Sumidoiro's Blog

01/04/2015

MEMÓRIAS DO MAR (III)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 5:30 am

♦ Cinquenta dias no inferno

Pascoe Grenfell Hill(1) foi capelão da marinha inglesa. Nessa atividade, conheceu o tráfico negreiro que se fazia pela Carreira da Índia e escreveu dois livros sobre o tema. O primeiro – Cinquenta Dias a Bordo de um Navio Negreiro no Canal de Moçambique – vai publicado aqui, dividido em quatro partes.

Post - Caravana de escravosTraficantes conduzindo negros escravizados.

Em abril de 1842, o reverendo Hill saiu do Rio de Janeiro, no navio Cleopatra, acompanhando o governador William Gomm até a ilha Maurício. Terminada essa missão, participou da captura do navio negreiro Progresso, de bandeira brasileira, na foz do rio Quelimane (em Moçambique), com mais de quatro centenas e meia de escravos. 

A bordo do navio capturado, Hill descreve a viagem até o cabo da Boa Esperança. PARTE III, sequência do Post anterior:

Post - EmbarqueO primeiro embarque e o adeus à terra natal.

Letra Um espanhol de Barcelona, chamado Antonio Vallel, respondeu a uma pergunta que lhe fiz sobre seu trabalho: “- No hay quien manda; tan capitanes somos uno como otro,” ou seja, ninguém manda, tanto um como outro somos capitães. Esse homem e outro espanhol da Galícia, Sebastian Vicete (Vicente?), mais um português, chamado Manoel, tinham sido contratados para cozinhar para os negros e foram mandados de volta ao navio apreendido.

Tornava-se muito necessário um intérprete para a comunicação com os negros, no que tocava aos cuidados e à disciplina. Assim sendo, ofereci meus serviços durante a viagem, com o que o capitão Wyvill concordou. Às 7 horas da noite, encontrava-me com meu criado e minha maleta de viagem, embarcado no Progresso, velejando para o cabo da Boa Esperança. Os primeiros enviados a bordo foram os ingleses: um tenente comandante, um mestre assistente, um contramestre, um auxiliar de contramestre e nove marujos.

Durante a primeira vigília, a brisa estava leve e variada, as águas lisas e os negros, recentemente libertados, dormindo ou esparramados serenamente no convés. Seus corpos, magros e flexíveis, se entrelaçando em pequenos círculos, causavam surpresa. À luz do luar, parecia mais um confuso amontoado de braços e pernas, do que distintas formas humanas. Entretanto, aparentavam tranquilidade e, como era de se desejar, tudo corria muito bem. Mas a cena iria sofrer uma grande e terrível mudança.

Post - Embarque de escravosPreliminares no porto, antes do embarque no navio.

Cerca de 1 hora depois da meia-noite, o céu começou a nublar e um nevoeiro se espalhou pelo horizonte, na direção em que soprava o vento. Aproximou-se uma tempestade e eu, e demais pessoas que estávamos no convés, dela recebemos um aviso de alerta por alguns pesados pingos de chuva. Seguiu-se, então, uma cena de horrores impossível de ser completamente descrita.

Os marujos, tendo de usar as mãos para arriar as velas, na incerteza quanto a força da tempestade, encontraram as pobres e desamparadas criaturas deitadas no convés, obstruindo o necessário acesso às cordas. Isso fez com ordenassem a transferência de todas para baixo, o que foi prontamente obedecido.

Contudo, estando a noite bastante quente, os 400 miseráveis indivíduos, amontoados num confinamento de 12 jardas (≅ 11 m) de comprimento, 7 de largura (≅ 6,4 m) e 3 ½ pés (pouco mais de 1,0 m) de altura, rapidamente começaram a forçar seu retorno ao ar livre. Mas, ao serem empurrados de volta, o que também impedia os demais de saírem, a escotilha fechou-se sobre eles. A outra escotilha, na parte de trás do navio, estava fechada com uma grade de madeira.

Post - Amontoados no porãoNo navio, o porão dos escravos.

Assim, em meio àquele calor sufocante e contando com uma única entrada de ar, e, talvez, o pânico diante da situação inusitada, fez com que todos se juntassem. Com isso, grande parte do espaço ficou desocupado e eles se amontoando junto à grade, nela batendo em busca de ar, mas entupiam completamente a entrada. Pelejavam em forçar a passagem de ar pelas aberturas de 14 polegadas (≅ 35 cm) de comprimento e nada mais que 6 polegadas de largura (≅ 15 cm), e, em alguns casos, conseguiam.

Os gritos, o calor e, posso afirmar sem exagero, “a fumaça dos seus tormentos” que de lá subia, não pode ser comparada a nada nesse mundo. Um dos espanhóis alertou que a consequência seria muitas mortes: “- Mañana habrá muchos muertos.”

13 de abril, quinta-feira Santa – A previsão dos espanhóis, de ontem à noite, foi plenamente confirmada hoje pela manhã. Cinquenta e quatro corpos esmagados e mutilados foram içados do porão, levados ao passadiço e depois lançados ao mar.

Post - Escravos ao marLançando ao mar as vítimas da tempestade.

Alguns estavam em estado cadavérico provocado pelas doenças, outros feridos e ensanguentados. Antonio disse-me que alguns foram encontrados estrangulados, com as mãos ainda apertando a garganta uns dos outros e as línguas fora das bocas. Os intestinos de um deles estavam expostos. Na loucura e angústia do sufocamento, em sua maior parte foram pisoteados até perecerem, os mais fracos debaixo dos pés dos mais fortes.

Foi uma cena de horror vê-los passar por nós, com os membros enrijecidos, e cobertos de sangue e sujeira, para depois serem jogados ao mar. Alguns, ainda trêmulos, foram deitados no convés prestes a morrer. Tentando reanimá-los, jogavam-lhes água salgada e molhavam suas bocas. Antonio relembrou-me seu alerta de ontem à noite: “- Ya se lo dije anoche.”* — *Já lhe disse ontem à noite.

Ele próprio trabalhou ativamente, junto ao seu companheiro Sebastian, no socorro a esses miseráveis seres ainda viventes, agora libertados do confinamento lá em baixo. Distribuíram-lhes a refeição matinal de farinha e a ração de água – menos de meio litro – a qual sorviam com inconcebível avidez. Alguns, para bebê-la, ajoelhavam-se no tombadilho. De pé, corriam o risco de perder o equilíbrio e desperdiçar alguma gota do líquido. Sem dúvida, pelo choro e gritos noite adentro, as gargantas deviam estar extremamente ressecadas.

Post - Escravos no convésEscravos tomando ar no convés.

Ao cair da noite, tendo uma forte chuva refrescado o ar, a maioria dos negros foi para baixo, por vontade própria, e as escotilhas ficaram abertas para arejamento. Mas, daí a pouco, em tumulto começaram a retornar, enquanto as pessoas que estavam em cima, temerosas de que lotassem o convés, os repeliram, fazendo que voltassem. Houve então gritaria, empurrões e confusão.

O alçapão estava prestes a ser fechado sobre eles e, se o tenente comandante não tivesse dado ordens ao contrário, a mesma catástrofe da noite passada teria se repetido. Antonio, a quem chamei naquela emergência, manifestou-se horrorizado, dizendo: “- No soy capaz de matarlos como anoche.”* — * Não sou capaz de matá-los, como ontem à noite.

Entretanto, ao explicar-lhe que seria desejável que acomodasse melhor os que chegavam ao convés, tomou a si a tarefa com grande entusiasmo. À medida que os via subindo com desenvoltura, ele chamou minha atenção para suas peles, que estavam molhadas pela chuva: “- Estan frescos. No tienem calor, tienem miedo.” Não foi o calor que os fez subir para escapar do porão, foi o medo. E mostrou-me, com muita satisfação, como os acomodou, rápida e silenciosamente, afastados das cordas do navio e cobertos por grandes mantas. Disse então: “- Mañana no hay de morir ninguno.” Talvez e somente alguns dos que agora estão doentes.

14 de abril, sexta-feira Santa – Apenas um morto nessa manhã. Entre os que foram pisoteados na primeira noite, há três moribundos. Um deles, jovem e robusto, tão pavorosamente machucado estava, que não conseguia mover os braços e pernas. Sequer conseguíamos abrir seus olhos. Uma laranja espremida em sua boca, de quando em quando, parecia refrescá-lo.

Vi duas mulheres se afastando, sorrateiramente, de uma panela onde se cozinhava feijão para os negros. Desde a primeira noite, pela madrugada, parece que todas as mulheres se dirigiram calmamente para um beliche, providenciado especialmente para elas. Ficava situado entre a entrada do porão e nossa cabine. Isso era nada mais que um costume dos traficantes de escravos, ou seja, manter homens e mulheres separados.

Às 2 horas da tarde de hoje, um grande navio foi avistado a sotavento* (*para onde sopra o vento). Logo percebemos que se tratava do Cleopatra, vindo de Quelimane, onde fizera uma parada, no seu caminho para a Cidade do Cabo.

Post - No porãoNo porão, os sentimentos ficam amortecidos.

15 de abril (Véspera de Páscoa) – No mundo, não há espetáculo mais chocante da degradação humana, tal como a que se apresenta nesse navio. Parece que não há como presenciar uma cena tão angustiante, sem deixar marcas dolorosas no espectador. No primeiro momento, fica-se dominado pela dor, depois acostuma-se e os sentimentos são amortecidos. Isso talvez explique o motivo da aparente apatia diante do sofrimento dos outros, embora até os corações endurecidos tenham dificuldade em aceitar.

Antonio veio me dizer que ninguém morreu na noite de ontem, acrescentando: “- Bien arreglados no mueren.”* — * Bem cuidados não morrem.

16 de abril, domingo de Páscoa – Ao nascer do dia, estando o Cleopatra duas milhas (1 milha = 1,6 km) distante de nós, procuramos manter comunicação e rumamos ao seu encontro, sendo que, às 10 horas da manhã, acompanhei o tenente a bordo. Retornamos em um quarto de hora, trazendo um velho português, chamado Valeriano, para auxiliar no reparo de nossas velas, que eram desgastadas e frágeis. E, mais importante, juntou-se também a nós o cirurgião da fragata, uma agradável companhia, que procedeu ao exame dos doentes.

Na maioria dos casos, tratava-se de disenteria e feridas ulceradas. Um homem tinha profundas chagas originárias de açoitamento. “- Ele não pode valer muito,”– comentou o espanhol. E acrescentou: “Quando chegou aqui, além de acorrentado estava flagelado.”

Uma pobre criança, de 6 ou 7 anos de idade, havia perdido quase a totalidade do dedão do pé, comido pelos bichos-de-pé. Outro, tinha um grave ferimento na perna, causado por uma dentada de um dos seus companheiros. Várias dificuldades impediram que nos reuníssemos, no dia de hoje, para o Serviço Divino*. Nossa situação, sem dúvida, estava muito desfavorável em relação ao descanso do sábado. — * Serviço Divino (Divine Service): um entre vários cultos litúrgicos prescritos pela igreja anglicana.

Nossa situação, de fato, mostrava-se tão desfavorável quanto se possa imaginar para o repouso sabático. Agora, estou mais intrigado que nunca sobre o comentário do livro “Vida do reverendo John Newton”, de que ele nunca desfrutara de momentos mais doces de comunhão com o Senhor, quanto naqueles em que conviveu com os escravos, durante suas viagens pelas costas da África.

Post - Embarque na costa lesteEmbarque de escravos na costa leste da África.

17 de abril, segunda-feira – Praticamente uma calmaria. Num escaler, o Cleopatra enviou a bordo 50 meninos. Aparentavam estar atacados por varíola, mas confirmou-se ser apenas uma intensa coceira.

18 de abril, terça-feira – O vento continua muito fraco. Recebemos uma segunda visita pelos barcos do Cleopatra e recebemos mais provisões para os meninos acima mencionados, a saber: dois sacos de arroz, um de painço e boa quantidade de carne-seca de Montevidéu. Desse último produto, o Progresso tem armazenado o suficiente para alimentar os negros durante dois meses. Há também 600 sacos de feijão miúdo, pesando uns 28 pounds (≅ 12,7 kg) cada, uma grande quantidade de arroz de qualidade inferior e farinha de mandioca.

Abaixo do porão dos escravos, estão guardados 22 enormes tonéis de água, cada um comportando o equivalente a 1.200 ou 1.500 litros. O comprimento de cada um era de quase 2 metros. Havia fartura de provisões na despensa: armários trancados cheios de cerveja clara e preta, barris de vinho, licores variados, macarrão, “vermicelli”, tapioca da melhor qualidade, caixas de picles ingleses – cada uma contendo 12 potes –, caixas de charutos, uvas-passas moscatel, tamarindos, amêndoas, nozes, etc.

As gaiolas no convés estão cheias de frangos, galinhas e patos, e há onze porcos. À tarde, surgiu uma brisa e, aos poucos, foi refrescando. O Cleopatra, que vinha atrás, avançou passando por nós, tão perto que pudemos trocar acenos com nossos amigos que iam a bordo. Parecia que, de fato, estavam partindo de vez.

19 de abril, quarta-feira – Antonio, hoje, me fez um relato da sua fuga de Quelimane e da subsequente captura, quando fizemos a segunda perseguição. Os traficantes de escravos imaginaram que o Cleopatra, ali ancorado, seria um baleeiro norte-americano. Quando deram conta do equívoco e foram perseguidos pela fragata, em direção ao sul, tiraram proveito da escuridão da noite e mudaram de rumo. Navegaram para trás, tomando a direção norte, para ancorar entre Quelimane e a ilha do Fogo. Naquele lugar, iniciaram o embarque da sua carga, o que levou dez dias.

E acrescentou: “- Se não tivéssemos nos detido, durante um dia ou dois, esperando pelas provisões, teríamos escapado de vocês, definitivamente. Na mesma noite em que nos afastamos da costa, vimos luzes de um navio e tentamos nos afastar do seu caminho, mas havia pouco vento e, ao amanhecer, subi ao mastro principal e ‘descubrimos la fragata'”.

Os negros que compunham a carga – afirmou o espanhol – estavam em estado muito doentio – “mala esclavitud” –, quando embarcaram. Tinham esperado na costa, por dois ou três meses, a chegada do navio. Alguns deles tinham vindo de longe, no interior, e foram recebidos em estado deplorável, sendo que 50 foram rejeitados pela má condição física para viajar.

O navio, disseram, tem capacidade para transportar 500 deles, “bien arreglados y acomodados.”* Embora sejam pouco confiáveis as opiniões dos comerciantes de escravos, perguntei-lhe se achava que o tráfico negreiro seria abolido. Antonio, apontando o dedo indicador para o olho, silenciosamente balançou a cabeça, negativamente. — *Bem cuidados e acomodados.

Sebastian manifestou que, no Brasil, havia grande dificuldade em extinguir o tráfico, pois muitas enseadas isoladas ofereciam facilidades para quem se aventurava em toda sorte de contrabando. Seriam enormes as dificuldades para suprimir o tráfico mas, por outro lado, se autoridades dos governos se engajassem nessa causa, muito poderia ser feito.

Post - AnúncioSimples mercadorias: vende-se negros (“Diario do Rio de Janeiro”, 01.07.1821).

Em Havana, observou, onde por muitos anos trabalhou nisso, certa feita viu 20 “negreros” ancorados na baía, ao mesmo tempo, e dois ou três partindo durante o dia. Agora, devido aos zelosos esforços do governador, mais nenhum se vê entrando. Em Quelimane, pelos seus cálculos, oito ou nove navios fazem carregamento durante o ano, em média, e, considerando por baixo, 500 indivíduos levam em cada um.

E acrescentou: “- Mas, agora, ninguém escapa. Es una carrera de hombres perdidos.”* Dois navios, como foi antes mencionado, foram apreendidos e, um outro, foi conduzido à costa pelo Lily. O Progresso perfaz a quarta captura deste ano. Dizem, contudo, que um escapou algumas semanas depois e é duvidoso que o lucro tenha compensado a perda dos quatro outros. — * Mas, agora, ninguém escapa. É uma corrida de homens perdidos.

Na costa leste da África, o pagamento pelos negros é usualmente feito em dinheiro, algumas vezes em fazendas de algodão cru, ao custo de uns 18 dólares por homens e 20 por meninos. No Rio de Janeiro, o valor pode ser estimado em 500 mil réis ou £52 por homens; 400 mil réis ou £41, por mulheres; 400 mil réis ou £31, por meninos. Desse modo, num carregamento de 500 escravos, apesar do preço vil, o lucro ultrapassa as £19,000.

“- Es um comercio terrible” –, lembrou Antonio. O epíteto, assim aplicado por ele ao comércio e tomado ao pé da letra, embora incontestável é apropriado, mas estaria longe de expressar seu pensamento, qual seja, de que é extremamente lucrativo. Como demonstra a contabilidade do Progresso, a tripulação é remunerada numa média de 25 mil réis, cerca de £2,12, por mês; sendo acrescido um prêmio – nas palavras dos espanhóis – de 500 mil réis, para cada um, se a viagem for bem sucedida.

Ambos (Antonio e Sebastian) estão sofrendo de febre da costa, contra a qual lutam corajosamente. Manoel, o cozinheiro português, ao contrário, foi tomado de desânimo e trocou apertos de mão com os marujos, dizendo que ia morrer.

Post - Desembarque RioNo Rio de Janeiro: contabilizando negros saídos do navio.

20 de abril, quinta-feira – Um negro morreu esta manhã por ter se empanzinado com comida seca e feijão cru. Quando o cadáver foi jogado ao mar, havia calmaria e o corpo flutuou por mais de meia hora, com o rosto voltado para cima d’água, muito perto do navio e, de quando em quando, batendo na lateral. Enquanto isso, ficamos o tempo todo apreensivos com a eventual aproximação de um tubarão, que poderia abocanhá-lo.

De repente, outro negro caiu no convés, sofrendo violentas convulsões. Seu olhar ficou estático, os lábios contraídos, e imaginamos que ia morrer. Porém, um dos seus companheiros, que falava um pouco de português, contou-nos que o ataque foi ocasionado por ter fumado uma porção de tabaco, enrolado em um pedaço de pano velho. Depois de conseguir engolir um pouco d’água, sentiu-se imediatamente aliviado e deitou-se para dormir.

Uma tenda foi erigida no convés, para abrigar os doentes, e outra para as mulheres, que tiveram seu compartimento no porão utilizado como despensa. Os doentes são amiúde importunados pelos demais, que não têm motivos para estarem ali e, não obstante, provocam ferimentos empurrando ou pisoteando as pobres e indefesas criaturas. Mas é de se supor que, nas suas próprias condições de miserabilidade, não encontram espaço para comiseração com os companheiros de infortúnio.

O grande sofrimento físico de todos parece ser uma intensa, insaciável sede… και εν τω ομοιω καθειοηκει το τεπλεον και ελασσον ποτον. Depois das chuvas, pegam avidamente os pingos d’água das velas, esfregando os lábios nos mastros molhados e também rastejam até os viveiros, para compartilhar os alimentos colocados para as aves. Vi alguns doentes lambendo o piso do convés, quando era lavado com água salgada.

Hoje, o jantar deles consistiu de quatro pacotes de feijão e dois de arroz, bem fervidos juntos, propiciando um copioso repasto. É distribuído em tinas, em volta das quais ficam sentados, em grupos de dez e, a um sinal, começam a enfiar as mãos na mistura, levando o conteúdo às bocas com grande destreza, sem pressa exagerada ou voracidade.

Vários garotos mais jovens, voluntariamente, se juntaram na parte posterior do convés, junto à nossa cabine, de onde não se afastam nem durante a noite, quando têm um velame jogado sobre eles. Seus nomes: Macarello – que parece não ter mais que 6 anos de idade –, Quelinga, Carrepa e Catula.

23 de abril, domingo – Tempo sujeito a rajadas e mar revolto impediram qualquer tentativa de realizar o Serviço Divino. Para afastar maus pensamentos, recorri a alguns livros que, apressadamente, coloquei na mala quando deixei a fragata Cleopatra. O primeiro que veio à minha mão, um volume de “Mr. Newman’s Lectures”, transportou-me imediatamente àquele momento em que, dois anos atrás, vivia esta mesma estação do ano.

Na tarde do domingo de Páscoa, de 1841, ouvi a pregação do autor (Mr. Newman), na igreja de Saint Mary, sobre a paixão de Nosso Senhor e passei a noite do mesmo dia junto a um amável e hospitaleiro grupo de pessoas, em volta da lareira de Mr. Palmer, do Worcester College. O livro de poemas “Keble’s Christian Year”, meu constante companheiro, não apenas dessa, mas de todas minhas perambulações pelo mundo, propicia-me um “tesouro de doces pensamentos”, em todos os momentos e circunstâncias.

Longe, bem longe, o saudoso marinheiro do lar preserva,
Tuas perfumadas recordações,
Guardadas em pétalas de flores, formando precioso livro, 
Para confortar e trazer alívio,
Aos corações tão cansados dessa agitação do mundo .

— Uma espécie de oração para usar no mar.

25 de abril, terça-feira – O pobre coitado, que havia resistido 12 dias bravamente, desde que foi machucado na primeira noite, livrou-se hoje de suas misérias e, quando foi lançado ao mar, afundou feito chumbo. Exatamente agora estamos no trópico, tendo percorrido somente 350 milhas (≅ 563 km) da nossa viagem. O tempo muito se assemelha com o que se encontra na linha do Equador mas, nesse momento e nessa estação, pouco se pode prever.

Post - TubarãoUm tubarão, um susto e um bom almoço.

“- Vi um tubarão senhor” –, disse-me um marujo, hoje pela manhã. “– Duas vezes maior que você, nadando ao lado do navio.”  Um grandão foi capturado logo depois e, misturando-o com farinha, fizeram uma refeição para os negros, muito apreciada, pois assim nos pareceu. Havíamos ficado apreensivos ao abrir o monstro, suspeitando encontrar restos dos negros falecidos, mas o estômago estava bastante limpo, explicando a voracidade com que atacou a isca, tão logo foi lançada.

Meia hora depois, foram retiradas as entranhas desse tubarão e a cauda cortada. O procedimento ocorreu sem que se notasse nenhum reflexo do animal, pois mesmo antes de içá-lo a bordo, acreditávamos que havia morrido afogado. Entretanto, quando lhe jogaram um balde de água salgada, para limpar o sangue impregnado na carne, começou a se debater no convés, mordendo tudo que conseguia alcançar, como se estivesse em pleno vigor. Tal fato, faz acreditar naquelas histórias exageradas que eu já ouvira, sobre tubarões capturados e que tiveram as entranhas retiradas, mas que, quando jogados de novo ao mar, saiam nadando como se nada tivesse acontecido.

26 de abril, quarta-feira – Seis dos ingleses, inclusive eu, estamos com sintomas de febre. De todos, só os espanhóis em um grau mais severo. Avisaram que Manoel – o cozinheiro português –, hoje de manhã, começou a delirar e, talvez, não sobreviva até o fim do dia. Fui vê-lo no alojamento masculino, onde repousava numa cama estreita.

“- Camara de marineros” – disse Sebastian – “es como casa de puercos.”* — * Camarote de marinheiros é como chiqueiro.

– Como está, Manoel, – perguntei.

“- Ah! Ave Maria puríssima! Si escapo esta noche, no sè: es segun el Biscayno.”* — * … Se escapo esta noite, não sei: é segundo o Biscayno (aquele que é natural do país Basco).

– E quem é o “Biscayno”?

“- Era un Biscayno que venia con nosotros, que cayó enfermo y dijo que iba morir y, en efecto, murió. En estas calenturas de la costa de África, es menester que no se acobarde; que se uno se acobardar, en quatro dias muere.”* — * Era um Biscayno que vinha conosco, que caiu enfermo e disse que ia morrer e, de fato, morreu. Nestas febres da costa da África, é necessário que não se acovarde, que, se alguém se acovardar, em quatro dias morre.

O português não podia reconhecer mais ninguém. Ao perguntar se me conhecia – Quem sou eu? –, respondeu: “- Sim, o tubarão.” Talvez pensando nas vorazes mandíbulas que logo iriam abocanhá-lo.

Às 2 horas da tarde, ele faleceu. Acomodaram o corpo em um saco costurado, com uma chumbada para fazê-lo afundar e, depois, o levaram para a popa, onde os ingleses e os espanhóis aguardavam. Durante a cerimônia fúnebre, li o texto indicado para uso no mar: “entregando seu corpo às profundezas, para que se desintegre e esperando pela sua ressurreição, quando o mar devolver seus mortos e a vida, no mundo que virá.”

Naqueles que foram chamados para a elevada esperança do cristianismo, recai o aumento de responsabilidade ou a “condenação maior”, que pode surgir pelo mal uso do privilégio. Ele há de se pronunciar, e é quem irá julgar os segredos de todos, no último dia.

Sexta- feira, 28 de abril – No meio da última noite, estando a gritaria maior que o usual, peguei uma lanterna e acordei o Capitão Pequenino – um menino –, intitulado “capitão” pela sua capacidade de falar algumas palavras em português. Contou-me ele a causa do alvoroço: “- Estão roubando água.”

Desci ao depósito de escravos, acompanhado de um espanhol e um marujo inglês, que surpreenderam sete dos líderes do roubo de água dos tonéis. As tábuas compridas e soltas, que forram o compartimento, tinham de ser diariamente removidas para acessar a água e as provisões. Mas, os predadores noturnos, formando uma pilha de gente, fazia o mesmo, sem se importarem de machucar uns aos outros.

O resultado danoso da delinquência não era apenas a água subtraída, mas também sua contaminação pelos trapos que mergulhavam nos tonéis. Os meninos ficaram aflitos, querendo se eximir de qualquer culpa do que faziam os homens e gritavam, na sua linguagem: “- Ouishi, ouishi no capean!”* — Os meninos não roubam!

Esta manhã, os culpados foram amarrados com pedaços de corda nos cabos que se ligam ao mastro e receberam de 15 a 20 chibatadas. Um espanhol, um inglês e um negro forte revezaram na tarefa. Seis dos negros mais capacitados foram escolhidos para ajudar, tensionando as cordas e, para essas coisas, estavam nomeados capitães marinheiros. Encarregados de vigiar bombordo e estibordo, se diferenciavam por um colete de lona tendo um borrão de tinta nas costas.

Sua aparência inusitada e falta de jeito provocava risos entre a tripulação. Mas lembrou um marujo ao seu companheiro: “- Temos que ter mais pena desses infelizes do que temos sentido.” Replicou outro: “- Ora, mas não temos por nenhum outro! Então deixa pra lá.”

Mesmo os mais respeitosos pareciam estar propensos a ver, nessa infeliz raça, uma ordem de seres inferiores. Como se o Todo Poderoso não tivesse “feito de um só sangue todas as nações, em toda face da terra.” Assim é que temos ouvido: “- Isto tem que morrer; aquilo está morrendo; aquele sujeito não pode viver.”

Finalmente, estamos tendo o luxo de uma brisa fresca, depois de uma quinzena de calmarias ou ventos variáveis. Cardumes de golfinhos têm dado saltos ao longo de ambos os lados do navio, espumando a água com surpreendente rapidez. Ou mesmo saltando no ar e, a cada minuto, cruzando a proa, onde os marujos se empenham em arpoá-los, embora sem sucesso.

29 de abril, sábado – Na noite anterior, fui acordado com o ruído de velas sendo recolhidas, em meio ao barulho de trovoadas e raios, tão luminosos que nunca havia visto iguais, em nenhum lugar. Eram lampejos atrás de lampejos, repetidamente, azul, vermelho e um branco ainda mais deslumbrante, que fazia meu olhos cerrarem. Iluminavam cada objeto no convés, tão claramente quanto à luz do meio-dia.

Post - TempestadeO navio no meio da tempestade.

Todos os ventos do céu pareciam ter se desprendido, na medida em que sopravam, alternadamente, nos quatro cantos em torno de nós. Os clamores de agonia dos doentes e decrépitos alojados no porão, se misturavam ao rugido da tempestade. Pela manhã, surgiu uma forte ventania que nos empurrou para o norte. O mar revolto mostrou-se muito perigoso para qualquer manobra na tentativa de mudar a direção. Por ser o navio extremamente largo e não ter condições de romper n’água com facilidade, fomos obrigados a ficar parados desde o meio-dia.

O balanço e o rangido faziam imaginar que tudo iria se transformar em pedaços. A tenda feminina, no convés, desmantelou-se e o telhado caiu formando uma pilha de tábuas. Uma mulher foi encontrada morta debaixo das ruínas. Na opinião do cirurgião assistente, morreu por uma pancada, sem aparentar doença.

30 de abril, domingo – O vento arrefeceu mais cedo do que esperávamos, mas as ondas do mar continuavam tão altas que impediram que nos reuníssemos para o Serviço Divino. Nesta tarde, estamos de novo começando a avançar no oceano, na direção desejada.

1º de maio, segunda-feira“May-Day”(2), data que em nosso clima (hemisfério norte) anuncia o verão. Neste hemisfério (sul) marca o início do frio. Os negros nus já estavam começando a tremer e seus dentes a bater. Nessas condições, as mulheres portavam um lenço ao redor da cintura. É um novo sofrimento, acrescentado às outras calamidades que o destino reservou a esta raça.

Post - May-dayPau do “May-day”: em gravura e pintado por Goya (pau de sebo no Brasil).

Se depararmos com mau tempo ao atingir as latitudes mais frias, nas proximidades do cabo da Boa Esperança, como é provável que aconteça, o aumento do infortúnio e da mortalidade será a consequência.

3 de maio, quarta-feira – Voltou a ventania pelo sudoeste, embora com menos violência que antes. Estamos parados, com várias velas derrubadas pelo vento. Agora, sentimos muito frio. Na manhã de hoje, sete negros foram encontrados mortos e, entre eles, havia uma menina.

4 de maio, quinta-feira – O vento, tal como seu predecessor, rugiu por 24 horas e abateu-se hoje. Agora temos ventos suaves, aparentemente transformando-se em calmaria.

5 de maio, sexta-feira – O Capitão Pequenino, que tem também o nome português Luiz, discretamente procurou-me, esta tarde, e disse: “- Senhor, estão roubando aguardente lá embaixo.” Eu não podia compreender como isto seria possível, já que, para evitar prejuízo, todo o conhaque do porão fora inventariado no começo da viagem.

Tendo comunicado o fato ao tenente, acompanhei dois espanhóis ao porão dos escravos e surpreendi um grande número de negros retirando o conteúdo dos barris, fazendo uso, como de costume, de velhos trapos. Viu-se que, num deles, havia água. Noutro, menor, que Luiz imaginou ser de aguardente, havia vinagre.

Castigo sumário foi infligido a oito deles, que foram pegos em flagrante. À luz do luar, cada um recebeu cerca de 18 chicotadas e, depois, foram acorrentados aos pares, antes de serem enviados para baixo. Assim, confirmou-se que nem tudo que começa bem pode ao fim dar certo.

O soar dos ferros batendo, que vibravam com musicalidade nos ouvidos, o mesmo de quando capturamos o navio, agora se repetia, mas, desta feita, com as marteladas para colocar arrebites, depois da flagelação. Certamente, o resultado da transgressão é altamente provocador, já que, por inúmeras vezes, em vez de água pura, temos de retirar das barricas seus trapos pútridos.

Por outro lado, ninguém pode dizer, salvo quem já passou por isso, a angústia da sede que pode excitá-los nesse quente porão. Muitos deles costumam estar febris, vitimados por doenças mortais. As suas rações diárias de água são de aproximadamente ½ pint (0,29 l, um copo grande), pela manhã, e a mesma quantidade ao anoitecer, que é o máximo que podemos lhes oferecer.

6 de maio, sábado – As duas tendas erigidas no convés para mulheres e doentes, embora tenham sido um excelente auxílio durante o tempo quente, deixaram essas pessoas mais desabrigadas ao passarmos pelas regiões mais frias. Os demais, que foram para baixo, ficaram mais confortáveis, até que o tempo amainou, propiciando bem-estar a todos. Nesse meio tempo, a tenda dos doentes foi devidamente reconstruída.

Muitos negros trazem no peito, ou nos ombros, incisões de letras que, disse-me Antonio, são marcas de seus respectivos donos. Desse modo, à chegada do navio ao Rio, eles podem reconhecer suas propriedades. Um agente ou “fattore” (feitor), em Quelimane, mantendo correspondência com os mercadores do Rio, informa a provável chegada do navio, de modo que preparem os meios de transporte da encomenda.

A condição do negro, acrescentou, é muito pior no Rio, onde vive maltrapilho e miseravelmente, “como um escravo (!)”, pior que em Havana, onde frequentemente é mais bem vestido que muito branco.

7 de maio, domingo – No Serviço Divino de hoje, meu grupo de fiéis perfaz dez pessoas: três oficiais, cinco marujos e dois meninos.

9 de maio, terça-feira – Ontem, à noite, soprou uma ventania do oeste trazendo chuva e, esta manhã, forte tempestade. Giramos contra o vento, como antes. As primeiras imagens do convés, que chegaram aos meus olhos, foram as de três mortos estendidos no chão. Um homem, esmagado sob uma bobina de corda, causava uma assustadora e terrível impressão. E também o pobre menininho, com os seus bichos-de-pé, aquele que suportou os sofrimentos com grande paciência; e ainda uma mocinha que, ontem, tinha seus olhos completamente cerrados, em consequência de uma inflamação na cabeça.

Durante algum tempo, suas vidas foram nada mais que um fardo a carregar e não tinham mesmo como ir em frente, mas as tiveram certamente abreviadas pela inclemência do tempo. Sempre que olhava para a escada posterior de acesso ao porão, várias vezes pensei que ali estaria parte de um corpo, entre duas tábuas soltas, semi-encobertas por outros deitados nela. Mas acabava aceitando que seria um balde ou um pequeno barril. Por fim, constatei que, de fato, era o corpo de uma mulher, que ontem esteve queixando-se de dores nos intestinos. Sua aparência era saudável, esbelta e em plena juventude, aparentemente com 18 anos de idade.

O tempo, ontem à noite, obrigou a descer as escadas todos que foram capazes e essa mulher, provavelmente, sofreu uma queda. Teria caído uma grade de madeira na sua cabeça, provocando a queda de uma altura de cerca de 6 feet (≅ 1,80 m). Para evitar a repetição disso, uma tábua foi colocada a meio caminho, fazendo de corrimão, para facilitar a descida. Na noite de hoje, o vento está claramente amainando. As tempestades que enfrentamos, embora formidáveis, até agora foram de breve duração.

11 de maio, quinta-feira – Fui chamado ao convés, logo após a 6 horas da manhã, para apreciar à mais esplendorosa alvorada que já vi. O céu inteiro estava enfeitado por faixas paralelas de nuvens, pouco densas, de modo a permitir que o sol fosse aos poucos penetrando e tingindo o inteiro cenário com uma luminosa e flamejante cor. No leste, os matizes eram mais intensos, variando num riscado de linhas verdes e amarelas. De repente, o sol ergueu-se, vermelho em fogo sobre as ondas. Embora lindo, certamente era um amanhecer ameaçador, pressagiando um dia conturbado.

Nuvens estavam se erguendo por todo o horizonte e a brisa que, até então, estava suave e constante, gradualmente tomou a velocidade de 9 nós. Ao meio-dia, houve correria para recolher as velas e, às 2 horas da tarde, estávamos envolvidos numa tempestade mais pesada que qualquer das anteriores. Se tivéssemos prosseguido navegando, ou perdido alguma das velas remanescentes, e já que não havia outras, o risco estaria iminente.

Ao anoitecer, ficamos felizes com o comunicado do timoneiro*, de que “o coração da tempestade se quebrara”. Entretanto, um nevoeiro amarelado encobriu o por do sol e o vento continuou a soprar com mais intensidade que nunca. Rajadas de vento sucediam-se, umas após as outras, e, cortinas de água turvavam a visão do timoneiro. Ondas elevando-se a grande altura sobre nós e lançando as espumas para o céu, amaçavam engolir o navio a qualquer momento. — * Timão: a roda ou a barra do leme; timoneiro: aquele que governa a embarcação.

A embarcação, no entanto, inclinava suas laterais para ir vencendo o mar encapelado e, depois, num salto, recuperava seu caminho viajando galantemente, apesar do ímpeto dos ventos e das ondas.

12 de maio, sexta-feira – Hoje, presenciei um espetáculo daqueles que, como sempre ouvira falar, ocorria frequentemente em navios negreiros. Tenho até dificuldade em descrevê-lo. Numa barrica, colocada no compartimento dos escravos para eles fazerem as “necessidades”, foi encontrado um menino nela caído de costas e que, sentindo-se muito fraco para sair dali, estava a submergir e sendo sufocado. Tinha a aparência de estar quase morto mas, ao se jogar água sobre ele, mostrou alguns sinais de estar vivo, o que durou apenas poucas horas.

O que é mais comum é os negros serem prensados entre as tábuas soltas do porão, quando procuram espaço para se acomodarem na hora de dormir, ficando então presos e não conseguindo se soltar. Os espanhóis, que encontrei cuidando de limpar o local, no meio de uma sujeira repugnante em todo sentido, disseram-me que, entre os produtos medicinais oferecidos aos negros, há três que são de grande serventia: macela (camomila), raiz de alteia e goma-arábica.

Com fundamento Antonio argumentou que, muito diferente do nosso, o modo de vida dos negros, no seu país, é “tal como os animais na natureza”, o que os leva a encontrar nela diferentes remédios para seu uso. De acordo com essa teoria, o amargo de uma forte camomila, em decocção, mata os vermes no estômago, a mistura de raiz de alteia com goma-arábica, alivia e fortalece os intestinos. Ele acha que vale a pena experimentar.

Post - Escravo magroQuase mortos no porão do navio negreiro (foto: 1868).

15 de maio, segunda-feira – A ventania, quando batia forte no navio, fazia com que ele se inclinasse e, no porão, os negros chocavam-se uns nos outros. Os gritos estrepitosos dos doentes, ecoavam noite adentro, sobrepondo-se ao barulho dos ventos e das ondas. Entre todos os horrores desse navio, pareciam os mais tristes.

Fui ao convés, no início da vigia matinal. O horizonte se apresentava claro a barlavento e a lua nele mergulhava, com o sol nascendo do lado oposto. Nesse teatro do alvorecer, o primeiro ator a entrar em cena foi Cato, nosso cozinheiro mulato, superatarefado, sob as luzes ainda tênues, em meio a panelas e chaleiras, acendendo fogo na cozinha para preparar nosso café da manhã. O que vem depois?

A mesma tristeza – sempre repetida história –, três corpos, um homem e dois meninos, trazidos do porão para o convés. O homem era um que foi espancado com selvageria por dois dos seus companheiros, três ou quatro dias atrás. Devido ao grande número de falecimentos, vê-se que tiveram suas mortes apressadas porque, no porão, foram pisoteados ou, de outro modo, lhes provocaram ferimentos nos ventres. É óbvio que foi esse o motivo de terem sido encontrados mortos ao amanhecer. Raramente isso acontece durante o dia.

16 de maio, terça-feira – Para meu sincero pesar, o Capitão Pequenino e mais um menininho chamado Francisco, juntamente com o chefe dos Capitães Marinheiros e mais alguns outros, foram trazidos aqui ao convés, esta manhã, acusados por Sebastian de roubar água lá embaixo. Mal podia eu aceitar a acusação aos dois garotos, desde que acredito que sempre ganhariam água se pedissem, pois eram tratados como favoritos. A única explicação seria que, literalmente, “águas roubadas são mais doces.”

Post - Grupo escravos magrosImagem do sofrimento no porão do navio negreiro (foto de 1868).

Quanto à sua delinquência, não há dúvida, quando os questionei, baixaram a cabeça e ficaram calados. E o castigo lhes foi dado, mais para assustar que para machucar. Quanto aos outros culpados, a punição, se não severa, aconteceu em melancólicas circunstâncias.

Um deles estava com persistente disenteria* e a execução do castigo acabou por confirmar isso, produzindo uma cena de causar repulsa. Aconteceu, também, que um outro estava sendo chicoteado junto à grade posterior do porão, contorcendo-se e gritando pedindo clemência: “- Lambooya, lambooya.” Para completar, dois corpos foram alçados pela entrada do porão, que ficava a poucos metros de distância. – * O referido negro, atacado de disenteria, era o chefe dos Capitães Marinheiros.

Entre os negros, havia um chamado Simão, cujas feições grotescas e gesticulação fizeram-no ser visto como bufão. Ele foi escolhido como sucessor do Capitão Marinheiro, que fora destituído por causa do seu último roubo. Alguém deu-lhe um velho casaco, outro um par de calças, para servirem como uniforme de trabalho.

Sebastian, que dava pouca importância em ser capitão, viu os deboches com aparente desdém. Ele, como espanhol de verdade, tinha um refrão pronto para cada conveniência, pois assim disse: “Este es el viaje de Orinoco*, quien no muere se vuelve loco.” É traduzido assim: “Esta é a viagem do Orinoco, quem não morre fica louco.” — Orinoco: rio que percorre Venezuela e Colômbia.

Post - HospitalidadeNegros socorrem náufragos: boas maneiras com naturalidade.

18 de maio, quinta-feira – Entre os negros, as boas maneiras fazem parte do seu modo de ser e, com frequência, causam surpresas. Às vezes eles se aproximam, ao nos ver chegando ao convés pela manhã e flexionam o joelho para fazer uma saudação. Sua maneira de agradecer, ao receberem qualquer presente de água ou comida, é feita por meio sinais com o pé, primeiro com uma batida no chão e, depois, arrastando-o para trás. Muitas vezes, tomados pela fraqueza, não conseguem fazê-lo, mas pelo menos se esforçam para levantar.

As mulheres, por sua vez, fazem uma reverência dobrando ambos os joelhos, quase tocando o chão. Nas refeições servidas em tinas, quando dividem pedacinhos de carne misturadas com farinha, observam uma divisão igualitária. Em cada pequeno grupo, uma pessoa toma a porção inteira em suas mãos e distribui entre eles dois ou três bocados, de modo que ninguém sinta-se prejudicado. Depois da comida, manifestam a geral satisfação batendo palmas. Esse é também um hábito frequente, quando querem pedir um favor ou perdão por uma falta. Colecionei algumas palavras como exemplos da sua língua. — VER NOTA ao fim do texto.

19 de maio, sexta-feira – Bossey, o contramestre, que fôra acometido de disenteria, dias atrás, e acomodado na nossa cabine, morreu às 4 horas desta madrugada. O pobre companheiro possuía um considerável estoque de bom-humor, era cantor de canções cômicas e muito querido entre os colegas. Dois ou três dias atrás, disse “que tinha consciência de que não se levantaria e precisava sentir-se feliz.” Queria dizer que precisava banir todos os pensamentos que pudessem lhe incomodar. Consegui conversar com ele, mas muito pouco. Certa vez, ao lhe perguntar se compreendia uma passagem dos Salmos, que havia lido para ele, respondeu com sinceridade: “- Oh, sim!”

A última manifestação, quando lhe perguntei se havia alguma coisa que fizéssemos por ele, foi o gesto de levantar as mãos postas, por cima das cobertas. O assistente cirurgião, ao fazer o exame post-mortem, encontrou um abcesso cobrindo praticamente metade do seu fígado. À 1 hora da tarde, encomendei seu corpo às profundezas do mar com toda a tripulação presente, à excessão de uma pessoa, sofrendo de inflamação do fígado, a qual levei para a cama da nossa cabine, antes ocupada por Bossey.

Post - Negros açoitadosAçoites para quem saiu da linha.

20 de maio, sábado – Finalmente temos uma brisa boa, a primeira em muitos dias e está soprando a 3 ou 4 nós. Chegamos agora perto do lugar que estávamos há dez dias atrás. Antonio tem experimentado as virtudes da sua “mistura” nos pacientes de disenteria. / — Lista dos remédios em estoque, para servir aos negros do Progresso: ver NOTA ao fim do texto.

Não acredito na eficácia do referido tratamento, visto que, na maioria dos casos, a doença já estava profundamente enraizada. Antonio aponta para a barriga, com a pele enrugada e cheia de dobras, e pergunta: “Esos no tienen barriga; o que tienen? No tienen mas que el pecho.”* — * Esses não têm barriga; o que têm? Não têm mais que o peito.

Contudo, um ou dois que estavam definhando, começaram a apresentar melhoras e ele se vangloriava pelas suas recuperações. Sabia não haver esperanças somente quando a doença já havia progredido, de modo a deixar marcas sanguinolentas nos lábios e gengivas. Esse era um horrível sintoma, geralmente observado nos estágios mais avançados. E dizia: “Esos morirán, los otros no.”* — * Esses morrerão, os outros não.

Os casos de úlceras se mostram numa forma tão medonha que, agora, mal posso olhar. Esses coitados estão, quase sem exceção, acometidos também de disenteria e estão convictos que disso irão morrer, mesmo se curados de suas feridas.

Um garoto, devastado, quase um esqueleto, se ainda fosse possível aceitá-lo como um ser humano vivo, morreu esta tarde. Antonio estava lhe administrando mistura de camomila. Fê-lo sentar-se para beber o medicamento e, quando baixou a cabeça, morreu nessa posição.

21 de maio, domingo – Nossa brisa continua boa, embora leve. O mar está suave e o tempo bom. Todos da tripulação estão animados para se reunirem e assistir o Serviço Divino, desse modo elevando para 15 os meus congregados. Como já estava tarde, quando terminaram de se aprontar, li só a ladainha, omitindo o serviço de comunhão. Entretanto, se tivesse realizado o serviço por inteiro, nenhuma impaciência teria causado aos ouvintes do Cleopatra habituados aos ofícios completos da igreja, “qualquer que seja a tempestade, o navio balançando enfrenta.”

De novo acomodei o Capitão Pequenino na entrada do porão. Ele voltara a trabalhar para nós, agora com a função de sentinela, caso algum negro mostrasse vontade de fazer barulho. Poucos que estavam no convés, principalmente as mulheres, permaneciam completamente quietos. Depois da missa, quis perguntar ao menino – o pequeno capitão – sobre a existência de alguma espécie de crença religiosa entre as tribos africanas, mas não consegui fazê-lo me entender.

Antonio, que veio a meu socorro, alertou-me que estava perdendo tempo, já que era ele próprio quem muito sabia sobre a costa africana e assegurou-me que não tinham a mais remota ideia de qualquer religião. Disse: “- No tienen Dios, ni Santo… Animales son, viven en covados, en el monte, como los lobos.”* — * Não têm Deus, nem Santo… São animais, vivem em buracos, na montanha, como os lobos.

A única aparência de superstição prevalente entre tribos nativas – acrescentou –, é o que chamam de “fetish” (feitiço). Eles penduram qualquer enfeite nas pessoas – chamam isso feitiço – e veneram esses objetos. Perguntei-lhe se, em Havana, onde esteve anteriormente trabalhando, havia o costume de, antes de batizar os escravos recém importados, lhes dar alguma instrução religiosa. Respondeu: “- No les enseña nada antes del bautismo; no es preciso ensenãrles nada para bautizarlos.”

24 de maio, quarta-feira – A brisa leve e variável que ocorreu durante o dia, depois das duas últimas noites, foi sucedida por uma calmaria que parecia não ter fim. A vela mestre foi arriada, para evitar que sofresse desgaste pelo balanço do navio, com as outras batendo forte contra o mastro. É nessas horas que sofremos grande incômodo provocado pelo ar fétido, produzido por tantas criaturas confinadas e doentes.

Em comparação com o começo da viagem, isso era de somenos importância, e pouco me incomodava ir ao porão dos escravos para fazer alguma vistoria, quando barulhos e gritos extraordinários ocorriam. Agora, é desnecessário descer para sentir o cheiro que impregnou todo o navio. Dentro e fora da nossa cabine tornou-se intolerável. Cordões de ouro e artigos de prata, embora guardados em caixas ou latas laqueadas, ficaram enegrecidos pela fumaça, tal o estado do ar.

No meio da noite anterior, abandonei meu capote e o piso de chão que, no dizer jocoso de um marujo, já havia cumprido seu dever de servir um leito, o qual ocupei desde que cheguei a bordo. Fui, então, para o convés em busca de alívio, mas em vão. Não havia um sopro de vento, nada que se movesse no mar ou no ar, exceto o pesado albatroz, com asas de 16 pés (≅ 4,88 m) de ponta a ponta, dando voltas e voltas, de vez em quando passando tão perto que quase tocavam o balaústre da popa, no qual eu estava sentado. Voltei para baixo e, enchendo de tabaco a tampa de um pote de chá*, pus fogo e soprei, até que o pobre homem doente que havia trazido para minha cabine, reclamou que eu o estava sufocando. — * Encontrei a bordo um grande estoque de tabaco de Quelimane, mais um punhado de cachimbos de barro e bambu, para uso dos negros.

A desordem de modo geral, penso, é crescente entre os negros. Durante o último período de bom tempo, eles desfrutaram das horas de sol no convés mas, quando estavam no porão, os gritos eram incessantes, dia e noite. Estavam reduzidos em número por motivo das mortes e, por isso, não mais havia aperto nas acomodações. Entretanto, o aumento das doenças e da miserabilidade, tornaram os sobreviventes mais rudes e insensíveis. Desse modo, brigavam e feriam uns aos outros mais que antes.

O pequeno Catula, de todos o mais bonzinho, recebera uma dentada na perna seis semanas atrás, e continua recebendo socos e chutes. A ferida tornou-se, agora, uma profunda ulceração que não para de crescer. Outro moço, bom e inteligente, foi recentemente mordido na cabeça. Ainda há os que têm o calcanhar, o dedão do pé e o joelho, quase todos mordidos. E piores lesões que essas lhes foram infringidas, uma barbaridade difícil de descrever. A loucura, ou confusão mental pelo desespero, parece tê-los dominado.

Post - Cabo & False BayLimite do Atlântico / A – Cidade do Cabo; B – Simon Town, junto à pequena baía de Simon.

Diversas velas foram observadas no mar nesses últimos dias. Passou tanto tempo sem que nenhuma víssemos, que parecia estarmos abandonados no oceano, exceto pelos albatrozes e pombos do cabo. Eles estiveram sempre perto de nós, desde o último mês. Esses últimos, uma bela espécie de pássaros, têm cabeça, bico e cauda em leque, muito se assemelhando aos pombos comuns. O peito é branco e parte da plumagem pintada. Nadam em grupos de 15 a 20, junto à lateral do navio.

Há terra à vista nesta tarde – a primeira vez desde o comêço da viagem – e, pela nossa observação, supomos que seja a baía de Plettemburgh, entre a baía de Algoa e o cabo da Boa Esperança. Alguns negros apontam para lá com interesse e curiosidade, mas, em sua maioria, permanecem sentados juntos no convés, com as cabeças apoiadas nos joelhos, aparentemente em total apatia pelo que está ao redor. Com certeza, nunca se viu um conjunto de “objetos” tão miseráveis assim agrupados.

27 de maio, sábado – Hoje, pela manhã, os corpos de três meninos estão caídos na entrada posterior do porão, ao aguardo do cirurgião assistente para fazer o exame “post-mortem”. Antonio, apontando para um deles, fez-me observar a língua projetada para fora da boca e um pequeno ferimento do pescoço, indicações de que teria sido estrangulado. Pareceu-me estar ainda vivo, porque ocasionalmente movia a cabeça. O espanhol disse que era devido ao movimento do navio mas, depois de olhar atentamente por algum tempo, lançou uma exclamação: “- Vive, este vive!” Mas, logo acrescentou: “- Pero esta para morir…” Naquele momento, uma espuma saiu da sua boca e tornou-se perceptível um ligeiro arfar. E ele continuou a respirar por mais 8 ou 9 horas.

Post - Grupo de meninosNegrinhos escravos, devastados pela fome e doenças (foto: 1868).

28 de maio, domingo – Nesta manhã, o cabo das Agulhas está ao alcance da vista, a 10 milhas de distância. Estamos ainda a cerca de 100 milhas do ancoradouro da baía de Simon(3). O tempo continua maravilhoso e promete uma conclusão favorável para a conturbada viagem. Durante o Serviço Divino, da parte da tarde, o gentil balanço das águas claras do mar e o silêncio do entorno, contrastavam com o barulho e a agitação dos dias anteriores. A delicadeza da cerimônia ajudou a criar profunda impressão de paz, como nunca senti em semelhante celebração. Que possam as demais viagens pela vida, após tempestades e vicissitudes, terminar com esse mesmo brilho e paz!

31 de maio, quarta-feira – É notável que nenhuma morte tenha ocorrido hoje. Os casos fatais, diariamente, tem sido em número de quatro. O antigo capitão dos marinheiros, que foi açoitado no dia 16, por roubar água, e que, depois do castigo pouco apareceu no convés, devido ao calor que faz ao meio-dia, hoje saiu pelo alçapão posterior do porão para vir tomar ar. Estava tão devastado fisicamente que mal dava para reconhecê-lo. Ele, que fora dos mais gordos e corpulentos do grupo, mostrava-se então reduzido a pouco mais que um esqueleto. Sua pele enrugada fez-se em dobras, que desabavam barriga abaixo. E as horríveis manchas de sangue na boca, que eram um sinal desesperador, denunciavam o estágio fatal da disenteria.

Sudabant etiam fauces intrinsecus atro Sanguine;
Set ulceribus vocis via saepta coibat…*

* Então, gargantas negras também vomitavam sangue, calaram as cordas vocais, ulceradas… (Lucretius)

Post - Simons's baySimon Town e baía de Simon, na porção sudoeste da False Bay.

1º de junho, quinta-feira – Uma quantidade fora do comum de mortos foi encontrada pela manhã e não podemos mais nos aventurar, como antes, em lançá-los ao mar. As ondas poderiam levá-los às praias desertas, já que nos aproximamos da baía na noite de ontem. Quando a bruma da manhã dissipou, a primeira imagem que alegrou nossos olhos foi a dos navios ancorados na baía Simon, a 2 ou 3 milhas de distância. Identificamos três pontas de mastro, as outras imaginamos.

A fragata, com as velas do mastro principal arriadas, parecia ser a Cleopatra, ou Cleo, como a tratamos na intimidade. Mas, o que é isso? Ela tem 15 vigias no costado, onde devia ter apenas nove! Naquele momento, de um barco de pescador, para o qual havíamos acenado, veio a informação que o Cleopatra havia partido alguns dias antes, para Porto Natal.

Post - Brigue AcornO brigue Acorn, um dos navios britânicos que patrulhavam o oceano Índico.

Ficou comprovado que a fragata era a Isis, do capitão sir John Marshall, das ilhas Maurício. O brigue Acorn, que também estava ancorado, retornava de um cruzeiro pela costa oeste da África. Logo que o Progresso ancorou, fomos visitados pelo fiscal sanitário que, imediatamente, nos admitiu ao porto. Meu amigo, o senhor Shea, superintendente do hospital naval, também veio ao nosso encontro e descemos juntos, pela última vez, ao porão dos escravos.

Embora longamente acostumado a assistir cenas de sofrimento, sentiu dificuldade em encarar o que estava diante de si. Disse que “ia além de tudo que pudesse imaginar sobre a miséria humana” e  retirou-se apressadamente. Uma menininha, num choro amargurado, porque estava presa entre as tábuas, lutava desesperadamente para livrar seu corpinho enfraquecido, até que vieram lhe prestar socorro. Durante a viagem, até o dia 1º de julho, haviam morrido 163 pessoas.

2 de junho, sexta-feira – Antes de me dirigir para a cidadezinha de Wymberg, onde prometi a mim mesmo repousar o corpo e a mente, fiz uma visita a sir John Marshall, à bordo do Isis, que acolheu-me com sua costumeira amabilidade. Depois, retornando à terra, uma vez mais dei uma chegada a bordo do Progresso. Mais corpos, 14 ao todo – seis deles somados aos oito de ontem –, estavam empilhados no convés, para serem enterrados hoje à tarde na praia.

Post - Grupo no convésHomens, mulheres e crianças no convés do navio negreiro.

Cem dos negros mais saudáveis já tinham sido transferidos ao cais, para serem conduzidos em carroções até a Cidade do Cabo. Muitos rostos com os quais estava familiarizados já se foram. Meu pobre menininho Macarello, ao ser levado, lançou-me um olhar suplicante, mas ele, que antes chamou minha atenção pela sua pela sedosa e saudável aparência, está entre os doentes. Também Catula, com sua perna estragada, parecia abatido, aliás como sempre, toda vez que ia animá-lo, as lágrimas escorriam pelo seu rosto.

Eu não estava preparado para observar a emoção manifestada pelos negros que chegavam no porto, que era de ansiedade e apreensão. Mais por se sentirem confusos e pela aflição do momento, e menos “pelas coisas outras que ignoravam” ou, quem sabe, por algum pressentimento particular. Todos os cem acima mencionados receberam em terra, cada um, um casaco novo, bem agasalhado, e calças. Depois, foram muito bem acomodados, com todo conforto, em carroções abertos e com grande prazer constatei o bem-estar que sentiam depois da transferência do navio. Mesmo assim, nunca foi tão difícil extrair deles qualquer olhar de alegria.

Post - Farmer Peck'sFarmer Peck’s, em 1844.

Daí a pouco, eu os ultrapassei na estrada, quando me dirigia a Wymberg, onde me instalaria em Farmer Peck’s, um local de descanso para viajantes, muito conhecido de todos aqueles que estão familiarizados com o cabo (a região do cabo da Boa Esperança). Naquele momento, notei que ainda estavam apáticos, apesar de todas as mudanças que estavam experimentando.

Cada uma das mulheres ganhou, além de uma camisola, um cobertor novo, branco. Berezida, Bazuvery e Mandilacota prontamente responderam quando chamadas pelos nomes, mas nenhuma emoção demostraram diante disso. Predominava a dúvida e o medo, e seus semblantes pareciam de vítimas após uma condenação.

Na memória, trazia guardada minha visita a Wynberg, em outubro do ano anterior: o lugar era um paraíso. A estação, agora, mudou para inverno, como acontece no hemisfério sul e as folhas estão caindo  por toda parte. Permanecem, ainda, algumas rosas e a atmosfera está perfumada com a flagrância das “mignonettes” *. Depois de passar 50 dias a bordo de um navio negreiro, certamente, nenhum outro lugar se compara a esse, para quem merece um justo descanso. — * Plantas herbáceas que produzem flores; o mesmo que resedas.

Post - WynbergVila de Wynberg (em inglês sul-africano: Montanha do Vinho).

Wynbergperto da Cidade do Cabo — 19 de junho – Hoje pela manhã, 17 dias após deixar o navio, visitei os negros nos alojamentos preparados para o acolhimento em Papendorf, perto do mar, distante cerca 1 milha da Cidade do Cabo, onde estão alojados, alimentados e assistidos. Todos foram retirados do Progresso no dia 2 e 3, deste mês, em número de 222 – os que restaram de 397 –, indicando 175 mortos a bordo. Dos 50 transferidos para o Cleopatra, um morreu durante a viagem e outro depois da entrada na baía.

Ao ser feita a limpeza do Progresso, após a retirada dos negros, o corpo de um menino foi encontrado entre as tábuas, em estado de decomposição. Parte de u’a mão havia sido devorada e um buraco, onde antes havia um olho, fora escavado pelos ratos.

No momento da minha chegada a Papendorf, estava havendo um enterro, acompanhado pelos negros em procissão. Era o nono que ocorria entre eles, desde sua remoção para cá. De 28 deixados na baía de Simon, sem condições de serem transportados, 14 morreram, até agora. Os doentes são ainda numerosos. Mas, hoje, foi agradável notar o semblante mais alegre dos negros libertados. Para eles, a expectativa inicial era de que seriam devorados pelos brancos e, por isso, relutavam em comer. Tinham medo de estarem sendo engordados com essa finalidade. Os auxiliares, alguns deles da sua mesma nação, logo os tranquilizaram sobre esta questão.

Antes, havia uma permissão oficial de que pudessem ser levados a trabalhar como empregados domésticos ou nas lides do campo, por um período de 6 ou 7 anos, de acordo com sua idade. As regras para esse aprendizado incluíam vários benefícios aos negros.

Um deles, estipulava que o seu responsável “deve  fazer com que o aprendiz seja cuidadosamente instruído e, tão rápido quanto possível, também na religião cristã. Depois, quando suficientemente instruído, batizado. Além disso, deve permitir, aceitar e encorajar o dito aprendiz a frequentar as cerimônias religiosas. Finalmente, quando for batizado, deve, imediatamente, comunicar ao fiscal de costumes de Sua Majestade, no porto da Cidade do Cabo, para que a identidade desse aprendiz seja definitivamente reconhecida.”

Post - Por favor!Em consequência de uma “Order in Council”*, datada de 4 de janeiro, do presente ano, foi publicado um aviso pelo governo local informando que negros, com menos 21 anos de idade, doravante deverão receber instrução somente para trabalharem como empregados domésticos ou em ofícios que requeiram habilidades peculiares. Negros do sexo masculino, com 21 anos de idade ou mais, durante apenas um ano como auxiliares no campo; mulheres, com 21 anos de idade ou mais, do mesmo modo, durante um ano, como empregadas domésticas. — Decreto em nome da rainha.

Parece que, na colônia, no momento, há pouca demanda para aprendizes de habilidades mecânicas. Além disso, os colonizadores agricultores queixam-se que, no adestramento dos adultos, o período de um ano é insuficiente para que possam vir a prestar serviços adequadamente. — Pascoe Grenfell Hill

——

        • LÍNGUA DOS NEGROS — Nomes: Massoro (cabeça), masso (olho), macootoo (orelha), maroto (dedo), macoonuy (unha), cocy (pescoço), mimba (barriga), mendo ( perna), maniallo (pé), Yboono (dedo do pé). / Numerais: bossy (1), peedy (2), datoo (3), nany (4), shanoo (5), danhatoo (6), shenomi (7), sairy (7), femba (9), coomy (10). / Nomes próprios masculinos: Shematonga, Condivenga, Chapanduco, Zakaly. / Nomes próprios femininos: Berezida, Citania, Banzuvery, Mandilacota.

        • FARMÁCIA DO PROGRESSO — “A relação seguinte é uma lista quase perfeita de medicamentos disponíveis para os negros, encontrados a bordo do Progresso, quando foi capturado pelo Cleopatra [em quantidades diversas]: Óleo de linhaça, Raiz de alteia, Cevadinha, Camomila, Polpa de tamarindo, Basilicão, Sais de Epson [sulfato de magnésio], Goma-arábica, Flor de sabugueiro, Casca de romã, Freixo [Fraxinus ornus], Columba [ou calumba], Electuario cathartico [Creme de tártaro], Folhas de sena, Unguento de cantáridas* [*um inseto], Unguento de rosas, Unguento de Gowlard [à base de mercúrio], Mostarda, Borrachinhas, Esparadrapo, Unguento resinoso, Mel rosado, Espécies peitorais, Idem emolientes, Espécies anti-escorbúticas, Cascas de remaas, Almofariz de bronze, Purgativo de Le Roy* [*próprio para o rei de França], Idem emético* [*vomitório], Água inglesa [antifebril], Cloreto de cálcio, Vinho quinado, Óleo de castor, Ampolas de Apodeldoc, Tártaro emético[*vomitório], Calomelano, Ipecacuanha [vomitório], Bálsamo católico [panaceia para qualquer dor], Amoníaco, Quina peruana, Cânfora, Sulfato de quinina, Laudanum [tintura de ópio], Acetato de chumbo, Sulfato de cobre, Vitríolo branco [sulfato de zinco], Lombrigueiro, Pós de Joannes*. {*Vários pós da casca da cinchona, arbusto nativo da região dos Andes, que produz a quina ou quinina, outrora muito empregada no tratamento da malária. O produto era conhecido também como “pó dos jesuítas”. O nome “Joahannes” provém do médico de três papas: Inocente XI, Inocente XII e Clemente XI, que se chamava Joannes Maria Lancisius, o qual recomendava o uso do medicamento para febres, arritimias, etc. No caso do navio Progresso, seria de grande utilidade para combater a “febre da costa”, ou malária, que grassava na África.}

• Clique com o botão direito e veja todos: “Memórias do mar” (I, II III e IV): I | II | IV |  III 

Tradução, pesquisa e arte de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

(1) HILL, Pascoe Grenfell – (Marazion, Cornwall, *15.05.1804 / London, †28.08.1882) – Bacharel em artes, em 1836; no mesmo ano sacerdote da igreja anglicana; em seguida, capelão da marinha, onde serviu até 1845. Escreveu vários livros, entre eles: “Fifty Days on Board a Slave Ship in the Mozambique Channel” (1843) e “A Voyage to the Slave Coasts of West and East Africa” (1849), ambos sobre o tráfico negreiro.

(2) O “May Day” ou “Dia de Maio” é um festival da primavera no hemisfério norte, abrangendo várias culturas. Sua origem é ancestral que, na antiga tradição, coincidia com o primeiro domingo do mês. Tinha conotações rituais totêmicas da divindade da primavera, ou das árvores, referência que foi se diluindo com o passar do tempo. Os celtas, cujas tribos se espalharam por vários países, deixaram seus traços culturais, entre eles esta festa, que outrora se chamou Bealtaine ou Beltane. Nos dias de hoje, existem variantes dessa festividade que, entretanto, não devem ser confundidas com o dia 1° de maio, quando, em vários países, se comemora o Dia do Trabalho.

(3) A baía de Simon, na porção sudoeste da False Bay (Baía Falsa) recebeu esse nome quando o governador do Cabo, o holandês Simon van der Stel, em 1741, escolheu aquele lugar como o melhor ponto de ancoragem para os navios durante o inverno.

Anúncios

4 Comentários »

  1. Eduardo: Uma pesquisa forte e de muito senso. Mas há a ideia imposta pela grande Europa, da
    história inglesa e das dívidas de Portugal sendo pagas. O maldito ouro e as culturas como café e agropecuária! Mas, com o tempo, essa história revirou. Os negros estão tendo facilidades que nós brancos não temos. Há muitas qualidades em um negro, sofreram tanto… Esses contrabandos faziam parte do sistema europeu.

    Comentário por maria marilda Pinto Correia — 01/04/2015 @ 10:33 am | Responder

    • Marilda:
      Percebo que você sabe do que está falando.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/04/2015 @ 12:48 pm | Responder

  2. Não posso dizer que seja uma leitura agradável. Quase senti o cheiro forte da morte e da dor. Mas é uma leitura que me parece essencial. Essa é a História. Curioso falarem tanto em religião… e estavam longe de qualquer uma delas no pensar e no agir.

    Comentário por sertaneja — 02/04/2015 @ 8:48 pm | Responder

    • Virgínia:
      É terrível o que conta a narrativa. Desconfio que a maldade humana ainda não arrefeceu, basta observar as histórias de agora.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/04/2015 @ 10:16 am | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: