Sumidoiro's Blog

01/06/2016

LIÇÃO DE DEMONOLOGIA

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:03 am

♦ Para crédulos e incrédulos

Não acredito em bruxas, acredito em quem nelas acredita.

Há quem diga que ninguém mais acredita em demônios, bruxas e assemelhados, pois seriam fantasias dos tempos medievais. Porém, nunca se falou tanto de fatos inexplicáveis, de coisas ocultas, influências perversas, bem como de magias e feitiçarias. É bem verdade que têm parte nisso os magos da comunicação religiosa. Sabem eles colocar charme nas invencionices que utilizam com o intuito de dominar as multidões. Eles sempre prosperaram e ainda estão por aí. 

Post - Capeta no infernoO capeta sendo glorificado no inferno (Frans Francken, detalhe).

Os demônios brasileiros começaram a se configurar logo após o descobrimento do país, em 1500. Na sequência da colonização pelos europeus, tomaram forma definitiva, quando proliferaram inúmeras extravagâncias místicas devidas à mistura de crenças e religiões. Isso quer dizer que, enquanto formava-se o povo brasileiro por completo – em corpos, mentes e almas –, os seres infernais também entravam em cena e tomavam os seus devidos lugares.

Logo o diabo e seus representantes se espalharam pelos quatro cantos do país, evidentemente estabelecendo uma verdadeira barafunda mística e frequentemente conflituosa. De fato, porque fossem lá o pajé, o pai de santo, o feiticeiro, o padre ou os liderados, todos costumavam não se aceitarem uns aos outros, especialmente por parte daqueles que abraçavam a fé cristã. Porém, nunca houve clareza no que toca às diferenças, especialmente porque o deus de uns poderia ser o demônio dos outros. Pois bem, isso é mesmo coisa de política e religião, e que se misturam, sim!

SEM MEDO DO MALÍGNO

Apesar da má fama que alguns lhe atribuíam, no nordeste o demônio tornou-se um personagem muito presente e os poetas populares contribuíram para desmistificá-lo. Assim, um inspirado cordelista(1) soube fazer seu anúncio com bom humor:

Dos antros negros
Ligeiramente saiu
E foi ao alto do céu
Sem empecilho subiu
E lá bateu no portão
Na madrugada da serra.
Veio São Pedro a porta abriu.

Perguntou São Pedro a ele
– Quede a carta de guia.
O satanás respondeu-lhe:
– Deixe de tanta heresia
Porque eu tenho direito
De vir aqui qualquer dia.

Por isso tudo e muito mais, o demônio ganhou imensa fama no país, tanto que, apenas em Minas Gerais, recebeu um sem número de nomes. O escritor Guimarães Rosa os identificou no sertão, onde são assim chamados:

Arrenegado, Austero, Azarape, Canho, Capiroto, Cujo, Dião, Dos-Fins, Drão, Galhardo, Mafarro, Não-sei-que-diga, Pai-do-mal, Pé-de-pato, Severo-mor, Temba, Tendeiro, Tisnado, Tristonho, Xu, etc.

Ainda tem outro, vindo de Trás-os-Montes, em Portugal, o Famaliá – um diabinho caseiro –conhecido também como Diabinho da Garrafa, o qual nasce de um ovo fecundado pelo demônio(2). Este, de alguma maneira, incorporou-se ao nativo Saci-Pererê – um diabinho traquinas –, de uma perna só(3). Pois vejam, no momento em que lhe deram mais uma perna, foi rebatizado como Romãozinho, sendo visto lá pelos sertões de São Romão (MG)(4), nas bandas do Rio São Francisco.

COM MEDO DO INFERNO

Os descobridores portugueses, a pretexto de extirpar as malignidades da terra de Vera Cruz*, logo tudo fizeram para denegrir as crenças dos indígenas e dos escravos africanos, acusando-os de praticarem ritos diabólicos. E, no intento de salvá-los do inferno, decidiram catequizá-los impondo-lhes sua religião católica. Quando não conseguiam atingir os objetivos, apelavam para quaisquer meios, até os mais brutais, pautados nas regras da Santa Inquisição. Contudo, ao correr do tempo, a dolorosa batalha tornou-se inglória. — Pero Vaz de Caminha – escrivão da armada de Cabral –, em 01.05.1500, ao avistar a terra brasileira, chamou-a de Ilha de Vera Cruz.

Evidentemente, os diabos brasileiros são mestiços e têm um DNA que os remetem também para o Velho Mundo. Naqueles dias, a Santa Inquisição permanecia ainda ativa em Portugal e empenhada na caça às bruxas e feiticeiros, seja lá onde estivessem. E, como não podia deixar de ser, seus agentes passaram logo a atuar com firmeza do lado de cá do oceano, fiscalizando portugueses, africanos, nativos e seus descendentes.

A Inquisição foi um projeto de cunho religioso e político, que tivera início na Europa do século XIII. Entrou forte em Portugal, em 1536, e se estendeu até 1821. Por isso, quando os seus agentes chegaram ao Brasil, já contavam com apurado know-how para “identificar” todos os demônios, suas criaturas e ações. Coitado de quem sofresse alguma suspeição ou, pior, uma acusação!

DEMONÓLOGOS MODELOS

Um renomado expert nessa arte de identificar malignidades foi o francês Henry Boguet(5), juiz do condado de Saint-Claude de Bourgogne. Esse homem, tornou-se uma referência como demonólogo, tendo publicado, em 1603, o Discours Exécrable des Sorciers (Discurso Execrável dos Feiticeiros). Além disso, na função de juiz, julgou centenas de agentes do mal. Sua obra, certamente, mostrou-se muito útil também no Brasil.

Post - Henry BoguetO “Discours Execrable des Sorciers” (1603) e Henry Boguet.

Dizia Boguet que, da mesma maneira que os espíritos, o capeta pode corporificar-se, tanto na figura de um ser humano, como de um animal. Essa plasticidade é que permite, tanto às bruxas quanto aos feiticeiros*, adquirirem as mais variadas formas. Nas suas transmutações, teriam a capacidade de virar lobos, para devorar gente; também gatos, o que lhes propiciaria a habilidade de caminhar sorrateiramente pela noite adentro. — * Há uma sutil diferença entre feiticeiro(a) e bruxo(a).

Boguet fundamentou sua teoria investigando lobisomens que conheceu numa prisão, em 1584. Segundo disse, pertenciam à família Gandillon e garantiu tê-los visto durante o processo de transformação, caminhando de quatro e uivando feito lobos. Seus olhos tornavam-se vermelhos e brilhentos; os cabelos se eriçavam; os dentes cresciam e ficavam afiados; as unhas se encurvavam como chifres e ficavam ásperas.

Outra experiência do autor vem do caso da possessa Louise Maillat, uma menina. Disse ele que, em 1598, lhes foram incorporados os poderes de alguns demônios, os quais ele identificou como um lobo, um gato, um cão e dois outros que respondiam pelos os nomes de Joli e Griffon. Externamente, Louise, se transfigurava num lobo.

Post - Feiticeiras e gatoUm gato observando três feiticeiras no preparo de uma poção mágica.

Naquela mesma época, outro ilustre jurista e também demonólogo, Jean Bodin(6) – francês –, conseguiu fazer uma estatística sobre o número de representantes de satanás. Disse que, para um só bruxo existiriam 50 bruxas ou demoníacas. Aliás, o famoso dicionarista padre Raphael Bluteau, em 1713, parece ter endossado essa observação, quando escreveu:

“Querem alguns, que haja maior numero de feiticeiras que feiticeiros, ou porque as mulheres mais facilmente se deixam enganar do (pelo) demônio, ou porque são naturalmente mais vingativas e invejosas que os homens, (e) com mais curiosa malícia estudam o modo de satisfazer estas paixões”.  

Feito esse introito e a título de exemplos, mostramos aqui processos da Santa Inquisição, abertos no Brasil, contra um índio, um negro escravo, um juiz e um padre. E mais, como lembrança, o resumo de um fato histórico: o conflito político-religioso envolvendo um poderoso beato.

Post - Fundo do marProcesso contra o pajé: depoimento de Inocêncio Pereira.

CONTRA O PAJÉ — por heresia e feitiçaria 

Os índios nhengaíbas viviam na Ilha Grande de Joanes (Marajó), no Grão Pará (Pará). Lá pela metade do século XVII, a Coroa Portuguesa no sentido de ocupar a Amazônia incumbiu os jesuítas recolherem alguns daqueles índios e fixá-los a cerca de 600 km do oceano Atlântico, para fundar a aldeia de Arucará. Isso foi feito, sob o comando do padre Antônio Vieira, da Companhia de Jesus. A vila logo cresceu, passando a ser conhecida como Portel, nome que permanece até hoje.

Um descendente desses índios, Raimundo Antônio de Belém, nascido no século XVIII, vivia na região de Portel e tornara-se pajé. Pois bem, em 1758, o cônego Fructuoso da Costa Souza, vigário da vara, ordenou a abertura de processo contra ele com a oitiva de várias testemunhas. A acusação(7) : “… não fazer (satisfazer) o preceito de ouvir missa e praticar (induzir) os mais (demais) índios para que faltem também desta obrigação de católico, introduzindo-se […] entre eles de pajé e que faz feitiçarias…”

O jovem Manoel Antônio, uma das testemunhas, solteiro, morador de Portel, que disse ter de quinze para dezesseis anos – certamente despojado das malícias próprias dos adultos –, falou:

“… que sabia, por ser público e notório nesta vila, que o índio Raimundo, há dois anos […] não vinha fazer o preceito de ouvir missa, nem a confissão, […] obrigação da quaresma, porém não sabia se praticava […] induzia os demais para não virem à missa; e, outrossim, disse que […] em uma ocasião […], ouvira […] estar cantando com um maracá (chocalho), tocando em uma choupana, pela língua tocaia. E (tendo) perguntado à mulher do autuado de que constava aquela música, lhe respondera ela que seu marido estava fazendo de ser demônios, mas que ele, testemunha, não vira…”

Outra testemunha, foi Inocêncio Pereira, casado, natural e residente na vila de Portel que, por sua vez, disse:

“… Que sabia por ser publico e notório […] que o índio Raimundo […] não vinha satisfazer o preceito de ouvir missa, nem menos da confissão, […] preceito da quaresma; outrossim, disse […], por ouvir dizer, que se introduzia de pajé fora de propósito ao assistir (ter assistido) as cantorias que o autuado fazia na choupana e, com efeito, vira estar cantando e fazendo outras visagens no escuro, e lhe parecia a ele, testemunha, que o […] autuado mudava as vozes, dizendo que eram coisas do fundo do mar que fazia vir aí…”

O depoimento de Inocêncio é revelador do triste estado de alma do pajé. Entende-se que o pobre índio estaria a buscar memórias do mar, lá donde ele próprio outrora vivera, ou então seus antepassados, retirados à força ou enganados. Por que não?

Tem mais, um tal de José de Souza, residente em Portel, raivosamente testemunhou contra o pajé, afirmando que:

“… Era público e notório que o autuado era pajé, […] fazia cantorias com um maracá, em uma choupana chamada tacajá e que fazia vários remédios para curar enfermidades, e fazer arder (!) as raparigas, e que, […] as deflorava; o que ele testemunha sabia, por ouvir dizer, a muitas pessoas […] e entre elas a um genro seu, chamado Pedro, e a mulher dele mesmo, chamada Maria Eusébia…”

Finalmente, o documento com vários testemunhos foi enviado para a maior autoridade eclesiástica do estado do Pará, na expectativa da condenação do pajé herético e feiticeiro, com essa anotação:

“… Fiz estes autos conclusos ao Reverendo Doutor Provisor e vigário Geral Pedro Barboza Canais para neles deferir, como lhe parecer (de) justiça, de que fiz este termo de conclusão, e eu, Padre Bernardo Ferreira, escrivão da Câmera e Auditório Eclesiástico, que o escrevi. Conclusos em 23 de 7br.º de 1760.”

Post - Duas negrasUma negra com um patuá e outra negra com três patuás.

CONTRA O ESCRAVO — por bruxaria e feitiçaria

Em 1779, ocorreu outro desatino religioso. Um escravo que vivia em Sabará, chamado Jacinto, foi também acusado, simplesmente porque fabricava patuás(7). Tais objetos são amuletos e têm varias configurações, geralmente se assemelham a saquinhos. O devoto usa o patuá nos bolsos, em carteiras, nos pulsos ou pendurados ao pescoço. Para os santos inquisidores, o pobre artesão estava cometendo grave delito e iniciaram a perseguição, manifestando-se dessa forma(8):

“Da denúncia junta consta que um mulato, chamado Jacinto, escravo do capitão Pedro Lopes Machado, se tem empregado no diabólico exercício de fazer umas certas cartas, a que […] chamam patuás; por cuja culpa foi denunciado no juízo secular e por ela esteve preso com outro co-réu, na cadeia de Sabará, de onde saíram por empenhos e porque esse delito foi sempre próprio (dele), aonde hoje causa grave escândalo e desordens, como informa o comissário Nicolau Gomes Xavier, na sua conta junta; faz-se preciso que se inquiram cinco pessoas, conforme a prática do Santo Ofício, as quais saibam do referido caso e nas circunstâncias ao dito comissário Nicolau Gomes, com poder de acometer a outro eclesiástico que bem o deva executar, no caso de que a ele lhe seja impossível pela distância…”

A denúncia foi enviada à mesa da Inquisição, em Lisboa, mas o processo que encontra-se arquivado na Torre do Tombo, em Portugal, está inconcluso. De qualquer maneira, é certo que conseguiram atazanar o Jacinto por nada.

Post - Feiticeiro africanoFeiticeiro africano e auxiliar, atendendo uma cliente.

CONTRA O JUIZ — por implicância

E os disparates continuaram. Em 1794, Mathias Alvares Franco, juiz municipal de Santo Antônio da Manga* (*atual São Romão) e morador no lugar Brejo do Salgado (MG)(9), foi denunciado pelo capitão Sebastião da Silva Gomes, ao vigário de Raposos (MG) reverendo Nicolau Gomes Xavier, representante do Santo Ofício, nos seguintes termos(10):

“Sou obrigado por descargo da minha consciência e obediência da Igreja a procurar a vossa mercê, como Comissário do Santo Ofício, para denunciar o seguinte:

… Mathias Alvares Franco, homem branco, solteiro, natural da cidade da Bahia, o qual pratica umas ações que se fazem dignas desta denúncia. São […] as seguintes: […] mandou prender uns negros dizendo (que) eram feiticeiros e pondo-os em confissão lhe(s) rezava ao ouvido não se sabe o que, por dizerem uns ser o credo, outros os salmos, e lhe(s) mandou rapar a cabeça, barba e subaco* (*sovaco), e partes pudendas, e cortar-lhes as unhas, tudo isto da parte esquerda, e dar-lhe um defumadeiro, dando-lhe ao mesmo tempo alguns tratos, como dependurando-os pelas partes baixas (usando um cordel), e mandando-lhe(s) tentear a via ordinária* (*urinária) com uma tenta* (*sonda cirúrgica) molhada em pimentas. / O capitão Sebastião da Sylva Gomes.”

Post - FutuáriasDenúncia do padre Timóteo, afirmando que Mathias é adepto de “futuárias”.

Ao tomar conhecimento do relato, o vigário de Raposos solicitou diligências ao pároco do arraial de Santo Antônio da Manga, padre Timóteo Rodrigues Monteiro. Tudo indica, se entusiasmou com o teor da acusação e, de modo a dar mais colorido aos fatos acrescentou detalhes, assim escrevendo(11):

“Mathias Alvares Franco, […] natural da cidade da Bahia ou da Ilha de Taparica**, que vive crendo em abusos, superstições e agouro, pois (os) praticou no lugar do Brejo Salgado*** , fazendo induzir vários pretos à sua presença […] e lhe mandou cortar os cabelos de todas as partes […], rezando-lhe o credo a ouvido e, não satisfeito com isto, lhe fez dar tratos pelas partes pudendas dependurados* (*dependurando-as) por um cordel, além de lhe introduzir pela via dianteira pimenta em um molho com uma pinça que o fez desesperar. Também crê e faz capricho* (*bizarrias, extravagâncias) e são as suas conversações tudo futuárias****, e a todas enfermidades que tem […] atribui a futuária, consignando (aconselhando) a todas (todos) [que] recorram a curadores de futuárias, embrutecendo este abuso a todas, esta representação [que] faço…” — ** O mesmo que ilha de Itaparica, na baía de Todos os Santos, Bahia. / *** Brejo do Salgado: hoje Januária / **** Futuária (!) – vocábulo errado, porém refere-se ao verbo futurar: predizer, vaticinar.

Quando falava de curadores de futuárias, o padre Timóteo se referia a curandeiros e adivinhadores. E, como bom demonólogo que era, acusava o juiz Mathias de ter parte com o maligno, pelas supostas torturas que impingia aos negros.

Post - Clérigo ignoranteJoão Francisco acusa “o dito clérigo (Timóteo) por ser um ignorante e de ânimo vingativo”.

CONTRA O PADRE — por abuso de poder

Tempos depois, em 1799, o padre Timóteo Rodrigues Monteiro – citado anteriormente – foi denunciado à inquisição, pois estava a cometer abusos ao prender um seu desafeto e fingindo receber ordens do Santo Ofício. Assim consta(12):

“Diz o capitão João Francisco de Paiva […], residente no arraial de São Romão […] Que o clérigo (Timóteo) por ser um ignorante e de ânimo vingativo […], falto de detrás do foro e da devida consciência, se tem introduzido a prender a ordem do Santo Ofício, conquanto seja […] meramente um simples clérigo […], a José Rodrigues Fróis, homem casado com Anna Maria…”

Abriu-se, em Lisboa, processo contra o padre, mas pelo que mostram os documentos, parece que ficou tudo do mesmo tamanho. O homem tinha costas largas e faltou pouco para o “feitiço” voltar-se contra o implicante.

Post - ConselheiroAntônio Conselheiro morto: única fotografia conhecida. 

CONTRA O BEATO — por usar a multidão

No século XIX, vale lembrar o famoso e simbólico Antônio Vicente Mendes Maciel(13), um expoente da crendice misturada à política. Ficou conhecido como beato Antônio Conselheiro ao tornar-se líder religioso e fanático, quando arregimentou no sertão da Bahia milhares de seguidores, camponeses, índios e escravos recém-libertos.

Em 1874, o Conselheiro e seus adeptos se instalaram nas proximidades de Itapicuru de Cima (BA), onde realizaram sua primeira grande façanha, fundando a “cidade santa” do arraial do Bom Jesus. Incomodado com tanta impertinência, o bispo da região proibiu os fiéis de assistirem suas pregações subversivas. Isso foi o estopim para torná-lo persona non grata aos poderes constituídos, tanto religioso quanto civil.

Com a Proclamação da República, em 1889, o conflito alcançou grandes proporções. Naquele momento, o líder fanático martelou com um forte argumento, dizendo que o demônio estava a acabar com fé da igreja, visto que o novo regime estava a sobrepor o poder humano ao poder divino. Algumas inovações, como o casamento civil, a liberdade de culto e outras medidas do governo lhe pareciam sacrilégios. Em resumo, fazia um discurso que encantava a multidão.

Até que veio a inevitável reação das forças do governo, em 05.10.1897, quando os revoltosos estavam instalados em Canudos (BA) e acabaram por serem derrotados. O Conselheiro e milhares de pessoas morreram, sendo o arraial completamente destruído, fazendo com que aquela utopia místico-política chegasse ao fim. Dias depois, a cabeça do líder foi cortada e enviada a especialistas para estudos científicos.

Seus soldados diziam ter o corpo fechado, pois vestiam patuás pendurados ao peito. Dois deles traziam escrito:

“Sou filho do Bom Jesus Conselheiro, teu tiro vira água.” / “És Belzebu, eu sou do Conselheiro. Tua pólvora vira carvão e tua bala alcanfô.”  Alcanfô / Cânfora.

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QUE MANGA É ESSA?

Além do nome da fruta, a palavra manga tem inúmeros significados. Especialmente no sertão de Minas Gerais, onde é usada na acepção de tromba-d’água, curral ou pasto. Daí surgiu a inspiração para ali nomear cinco lugares: Vila Risonha de Santo Antônio da Manga de São Romão, Santo Antônio da Manga de Paracatu, Manga e Manga Velha. A palavra manga, nesses casos, foi absorvida no senso estrito de curral ou pasto.

Pois bem, desde priscas eras, tem-se associado a ideia de tromba-d’água a um acúmulo desse líquido na atmosfera – simbolicamente contido num vaso – e que pode, repentinamente, desabar sobre a superfície da terra. Ou dizendo de outra forma, uma manga de chuva ou manga-d’água. Tem razão o sertanejo, quando diz que é uma chuvarada que cai em um só pasto ou curral.(14)

Reforça essa ideia o fato de, nos largos sertões de São Romão, terem existido muitos currais. Neles era criado gado bovino e equino. Bem mais tarde, numa fazenda chamada Mangalarga, desenvolveu-se uma raça cavalar brasileira e, com esse mesmo nome, ficaram conhecidos esses animais.

Post - Tromba← Tromba-d’água marinha.

Sem dúvida, a palavra manga é bem antiga e foi crescendo sem parar. Veio do latim manica: manga de túnica; luva; que, por sua vez, derivou de manus: mão. Mas a polissemia de manga ampliou-se com os sentidos de espaço fechado; invólucro, que serve para envolver, recobrir, proteger ou guardar; redoma; tubo de vidro redondo e estreito; espaço delimitado; recipiente; campânula; curral; pasto, etc.

Auxilia nesse entendimento o dicionário de Morais e Silva – 1789 –, com o verbete recipiente, informando que pode ser “vaso, que recebe o líquido destilado ou filtrado […] ou uma manga cilíndrica…” Isso faz lembrar a utilíssima mangueira, aquela usada para conduzir líquidos. Melhor explicando, é um objeto tubular, que envolve qualquer coisa para proteger, isolar ou transportar. Mas também pode ser um tipo de campânula aberta em dois bocais, de vidro ou cristal, que protege a luz nos castiçais, candeeiros ou nos braços de candelabros e lustres.

Tem mais, chamam os franceses como La Manche – a manga –, o conhecido braço de mar que separa França e Inglaterra; os portugueses dizem Canal da Mancha e os espanhóis Canal de la Manche. Pois sim, o canal se parece com uma camisa onde se mete um braço. Para os ingleses é English Channel.

Colocando mais verdade em tudo isso, vale lembrar palavras do padre Vieira em um sermão na Bahia, no ano de 1640:

” Aparece uma nuvem no meio daquela Bahia, lança uma manga ao mar, vai sorvendo por oculto segredo da natureza, grande quantidade de água, e, depois que está bem cheia, depois que está bem carregada, dá lhe o vento e vai chover d’aqui a trinta, d’aqui a cinquenta léguas.”

Também d. Pedro II, quando viajava por Minas Gerais, em 1881, ao deslumbrar-se com a natureza do Curral del Rei, poeticamente anotou no seu diário(15):

“ A trovoada e diversas mangas de água, do lado da serra do Curral, destacando-se do grosso das nuvens fiapos destas, com formas extravagantes e os raios do sol dando às montanhas, por entre nuvens cores variadíssimas, tornavam a paisagem encantadora.” 

Pesquisa, arte e texto por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) VILANOVA, José – Em “A Segunda Queixa de Satanás a Cristo sobre a Corrupção do Mundo”. / Cordelista: poeta popular. Seus poemas são publicados em folhetos que, por tradição, ficam à venda nas ruas pendurados em cordéis. Esse gênero literário tem origem na Europa e foi introduzido no Brasil pelos portugueses, sendo muito apreciado no nordeste do país.

(2) (3) Famaliá é uma figura mitológica, oriunda da tradição portuguesa e assimilada pelos antigos sertanejos, no sentido de inspirar novas fantasias. Trata-se de um demônio caseiro, ou familiar – dai vem a corruptela famaliá –, gerado dentro dos lares e, para tal, demanda-se muito trabalho. Primeiramente, tem-se que obter um ovo de galo (!), dizem que é raro mas acontece. Depois, precisa ser chocado debaixo do braço esquerdo, durante os dias da quaresma. Do ovo nascerá esse diabinho de grande serventia, que atenderá todos os pedidos do seu criador. Em contrapartida, o dono pagará os benefícios que receber entregando sua alma ao diabo. É chamado também de Diabinho da Garrafa, porque nesse vasilhame deve ser guardado. ///  Sacis-Pererês – Afiguram-se como meninos negros de uma perna só, vestem um gorro vermelho (tal como o Famaliá) e trazem sempre um cachimbo na boca. São gerados em orelhas-de-pau – cogumelos venenosos – e gestados em gomos de bambu, durante sete anos, e vivem 77 anos. Quando morrem, transformam-se em orelhas-de-pau e, assim, vai-se perpetuando a família dos sacis. Os primeiros surgiram da cultura indígena – eram indiozinhos –, contudo, o mito foi construído pelas culturas africana e portuguesa. Desse modo, atribuíram aos sacis a pele negra dos africanos e o característico capuz da mitologia europeia, tal como ficaram então conhecidos. // Algumas particularidades dos sacis: habitam as matas; não possuem pelos no corpo; não fazem xixi nem cocô, por não possuírem os órgãos apropriados; têm apenas três dedos em cada mão; as mãos têm as palmas perfuradas; adoram assoviar e ficar invisíveis; têm sempre os joelhos esfolados, devido às diabruras; são imunes aos insetos, sejam mosquitos, pernilongos, pulgas, marimbondos, etc.; ao fumarem um “pito” ou cachimbo, soltam fumaça pelos olhos; costumam girar feito pião, chegando a provocar redemoinhos; adoram passear com as criancinhas, mas morrem de rir ao fazê-las se perderem nas matas; jogam areia nas janelas e pedras nos telhados das casas; espantam animais do curral; alteram as encruzilhadas, confundindo o caminho dos tropeiros; gritam e choram atrás das portas, e assoviam nos buracos das fechaduras.

(4) O diabo Romãozinho é citado pelo escritor Guimarães Rosa. // O povoado de São Romão foi fundado em 1668, com o nome de Santo Antônio da Manga. A localidade foi habitada pelos índios caiapós que viviam numa ilha do rio São Francisco, à altura do que seria mais tarde o arraial. Está a 529 km de Belo Horizonte.

(5) BOGUET, Henry – (*1550 +23.02.1619) Juiz em Saint-Claude, condado de Bourgogne, de 1596 a 1616; julgou cerca de 600 processos de feitiçaria.

(6) BODIN, Jean – (Angers, França, *1529 / Laon, França, †1596) Jurisconsulto, economista, filósofo, teórico político. Influenciou a história intelectual da Europa com suas teorias econômicas e princípios do “bom governo”. Interessou-se, também, pela demonologia e publicou, em 1580, “ De la Démonomanie des sorciers”.

(7) Processo de Raimundo Antônio de Belém – Torre do Tombo, Lisboa, documento PT/TT/TSO-IL/028/12886.

(8) Processo de Jacinto – Torre do Tombo, Lisboa, documento PT/TT/TSO-IL/028/05630.

9) Santo Antônio da Manga, fundada em 1668; tornou-se depois São Romão. Em 1831, foi elevada à condição de vila, como o nome de Vila Risonha de Santo Antônio da Manga de São Romão. Fica a 529 km de Belo Horizonte. Por sua vez, Brejo do Salgado – bem mais ao norte – tornou-se Januária. // A atual cidade de Manga – quase na divisa com o estado da Bahia – tem esse nome em criação mais recente, pois surgiu como arraial de São Caetano do Japoré. Pertenceu Januária e, depois, foi desmembrada, em 1923, tornando-se município. Fica a 709 km de Belo Horizonte. Por tudo isso, a atual Manga não deve ser confundida com Santo Antônio da Manga (São Romão).  // A cidade tem como patrono São Romão (Saint Romain) que foi bispo de Rouen, França (viveu entre os séculos XVI e XVII). O 23 de outubro é dia de festa do santo e da fundação da cidade.

(10) (11) Diligências contra Matias Álvares Franco – Torre do Tombo, Lisboa, documento PT/TT/TSO-IL/028?CX1598/14946.

(12) Denúncia de Timóteo Rodrigues Monteiro – Torre do Tombo, Lisboa, documento PT/TT/TSO-IL/028/CX1589/14411.

(13) MACIEL, Antônio Vicente Mendes – (Nova Vila de Campo Maior, CE, *13.03.1830 / Canudos, BA, †22.09.1897).

(14) CHUVA DE MANGA – Notícia da Associação Internacional de Sistemas de Captação de Água de Chuva, Juazeiro, Bahia – Previsão de chuva para o Semiárido Brasileiro Circular Nº 28 (23-12-2013): “Muitos fundos de pasto no Norte da Bahia se deram bem na estiagem, porque as chuvas caem como chuvas de manga (criando ilhas verdes em áreas secas): assim as cabras acharam pasto novo na caatinga. //  Na fala popular do Brasil rural, as expressões “chuva de manga”, “manga d’água” e “tromba-d’água”, se confundem. Contudo, os meteorologistas preferem utilizar “manga-d’água” ou “tromba-d’água” como sinônimos, mas para designar um torvelinho marinho de chuva, cuja configuração lembra a água fluindo como se estivesse contida numa mangueira. // No dicionário: extensão nasal cilíndrica, comprida e extremamente flexível, do elefante […] o mesmo que tromba-d’água. // Camões, nos Lusíadas, escreveu: “… ver as nuvens do mar com largo cano, sorver as altas águas do Oceano.” (Canto V – 18) // Chuva da manga – Em Timor-Leste (sul da Ásia), país de colonização portuguesa, usa-se a expressão para dizer da chuva que cai em época tardia e que faz com que as mangueiras floresçam convenientemente. Nesse caso, a palavra manga, antecedida da preposição “da”, refere-se à fruta.

(15 ) O imperador d. Pedro II e dona Tereza Cristina partiram do Rio de Janeiro, no dia 21.03.1881. Em 09.04.1881, fazendo o caminho de volta, e retornando de  Matozinhos a  Santa Luzia, avistaram a serra do Curral elevando-se ao sul do Curral del Rei, atual Belo Horizonte. / Fonte: “Anuário do Museu Imperial”, vol. XVIII, 1957, versão e notas por Hélio Vianna.

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8 Comentários »

  1. Eduardo, deveras impressionante seu tema. Assunto sempre abafado pelos líderes religiosos. A consequência é o mistério. Muito corajoso! Arrepia os crentes e os incrédulos.
    Maria Marilda.

    Comentário por Maria marilda — 01/06/2016 @ 3:45 pm | Responder

    • Marilda:
      Muito obrigado por mais este comentário.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/06/2016 @ 6:01 pm | Responder

  2. Apreciei por demais os dois temas. Mas acho que vou ter de mudar o nome do meu gato Drão. Eu desconhecia o significado da palavra. Coloquei este nome porque sua mamãe o teve, ( e mais três) dentre do meu guarda roupa. Saía de vez em quando e ao voltar conversava muito com eles. Parecia chamar um por um dizendo sons que pareciam nomes. Zezé, Mary, Nana e Drão. Este ficou um gato belíssimo, preto e peludo. O que? Preto, peludo e chamado Drão? O que vão pensar de mim? Já tenho fama de bruxa!
    A propósito, qual a diferença entre bruxo e feiticeiro?

    Sobre as mangas me lembrei dos lampiões. Eles também possuem mangas.
    Aprendi muito hoje. Não sabia que Manche era Manga em francês.

    Comentário por sertaneja — 02/06/2016 @ 12:40 am | Responder

    • Virgínia:
      Deixe seu cão em paz. Saci-Pererê também é capeta e, nem por isso, deixamos de ter por ele boa consideração.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo

      Comentário por sumidoiro — 02/06/2016 @ 7:53 am | Responder

  3. Eduardo, mais um texto delicioso; leitura agradável e, para quem gosta das palavras, um grande presente. O último item, “Que manga é essa?”, é uma preciosidade. No primeiro tópico “Sem medo do maligno”, o diálogo entre São Pedro e o Satanás, lembrou-me, não sei a razão, o poema “Irene no céu”, de Manuel Bandeira:

    Irene preta
    Irene boa
    Irene sempre de bom humor.

    Imagino Irene entrando no céu:
    – Licença, meu branco!
    E São Pedro bonachão:
    – Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

    Espero, Eduardo, que chegados ao céu, também nós estejamos dispensados da carta de guia e da necessidade de pedir licença.
    Parabéns, meu caro, e que não lhe faltem a inspiração e a vontade para continuar brindando-nos com mais e mais textos dessa qualidade.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 02/06/2016 @ 10:05 am | Responder

    • Pedro:
      Mais uma vez, seu comentário é um complemento ao meu texto.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/06/2016 @ 12:09 pm | Responder

  4. Meu caro Eduardo, é sempre muito prazeroso encontrar um novo post e maravilhar-se com seus textos. De forma geral, a história foi composta de desmandamentos vários, como ocorreu na Inquisição, um constrangimento brutal. Parabéns!
    PS: Obrigado pelo texto instrutivo: “- Que manga é essa?”

    Comentário por Carlos Fernando dos Santos Braga — 03/06/2016 @ 11:31 am | Responder

    • Carlos:
      Leitores como você dão-me fôlego para continuar.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/06/2016 @ 2:03 pm | Responder


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