Sumidoiro's Blog

01/01/2016

VISITA AO BARÃO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:26 am

Um homem aflito com o passado e o futuro

Post - BarãoO primeiro e glorioso barão à sombra de sua árvore frondosa.

Embora a monarquia tenha acabado há muito tempo, fui convidado a almoçar com o Nhô Barão*. Assim o homem tem sido tratado, mesmo que não haja motivos para tanto. De minha parte, sempre o aceitei por inteiro, pois nunca tive a petulância de tentar arrefecer fantasias de quem quer que seja. Igualmente, não sou de condicionar minhas amizades a atestado de antecedentes, nem a curriculum vitae. — * Nhô: corruptela de senhor. 

Nesse encontro, ocorrido na sede da sua fazenda, o Nhô Barão estava a pedir minha colaboração. Como encontra-se em avançada idade, tem tomado precauções para evitar surpresas e, além disso, quer perpetuar sua imagem enfeitando-a com as glórias do passado. Uma delas seria avivar o sangue azul que jura correr em suas veias.

Pois bem, devido ao meu interesse por história e genealogia, e mais pequenas habilidades que possuo, imaginou que eu pudesse fazer-lhe a árvore dos antepassados e um brasão de família. Argumentava que seu avô, além de ter origem nobre, fora barão, titulado por d. Pedro II. Por isso é que o apelido de Nhô Barão teria caído em seus ombros, mesmo sabendo que o título não era hereditário. De qualquer modo, sentia muita honra por ter esse rastro familiar marcado em sua pessoa.

Antes de tudo, é preciso esclarecer que existia uma regra a restringir a concessão de títulos nobiliárquicos. O homenageado deveria estar livre da origem bastarda, do crime de lesa majestade, do exercício de ofício mecânico e de ter sangue infecto – quer dizer, ter sangue de mouro, judeu ou índio. Bastavam essas considerações para que eu ficasse em posição delicada. Se fosse dourar a pílula para atender tão exagerado pedido, certamente comprometeria minha reputação. Mas, de qualquer forma e com o intuito de trazer alguma felicidade ao meu amigo, fui almoçar na sua fazenda para trocarmos ideias.

Num domingo, ele, sua esposa e filhas, ofereceram-me os prazeres da boa mesa, em autêntico estilo da roça, tal e qual acontecia nas fazendas de outrora. Enfim, destaco que tudo de bom me foi servido: frango com quiabo e angu, doce de leite feito no tacho, mais licores de jabuticaba e pequi. Fora de dúvida, espantou-me tanta adulação. Imaginei que seria estratégia para que fizesse o trabalho graciosamente, de modo a não debilitar as finanças do amigo. Outro detalhe: fiquei bobo de ver o apetite do Nhô Barão, comia com extravagância, apesar de ter feito uma operação cardíaca recentemente.

Cabe ainda assinalar que, quando foi servida a refeição e para não fugir ao estilo, meu anfitrião postara-se à cabeceira da senhorial mesa de jacarandá. De minha parte, acomodei-me ao seu lado sentindo pleno conforto. Outrossim, percebi que sua cadeira, além do espaldar bem elevado, tinha o assento mais alto que o meu. Nem por isso, fiquei com complexo de inferioridade.

Sua mulher brindava-me com sorrisos, mas não pronunciava uma palavra sequer. Admito que a mudez seria regra de etiqueta oriunda de tradição familiar. A dona da casa também insistia em me tratar por senhor. Tudo bem, até tenho sentido falta… Mas encarei como uma atitude exagerada, de tanto senhor pra cá e pra lá. Por outro lado, as filhas moçoilas não se sentaram à mesa, tendo ficado todo o tempo junto à porta da cozinha, espiando de longe. De vez em quando, apenas davam risadinhas aflitas. Notei que uma delas já era passadinha no tempo e mostrava um semblante tristonho. Denotava vontade de se casar…

Houve momentos que meu amigo tornou-se cansativo, de tanta empolgação ao falar dos antepassados. Principalmente ao enaltecer os feitos do avô, um tal de barão de Sumaúma(*). Por isso, durante alguns instantes, decidi buscar refúgio sob meus óculos escuros e ensaiei um cochilo. Mesmo assim, não me desliguei de todo, pois estive a viajar no pensamento, imaginando como seria o ancestral. No meu entendimento – geralmente costumo acertar – o homem era mais para magro, um tanto corcunda, nariz adunco, usava terno preto fosco e meio puído – paletó que ia até os joelhos –, botina preta reformada com meia sola e, pasmem!, caspas a salpicar os ombros. Pior de tudo, era um chato! — * Sumaúma é uma imensa árvore da amazônia e pode ultrapassar 40 metros de altura.

Pois bem, pelo que entendi, o barão de Sumaúma possuía 200 escravos e terras a perder de vista. Por sovinice genética e de tanto fazer economia é que ficara tão rico. E fora morar num imenso casarão, com a mulher e 18 filhos, sendo pelo menos seis deles expostos. Sobre a paternidade destes – entendidos de fato como bastardos –, percebi que pairavam mistérios e, se alguma explicação havia, fluía em meias palavras.

Contudo, com o socorro da caridade e da fé, todas essas questões delicadas sempre eram bem resolvidas. Assim mesmo, apesar da sua bondade e altruísmo, quando o santo homem faleceu, “injustamente” assassinado pelos escravos, houve conflitos com os expostos a propósito do inventário. Quanto a esses pormenores, sempre achei melhor ficar calado. Porém, admito que os expostos poderiam ser frutos de furtivos amores, envolvendo aqueles que viviam sob o mesmo teto. Seria impossível adivinhar quem havia gerado as criaturas mas, no rol de suspeitos, entravam o velho barão de Sumaúma, os filhos e mesmo as filhas.

O remédio tradicional, aplicável para superar esses transtornos e preservar a honra familiar, tinha o nome de fingimento. Era administrado seguindo um ritual: de início, dissimulava-se a gravidez; depois, fazia-se o parto ocultamente, não importava em que lugar fosse; em seguida, ocorria o fingimento supremo, quando se espalhava aos quatro ventos que o recém-nascido fora deixado dentro de um cestinho, na porta da residência da família. Desse modo, tudo ficava pra lá de bem resolvido.

Pois bem, para encerrar o assunto do almoço, preciso dizer que meu amigo, além de fazendeiro se diz capitalista, ou seja, socorre o próximo emprestando dinheiro. Está muito rico, tal como o avô! Mas, nem por isso, tem encarado com tranquilidade o futuro e, devido à velhice, anda pensando na melhor maneira de abrigar seu corpo quando a alma dele se desgrudar.

Outro dia, recebeu um aviso do céu, teve que colocar um marca-passo… De modo que, motivados por essa circunstância, nosso colóquio após a refeição versou sobre túmulos e cemitérios, oportunidade em que manifestei meu desejo de ser cremado. Mas, de pronto, ele retorquiu-me com um conselho: “- Não faça isso! Pois saiba que tiram da gente os dentes de ouro e o marca-passo. Quero ser enterrado inteirinho na minha fazenda, num lugar já escolhido.”

Não entendi bem sua colocação e perguntei porque descartara o enterro num cemitério. Então ele respondeu: “- Nunca gostei de me expor, principalmente em lugares públicos, por isso nem lápide vou colocar.” Mas, outra vez indaguei: “- Nem uma lapidezinha, com um Aqui jaz Nhô Barão?” Daí, ele esclareceu: “- Minha alma não vai ter que preocupar-se comigo. Estarei numa cova discreta e segura, sob a vigilância dos meus empregados.”

Nesse ponto, calei-me, para não aumentar as aflições do amigo. Ademais, achei prudente evitar polêmicas filosóficas desse nível e a meter a colher em assuntos de família. Assim sendo, lá pelo fim da tarde, depois de um cafezinho adoçado com rapadura, despedi-me agradecendo o lauto almoço e levei comigo a encomenda. Porém, desde a visita ao Nhô Barão até agora, tenho fingido de morto. Estou enrolando, nada de genealogia e do tal brasão da estirpe dos Sumaúmas.

Por Eduardo de Paula

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14 Comentários »

  1. Belo texto, Eduardo! Como sempre, você é preciso nas descrições. A imagem do Barão, criada pelas palavras, dispensa qualquer outra imagem. É possível vê-lo ao ler o seu texto. Gostei de começar o dia, de começar o ano lendo a narrativa de sua “Visita ao Barão”.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 01/01/2016 @ 9:06 am | Responder

    • Pedro:
      Feliz Ano Novo. Cuidado com o Barão!
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/01/2016 @ 9:23 am | Responder

  2. Eduardo: Feliz Ano Novo! Parabéns pelo seu senso de humor finíssimo. Excelente! Viva o Barão!

    Comentário por Arthur José Diniz — 01/01/2016 @ 4:11 pm | Responder

    • Arthur:
      Desejo-lhe também felicidades. Fique de olho no Barão, não vá na sua conversa.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/01/2016 @ 4:37 pm | Responder

  3. Eduardo: Muito bom seu texto. Creio que essas histórias de ser parente de um nobre, ou que a bisavó era índia e foi pega a laço, são muito comuns. Na minha família, muitos diziam que seríamos descendentes do Barão de Cocais. Mas, pesquisas puseram por terra essa “historinha”. Porém, descobri outras fantasias: falsos nobres e degredados – ricos ou pobres -, andaram enfeitando muitas genealogias. Abraços e um Feliz Ano Novo.

    Comentário por Vinícius da Mata Oliveira — 01/01/2016 @ 9:30 pm | Responder

    • Vinícius:
      De qualquer modo, essas fantasias servem para nos divertir e o que você fala é verdade.
      Obrigado. Desejo-lhe tudo de bom. Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/01/2016 @ 9:43 pm | Responder

  4. Eduardo: Novamente outra surpresa agradável. Você escreve genialmente bem e nos expõe a sua outra face: a de um excelente escritor! Diga-me, há ainda outra coisa que não saiba ou não domine? És artista, professor, escritor, desenhista… Deus, quanta habilidade! Amigo, te desejo tudo de bom e que Deus continue te iluminando a vida para que possamos tê-lo para sempre conosco a nos brindar com a sua inteligência. Obrigado, Eduardo!

    Comentário por Edson Luiz Ribeiro — 03/01/2016 @ 2:30 pm | Responder

    • Edson: Nem sei como agradecer tanta gentileza. Suas palavras são um imenso estímulo.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/01/2016 @ 3:42 pm | Responder

  5. Eduardo, como sempre seus textos são referências e muito boas suas histórias.
    Marilda – LagoaSanta

    Comentário por Maria Marilda PInto correa — 04/01/2016 @ 11:58 am | Responder

    • Marilda: Muito obrigado pelo comentário.
      Desejo-lhe um Feliz Ano Novo. Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/01/2016 @ 12:39 pm | Responder

  6. Realmente é comum encontrarmos pessoas que se dizem descendentes de nobres e de índias pegas a laço. Penso que em grande parte é invencionice. Mas minha família não está livre disso. Há quem afirme que somos descendentes do Barão de Sincorá. Que era não exatamente nobre. Não entendo do assunto, mas penso que, para ter “sangue azul”, é preciso descender de nobres. Títulos ofertados, como acontecia no Brasil, não mudavam a cor do sangue do agraciado. Existiu realmente um Barão de Sincorá, o dono de terras Francisco Gomes de Oliveira, “primeiro e único ” Barão de Sincorá. Está assim na sua biografia, o que sugere ter havido também um falso barão. É do falso que descendemos: Antônio Xavier de Mendonça, que enriqueceu com os diamantes de Sincorá. Quando meu pai pesquisou sobre a família o encontrou nos registros. Muito rico. Porém não era barão. Deve ter tido vontade de ser, talvez tenha inventado que era, O fato é que, ainda hoje, há parentes que acreditam no seu título. Saiu até em livro. A filha de Antonio Xavier de Mendonça, muito provavelmente mouro, casou-se com um Montes-Clarense. Eram todos das melhores terras da região. Tiveram um filho com o nome do avô: Antônio Xavier de Mendonça Neto. Ele casou-se com Joaquina, filha da índia (que não foi pega a laço) Arcanja, casada com o português Francisco. Um dos filhos do casal, o Cassimiro, é meu bisavô.
    Se entendi direito, para ser barão não podia ter sangue mouro. Mais uma prova que o nosso ancestral não era barão. Era apenas muito rico. Eu tenho quase certeza que nosso Mendonça não é o mesmo da tradicional família espanhola. Mudaram de sobrenome para escapar das perseguições.
    Gostaria de saber se seu texto é ficção ou existe mesmo o Nhô Barão. Está soando verdadeiro sim. Apenas fiquei pensando se você escreve ficção e se este texto, delicioso, seria um exemplo.

    Comentário por Virginia Abreu De Paula — 05/01/2016 @ 12:51 am | Responder

    • Virgínia:
      Meu texto nasceu da imaginação, mas é calcado no que estou sempre vendo por aí.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 05/01/2016 @ 8:52 am | Responder

  7. Eduardo,
    Li o comentário de Virgínia Abreu de Paula e me lembrei de algumas de nossas conversas. As palavras não só representam a realidade mas também criam realidades. Se parto do princípio de que sou descendente de um barão, seja ele invencionice (como diz Virgínia) ou de verdade, o que decorre daí é verdade. Uma premissa pode ser falsa, mas, parece-me, o que dela decorre é verdadeiro, principalmente quando o tempo ajuda a consumar os fatos, a não ser que haja “eduardos” a escarafunchar esses fatos.
    Parabéns, meu amigo! O Barão de Sincorá (Francisco Gomes de Oliveira), embora se afirme primeiro e único, pode ser o primeiro, mas jamais será o único.
    Pedro Borges

    Comentário por Pedro Faria Borges — 10/01/2016 @ 6:05 pm | Responder

    • Caro Pedro:
      Obrigado pela sua observação que ajuda a botar um pouco de ordem nesse vespeiro dos antepassados. Ele está pleno de segredos, encobertos por um manto de palavras.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 10/01/2016 @ 7:27 pm | Responder


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