Sumidoiro's Blog

01/02/2017

AS LETRAS DOS IMPERADORES

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:35 am

♦ Charmosas e divinas

Trajano encomendou um monumento e o escultor entregou-lhe a obra mais letras charmosas. Carlos Magno encomendou letras e o escriba entregou-lhe as divinas minúsculas. Como resultado de tudo, ficaram duas magníficas heranças a enriquecerem a arte da tipografia, da comunicação e da literatura.

Post - Coluna no foroColuna de Trajano (39,86m de altura), encimada pela estátua de São Pedro.

As letras de dois monarcas estão a enfeitar tanto a história, quanto as escritas do dia-a-dia. O primeiro, mandou erigir um monumento que traz uma inscrição em maiúsculas. Trata-se da coluna de Trajano, ainda em pé lá nas ruínas do foro romano, em Roma. Essas letras, de admirável beleza e facilidade de leitura, serviram de inspiração para muitos escribas.

Vale uma explicação à denominada letra de Trajano. Via de regra, toda obra escultórica começa por um desenho numa superfície, seja um pedaço de papel ou qualquer outro suporte. Pois, desse modo, se procedeu na inscrição da coluna de Trajano. Depois, em etapas sucessivas, o artífice, munido do projeto e dos seus instrumentos, deu início ao trabalho, com pincel e tinta; formão e macete, de várias qualidades.

Primeiramente, pintou as letras, à mão, no papel e, depois, na própria pedra, para então fazer as devidas incisões. É evidente que o autor estava sempre a usar as mãos e, por isso mesmo, ao empunhar seja lá pincel e tinta, ou mesmo um lápis, estava a fazer um manuscrito. Isso porque são os impulsos da mão que movimentam o pincel e, mais importante, o peso e o movimento da mão refletem-se no resultado final.

Post - Letra e pincéisRomanas modernas e movimentos que se fazem para desenhar as letras.

Pois é assim que ocorre no desenho das letras, sempre em movimentos gestuais. Por isso mesmo, a escrita tem personalidade, porque é produzida sob o comando do cérebro. Mas, embora não seja regra geral, há reflexos que, basicamente, se repetem na maioria dos indivíduos. Assim, quando os impulsos fazem a mão correr na horizontal, o movimento tem início à esquerda e prossegue à direita. Nesse caso, o resultado é um traço fino.

Por outro lado, quando a mão corre para o alto, o movimento se dá de baixo para cima. Nesse caso, também, é produzido um traço fino. Contudo, quando o movimento é de cima para baixo, e a mão está naturalmente pesada, o resultado é um traço grosso. Finalmente, quando os movimentos são curvos, há uma combinação de movimentos de fino e grosso. É o caso das letras que possuem arredondados. Por exemplo: O, B, C, D, R, S, etc.

Nas letras de Trajano, há sutil variação de fino e grosso mas, o mais importante, é que foram acrescentados detalhes de muita utilidade. Trata-se das serifas – serifa, no singular –, que se assemelham a um “bigode”. Desde então, usaram esse elemento para acrescentar elegância e visibilidade a esses sinais. A serifa provém de um de um gesto rápido e delicado, de finalização, nas extremidades das letras.

post-bigodes-_-serifasLetras com “bigodes” elegantes ou serifas.

Afinal, era uma questão de caligrafia, ou seja, bela forma, palavra que vem do grego kallós = belo e graphein = escrever, gravar; mais o sufixo ia = qualidade. Além disso, o desenho das letras não poderia e nem pode ser feito de maneira aleatória, porque o alfabeto traz em si suas origens ancestrais. E, já que cada letra tem seu passado, ele deve ser respeitado, e caligrafia ruim pode ser um chute na história.

Os tipógrafos, que vieram depois de Gutenberg – o pai da imprensa –, souberam tirar proveito do modelo da coluna de Trajano. Houve, então, um incontável número de criações inspiradas naquele estilo e que se repetem até os dia de hoje. Estão aí, usadas na maioria das mídias visuais.

A cada estilo sempre atribui-se um nome e, assim, em romano, há Garamond, Bodoni, Didot, Baskerville, Caslon, etc., que são os sobrenomes dos seus criadores. Essa arte ganhou um nome: tipologia*. Mas é importante saber que, na época de Trajano, ainda não existiam as minúsculas, tais como as de hoje. — * Em sentido amplo, arte do desenho de caracteres “tipográficos”.

Post - Inscr TrajanoLetras romanas com serifas.

A placa, da ilustração acima, está na coluna de Trajano. Nela, se diz:

SENATVS POPVLVSQVE ROMANVS 
IMP(eratori) · CAESARI · DIVI · NERVAE · F(ilio) · NERVAE  
TRAIANO · AVG(vsto) · GERM(anico) · DACICO · PONTIF(ici)
MAXIMO · TRIB(unicia) · POT(estate) XVII · IMP(eratori) VI · CO(n)S(uli) VI · P(atri) · P(atriae)
AD DECLARANDVM QVANTAE ALTITVDINIS
MONS · ET · LOCVS · TANT(is) · (oper)IBVS · SIT · EGESTVS

Tradução: “O senado e povo romano (dedicam) ao imperador César Nerva Trajano Augusto Germânico Dácico, filho do divino Nerva*, pontífice máximo, tribuno pela décima sétima vez, imperador pela sexta vez, cônsul pela sexta vez, pai da pátria, para mostrar a altura que alcançava o monte e o lugar agora destruídos, para obras como esta.” — * Trajano era filho adotivo do imperador Marcus Cocceius Nerva.

O ADVENTO DA MINÚSCULA

A outra figura importante nessa história foi Carlos Magno, um verdadeiro admirador da cultura e da sabedoria. No ano de 768 d.C., assumiu o trono como rei dos francos, mais tarde, a partir de 774 d.C., tornou-se rei dos longobardos(1). E, finalmente, a partir de 800 d.C., passou a governar como divino nutu* imperador de um vasto território. Desde então, começou a configurar-se o Império Carolíngio** e, em certo momento, a criação da letra minúscula, com o auxílio dos deuses do Olimpo. — * Divino nutu: por vontade do divino. Em “Vida de Carlos Magno”, pelo seu conselheiro Einhardi (770-840 d.C.) / ** Três séculos antes, houve a queda do Império Romano do Ocidente.

post-c-magno-imperioO Império Carolíngio e o monarca Carlos Magno, de barba longa, no feitio dos longobardos.

Carlos Magno era culto, falava latim, compreendia o grego e tinha algumas noções de siríaco. Pois bem, apesar de toda sua grandeza pessoal, Carlos Magno nunca adquiriu a plena capacidade de ler e escrever. Contudo, embora lhe faltassem essas habilidades, tornou-se um dos maiores propulsores da educação, da literatura e dos conhecimentos, nos territórios da Europa central*, mas os reflexos atravessaram os tempos e estão ainda presentes no mundo inteiro. — * Império Carolíngio, ocupava a região central da Europa.

O projeto, nesse sentido, teve início a partir de um contato fortuito com o monge Alcuin of York, em 780 d.C., que era também chamado Ealhwine, Alchoin, Alhwin ou Alcuíno. Em latim, diziam Albinus Flaccus, que se traduz como Albino Flácido – ou sem vigor –, e as palavras estão a denotar que seria muito claro e frágil. O religioso – também professor, erudito e teólogo – trabalhava junto ao arcebispo de York (Inglaterra).

A aproximação, entre o futuro imperador* e Alcuíno, deu-se quando este retornava de uma missão a Roma e passava por Ravenna (Itália). Naquele momento, Carlos Magno, seduzido pela sua inteligência e sabedoria, convenceu-o a que se transferisse para Aix-la-Chapelle**, cidade sede do seu governo. De imediato, Alcuíno foi designado para criar e dirigir uma casa de instrução, junto ao palácio imperial de Aix-la-Chapelle, a qual ficou conhecida como Scola Palatina***. O nome, inspirado na tradição greco-romana, remete ao deus Apolo e seu templo, situado no monte Palatino, que existiu na Roma antiga. — Imperador, de 25.12.800 d.C. a 28.01.814 d.C. / ** Aix-la-Chapelle, hoje Aachen, Alemanha. / *** Scola Palatina = Escola Palatina.

post-carlos-magno-estudantesCarlos Magno entre alunos da Escola Palatina.

Naquela escola, ensinavam-se as sete artes liberais, segundo o modelo de Cassiodoro (nota ao final). Compunham-se do trivium, que se referia aos três poderes do latim, qual sejam, a gramática, a dialética e a retórica. E, depois, do quadrivium, que eram a aritmética, a música, a geometria e a astronomia. Essas artes se contrapunham às artes práticas, tais como a medicina e a arquitetura.

A ideia da escola Palatina também trazia o simbolismo de Apolo, o deus que tinha o hábito de tocar uma lira, acompanhado das suas musas, para deleite das divindades do panteão, quando então cantavam o presente, o passado e o futuro. Por isso, as musas eram entidades com o poder de inspirar a criação artística e científica. Somavam nove, filhas de Mnemosine e Zeus, e habitavam o Museion, cujo termo deu origem à palavra museu, lugar destinado a cultivar e preservar, tanto as artes, quanto as ciências.

post-c-magno-recebe-livr-alcuinoCarlos Magno recebe um livro de Alcuíno.

Na escola Palatina, Alcuíno e seus professores tinham, como discípulos, os dignitários, seus filhos, alguns prelados e, até mesmo Carlos Magno. Mas, além disso, o imperador criou a Academia Palatina constituída por nove membros – tal como as musas – e deu-lhes títulos de comte palatin (conde palatino). Entre eles, alinhavam-se os professores da corte. Essa confraria serviu de modelo para as atuais academias de letras.

A palavra e a ideia de academia provinha dos tempos de Platão, na Grécia, instituição fundada por volta de 387 a.C. Naquela, estudava-se primeiramente a filosofia e a teologia, que serviam de base para o posterior aprendizado de sete artes liberais. Porém, de fato, o nome Academia Palatina apareceu somente no século XVIII, pela interpretação de uma carta de Alcuíno dirigida a Carlos Magno, que diz:

“Se muito for repassado das suas intenções, uma nova Atenas se formará na França. Que digo eu? Uma Atenas ainda mais bela que a antiga. Porque, enobrecidos pelo ensinamento do Cristo, a nossa superará toda a sabedoria da Academia. […] A antiga ensinava apenas as sete artes liberais* de Platão. Porém, formada pelas sete artes liberais ela não cessou de brilhar. A nossa será dotada da outra plenitude septiforme do Espírito e irá superar toda a dignidade da sabedoria secular.” — * Artes liberais: gramática, retórica, dialética, música, aritmética, geometria e astronomia.

post-as-9-musas Apolo e as musas: Calíope, Clíos, Erato, Melpômene, Terpsícore, Polínia, Euterpe, Talía e Urânia.

Em ambas academias, não se aceitava qualquer barulho. A Akademeia de Platão funcionava no bosque do silêncio, onde fora enterrado Academo (Akademus). Naquele sítio, havia também um campo de oliveiras e um ginásio. Pois bem, que sirva de alerta, nas verdadeiras academias não se pode ignorar os ritos e os silêncios de Academo, de Platão e Carlos Magno.

Contudo, o imperador tinha um sonho maior. O de fundar, na cidade de Tours – França – , uma escola de escrita e uma oficina de produção de textos – scriptorium – e, para tanto, em 796 d.C., indicou Alcuíno para essa missão, nomeando-o como abade* da igreja e colégio de Saint-Martin. Naquele lugar, vários escribas vieram a produzir tanto documentos oficiais, quanto cópias de livros. Todos adotando como modelo as letras criadas pelo próprio Alcuíno, as quais tornaram-se padrão oficial do Império Carolíngio. Ali, também instalou-se uma magnífica biblioteca, de modo a transformar Tours em um dos maiores centros do saber da Europa. — * Abade: título ou cargo do superior dos monges.

post-carolinasAs minúsculas carolinas.

O novo desenho recebeu o nome de letras Carolinas*, em deferência ao imperador que mal sabia ler e escrever. Trata-se das minúsculas, desde então usadas para sempre. Porém, é preciso lembrar que as Carolinas, de imediato, associaram-se com as maiúsculas e, dessa união, surgiram novas maravilhas da arte da escrita e da comunicação. — * Carolíngio(a) – karolingi, em latim medieval: descendente de Carlos.

Por outro lado, e porque os tipógrafos sempre guardaram suas matrizes* numa estante, elas ganharam codinomes. Nas gavetas superiores, armazenam as letras maiúsculas – tipos caixa-alta – e, nas inferiores, as minúsculas – tipos caixa-baixa. — * Matrizes: tipos móveis de imprensa, fundidos em metal, com desenhos em variados estilos.

Ao falecer, Alcuíno foi enterrado em 19.05.804 d.C., e, porque fizera-se santo, foi canonizado. É admirado pelas igrejas católica, anglicana e ortodoxa. No seu epitáfio(2), gravado em uma placa de bronze, na atual basílica de Saint-Martin, em parte se diz:

Pára, por um instante, viageiro, a ti rogo,
E põe minhas palavras no teu coração,
Assim verás teu destino na minha sombra:
A tua forma mudará, tal como a minha. […]
Meu nome é Alcuíno, sempre amei a sabedoria,
Reza com o coração por mim, lendo esta inscrição:
Aqui jaz o senhor abade Alcuíno, de bendita memória,
Que morreu em paz, no 14 das calendas de junho.
E, quando todos lerem isto, rezem por ele e digam:
“Que Deus lhe dê o eterno descanso”. Amém!

UNIDAS PARA SEMPRE

Quando Gutenberg, na metade dos anos 1400, criou os tipos móveis e sua prensa, usou como modelo as letras dos escribas da época. Desde então, tanto as maiúsculas, quanto minúsculas foram se multiplicando numa enorme variedade de estilos. Algumas aproximavam-se mais da caligrafia, outras tornavam-se ora mais despojadas, ora mais rebuscadas. Ao mesmo tempo, foram tomando sentidos utilitários, dependendo de cada mídia onde seriam empregadas. Desse modo multiplicaram-se as letras para livros, jornais, publicidade, etc.

Post - Letras Sw & PanPrimeiras maiúsculas e minúsculas tipográficas romanas (Sweynheym & Pannartz, 1465).

O primeiro aperfeiçoamento de letras para imprensa, com design mais avançado, foi uma criação dos tipógrafos Sweynheym & Pannartz, em 1465. Acredita-se que Sweynheym trabalhou com Gutenberg, entre 1461 e 1464. Ambos eram clérigos – irmãos leigos – e tiveram o apoio da igreja para instalar uma oficina no mosteiro beneditino de Subiaco, perto de Roma. E tudo com a graça de Deus. Amém!

—————

post-trajanoFórum e Coluna 

A Coluna de Trajano é um monumento situado no centro de Roma, construído para comemorar a conquista da Dácia* pelo imperador Trajano** (imagem à esquerda) e foi inaugurada em 12.05.113 d.C. Está no Fórum de Trajano, que situa-se ao norte do Fórum Romano, melhor dizendo, em latim, Forum Magnum, porque é o principal e há outros no seu entorno. Com o correr do tempo, aquela área foi sendo devastada mas, na medida do possível, grande parte das construções pôde ser recuperada. — * Dácia: Romênia desde 1989. / ** Trajano: Itálica, Espanha, *18.09.53 d.C. / Selinunte, Sicília, †09.08.117 d.C.

Durante vários séculos, os fóruns serviram de palco para cerimônias religiosas, comemorações triunfais, eventos eleitorais, julgamento de processos criminais, espetáculos de gladiadores, etc. A palavra latina forum deriva de foras – cuja tradução é fora – e, em consequência, forum quer dizer também praça pública. Escreveu o arquiteto Vitrúvio(3), referindo-se sobre ao lugar onde colocaria uma praça pública: “… turbam apud forum est” *. Com o passar do tempo, a palavra fórum foi se ampliando em significados. — * “… a multidão está no fórum”.

A Coluna de Trajano é de autoria do arquiteto Apolodoro de Damasco(4). O monumento conseguiu passar pelo tempo incólume, resistindo às guerras, às depredações e às catástrofes naturais. Graças a isso, nas suas imagens esculpidas, pode-se ler a história da guerra de Dácia. E mais, grande parte das informações que se têm sobre a arte militar da época estão ali reveladas. Bem como acham-se representadas cenas do quotidiano dos legionários, seus trajes, suas armas e objetos.

post-cassiodorusO exemplo de Cassiodoro

O erudito e homem público Flavius Magnus Aurelius Cassiodorus teve grande envolvimento na preservação de obras da literatura clássica nos monastérios cristãos. Nasceu em Scolacium, na atual Calábria – sul da Itália – e era filho de família rica da nobreza, desse modo pôde receber educação em filosofia e retórica. Cassiodoro (imagem ao lado) deixou documentada sua carreira pública na obra Variae (cartas e textos oficiais) e produziu mais vasta obra de cunho religioso, literário, histórico, educacional e filosófico. — Cassiodoro: *c.480 d.C. / †c.575 d.C. 

No início dos anos 550 d.C., fundou um monastério onde fora a residência dos seus ancestrais, num lugar onde ele mesmo construíra um pequeno açude para peixes, ao qual chamava de Vivarium (Viveiro). Naquela casa, seu propósito foi educar monges nos conhecimentos da igreja cristã, mas também do paganismo clássico, de modo que pudessem transmitir essas sabedorias para a posteridade. Os religiosos, reunidos em torno dele, dedicavam-se também à tarefa de copiar manuscritos bíblicos e clássicos, o que resultou na criação de uma enorme biblioteca.

Cassiodoro introduziu o trabalho nos scriptorium como sendo um elemento próprio da vida monástica. Essa prática tornou-se aceita e adotada pela maioria dos beneditinos. Ao mesmo tempo, no Vivarium, criou uma escola médica, induzindo os religiosos a estudarem e aprenderem as características das plantas, suas aplicações medicinais e as terapêuticas.

Naquele reduto do saber, eram admitidos tanto monges cenobitas, ou seja, aqueles que se agrupavam em comunidades conventuais, mas também outros, eremitas, que ali chegavam apenas para ampliar seus conhecimentos. Disso tudo, se deduz que Carlos Magno(5) teve boa fonte onde beber sua inspiração. Nada vem do nada!

Pesquisa, tradução, texto e arte por Eduardo de Paula

Revisão de Berta Vianna Palhares Bigarella

———

(1) Longobardos / lombardos – Povo oriundo sul da Escandinávia, que deslocou-se até o sul da Europa. Liderados por Alboíno, os Lombardos chegaram na Itália em 568 d.C., invadindo a região e estabelecendo o reino Lombardo, que veio a receber a denominação de reino Itálico. No território italiano atual, há uma região denominada Lombardia.

(2) Hic, rogo, pauxillum veniens subsiste, viator,et mea scrutare pectore dicta tuo,ut tua deque meis agnoscas fata figuris:vertetur species, ut mea sic tua. → Pára, por um instante, viageiro, a ti rogo, | e põe minhas palavras no teu coração, | assim, verás teu destino na minha sombra:a tua forma mudará, tal como a minha. // Quod nunc es fueram, famosus in orbe, viator, | et quod nunc ego sum, tuque futurus eris. | Delicias mundi casso sectabar amore, | nunc cinis et pulvis, vermibus atque cibus.O que tu és agora, viageiro, famoso no mundo já fui, | e o que agora sou, no futuro tu serás. | Busquei as delícias mundo, os amores pífios, | agora, tudo cinzas e pó, e alimento dos vermes. // Quapropter potius animam curare memento, | quam carnem, quoniam haec manet, illa perit. | cur tibi rura paras? quam parvo cernis in antro me | tenet hic requies: sic tua parva fiet. → Por isso, lembra-te de cuidar mais da alma, | porque permanece e, menos da carne, porque morre. | Largos fizestes teus campos? Nesta cova apertada, | aqui bem repouso e o mesmo abrigo a ti servirá. // Cur Tyrio corpus inhias vestirier ostro | Quod mox esuriens pulvere vermis edet? | Ut flores pereunt vento veniente minaci, | Sic tua namque, caro, gloria tota perit.  Por que do roxo de Tiro desejas teu corpo vestido*? | Mas em breve os vermes famintos comerão esse pó, | tal como murcham as flores castigadas pelo vento. | Pois é assim mesmo, ó carne, que toda glória morre. // Tu mihi redde vicem, lector, rogo, carminis huius | et dic: “da veniam, Christe, tuo famulo”. | Obsecro, nulla manus violet pia iura sepulcri, | personet angelica donec ab arce tuba: | “qui iaces in tumulo, terrae de pulvere surge, | magnus adest iudex milibus innumeris.” → Dá-me, leitor, rogo, de retorno o teu cantar | e diz: “Perdoa, Cristo, ao teu servidor.” | Peço, que mão nenhuma viole este sepulcro, | até que, das alturas do céu, ressoem das trombetas: | “Tu que jazes no túmulo, erga-te do pó da terra, | o juiz maior de todos os homens chegou.” // Alchuine nomen erat sophiam mihi semper amanti, pro quo funde preces mente, legens titulum. Hic requiescit beatae memoriae domnus Alchuinus abba, qui obiit in pace XIV. Kal. Iunias. Quando legeritis, o vos omnes, orate pro eo et dicite, “Requiem aeternam donet ei dominus.” Amen. → Meu nome é Alcuíno, sempre amei a sabedoria, reza com o coração por mim, lendo esta inscrição: Aqui jaz o senhor abade Alcuíno, de bendita memória, que morreu em paz, no 14 das calendas de junho**. E, quando todos lerem isto, rezem por ele e digam: “Que Deus lhe dê o eterno descanso”. Amém! — (* Roxo de Tiro = vermelho-violeta ou vermelho-púrpura. Tiro é uma cidade fenícia, no Líbano. Fenícia significa cor púrpura, do grego Φοινίκη / ** Morte de Alcuíno: 14.06.804, no calendário romano → 19.05.804 d.C., no calendário gregoriano).

(3) Vitrúvio (Marcus Vitruvius Pollio) – Arquiteto romano, que viveu no século I a.C., escreveu a “De Architectura” (10 volumes, c. 27 a 16 a.C.), único tratado europeu do período greco-romano que chegou aos dias atuais. Nele, aborda temas de arquitetura e urbanismo, hidráulica, engenharia, matemática, etc. Vitrúvio procurou  relacionar as proporções do corpo humano com as figuras do quadrado e do círculo. Essa ideia foi aperfeiçoada, mais tarde, pelo religioso e matemático Fra Lucca Pacioli, que a repassou para Leonardo da Vinci e ficou conhecida como “Homem Vitruviano”. O desdobramento dessa relação geométrico-matemática produziu o que se chama Proporção Áurea, Número de Ouro (1:1,618), ou Divina Proporção.

(4) DAMASCO, Apolodoro de – (Damasco, Síria c.*60 d.C. / †133 d.C.) Arquiteto sírio, também conhecido como Damasceno. Desenhou a Coluna de Trajano, o Panteão de Agripa, o Mercado de Trajano e a Ponte de Trajano.

(5) CARLOS MAGNO – em latim: Carolus Magnus; alemão: Karl der Große; e francês: Charlemagne (*06.04.742 d.C. / Aachen, †28.01.8014). Rei dos Lombardos, depois, rei dos Francos e, finalmente, imperador dos Romanos. Filho de Pépin le Bref (Pepino, o Breve ou o baixinho) e Bertrade de Laon; esposas: Himiltrude, Désirée de Lombardie, Hildegarde de Vintzgau, Fastrade de Franconie e Luitgarde d’Alémanie; teve com elas, pelo menos, 16 filhos.  / Sua dinastia dos francos sucedeu a dos Merovígios (o último: Pepino, o Breve). O ressurgimento cultural, comandado por Carlos Magno, recebeu a denominação, hoje corrente, de Império Carolíngio, cunhada pelo historiador Jean-Jacques Ampère (*12.08.1800 / †27.03.1864).

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8 Comentários »

  1. Eduardo de Paula,
    Magnifica aula de história! Muito bom seu assunto.
    Parabéns.
    Maria Marilda

    Comentário por Maria Marilda pinto Corrrea — 01/02/2017 @ 9:31 am | Responder

    • Marilda:
      Muito obrigado pelo estímulo.
      Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/02/2017 @ 9:53 am | Responder

  2. Mais uma vez Eduardo de Paula nos oferece uma coluna preciosa, ordenando o caos que existe em matéria de informações. Demonstra aquilo que no cinema e literatura são essenciais: capacidade de análise e síntese, aliás válido para tudo numa vida racional. Análise e síntese, isso se aprende nas escolas brasileiras? Obrigada, Eduardo, adorei!

    Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 01/02/2017 @ 11:43 am | Responder

  3. Obrigado por tanta informação! Sou publicitário e achava que Caixa Alta e Caixa Baixa se referiam à altura das letras maiúsculas e minúsculas.

    Comentário por euvaldoblack — 01/02/2017 @ 12:16 pm | Responder

    • Euvaldo:
      Caro colega, trabalhei em publicidade, na imprensa e dei aulas de “graphic design”. Aprendi umas coisinhas e consegui escrever este Post.
      Com o abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/02/2017 @ 1:05 pm | Responder

  4. Eduardo,

    Tenho, como já lhe disse, tenho preferência pelos seus textos de ficção. Neles, seu humor e ironia têm mais campo para se manifestarem, e você faz isso com brilhantismo, além de descrições precisas dos ambientes e das personagens. O mundo da ficção, por suas múltiplas possibilidades de leitura, encanta-me. A vida não é precisa, como já disse Fernando Pessoa, ou melhor, como alguns leitores já leram os versos desse poeta. Sou, no entanto, obrigado a reconhecer que seus textos de não ficção (ou quase isso), como este “As letras dos imperadores”, são, para mim, como aulas dadas por um excelente professor, por alguém que buscou originalidade no que apresenta e cuja apresentação é extremamente didática.
    Sempre leio os comentários das outras pessoas acerca de seus textos e sei que não há novidade no que estou a lhe dizer, mas fica registrada aqui a minha gratidão por essas aulas tão bem estruturadas. Tenha certeza de que não é em vão seu trabalho, para nos mostrar o que deixamos de aprender em nossas salas de aula.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 02/02/2017 @ 4:27 pm | Responder

    • Pedro:
      Desconfio que você está me conhecendo… Você bem sabe que, por vida e profissão, acredito tanto no real quanto no que existe além dele. No meio dos dois corre um rio e, no fundo das águas, se abriga a história. Mergulho para tentar encontrá-la e, se tiver sucesso, atrevo-me em interpretá-la. É por isso que leio e escrevo tudo a meu modo, e não obrigo ninguém a acreditar, porque não sou dono da verdade.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/02/2017 @ 6:35 pm | Responder

  5. Desta vez quero apenas agradecer. História sempre foi a matéria que eu mais apreciava quando estudante. E tive a felicidade de ter um professor maravilhoso – Sr.Pedro Santana – que fez com que eu me interessasse ainda mais pelas aulas. Estou me lembrando dele ( que até interpretava os personagens como num teatro) porque seus textos históricos são igualmente saborosos e educativos. Aprendemos com prazer. E você nos dá temas que são curiosos. Nem podia imaginar que Carlos Magno mal sabia ler e escrever. Que coisa incrível. Também não sabia da necessidade do silêncio nas academias. Eu faço parte da Academia Feminina de Letras daqui de Montes Claros! Acho que ninguém lá sabe disso. Vou chegar no próximo encontro com esta novidade graças a você. Obrigada.

    Comentário por sertaneja — 26/02/2017 @ 1:01 am | Responder


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