentes claros e bem arrumados, signaes nos braços, e um de cortadura na chave* de uma das mãos; levou vestido de chita escura, lenço riscadinho e brincos de vidro escarlate; levou dous vestidos brancos, um de cassa** de xadrez miudo e outro de baeta***, sapatos, meias, um chale de renda, uma saia de morim grosso e uma camisa do mesmo. Suppõe-se que fosse seduzida e esteja occulta, por ser mocamba recolhida e prendada. Protesta-se contra que a tiver, e pede-se a quem a descobrir que a leve á referida casa, onde será gratificado.” — * Espaço entre o polegar e o indicador. / ** Cassa = linho fino / *** Baeta = pano de lã grosso.

“Fugio, dia 31 ultimo, um negro, chamado Pedro, nativo de Moçambique, usando camisa e calças, e um ferro ao redor do pescoço […]

“Quem puder prender e trazer para o nº 112, Rua de São Pedro, uma negra velha, chamada Eva, que fugiu, vestida com uma bata escura listrada; levando consigo uma caixa de doces, uma caixa com roupa de cama, varios pares de sapatos (sendo uma grande ladra), e tendo em um dos seus olhos com uma belida* será recompensado.” — * Névoa esbranquiçada na córnea.

“Fugio, dia 12 do corrente, a uma hora da tarde, um moleque de nome José, nação Congo; levou vestido camisa e calça de algodão riscado de Minas*, alguma cousa suja de estar na cozinha: roga-se aos Srs. pedestres de, no caso de o appreenderem, leva-lo á praia dos Mineiros nº 41 B, em casa de Manoel Fernandes Machado Guimarães, que saberá recompensar seu trabalho.” — * Fabricado em Minas Gerais.

Paralela à Maranha (marina), ou do lado da água, está a rua Direita, a mais larga do Rio, e que corta a cidade em toda a sua extensão. As outras principais ruas saem perpendicularmente a partir dela, cobrindo o núcleo urbano da cidade. Destas, a primeira em atrações é a rua do Ouvidor, onde estão as lojas mais vistosas, principalmente francesas, e várias livrarias abastecidas com literatura francesa moderna. A rua Direita termina na parte alta da região do porto, na subida da colina, onde está situado o espaçoso convento dos beneditinos, ainda ocupado por alguns monges dessa ordem.

Sua aparência é melhor que a de outros edifícios eclesiásticos, como denotam as paredes destelhadas do Colégio dos Jesuítas, o qual ocupa semelhante colina na entrada do porto. No meu entendimento, essas ruínas marcam a derrocada da Ordem no hemisfério sul e despertaram sentimentos diferentes daqueles que tal espetáculo causaria na Europa. Mas é preciso recordar a oposição corajosa e despojada feita pelos seus membros contra o injusto tráfico de escravos, praticado pelos compatriotas brasileiros.

Post - Rua Direita . RugendasRua Direita, Rio de Janeiro (por Rugendas).

O convento carmelita, na grande praça, como foi mencionado, a meio caminho entre o jesuíta e o beneditino, teve uma espécie de destino mal definido, sendo reutilizado para usos seculares. Nos arredores, está a biblioteca real, trazida de Portugal por d. João VI, em 1808, com cerca de 10.000 volumes, contendo muitas obras teológicas e históricas, portuguesas e francesas. Entre os poucos livros em inglês, encontrei a “História do Brasil”, de Southey e, em suas páginas, as seguintes passagens:

“A Europa não tem motivo para alegrar-se com o estabelecimento dos jesuítas, mas no Brasil e no Paraguai, a superstição pode tê-los perdoado pelos nobres esforços feitos em prol dos índios oprimidos.” – Vol. II, 232.

“Os jesuítas se opuseram ao comércio escravo de índios, com o zelo de homens que sabiam estar cumprindo com o dever: nunca tiveram os homens causa melhor e nunca os homens se engajaram em qualquer causa com mais heróico ardor.” – lv. 308.

Post - Mapa toda viagemA – Moçambique / B- Madagascar / C – Cabo da Boa Esperança, baía da Mesa, Cidade do Cabo, baía de Simon/ D – Cabo das Agulhas / E – Baía de Santo Agostinho / F – Porto Luís, Ilha Maurício / G- Ilha cidade de Moçambique / H – Quelimane / X – Baía de Algoa e Porto Elizabeth.

RUMO AO CABO DA BOA ESPERANÇA

Após uma semana de estadia no Rio, o Cleopatra zarpou, no dia 14 de setembro, para o cabo da Boa Esperança e que foi avistado no domingo, dia 9 de outubro. Foi preciso fazer repetidas tentativas para ultrapassar o cabo, enfrentando-se forte vento sudeste, a fim de alcançar a baía de Simon, lugar usual para ancoragem dos nossos navios de guerra. Na amanhã de quarta-feira, estando a maré muito alta e o vento dando sinais que, de nenhum modo, iria arrefecer, verificou-se aconselhável dirigir-se para Table Bay (Baía da Mesa), no lado oeste do Cabo*. Foi onde ancoramos na mesma tarde. — * Do lado oeste do cabo da Boa Esperança situa-se a Cidade do Cabo; a baía em referência tem ao fundo uma colina com seu topo plano, tal como u’a mesa.

A aproximação do cabo das Tormentas(4) é, muitas vezes, motivo de ansiedade para o navegador, contudo, para o passageiro, cansado de uma longa viagem, nenhum lugar pode oferecer mais agradável alívio que estar na Cidade do Cabo. Ela tem largas e bonitas ruas, sombreadas pelas árvores, lojas bem sortidas, estradas excelentes nos arredores, e um clima extremamente ameno e saudável.

Deslocando-me por terra, para alcançar o Cleopatra na baía de Simon, passei alguns dias na aldeia de Wynberg – nos arredores de Constância –, num ambiente de plena quietude rural e beleza.

POst - Cabo d'AgulhaCabo das Agulhas, ponto extremo do sul da África. / Farol do cabo das Agulhas.

NA ILHA MAURÍCIO

Zarpamos da baía de Simon(5) no final de outubro e chegamos, em meados do mês seguinte, em Porto Luís, na ilha Maurício. Sir William Gomm, dono de alta reputação, foi ali recebido com aclamação na condição de novo governante. Tivemos muito a lamentar pela perda do seu convívio e de Lady Gomm, como companheiros de viagem no Cleopatra. Sentimo-nos como que endividados por tantas horas em agradáveis companhias.

Post - Vista do Porto LuísEntrada do Porto Luís.

Cheguei imbuído do desejo de, através do meu próprio olhar, traçar o cenário desta ilha, tão minuciosamente descrito na elegante ficção de Bernardin de Saint-Pierre. Levando o livro em minhas mãos e marcando cuidadosamente todas as indicações disponíveis, encaminhei-me em direção à denominada Embrasure, na cadeia de montanhas, que fica atrás do Porto Luís – “cette ouverture escarpée au haut de la montagne* – perto da qual o autor aponta a residência de Paulo e Virgínia(6). — * “esta abertura escarpada no alto da montanha” – (Embrasure = fenda em forma de U, tal como a de uma canhoneira).

Post - Port LouisPorto Luís e casario na entrada da cidade, com o Campo de Marte ao centro (c. 1840).

Depois de várias tentativas fracassadas para atravessar a montanha, naquele ponto, finalmente tomei a estrada para Pamplemousses – “le chemin qui mene du Port Louis au quartier des Pamplemousses*“. Após caminhada de 2 ou 3 milhas(≅ 3,2 ou 4,8 km), atingi uma curva que leva para a parte de trás da montanha. Ali não se vê nada, tudo é escuridão daquele lado da encosta escarpada, de imensa altura, e que se levanta a partir da planície. — * O caminho que vai do porto ao bairro de Pamplemousses.

Post - Casa de Paulo & VirgíniaA – Farol do Porto Luís  / B – Montanha escarpada / C – Vale onde moravam Paulo e Virgínia.

Entretanto, percorri o meu caminho galgando essa elevação e, subitamente, ao pé do precipício completamente sombreado por ela, abriu-se diante de mim um vale, o ponto que eu estava à procura. Penetrei, então, num labirinto de árvores e arbustos floridos; a acácia amarela perfumada (arábica), o gorjava em fruta (a goiabeira) e outros vegetais que não tinha visto noutro lugar.

De fato, ali não havia vestígios de presença humana, exceto restos de antigos muros, indicando que o lugar nem sempre estivera isolado e abandonado. Pássaros, despertados pela minha passagem, voaram pelas árvores, misturando sua cantoria pelo ambiente. Eram os únicos sons que rompiam a solidão profunda.

Post - Trois MamellesSob a sombra de Trois Mamelles.

Desse lugar a caminho de Porto Luís, há uma abertura no cume da montanha, de onde se avista a igreja de Pamplemousses, a montanha Trois Mamelles (Três Mamas) e, ao mesmo tempo, o porto e o morro do Sinal – Le Morne de la Découverte, avec la mer au loin, ou apparaissait quelquefois un vaisseau qui venait de l’Europe, ou qui y retournait* – que corresponde exatamente à descrição do que viu Saint-Pierre e, de fato, sem a menor dúvida, observando exatamente desse mesmo lugar. — * A Colina da Descoberta, com o mar ao longe, onde aparecia de vez em quando um navio, que vinha da Europa ou retornava.

Post - Mapa & Le MorneA – Porto Luís / B e C – Morne Brabant, o morro que B. de Saint-Pierre chamou de Morne de la Découverte.

NA ILHA DE MOÇAMBIQUE

No início de dezembro, o Cleopatra deixou a ilha Maurício, para prosseguir contornando a extremidade norte de Madagascar, até atingir o ponto desejado do canal de Moçambique. Era também missão observar qualquer nau suspeita que aparecesse no caminho*. Atualmente, o tráfico de escravos, na costa da África, está praticamente restrito aos distritos de Quelimane e Sofala**, tendo sido abolido no porto de Moçambique***, devido aos zelosos esforços dos governadores, do passado recente e do presente. — * A Inglaterra estava combatendo o tráfico negreiro. / ** Quelimane e Sofala (hoje Beira) são dois portos de Moçambique (país). / *** Cidade ilha de Moçambique.

O empenho deles, nesse sentido, é justificado pelo crescimento das receitas tributárias ocorridas nos últimos anos que, anteriormente, eram irrisórias e estimulavam a exportação de escravos como fonte de renda. A cidade de Moçambique(7) fica numa ilha, no meio da baía, estendendo-se por 1 milha e ¼ (≅ 2 km), em comprimento, e quase ¼ de milha (≅ 400 m), em largura. Em uma das extremidades há um imponente e bonito forte, construído no início do século XVI.

A ilha é sem elevações e arenosa, com pouca vegetação, exceto algumas mirradas palmeiras e depende de suprimentos vindos da costa adjacente. A população atual é de cerca de 3.000 habitantes, consistindo, principalmente, de escravos negros, frutos de uma mistura de malaios, de nativos de Joanesburgo, de hindus baneanes – ou mercadores –, e alguns crioulos* portugueses. — * Pessoas com ancestralidade europeia nascidas nas colônias de ultramar.

POst - Moçambique largo da alfândegaIlha cidade de Moçambique: largo da alfândega (início do sec. XX).

Vi nas ruas um número muito maior de escravos acorrentados que no Rio Janeiro. Os negros moram em palhoças, ao longo da praia e na periferia da cidade. Fiquei impressionado com a ordem e o decoro existente entre eles. Fazendo um comentário a respeito, com um português chamado Nobre, proprietário da única grande loja de comércio, ouvi dele: “- Melhor para eles, senão iriam sofrer nas costas”. Sutil e indiretamente estava manifestando ódio ao inglês, pelos seus esforços em eliminar o tráfico de escravos.

NA ILHA DE MADAGASCAR

No início de janeiro de 1843, partindo da costa africana, cruzamos o canal em direção à baía de Santo Agostinho, na costa de Madagascar, com o propósito de fazer provisionamento de alimentos frescos e água. Quando lá chegamos, uma pequena escuna mercante, da ilha Maurício, já estava ancorada com cerca de 20 canoas à sua volta, cheias de nativos, que imediatamente remaram em direção ao nosso navio.

À medida em que se aproximavam, nossos visitantes competiam na gritaria, anunciando seus nomes e títulos. Assim: – Me, broder Prince Will”, parecendo-me dizer Prince of Wales (Príncipe de Gales); “- Me John Green; Me Dungaree; Me Jem Bravo. You my very good friend. Me come aboard, speaky the captain.” — Eu irmão Prince Will; Eu John Green; Eu Dungaree; Eu Jem (Jim) Bravo. Você meu amigo muito bom. Eu vir a bordo, falar com capitão.

Post - Duas pirogasPiroga de Madagascar.

Tive a impressão de pertencerem a uma raça muito pura de selvagens. Suas peles eram marrom-escuro, lustrosas e realmente brilhantes. Seus braços e pernas eram bem formados, e muito flexíveis, pelo hábito do esforço contínuo. Moviam-se com gestos livres e agilidade.

Suas feições estavam longe de serem desagradáveis, possuindo expressão vivaz e inteligente. Os cabelos negros azeviche, trançados com grande cuidado e limpeza, de maneira nenhuma desagradavam. As canoas* que conduziam quatro de cada vez, tinham 20 pés (≅ 6 m) de comprimento, eram muito estreitas e pontudas em ambas as extremidades. — * Pirogas.

Embora de aparência frágil, pois construídas de madeira mole*, eram na realidade muito seguras. Dois longos braços transversais, apoiados num pedaço sólido do mesmo material, que flutuam na água, fazem-nas equilibrar e evitam que emborquem. A maioria dos nossos visitantes estão quase nus, com exceção de alguns que, por vaidade e para apresentar proeminência, tomaram a iniciativa de se fantasiar, usando um casaco naval velho ou um boné. Às vezes, acrescentam uma dragona que foi descartada e uma profusão de pregos de latão ou botões. — *Andira inermis.

Ao serem acolhidos a bordo do navio, a descontração deles aumentou, passando a usar uma profusão de palavras em inglês, muitas das quais conseguiam pronunciar com grande clareza, mas sem conhecimento, pode-se supor, das conexões gramaticais. Um deles, que se anunciou como “Captain Long” (Capitão Longo), dirigiu-se a mim em tom absolutamente suplicante: “- Look here, you very good friend to me. I love you very well, all de same one fader. You speaky the captain.”* — * Olha aqui, você muito bom amigo para mim. Eu te amo muito bem, igual um pai. Você falar pro capitão.

Perguntei: – O que devo dizer ao capitão?

“- You speaky for me. He give me one cape.” — Você falar por mim. Ele me dá um boné.

Esse peticionário tinha dois irmãos, com o mesmo sobrenome, mas um era Young Long e outro Jem Long. Embora não estivessem a ponto de implorar, sem o menor escrúpulo ofereceram conchas para vender.

“- No, no get shell. Me big man, sing out: fellow, go get shell! Me have bullock, speaky the king, Prince Will.” — Não, não tem concha! Eu, grande homem, ordenar: companheiro, vai buscar concha! Eu ter boi, falar com rei, Prince Will.

Vários portavam suas azagaias ou lanças longas, que não hesitavam em trocar por penduricalhos, botões ou roupas de algodão.

Post - Foz OnilahyFoz do rio Onilahy, na baía de Santo Agostinho, situada 15 km ao sul da atual cidade de Toliara

Na parte da tarde, desembarquei numa aldeia junto a foz do rio* que se esvazia na baía de Santo Agostinho. As cabanas, cerca de 50, são bem construídas, de barro e bambu, mas tão baixas que é necessário vergar-se duplamente ao atravessar a porta. Ali encontramos o Prince Will, um pequeno coitadinho, em extrema velhice, com um dos olhos completamente tomado por uma espécie de fungo hediondo. — * Rio Onilahy, na província de Toliara.

Naquele momento, estava ocupado usando um estranho palavrório, por ocasião da visita de algum enviado de outro potentado, seu irmão, King Voose, cujo governo abarca o território do outro lado do rio. Seus títulos são aparentemente hereditários e sua autoridade, creio eu, subordinada à de King Baba, que reside a uma certa distância, no interior.

O “Príncipe Will” estava sentado no chão, sob a sombra de algumas árvores frondosas, no meio de um círculo formado por cem homens prontos para a guerra, também sentados de cócoras, alguns com mosquetes e todos empunhando lanças longas apontadas para cima. O soberano parecia totalmente absorto, tirando baforadas do seu cachimbo, e mostrava-se incapaz de tomar maior interesse pelo negócio conduzido por três ou quatro prepostos, que se sentavam ao seu lado.

Post - Mulheres de ToliaraMulheres de Toliara, na região da baía de Santo Agostinho (Madagascar).

Todos mantinham elevada gravidade na conduta e não deram a menor atenção à nossa presença. Muitas mulheres e crianças, que nos tinham acolhido ao desembarque, mantiveram-se à retaguarda, numa distância respeitosa, enquanto nos aproximávamos do círculo do poder. Mas, quando nos retirávamos para o retorno ao barco, novamente nos envolveram. Uma delas então perguntou:

“- King ship take queeny? Queeny come aboard?” — Navio rei leva queeny? Queeny vir a bordo?

O título Queeny é atribuído às suas mulheres, de modo geral.

Ao serem informadas de que seus desejos não poderiam ser atendidos, ficaram fortemente decepcionadas. Uma suposta falta de compostura e sem-vergonhice das mulheres, tal como está enraizada nos costumes daqueles homens, parece ser quase universal.

Post - Baie S Aug & Tent Rock
Entrada da baía de S. Agostinho: A – Rochedo da Tenda, ponto do desembarque; B – Rio Onilahy.

Na manhã seguinte, após nossa chegada, Prince Will, como era sua intenção, veio nos visitar, trazendo um séquito de acompanhantes. O capitão C. Wyvill, movido por sua natural boa índole, determinou que todas as cadeiras fossem colocadas em sua cabine, que logo ficou repleta. E não demorou muito a ser desfeito o suspense de quais seriam os propósitos da visita. Um homem jovem apresentou-se e, gesticulando muito, passou a pronunciar uma arenga sem pé nem cabeça, cujo objetivo mostrava-se bastante óbvio:

“- Prince Will very good friend to you. You very good friend Price Will. You come here catch water, catch bullock. Very good. Prince Will, him no got powder, no got clowty. Prince Will, him drink brandy.” — Príncipe Will muito bom amigo para você. Você muito bom amigo príncipe Will. Você veio aqui pegar água, pegar boi. Muito bom. Príncipe Will, ele não tem pólvora, não tem roupa de algodão. Príncipe Will, ele bebe conhaque.

Post - OstrasAlgumas conchas do oceano Índico (figura 18, harpa).

Nossos tombadilhos ficaram lotados, neste e nos dias seguintes, com os nativos trazendo conchas e outros produtos marinhos para vender – harpas*, búzios e caramujos –, em grande variedade. Também algumas melancias e abóboras. Um tal de Capitão Harribee, nativo vindo de Pullear Bay, distante cerca de 10 milhas (≅ 16 km), opôs-se ao negócio: – Não venda, ofereça de graça. E pediu uma garrafa e alguns panos, e, depois, enviou-nos de presente uma ave e uma cesta de ovos. Outro homem, que havia recebido um dólar espanhol por duas azagaias, foi indagado sobre o uso que faria do dinheiro. Respondeu: “- Tenho 10 dólares, compro escravo. Tenho um, dois, três escravos. Posso buscar água, trazer madeira.” — * As harpas, citadas pelo autor, não devem ser confundidas com o instrumento musical “harpa malgache” ou “valiha”.

A maioria dos nossos visitantes usavam, em torno do pescoço um pequeno pedaço de couro, pendurado a um colar de contas, entre conchas e outros ornamentos, ao qual denominam Mahommed (Maomé)(8), e nele confiam como amuleto para se protegerem da morte.

Daí, decidi perguntar a um deles: – Para onde vamos quando morremos?

Ao que respondeu: – Você morre, vai praia. Tent Rock (Rochedo da Tenda) ou outro lugar. Põe chão*. — * Põe no cemitério do rochedo da Tenda.

Emendei: – E nunca mais se levanta? Mas você vai morrer também.

Então, ele replicou: – Não, eu não morrer!

Continuei com Jem Long, a quem fazia as perguntas: – Você alguma vez orou a Deus?

Respondeu: – Malgache não ver deus, para que orar? — Quer dizer: deus não é palavra da língua malgache, para que orar?

O capitão da escuna Mauritius, um francês, transportando daqui uma carga de urzela(9), uma espécie de líquen que produz um fino corante, disse-me que os nativos desta parte da ilha pertencem à tribo chamada Secalaves. Ele também mencionou os “Baignemasaques”, os “Antolôtes” e outros nomes afrancesados. A principal diferença, entretanto, é a existente entre as tribos que habitam a maior parte da costa oeste e os Oovahs, que ocupam a parte norte da ilha e a totalidade da costa leste. Estes estão submetidos à soberania da rainha de Madagascar(10) e são muito mais civilizados. — Pelo reverendo Pascoe Grenfell Hill, capelão do H.M.S. Cleopatra.

—— Continua em “MEMÓRIAS DO MAR (II)”

Post - Paulo e VirgíniaUm naufrágio pôs fim ao romance de Paulo e Virgínia.

Post - Sumidoiro MARCAO paraíso de Dodô

Após o lançamento de Paulo e Virgínia, a ideia de um país das maravilhas ficou impregnada no imaginário dos leitores. Do mesmo modo, surgiu o interesse do reverendo Hill pela ilha, tanto que lá chegou com um exemplar debaixo do braço, ávido por confirmar o que havia relatado o autor. Como introdução, Saint-Pierre escreveu:

“… procurei pintar um território e vegetais diferentes da Europa. […] Eu desejei reunir à beleza da natureza entre os trópicos, a beleza moral de uma pequena sociedade. Eu me propus também por em evidência algumas grandes verdades […] Contudo, não me foi preciso imaginar alguma novela para pintar famílias felizes. Eu posso assegurar que as de que vou falar existiram verdadeiramente e que sua história é autêntica nos principais acontecimentos, os quais me foram confirmados por alguns habitantes…

… Felizmente, me lembrei o quanto a mim era estranha essa natureza do clima onde nasci; […] é ela rica, variável, magnífica e misteriosa. E quanto sou despido de sagacidade, de gosto, e de expressões para conhecê-la e pintá-la…”

A ilha já era conhecida dos árabes desde remotas épocas mas, pelos portugueses foi descoberta em 1507, por Pero de Magalhães. Quando esse navegador pisou em terra, deparou-se com uma ave que imaginou fosse um cisne – cirne, em português arcaico –, por isso batizou-a como ilha do Cirne.

O pássaro era um bípede engraçado porém simpático, cujo parentesco estava mais próximo dos pombos. Um bicho grandão, que chegava a 18 kg de peso e cerca de 1 metro de altura, não sabia voar e nem tinha medo dos humanos. Tão desajeitado, que os portugueses, sem dó nem piedade, disseram ser um pássaro “doudo”, ou doido. Daí, vingou o nome pelo qual se tornaria popularmente conhecido: dodô.

Post - Lewis & DodôLewis Caroll e Dodô – a ave que teve seu dia de “cisne” –, em pintura de Jan Savery.

Como os descobridores não se empenharam em assegurar a posse da ilha, em 1598 os holandeses assumiram-na como donos. Trocaram então o nome para Maurizius, homenageando Maurício (Mauritz) de Nassau. Contudo, desde o início, não agiram como colonizadores pois seus interesses eram imediatistas, ou seja, apenas com o objetivo de provisionar água e alimentos para suas viagens. Depois, passaram a dilapidar a fauna e a flora, principalmente retirando madeira de ébano. Também os dodôs, devido à sua natural fragilidade, foram cruelmente caçados. A espécie, autoctone da ilha, em menos de um século de perseguição, vítima de pedradas e pauladas, foi dada como extinta em 1681.

Em 1715, tendo sido abandonada pelos holandeses, os franceses a ocuparam o território e o colonizaram, trocando seu nome para Île de France (Ilha de França). Anos depois, em 1814, a ilha passou para as mãos dos britânicos, quando foi restaurado seu antigo nome, ilha Maurício, que permanece até hoje.

Na segunda metade do século XIX, Charles Lutwidge Dodgson – um matemático que gostava de escrever – e Dodô – uma réplica, claro –, se conheceram numa sala de museu, logo se identificando um com o outro, primeiramente porque o visitante era gago e, ao pronunciar seu sobrenome, sempre dizia: “Do-do-Dodgson”.

Entretanto, entre 1862-64, um pouco de alegria foi introduzida na história triste de Dodô. É que Dodgson teve a bondade de levantar o prestígio da ave, tornando-a personagem de “Alice no país das maravilhas”, livro assinado com o pseudônimo que ficou famoso: Lewis Carroll(11). Desde então, o desafortunado bípede, que havia sido banido da face da terra há mais de dois séculos, pelo gênio do autor inglês se eternizou na fantasia de crianças e adultos.

Post - Dodô & holandesesGravura mostrando os holandeses e dodô (n. 2) na ilha (detalhe).

O paraíso, melhor dizendo, a ilha Maurício tornou-se independente, em 1968, e república em 1992, fazendo parte da Commonwealth. Como país, seu nome é mais apropriadamente plural – Maurícias –, pois engloba as ilhas Mascarenhas orientais, qual sejam: Maurício e Rodrigues; e mais dois arquipélagos de ilhotas, ao norte.

Durante o processo colonizatório, pessoas de várias etnias conviveram e foram se amalgamando na ilha. Hoje, elas constituem uma sociedade multicultural e multilingual, falando principalmente o creole mauriciano – que é uma mistura de línguas africanas com o francês e o inglês.

Pois é! Os tempos mudaram, a ilha mudou, mas continua linda. Um verdadeiro país das maravilhas, lugar de veraneio, mas também de guardar dinheiro, bem entendido, um mui requisitado paraíso fiscal – para ninguém botar defeito.

• Clique com o botão direito e veja todos: “Memórias do mar” (I, II III e IV): II | III  | IV 

Tradução, pesquisa e arte de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

Ouça a língua malgache de Madagascar, aqui: 

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(1) HILL, Pascoe Grenfell – (Marazion, Cornwall, *15.05.1804 / London, †28.08.1882) – Bacharel em artes, em 1836; no mesmo ano sacerdote da igreja anglicana; em seguida, capelão da marinha, onde serviu até 1845. Escreveu vários livros, entre eles: “Fifty Days on Board a Slave Ship in the Mozambique Channel” (1843) e “A Voyage to the Slave Coasts of West and East Africa” (1849), ambos sobre o tráfico negreiro.

(2)WYVILL, Christopher (*06.05.1792 +29.01.1863) – Segundo filho de Christopher Wyvill. Alistou-se na marinha em 1805. De 1840 a 1847 comandou o Cleopatra, primeiramente estacionado nos Estados Unidos da América do Norte, depois no cabo da Boa Esperança, e trabalhou até 1856.

(3) Ilha Maurício – Supostamente inabitada até que, na Idade Média, os árabes ali aportaram, dando-lhe o nome de Dina Arobi, embora não se descarte presença anterior de outros navegadores. / Em 1507, os portugueses a descobriram e passaram a denominá-la ilha do Cirne (Cisne). Depois de algum tempo, perderam o interesse pela ilha./ Em 1598, foi a vez dos holandeses aportarem no mesmo lugar, estabelecendo uma base de apoio para suas viagens. Passaram, então a chamar a ilha de Mauritius, em homenagem a Maurício de Nassau. Em 1638, transformaram-na em pequena colônia, com intuitos estritamente exploratórios; em 1710, abandonaram-na. / Em 1710, os franceses, que já dominavam a vizinha Bourbon (hoje, Reunião), passou a controlar também a ilha desocupada pelos holandeses, renomeando-a como Île de France (Ilha de França). / Em 1810, chegou a vez dos ingleses se apossarem da ilha, que, de novo, trocaram seu nome: Mauritius ou, em português, ilha Maurício. De 1968 a 1992, fez parte da Commonwealth Britânica. Em 1992, a ex-colônia tornou-se república independente da Commonwealth Britânica.

(4) Em 03.02.1488, Bartolomeu Dias, depois de enfrentar fortes tempestades, conseguiu desembarcar em terras do “cabo do fim da África”, que foi designado pela primeira vez como cabo Tormentoso e, logo depois, das Tormentas. O antigo cronista João de Barros disse assim: “… houveram vista daquele grande e notável cabo, ao qual por causa dos perigos e tormentas em o dobrar lhe puseram o nome de Tormentoso, mas el-rei D. João II lhe chamou cabo da Boa Esperança, por aquilo que prometia para o descobrimento da Índia tão desejada.”

(5) Simon’s Bay (Baía de Simon) e Simon’s Town (Cidade de Simon) são nomes que se confundem, o primeiro refere-se à pequena baía que é parte de False Bay (Baía Falsa). Situam-se a leste da Cidade do Cabo. Na imprensa, é usual chamarem a cidade de Simon’s Bay.

(6) O romance Paulo e Virgínia foi escrito em 1787, e versa sobre o relacionamento afetivo de personagens que viveram no paraíso perdido da Île de France (Ilha de França e, depois, Ilha Maurício). O autor expõe uma visão nostálgica, mas pessimista da existência. Paulo e Virgínia são duas crianças, filhas de diferentes famílias, que são criadas como irmãos. Na adolescência, a amizade se transforma e surgem sentimentos amorosos entre os dois. Então, a mãe de Virgínia decide afastá-la de Paulo, enviando a moça para estudar na França e deixando Paulo a sofrer de amor e saudade. Alguns anos depois, Virgínia anuncia seu retorno à ilha, mas o navio, prestes a chegar, naufraga ao bater em rochedos próximos à praia, onde Paulo estava ansioso à espera da amada. O desfecho, também, é baseado em fato real, o afundamento do navio Le Saint-Géran, em 1744.

(7) Moçambique é um país situado no lado leste do continente africano. É banhado pelo oceano Índico. Atualmente, é uma república. Foi colônia de Portugal. Primeiramente, os portugueses conquistaram o controle da Ilha de Moçambique (o mesmo nome do país) – que tornou-se a antiga capital –, e da cidade portuária de Sofala, no início do século XVI. Em 25.06. 1975, Moçambique conseguiu a independência de Portugal.

(8) Mahommed – Abū al-Qāsim Muḥammad ibn ʿAbd Allāh ibn ʿAbd al-Muṭṭalib ibn Hāshim, mais conhecido como Maomé; também se diz Muḥammad, Mohammad ou Moḥammed (Meca, *c. 06.04.570 / Medina, †08.06.632). Líder religioso e político árabe. Segundo a religião islâmica, é o mais recente e último profeta do Deus de Abraão. Para os muçulmanos, Maomé, foi precedido em seu papel de profeta por Jesus, Moisés, David, Jacob, Isaac, Ismael e Abraão. E, por sua vez, Alá é o Deus de Abraão, Moisés e Jesus. Como figura política, Maomé unificou várias tribos, o que permitiu as conquistas árabes que formaram um império islâmico, tendo ele se estendido da Pérsia até à Península Ibérica.

(9) A urzela produz um corante de cor azul-violeta que, antes da invenção das anilinas sintéticas, atingia grande valor como tintura têxtil. O extrato da urzela, agora denominado orceína ou azul de tornesol, continua a ter ampla aplicação como contrastante em microscopia, também como base para indicadores químicos e bioquímicos.

Post - Ranavalona(10) Rainha de Madagascar (imagem à esquerda) – soberana do reino de Madagascar, de 1828 a 1861. / Mais conhecida como Ranavalona I. Seu nome quando nasceu: Rabodoandrianampoinimerina, mas também chamavam-na de Ramavo ou Ranavalo-Manjaka I (*1778 / †16.08.1861) – Ao assumir o trono, sucedendo seu marido Radama I, promoveu uma política de isolacionismo e auto-suficiência, reduzindo os laços diplomáticos e comerciais com os europeus. Fez exagerado uso da prática tradicional denominada fanompoana, qual seja, o trabalho forçado como forma de pagamento de impostos. O principal objetivo foi realizar obras públicas e criar um exército que variava entre 20 a 30 mil soldados, cujo objetivo principal foi expandir seus domínios. Durante os 33 anos de reinado, houve alta mortalidade entre civis e militares, devido a toda sorte de brutalidades com os que lhe eram submetidos, as péssimas condições de saúde e injustiças. Foi um dos períodos mais sinistros da história de Madagascar. Alguns historiadores têm dúvidas sobre até que ponto esteve envolvida na morte do marido e se teria chegado a envenená-lo, para então assumir o trono.

(11) DODGSON, Charles Lutwidge – (Daresbury, *27.01.1832 / Guildford, †14.01.1898) Lewiss Caroll era seu pseudônimo. Estudou matemática na Universidade de Oxford (Inglaterra), onde também lecionou desde os 22 anos de idade. Ensinou geometria, álgebra e lógica durante 33 anos e escreveu livros sobre o assunto. Foi também romancista, contista, fabulista, poeta, desenhista e fotógrafo. / No Museu de História Natural da Universidade de Orford, existe uma pintura de autoria de Jan Savery que retrata o pássaro. Nela se inspirou Caroll, para criar seu personagem do “país das maravilhas”.

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4 Comentários »

  1. Bela história Eduardo! Fico aguardando as outras partes.
    Um grande Abraço,
    João Vianna

    Comentário por jbvianna — 02/02/2015 @ 9:59 am | Responder

    • Olá João:
      Nos próximos capítulos serão maiores as emoções. Aguarde.
      Um abraço e muito obrigado do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/02/2015 @ 4:04 pm | Responder

  2. Beleza de leitura. O tema é apavorante: escravidão. Porém, a leitura me levou a conhecer uma ilha que me pareceu fascinante. Muito bom saber mais sobre o Dodô, que foi confundido com cisne… Eu só o conhecia mesmo de Alice no País das Maravilhas. Também não saiba que o lugar paradisíaco, de Paulo e Virgínia, era a Ilha Maurício. Cito essas, mas aprendi muito mais. Só tenho a agradecer. E agradeço também pelo brinde extra: o video com essa deliciosa música de Madagascar. Até a compartilhei.

    Comentário por sertaneja — 12/02/2015 @ 2:54 am | Responder

    • Virgínia:
      Da mesma forma, também vou pesquisando e aprendendo. O próximo Post, em continuação, também é muito interessante. O relato vai crescendo em emoções.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 12/02/2015 @ 8:25 am | Responder


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