Sumidoiro's Blog

01/02/2016

BANDIDOS DE OUTRORA

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:13 am

♦ Memórias da década de 1940

Nasci em 1937 e estou a relembrar fatos que vivi. Entre meus 3 e 5 anos de idade, quando transcorria a segunda Guerra Mundial, morei num lugar que chamava-se Sítio(1). Meu pai(2) era funcionário da Secretaria da Agricultura – engenheiro agrônomo – e fora para lá enviado em missão de participar da direção da Escola Agrícola de Barbacena (MG), destinada a menores abandonados e filhos de modestos agricultores da região. 

Post - Prédio SítioA Escola de Sítio ou Escola Agrícola de Barbacena.

No estabelecimento de ensino, havia um sistema de internato que oferecia instrução fundamental, aprendizado de técnicas agrícolas, de beneficiamento de produtos do campo e um pouco de zootecnia. Ao mesmo tempo, em nível mais avançado, funcionava um externato, com menor número de matriculados. O regulamento da instituição, oriundo de um decreto(3) de Nilo Peçanha, presidente da república, impunha rígida disciplina aos alunos.

Daquela época, um acontecimento ficou nítido na minha memória, quando eu devia ter meus 4 anos de idade. Meu pai estava recebendo uma visita à escola e mostrava o refeitório dos internos. Eu estava nas proximidades e, pela condição de ser ainda pequenino, estava a brincar debaixo de uma mesa. De repente, percebi um garoto avançando contra meu pai, com um canivete na mão, e soltei um grito de alerta! Avisado, ele se defendeu, tomou-lhe a arma e disse, mais ou menos assim: “- Jacob, você não toma jeito! Vai pegar um castigo.”

Contudo o corretivo foi brando. Aliás, nunca vi meu pai usar de brutalidade, porque era contra seus princípios. Mais tarde, quando nos transferimos para Belo Horizonte, de vez em quando aparecia um ex-interno em nossa casa, para agradecer o bom trato recebido em Sítio.

Post - SítioEngatinhando, em primeiro plano, o autor deste Post, com o pai e parentas, em Sítio.

Em Belo Horizonte, moramos no bairro da Serra – rua do Ouro, 670. Naquele tempo, não era comum ver marginais na rua, mendigos muito poucos. Mas é claro que alguns bandidos existiam e, por isso mesmo, à noite, havia a guarda civil para tomar conta dos bairros mais ricos. Os policiais comunicavam-se entre si com um silvo de apito. Algumas pessoas, que ainda estão por aí, têm lembranças e saudades daquelas noites belorizontinas. Havia perfumes de flores e o apitar dos vigias para permitir o sono tranquilo.

Assim mesmo, quintais e galinheiros costumavam ser visitados furtivamente por uns pobres coitados. Geralmente, levavam um frango, algum lençol, camisa ou outra peça de roupa que estavam tomando sereno. Eram chamados ladrões de galinha ou pés-de-chinelos. O nome pé-de-chinelo ficou popular devido à confusão que aqueles miseráveis aprontavam durante a incursão noturna. Ao praticarem seu delito, causavam tal alvoroço no galinheiro que, na afobação de sair correndo e pular o muro, deixavam pelo menos um pé do seu calçado para trás. Lembro-me de ter encontrado chinelos perdidos no quintal da minha casa.

Sem muitos sustos, a população convivia com esses desafortunados e sequer a polícia tomava maior trabalho para contê-los. Contudo, vez por outra, aconteciam delitos mais graves. Nesses casos, chegavam a repercutir além da cidade e mesmo noutros estados. Latrocínios aconteciam, mas eram raros e em circunstâncias muito especiais. Um notável e afoito trio de assaltantes, que andou aterrorizando Belo Horizonte, foi o de Alemãozinho, Ciganinho e Robertinho.

Post - Alemãozinho & CiganinhoAlemãozinho e Ciganinho.

Em 1949, esses marginais foram presos e ganharam manchetes. Saiu no jornal:

“Os três assaltantes usavam máscaras e andavam armados de revólver e faca. Praticaram um dos maiores assaltos já ocorridos em Belo Horizonte…” * “Diário da Noite”, Rio de Janeiro, 01.08.1949.

“Impressionou a opinião pública o audacioso assalto, verificado na madrugada do dia 26 de abril último, no prédio 253, da rua Ponte Nova, residência particular do sr. José de Melo, gerente da Panair do Brasil*. […] Dois homens mascarados, empunhando revólver e faca, penetraram no cômodo onde dormia o casal e retiraram diversos objetos de uso, tais como joias, relógios, indumentária e dinheiro. * Companhia aérea.

Os ladrões mantiveram prolongada palestra com sua vítimas, ameaçando-as de morte, caso dessem qualquer sinal de alarme. Uma vez conseguido o objetivo, os assaltantes prenderam os moradores dentro do quarto […] Esse fato, que causou sensacionalismo na cidade e no interior do estado, continuava envolto em completo mistério, chegando mesmo algumas pessoas a supor que tratava-se de uma simulação ou mesmo de um sonho das […] vítimas.

Post - José de MeloGerente José de Melo fala ao repórter do “Diário da Tarde” – BH (26.04.1949).

… Coube à delegacia do 8o distrito policial elucidar o caso […] Para tanto, prenderam o lunfa* conhecido como Sapinho. Esse indivíduo […] deu a entender que sabia de outro importante ‘serviço’ praticado por seus colegas de trabalho. […] Aqueles policiais, orientados pelo delegado Carlos Lourenço Jorge, juntaram outras informações e, confrontando-as com os detalhes do assalto da rua Ponte Nova, chegaram à conclusão que esclareceria aquele misterioso acontecimento. Apuraram […] que, dentre os responsáveis, encontrava-se o indivíduo Antônio Gultz, vulgo Alemãozinho, […] que estava viajando na época. * Lunfa: larápio (gíria).

Antônio Gultz, na certeza de sua impunidade, chegou a Belo Horizonte em princípios de junho. Achando que tudo corria normalmente, sentiu-se à vontade para passear e assim fez, na noite de sábado último, indo para a parte boêmia da cidade*. Logo que deu as caras, os investigadores o observaram, mas julgaram melhor seguir seus movimentos. Quando Alemãozinho pegava o bonde Pampulha, para ir à sua casa na vila São Francisco, […] recebeu voz de prisão. * Região da rua Guaicurus e imediações.

… Na delegacia, foi cercado de perguntas durante horas e acabou por confessar o assalto usando seus auxiliares ou cupinchas, que são Jacob Anovitz, vulgo Ciganinho e Ari Valente, vulgo Robertinho.”

Post - BH noite A cidade dorme e os ladrões de galinha atacam nos quintais (Av. Bias Fortes, ano 1940).

Pois bem, ao reler essa reportagem tive despertadas minhas memórias da década de 1940. Jacob Anovitz – o Ciganinho – era aquele delinquente que foi interno na Escola de Reforma Lima Duarte e tentou matar meu pai.

Mas é preciso mostrar de onde veio uma das inspirações de Ciganinho para o crime. Ele admirava os celerados do cinema, pois os imitou em seus trajes. Gostava de usar camisa estampada de listras, chapéu, lenço cobrindo o rosto e revolver na cintura. Também seu apelido pode ter sido copiado de um bandido da época. Tempos antes, ganhara fama em Belo Horizonte outro Ciganinho – morto pela polícia, em 1947 –, membro do terrível bando de Zé Muniz.

A reportagem do “Diário da Noite” completa o perfil de Ciganinho:

“… é indivíduo que prima pelo cinismo e calma. Aliás, tais sentimentos demonstrou à nossa reportagem, deixando-se fotografar sem a menor dificuldade. Muito pelo contrário: ele julgava que estava numa cena do ‘far west’ americano e conversou calmamente contando suas proezas. Por um capricho do destino, esse indivíduo possui, além da alcunha, as mesmas falhas que apresentava na mão esquerda o Ciganinho, companheiro de Zé Muniz, que tanto alarde causou.”

Post - Bonde abrigoAbrigo de bonde na av. Afonso Pena, local preferido por Ciganinho para agir.

O texto ainda faz referência a um terceiro homem:

“Ari Valente […] continua foragido. Na noite de ontem, nossa reportagem policial esteve em sua residência, sita na vila Celeste Império, na rua Carioca*, mas não o encontrou. […] É pessoa conhecida da polícia e já esteve preso por […] inúmeros furtos. […] É moreno, de estatura mediana e cabelo bom. Sua liberdade constitui bastante perigo para a sociedade, principalmente agora, que irá tomar conhecimento das acusações que foram feitas pelos companheiros. Acredita-se ser ele o principal participante do assalto.” — * Rua Carioca: atual bairro Padre Eustáquio.

Em seguida, vem um resumo da trejetória de Ciganinho e Alemãozinho:

Alemãozinho é mais velho do que seu companheiro, pois conta 21 anos e é mais recatado também que Ciganinho. Disse que, depois do assalto da Rua Ponte Nova*, foi de Belo Horizonte ao Rio a pé, demorando mais de 15 dias na viagem. Com pouco dinheiro no bolso, Cr$100,00, não pôde pegar trem, o que fez somente em Cotegipe, indo até Três Rios, de onde prosseguiu viagem também a pé. — * Rua Ponte Nova: bairro Floresta.

Alemãozinho, que foi educado no Instituto Pestalozzi, disse que nunca mais furtou depois do dia 25 de abril. Espera corrigir-se, vivendo honestamente, para poder alimentar sua pobre mãe.

Ao contrário de Antônio Gutz, Jacob Anovitz confessou inúmeros outros crimes de furto, praticados depois do aludido assalto. É ele quem fala:

‘Agora sou batedor de carteiras nos abrigos de bonde, pois dá mais lucro e vive-se com mais segurança. O senhor, seu repórter, que vá comigo ao abrigo e eu lhe darei logo três bolsas de mulheres e carteiras de homens, preferencialmente de mulheres, que são mais bobas.’

Post - Dois bandidosAlemãozinho e Ciganinho, vestidos a caráter, no estilo de bandidos do faroeste.

Ciganinho conta apenas 18 anos*. Viveu sua infância tirando sortes ** e viajando, gosto que conserva até os dias de hoje. Quando cometeu o primeiro furto tinha 15 anos e, desde então, nunca mais deixou de ser preso por inúmeros e perigosos assaltos. Ele é o autor dos furtos registrados nas residências dos srs. Paula Mota, Cristiano Machado e Jofre Gazini, todas situadas no bairro de Santo Antônio. * Devia ter uns 11 anos de idade ou pouco mais, quando atentou contra meu pai. / ** Tirar sorte: hábito de ciganos.

O delegado dr. Carlos Lourenço Jorge deverá requerer a prisão preventiva da trinca, ainda hoje. Foram expedidas rigorosas ordens à polícia mineira, no sentido de capturar Ari Valente, que se supõe ser o mentor dos demais.

… Ontem à noite, uma caravana de investigadores do 3º distrito cercou a casa nº 29, da rua Lorena […] conseguindo prender o indivíduo Ari Valente, ou Robertinho, que era o terceiro componente da audaciosa quadrilha. Robertinho relatou que […], na noite do roubo, penetrou no interior da casa e ameaçou seus moradores, conseguindo que lhes entregassem várias joias e dinheiro. O larápio, que conta apenas 18 anos, encontra-se bastante doente de uma perna, razão porque, no momento em que foi cercado pelos policiais, não esboçou nenhum sinal de resistência.” Rua Lorena: no atual bairro Padre Eustáquio.

———

Pronto! Isso é um pouco da triste história do Ciganinho, aquele que conheci, nós dois ainda meninos.

Texto e arte por Eduardo de Paula

———

(1) A Escola Agrícola foi fundada em 1910 e inaugurada em 1913, com o nome Aprendizado Agrícola de Barbacena, por Diaulas Abreu, seu primeiro diretor geral, que permaneceu no cargo durante 40 anos. Foi instalada em terrenos adquiridos de pequenos proprietários e a maior área de Rodolfo Ernesto de Abreu e esposa, pais do fundador. A adquirente foi a União, pois se tratava de investimento federal. O documento de venda nomeia a propriedade como “Chácara e Sítio”. / Quando o autor deste Post viveu em Sítio, o auxiliar-agrônomo (seu pai) era a maior autoridade residente na escola, bem como o responsável direto pela sua administração, quanto pela condução do curso. Naquele período, Getúlio Vargas era presidente da república e Bendito Valadares governador do estado. / Ao longo do tempo, a escola teve mudanças na denominação, bem como a subordinação e os objetivos. Atualmente, está vinculada à Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação. Tem o nome de Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – Campus Barbacena, oferecendo cursos técnicos, tecnológicos, licenciaturas, bacharelados, engenharias, PROEJA e ensino à distância.

(2) PAULA, Eduardo Vianna de – (Curvelo, MG, *31.05.1909 / Belo Horizonte, †13.04.1991) Engenheiro agrônomo, funcionário público e fazendeiro.

(3) Aprendizado Agrícola de Barbacena, criado pelo decreto 8.358, de 09.11.1910, assinado pelo presidente Nilo Peçanha. Escola subordinada ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. Pioneira na instalação do ensino agrícola no país. As atividades tiveram início em 14.06. 1913, no governo do Marechal Hermes da Fonseca.

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12 Comentários »

  1. Eduardo:
    Li e reli seu post. Assunto muito bom, de minha época. Lembro-me do que falou. Verdade pura! De Lagoa Santa, foram estudar em Barbacena pessoas de minha família, em regime de internato. Muito agradável de ler. Parabéns. Maravilha!
    Maria Marilda – Cidadã de Lagoa Santa

    Comentário por Maria Marilda pinto Corrrea — 01/02/2016 @ 12:27 pm | Responder

    • Marilda:
      Essa é mais uma história das coisas que eu, agora na categoria de sobrevivente, presenciei e não esqueci.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/02/2016 @ 1:21 pm | Responder

  2. Eduardo,
    belo artigo! Me lembrou um tio que foi diretor de um educandário em Conceição de Macabu, RJ. Me lembrei também dos ladrões de galinhas daquela época. Minha avó, que morava em Pedro Leopoldo, contava histórias dos pobres coitados.
    João Vianna

    Comentário por jbvianna — 02/02/2016 @ 7:31 pm | Responder

    • João:
      São memórias de um mundo que não existe mais. O progresso trouxe coisas boas, não acabou com as dores e destruiu a inocência.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/02/2016 @ 8:01 pm | Responder

  3. Eduardo, este seu blog é muito bom. Sempre uma surpresa sobre a história de Minas. Até as performances de Alemãozinho e Ciganinho soam como as madeleines de Proust de nossa juventude. No meu tempo, na Serra, a grande estrela do banditismo era o Talisca. Decididamente, já não se fazem bandidos como os de antigamente.
    Abraço do Nemer

    Comentário por Jose Alberto Nemer — 02/02/2016 @ 11:28 pm | Responder

    • Nemer:
      Que bom saber que você gosta das nossas madeleines! Belo Horizonte de antigamente era uma delícia, você sabe disso. Muito obrigado pelas gentis palavras. Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/02/2016 @ 8:01 am | Responder

  4. Agora já sei a origem do termo “pés-de-chinelos”. Ler seus textos é assim, sempre aprendo alguma coisa. Muito interessante você ter conhecido o Ciganinho, quando ambos eram criança. E de forma dramática. Seu pai tinha razão quando disse: “Jacob, você não toma jeito!” Além da delícia da leitura, há ainda a delícia das fotos. Vou salvar algumas. Gostaria de saber se você concorda que eu as compartilhe (uma ou duas) no meu facebook, dando crédito a seu blog pelo achado.

    Comentário por sertaneja — 04/02/2016 @ 11:00 pm | Responder

    • Virgínia:
      Use as fotos à vontade. Muito obrigado pelas gentis palavras.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 05/02/2016 @ 8:54 am | Responder

  5. Prezado Eduardo,
    Realmente seus textos aprazem.
    Estive fora, mas não deixei de lê-los, sempre nos brindando com novos textos e nos levando de volta as nossas raízes. Parabéns, você é uma referência!

    Comentário por Carlos Fernando dos Santos Braga — 11/02/2016 @ 3:08 pm | Responder

    • Carlos:
      Suas gentis palavras me estimulam a continuar escrevendo. Aguarde o próximo Post. Viajarei outra vez ao passado.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 11/02/2016 @ 4:00 pm | Responder

  6. Quem imaginaria que, um dia, estes bandidos da década de 30-40 seriam fichinhas perto do que há hoje? Mas bandido é figura bíblica e estamos perdidos mesmo! Amei seu texto e estou colocando mais um amigo na lista para que receba seus posts, gentileza acrescentar em seus contatos. Meu abraço fraternal, Erika Bányai.

    Comentário por ERika Bányai — 13/02/2016 @ 3:12 pm | Responder

    • Querida Erika:
      A Bíblia revela quase tudo, sim, também sobre os bandidos. Coloquei o endereço do seu amigo na lista. Você gosta de fantasma? É o assunto do meu próximo Post.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 13/02/2016 @ 5:38 pm | Responder


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