Sumidoiro's Blog

01/07/2015

AS CASAS DAS ARREPENDIDAS

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:53 am

♦ O socorro às Madalenas

Com pecado ou sem pecado? No começo, quando as mitológicas ninfas eram boas companheiras, não havia o pecado. Por isso, elas se entregavam ao amor com a mais pura naturalidade, sem culpa ou vergonha, e nunca foram chamadas de prostitutas.

Post - Ninfa e sátiroSem pecado ou arrependimento, uma ninfa se entrega a um sátiro.

Quando veio o cristianismo, trocaram as divinas mulheres pelas mulheres objetos e as rotularam como Madalenas. Fizeram-no de dedo em riste, de maneira acusatória e com tal veemência que algumas – mas nem todas – sentiram-se arrependidas. É bem verdade que a santa Maria Madalena nada tinha a ver com isso, mas teve seu nome envolvido na perversa trama.

A disseminada ideia da mulher pecadora surgiu de uma leitura afobada do que está em Lucas, 8:2: “… Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios…” No dizer dos estudiosos, os relatos evangélicos não incriminam aquela que ungiu Jesus e secou em seus pés as lágrimas que ela própria chorou. Esse equívoco propagou-se na igreja latina em fins do século IV, com o papa São Gregório Magno.

Embora aparentasse ser verdade, foi sim uma interpretação apressada, mas sem fundamentos. Até hoje, o nome Madalena é repetidamente traduzido como “mulher chorosa e arrependida dos seus pecados”, simplificação que leva ao mal-entendimento, qual seja, contrita porém prostituta, com toda a carga negativa da palavra. 

Post - Madalena p Tintoretto← Madalena, por Tintoretto (sec. XVI).

Como se sabe, as tais Madalenas são muito antigas. Entretanto, com mais, menos e até sem pecados elas se diferenciam. Delas há, no mínimo, três categorias. Primeiramente aquelas que, por moto próprio, porém diante de determinadas contingências ou força maior, tiveram de adentrar o caminho dito errado. Outras, e bastantes, são as que receberam a pecha por terem dado apenas um ligeiro escorregão. E ainda existem a das Madalenas por vontade alheia – sem pecado –, pois seriam pobres vítimas das maledicências.

No começo do Brasil, quem viu em todas elas alguma utilidade foi o jesuíta padre Manoel da Nóbrega. Nesse sentido, escreveu uma carta(1) a d. João III, rei de Portugal, com estas palavras:

“Parece-me cousa mui conveniente mandar Sua Alteza algumas mulheres que lá têm pouco remédio de casamento a estas partes, ainda que fossem erradas, porque casarão todas mui bem, com tanto que não sejam tais que de todo tenham perdido a vergonha a Deus e ao mundo (na verdade, estava se referindo às arrependidas). E digo que todas casarão mui bem, porque a terra é muito grossa e larga […] De maneira que logo as mulheres teriam remédio de vida, e os homens (daqui) remediariam suas almas, e facilmente se povoaria a terra”.

Nóbrega foi drástico ao dizer “mulheres que lá têm pouco remédio” e “que fossem erradas”, mas bem sabia de quem falava. Nas suas vivências portuguesas, sabia dessas infelizes que se espalhavam por todo Portugal e outras terras. Algumas, de mais sorte, embora não fossem necessariamente arrependidas, costumavam ser amparadas em asilos denominados “recolhimentos”. Portanto, sabia o padre onde captar algumas povoadoras para o novo mundo.

Post - LindoiaAs índias deixaram os colonos em êxtase e os jesuítas em pânico (Lindoia – J. M. Medeiros).

Mas o que moveu o sacerdote a tomar medida tão drástica? O fato é que os jesuítas estavam escandalizados com a “relaxação dos costumes”, que começava a grassar entre os colonos. Pois bem, na cultura indígena o sexo era coisa natural, podia ser dividido entre vários parceiros e não havia pecado. De modo que os europeus, tirando proveito de tais facilidades, estavam tomando exemplo nos índios e dispensando o sacramento do matrimônio.

A falta generalizada de mulheres, de preferência brancas, as mais adequadas para se casarem, fazia com que desfrutassem livremente das disponíveis na terra. Mas, por outro lado, havia a pressão dos padres e do governador, de modo a constituírem famílias cristãs. Naquela mesma carta, Nóbrega falou das queixas que ouvia:

Todos se me escusam que não têm mulheres com que (se) casem e conheço eu que casariam, se achassem com quem; e tanto que uma mulher, ama de um homem casado*, que veio nesta armada, pelejavam sobre ela a quem haveria** por mulher; e uma escrava do Governador lhe pediam por mulher, e diziam que lha queriam forrar***.” — * criada de um homem casado; ** lutavam por tê-la; *** alforriar, libertar.

As demandas do jesuíta foram atendidas e enviaram algumas mulheres de Portugal, a maioria órfãs, que, supostamente, teriam melhor acolhida. De qualquer maneira, a inciativa não surtiu o impacto demográfico desejado, porque vieram apenas dezenove órfãs em quase uma década.

Post - Casamento em dinheiroFrei Torneiro: “… não ha outro remedio. Salvo se V. A. lhes der os casamentos em dinheiro…”

Viu-se, então, que o plano estava mesmo condenado ao fracasso e, para salvar a situação, imaginaram dar um prêmio aos homens dispostos ao casamento com as europeias, inclusive as órfãs. Nesse sentido, em 1563, Mem de Sá(2) fez uma proposta e, em 1564, o capelão da corte, frei André Torneiro, escreveu(3) à rainha d. Catarina:

“Polas cartas que ho governador do brasil Mem de Saa escreveo a V. A. e polas que me mandou […] tera sabido ho desamparo que la tem as orfaãs que V. A. mandou por não terem com que possão casar. He necesario nem lhe vejo outro remedio, […] que V. A. mande comprir ho alvara q el-rey […] passou a que casase com as orfaãs. E assim mandar revogar as prouisões q despois diso se pasarão em contrario* […] Salvo se V. A. lhes der os casam.tos (casamentos) em dinheiro, que eu acho por mais trabalhoso. Ho que V. A. determinar folgaria sabelo […] Amem. / Capellão de V. A.” — * Alvará cancelando o envio de órfãs.

Post - MoemaPor amar Caramuru, se afogou a índia, ou ninfa, Moema (por Victor Meirelles).

Parece que todo aquele alvoroço se resumiu num artifício para distrair os jesuítas, pois que os colonos já estavam muito bem arranjados com as mulheres da terra. De certo, nem órfãs e muito menos as arrependidas vindas de Portugal teriam como empolgar os colonos, visto que já estavam empenhados em produzir as arrependidas de cá, do Brasil.

De um lado, Nóbrega tinha razão, d’outro não. A miscigenação que estava sendo feita, a trancos e barrancos, é certo, foi que produziu o povo brasileiro, hoje conhecido por ser bastante livre de preconceitos. Nesse aspecto, há curiosidades em torno do casamento da princesa indígena Paraguassu com Caramuru – o nome indígena atribuído ao português Diogo Álvares Correa. — Em 30.07.1528, na sua estada europeia, Paraguassu foi batizada na corte de Paris e recebeu o nome de Katherine du Brézil.

Em 1781, tomando os personagens da vida real, frei Santa Rita Durão(4) criou uma fábula entre ninfas – temos também as nossas – e um europeu civilizado, no poema épico Caramuru. O autor descreveu uma disputa, entre Moema e outras nativas, pelo amor de Caramuru. Há um momento em que, ao vê-lo partir para a Europa levando consigo Paraguassu, lança-se Moema ao mar, junto às companheiras, tentando alcançá-lo e a coitada morre afogada. Canta o poema:

Chorarão da Bahia as Ninfas belas, 
Que nadando a Moema acompanhavam;
E vendo que sem dor navegam delas,
À branca praia com furor tornavam: 
Nem pode o claro Herói sem pena vê-las, 
Com tantas provas, que de amor lhe davam;
Nem mais lhe lembra o nome de Moema, 
Sem que o amante a chore, ou grato gema.

Post - Caramuru & Paragaussu

← Caramuru e a índia Paraguassu, a Katherine du Brézil.

Voltando às arrependidas… Se outrora, numa relação, quase sempre efêmera, foram desejadas para o amor proibido, logo em seguida as repudiavam, porque estavam cometendo pecado. Assim elas foram vivendo, desde o início do mundo, e todas as misérias sempre as acompanharam, a partir do instante em que enveredaram pelo caminho da prostituição.

Há notícia de que, no século XIV, em Barcelona, durante a Semana Santa, eram obrigadas a se internarem em uma casa de reclusão, de modo a promover a abstinência carnal das pessoas de todas as paróquias. O mesmo acontecia em cidades como Valência e outras do sul da França, todas na costa mediterrânea.

Em Barcelona, da quarta-feira Santa até a segunda-feira de Páscoa, abrigavam-nas no monastério de Santa Clara, das devotas de Agostinho – o arrependido que virou santo(5). Na mesma cidade, no ano de 1365, iniciou-se a construção de um recolhimento, na atual Calle de la Magdalena, especialmente para as arrependidas, também sob a devoção de Santo Agostinho, o qual foi finalmente abençoado, em 1372, por Pere de Planella, arcebispo de Barcelona, com o nome de Convento de Santa Maria Magdalena.

Posteriormente, em 1409, também em Barcelona, foi fundado um segundo monastério das arrependidas, sob a devoção de Santa Maria Egipcíaca (ou Santa Maria do Egito), que tinha a finalidade de recolher mulheres públicas que desejassem abandonar a vida de desvarios, como também órfãs. O espaço era conventual, mas não se submetia a qualquer regra monástica.

Post - Convento S M MagdConvento de Santa Maria Magdalena, Barcelona (em 1877).

Ainda no século XIV, em 1381, na cidade portuária de Marselha*, algumas almas caridosas empenhadas em minorar sofrimentos, fizeram surgir mais uma organização religiosa, também conhecida como das Madalenas. — * A mais antiga cidade francesa, ao sul da França, no Mediterrâneo.

O abrigo onde recolheram essas mulheres ficava numa ruela, ainda existente, que é a rua do Refúgio. Somando às iniciativas pioneiras de Espanha e França, os bons exemplos repercutiram em toda Europa e foram sendo criadas mais casas, nos mesmos moldes. O historiador espanhol Genaro del Valle, em 1842, no livro “Historia de las Instituciones Monasticas”, fala das arrependidas de Marselha(6). Resumo do que ensina:

“Um cidadão de Marselha tinha a reputação de viver em santidade, mas via a corrupção dos costumes do seu tempo. A degradação e a libertinagem tinha chegado a tal ponto que mulheres se prostituíam sem escrúpulos. Somente as que haviam conservado um mínimo de pudor, faziam algum esforço para se defenderem. Vendo o que se passava, aquele homem decidiu empreender a conversão das pecadoras. Suas exortações, animadas com o fogo da caridade, tiveram êxito e, em pouco tempo, atraiu à pratica da virtude muitas, que antes se encontravam entregues ao vício, colocando-as em uns monastérios.

Post - MadalenaVárias pessoas se uniram a ele, conseguindo que as conversões atingissem número considerável, de modo que puderam constituir uma congregação, sob o amparo da Ordem de Santo Agostinho e com a invocação de Santa Maria Madalena, padroeira das arrependidas. Em Roma, criaram vários conventos, onde entravam mulheres que haviam tido uma conduta desordenada e queriam deixar a vida pecaminosa, fazendo penitência por suas culpas passadas.

← Convertida com seu hábito completo (Fonte: G. Valle).

Ainda restam algumas dessas casas, sendo a maior a de Santa Maria Madalena, ou das Mulheres Arrependidas da Madalena, e fica situada na ‘Gran Via del Corso’. Algumas dessas mulheres, embora não fizessem o noviciado, podiam tomar o hábito religioso e professar os preceitos da ordem de Santo Agostinho. A ordenação consistia de longa cerimônia, com votos, juramentos e orações. Ao final, faziam um ato de humildade, pedindo publicamente perdão por sua vida passada, abraçavam as demais religiosas e juntas cantavam o ‘Ecce quam bonum’ (ouça no fim do texto), ao que se seguiam mais algumas orações, para então concluir a cerimônia.

A nova professa, durante um ano, passava a cobrir-se com um véu branco e, ao final desse período, lhe davam o hábito negro, tal como as antigas religiosas. O véu permaneceria cobrindo o rosto e prolongando-se até abaixo do peito. Quando necessário, em momentos mais solenes, acrescentava-se um manto negro.”

Post - Concupiscência “A queda da humanidade”, pintura ilustrando palavras de Santo Agostinho (por HGoltizius).

O médico Francisco dos Santos Cruz(7), em 1841, discorreu sobre o que existiu em Portugal:

“Consta que a primeira casa de Refúgio, ou das Convertidas, fora estabelecida no alto das Chagas (em 1587), a qual fora destruída pelo terremoto de 1755; foram depois essas mulheres ocupar um estabelecimento à Boa Morte, daí foram para o Rego.”

Disse mais:

“Há muitas casas de Recolhidas  em nosso país, que alguns confundem com as das Convertidas. Estas são de mulheres que eram públicas, eram prostitutas. As outras, são onde se recolhem mulheres casadas, por infidelidades verdadeiras ou presuntivas, ou mulheres solteiras, por um erro em que caíram.

No Brasil, seguindo a tradição portuguesa, foram instaladas casas semelhantes onde albergavam somente mulheres leigas – aquelas que não haviam feito votos religiosos –, mas que, então, passavam levar a vida nos moldes conventuais. Nos primeiros tempos, foram apenas recolhimentos, depois passaram a funcionar, também, como educandários e algumas ainda existem, agora transformadas em mosteiros.

Lá em Portugal, como cá, no Brasil, de fato destinaram-se a muitos propósitos, qual sejam, abrigar decaídas, mas também órfãs, viúvas, envergonhadas e, ainda, hóspedes por temporada. Paralelamente às envergonhadas, alinhavam-se moças de diferentes perfis, como as rebeldes, bastardas, impuras ou aquelas que eram dadas a comportamentos erótico-afetivos ultrajantes, a fim de evitar que maculassem a tradicional família.

De modo geral, quando adentravam essas casas, tanto as arrependidas quanto as honradas e as de pouca honra, passavam a viver em semelhante rotina, visando o aperfeiçoamento humano e espiritual. Envolvia algum trabalho, desenvolvimento de habilidades, atividades artísticas e práticas religiosas. Em resumo, recebiam preparo para viver com dignidade e devidamente professar a fé católica.

Post - Macaúbas lateralVista lateral do mosteiro de Macaúbas, antigo recolhimento.

BEM BRASILEIRO

Daqui em diante, o discurso é sobre a primeira casa de arrependidas de Minas Gerais, ainda existente, mas que sofreu profundas mudanças ao correr do tempo. Agora funciona apenas como mosteiro, onde há também isolamento em clausura. Deve-se a existência dessa importante instituição a Felix da Costa, homem solteiro, nascido em Penedo, no atual estado de Alagoas, de onde veio para as Minas Gerais junto com os irmãos Manoel da Costa Soares, Antônio da Costa, Martha Catharina, Anna das Chagas e algumas sobrinhas.

Dizia ele, ter por objetivo “adquirir terrenos onde pudesse com mais largueza” se manter. Assim foi que, descendo pelo rio São Francisco, navegou até alcançar o afluente rio das Velhas. A viagem tem sido narrada como uma lenda. Conta que, ao chegar na barra do Guaicuí*, onde as águas dos dois rios se encontram, teve uma surpresa. — * Guaicuí, o mesmo que rio da Velhas em tupi-guarani.

Teria se deparado com um monge, trajado com um hábito branco, escapulário, manto azul e chapéu caído nas costas. Logo, como que saindo do próprio corpo, ele se projetou naquela figura. No pensamento, interpretou como um sinal para que se tornasse ermitão e esmoler, para depois construir uma ermida e um recolhimento para mulheres. Daí em diante, assumiu com firmeza que levaria em frente a missão, só faltava escolher o sítio. Até que, três anos depois da sua partida, chegou à atual Santa Luzia (MG), por volta de 1711.

Post - Felix & assinaturaAssinatura de Felix da Costa, em 1735, e sua imagem de esmoler.

Assim sendo, depois de adquirir de Antônio da Silva algumas terras, em 1712 dirigiu-se ao bispado do Rio de Janeiro, a fim de obter autorização para usar hábito religioso e esmolar, e de modo a levar adiante o seu projeto. Tendo sido bem sucedido na sua demanda, logo conseguiu amealhar os primeiros recursos e pôde dar início à construção da ermida, em homenagem à Nossa Senhora da Conceição.

Pouco tempo depois, retornou ao Rio de Janeiro, com novo pedido e, de lá, trouxe licença para construir o Recolhimento de Nossa Senhora das Macaúbas, nome inspirado nos muitos coqueiros de macaúbas existentes no terreno. A construção teve início em 1714 e, pouco depois, houve autorização para que suas irmãs, Martha Catharina e Anna das Chagas, também recebessem o hábito religioso, o que ocorreu em 1715. Anna foi a madre fundadora e regente. Já em 1716, deu ele entrada a doze moças no recolhimento, entre elas sete parentas.

Post - EsmolerEremita esmoler, com oratório pendurado ao pescoço, e oficial da cavalaria.

Naqueles primeiros tempos, a casa funcionou segundo as regras de São Francisco, embora não fosse formalmente uma instituição franciscana. Em 08.07. 1728, o governador d. Lourenço de Almeida(8) escreveu ao rei de Portugal:

“As recolhidas andão vestidas com o habito de N. Sra. da Conceição e, alem de outras devoções que fazem, rezão em coro e officio Devino; consta a tal comonid.e de vinte e sinco recolhidas, dellas são oito brancas legitimas, sinco mulatas, e as outras meyas mulatas; porem todas vivem com muito recolhimento, e muita virtude. O Bp.do Rio de Janeiro as vizitou, e lhes deixou por ordem que fossem vivendo como athe ao prez.te (presente), porém não lhes deixou statutos, e somente passou provisão ao Capellão delas, e o seo conffessor a hum clerigo que ja ahy achou o p.Manoel de Gouvea…”

Na mesma mensagem, o governador também referiu-se lisonjeiramente às internas mas, como se verá adiante, não sabia ele que o padre Gouvea estava usando-as em atos criminosos.

Post - Roda Macaúbas← Macaúbas: roda para evitar o mundo exterior.

O recolhimento contava, também, com um grupo de serviçais mais seus agregados, homens e mulheres, a maioria escravos. No início, lá em Macaúbas, não havia estatutos – só chegaram em 1750 –, mas, apesar disso, cada qual tinha deveres e regras disciplinares a atender.

Na comunidade religiosa havia as recolhidas, madres, clérigos, porteira, corista, rodeira, etc. Sim, pelo menos uma rodeira, mas não aquela encarregada da mui conhecida “roda dos enjeitados”, usada para recolher bebês abandonados. Nada disso, em Macaúbas o apetrecho era utilizado para receber o que vinha de fora e vice-versa, desse modo evitando o contato físico com o mundo exterior.

Mas não foi fácil manter a obra dentro dos propósitos elevados do fundador. Fato é que o demônio é ardiloso e logo conseguiu penetrar no recolhimento. Muito cedo, as forças do mal começaram a solapar o trabalho de Felix da Costa e, surpreendentemente, pelos maus procedimentos dos padres, exatamente eles, os encarregados de prestar assistência espiritual. A começar pelo citado padre Manoel de Gouvea (…Teixeira), que foi acusado de praticar crimes no confessionário.

O maligno causou tal alvoroço que seus mal-feitos repercutiram na alta cúpula da igreja, em consequência de acusações feitas por várias mulheres. Foi então que, em 1739, a Santa Inquisição passou a investigar os padres Antonio Alvares Pugas(9), morador em Sabará, e Manoel Pinheiro de Oliveira(10), morador em Congonhas do Sabará (atual Nova Lima). Acabaram sendo acusados de crime de solicitação, que é o ato ilícito do confessor obter da pessoa devota vantagens para si, notadamente de ordem sexual. As listas de denúncias foram engordadas com os nomes de confessores vivos e até de um finado.

A primeira a depor, contra o padre Pugas, foi Ignez das Chagas de Jesus, recolhida de Macaúbas. Lembrou então a ofendida, em 03.06.1741, remetendo os delitos para para o ano de 1730 ou antes:

“… disse ela que havera onze para doze annos […] sendo capellam no mesmo Recolhim.to o Padre Manoel de Gouvea Teixeira, ja deffunto no sertam (sertão), natural que era da Ilha de Madeira, este da mesta sorte, por muitas vezes, […] antes e depois da confissão e alguas vezes fingindo […] solicitou a ella para actos desonestos e torpes, tendo com ella tatos e oscolos, e não sabe quantas vezes forão…”

Post - Fachada MacaúbasFachada do recolhimento de Macaúbas (primeiro período: 1733 / 1754).

A segunda a depor foi a serviçal Custódia Maria da Piedade. Disse ela, em 13.06.1741, que:

“… havera quatro annos […] o Padre Antonio Alvares Pugas, sendo cappelam do […] Recolhimento, […] solicitou a ella […], humas vezes com palavras provolativas (provocativas) ‘ad turpia’ (de natureza torpe) e por vezes contatos, e oscollos (ósculos), desonestos, tudo no confissionario e algumas vezes fingindo a confissão. 

E havera seis para sete anos, confessando-se ella […] com o padre Manoel Pinheiro de Oliveyra […] este tambem lhe disse palavras amatorias, e indecentes, […] outrosim ouvio dizer a Maria da Trindade, e Anna Maria de São Pedro, e a Violante dos Anjos, e Antonia da Conceição, que hé a regente do recolhimento, que o Padre Antonio Alvares Pugas, […] tinha solicitado, com palavras amatorias, a Teodora da Purificação, e a Francisca do Espirito Santo […], e que a Polonia da Ressurreição, […] por mais de quatro ou cinco vezes, o Padre João da Costa, […] lhe tinha dito palavras amatorias, e desonestas, e assim mesmo tinha sucedido a Ma. Apollonia da Ressurreição, com o Padre Manoel Pinheiro de Oliveira, acima declarado, como tambem o […] Padre Manoel Pinheyro tinha feito o mesmo a Maria do Spirito Santo, e a Violante dos Anjos […]. 

Post - Pe M Pinheiro processo… palavras provolativas ad turpia … com tatos, e oscollos desonestos… (acusado: Pe. Oliveyra).

E mais, disse ella, […] que havera desacete, ou desoito anos, […] ouviu dizer a Maria do Spirito Santo, […] que o Padre João Luiz Brabo(11), cendo (sendo) neste tempo vigario desta freguesia, […] arotara (arrotara) palavras desonestas com Francisca do Spirito Santo, […] como tambem com Joanna Baptista das Chagas, […] e mais […] a Micaella Arcangela da Conceição […] lhe tinha socedido o mesmo, com o Padre Manoel Pinheyro de Oliveira…”

A lista de Custódia parecia não ter fim, pois ainda se lembrou que:

“… havera desaseis anos o Padre Frey Domingos do Rosario, da Ordem de São Francisco, vindo a este Recolhimento, por seis vezes, no mesmo confissionario, tratou com palavras e tocamentos desonestos a ella testemunha e duas vezes foi no acto da mesma confissão…”

Post - ConfissãoSussurros no confessionário.

Aí está, apenas uma parte da tempestade. Pois ainda houve mais personagens, testemunhos, acusações e defesas esfarrapadas, resultando em dois condenados – ao que se sabe –, o padre Pugas e o padre Oliveira. Lendo o testemunho de Custódia Maria contra o padre Brabo e voltando no tempo 17 ou 18 anos, chega-se a 1724 ou 1725, época em que o beato Felix da Costa ainda estava vivo, portanto presente no palco do desvario. Como ele veio a falecer em 1737, ficou a dúvida: – Será que nunca soube do que se passava em sua casa?

Mas a história claramente demonstra que havia também recolhidas chegadas ao pecado. Bem mais tarde, em 1759, uma delas tentou seduzir o padre Manoel de Oliveira Rabello(12)que, não aceitando a provocação, fez denúncia aos seus superiores, nos seguintes termos:

“Me denuncio e acuso que sendo Capelão no Recolhimento de Macaúbas, certa recolhida, ouvindo-a em confissão, me encareceu por palavras amorosas ao que eu respondi que cuidasse na conta que havia de dar a Deus. E tornou segunda e terceira vez, com os mesmos encarecimentos profanos, queixando-se de mim, dizendo que era um ingrato, que não amava a quem tanto venerava e que nunca tinha boca para mandar chamar para confessar.” 

Post - Processo pe CustódioPadre Custódio: “… confessando a Valeria Thereza […] e metendo o delato na boca um raminho…”

Apesar de tudo, os confessores não tomavam jeito e, em 1764, foi aberto pela Santa Inquisição mais um processo, daquela vez contra o padre Custódio Bernardo Fernandes(13), acusado de solicitações pela recolhida Catharina Victoria de Jesus. Dizia ela isto e coisas muito piores:

“… elle lhe dava os seus peitos, pedindo-lhe abraços, e boquinhos e se queria hir para o seo quarto, e outras couzas semelhantes, o que repetira […] por tres ou quatro vezes em actos diferentes. E que confessando no dito Recolhimento a Valeria Thereza de Jesus Maria, tãobem recolhida, […] e metendo o delato na boca hum raminho, queria […] que puxasse por elle em a sua boca e dizendo que a havia atar com uma liga das suas meyas; assoprava-lhe, cuspia-lhe, perguntava-lhe se lhe queria ver, chamava-lhe velhaca […] E que tambem confessando, o mesmo delato assim o fazia a Roza do Coração de Jezus…”

Post - D. Viçoso & MacaúbasD. Viçoso, o santo homem que endireitou Macaúbas.

Apesar da limpeza que fez a Santa Inquisição, cem anos depois o pecado voltou a se manifestar em Macaúbas. Dessa vez, o demônio usou como veículo o álcool. Tanto foi que, d. Antônio Ferreira Viçoso(14), bispo de Mariana, preocupou-se em recolocar o recolhimento nos trilhos. Vigilante com seus subordinados, em carta de 10.07.1844, pediu à regente, madre Josepha da Purificação, que lhe escrevesse para contar o que estaria se passando com o descumprimento das regras e pedindo o nome das transgressoras em “coisas de notáveis consequências”.

Logo depois, em carta de 25.08.1844, d. Viçoso retomou o assunto, dizendo: “Muito Reverenda Senhora, olhe que a Escritura diz que os que governam hão de ser julgados com muito rigor”. As correspondências foram se repetindo e, mais uma vez, em 28.10.1844, ele insistiu: “Outra vez, recomendo a V. R. um cuidado extremo sobre este rebanho de que há de dar a Deus muitas contas”.

Até que, em 14.01.1845, o bispo colocou o dedo na ferida:

“Tive notícias que, pelo Natal, no mesmo terreiro do Recolhimento, houve duas mortes e me dizem que foram resultado de jogos e bebidas. […] Que coisa esta tão escandalosa, junto ao mesmo asilo da virtude e devoção? […] É cousa muito indecente tal negócio ao terreiro do recolhimento e dá ocasião a todas as desordens. Nisso não deve haver falta: este terreno é propriedade das Religiosas e o terreiro é bem como o pátio de qualquer convento; e aonde […] se viu que, em lugar tal, houvesse uma taverna pública”.

E, finalmente, concluiu pela necessidade remover o agente do mal, “esse sujeito que vende as bebidas e dá jogo”, fazendo com que se retirasse do terreiro ou a se emendasse, de modo a não permitir o jogo e “nem vender bebidas espirituosas”.

Post - Bestriz & MacaúbasSanta Beatriz da Silva, fundadora das concepcionistas. / Fachada de Macaúbas.

MAIS HISTÓRIA

O objetivo original de Macaúbas foi atender mulheres convertidas ou aquelas que, pelo simples desejo de isolamento e fé, optassem por viver dentro de preceitos religiosos. Durante algum tempo e nesses moldes funcionou o recolhimento. Em um relatório, datado de 01.08.1757, bispo de Mariana, d. frei Manoel da Cruz, informou, ao Concílio de Trento, dessa casa de convertidas existente em Minas Gerais:

“Neste período, nosso Bispado não se destaca por nenhum Cenóbio de homens Religiosos, nenhum de Freiras. O único nele existente é a Morada das Mulheres Convertidas, à qual se deu o nome de Macaúbas, onde entoam os Ofícios Divinos, ao Coro, sem dúvida, com fama de exímia perfeição e em suavíssimos acordes.”

O comportamento das internas era pautado por determinadas normas, como a prática do silêncio, da caridade, da obediência, da pobreza e da castidade. Algumas outras, sem vocação para carreira religiosa, que foram internadas por conveniências familiares (!) de pais ou de maridos opressores, também eram submetidas ao regime do claustro.

Também serviu de abrigo a jovens e senhoras casadas, que eram internadas temporariamente, enquanto seus pais ou maridos, por algum motivo, necessitavam se ausentar em viagens demoradas. Esse costume de receber mulheres leigas, mediante aquiescência das autoridades eclesiásticas, vinha desde os primeiros tempos.

As demandas vinham de toda parte. Em 29.03.1742, atenderam o pedido de socorro de uma baiana que se sentia perdida no mundo. Diz o documento: “Petição de Maria Rozalia Pimentel da Cunha, natural da Bahia, ‘… ao prez.te refogiada em hua Casa Onesta no Arrayal de S.ta Luzia”, solicitando sua entrada para o Recolhimento.‘ Pedido deferido.” (15) 

Post - Licença M regenteLicença à madre regente para internar d. Ignacia e acompanhantes.

Em 1768, pedindo abrigo temporário para familiares, foi feito um requerimento*, nos seguintes termos:

“Diz o C. (Coronel) José Bernardo da Silva Frade cazado com D. Ignacia Clara de S. José q. ele pertende chegar até ao R. de Janeiro a seus negócios onde ha de demorar o tempo q. lhe for preciso…”

No mesmo papel, houve a autorização (imagem acima) do bispado de Mariana:

“Damos licença à Madre Regente […] p.a que receba […] a D. Ignacia […] m.er (mulher) do Supp.e (suplicante) com hum menino de peito e hua escrava a servir satisfazendo o mesmo Supp.e logo na entrada a porção* devida na forma dos Estatutos; […] Mariana 6 de Juneo de 1768.” * — * Porção = pagamento pelo sustento do interna(s) porcionista(s). 

Esse costume de receber porcionistas – desde que os motivos fossem entendidos como legítimos (!) – é confirmado em documento de 1781, que traduz as palavras da regente do recolhimento, dizendo que era o “mais conveniente e seguro asilo não só das Donzelas e das Viúvas, que se querem dedicar a Deus Nosso Senhor, senão (como também) cuidar das casadas que, por alguma legitima causa, não vivem em companhia de seus maridos e, ao mesmo tempo, a melhor casa de educação para as pupilas…” (16)

Post - Ala & casa SerroJoão Fernandes mandou construir a Ala do Serro (A), a Casa do Serro (B) e a segunda torre.

Também algumas crianças e adolescentes, foram internadas sob veementes pedidos dos pais, visto estarem sofrendo as mais variadas desventuras na vida. Mas não se imagine que a vida lá dentro era um mar de rosas. O edifício plantado à beira do rio era frio e não havia um belo horizonte. Lá o sol se punha cedo, encoberto pelo morro da margem oeste do rio da Velhas e as noites eram normalmente gélidas.

Devido ao ambiente insalubre, era comum as internas padecerem de doenças. Houve uma época em que as freiras administradoras demandaram a proibição de se lavar roupas no córrego que servia ao estabelecimento, pois estariam contaminando suas águas.

Na casa, normalmente destinada à gente branca, e onde só entravam negras na condição de escravas, admitiram-se umas poucas mulatas. Foi o caso das filhas da famosa Chica da Silva. Algumas internas, destaque-se, viviam sob o regime de clausura absoluta e, quando podiam ser vistas, era através de janelas tapadas por treliças, estas vazadas em aberturas diminutas.

Por outro lado, e durante algum tempo, foram permitidas visitas de familiares às recolhidas, desse que fossem do sexo feminino. Entretanto, quando se aboliu essa facilidade, muitas famílias retiraram suas dependentes e, entre elas, estavam as filhas de Chica da Silva. Aliás, essa mulher marcou um momento especial na história de Macaúbas.

Chica é diminutivo de Francisca da Silva de Oliveira, que foi escrava alforriada, nascida no arraial do Serro, tendo vivido no arraial do Tejuco, atual Diamantina (MG). Quando conheceu o rico contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, deitou-lhe “feitiços” e viveram uma união consensual que durou por mais de quinze anos.

Tiveram treze filhos: mulheres, Francisca de Paula, Rita Quitéria, Ana Quitéria, Elena, Luiza, Antônia, Maria, Quitéria, Mariana e mais os homens João, Joaquim, Antônio e José.

Antes de conhecer João Fernandes, Chica havia sido escrava do sargento-mor Manoel Pires Sardinha, com quem tivera dois filhos: Plácido Pires Sardinha, que se formou engenheiro em Coimbra, e Simão Pires Sardinha, também educado na Europa. A esse segundo filho, Simão, ela tratava carinhosamente como “meu bastardo”.

Post - Chica da SilvaJoão Fernandes e Chica da Silva, no filme de Carlos Diegues.

O motivo pelo qual internou as filhas em Macaúbas foi o de propiciar-lhes a melhor educação, mais que isso, promover sua ascenção social,  Em 1767, lá entraram Francisca de Paula, Rita Quitéria e Ana Quitéria. Em 1780, mais outras quatro: Elena, Luiza, Maria e Quitéria. Ali, as internas, além de alguma alfabetização, desenvolviam prendas domésticas e práticas artísticas, tinham educação religiosa e aprendiam regras de boa conduta. Afinal de contas, saiam prontas para o casamento, que era o que mais almejavam as mulheres daquela época.

Cuidando de dar conforto à prole, João Fernandes mandou fazer uma ampliação em Macaúbas, que ficou conhecida como Ala do Serro*, onde abrigava tanto as filhas como as escravas as acompanhavam. E, para facilitar as visitas de Chica às suas “princezinhas”, também mandou construir, do lado de fora, a Casa do Serro, destinada a abrigar a mãe naquelas oportunidades. — * Serro, onde nasceu Chica.

Entretanto, numa determinada época, foram proibidas as visitas, o que fez com que Chica retirasse as filhas do recolhimento. Mas foi um vai e volta, pois em momentos de aflição e mesmo na velhice, continuaram buscando abrigo em Macaúbas. Cinco anos depois, com a roda da vida sempre girando, chegou a vez de Quitéria Rita Fernandes de Oliveira retornar em busca de socorro. Trazia consigo uma filha natural, de nome Mariana, de apenas 8 meses de idade, cujo pai* era o impetuoso padre Rolim(17) e com quem viveu amaziada, tendo lhe dado mais três filhas. Sua nova entrada, que teve interferência política, foi autorizada pelo governador das Minas, d. Luiz da Cunha Menezes. — * José da Silva e Oliveira Rolim, um dos conspiradores da Inconfidência Mineira.

Post - Assin Chica da SilvaEm 1767, entrega “das ditas três educandas”, em Macaúbas, e assina Fran.ca da S de Olivr.a

Por decreto da rainha d. Maria I, entre 1789 e 1846, funcionou em Macaúbas, mais na intenção que na realidade, um educandário de meninas. Contudo, uma crise econômica liquidou a boa iniciativa. A partir de 1846, com as ações purificadoras e modernizadoras de d. Viçoso, surgiu, de fato, uma “clausura para recolhidas” e um colégio em regime de internato.

Com isso, ocorreu a ampliação do edifício, a implantação dos regulamentos do colégio e mais, a abertura de suas portas para a educação de meninas pobres. Esta última inciativa se deu graças às doações do coronel Antônio de Abreu Guimarães, provenientes das rendas do extinto Vínculo da Jaguara*. — * Leia: “A Fazenda de Muita História” e sequência, 01/01/2012.

Mesmo sob a mão forte de d. Viçoso, ainda aconteceram desvarios em Macaúbas. O maligno retornou poderoso, se incorporando na irmã Ana Querubina que, em 1850, foi acusada de mau comportamento e diversos crimes. Em carta que lhe foi endereçada, o bispado enumera os fatos:

“É V. M. (Vossa Mercê) acusada por 25 companheiras suas e por mais outras pessoas […] 1 – Desde que entrou para essa casa, […] apresenta ações e um teor de vida de quem está possuída do mundo, e riquezas […] 2 – Nada lhe agrada, e a tudo murmura, em particular e em público; 3 – Desfeiteou a Madre Ana de Jesus, quando por ela foi repreendida […]; 4 – Poucos meses depois de sua entrada, correu com uma tesoura grande na mão contra a Irmã Valeriana, para a matar […] 5 – Castigava com excesso as escravas e não cessava, enquanto não visse sangue ou cabeça quebrada; 6 – Fez irar tanto uma escrava, que desesperada saltou o muro do convento, e se atirou a um poço, onde morreu […], etc.

A irmã Valeriana aprontou muito mais horrores, mas o bispo era generoso e, por isso, deu-lhe amena punição, apenas cortou-lhe as asas e mandou que calasse a boca. Foi esse o recado:

“… Como seus pecados são públicos, […] vá pedir perdão à toda comunidade. […] Por espaço de oito dias há de ficar totalmente incomunicável, em perfeito silêncio […] destinando esses dias para chorar seus pecados e começar vida nova, e preparar-se para a morte…”

Os esforços para implantar o colégio para meninas tiveram início por volta de 1853, mas ele só veio a tornar realidade em 1863. Esse educandário funcionou até 1920. Atualmente, a casa funciona apenas como mosteiro, contando com algumas religiosas sob o regime de clausura. É vedado o acesso de pessoas laicas às enclausuradas, de onde só podem se afastar em momentos especiais, como para tratamento de saúde, atendimento a alguma questão burocrática, ou participar de assembleias da ordem e cursos voltados para a espiritualidade.

A SANTA DO DESERTO

A padroeira das arrependidas é, de fato, Santa Maria do Egito, também chamada Santa Maria Egipcíaca. Nasceu, não se sabe onde, no século V, no Egito. É venerada especialmente nas igrejas católica, copta, ortodoxa e anglicana.

Post - M Egipcíaca desertoSanta Maria Egipcíaca, ou Santa Maria do Egito, recebendo o manto de São Zózimo.

Contam que, aos 12 anos de idade, foi para Alexandria, onde se prostituiu. Mas, explica São Jerônimo – teólogo e historiador – que, no seu desatino, nunca recebeu dinheiro, pois era apenas impulsionada “por um desejo insaciável e uma indomável paixão”. Contudo, conseguia sobreviver trabalhando na fiação de linho e pedindo esmolas.

Nessa vida turbulenta, aos 17 anos de idade, fez uma peregrinação a Jerusalém, onde continuou comportando-se do mesmo modo, até que veio a sentir-se fortemente arrependida. Buscando então algum alívio, decidiu renunciar à vida mundana e retirou-se para o deserto, onde viveu durante 47 anos como eremita. Daí em diante, sucederam-se vários acontecimentos que levaram-na à santificação, além de ter deixado um dos mais belos exemplos para a fé católica.

Farei que da egípcia bela
Leiam honradas e erradas
Que tomando exemplo nela
Sejam para o céu guiadas,
Guiadas por essa estrela. —Theophilo Braga, 1913

Na iconografia, às vezes, Santa Maria do Egito aparece como uma anciã de cabelo branco e de pele escurecida pelos longos anos no deserto, nua ou coberta pelo manto que pediu a São Zózimo, quando ele a encontrou abrigada numa lapa. Também costumam mostrá-la com os três pães que comprou, antes de empreender a sua viagem ao deserto. Na igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, há uma capela a ela dedicada que representa o momento da sua conversão. Amém!

Pesquisa, texto e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

———

“Ecce quam bonum et quam jucundum habitare fratres in unum” — “Oh, como é bom, como é agradável para irmãos unidos viverem juntos” – (Salmos, 132, 1).

OUÇA:

———

(1) NOBREGA, Manuel (padre) – (Sanfins do Douro, *18.10.1517 / Rio de Janeiro, †18.10.1570) Português, chefe da primeira missão jesuítica na América. / Citação: “Carta do Brasil”, em 09.08.1549.

 (2) SÁ, Mem de – (Coimbra, *1500 / Salvador, †02.03.1572) Fidalgo e administrador colonial português.

 (3) Arquivo Nacional Torre do Tombo, Lisboa – Referência: “Carta de frei André Torneiro à rainha”. PT/TT/CC/1/106/122.

 (4) DURÃO, Santa Rita (frei) – (Cata Preta (MG), *1722 / Lisboa, †1784) Agostiniano, orador e poeta.

(5) HIPPONENSIS, Aurelius Augustinus Hipponensis ou Agostinho de Hipona – (Tagaste, Numídia – atual Souk Ahras -, Argélia *13.11.354 / Hipona, Numídia – atual Annaba -, Argélia †28.08.430). Teólogo, filósofo e bispo de Hipona, cidade na província romana da África. — Sua mãe, Mônica, era cristã devota e seu pai, Patrício, pagão convertido ao cristianismo no leito de morte. Agostinho, que fora muito influenciado pelo maniqueísmo e pelo neoplatonismo, no verão de 386, ao conhecer a história de vida de Santo Antão do Deserto, se converteu ao catolicismo. Por suas próprias palavras, contou que a conversão foi despertada por uma voz infantil que ouviu, dizendo: “tolle, lege” – tome, leia – entendida como um apelo divino para abrir a Bíblia e ler a primeira coisa que encontrasse. Agostinho encontrou na Epístola aos Romanos o trecho “transformação dos crentes”, capítulo 12 ao 15, no qual Paulo mostra como o Evangelho transforma os crentes e seu comportamento. A frase exata, segundo ele, foi: “Andemos honestamente como de dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não vos preocupeis com a carne para não excitardes as suas cobiças.”

Post - St Lazaro & irmãs(6) Marselha – Em francês, Marseille; antigamente, conhecida como Massália ou Massília, hoje é a segunda mais populosa cidade de França. Está situada na costa do mar Mediterrâneo, a meio caminho entre as fronteiras da Itália e Espanha. Foi fundada em 600 a.C. pelos gregos da cidade de Foceia, na península da Anatólia, com a finalidade de porto comercial. // Por sua posição geográfica facilitadora, Marselha sempre conviveu com os problemas da prostituição, tráfico de mulheres, turismo sexual, migração internacional, criminalidade e, como consequência, a miséria. // Por tudo isso, vale relembrar que, em Marsellha, viveram os irmãos São Lázaro de Betânia, Santa Maria de Betânia e Santa Marta de Betânia, amigos de Jesus, os quais desfrutaram da sua companhia em sua própria casa. Lázaro foi o primeiro bispo da cidade de Marselha.Quanto a Santa Maria de Betânia, até hoje, perdura a controvérsia se ela e Maria Madalena seriam a mesma pessoa (imagem à esquerda). // Betânia foi uma aldeia na antiga Judeia. O nome vem do hebraico bét nîyyah, significando casa de Ananias.

(7) CRUZ, Francisco Ignacio dos Santos – “Da Prostituição na cidade de Lisboa”, Lisboa, 1841.

(8) ALMEIDA, Lourenço – Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, códice nº 23, fl. 174.

(9) PUGAS, Antonio Alvares (padre) – Referência: Arquivo Nacional Torre do Tombo, Lisboa. Processo PT/TT/TSO-IL/028/00256.

(10) OLIVEIRA, Manoel Pinheiro de (padre) – Referência: Arquivo Nacional Torre do Tombo, Lisboa. Processo PT/TT/TSO-IL/028/08123.

(11) BRABO, João Luiz (padre) – “Natural de Lisboa, filho de Martim Freire e Joanna Bautista. Depois de sahir da Companhia de Jesus, cuja roupeta vestira em Coimbra a II de Mayo de 1692, se ordenou de Plesbytero, e passando ao Brasil, como fosse muito perito nas letras sagradas, e profanas, exercitou com universal aplauso o ministério de Orador Evangelico, do qual publicou como primícias.” – Fonte: “Biblioteca Lusitana, Historica, Critica e Chrononologica” – Lisboa, MDCCLIX

(12) RABELLO, Manoel de Oliveira (padre) – Referência no “Arquivo Nacional Torre do Tombo”, Lisboa – Caderno de Solicitantes, ANTT/IL, nº 143-4-18, fl. 57.

(13) FERNANDES, Custodio Bernardes (padre) – Referência: Arquivo Nacional Torre do Tombo, Lisboa. Processo PT/TT/TSO-IL/028/05843.

(14) VIÇOSO, Antonio Vicente Ferreira (padre) – (Peniche, Portugal, *13.05.1787 / Mariana, †05.08.1875) Religioso lazarista, sétimo bispo de Mariana (de 1844 a 1875). / Cartas — fonte: ROCHA, Adair José dos Santos, “A educação feminina nos séculos XVIII e XIX: intenções dos bispos para o Recolhimento Nossa Senhora de Macaúbas”, tese: UFMG, 2008.

(15) FARIA, Maria Juscelina de – Historiadora e pesquisadora de Macaúbas. / Fonte da informação.

(16) Revista do Arquivo Público Mineiro, maio, 1975, p. 274. – Fonte: “Arquivo Histórico Ultramarino”, Minas Gerais, Cx. 26 DO, maço 108.

(17) ROLIM, José da Silva e Oliveira (padre) – (Arraial do Tijuco, *1747 / Diamantina, †21.12.1835). Um dos conspiradores da Inconfidência Mineira. Filho do sargento-mor José da Silva e Oliveira Rolim – primeiro caixa administrador da junta administrativa da Intendência dos Diamantes – e de Anna Joaquina da Roza. Seu pai criou e alforriou uma mulata Francisca, a Chica da Silva, que adotou seu sobrenome. Foi amasiado com Quitéria Rita, filha de Chica da Silva com João Fernandes de Oliveira e, com ela, teve quatro filhos relacionados em testamento: Thadeo José da Silva, Domingos José Augusto, Maria Vicência da Silva e Oliveira e Maria da Silva dos Prazeres (esta recolhida em Macaúbas). // Dizem que Rolim abraçou a vida religiosa com pouca fé, somente para se livrar de um processo por ter se envolvido amorosamente com uma mulher casada. De fato, era um homem transgressor, corrupto e com problemas de toda ordem. // Sua mulher, Quitéria Rita Fernandes de Oliveira, internou-se em Macaúbas, em 11.10.1786, acompanhada da filha Mariana Vicência, dois meses após Rolim ser banido para a Bahia, por motivo de seus negócios ilegais. Conseguiu ser aceita na instituição por interferência de Simão Pires Sardinha (filho da primeira união de Chica da Silva), protegido do governador Cunha Menezes. Morreu como freira na clausura de Macaúbas, em 19.03.1855. // Mariana Vicência – neta de Chica da Silva – deixou Macaúbas, casou-se, separou-se e, dizem, vivia de esmolas, morrendo na miséria em 13.10.1859, embora em seu testamento diga ter: “… a herança de meu pai de 1:384$000 depositados no cofre”.

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16 Comentários »

  1. Pesquisa inusitada. Parabéns.
    Como é a ignorância! Minha família enviava alunas para Macaúbas, pois de lá sairiam como moças prendadas, de extrema educação. Também ótima referência seria o Cônego Correa, diretor religoso do Mosteiro, pelos idos de 1840. Era rico. Vendeu as propriedades para Peter Lund e as comprou novamente de seu herdeiro Nereu. Interessante é que, tanto ele como Lund, tinham boa convivência ecumênica. O que os unia muito era a banda de música de Lund, que tocava para as festividades católicas. Lembro-me, dos tempos de criança, que estudar em Macaúbas era um honra para a família. Contudo, sei de uma prima que se engravidou solteira e foi enviada para lá. Mas dela e nem o filho nunca mais se falou.
    Excelente história. Meus cumprimentos! Maria Marilda – Lagoa Santa

    Comentário por Maria marilda pinto correia — 01/07/2015 @ 10:42 am | Responder

    • Marilda:
      Caríssima leitora que muito me estimula, muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/07/2015 @ 2:55 pm | Responder

  2. Excelente documentário. Gosto muito de ler assuntos que dizem respeito à nossa região. Obrigado. Aguardo mais novidades.

    Comentário por Cecilia — 01/07/2015 @ 9:48 pm | Responder

    • Cecília:
      Fico alegre de saber que ganhei mais uma leitora entusiasmada.
      Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/07/2015 @ 10:32 pm | Responder

  3. Formidável este artigo. Já ouvi contar várias histórias sobre Macaúbas, mas esta, além de ser muito interessante, é um relato completo e minucioso. Obrigado. Aguardo receber sempre os seus documentários. Grata, Cecília.

    Comentário por Cecilia Viana Dos Santos Abreu — 03/07/2015 @ 11:17 pm | Responder

    • Cecília:
      Muito obrigado. Vou lhe avisar sempre que lançar um novo Post.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/07/2015 @ 8:40 am | Responder

  4. Muito bom. Aprendi muito com o texto. Parabéns!

    Comentário por Vanda Souto — 04/07/2015 @ 12:05 pm | Responder

    • Vanda:
      O texto é também uma homenagem às mulheres, aquelas que têm sofrido todo tipo de opressão.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/07/2015 @ 2:34 pm | Responder

  5. Muito bom, Eduardo! Excelente pesquisa em relação a Macaúbas. O texto ficou muito interessante. Grande abraço, João Vianna.

    Comentário por jbvianna — 06/07/2015 @ 8:05 am | Responder

    • João:
      Fico feliz em saber que você gostou. Ademais, nossos antepassados Viannas têm muito a ver com Macaúbas.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 06/07/2015 @ 4:27 pm | Responder

  6. Excelentes pesquisa e texto. Parabéns!

    Comentário por Carlos Fernando dos Santos Braga — 06/07/2015 @ 9:44 am | Responder

    • Carlos Fernando:
      Sou um amador da pesquisa histórica e descobri que quando conhecemos o passado de nosso povo, melhor conhecemos a nós mesmos. Pretendo continuar procurando e escrevendo.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 06/07/2015 @ 4:25 pm | Responder

  7. Caro Eduardo, acho que pintou as origens de Macaúbas com cores muito fortes e direcionadas, como o diabo gosta. Espero que assim que o livro que estou escrevendo for editado este ano, com base nos documentos lá pesquisados e ainda inéditos, os seus leitores, pesquisadores e interessados em geral tenham uma imagem mais real e completa do que foi aquela instituição. Mazelas e desvios de conduta aconteceram, como em todos os outros Recolhimentos no Brasil e em outros países, devido sobretudo ao despreparado clero da época, entretanto, não foram tão disseminados, rotineiros e amplos como transparece em seu texto. Se esses escândalos já revelados fossem a tônica do local, certamente não teria ele se tornado o mais famoso e primeiro educandário feminino das Minas Gerais, por onde passaram gerações de mulheres de toda a capitania e mesmo de fora. Em prol da verdade histórica, que você sempre valorizou, há que demonstrar os dois lados da moeda. Espero contribuir com isto daqui a poucos meses. Aguarde. Abraço da amiga Maria Juscelina.

    Comentário por Maria Juscelina de Faria — 06/07/2015 @ 11:16 am | Responder

    • Caríssima Juscelina:

      Entendo sua posição. Entretanto, não inventei nada e não quis desmerecer a atual Macaúbas. Ressalto que, no Post, abrindo o tema do dito mosteiro, disse: “Daqui em diante, o discurso é sobre a primeira casa de arrependidas de Minas Gerais, […] mas que sofreu profundas mudanças ao correr do tempo.” Para tanto, citei o papel de d. Viçoso nessa questão de reconduzir Macaúbas ao bom caminho, tal como é hoje. Quando se comemora os 300 anos do mosteiro, tem-se que mostrar tudo que ocorreu nesse completo período. Assim é a história, que não pode ser escrita censurando pedaços. A verdade só existe por inteiro.
      Antes de mim, minhas fontes citaram tudo o que digo. Algumas delas fizeram isso recentemente, inclusive em teses acadêmicas, publicadas para quem quiser ler. Por outro lado, não se deve confundir o mosteiro antigo com o atual. No dicionário, confundir é “não distinguir; tomar uma coisa ou pessoa por outra”. Acho bom ressaltar que minha bisavó estudou em Macaúbas e dela muito me orgulho.

      Com todo respeito e admiração, espero que entenda minha posição. Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 06/07/2015 @ 4:00 pm | Responder

  8. Seu relato sobre Macaúbas prende a atenção. Além do mais, no meu caso, também por não saber nada sobre o assunto. Nem imaginava o que se passou por lá. Tinha só referências amenas. As referências agora não são más, contudo apenas diferentes do que eu sabia. Gosto de saber a verdade! Tudo no texto me agradou, desde o início, também sobre Madalena e até a Santa Maria do Egito, e as cartas pedindo pelas órfãs. Realmente é de chorar. Então houve época em que não havia pecado… Bons tempos!

    Comentário por sertaneja — 07/07/2015 @ 12:15 am | Responder

    • Virgínia, sertaneja:
      Se meu texto contribuiu para lhe dar conhecimento e deleite, fico feliz.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 07/07/2015 @ 9:35 am | Responder


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