Sumidoiro's Blog

01/05/2016

FORTUNATO ALGOZ

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:10 am

♦ Matador profissional

Filho de Engrácia e Jerônimo, Fortunato José nasceu no sul de Minas Gerais. Anda muito jovem, tornou-se o mais renomado e requisitado carrasco da província, tendo exercido o ofício também no Rio de Janeiro. Ficou famoso pela sua competência e conhecido por Fortunato Algoz. Documentos revelam parte da sua trágica história de vida.

Post - Forca & marA barbárie vinda da Europa e que durou mais de três séculos.

Nascido na infelicidade, Fortunato era filho de escravos de Carlos Garcia(1). Sua mãe lhe deu à luz na antiga freguesia de Santana das Lavras do Funil (MG), entre 1808 e 1811. Há quem diga que teria usado a corda, pela primeira vez, no pescoço dos próprios pais, na cidade de São João Del Rei (MG), embora ele sempre tenha negado tal fato.

Numa biografia(2), publicada no “Mosaico Ouro-Pretano”, em 1896, é descrito como “um velho negro e infeliz […] ainda então preso na cadeia de Ouro Preto, onde poucos anos depois faleceu, tendo realizado 87 execuções judiciárias.”

O texto revela:

“Fortunato José, natural da freguesia, hoje cidade de Lavras, era escravo de João de Paiva, cuja viúva – dona Custódia – criou-o com excepcional bondade e carinho. Esse tratamento generoso, quase maternal, não impediu que, no moleque Fortunato, se desenvolvessem os maus instintos que uma natureza ingrata lhe implantara e, tanto que, ele bem cedo entregou-se ao jogo, à embriaguez e a outros vícios.

Admoestado frequentemente, mas com brandura, por sua senhora, criou-lhe ódio e, um dia, enfurecido prostrou-a morta com uma bordoada certeira. Foi isso em 1833. Tinha então 25 anos, o miserável, predestinado a uma vida medonha e abominável.

Preso, julgado e condenado à pena última, foi recolhido à cadeia de Ouro Preto(3). Mas aquela pena não teve execução, sendo de fato, por acordo como assassino, comutada em prisão perpétua, com a obrigação de servir de algoz* (*carrasco) a outros miseráveis condenados à forca. Fortunato dizia-se “empregado público” no seu ofício de executor da justiça…

Post - Cadeia O PretoCadeia de Ouro Preto, onde viveu e morreu Fortunato.

Ele próprio forneceu a relação das execuções que consumara, até 1874 – de então em diante não houve mais no Brasil –, tendo sido as primeiras em Ouro Preto, no mesmo ano de 1833 e em dia de Natal. As vítimas foram dois escravos. Declarava Fortunato que essas primeiras execuções lhe repugnaram. Repugnância que aparecia-lhe sempre que era forçado a enforcar mulheres. Quanto aos homens, ficou habituado e cumpria sua obrigação insensivelmente.”

O “Mosaico Ouro-Pretano” diz mais:

“Fez na cidade de Mariana cinco execuções, compreendidas nelas os irmãos Maximiano e João Gomes, conhecidos por Tira-Couros. Disse que, de ordinário, os sentenciados revoltam-se contra os sacerdotes que buscam suavizar-lhes os triste últimos momentos. 

Nos primeiros tempos de seu ofício, dormia em comum com os demais presos, inclusive aqueles que tinha em breve enforcar. Mas, estando na cadeia de Pitangui, um desses sentenciados à morte deu-lhe, durante o sono, profundas navalhadas no ventre, nas costas e nas mãos, das quais apresentava fortes cicatrizes. Desde então, ficou sempre separado dos presos condenados à pena última.

No seu cinismo inconsciente de negro boçal(4) afeito ao mais repugnante e hediondo viver, falava indiferentemente dos próprios atos, sem jactância mas sem vexame. Notava que devendo o emprego ser-lhe rendoso, pagavam-lhe mal: 12$800, quando havia parte; 4$800, quando era o pagamento feito pela municipalidade. ‘A melhor Câmara* (… municipal), observava cinicamente o carrasco, é a do Bonfim(5), pagou-me 12$000, de nove execuções, e ainda gratificou-me com 20$000.’

 Alto, musculoso e ainda forte, em 1877, apesar dos seus 69 anos, dos quais 44 de prisão, queixava-se apenas de sofrer reumatismo, acrescentando pacatamente que ‘se obtivesse a liberdade, iria viver sossegado em algum canto…’ Exerceu o algoz Fortunato seu horroroso ofício em 29 localidades de Minas Gerais e duas na província do Rio de Janeiro…”

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Post - Solidão do carrascoDepois da obra, a solidão do carrasco.

O COMEÇO 

Os fracassos e sofrimentos acompanharam Fortunato por toda a vida. Há um relato(6) de sua passagem pela vila de Montes Claros das Formigas – atual Montes Claros (MG) –, em 30.05.1836, quando enforcou o escravo Joaquim Nagô, de 20 e poucos anos de idade. O condenado havia sido acusado de, em 22.04.1835, ter assassinado o fazendeiro Joaquim Antunes de Oliveira, cidadão de São José do Gorutuba – atual Janaúba (MG) –, encontrado morto em sua fazenda. Ao ser preso e interrogado, sob terrível pressão, confessou que havia esfaqueado a vítima quatro vezes. Contudo, anos mais tarde em Diamantina (MG), um tropeiro agonizante e sentindo a morte chegar assumiu o crime.

Pois bem. Contam que Fortunato, ainda iniciante na profissão, sofreu um grande desapontamento ao enforcar Joaquim Nagô, o pior deles para um carrasco que se preze! A corda não suportou o peso do corpo pendurado e se rompeu. Com isso, teve de emendá-la e repetir a operação, mas ela rompeu-se de novo. Então, para evitar que o vexame se ampliasse, pediu corda nova e um punhado de sebo para untá-la e, só assim, pode levar a bom termo sua tarefa.(7)

O médico montes-clarence Hermes de Paula, conhecedor das memórias da sua cidade, revolveu o passado em busca da verdade de Joaquim Nagô e, numa monografia, dedicou-lhe algumas linhas sob o título “Mártir ou assassino?”. Ali, apelando à própria imaginação, tentou vislumbrar o condenado no limiar da morte e colocou na sua boca palavras dolorosas. Disse que, do alto do patíbulo, assim dirigira-se à platéia: – “Troxero ocês aqui pra inzempro. Procês vê eu morrê e ficá cum mêdo… Num fica cum mêdo, não! Sinhô é ruim? Mata sinhô! In ante de morrê, quero cumê um pedacim de marmelada…”

CAMINHO DA FAMA

Com o passar do tempo, Fortunato tornou-se famoso na província e além dela, prestando serviços por toda parte. A cada convocação, podia passar uns dias espairecendo fora da cadeia de Ouro Preto, recebia farta e boa alimentação, e ainda ganhava algum dinheirinho de pro labore.

Post - SurraDe tanto apanhar, os escravos eram levados a matar os seus senhores.

Dentre suas inúmeras vítimas, uma ganhara notoriedade, por ter matado o trisavô do escritor Guimarães Rosa(8). Ele guardou memórias familiares de um desses enforcamentos. São suas palavras:

“… parece que o último enforcamento em patíbulo público, em Minas, se deu foi no Curvelo, com um preto que matara seu senhor, meu trisavô materno.”

Trata-se do escravo Celestino Crioulo que, por engano, tirou a vida de sinhá Beatriz Maria de Jesus, mulher do seu senhor Francisco de Assis Guimarães. Quem conta os detalhes é Enny Guimarães de Paula(9), também trineta da vítima, desse modo:

“… Celestino Crioulo tinha o mau costume de pegar coisas alheias. Sinhá Beatriz quando o apanhava em flagrante, mandava surrá-lo no tronco. Tendo acontecido isso mais de uma vez, ele enraivecido desejou matá-la. […] arquitetou um plano: levaria o patrão ao canavial que existia pertinho da casa, e lá o agrediria […] Francisco gritaria e a esposa iria socorrê-lo […] nessa hora […] a mataria. Mas não aconteceu assim […] ao dar a paulada no sinhô Chico, exagerou na força […] ele caiu semimorto […] deu outras pauladas e facadas para acabar de matá-lo e fugiu”.

Como consequência, Celestino foi preso, processado, condenado e enforcado em Curvelo, em 1852, pelas traquejadas mãos de Fortunato. Terminada a tarefa, o carrasco recebeu 1$720 em pagamento(10) e, como de hábito, retornou à cadeia de Ouro Preto.

OUTRA VEZ

Em 1858, demandaram a Fortunato fazer um trabalho que teve muita repercussão. Foi quando deslocou-se para Mariana(11) para enforcar José Joaquim Gomes da Fonseca, vulgo Tira-Couro. O réu fora indiciado pelo assassinato do filho de um velho chamado Rollin. Ao mesmo tempo, outro irmão do condenado e um cunhado, estavam indiciados mas foragidos, por terem também participado desse crime. Dez anos antes, em 1948, Fortunato já havia enforcado, no mesmo lugar, o seu irmão. Era voz corrente que o patriarca daquela família, sendo muito maltratado por sua gente ruim, já lançara palavras de maldição, dizendo que em “recompensa lhes legava a masmorra e o cadafalso!” (12)

Ao anunciarem a execução do Tira-Couro, a população de Mariana foi atraída para assistir o espetáculo da morte. Durante o acontecimento, houve uma fala patética do condenado, quando ele pediu perdão à plateia pelos seus pecados. Em seguida, dois sacerdotes ofereceram-lhe consolo espiritual: o padre Carnaglioto e o cônego Roussin. Este, no encerramento da cerimônia, dirigiu ao público um comovente discurso. O Tira-Couro foi enforcado no dia 16.01.1858 – sábado –, às 10 h da manhã.

Post - Transporte Tira-CouroTira-Couro em comunicado no jornal Correio Official de Minas (06.04.1857).

MAIS TRABALHO

Três meses depois, Fortunato passou por mais um tormento em sua vida. Foi quando contrataram-no para cuidar do justiçamento das escravas Rosa e Peregrina, em Sabará. Elas haviam sido acusadas da morte de Maria do Carmo Pinto Teixeira – sua patroa –, casada com o brigadeiro Jacintho Pinto Teixeira, moradores na rua Direita. Mas houve também a participação das escravas Luísa, Tecla, Balbina, Quitéria e Jesuína, embora apenas aquelas duas tenham sido condenadas à pena capital.

O assassinato ocorrera de forma brutal, com golpes de machado e u’a mão de pilão. Em seguida, dividiram o corpo da mulher, separando cabeça, tronco e membros. E, não satisfeitas, passaram a retalhá-lo, retirando olhos, intestinos e tudo mais, pois até as unhas arrancaram.

Tudo começara depois de sinhá Maria do Carmo ter comprado escrava nova, justamente a bonita Rosa, possuidora de lindos dentes e belo sorriso. A patroa, embora fosse também mulher formosa, ao mesmo tempo era ciumenta e ruim feito uma caranguejeira. Por isso mesmo, a recém-chegada teve falta de sorte ao fazer brilhar os olhares do patrão, o que despertara ciúmes na patroa.

Bastou então que Jacintho saísse em viagem e Maria do Carmo passou a executar um plano elaborado em sua mente doentia. Mandou seus capangas arrancarem os dentes de Rosa e, no retorno do marido, entregou-lhe numa bandeja o presente macabro. Aliás, quando queria amainar os ciúmes que tinha das serviçais, ela já tinha por hábito praticar outra sorte de maldade.

Quem conta é Pedro Nava(13), repassando o que lhe dissera sua avó, que viveu em Sabará naquela época e, portanto, bem sabia de tudo. Diz o escritor:

“… pereceu uma odiosa sinhá, cruel e sádica, que tinha a mania de sapecar os genitais das escravas, como se faz a frango, depois de depenar. Tantos púbis ela passou nas chamas, que acabou com as mãos chamuscadas.”

Post - Rosa & PeregrinaAnotação do sepultamento das rés Rosa e Peregrina, escravas do brigadeiro Jacintho.

O enforcamento ocorreu no dia 14.04.1858, em patíbulo montado no terreno das catacumbas, situadas em frente à igreja de Nossa Senhora do Carmo.

Daquela feita, o carrasco agiu afobadamente e com desleixo, porque, logo após o enforcamento, ao recolher-se o corpo de Rosa, constatou-se que ainda estava viva. Diziam que Fortunato não gostava de enforcar mulheres, pois se abalava ao ver o desespero estampado em seus rostos. Infelizmente, naquele caso, cometera lamentável descuido ao apertar o laço e, por isso, teve de retornar com Rosa ao cadafalso para finalizar o serviço, assim aumentando o próprio sofrimento.

FORA DE MINAS

Em janeiro de 1873, na província do Rio de Janeiro, ocorreram dois bárbaros assassinatos, um logo após o outro. O primeiro, no dia 8, nas cercanias da vila de Campos dos Goitacazes, do fazendeiro José Joaquim de Almeida Pinto. O segundo, no dia 9, de outro fazendeiro, José Antônio Barroso de Siqueira, na fazenda Poço d’Anta, da freguesia de Santo Antônio de Guarulhos(14). Ambos lugares situavam-se onde é atual cidade de Campos (RJ).

Post - Baptista Pinto manifestPedido por Fortunato no “Diario de Minas” (01.10.1873).

O justiçamento de criminosos desse nível estava a demandar um profissional à altura e, assim, convocaram o famoso Fortunato para realizar o serviço. Porém, quando o carrasco já estava deslocando-se para o Rio de Janeiro, o deputado Baptista Pinto deparou-se com ele e sua guarda no caminho. O político, prevendo as barbaridades que estavam por acontecer, não se conteve e, imediatamente, manifestou-se na reunião da assembleia provincial em Ouro Preto, para a qual havia sido convocado. Lá, fez o seguinte pronunciamento:

“… quando, no dia 19 deste mês, me aproximava desta cidade* (*Ouro Preto), afim de cumprir o meu dever […] vinha observando essas montanhas e […] agradecia à Divina Providência o ter-me dado o ser para admirar as magnificências e as belezas naturais; quando vinha alegre e contente, um mau gênio […] fez entristecer-me, fazendo-me deparar com uma escolta comandada por um oficial que ia daqui para o Rio de Janeiro, conduzindo um infeliz coberto de ferros. Perguntando eu quem ele era, o oficial respondeu que era o algoz desta capital* (*Fortunato), que ia para a corte requisitado a fim de fazer algumas execuções.

Quando ouvi essas palavras, senhor presidente, senti-me como que fulminado por um raio […] fiquei como que estático e fora de mim! Pareceu-me ver, desde logo, cadafalsos erguidos, o algoz supliciando a vítima e, com sorriso sardônico, aplaudir as convulsões do moribundo. Quando tornei ao meu estado normal, concebi a ideia de apresentar uma moção nesta casa.”

Para defender suas opiniões, o deputado Baptista Pinto não poupou palavras e cabe destacar algumas delas:

“Se a província do Rio de Janeiro tinha criminosos a executar, lá mesmo é que devia-se procurar um algoz. Ir de Minas o algoz para fazer essas execuções parece ser um indício de que somos um povo tão mau que até temos carrasco para fornecer a outras províncias. […] Pela minha parte, nutro esperança veemente  de que esta minha moção será bem acolhida pelo imperador* (*D. Pedro II). […] Senhores, desculpai-me se roubei vosso precioso tempo. A sensibilidade do meu coração impeli-me a fazer esta moção que tomareis na consideração que merecer e de cuja sorte decidireis como entenderdes em vossa ilustração e consciência. / Indicação nº 1 – ‘Indico que esta assembleia […] implore, de S. M. o Imperador, a comutação das penas dos infelizes para cujo suplício se mandou buscar o algoz nesta capital. — Paço da Assembleia Provincial, 26 de setembro de 1873.”

Post - Cadeia O Preto detalheCadeia de Ouro Preto, detalhe.

O passo seguinte foi apresentação de um projeto, em 04.10.1873, no sentido de encaminhar ao imperador um pedido de comutação das penas dos assassinos. Nesse mesmo dia, houve sua aprovação, de modo que a presidência da casa, manifestando-se em nome da maioria dos deputados, dirigiu-se ao imperador:

“Senhor! – A assembleia legislativa da província de Minas vem respeitosamente, perante o Augusto Trono de V. M. Imperial, pedir a comutação da pena capital imposta ao desgraçado ou desgraçados, para cuja execução se mandou buscar n’esta capital o mísero algoz Fortunato. Sem conhecer, Senhor, quais os infelizes sobre cujas cabeças paira sinistra a sombra da morte, só os sentimentos de humanidade inspirarão a esta assembleia na súplica que, respeitosamente, dirige […] em favor desses infelizes.”

A intervenção do deputado não surtiu efeito e os enforcamentos se consumaram. Sete foram executados, em outubro de 1873: o escravos Henrique, José e Benedito, pela morte do fazendeiro Almeida Pinto; e os escravos Antônio, Agostinho, Ciro e Amaro, pela morte do fazendeiro Barroso Siqueira.

Notícia dessa empreitada saiu num jornal da época, acrescentado detalhes da sua ida ao Rio de Janeiro:

“Trazia a camisa aberta no peito, quando passou pela estação de Paraíbuna*, deixando ver rosário de contas e bentinhos. Nas estações conversava com alguns curiosos e desabusados. ‘Ia a Campos mandar embora (era o seu termo favorito para exprimir que ia enforcar) a alguns parceiros!’ Ia acorrentado.” — A estação ferroviária de Paraibuna foi inaugurada no ano seguinte, 1874. Ali existia o registro régio do rio Paraibuna, na divisa de Minas Gerais com o Rio de Janeiro.

FAMA SEM GLÓRIA

De tanto usar a corda, Fortunato foi aprimorando suas habilidades e tornou-se o maior perito da província na arte de enforcar. E de tanto chamarem-no de algoz, a palavrinha foi incorporada como um adendo à sua pessoa. Além disso, habituara-se às dores do mundo, mas também com as suas próprias. Até mesmo as que lhe provocavam o reumatismo, que o atacara na velhice, embora fossem terríveis na gelada e úmida cadeia de Ouro Preto.

Em 1866, quando contava seus 55 anos de idade, dirigira um pedido ao presidente da província que, ao fazer seu despacho*, o identificou com seu novo sobrenome: “Dia 27 – Fortunato Algoz, indeferido.” E assim, nada mais que um algoz, no desprezo e desprovido de sua real identidade civil, continuou até o fim dos seus dias.  * “Diario de Minas”, 28.06.1866.

Post - Fortunato AlgozFortunato, reumático e esperando a morte na fria cadeia de Ouro Preto (Arq. Publ. Mineiro).

Dezessete anos depois, no dia 19.07.1883, um jornal(15) deu notícia do prisioneiro que, estava prestes a falecer.

“O carrasco Fortunato está em agonias e a polícia agora é que lembrou de fazer tirar o retrato desse infeliz que, estando no leito, foi conduzido ao pátio da cadeia, onde está exposto, abraçado à imagem do Crucificado. É a maior falta de caridade para um moribundo.” 

Fortunato faleceu logo após a tomada dessa fotografia. Ainda houve outra, a que ilustra este texto, única preservada. O sofrimento de toda uma vida transparece na sua derradeira imagem.

———

• Clique com o botão direito e veja o Post anterior: “Nascido para matar”.

Texto e arte de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

———

(1) ARAÚJO, José Ferreira de –  Na “Gazeta de Notícias”, Rio de Janeiro, em “O carrasco Fortunato, 02.11.1889.

(2) VEIGA, José Pedro Xavier da Veiga – “Ephemerides Mineiras” (1664/1897) – v. III, Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, Ouro Preto, 1897.

(3) Fortunato foi recolhido à cadeia de Ouro Preto em 07.06.1833. Esse prédio era destinado à nova sede do poder municipal, ou seja, Casa de Câmara e Cadeia, na Praça Tiradentes; atualmente é o Museu da Inconfidência – histórico e artístico.

(4) Era denominado boçal o escravo africano que não conhecia a língua do seu senhor. Leia mais, clicando com o botão direito, aqui: “Palavrão de cinco letras”.

(5) Bonfim – Fica a 99 km de Belo Horizonte e a 66 km de Itaúna – (Latitude: -20.3333 / Longitude: -44.25).

(6) PAULA, Hermes de – (Montes Claros, MG, *06.12.1909 / Montes Claros, †10.06.1983) Médico, folclorista e historiador. Na monografia “Montes Claros, sua história, sua gente e seus costumes”; no título “Mártir ou assassino”.

(7) VIANNA, Nelson – Historiador. / Segundo relato em “Serões Montesclarenses”, Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 1972.

(8) ROSA, João Guimarães – (Cordisburgo, MG, *27.06.1908 / Rio de Janeiro, †19.11.1967) Médico, diplomata e renomado escritor.

(9) PAULA , Enny Guimarães de – “Ave, João (A brava trisavó)”, Gráfica e Editora Brasil, 2010, p.90 e 91.

(10) Informação recolhida nos arquivos do historiador Antônio Gabriel Diniz – Despesas pagas pelo procurador da Câmara de Curvelo.

(11) Cidade de Mariana – Antiga capital do estado de Minas Gerais e primeira vila. Distante 11 km de Ouro Preto, por rodovia.

(12) “Correio Official de Minas”, 18.01.1858.

(13) NAVA, Pedro – “Baú de Ossos”, Ateliê Editorial, 2002, p. 106.

(14) Guarus – Em 1890 foi chamada de freguesia de Santo Antônio de Guarulhos e compreendia toda a área localizada entre a margem esquerda do Rio Paraíba do município de Campos dos Goytacazes. Com a criação de novos distritos, foi ficando reduzido o seu território. O distrito de Guarus (antes Guarulhos) foi anexado ao primeiro distrito de Campos dos Goytacazes em 1967. / Em função da coincidência com o nome da cidade paulista de Garulhos e atendendo a reivindicações populares, a mudança se deu por decisão da Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes.

(15) “A Província de Minas”, Ouro Preto, 19.07.1883.

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7 Comentários »

  1. Eduardo de Paula, parabéns!
    Impressionante sua descrição, como também é infinita sua sensibilidade. Fiquei um tanto impressionada com a história. Principalmente com o comentário de que nenhuma pessoa tem o direito de tirar a vida do próximo. Vale para todos os tempos. Inconsciência humana…
    Que saga misteriosa desse homem. Tudo indica que se arrependeu. Acredito na infinita misericórdia de Deus. Afinal, era também seu filho, talvez um doente mental! Todo indivíduo, durante a vida, enfrenta as contradições humanas.
    Maria Marilda – Cidadã de Lagoa Santa

    Comentário por Maria Marilda pinto Corrrea — 01/05/2016 @ 9:29 am | Responder

    • Marilda:
      Conhecer a história é uma ajuda ao auto-conhecimento e a descobrir o caminho do bem.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/05/2016 @ 9:45 am | Responder

  2. Eduardo, mais uma vez, sou levado a reflexões, provocadas pelo seu texto “Fortunato Algoz”. Hoje, 5 de maio de 2016, falamos daqueles que mataram e daqueles que foram mortos pelas mãos de Fortunato. Parece-me que há um limite para o sofrimento e, principalmente, para o aviltamento das pessoas. Muitos sofrimentos suportaram os escravos, mas muitos fazendeiros foram mortos por escravos, pois existem situações em que é preferível morrer a viver ultrajado. A foto de Fortunato, o olhar perdido, as mãos cruzadas sobre o corpo, tudo isso, como fecho de uma vida repleta de agressões sofridas e praticadas, faz-me pensar acerca do sentido de cada existência. Vale a pena? Diz o poeta que tudo vale a pena, se a alma não é pequena, mas como medir uma alma? Qual o tamanho da alma de um Fortunato? Qual o tamanho da alma daqueles que usufruíram da miséria de Fortunato?
    Parabéns, Eduardo, e que seus textos continuem provocando as pessoas, neste momento de tantos pensadores e de tão poucas ideias.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 01/05/2016 @ 7:18 pm | Responder

    • Pedro:
      Suas palavras enriquecem meu texto. Também fazem-me refletir e continuar minha busca no sentido de melhor compreender a humanidade e a mim mesmo.
      Um abraço agradecido do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/05/2016 @ 8:27 pm | Responder

  3. Ainda não tinha visto este texto. Logo eu, que vejo todos! Afinal, fala no meu pai e no nosso querido Joaquim Nagô. Acrescento que Nagô virou “santo” para nós de Montes Claros, embora ainda seja considerado criminoso por parentes do homem que ele teria matado. Certa vez, recebi um telefonema ameaçador de um bisneto aborrecido, porque meu pai tinha demonstrado simpatia por Nagô. E aborrecido com os Montes-Clarenses, por considerá-lo um milagreiro. Nós realmente amamos aquela pessoa, que teria pedido um pedacinho de marmelada antes de morrer e que deu trabalho para ir embora. Faltou dizer aí que o povo começou a pedir clemência. Minha mãe encareceu muitas missões a Joaquim Nagô. Ele acha pessoas, coisas e animais perdidos, até lembra o Negrinho do Pastoreio. Ainda na semana passada, sabendo de um cachorro que desapareceu lá no Recife, me lembrei dele. E o cachorro foi encontrado. Minha ensinou-me assim: rezamos três Pais Nossos e três Ave Marias, ao fazermos o pedido. Daí, quando é encontrado, rezamos novamente mais três Pais Nossos e três Ave Marias. Rezo para ele diariamente, com pedidos ou não.

    Além do mais, fico pensando no destino de Fortunato. Que tristeza ter se “especializado” em enforcar pessoas. O mais grave: nem se importava mais, a menos que fossem mulheres. Nem tenho palavras, mas sinto tristeza. E mais, gratidão a Eduardo, por registrar fatos tão importantes da nossa História. Extraordinário.

    Comentário por sertaneja — 04/06/2016 @ 5:44 pm | Responder

    • Virgínia:
      Fico alegre de ter-lhe dado o prazer de sonhar com o passado. De fato, não podemos abandonar nossas memórias.
      Muito obrigado pelas gentis palavras e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/06/2016 @ 6:15 pm | Responder

      • Você é um memorialista e tanto. Historiador. O que impressiona é que você ainda insere imagens e documentos comprovando tudo. Nós é que temos de agradecer.

        Comentário por sertaneja — 05/06/2016 @ 12:06 am


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