Sumidoiro's Blog

01/01/2017

O SÍNDICO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 12:01 am

♦ Em nome da mãe

post-o-sindico

post-tudo começou com Maria lavadeira, honesta e trabalhadeira, e dona de uma grande alma. Nascera de pai desconhecido e, daí, veio o seu sobrenome, nessa terra dos sem estirpe. Fôra adereço inventado, buscando os complementos no céu e, nessa regra, batizada como Maria do Divino Espírito Santo. Assim é que se fazia com os bastardos.

A mesma música que tocaram para sua mãe, movimentaram os passos da vida que lhe foi possível. Desse modo, sem fugir à partitura, Maria teve um filho e, do pai, só ela teve conhecimento. Mas, logo, veio a decepção. Enquanto ainda amamentava o neonato, o companheiro falhou na palavra e trocou-a por outra. Depois, quando o pimpolho foi tomando corpo – graças a Deus! –, ela vislumbrou nele um grande porvir.

Por isso, tratou logo de batizá-lo, para ter a proteção do Senhor, tal como ela. E, para isso, escolheu um nome de bom futuro: Bartoleu José do Espírito Santo. Nessa hora, o Divino, dela própria, ficou para trás, descartado. E lá foi Maria, lavando roupa, juntando seus trocados e comprando lápis, cadernos, livros e borracha, na esperança do menino, um dia, virar doutor.

A primeira etapa do projeto, a contento funcionou. Bartoleu conseguiu fazer o primeiro e segundo graus, numa escola da pátria educadora(1). Com isso, ganhou diploma de analfabeto funcional(2). E, então, foi fazer vestibular. Primeiro tentou ser médico, não conseguiu… Depois, tentou ser advogado, não conseguiu… Tentou ser engenheiro, não conseguiu… Quando já estava quase desistindo, teve uma inspiração e pensou numa coisa menos importante. Tentou ser, professor… Não conseguiu!

Naquela altura dos acontecimentos, já estava lá com seus 30 anos de idade, e baixou tristeza. O jeito foi chorar no colo da mamãe. Sorte é que Maria era mulher forte, com visão de futuro e experiência do passado. Por isso, havia guardado um dinheirinho na poupança, durante anos, o qual foi presenteado a Bartoleu, para trazer de volta sua alegria.

Com isso, teve ele como comprar um apartamento a prestação, porque já lhe passava ideia de ter esposa. O desejo de se casar no cartório e na igreja já o perseguia há muito tempo. Queria mudar a regra da sua mãe. Desejava colocar uma pá de cal nessa família de gente sem estirpe. Mas, ao mesmo tempo, tinha muita fé de que iria repassar para os seus descendentes o sagrado sobrenome, inspirado no Santo Espírito.

Tudo foi caminhando bem, namorou e casou-se, de papel passado. Até que chegou o dia em que mudou-se para um apartamento novinho. Quando se instalou na habitação, passou a ter nova experiência de vida. Estava a conviver numa comunidade mais sofisticada, andava de elevador, onde ninguém olhava um para o outro. Lá tinha play-ground, ambiente muito seguro e discreto para os moradores fazerem fofocas e, especialmente, praticar o máximo desse lazer: falar mal uns dos outros.

Mas, é claro, Bartoleu tinha educação de berço e não era dado a qualquer tipo de mau comportamento, por isso sempre permaneceu na sua: mudo! Cumprimentava a todos. Quando queria passar, pedia licença, dava bom-dia e, também, boa-tarde, a porteiros, faxineiras e ao carteiro.

Contudo, lá do prédio, o resto do povo não compreendeu seu modo de ser e, alguns, taxavam-no de capiau. Outros, achavam que era simplório, meio ingênuo, mas, quando estava ausente, chamavam-no de bobo. Começaram até a debochar do seu sobrenome Espírito Santo. Diante disso, o ofendido tomou uma atitude drástica. Fez uma circular aos condôminos e disse que passaria a se chamar Bartoleu José.

Contudo, sua alegria durou pouco. No prédio, morava um bando de adolescentes que, ao saberem que eliminara parte da sua identificação, deram-lhe o apelido de Zé-Sem-Espírito. Mas, como todos sabem, “sem espírito’ serve também para dizer sem graça, não é? E, desse modo, a vida do Bartoleu José virou um inferno.

Mas, o sofrido José não desistiu e, para impor autoridade, decidiu ser síndico. Não conseguira ser médico, advogado ou professor, mas haveria de comandar um condomínio! Foi eleito, por unanimidade de votos e comunicou a façanha, por carta, à mamãe Maria, àquela altura já bem velhinha. Estava ele orgulhoso de poder dizer que, finalmente, era uma autoridade. Porém, não estava livre de preocupações, pois sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que mostrar serviço.

Os dias foram passando, mas o apelido Zé-Sem-Espírito pegou e nunca mais desgrudou. A salvação do síndico neófito, na tentativa de apagar as maledicências, seria demonstrar competência. Nesse sentido, resolveu pedir auxílio a um sábio morador, um velho que, desde que ali chegara, havia lhe dado a mão e gentis boas-vindas. A dificuldade primeira, que atormentava o Zé e não o deixava nem dormir, era como comandar uma reunião.

Porém, o velho sabia o caminho das pedras e deu-lhe um bom conselho: “- Liga a tv e assiste os debates do Supremo.” Melhor escola não poderia existir e o empossado síndico devorou, com olhos e ouvidos, as aulas on-line. Pois bem, depois de algum tempo, o aluno sentiu-se muito bem preparado, mas havia uma palavra que não ficou ao alcance da sua sensibilidade: data venia(3).

Então, voltou ao velho e pediu explicações. Sem tardar, o amigo condômino mostrou-se muito prestativo e, com sua primorosa didática, passou a explicar. Olha! Data venia é do latim. É um jeito educado de dizer que não concorda, sem ofender. Também de refutar ou dizer o contrário. E avisou: nesses debates, todos querem mesmo é vencer e, sempre há um que pretende ser o campeão. Mas nunca se pode passar a impressão de estar sendo mal-educado com o inimigo. A regra é essa, primeiro você sopra, depois morde.

A princípio, o Zé não entendeu bem e pediu: “- Explica melhor.”

O velho então disse: “- Vou ser mais explícito” – e foi continuando. “- Olha! Se você precisar dizer, por exemplo, que não está levando a pessoa a sério, fala: data venia, e acrescenta qualquer coisa que, assim, nunca ofende. Junta a palavra cachimônia, juro que ficarão estupefatos.” 

Dito isso, o síndico, até então desamparado, entendeu e ficou todo cheio de si, esperando a estreia. Chegado dia e hora da primeira reunião, o Zé, de peito aberto, deu início à sua sessão inaugural. Ao correr do tempo, cada participante queria dar o ar da sua graça e sucederam-se palavras e mais palavras. Tudo ia correndo muito bem. Um dizia acho isso, outro dizia acho aquilo, um terceiro dizia aquilo outro…

Era um achismo total mas, certamente, deixando as soluções por conta do administrador recém-vindo. Entretanto, o síndico, mesmo munido de toda boa-vontade, começou a ficar aflito com tanto palpite e já sabendo que as cobranças viriam.

Porém, de repente, o Zé acordou e percebeu que um dos condôminos estava a fim de lhe criar obstáculos, talvez por puro sadismo. Então, lembrou-se do que aprendera e apelou para as palavras mágicas. E, em alto e bom som, pronunciou:

“- Data venia, pela sua cachimônia*, não estou levando o senhor a sério…” — * Mente, cabeça, inteligência, intelecto, sagacidade, perspicácia. (4)

E sabe que funcionou? Deu um branco geral, ninguém entendeu nada, a reunião mudou de rumo, e todos até esqueceram o que estavam ali a fazer. Daí, foi dada a partida para a conversa virar uma barafunda, os homens falando de futebol e as mulheres da novela das 8. Até que foi encerrada a sessão, sem pé, nem cabeça e, muito menos, conclusões. E lavrou-se tudo em ata.

No dia seguinte, o Bartoleu José do Espírito Santo postou no correio uma carta para dona Maria do Divino. A primeira frase foi essa: “- Mamãe, venci!”

Texto e arte por Eduardo de Paula

———

post-cachimo%cc%82nia(1) Pátria educadora: slogan de um antigo governo.

(2) Analfabetismo funcional: incapacidade de compreender textos simples. A deficiência ocorre quando as pessoas, mesmo capacitadas a decodificar minimamente as letras – geralmente frases, sentenças, textos curtos e os números –, não desenvolvem habilidade de interpretação de textos e de fazer operações matemáticas.
(3) DATA VENIA, no dicionário: expressão respeitosa com a qual se inicia uma argumentação, contrariando a opinião de outrem; com a devida licença.

(4) Cachimônia (imagem ao lado) – “Suplemento ao Vocabulário Portuguez e Latino”, pelo padre doutor Rafael Bluteau, Lisboa, 1721. / fazenda = dinheiro.

Anúncios

13 Comentários »

  1. Bela crônica: irônica, espirituosa e até informativa. Gosto muito dos seus escritos. Leio e arquivo todos. Desejo-lhe um ótimo 2017 e que sigam chegando preciosidades como esta. Forte abraço.

    Comentário por Luiz Viana David — 01/01/2017 @ 9:19 am | Responder

    • Luiz:
      Se a gente seguir sorrindo, veremos que vale a pena viver, até mesmo num condomínio. Muito obrigado pelo comentário. Desejo-lhe também um ótimo Ano Novo. Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/01/2017 @ 9:31 am | Responder

  2. Eduardo de Paula.
    Gostei desta história, de um filho inteligente…
    Maria Marilda
    Lagoa Santa Mg

    Comentário por Maria Marilda pinto Corrrea — 01/01/2017 @ 9:54 am | Responder

    • Marilda:
      Inteligência cada um tem a sua e ora pode provocar tanto a admiração, quanto o riso.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/01/2017 @ 10:04 am | Responder

  3. Linda crônica! Uma saída do poço profundo do Brasil, onde humor, ironia e comédia andam de braços dados com o drama, e até a tragédia. Aliás, o Brasil mesmo, está muito superficial. Grande Abraço, Vania Perazzo Barbosa.

    Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 01/01/2017 @ 2:23 pm | Responder

    • Vania:
      Muito obrigado. O nosso poço virou uma barafunda. Quem se candidata a colocar uma escada segura para gente sair? Meu medo é a escada quebrar no meio do caminho.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/01/2017 @ 5:37 pm | Responder

      • Eduardo, bom-dia: Todos nós temos medo do que vem por aí. Tantos desempregados… Por sede de poder, fizeram do país essa barafunda.

        Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 03/01/2017 @ 9:40 am

      • Vania:
        Pois é!
        Um abraço do Eduardo.

        Comentário por sumidoiro — 03/01/2017 @ 9:53 am

  4. Caríssimo Eduardo,
    O que mais me chamou a atenção em “O Síndico” foi a sua forte verve irônica. Os trechos em que você zomba de um grupo supostamente superior, escancarando-lhes as entranhas, é muito bom: “Estava a conviver numa comunidade mais sofisticada… até …falar mal uns dos outros” ou “Liga a tv e assiste os debates do Supremo”. Você conseguiu, com uma história aparentemente sem importância, fazer um retrato perfeito da sociedade em que vivemos. Tempos de palavras bonitas e vazias, tempos de projetos grandiosos e sem resultados, tempos de trabalhadores mudos e de pessoas que pouco entendem do que falam, tempos de muitas cobranças e de poucas contribuições. O que está dito é a minha cota para aumentar o mundo de achismos em que estamos mergulhados.
    Um grande abraço.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 03/01/2017 @ 3:34 pm | Responder

    • Pedro:
      A verve não é minha, é dos fantasmas do passado, do mundo antigo onde outrora vivi e que, agora, me acompanham e dão-me suas mãos, e também conselhos. Ai que saudades de antigamente! De qualquer forma, continuo com fé em Deus e com o pé na tábua. Amém!
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/01/2017 @ 4:46 pm | Responder

  5. Eduardo, a crônica, assim como a sua própria prosa ao vivo, tem a gostosa mistura de humor e filosofia. Nesse caso, ainda casa perfeitamente com as reflexões do nosso amigo Pedro, de que as palavras têm tido seus significados tão alongados, que acabam por não significarem mais nada.
    Grande abraço.

    Comentário por Marcelo Barros Andrade — 03/01/2017 @ 10:38 pm | Responder

    • Marcelo:
      Você também é bom de prosa. E, com sua aguda sensibilidade, está fazendo-me acreditar que humor também é filosofia. Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/01/2017 @ 11:00 pm | Responder

  6. E eu que tinha perdido esta postagem? Não sei como aconteceu, com certeza veio aviso. Mas o fato é que só agora a encontrei. Nem preciso elogiar o texto. Você sabe que gostei. Quero apenas dizer que também concordo com o Pedro. Pois é, eu leio os textos e todos os comentários. Enfim, Pedro disse que você conseguiu fazer um retrato da sociedade em que vivemos. Citou trechos do seu texto para comprovação. Eu cito essa parte aqui: “Daí, foi dada a partida para a conversa virar uma barafunda, os homens falando de futebol e as mulheres da novela das 8”. Senti assim um certo…alívio. Finalmente vejo alguém que também percebeu ser estes os assuntos favoritos em determinadas reuniões. Eu meio que sofri com isso durante longo tempo em algumas festinhas familiares e reuniões, sem a presença dos amigos costumeiros. Não achava meu lugar! Geralmente os homens ficavam numa sala e as mulheres em outra. Sempre me encaminhavam para a sala das mulheres e o que conversar? Eu não acompanhava novelas! Os outros assuntos preferidos: contar casos dos maridos e filhos Eu não tinha marido nem filhos. Claro que podia ficar apenas ouvindo. Não precisamos dar palpite em tudo. Mas é que não tinha graça alguma. Então resolvia ver como estava a sala dos homens…Lá pelo menos tinha cerveja, enquanto na “nossa” sala era apenas refrigerantes. Mas os homens estavam falando, geralmente, sobre futebol, política internacional e…o pior: pescarias. De vez em quando via, com alegria, a chegada do meu irmão mais velho. Ele me salvou do tédio total muitas vezes. Até quando falava sobre política valia a pena ouvir. Fico aqui pensando que você faz parte da turma que salva mulheres como eu nos encontros insuportáveis da vida.

    Comentário por sertaneja — 26/02/2017 @ 1:34 am | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: