Sumidoiro's Blog

01/03/2015

MEMÓRIAS DO MAR (II)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 12:03 am

♦ Patrulhando o oceano Índico

Pascoe Grenfell Hill(1) foi capelão da marinha inglesa. Em sua atividade, conheceu o tráfico negreiro que se fazia pela Carreira da Índia e escreveu dois livros sobre o tema. O primeiro – Cinquenta Dias a Bordo de um Navio Negreiro no Canal de Moçambique – vai publicado aqui, dividido em quatro partes.

Post - Cabo Boa Esperança gravuraCidade do Cabo, na costa oeste da colônia da Boa Esperança (do diário de Thomas Graham, 1849-50).

Em abril de 1842, o reverendo Hill saiu do Rio de Janeiro, acompanhando o governador William Gomm até a ilha Maurício. Retornando, fez escala na ilha de Madagascar, para depois seguir até a África do Sul. — PARTE II, sequência do Post anterior:

Letra Da baía de Santo Agostinho, o Cleopatra prosseguiu até a baía de Algoa, na colônia do cabo da Boa Esperança, o limite sul da nossa etapa de cruzeiro. Somente esse porto tem fácil comunicação com os distritos produtivos do interior da colônia. Suas principais exportações, durante o ano de 1842 – valor em £ –, foram: lã – 43,560; carnes de bovinos e equinos – 19,494; peles de cabra – 9,503; manteiga – 2,907; sebo – 2,899; chifres – 1,066; aloés – 5,644; marfim – 1,964.

A cidade de Porto Elizabeth tem para cima de 3.000 habitantes britânicos e cresce rapidamente em população e importância. Encontramos aqui 9 navios ingleses mercantes fundeados. Fiz uma visita a Uitenhage, a cerca de 20 milhas de distância (≅ 32 km), principal cidade do distrito de mesmo nome, à qual Porto Elizabeth pertence.

Está agradavelmente situada num vale fértil, protegido por uma cadeia de montanhas de pouca altura e banhada pelo rio Zerartkop. Cada casa tem seus quintais plantados com pessegueiros, macieiras ou pereiras, dando a aparência de um grande jardim. A população é de cerca de 2.000 habitantes, metade deles gente de cor, o restante principalmente holandeses, sendo que não chegam a cem os ingleses.

Post - Port ElizabethPorto Elizabeth e baía de Algoa (c. 1840).

O período de funcionamento do tribunal do júri se aproximava e as autoridades municipais de Uitenhage estavam fazendo a preparação para a visita dos juízes temporários. O senhor Brunett, juiz de paz, me informou que, desde a abolição da escravatura, a média trimestral de processos criminais para julgamento, nesta região, que tem 9.000 quilômetros quadrados e 11.000 habitantes, tinha caído de 25 para quatro. Nessa colônia, há de se lamentar apenas que a taxa de emancipação de escravos não foi expressiva, tendo em conta suas peculiaridades.

Aqui, a indenização proporcionada aos proprietários de escravos, devido à incompreensão por parte dos bôeres, ou mesmo a ânsia em esperar pelo pagamento, fez com que, muitos deles caíssem nas mãos dos corretores na Cidade do Cabo. Esses financistas se aproveitavam da situação, comprando os direitos por um preço muito menor. A insatisfação e a desconfiança ocasionadas por esta medida foram a causa de distúrbios que ocorreram na colônia, durante os últimos cinco anos. Agora, estão num nível elevado, como nunca se viu.

Post - Mapa Port ElizabethPorto Elizabeth e baía de Algoa, no lado leste da colônia do cabo da Boa Esperança.

O senhor Brunett manifestou à minha pessoa o alto desejo que havia, entre a população inglesa, no sentido de que fosse designado um clérigo para residir em Uitenhage. E mostrou-me uma boa casa com jardim, ocupada por um leigo catequista, ou professor, que acabara de deixá-los. Assim, de bom grado, serviria para abrigar um clérigo da igreja anglicana, que poderia se juntar a eles e, além do mais, poderiam contribuir, na medida do razoável, para seu sustento.

Lembro-me que o senhor Dickenson, juiz de paz em Stellenbosch, a 25 milhas (≅ 40 km) da Cidade do Cabo, tinha fala semelhante. Aquele senhor lamentou que, em vez de um mestre-escola enviado pelo governo, com salário de 230 £, por ano, para orientar os hotentotes (um povo nativo) sobre “oxigênio, hidrogênio, caloria latente,” etc., contudo, mais necessitavam de um clérigo para cuidar das questões da igreja, bem como dar a devida atenção à educação dos pobres. Esta é a dolorosa verdade na vasta colônia: a igreja anglicana ainda não está ali representada, embora tenham passado 37 anos, desde que foi transferida para as mãos dos ingleses.

NO RIO DOS BONS SINAIS

No seu retorno para o norte (nordeste), o Cleopatra navegou ao longo da costa africana e ancorou a 10 milhas (≅ 16 km) fora da barra do rio Quelimane*, nos primeiros dias de fevereiro. Logo depois, juntei-me a um grupo em um dos nossos barcos que se dirigiu para a cidade, situada a cerca de 8 milhas (≅ 13 km) rio acima, na margem esquerda. A água na barra, no momento da nossa travessia, estava bastante calma, mas, assim mesmo, uma brisa moderada encrespava o mar, com ondas que quebravam em grande extensão. — * Também chamado rio dos Bons Sinais; leia comentário ao final do texto. 

Post - Viagem II roteiroRoteiro marítimo: saindo de Porto Elizabeth, na baía de Algoa, e destino final em Quelimane. 

Os dois lados das margens do rio possuem densos mangues. Muitos barcos de fundo chato ficam ali abrigados e são utilizados para o transporte de negros até os navios negreiros, que esperam fora da barra. Pelicanos, maçaricos e outras aves marinhas voaram em torno de nós. Em dois lugares, vários hipopótamos lançaram suas cabeças à superfície e, com suas presas curvas, se assemelhavam a troncos retorcidos de grandes árvores.

Ao disparar um tiro na direção deles, mergulharam, resfolegantes e soprando água para cima. Sempre tive o desejo de ver um desses monstros em suas reais proporções, até que, observando uma ilhazinha – Pequena Banca –, logo no meio do rio, a cerca de 150 jardas (≅137 metros) de distância, apareceu um, pisando em terra seca. O animal logo nos percebeu e correu de um lado para outro, em incrível velocidade, apesar do seu enorme porte. Por instantes parava para nos observar e, ao mesmo tempo, decidir que rota de fuga tomar. Então, mergulhando n’água, aos poucos foi desaparecendo, mas a tempo de eu lhe dar um tiro, que não surtiu o efeito de penetrar sua grossa e dura carcaça. Em tamanho se assemelha ao elefante, mas as pernas curtas lhe dão a aparência de um porco.

Em Quelimane, fomos recebidos com hospitalidade pelo senhor Azevedo, um português rico, que toca um comércio considerável de marfim e ouro em pó. Afirma abominar a exportação de escravos, nesse ponto, divergindo com o atual governador do distrito de Quelimane, com a qual afirma ser ele conivente. Azevedo assegurou-nos ter informações confidenciais que, durante o presente e o mês seguinte, de quatro a seis navios negreiros podem ser esperados neste porto, com toda certeza.

Post - Casal no QuelimaneCasal inglês em excursão no rio Quelimane.

Os habitantes europeus de Quelimane não excedem 90 almas. As principais casas são bem construídas, em amplos terrenos murados. Campos de arroz ocupam um brejo em meio à área habitada, onde há numerosos casebres de barro habitados por escravos negros. Achei o arroz mais adocicado que o egípcio. Entretanto, cultivam apenas o suficiente para o consumo próprio. Como era de se esperar, a prevalência do tráfico negreiro, aqui, teve o efeito de tolher qualquer outro empreendimento.

A maior beleza do lugar é um grande bosque de imponentes coqueiros, que propiciam uma sombra deliciosa. As mangas são boas, embora sejam inferiores às de Maurício (ilha); as bananas são secas e sem sabor.

VIAGEM A SANTO AGOSTINHO

Mais ou menos em meados de fevereiro, o Cleopatra saiu de Quelimane para prover seu estoque de água na baía de Santo Agostinho (em Madagascar). Ao retornarmos lá, fomos recebidos sob aplausos, logo após a chegada, por Jem Bravo, Young Long e outros nossos conhecidos*. Contudo, ficamos aborrecidos pela insistência deles em nos vender, à força, pequenos novilhos magros por 10 dólares a cabeça. De fato, o preço justo seria 3 ou 4 dólares a cabeça, o que contribuiu para que fosse apressada nossa partida, tão logo terminou o abastecimento d’água . — * Dias atrás, haviam passado por Madagascar.

No dia 2 de março, saímos em excursão a um recife nos arredores, à cata de conchas, e quando retornávamos ao barco, depois de escurecer, percebi no horizonte, ao leste, uma notável coluna de luz, parecendo uma radiação. Nos dois ou três dias seguintes, a mesma coisa ainda era visível acima do horizonte, ao por do sol. Ficou evidente que se tratava de um particular corpo celeste, um cometa com cauda, medindo por alto uns 40 graus de comprimento, e deslocando-se do norte para o oeste.

Post - Porto NatalPorto Natal.

VIAGEM A PORTO NATAL

No dia 4 de março, deixamos a baía de Santo Agostinho, em direção a Porto Natal, desejosos de saber como andavam as coisas por lá, isso antes de nosso retorno já programado para Quelimane. Chegamos em Porto Natal no domingo, 12 de março, e ancoramos fora da barra.

Na manhã seguinte, cruzei a barra em um dos nossos escaleres que, na tarde anterior, ao ser quase tragado por uma onda, dele perderam-se dois remos. Disse-me o tenente Nourse, comandante da escuna Fawn, ancorada na baía, que num levantamento feito por ele, durante um ano, chegou à conclusão que, em média, só há condições de adentrar a barra doze dias a cada mês.

No momento, há cerca de 200 soldados a serviço, sob o comando do major Smith – parte no Point –, logo depois da boca da baía, onde um pequeno forte está erigido, e parte no Camp (quartel), a 2 milhas de distância (≅ 3,2 km). Nesse lugar, o mesmo oficial, com uma força de 100 homens enfrentou um cerco dos bôeres(2). A relação que existe entre as tropas britânicas e os insurgentes é no sentido da suspensão das hostilidades, embora nenhum reconhecimento da soberania britânica tenha ainda sido aceito pelos bôeres.

RETORNO A QUELIMANE

No dia 23 de março, o Cleopatra voltou a ancorar em Quelimane, fora da barra do rio e, no mesmo dia, enviou-se uma barca para subir até o porto da cidade.

Post - Igreja QuelimaneO rio Quelimane e a igreja de Nossa Senhora do Livramento (postal antigo & foto recente).

26 de março – Pela barca, que fora a Quelimane e havia retornado nesta manhã, chegaram notícias informando que, durante nossa ausência, o brigue High Majesty Lily tinha conduzido à força um navio negreiro até o porto e capturado dois outros, os quais foram depois conduzidos à Cidade do Cabo. Veio também uma carta do governador de Quelimane e Rio de Sena sobre o assunto, discorrendo num tom nada amável.

Discorrendo sobre alguns acontecimentos, o governador informou que, no dia 4 deste mês, o brigue de guerra português Gentil Libertador, ia cruzando a barra do rio ao amanhecer, quando perceberam uma embarcação se aproximando da praia. Estando o Lily ancorado do lado de fora, ao mesmo tempo de lá também a avistaram e, por isso, imediatamente levantaram âncora.

Percebendo que não podiam escapar, os pilotos prosseguiram em curso para a terra, onde encalharam às 7:30 h, a cerca de 6 milhas do porto (≅ 9,6 km). Um quarto de hora depois, o brigue português se apoderou da embarcação e hasteou a bandeira portuguesa no mastro.

O governador lamentou que, depois de terem os barcos do Lily cercado a presa, destruíram várias partes da embarcação. E que havia motivos para suspeitar que, se um cruzador inglês não estivesse na costa, o Gentil Libertador não teria interferido naquela tentativa de fuga do navio negreiro.

No relatório, o governador prossegue afirmando que, no dia 20 deste mês, as tripulações de dois barcos brasileiros – Desengaño e Confidência –, capturados pelo brigue High Majesty Lily, se entregaram, sendo que a metade foi conduzida à praia e a outra metade permaneceu a bordo do barco piloto, pertencente a este porto. Manifestaram, então, seu medo de ficarem perdidos num lugar despovoado e longe dos habitantes das cidade e, desse modo, expostos aos riscos de serem devorados pelos animais selvagens.

Post - Quelimane rio & cidadeRio dos Bons Sinais, praia de Palane (à direita) e cidade de Quelimane (ao fundo).

ENCONTRO INESPERADO

31 de março, sexta-feira – Na manhã de hoje, foi avistada uma vela, aparentemente de um bergantim*, singrando furtivamente ao sul do rio Quelimane. Ao meio-dia e estando o tempo calmo, tomei um lugar na barca que, junto com o escaler**, recebera ordem de partir com tripulação armada, a fim de vistoriar a embarcação ou, se não fosse possível, subir rio acima até Quelimane. — * Bergantim: embarcação de dois mastros / ** Escaler: pequeno barco.

Tão logo entrei no barco, uma leve brisa começou a soprar e foram abertas as velas. Depois de navegar algum tempo em direção ao ponto onde se avistou a embarcação, inesperadamente notamos dois ou três pontos a barlavento*, mais longe do que havíamos imaginado e, para nossa surpresa, dirigindo-se para uma fragata** que estava ancorada. — Na mesma direção que soprava o vento / ** Fragata: navio de guerra de três velas.

Ao mesmo tempo, percebemos um escaler se deslocando furiosamente naquela direção, denotando que pertencia a um brigue* de guerra português [não era uma  fragata, como havia pensado], ancorado dentro da barra. Parecia incerto, entre a nossa e aquela embarcação, qual venceria a corrida. Também observamos, com ansiedade, alguma movimentação do Cleopatra que agora contava com a brisa, tal como nós. Daí a alguns instantes, vimos o exato momento em que abriram suas velas, passando então a singrar majestosamente. Com isso, os marinheiros do bergantim se assustaram e viraram a proa para o vento. — * Brigue: navio de duas velas.

Assim, a corrida continuou entre nossas embarcações e as dos portugueses, até que um dos seus remadores, provavelmente com insolação, foi obrigado a largar seu remo e eles ficaram para trás. Com a noite se aproximando, nossos barcos foram forçados a abandonar a caçada, embora tenham mantido o mesmo curso durante uma hora e meia. Até que escureceu e, então, voltamos na direção do rio Quelimane.

Post - Cleopatra IIA fragata Cleopatra (aquarela de W. F. Mitchell).

No retorno, nos aproximamos do Cleopatra, que continuava a perseguição e, naquele momento, nosso oficial comandante quis se comunicar com a embarcação, supondo que iria parar. Então, descuidadamente avançando à sua frente e ficando junto à proa, notamos que estava mudando de rumo. Ao fazer isso, e por não terem percebido nosso barco na escuridão, a nave foi ganhando velocidade e vinha diretamente sobre nós. Em vão alertamos: “- Virem, virem o leme!” Não veio resposta e não havia como sairmos do seu caminho. E gritamos:“- Ela vem para cima de nós!”

Percebemos, então, mãos junto aos gurupés (mastros no bico da proa) e pedimos socorro: “- Joguem um punhado de cordas para nós!” Imediatamente, tirei o casaco e estava pronto para nadar mas, depois de alguma hesitação, se era melhor pular n’água ou esperar o choque ou a chance de pegar uma corda, senti que tinha me agarrado a uma delas. Em seguida, galgando o casco da embarcação, não sei como, vi a cabeça da rainha Cleopatra, a figura que ornava a proa da fragata.

Providencialmente, nosso barco foi percebido a tempo de virar os velames, fazendo com que a fragata pudesse recuar, antes que colidisse. Caso contrário, teria sido inevitável a destruição de quase todos nós. Daqueles que permaneceram no barco, só um se machucou e, ademais, somente o mastro principal foi quebrado. De novo, juntei-me aos companheiros da fragata e prosseguimos em direção à boca do rio.

Post - Negros corpos dcoradosNegros de Moçambique com os corpos decorados.

Por precaução, devido à escuridão da noite e com dificuldade de localizar a entrada, ancoramos fora da rebentação e, na manhã seguinte, pudemos receber carinhosas boas-vindas do nosso hospitaleiro amigo Azevedo, em Quelimane. Após o jantar, quando nos sentamos para desfrutar a fresca do anoitecer, debaixo de uma varanda, ele me perguntou: “- Monsieur Hill, voulez-vous voir un prince noir?”* Com meu aceite, demandou pela presença do personagem real, que logo apareceu com um séquito de uma dúzia de auxiliares, vindos de uma casa vizinha destinada a seu uso. — * Senhor Hill, queres ver um príncipe negro?

Era ele o chefe de uma tribo macua(3), cujos membros vivem a umas 200 milhas (≅ 322 km) no interior, sendo que ele trouxera ouro em pó e marfim para Azevedo. Tanto o príncipe quanto o seu grupo, todos usavam pouca roupa, braços e pernas eram ornamentados com pulseiras e tornozeleiras de pele de hipopótamo. Por terem lhes servido conhaque, ficaram grogues e apresentaram uma dança, cheia de graça e agilidade, tal como todas danças de negros que tenho assistido. A exibição era acompanhada por palmas e um coro vocal muito dissonante. Azevedo contou-me que, quando vão caçar elefantes, fazem o mesmo calculadamente, com o propósito de atordoar o animal.

Em retribuição a esse divertimento, o anfitrião colocou a tocar duas ou três caixas de música e a composição Black Prince (Príncipe Negro), que foi muito apreciada, tanto que o príncipe propôs barganhar quatro de seus auxiliares por uma delas.

VIAGEM PARA O NORTE

No dia seguinte, descemos o rio e encontramos o Cleopatra, outra vez ancorado na sua boca, tendo fracassado em perseguir o bergantim. Na mesma noite, levantamos âncora para ir à ilha do Fogo, cerca de 100 milhas (≅ 160 km) ao norte, onde, com frequência, navios negreiros procuram abrigo. Deixamos a barcaça e uma chalupa (barco de uma só vela) guardando a entrada do rio Quelimane.

Nada foi encontrado na ilha do Fogo, então, o escaler foi enviado para fazer averiguações nos pequenos rios ao longo da costa de Moçambique, até 100 milhas ao norte, sendo que, após infrutíferas buscas, ela retornou e se juntou ao nosso grupo. Em 10 de abril, segunda-feira, começamos a voltar rumo ao sul.

Post - Embarcando escravosEmbarcando escravos no navio negreiro.

SURPRESAS AO SUL

12 de abril, quarta-feira – Ao nascer do dia, novamente largando da ilha do Fogo, em retorno a Quelimane, o vigia, do alto do mastro principal, viu uma embarcação do lado em que soprava o vento, numa distância tal que a tornava quase imperceptível. Então, por motivo de sua localização levantar suspeitas, foram dadas ordens de perseguí-la. Nossa brisa estava fraca tornando-se logo ainda mais branda. Às 9 horas da manhã, foi autorizada a saída dos barcos e, em poucos minutos, a barcaça e o primeiro escaler, tripulados e armados, estavam saindo em direção ao suspeito.

Contudo, o tempo é tão instável nessa estação que, mesmo antes de os barcos terem se afastado 1 milha (≅ 1,6 km) do navio, despencou uma chuvarada com forte cerração, fazendo com que a caça sumisse dos nossos olhares. A chuva caiu torrencialmente e íamos navegando a 7 nós, ansiosos por ter a barcaça içada. Depois, ao clarear o nevoeiro, o sol surgiu forte e a imagem de um bergantim então revelou-se aos nossos olhos. Ao que parece, largaram todas suas velas durante a ventania.

Sucedeu uma brisa firme e passamos a sentir esperança de ainda ter sucesso da caçada. Subindo alguns degraus na escada de cordas, pudemos ver sob suas velas o casco estreito, preto, subindo e descendo. Agora, por estar a embarcação ao alcance do nosso tiro, um canhão foi montado no suporte de disparo. A bandeira inglesa, que já tremulava no nosso mastro, provocou a resposta ao longe, através de uma bandeira brasileira verde-amarela. Foi dado então o comando de “homens em forma” no tombadilho principal e mais o posicionamento dos canhões, quando, de repente, recolheram a bandeira do bergantim, baixaram as velas e fizeram uma volta, como se aguardassem nosso ataque.

Por consequência, também foram arriadas as velas do seu perseguidor. Mas, para nossa surpresa, logo vimos levantaram-se as velas do bergantim, para então navegarem em fuga noutra direção, transversalmente à nossa proa. Tempo não foi perdido e foram então dadas ordens para remanejar as cordas dos velames, de tal modo que fosse possível mudar rapidamente de direção. Ao mesmo tempo, comandaram aos atiradores tomar seus postos nos canhões.

Estando tudo preparado, o canhão mais avançado atirou e, depois de alguma expectativa, vimos a bala cair bem perto do alvo. Outra e mais outra foram lançadas, em rápida sequência, igualmente sem resposta do bergatim. E foram dados de 15 a 20 tiros, alguns à frente, outros ao lado e ainda para cima. O tempo todo, sem dúvida, estávamos a vencer o confronto e, sem chance de escapar, o inimigo entrou em desespero. Assim foi, até que arriaram as velas e a embarcação permaneceu imóvel.

Tão logo nos posicionamos ao seu lado, os nossos olhares esquadrinharam todas as partes do navio. Formas negras, despidas, movendo-se no convés, apagaram todas as dúvidas a respeito do que se tratava, revelando que havia uma carga humana a bordo. Para tomar posse do bergantim, foi então lançado ao mar um escaler com um oficial, que trocou a bandeira brasileira pela inglesa. O capitão Wyvill(4), a quem acompanhei, encaminhou-se em seguida e levou consigo um cirurgião, para inspeccionar as condições de saúde dos passageiros.

Post - Revolta escravosRevolta e confusão dentro do navio negreiro.

Ao adentrar o navio, presenciamos uma cena inusitada. O convés estava apinhado de negros nus que, pelo levantamento das anotações de bordo seriam 450, convivendo numa tremenda confusão, porque, antes da nossa chegada, haviam se revoltado contra seus opressores e estes, por sua vez, também denotavam forte ansiedade, aparentemente de natureza nada prazerosa.

Uma multidão faminta de negros magérrimos, havia se apoderado de tudo que lhes interessava na embarcação. Alguns, com as mãos cheias de farinha de mandioca, outros com grandes pedaços de carne de porco e de boi, furtados da despensa, e ainda aves das gaiolas, que devoravam cruas. Muitos estavam ocupados mergulhando trapos rasgados, que enfiavam nos barris de água.

Infelizmente, ainda havia aqueles que, por semelhante método, acessavam o conteúdo dos barris de aguardente, um forte rum brasileiro (cachaça), que bebiam em excesso. O acréscimo da nossa tripulação a essa multidão, mal deixava espaço para movimentar-se no tombadilho. A indescritível algazarra, contudo expressiva por traduzir uma alegria selvagem, era ensurdecedora e se misturava com o barulho das ferragens dos grilhões, que eram arrebentados por todo canto.

Parece que, desde que foi dado o primeiro tiro, todos trataram de se libertar, no que nossos homens também se apressaram em colaborar. Eu contei uns 30 acorrentados aos pares mas, da mesma forma, encontramos outros nos porões. Em nenhum momento, duvidamos do alívio que sentiram quando nos viram.

Eles vinham se arrastando aos montes e, com suas mãos, esfregavam carinhosamente nossos pés e nossas roupas. Até mesmo rolavam no convés, diante de nós, quando o espaço assim permitia. E, no momento que viram a tripulação do barco empurrando nossos inimigos aprisionados, sem cerimônia, para dentro do bote que iria transportá-los à fragata, soltaram um clássico grito de vitória e alegria.

Post - Porão do navioCarga humana amontoada no porão.

Daí, fizeram a contagem do número de negros, que somou 447. Deles, 189 eram homens, sem dúvida poucos passavam dos 20 anos de idade; 45 mulheres e 213 meninos. Entre eles, 25 era número de doentes. Depois, esse cálculo foi reconsiderado, pois mostrou-se aquém da realidade.

O capitão Wyvill propôs transferir cem deles para o Cleopatra.  Essa intenção, humana e judiciosa, foi contudo abandonada, pela equivocada suspeita de que alguns estariam infectados com varíola. Por fim, ficou comprovado que o barco que perseguimos, no dia 31 último, saindo de Quelimane, era esse mesmo. Seu nome, Progresso. Partira do Brasil e, segundo sua tripulação, agora se dirigia com destino ao Rio de Janeiro. Eram 17 os tripulantes e, excluindo uns poucos, de ótima aparência, fortes: três espanhóis, os demais portugueses ou brasileiros.

Haviam deixado a costa somente ontem, à tarde, e foram capturados por nós poucas horas depois de terem embarcado sua carga. O navio é de 140 toneladas; a largura do compartimento de escravos mede 37 pés (≅ 11 metros); a largura média, 21½ pés (≅ 6,5 metros); altura 3½ pés (≅ 1,0 metro). O capitão, se posso dar crédito ao que diz a tripulação, foi engolfado pelas ondas, enquanto embarcavam os negros. A falta de um escaler dá alguma veracidade ao relato. — Pascoe Grenfell Hill

—— Continua em “MEMÓRIAS DO MAR (III)”

Post - Sumidoiro MARCABons Sinais 

Nas crônicas “Décadas da Ásia”, do historiador João de Barros (*1496 †1570), há uma descrição da chegada de Vasco da Gama nas terras de Quelimane, em fins de janeiro de 1498. No que seria uma espécie de diário de bordo, diz de quando os primeiros habitantes subiram numa das embarcações. Foram “dous senhores desta terra […] vinha em sua companhia hum mancebo que, segundo eles acenavam, era doutra terra dij longe e dizia que ja vira navios como aqueles […] e aquy posemos um padram ao qual poseram nome o Padram de sam rrafael e jsto porque ele o leuava ao rrio dos boons signaes…” * — * … ao qual puzeram nome de Padrão de São Rafael e isto porque ele o levava (indicava) ao rio dos Bons Sinais.

Acrescentando que “disse hum dos negros que yão co eles (os dois senhores) per acenos a Vasco da Gama que em sua terra, que era dali longe vira nauios grandes como nossos…” Depois de regressarem à terra, os dois senhores mandaram “resgatos á frota huns panos d algodão que tinhão huas marcas d almagra (ocre avermelhado). E por essas nouas (novas) que Vasco da Gama achou neste rio lhe pos nome ho rio dos bons signaes…”

Post - Selo

O padrão de São Gabriel, em Quelimane.

O rio era chamado de Quá-qua, no dialeto local – o chuabo – mas, com a chegada de Vasco da Gama, ganhou o nome português de Bons Sinais. Muito tempo depois – no século XVII –, os britânicos percorrendo os caminhos da Índia, passaram a frequentar o rio dos Bons Sinais. Então, em convivência com os forasteiros, os nativos foram assimilando algumas palavras da sua língua.

Dizem que, certa feita, quando havia muita malária atacando os habitantes da região e, ao chegar nova leva de visitantes britânicos indagando sobre nome da terra, os nativos interpretaram mal a pergunta e responderam em “inglês”: “- Kill a man”, ou seja, “mata um homem”, referindo-se à malária, ou febre da costa, como costumavam dizer os europeus. Assim, teria nascido o nome do povoado, hoje cidade de Quilimane, como também outra designação do rio. Noutra versão dizem que, à mesma pergunta, responderam “kulimane”, que significa “estamos a cultivar”.

Contudo, segundo fontes mais confiáveis, Quelimame deriva do “swahili”, sendo que “kilima” é monte ou colina, e “ni” é verbo, para dizer são, ou dizer é. Desse modo, “Kilima-ni” seria um lugar no alto da colina.

Era costume dos portugueses instalar um marco nas terras descobertas. O primeiro na África foi uma cruz de madeira colocada no litoral angolano, em 1482, pelo navegador Diogo Cão, depois substituída, em 1483, por um monolito esculpido que recebeu o nome de Padrão de São Jorge. Do mesmo modo, Vasco da Gama, em 1498, instalou outro padrão numa colina, na margem esquerda do rio dos Bons Sinais (Quelimane), em fronte à praia de Palane. O monumento, encimado por uma cruz e os símbolos do conquistador, queria significar mais ou menos isto: Esta terra nos pertence, graças a Deus!

Meio século depois, o poeta Camões, relembrando sua viagem para o oriente (1553), falou do rio dos Bons Sinais e de sua passagem por Quelimane, quando também conheceu os então donos da terra, aos quais chamou de etíopes. No canto V, de Os Luzíadas, escreveu:

Post - Rio dos Bons Sinais . Camões

E foi, que já estando na costa perto / Onde as praias e vales bem se viam, / Num rio, qua ali sai ao mar aberto / Batéis a vela entravam e saíam: / Alegria mui grande foi por certo / Acharmos já pessoas que sabiam / Navegar, porque entr’elas esperamos / De achar novas algumas, como achamos. 

Etíopes* são todos, mas parece / Que com gente melhor comunicavam, / Palavra alguma Arábia se conhece / Entre linguagem sua que falavam / E com pano delgado que se tece / De algodão, as cabeças apertavam, / Com outro que de tinta azul se tinge / Cada um as vergonhosas partes cinge.

——— * etíopes: africanos.

• Clique com o botão direito e veja todos: “Memórias do mar” (I, II III e IV): I  | III | IV 

Tradução, pesquisa e arte de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

(1) HILL, Pascoe Grenfell – (Marazion, Cornwall, *15.05.1804 / London, †28.08.1882) – Bacharel em artes, em 1836; no mesmo ano sacerdote da igreja anglicana; em seguida, capelão da marinha, onde serviu até 1845. Escreveu vários livros, entre eles: “Fifty Days on Board a Slave Ship in the Mozambique Channel” (1843) e “A Voyage to the Slave Coasts of West and East Africa” (1849), ambos sobre o tráfico negreiro.

(2) Bôeres ou africâneres são os descendentes dos colonos calvinistas, principalmente da Holanda (35%), da Alemanha (34%), da França (13%), da Grã-Bretanha e de outros países europeus (7%), que se estabeleceram na África do Sul, durante os séculos XVII e XVIII. / A referência “cerco dos bôeres” tem a ver com a luta pela criação da África do Sul como nação independente. O primeiro conflito da guerra anglo-bôer ocorreu em Porto Natal e redondezas, entre maio e junho de 1842.

(3) Macuas-Lomués – É a etnia preponderante de Moçambique: 3 milhões de pessoas, em 1970. Várias populações, viviam sob o domínio de um “rei” ou chefe tribal, adeptos, em parte, da fé islâmica. Viviam semi-escravizados ou escravizados e podiam ser vendidos por seus senhores, principalmente os que viviam mais próximos à costa. Desse modo, foram transformados em mercadoria, que abastecia os traficantes negreiros. Eram agricultores e, como não podia deixar de ser, relutaram veementemente em serem submetidos à escravidão. A palavra macua tinha, por vezes, o significado de desprezível. De fato, na linguagem corrente, m’ makhuwa significa aquele que é selvagem, que come ratos, ou que anda despido. M’ makhwa significa também aquele que vem do interior do país.

(4) WYVILL, Christopher (*06.05.1792 †29.01.1863) – Segundo filho de Christopher Wyvill. Alistou-se na marinha em 1805. De 1840 a 1847 comandou o Cleopatra, primeiramente estacionado nos Estados Unidos da América do Norte, depois no cabo da Boa Esperança, e trabalhou até 1856. // O navio Progresso foi a primeira captura do Cleopatra e, depois disso, o capitão Wyvill continuou trabalhando, sem interrupção, no combate ao tráfico na região. Passados dois anos, o governador de Moçambique, deu-lhe plenos poderes, para facilitar suas ações. Em um comunicado ao Capitão Wyvill, escreveu: “Tendo sido informado que nesta costa, das ilhas de Cabo Delgado a Quelimane, está infestado de barcos de árabes e nativos, que são utilizados no transporte de escravos, assaltando os habitantes desta capital (a ilha de Moçambique) e que causam grande prejuízo na agricultura e comércio desta província, e não havendo meios suficientes, à minha disposição, para suprimir esses atentados contra as leis da humanidade, por esse motivo, em conformidade com a recíproca obrigação de executar o Tratado entre as Rainhas de Portugal e Grã-Bretanha, dou-lhe o poder de penetrar em todas as baías, riachos, rios e outros pontos desta costa leste, onde não existam autoridades portuguesas, para suprimir e capturar embarcações que estejam sendo usadas no comércio e transporte de escravos. […] 7 de maio de 1845 / Rodrigo Luciano D’Abreu de Lima – Governador Geral de Moçambique” – Fonte: “British and Foreign State Papers”, 1846/47, vol. XXXV, Parte 1, p. 322.

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2 Comentários »

  1. Uma grande quantidade de textos enriquecedores, porém extremamente tristes, mas não podemos ignorar o que é parte do nosso passado.

    Comentário por Jucilene Martins — 30/05/2015 @ 9:55 am | Responder

    • Jucilene:
      Sim, tristes mas ensinam.
      Muito obrigado,
      Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 30/05/2015 @ 12:23 pm | Responder


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