Sumidoiro's Blog

01/10/2015

A ALDEIA QUE SONHEI

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:17 am

♦ Para ninguém botar defeito

Post - Subida da serraSubida da serra: trilha com quaresmeiras.

Post Uma amiga que vivia na cidade grande veio nos visitar. Para recepcioná-la, decidi mostrar-lhe aquilo que tenho de melhor no meu lugar. Nada de vitrines, restaurantes ou essas tantas outras coisas banais. Escolhi um passeio nos arrabaldes, onde ainda existe um encantador pedaço da natureza.

Um trio: minha mulher, a visita e eu subimos a serra, e fomos caminhando por uma trilha de chão batido. Com o céu limpo e a brisa fresca, pudemos sentir a vegetação que estava belíssima. No campo vimos congonhas* e quaresmeiras na mata, todas em flor. — * Congonha do campo, arbusto que produz uma flor amarela.

Bem lá no alto, onde se alonga o planalto, fizemos breve pausa para descanso e contemplação. A paisagem já era minha conhecida mas, pela primeira vez, consegui ver num vale ao longe um riacho de águas cristalinas. Não sei se também as companheiras tinham-no percebido. De qualquer modo, desse ponto em diante, fui de longe acompanhando as águas vertendo maciamente leito abaixo. Até que chegamos ao fim da trilha, que era o limite do meu conhecimento, pois nunca fora adiante.

Porém, devido às circunstâncias, foi despertado em mim o desejo de conhecer o destino das águas. Daí, tomando coragem, motivei as viandantes a prosseguirmos a caminhada até que, terminado o planalto, descemos a outra vertente da serra, rumo ao desconhecido.

Post - Serra & planaltoA serra, o planalto e depois o paraíso.

Sem muito esforço e rapidamente, chegamos a uma minúscula aldeia. De pronto, notei o surpreendente riacho desaguando numa lagoa e formando um belo cenário. Naquele povoado, as edificações eram modestas e estavam com portas e janelas abertas. E não havia ninguém do lado de fora, e nem na única ruela que atravessava a aldeia de ponta a ponta.

O primeiro prédio que chamou minha atenção possuía um letreiro, realmente destoante de todo o resto. Nele estava escrito: BRADESCO. Impelido pela curiosidade, dirigi-me ao seu interior, onde parecia existir uma agência bancária. Contudo, lá dentro não encontrei vivalma… Surpreso e apelando à razão, concluí que na aldeia ninguém se atrelava ao dinheiro.

Em seguida, sozinho, fui conhecer o resto daquele pequeno paraíso e dirigi-me ao seu ponto extremo. Até que, quase lá chegando, surgiu uma velha no caminho e resolvi lhe fazer duas indagações. A primeira, onde havia um restaurante para comer, pois já sentia fome; a segunda, onde poderia pegar um ônibus, para voltar à minha cidade.

Vieram então suas respostas: “- Você tem que andar depressa se quiser fazer o que pretende, porque o ônibus sai daqui a pouco, às 11 horas. E, quanto ao restaurante, só tem um, o prato é único, mas é muito apreciado, e é por isso que a freguesia sempre retorna.”

Sem pestanejar, segui o conselho da velha e corri para o restaurante, onde pedi a tão recomendada comida. Veio num prato comum, de louça branca, em porção suficiente. Nada me cobraram e nunca havia provado comida tão gostosa! Mas ultrapassara as 11 horas e perdi o ônibus…

Ao sair do restaurante, percebi ao lado um imenso e verdejante gramado. Visto que sou apreciador da natureza, quis senti-lo mais de perto e sai pisando naquele tapete vegetal de beleza indescritível. Praga invasora não notei nele, uma tiririca sequer. Até que, de repente, apareceu o jardineiro responsável, um negro que me ofereceu um largo sorriso, mostrando uma dentadura de dar inveja a qualquer artista de tv.

O jardineiro trajava um macacão de brim azul, muito simples e limpo, chapéu de palha e botina. Perguntei-lhe, então, se sabia de alguma estrada que não fosse íngreme para voltar para minha cidade, pois eu chegara ali descendo uma forte ladeira. Sua resposta:

“Eu nunca saí daqui e não sei de outro caminho…” 

Sua fala surpreendente induziu-me a fazer nova indagação, qual seja, onde ele havia nascido. Sua resposta:

“Nasci aqui mesmo. Aqui é o melhor lugar do mundo!”

Mais uma vez, abusando da boa vontade do negro, perguntei-lhe se sabia outra possibilidade de transporte para meu retorno, ao que ele respondeu:

“Aluga uma bicicleta…”

De fato, achei muito boa ideia mas, revolvendo a memória, lembrei-me que não mais se pedala como antigamente. Agora matam os ciclistas para roubar o veículo. Pois bem, diante de tudo isso, resolvi voltar a pé, caminhando noite adentro, pedindo a Deus o luar no meu caminho e que me livrasse de algum eclipse, pelo menos até chegar à minha morada.

Pena que não é verdade. Foi sonho mesmo, um noturno momento de felicidade.

Texto e arte por Eduardo de Paula

Na madrugada de 30.08.2015

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12 Comentários »

  1. Eduardo:
    Muito bom sonhar. Ainda mais com reflexos daquelas aldeias da China antiga, onde nos ensinam o caminho do meio. O ruim é acordar e ver que a realidade é outra. Devo apostar que despertou mais tranquilo e com saudades daquele infinito. Mas, apesar de toda beleza, ainda assemelhava ao nosso mundo, uma vez que roubavam bicicletas.

    Comentário por Maria Marilda pinto correa — 01/10/2015 @ 8:45 am | Responder

    • Marilda:
      Vivo com “um anjo chinês” ao meu lado, que sempre me mostra o caminho do meio. Não é o mais desembaraçado, tem pedras e cipós que, às vezes, dificultam nossos passos.
      Muito obrigado e um abraço do
      Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/10/2015 @ 10:06 am | Responder

  2. Amigo, parabéns pelo texto! Acreditei que fosse verdade…😊

    Comentário por Sandra Giacomozzi — 01/10/2015 @ 10:12 am | Responder

    • Querida Sandra:
      Num certo sentido é verdade. O sonho é nossa vida em paralelo. Permita-me um conselho: sonhe!
      Um abraço do Eduardo

      Comentário por sumidoiro — 01/10/2015 @ 10:28 am | Responder

  3. Eduardo,
    muito bem escrito! Enquanto lia, me transportei em pensamento para o seu paraíso, e cheguei a ver o verde do gramado e o jardineiro.
    Parabéns, João Vianna

    Comentário por jbvianna — 01/10/2015 @ 6:12 pm | Responder

    • João:
      Tome um banho morno antes de deitar, pense na aldeia e garanto que chega lá. É de graça!
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/10/2015 @ 6:54 pm | Responder

  4. Obrigado, Eduardo, pelo belo passeio tendo você como guia a descrever as belezas da natureza e as delícias de uma vida frugal. Um relato simples, contrastante com esse nosso mundo real, agora que o urbano vai invadindo o rural e deformando tudo.

    Comentário por stevantoledo — 03/10/2015 @ 11:44 pm | Responder

    • Stevan:
      Também sonho com os olhos abertos, procurando levar corpo e mente com leveza e simplicidade. Descobri que não há nada melhor que viver na nossa aldeia.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/10/2015 @ 7:42 am | Responder

  5. Pelos comentários que você recebeu, penso estar certo quando insisto para que escreva mais literatura. A aldeia que sonhou é um parâmetro para reformularmos nosso modo de viver. Toda mudança de realidade implica mudança de mentalidade. É nesse sentido que os artistas podem ajudar a criar novas realidades. Parabéns, Eduardo!
    Comentário por Pedro Borges.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 08/10/2015 @ 11:33 am | Responder

    • Pedro:
      Fazer literatura é uma grande responsabilidade. Sinto não ter fôlego para tanto. De qualquer modo, nesse tempo de vida que me sobra, quero continuar sonhando e escrevendo minhas despretensiosas histórias.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 08/10/2015 @ 2:15 pm | Responder

  6. Você parece ser daqueles que basta uma boa noite de sono para compor uma peça de arte. No caso, um sonho de rara beleza. De autoria sua! Parabéns.

    Comentário por sertaneja — 12/10/2015 @ 10:23 pm | Responder

    • Virgínia:
      Faço força para sonhar. É a melhor maneira de viver.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 13/10/2015 @ 7:24 am | Responder


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