Sumidoiro's Blog

15/01/2017

A VOZ POPULAR

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 9:03 am

♦ Com o perdão do cacoete

post-bacalhau

Mensagem às amigas e aos amigos:

Agora vou lhes contar uma doideira que presenciei. Aliás, tem sido a coisa mais comum hoje em dia nesse hospício, visto que o mundo está de cabeça para baixo e quase toda gente pirou. Foi assim:

Dias atrás, chegava ao meu clube e duas jovens funcionárias estavam a tratar das suas obrigações. Uma disse para outra:

” – Você vai ficar aqui observando, tipo me avisar.”

Entendeu? Eu, por sorte, entendi. Eureca! Assim, pude enriquecer meu vernáculo, de modo a me adaptar aos tempos modernos e tirar a pecha de ultrapassado.

Assim é que, usando a receita, estou agora a me comunicar. Minha rotina tem sido chegar ao clube e cumprimentar meus amigos dizendo oi, tipo dar bom-dia. Depois, trato de vestir minha sunga, tipo entrar na piscina. Em seguida, tento dar umas braçadas, tipo nadar. Lá pelo meio-dia, sempre me dirijo ao vestiário, tipo trocar de roupa. Finalmente, retorno à minha casa, tipo almoçar.

Mas, outro dia, tive uma contrariedade, devido ao meu hábito de variar o cardápio, tipo almoçar fora. O restaurante do Porto é o meu preferido. Assim, em nova visita e tendo boa companhia, lá usei o mesmo cacoete. Tão logo folheei o cardápio, não tive dúvida e assim pedi modernamente ao Manoel, garçom natural do Porto:

“- Para mim, peixe, tipo bacalhau e uma bebida, tipo vinho.”

De pronto, o gentil atendente esclareceu, tipo curto e grosso, no feitio dos portugueses. Todos sabem que eles não são muito afeitos às metáforas. E foram suas palavras:

“-  Peixe tipo bacalhau o ‘sinhoire’ encontra na feira e groselha infelizmente nós não temos. Se quiseres bacalhau do Porto posso ‘trazeire’ e, também, vinhos do Douro e do Alentejo, entr’outros.”

Ora pois! Aqui no Brasil, é mesmo tudo diferente do além-mar. Então, terminado o bacalhau, estava eu meio que saindo do restaurante, tipo esperando o troco, quando, de soslaio, ouvi uma conversa na mesa vizinha, meio que falando assim:

“- Menina, comprei uma blusa tipo meia lisa, mas estou arrependida.”

Disso, bateu-me a dúvida, será que ela teria comprado blusa ou meia? Porém, chegada a vez da outra falar, tudo ficou pior:

“- Querida, eu acho mais bonita tipo lisa do que listrada.”

Jesus, socorro! Creio em Deus padre… O que liso tem a ver com listrado? No meu caso, prefiro tipo listrada e ainda faço questão que seja tipo lisa. Gosto do tecido suave ao toque. Por outro lado, creio eu, listrado é mais jovial. Ai que alegria, se eu pudesse usar uma camisa bem lisa, tipo seda, porém tipo listrada!

Finalmente, já sentindo uma indigestão no pensamento, retirei-me do restaurante do Porto. Mas, lá da calçada, ainda percebi as amigas tipo conversando ao celular. Com quem estariam se comunicando? O Chacrinha(1) dizia que “quem não se comunica, se trumbica” e até cheguei a acreditar. Embora não tire a razão do humorista, agora baixou-me a dúvida, pois estou a ver que tem gente que se comunica mal, tipo se trumbica.

De qualquer modo, não abandonem o tipo. Dizem alguns dos melhores linguistas que a língua é viva e nela tudo é aceitável, nem que seja tipo superar a falta de vocabulário. Ou seja, tipo a voz do povo é a voz de Deus! Entendeu? Então, quando lhes faltar fôlego ou quiserem ser modernos, usem a mágica palavrinha, abusem e fiquem numa boa. Tipo num tou nem aí.

Minhas queridas e meus queridos, “good afternoon”tipo boa-noite. Tipo amém nós todos, com um abraço do autor, tipo amigo.

Por Eduardo de Paula

———

(1) MEDEIROS, Abelardo Barbosa de (Chacrinha) – (Surubim, Pernambuco, *30.09.1917 / Rio de Janeiro, †30.06.1988) Apresentador de programas de auditório – rádio e tv – , de enorme sucesso da década de 1950 a 1980. Entre outras, autor da célebre frase: “Na televisão, nada se cria, tudo se copia”.

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13 Comentários »

  1. Amigo Eduardo,
    Em “1984”, George Orwell já antecipava esse fenômeno, ao qual chamou de “Novilíngua”. Como sugestão, apure seus ouvidos e atente para o sentido que dão à palavra “então”. Estou certo que ensejará outro de seus posts.
    Abraço, Marcelo.

    Comentário por Marcelo Barros Andrade — 15/01/2017 @ 12:46 pm | Responder

    • Marcelo:
      Então, tá! Vou tentar ficar atento para, então, desnudar o advérbio.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 15/01/2017 @ 1:13 pm | Responder

  2. Mais uma vez, fico deliciada com seus textos. Agora, irônico – sem ser agressivo – com os emergentes da língua portuguesa (não importa a classe social). Estão fazendo um moído com nosso vernáculo. Moído é gíria daqui, talvez daí também. Está mais para “confusão”, “briga” ou, se quiser fazer um comentário, é uma “pegada” popular. De fato, ri o suficiente com sua crônica da modernidade. Boa para começar uma semana tipo sete dias.

    Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 16/01/2017 @ 9:25 am | Responder

    • Vania:
      E assim caminha muita gente, na outrora Terra das Palmeiras, agora o nosso querido Brasil.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 16/01/2017 @ 9:46 am | Responder

  3. Eduardo: Muitíssimo interessante.
    Maria Marilda Lagoa Santa

    Comentário por Maria Marilda pinto Corrrea — 16/01/2017 @ 2:33 pm | Responder

  4. Mas Você é, realmente, fantástico! Vem agora com um post humorístico que me fez rir o tempo todo, tipo, do começo ao fim. Faz alguns anos que ouvi, pela primeira vez, esse tal de “tipo”. Fiquei meio boquiaberta, tipo, sem entender por que a pessoa usava tanto a palavrinha. Aí, percebi que era falta de vocabulário mesmo. E o “tipo” foi se alastrando, alastrando, tipo, até chegar a nós, literatas. Bem, confesso que uso a palavrinha, vez ou outra, tipo, pra fazer hora.
    Esse post valeu por todos os outros. Você é um expert em todos os tipos de mensagem que nos envia. Mas, o de hoje foi demais, tipo, fenomenal. Parabéns.
    Monica

    Comentário por Monica de Camargo Coutinho — 24/01/2017 @ 6:11 pm | Responder

    • Mônica:
      O humor é o melhor remédio para dores do corpo e da alma. Cura de dor de cabeça a espinhela caída. Também dor de cotovelo, falta de amores e sentimentos de insignificância. Tenho aqui guardados alguns textos com esses meus sonhos engraçados. Quero publicá-los. Eles surgem naturalmente, de noite ou de dia. Deve ser por isso que não sinto o tempo passar, não tenho insônia e nem psiquiatra.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 24/01/2017 @ 6:36 pm | Responder

  5. Adorei. Parece que o “tipo’ veio para ficar. Chegou, creio, nos anos setenta. Ou teria sido já nos oitenta? Eu me lembro da primeira vez que ouvi. Estava em casa do amigo Jorge, quando chegou outro falando sobre uma peça teatral. Ele encontraria com um dos atores no outro dia, tipo 4 horas. Eu não entendi nada. Jorge já tinha ouvido o tal tipo antes e fechou a cara: “- Logo você falando essa coisa sem sentido. Um intelectual…” O intelectual se aborreceu e começou a jogar o tipo em todas as outras frases apenas por pirraça. Não dava mais para aguentar e pedi explicação. O carinha tinha falado que gostava de vinho tipo seco e entendi. Afinal, há vinhos de diversos tipos. Mas um encontro tipo 4 horas não era concebível. De repente, fiquei pensando numa razão para essa bagunça. Seria por acaso má tradução do inglês? Kind, em inglês, pode ser tipo, espécie. Mas pode ser mais ou menos, com a preposição of. Se bem que com horas eu nunca vi. Seria “around”? Mas foi o que fiquei pensando naquela noite. Vai ver que o motivo é outro… Bem sei é que pegou. E, tipo assim, também sempre escuto. Confesso que nem sempre entendo. Eduardo, você está de parabéns por ter conseguido perceber o tipo e por nos presentear com um delicioso texto.

    Comentário por sertaneja — 27/01/2017 @ 1:13 am | Responder

    • Virgínia:
      Colocarei meu próximo Post ao ar no primeiro dia de fevereiro, tipo 8 horas da manhã. Será um texto tipo mais denso e um tanto tipo longo, porém de leitura tipo leve.
      Agradeço-lhe o comentário tipo bem humorado. Um abraço do Eduardo, tipo seu admirador.

      Comentário por sumidoiro — 27/01/2017 @ 8:08 am | Responder

      • Obrigada por nos lembrar do carro da Fiat, Vania. Eu tinha me esquecido dele, o Tipo. E, para nos enganar, que tal os ovos tipo caipira? Comprei-os por algum tempo, até descobrir que são ovos de granja. Não vêm das galinhas que ciscam no terreiro. Então, me dei conta que esse tipo é “mais ou menos” semelhante aos ovos caipiras. Já o chuchu tipo marmelada é tudo de bom, da Cica. Também havia o quatro em um: goiabada, pessegada, figada e marmelada. Sinto falta, tipo saudade!

        Comentário por sertaneja — 29/01/2017 @ 2:24 pm

      • Nós todos, tipo loucos! Mas vocês descobriram que tipo serve ao comércio, sem nos dar direito a reclamações no PROCON: tem muito produto de vinhos, queijos e frios tipo italiano (tio Google). Até na Suíça, eles se preocupam com a veracidade de ovos de galinha tipo caipira. Existe coisa mais esquisita do que uma galinha caipira na Suíça, solta no meio dos Alpes?

        Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 30/01/2017 @ 9:06 am

    • Respondendo à “Sertaneja” e outros interessados: fui ao tio Google para me certificar – existe um carro Fiat Tipo – tipo o quê? – mas, creio, que não fabricam mais (lançado na primeira metade dos anos 1990). Seria por isso, um carro tipo Tipo da Fiat?

      Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 27/01/2017 @ 9:33 am | Responder

      • Vania:
        Legal! Tem esse Tipo sim, mas não pegou. Tipo não gostaram. Também as mercearias estão cheias de produtos tipo isso e aquilo, que são do tipo enganar o freguês. Vou citar um: chuchu tipo marmelada.
        Um abraço do Eduardo.

        Comentário por sumidoiro — 27/01/2017 @ 10:13 am


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