Sumidoiro's Blog

01/11/2015

O CAPITÃO E O BARBEIRO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 4:42 am

♦ Atualização do Post “O capitão e a doença de Chagas”

No início do século passado, com o objetivo de unir o sudeste ao norte – do Rio de Janeiro a Belém do Pará –, construía-se o prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil. O ambicioso projeto prosseguia além da cidade de Curvelo, no centro-norte de Minas Gerais. Entretanto, quando se aproximava da atual cidade de Lassance, o engenheiro chefe da obra, Cantarino Motta(1), deparou-se com inúmeras dificuldades, devido a casos de malária que estavam devastando a saúde dos operários. O foco da doença estaria nas águas do rio Bicudo(2), onde haviam acabado de construir uma ponte.

Post - Cafua e médicosSentados (da dir. p/ esq.): Carlos Chagas, Belisário Penna, Cantarino Motta e Bahia da Rocha.

As consequências desastrosas da doença levaram Cantarino a pedir ajuda ao governo do presidente Rodrigues Alves. Corria o ano de 1907 e, em atendimento ao apelo, houve o envio de Carlos Chagas(3) – pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz –, a Lassance (anteriormente chamada São Gonçalo das Tabocas). No dia 6 de junho, o cientista partiu do Rio de Janeiro(4), acompanhado do dr. Carvalho de Almeida – sub-diretor da 6ª divisão da EFCB –, e do médico Belisário Penna(5). Instalado naquela localidade, contando com auxiliares competentes, e depois de mais de um ano de trabalho, Chagas concluiu que havia outro mal, mas que não era a malária*, que também atacava a população. — * O mesmo que paludismo, impaludismo ou maleita, doença geralmente transmitida através da picada do mosquito Anopheles, fêmea. Os machos alimentam-se de néctar.

Durante as investigações, uma sucessão de acontecimentos favoráveis contribuíram para que, em abril de 1909, fosse anunciada a descoberta de uma nova doença humana. Numa menina, chamada Berenice(6), identificaram o primeiro caso da patologia que ficou conhecida como Doença de Chagas, provocada pelo Trypanosoma cruzi e transmitida* pelo inseto popularmente conhecido como barbeiro. Ao ingerir o sangue de animais, seu corpo quase negro e achatado modifica-se, ficando inchado.

O inseto é denominado Triatoma infestans e ocorre no Brasil, Bolívia, Peru, Chile, Argentina, Paraguai e Uruguai. Não há como sequer imaginar quantas foram as vítimas do barbeiro em tão vastos territórios. E quantas morreram sem saber a origem daquilo que as destruíra? Recentemente, levantou-se a hipótese de que até o famoso cientista Charles Darwin padeceu da doença, por ter sido contaminado durante uma viagem ao sopé dos Andes, na Argentina(7).

Post - Cafua & barbeiroFamília e cafua de pau-a-pique. / Inseto barbeiro, habitante da região do rio Bicudo.

Para a importante descoberta, duas pessoas deram contribuição decisiva: Cantarino Motta e um morador de Curvelo*. Pois bem, é que Cantarino tinha o hábito de passar os fins de semana naquela cidade, quando levava suas preocupações a um amigo – comerciante e fazendeiro –, o capitão Evaristo Antônio de Paula(8). Sempre que conversavam, o engenheiro buscava explicações para a ocorrência de tantos casos de malária. Foi então que, num certo momento, o capitão chamou sua atenção para o tal percevejo barbeiroDisseminado na região, o inseto com muitas denominações era ali também conhecido como chupão ou chupança(9). — * Curvelo está ao sul de Lassance, atualmente distante 103 km, por rodovia.

Post - Crianças & barbeiroUm barbeiro adulto, na testa; e uma ninfa, no braço. / Crianças diante de cafua de pau-a-pique.

Normalmente, suas picadas provocam irritação na pele, fazendo com que as vítimas se cocem. Mas, aquelas pobres sofredoras, com suas unhas grandes, ao fazê-lo provocavam fissuras no rosto, assemelhando-se a cortes de navalha*. Essa é a origem do nome barbeiro. — * A contaminação se faz pelas fezes do inseto em contato com a pele ferida, mucosas, olhos ou mesmo por via oral.

Alguns portadores da doença sentiam o coração e as artérias pulsarem em ritmo alterado, forte e descompassado. Daí o distúrbio ser também conhecido por “baticum”. Quando se queixavam daquele mal-estar, não se tratava de simples imaginação, pois de fato havia casos de insuficiência cardíaca. Ocorriam, também, casos de morte súbita, provocados pela mesma patologia. Era pois de se desconfiar de desse inseto. Ele proliferava nas frestas das cafuas construídas com paredes de pau-a-pique, de onde saíam à noite, para sugar o sangue dos moradores.

Post - Cafua Buriti PequenoCafua em Buriti Pequeno, onde Chagas viu o barbeiro pela primeira vez. 

Tudo isso o capitão Evaristo havia observado e foi o que comentou com Cantarino, sugerindo que se investigasse o inseto sugador, provável disseminador de uma doença misteriosa. Esses fatos históricos vêm comprovar que a descoberta da relação entre o barbeiro e a patologia não foi coisa do acaso, nem apenas dos médicos. Antes de tudo houve o alerta de um homem observador da natureza, repassada para um atento engenheiro.

A revelação pública desses acontecimentos se deve à revista “Singra”(10), do Rio de Janeiro. Em entrevista, Cantarino revelou ao repórter Luiz de Medeiros: “O coronel Evaristo de Paula dizia que não era só o mosquito (da malária) que chupava o sangue da gente, mas que o ‘barbeiro’ também o fazia. Por isso, conviria evitar suas picadas, pois quem sabe se ele também não causa mal?” Enquanto viveu o engenheiro, suas palavras nunca foram desmentidas, pelo contrário, outras pessoas acrescentaram mais evidências ao que ocorrera.

Post - Revista SingraO repórter de Singra, Cantarino e familiares.

Em 1959, nas comemorações dos 50 anos da descoberta da doença de Chagas, o jornal “Diário da Tarde”(11) retomou o assunto, em reportagem de Francisco Antunes. O texto foi motivado por uma conversa que teve com o dr. Josaphat de Paula Penna(12), conhecido dentista de Belo Horizonte, historiador, paleontologista e neto do capitão Evaristo. Naquela oportunidade, o jornalista repetiu o relato de Cantarino, que fora publicado pela “Singra”, e mais as seguintes palavras de Josaphat:

“ – O meu avô, capitão Evaristo de Paula, era grande fazendeiro da região. Homem prático, conhecedor da vida do campo e principalmente do local onde estava sua propriedade, andava preocupado com a presença do ‘barbeiro’ nas palhoças que se espalhavam pela zona. Notava que os que moravam nas palhoças, onde estavam os ‘barbeiros’, eram sempre doentes. Não tinha qualquer conhecimento de medicina, mas procurava ligar a presença do ‘barbeiro’ à moléstia que atacava os habitantes da palhoça”.

Post - Lassance estaçãoEstação de Lassance, inaugurada em 26.02.1908 (“O Malho”, 24.07.1909).

Também o médico e professor Eurico Vilella(13), membro da equipe de Chagas, citou Cantarino como mensageiro daquela suspeição sobre o inseto. Assim o fez em entrevista ao jornal “Correio da Manhã” – RJ, em 05.07.1959, dizendo:

“Em uma parada no acampamento da Central, o engenheiro, Cantarino da Mota, falou-lhe sobre o barbeiro, bicho que chupava o sangue do caboclo, deixando uma ferida que parecia feita por um corte de navalha.”

A seu modo, o médico e professor Milton Carneiro(14), em 1963, repetiu a  mesma história:

“Logo ao chegar, em companhia do Dr. Belizário Pena e do Dr. Bahia da Rocha, (Carlos Chagas) foi visitar o Dr. Cantarino Mota, num acampamento à margem do rio Buriti Pequeno, onde atendeu a vários doentes que o esperavam, um dos quais em estado desesperador. O que aconteceu de muito marcante na noite dessa primeira visita foi uma longa conversa entre os doutores Cantarino, Chagas, Belizário e Bahia.”

Post - Chagas & doenteLassance, 1908: a menina Rita e Chagas; ela morreu três dias após a consulta.

Ao mesmo tempo, o prof. Milton Carneiro imaginou um diálogo, dessa forma:

“… pode-se fazer, agora, depois de se saber, sem nenhuma dúvida, que foi o Dr. Cantarino o apresentador oficial do ‘barbeiro’ a Chagas, mais esta pergunta:

– Quem foi que apresentou o “barbeiro”, pivô de toda a história, ao Dr. Cantarino?

– Quem o apresentou, conforme afirmação do próprio Dr. Cantarino à “Singra”, foi o distinto mineiro Coronel (capitão) Evaristo de Paula.

– E quem teria apresentado o “barbeiro” ao Coronel (capitão) Evaristo?

– Provavelmente a gente do lugar…”

Post - Lassance casas operáriosLassance: casas de operários (“O Malho”, 07.12.1912).

Noutra oportunidade, no jornal “Curvelo Notícias“, de agosto de 1977, o bisneto de Evaristo, médico e pesquisador Alcebíades Vianna de Paula(15), prestou o seguinte depoimento:

“… incisivos são os esclarecimentos do médico Sílvio de Paula Pereira(16), quando afirma que ouviu de vários parentes do capitão Evaristo, quando moço, detalhes que não deixam dúvidas quanto à sua participação nos fatos que antecederam a descoberta da doença. Coube ao Capitão Evaristo, inclusive, coletar os primeiros insetos que foram enviados ao Rio de Janeiro, a pedido de Carlos Chagas […] Esses insetos, recordavam alguns filhos do capitão Evaristo, teriam sido ofertados ao ilustre cientista em uma caixa de papelão, em que era de hábito, naqueles dias, colocar cápsulas de quinino usadas contra a malária…”

Mais tarde, o médico e professor Joffre Marcondes Rezende(17), na “Revista de Patologia Tropical”, 2008 , também comentou a relação próxima e amistosa entre Cantarino e Evaristo. Disse ele que, em correspondência recebida do médico e professor Edmundo de Paula Pinto(18) – também neto do Capitão –, este lhe relatou:

“…o convívio e amizade entre Cantarino Motta e Evaristo de Paula se deu em Curvelo, local ‘civilizado’ mais próximo de Lassance e para onde se dirigiam os engenheiros no fim de semana.”

Post - Chagas & BelisárioDo lado direito: Belisário Penna – médico da equipe – e Carlos Chagas, em Lassance.

O próprio Carlos Chagas, em citação no livro “Meu Pai”, de Carlos Chagas Filho(19), confirma o testemunho de Cantarino:

“Mais de um ano permanecemos naquela zona, sem que houvéssemos sabido da existência ali, nas choupanas dos regionais, de um inseto hematófago, denominado vulgarmente barbeiro, chupão ou chupança […] Numa viagem a Pirapora, e quando pernoitávamos, Belisário Penna e eu, no acampamento de engenheiros, encarregados dos estudos da linha férrea, conhecemos o barbeiro, que nos foi mostrado pelo Dr. Cantarino Motta, chefe da comissão de engenheiros. […] ficamos logo interessados em conhecer o barbeiro na sua biologia exata, e principalmente em verificar a hipótese de ser ele, acaso, o transmissor de algum parasito ao homem, ou a outro vertebrado.”

Post - Chagas & hospitalLassance: hospital para estudar a doença, construído por Chagas (à esquerda da foto).

Mais recentemente, no ano 2000, o médico e professor João Amílcar Salgado(20), estudioso da doença de Chagas, também aceitando os fatos históricos, disse:

“…manifestei o propósito de integrar Evaristo e Cantarino ao capítulo de pré-história da doença, que comporia o relato integral do caso Berenice”, referindo-se à primeira paciente de Carlos Chagas”.

Em 2009, no “48º Congresso Brasileiro de Medicina Tropical”, o prof. João Carlos Pinto Dias(21), por sua vez, em uma palestra, contou como se deu conhecimento do barbeiro por Carlos Chagas. Auxiliado por numa série de “slides”, destacou:

“O triatomíneo lhe é mostrado por C. Motta, entre abril e junho de 1908.” // “Uma palavra de Cantarino Motta — O seu a seu dono: Evaristo de Paula dizia que não era só o mosquito que chupava o sangue da gente, mas que o barbeiro também o fazia.”

Post - Cantarino & Eurico & EvaristoCantarino Motta, Eurico Vilella (“Correio da Manhã”, 05.07.1959) e Evaristo Antônio de Paula.

RETROSPECTO

Em 27.02.1908, já estava controlada a maleita e concluído o trecho ferroviário, quando foi inaugurada(22) a nova estação da Central do Brasil, que recebeu o nome de Lassance, em homenagem ao engenheiro chefe da construção, Ernesto Antônio Lassance Cunha. Naquele tempo, ao colher as primeiras evidências da nova patologia, Chagas cuidou de instalar na localidade um pequeno hospital. Nele pretendia agilizar as investigações, além de prestar atendimento médico aos doentes da região. Paralelamente, outra unidade hospitalar foi montada no Instituto de Manguinhos, onde seriam acompanhados pacientes de Minas Gerais e de outras regiões do país.

Os primeiros resultados positivos das investigações não tardaram, pois as primeiras autópsias já mostraram grandes lesões no músculo cardíaco, que poderiam levar à morte. Em seguida, quando Chagas capturou alguns barbeiros para examinar-lhes o aparelho digestivo, surgiu a prova definitiva, ao encontrar no intestino do barbeiro uma espécie de microorganismo unicelular ainda desconhecido. Era o causador da doença! A pista, fornecida por Evaristo a Cantarino, estava correta. E, para coroar as investigações, em 23.04.1909 Chagas descobriu o Trypanosoma na menina de três anos, Berenice, que se apresentava febril e anêmica.

Post - Lassance hospitalLassance: casa do engenheiro residente, mais tarde hospital regional (Arquivo Público Mineiro).

O SEU A SEU DONO

Chagas foi indicado para o Prêmio Nobel, em 1921, mas ciumeiras políticas e acadêmicas fizeram com que os próprios brasileiros desqualificassem o cientista para o recebimento da láurea. Por outro lado, quanto a Evaristo, é também incompreensível que, por tanto tempo, tenha ficado imersa em sombras sua evidente participação na grande descoberta.

Post - Decreto Est TamborilProposta de homenagem a Evaristo, pelo deputado federal Vasconcelos Costa.

Ao capitão Evaristo houve apenas uma homenagem post mortem, por iniciativa do deputado federal Vasconcelos Costa(23), quando trocaram o nome da estação ferroviária Tamboril(24) – próxima à cidade de Curvelo – para Capitão Evaristo. O decreto foi publicado em 1955 e o nome devidamente alterado mas, pela lamentável tradição brasileira de matar a história, em 2003 a edificação já estava demolida.  

De qualquer modo, tanto o testemunho de Cantarino Motta, quanto o reconhecimento de pesquisadores, cientistas e pessoas credenciadas, vieram a confirmar a participação de Evaristo na descoberta. Esses depoimentos estão aí a iluminar os fatos, de maneira a dar o seu a seu dono e fazendo com que o nome do capitão fique incorporado à história de um dos maiores feitos da ciência médica.

Post - Estação cap EvaristoAntiga Tamboril, junto ao ribeirão do Picão, inaugurada em 1906, depois nomeada Capitão Evaristo.

post-sumidoiro-marcaCarta no jornal

Um leitor não identificado, do jornal “Correio da Manhã”, enviou uma carta(25) à redação que foi publicada em 31.03.1907. É a manifestação de um viajante, que conheceu in loco as agruras enfrentadas pelos construtores da estrada, no ramal Curvelo-Pirapora. Sua experiência ocorrera alguns meses antes da chegada de Chagas a Lassance. Está assim no jornal:

— Mais uma carta que nos foi dirigida e para a qual chamamos a atenção do dr. Aarão Reis, diretor desta estrada. Há nela elementos de sobra para se avaliar as necessidades inúmeras a que estão sujeitos os seus subordinados, que trabalham na 6ª divisão – prolongamento. —

“Defensor como sois do digno pessoal da Estrada de Ferro Central do Brasil, ao qual, dia a dia, demonstra-se estimar e ter verdadeira simpatia, ouso roubar, por alguns momentos, o vosso preciosíssimo tempo e pedir-vos que, na vossa diária colaboração, na seção E. F. Central do Brasil, mostrais os sofrimentos atrozes por que devem passar os dignos empregados que são escalados para ter exercício de Curvelo a Contria(26).

Post Lassance a CurveloNão podeis calcular! É um horror, uma verdadeira calamidade! Quem vos escreve estas linhas já pertenceu por muitos anos a esta agremiação de denodados servidores do Estado, estes fiéis executores do dever. Como viajante de uma importante casa comercial desta praça, fui ao estado da Bahia em negócios da minha profissão e querendo, de lá, passar para Minas onde pretendia pelo sertão angariar freguesia, fiquei horrorizado com o que observei de Pirapora a Curvelo e desisti, como desisto, de não mais cruzar os meus pés por aquelas paragens, por onde, creio, como se diz vulgarmente, Nosso Senhor Jesus Cristo não passou, nem ao menos de longe.

A cidade de Curvelo que se jacta de adiantada, não obstante estar portando esta estrada de ferro, conserva os hábitos primitivos das cidades atrasadas pois, como prova, basta dizer que é uma temeridade passar-se à noite à rua, devido aos bois bravos que nela pastam desassombradamente! Dali para diante, como em Cachopa, Tamboril, Curralinho e Contria, a vida para o empregado da estrada é um martírio, um sofrimento horroroso, onde falta tudo, os primeiros gêneros de necessidade!

Em uma dessas localidades a que me refiro, que de momento não poso me lembrar, corre um rio chamado Picão(28), em cujas margens grassam as febres de mau caráter (malignas). Esse rio passa distante da localidade uns 200 metros, infeccionando tudo e expondo o pobre empregado, às vezes sobrecarregado de família, às mais torturantes necessidades, aos mais cruéis padecimentos. A alguns quilômetros distante de Contria, constrói-se, atualmente, uma ponte sobre o rio Bicudo, mas a estrada já vai lutando com sérias dificuldades para arranjar pessoal que queira trabalhar no sertão, pois é sabido que as febres têm devastado muita gente!

Post - Estação CurveloEstação de Curvelo: inauguração que teve a presença do presidente Rodrigues Alves (Junho, 1904)

Há dias, foi uma turma de caboclos (80 homens) das margens do São Francisco, para trabalharem no prolongamento, porque os trabalhadores que vão à linha todos têm-na abandonado, com receio das febres. Como deves saber, geralmente as turmas são compostas de honrados portugueses, porém, para lá, ilustre redator, não se encontra um para remédio: são todos brasileiros e brasileiros sertanejos.

Contaram-me que, dois carpinteiros que foram trabalhar na ponte do Bicudo, há poucos dias quando lá estive, contraíram as tais febres e, poucos dias depois, entregaram a alma ao criador! A água, naquelas longínquas paragens, além de escassa é péssima e uma das causas que mais concorre para a mortandade dos que não estão afeitos a tão terrível clima, insalubre, pestilento, irmão gêmeo do que impera soberano nas remotas regiões acreanas* (* do território do Acre).

Post - ContriaEstação de Contria: inaugurada em 22.10.1906 e que deu origem ao povoado de mesmo nome.

Isto posto, peço-vos, ilustre redator, que pelas brilhantes colunas do vosso brilhante jornal, intercedais em prol do digno funcionalismo da Estrada de Ferro Central do Brasil, para que, ao menos, lhes sejam dadas as mesmas vantagens que, ao pessoal técnico da 6ª divisão, concedeu o mistério da indústria, isto é, uma gratificação especial atento às condições climatéricas das localidades sertanejas do estado de Minas.”

Imagine, ilustre redator, que lá poucos capiaus existem e que é sobremaneira extraordinário! Capiaus são aqueles que residem no mato, distante das povoações. Se os próprios do lugar fogem espavoridos, calcule o que não possa acontecer com os que, aclimatados aqui no Rio (… de Janeiro) e suas circunvizinhanças, se vêm, de um momento para outro, removidos para estes pontos, verdadeiros focos de febres de mau caráter (malignas), onde não existe o menor recurso, senão distante 30 a 40 léguas e, assim mesmo, com dificuldade!

Para estas vítimas do dever, como já foi em tempos idos, o signatário destas despretensiosas linhas, eu vos peço, ilustre redator, os vossos valiosos ofícios junto ao eminente diretor da estrada, dr. Aarão Reis(28), para que sua senhoria, estudando a questão, promova as providências que o caso exige, dando aos seus subordinados meios de suportar com verdadeira abnegação os deveres que lhes são inerentes nos espinhosos cargos que exercem naquelas regiões sertanejas, verdadeiros cemitérios da vida. Fiado pois, na benevolência que sempre destes mostra, em prol dos empregados da Central do Brasil e como um dos seus veteranos servidores, espero e conto com a vossa gentileza, dando publicidade a esta missiva, filha tão somente da justiça e do direito.”

Pesquisa, texto e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

—— Clique (botão direito) e leia a revista SINGRA. Leia mais: O capitão e sua família”.

(1) MOTTA, Cornélio Homem Cantarino – (São Pedro da Aldeia – RJ, *17.07.1869 / Rio de Janeiro, †07.08.1959) Engenheiro civil pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro.

(2) O rio Bicudo deságua na margem esquerda do rio das Velhas, a meio caminho entre Corinto e Lassance.

(3) CHAGAS, Carlos Justiniano Ribeiro das – (Oliveira – MG, *09.07.1879 / Rio de Janeiro, †08.01.1934). Médico sanitarista, formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

(4) “Correio da Manhã”, Rio de Janeiro, 07.06.1907.

(5) PENNA, Belisário Augusto de Oliveira – (Barbacena – MG, *29.12.1868 / Sacra Família do Tinguá – RJ, †04.11.1939) Médico sanitarista, formado pela Faculdade de Medicina da Bahia.

(6) Durante algum tempo confundiu-se Berenice com Rita* (*vide foto, acima).

(7) DARWIN, Charles Robert – (Reino Unido, *12.02.1809 / Reino Unido,†19.04.1882) Naturalista, fundador de uma teoria da evolução das espécies. Obra principal: “A Origem das Espécies”. // “O renomado professor Saul Adler, da Universidade Hebraica de Jerusalém, especialista em doenças tropicais, declarou que Darwin, mais de uma vez, teve contato com o Triatoma infestans, o “inseto assassino”, quando esteve na América do Sul.  Em “A Viagem do Beagle”, descreveu vividamente seu contato com ele numa aldeia ao sopé da Cordilheira dos Andes argentinos. Disse: “À noite, sofri um ataque do Benchuca (o nome vulgar como era conhecido), uma espécie de Reduvius, o grande inseto preto dos Pampas. É por demais repugnante o contato com esses insetos macios e sem asas* (*na verdade, possuem asas achatadas), com cerca de uma polegada de comprimento, rastejando sobre seu corpo. Antes de começar a sugar eles são bastante chatos mas, depois, se tornam redondos e inchados com o sangue ingerido.” Rememorando suas palavras, parece ficar claro que foi esse protozoário […] que reduziu o vigoroso aventureiro em um homem prematuramente envelhecido e frágil, e que, por quarenta anos (como conta seu filho), “nunca teve sequer um dia sequer da saúde dos homens comuns “. Fonte: “The New York Times”, Letters, 15.06.1989. // Mais recentemente, tem ganhado força a hipótese de que a origem dos padecimentos de Darwin seria outra, estaria numa doença de natureza genética e de múltiplas consequências.

(8) PAULA, Evaristo Antônio de – (Tabuleiro Grande [atual Paraopeba] – MG, *26.05.1835 / Curvelo, †18.05.1913 // E.A.P. é bisavó do autor deste Post.

(9) O hospedeiro, intermediário da Doença de Chagas, e suas denominações vulgares no Brasil: barbeiro, chupão, chupança, bicudo, picão, fincão, furão, percevejão, bicho de parede, chupa pinto, percevejo do sertão, percevejo francês, percevejo gaudério, percevejo grande, procotó, porocotó, baratão, bruxa, cafote, cascudo, piolho de piaçava, quiche do sertão, rondão e vum-vum.

(10) Revista Singra – vol. VII, nº 10, Arquivo Cantarino Motta, Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz.

(11) “Diário da Tarde”, Belo Horizonte, 04.08.1959.

(12) PENNA, Josaphat de Paula – (Curvelo, *24.08.1911 / Belo Horizonte, †19.02.1992) Dentista e arqueólogo.

(13) VILLELA, Eurico de Azevedo – (Teresópolis – RJ, *10.09.1883 / São Paulo, †08.03.1962)
Médico, professor, higienista — Segundo Maria de Lourdes (Milú) Egydio Villela – sua neta –, Eurico faleceu de doença de Chagas, contaminado pelo Trypanosoma cruzi durante as pesquisas.

(14) CARNEIRO, Milton Erichsen – “História da Doença de Chagas”, Curitiba, 1963.

(15) PAULA, Alcebíades Sebastião Vianna de – (Varginha, MG *07.07.1927 / Belo Horizonte, †05.01.2000) Médico, pedagogo e filósofo; professor de farmacologia na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.

(16) PEREIRA, Sílvio de Paula – Médico; membro correspondente da Academia Mineira de Medicina.

(17) REZENDE, Joffre Marcondes de – (Piumhi – MG, *19.05.1921 / Goiânia, †26.01.2015) Professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade de Goiás. — Fonte da citação: “Revista de Patologia Tropical” – vol. 37, nº 2, maio-junho, 2008, p. 183 e 184. / J. M. R. foi um dos principais especialistas brasileiros em doença de Chagas. Em 2009, quando se comemorou o centenário da descoberta da doença, seu artigo sobre a forma digestiva da enfermidade, publicado originalmente em 1956, foi selecionado para figurar, em publicação da Editora Fiocruz (“Clássicos em doença de Chagas”), entre os 15 textos mais importantes produzidos sobre a doença até então, junto a trabalhos do próprio Carlos Chagas. // Leia um resumo da “Revista“: mouse / botão direito, aqui.

(18) PINTO, Edmundo de Paula – (Curvelo, *23.11.1912 / Belo Horizonte, †13.05-1981) Professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.

(19) CHAGAS FILHO, Carlos – (Rio de Janeiro, *12.09.1910 / Rio de Janeiro, †16.02.2000) Médico, professor, diplomata, cientista e ensaísta. Ocupou a cadeira no 9 da Academia Brasileira de Letras.

(20) SALGADO, João Amílcar – Professor da Universidade Federal de Minas Gerais; diretor do Centro de Memória da Medicina da UFMG.

(21) DIAS, João Carlos Pinto – Médico e professor da Universidade Federal de Minas Gerais; pesquisador do Centro de Pesquisas René Rachou (FIOCRUZ).

(22) Lassance – Estação inaugurada em 26.02.1908 / Fontes: “Correio da Manhã”, ed. de 13.04.1909, p. 4 e 02.12.1909, p. 7.

(23) COSTA, José Antônio Vasconcelos – (Sete Lagoas – MG, *04.01.1918 / Belo Horizonte, †25.08.2008) Foi deputado federal a partir de 1945, por três mandatos; membro  do Brasil na ONU. / Proposição Originária: PL 4900/1954.

(24) Tamboril – Estação inaugurada em 15.03.1906 (“Correio da Manhã”, desta mesma data). / Decreto: Estação Capitão Evaristo – Diário Oficial da União, seção 1, de 16.12.1955, p. 22913 — Coleção de Leis do Brasil, 1955, p. 89 v.

(25) “Correio da Manhã”, 31.03.1907, p. 7.

(26) As estações do trecho citado – em direção a Pirapora –, eram Curvelo, Tamboril, Cachopa, Curralinho e Contria. / Tamboril foi primeiramente chamada de Picão; Cachopa tornou-se Osório de Almeida (hoje em ruínas); Curralinho tornou-se Corinto; Contria foi destruída. / Logo após Contria foi edificada a estação de Beltrão e, em seguida, a de Lassance, no antigo povoado de São Gonçalo das Tabocas.

(27) O ribeirão Picão nasce na região do Morro da Garça, ao norte de Curvelo, e corre no sentido oeste-leste, em direção ao rio das Velhas.

(28) REIS, Aarão Leal de Carvalho – (Belém – PA, *06.05.1853 / Rio de Janeiro, †11.04.1936) Engenheiro geógrafo e civil, professor, político, urbanista. Foi também chefe da construção da cidade de Belo Horizonte e, depois, diretor da EFCB.

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13 Comentários »

  1. Eduardo:
    Seu post é um arquivo cientifico. Emociona quem o lê. Meus cumpimentos pela pesquisa.
    Maria Marilda.

    Comentário por Maria marilda pinto correia — 01/11/2015 @ 9:23 am | Responder

    • Marilda:
      Minha grande(!) leitora. Obrigado e um abraço do
      Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/11/2015 @ 9:37 am | Responder

  2. Prezado Eduardo,
    A sensação que tenho, ao ler seus artigos, é a de ter uma aula, didaticamente muito bem elaborada acerca de cada assunto que você escolhe. É sempre uma alegria encontrar um novo Post seu, porque sabemos, de antemão, que a seriedade de suas pesquisas nos brindará, consistentemente, com novas aprendizagens. Grato a você por essa visão diferente que se distancia da “História” padronizada que nos cerca por todos os lados.
    Pedro Borges

    Comentário por Pedro Faria Borges — 02/11/2015 @ 9:01 am | Responder

    • Caro Pedro:
      Suas palavras me estimulam e também me desafiam a continuar pesquisando a nossa história. Contudo, porque sou amador nessa área, peço desculpas pelas imprudências que possa cometer.
      Muito obrigado e um abraço do
      Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/11/2015 @ 9:28 am | Responder

  3. Sr. Eduardo:
    Como historiadora, educadora e cidadã brasileira, sinto orgulho de seus escritos. Sempre surpreendentes, envolventes e inusitados. Parabéns! Abraço fraternal. Erika Bányai

    Comentário por Erika Suzanna Bányai — 04/11/2015 @ 1:38 pm | Responder

    • Erika:
      Seu comentário dá-me grande ânimo para continuar pesquisando e escrevendo. Como sou apenas um curioso da história, espero não estar sendo imprudente.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/11/2015 @ 2:02 pm | Responder

  4. Sr. Eduardo: Possui alguma informação sobre meu avô Emilio Machado? Foi comerciante de um armazém localizado no Centro de Curvelo (antiga agência do Banco da Lavoura), que foi comprado do Coronel Antonio das Pedras. Ele era pai de Eddy, Ely (meu pai), Edgard, Ecila e Edith. Era casado com Edith Maria Schneider Machado, oriunda de Pelotas / RS, que veio se instalar em Curvelo, com a irmã (Branca Olivé e seu esposo Miguel Olivé), para produção de charque. Ficarei grato se puder receber maiores informações. – Carlos Eduardo.

    Comentário por Carlos Eduardo Schneider — 19/11/2015 @ 11:13 pm | Responder

    • Carlos: Estarei atento. Vou procurar e, se encontrar alguma coisa, entrarei em contato com você.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 20/11/2015 @ 6:50 pm | Responder

  5. Excelente relato. História que realmente precisava ser contada. Eu conhecia alguma coisa, não com tanta riqueza de detalhes. Mas conhecia alguma coisa porque sendo meu pai médico sanitarista e historiador eu tive acesso a muitas informações, Meu pai era daqueles homens que falavam alto na sala de jantar para todos ouvirem. Mesmo quem não sentisse vontade de saber acabaria ouvindo sobre fatos importantes como essa história dos “barbeiros” , da Berenice e do capitão Evaristo. Ele teve um cliente com Chagas que acabou trabalhando conosco como jardineiro e ” faz tudo” na casa. Eu era mocinha quando Oswaldo veio trabalhar conosco. Meu pai faleceu já faz tempos… Oswaldo continua entre nós, mesmo com Chagas. Se bem me lembro, posso estar enganada, mas me parece que a Berenice também teve vida longa.

    Comentário por sertaneja — 18/12/2015 @ 12:25 am | Responder

    • Virgínia:
      Sei que seu pai, Hermes Augusto de Paula, participou da luta pela saúde nesses sertões mineiros. Sei também da sua contribuição para a saúde da população de Montes Claros?
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 18/12/2015 @ 8:23 am | Responder

  6. Sou descendente de Cantarino Motta e gostaria de saber mais sobre meus antepassados. Achei muito interessante essa pesquisa sobre minhas raízes. Muitas vezes, nem damos conta de onde de fato viemos. Conhecer o passado é muito importante, pois determina nosso presente. Agradeço a atenção e aguardo.

    Comentário por NEIDE MOTTA DE LIMA ROSA — 14/01/2016 @ 8:46 am | Responder

    • Neide:
      Você tem razão, quem não tem história não existe. Vou entrar em contato com você, pelo seu endereço de email, e lhe passarei mais algumas informações.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 14/01/2016 @ 9:11 am | Responder

  7. Mais um post para se saber mais e mais num país que parece voar, sem ter amarras. Eduardo demonstra o que falta aos brasileiros: não é cantar o hino, saudar a bandeira e outras bobagens que os militares quiseram impor (eu me escondia, para não obedecer). Mas conhecendo a história da sua gente, dos que lutaram por um país melhor e que não estão na revista de consultório “Caras”!

    Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 11/02/2017 @ 3:22 pm | Responder


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