Sumidoiro's Blog

01/03/2017

UM NOME CÁ, OUTRO ACOLÁ

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:14 am

♦ Alguma história de Viana

Há maneiras de conhecer a história de um nome. Uma delas, é perguntando à palavra, pois ela sempre terá algo a revelar. Aqui fala-se de nomes que, ao mesmo tempo, podem ser sobrenomes e têm servido para designar tanto lugares, quanto pessoas.

post-viana-castelo-cidadePraça frei Gonçalo Velho, Viana do Castelo (início do século XX)

Vamos então começar indagando a Viana. Como se sabe, desde os tempos do paleolítico(1) a Península Ibérica foi habitada e, bem depois, ali formaram-se os iberos*. Posteriormente, há pelo menos 1000 anos a.C., chegaram os celtas, que se miscigenaram, resultando nos chamados celtiberos(2). Gregos, fenícios e cartagineses** também estiveram no território sul, mas apenas com feitorias comerciais. — * Ibero vem de Ebro, rio que atravessa a Espanha no sentido noroste-sudeste / ** Cartago: cidade fundada pelos fenícios no norte da África. Cresceu e tornou-se uma “nação”, que entrou em conflito com os romanos.

Ao correr do tempo, os dominadores da região foram trocando-lhe o nome. Os fenícios chamavam-na Ofiusa; os gregos, Ibéria; os romanos, Hispânia; os muçulmanos, El Andaluz; e, os judeus – paralelamente –, Sefarad. No século XII ganhou o nome Espanha. — Topônimo: nome próprio geográfico.

post-cita%cc%82nia-vianaRuínas da citânia em Viana do Castelo, atrás da basílica de Santa Luzia.

Os celtas eram povos tribais e viviam em aldeamentos fortificados, aos quais os romanos denominaram citânias. Tem-se notícia da presença deles, no noroeste de Portugal, por volta do ano 700 a.C. Ali, edificaram várias aldeias e, a cada domínio, atribuíram um nome.

Muitas estavam no território do atual distrito de Viana do Castelo – Portugal –, entre os rios Douro e Minho. Nesta região, num sítio à beira mar e no alto de uma colina*, os celtas edificaram uma citânia, donde se avista a embocadura do rio Lima, nascente em terras de Espanha. E, como normalmente acontece, àquele lugar atribuíram um topônimo. — Morro de Santa Luzia. 

Como se verá, esse nome Viana é o mesmo da vila de Viana da Foz do Lima ou Viana do Minho. Atualmente, é Viana do Castelo, cidade e distrito de mesmo nome. Em 218 a.C., teve início invasão da Hispânia pelos romanos e o último território a ser conquistado por eles foi a região noroeste, somente em 138 a.C. Isso ocorreu sob o comando do general Decimus Junius Brutus. Ele, partindo do sul, marchou para o norte, atravessou o rio Douro, o Lima e o Minho*, e conseguiu dominar toda a região. — Em latim: Durius, Limia e Minus.

Os homens dessa expedição, diz a lenda, acreditavam na existência de um rio maldito. Quem entrasse em suas águas teria a memória apagada e seria remetido ao inferno. Pois bem, aqueles ingênuos, ao avistarem o Lima, julgaram estar ali o tal rio que, na mitologia, tinha o nome Lethes. Então, tomados de pavor, recusaram-se a prosseguir a caminhada.

post-rio-lethesTravessia do rio Lethes (tapeçaria de Almada Negreiros).

Diante do impasse e com o dever de encorajar seus comandados, Brutus tomou a si o heroísmo de derrubar o mito. Assim, montado em seu cavalo, enfrentou a arriscada travessia e conseguiu chegar sem nenhum transtorno à outra margem. De lá, tomou fôlego e chamou seus homens pelo nome, um a um, felizmente, todos atravessaram incólumes.

Desse modo, o mito se desfez, mas a fantasia impregnou-se no imaginário dos vianenses. Tanto que, na cultura popular de Viana do Castelo, estão ainda hoje a reverenciar o Lethes*, ou “oblivionis flumen”, em latim. 

Na mitologia grega, aludem ao inferno e ao seu governante, ambos como Hades. Pois o Lethes seria um dos cinco rios que fluíam para aquele submundo. Em grego moderno, lete significa esquecimento e aleteia, é o seu oposto, para dizer “verdade”, no sentido de revelação. A palavra letargia(3) tem a mesma origem e quer dizer estado de profunda e prolongada inconsciência.

A TRADIÇÃO

Os celtas faziam dos campos e das florestas os seus templos, onde cultuavam os deuses da natureza. Contudo, com a chegada dos romanos, foi introduzida na Península Ibérica a doutrina cristã, a qual foi se amalgamando às práticas religiosas locais. Por isso mesmo, as tradições de origem celta ainda permanecem no cotidiano de comunidades de Espanha e Portugal.

Entre elas, está presente na maior festa popular de Portugal, a romaria de Nossa Senhora da Agonia, que tem sido comemorada desde 1772. Nos dias 20 de agosto – feriado municipal – e durante o correr da semana, os homens do mar, vindos da Galícia e de todo o litoral português, dirigem-se a Viana do Castelo para participar das festas onde são praticados rituais cristãos e pagãos. — Baiona está situada na Galícia, comunidade autônoma da Espanha. 

post-romaria-ns-agoniaCena da Romaria de N. S. da Agonia, tradição céltico-cristã.

COMO ERA A HISPÂNIA

A geografia da região ibérica está descrita em mapas do século XVII. Além da costa norte de Portugal, portanto já na Espanha, têm-se assinaladas várias ilhas com o nome de Yslas de Bayona – ilhas de Baiona – e, também, a cidade de Baiona(4). O cartógrafo W. J. Blaeu, em mapa de 1634, mostra as mesmas Baionas e a Baiona, bem em frente à boca do rio Vigo. Mais para o sul, vê-se o Minus (Minho) e o Limia (Lima), já em PortugalNa foz deste último, estava plantada a vilazinha de Viana, que transformou-se na atual cidade de Viana do Castelo. — Baiona: hoje, na Galícia, comunidade autônoma da Espanha. / Da foz do Minho à foz Lima: c. 60 km. / De Baiona à foz do Minho: c. 60 km.

Contudo, devido a similitudes históricas, etimológicas e sonoras, ficam evidentes as origens comuns dos habitantes das cidades de Baiona (na Galícia, Espanha) e Viana (em Portugal). Mas há outras a acrescentar: notadamente Baiona (no País Basco, França), Bienne (no Cantão de Berna, Suíça) e Vienne* (no departamento de Isère, França).  * Vienne é antiga capital de gauleses, particularmente denominados alóbroges (povo celta).

Agregados aos termos toponímicos, chamam à atenção os sufixos onna, enna ou anna – com um ou dois enes – , que seriam de origem celta, como aceitam historiadores e etimólogos. Segundo eles, esses sufixos referem-se a água corrente ou água viva e se agregam aos topônimos de lugares à beira d’água. De fato, todas essas cidades estão junto ao mar, rios ou lago. Tudo isso serve para entender o significado do nome Viana (em Portugal), foco deste texto.

post-baiona-_-minho-_-limaPortugal e Espanha: em mapa de Willem Janszoon Blaeu, 1634 (à direita detalhe ampliado).

Além do mais, a todos ouvidos, esses topônimos soam com muita semelhança. É o que se chama betacismo, quando B e V passam a ter o mesmo som. Na “Orthographia da Lingoa Portuguesa” (1576), explica-se a afinidade dos nomes(5):

“O que muito mais se vê nos Galegos e entre alguns portugueses, d’entre Douro e Minho, que, por vós e vosso, dizem bos e bosso, e, por vida, dizem bida. E quase todos os nomes em que há uma consoante mudam em b, e como se o fizessem às avessas, os que nós pronunciamos por b, pronunciam eles por v.”

O fenômeno ocorre particularmente nas línguas românicas, como o castelhano, galego, catalão, occitano, língua sarda, dialetos do norte de Portugal e alguns dialetos do sul da Itália. Também em várias línguas, como no grego e hebreu antigos(6).

post-b-v“Orthographia da Lingoa Portugueza”, Nunes do Lião: a troca do b por v.

A VIANA PORTUGUESA

Oficialmente, a vila de Viana foi criada pelo quinto rei de Portugal, Afonso III, em 18.06.1258. A Carta de Foral(7), diz:

“… quero fazer um povoado, no lugar chamado Átrio*, na foz do Lima, à qual de novo imponho o nome de Viana.” — * Nome dado pelos invasores romanos; do latim atrium = porta principal, pórtico.

Pois bem, quando se escreveu de novo imponho o nome”, é porque o toponímico já existia e, portanto, seria bem antigo. Continuando o raciocínio: à direita do rio Lima, bem junto ao Atlântico, há o forte de Santiago da Barra – também denominado castelo* –, que data da mesma época de d. Afonso III.  Ver destaque ao final deste texto.

Mais tarde, no reinado Felipe I de Portugal, a edificação foi remodelada, tendo as obras terminado em 1896. Em um mapa de L. J. Waghenaer, de 1583, o forte, ou castelo, está nele destacado. Entre muitas, essa é uma das comprovações da antiguidade e da origem do Castelo, incorporado ao toponímico: Viana do Castelo.

post-viana-casteloMapa (1583) de L. J. Waghenaer: flecha indica o castelo de Viana.

ALÉM DO ATLÂNTICO

Após o descobrimento, portugueses em grande número dirigiram-se ao Brasil, imaginando encontrar o paraíso. Alguns, a fim de buscar riqueza, mas com ideia fixa em retornar. E, se lhes bafejasse a fortuna, poderiam viver no luxo para sempre, lá em Portugal. Outros, mesmo voltando montados no dinheiro, abominavam a terra que os acolhera, denominando-a como “quintos dos infernos”. Faziam o xingamento pelas agruras sofridas, de toda natureza – entre elas os famosos bichos-de-pés –, mas, principalmente, pelo imposto de 1/5 que lhes obrigavam a pagar.

Uma enormidade deles desembarcou no Brasil como imigrante ou a serviço temporário, mas também por deportação. Nesse último caso, eram criminosos, condenados ou não pelos mais variados delitos. Porém, tanto uns como outros, limpos ou sujos, deixaram suas marcas na formação da nacionalidade brasileira.

post-batismo-nunes-vianaRegistro de batismo (*01.02.1667) de Manoel [Manuel] Nunes [Vianna] (Torre do Tombo, Lisboa).

UM NOME QUE VEIO DE LÁ

No Brasil, desde os primeiros tempos, os sobrenomes familiares foram proliferando-se, mas sem controle, pois não existia registro civil. Com essa liberdade, o sobrenome Viana foi um dos que mais se multiplicou. Caso emblemático é o que aconteceu com Manuel de tal, filho de um casal humilde: João Nunes e Maria da Costa. Ele nasceu em Santa Marinha de Lodares, comarca de Penafiel, bispado do Porto.(8) Ainda muito moço, em busca da fortuna, chegou às terras brasileiras. Não disse a que vinha, mas logo ficaram sabendo a que veio.

Depois de viver muitas aventuras no país que o acolhera, Manuel, pediu o Hábito de Cristo, que foi-lhe concedido pelo Santo Ofício. Para isso, investigaram sua genealogia e, ao ser constatado que não tinha origem em mouro ou judeu, deram-lhe atestado de “pureza de sangue”. Preliminarmente, fizera uma solicitação aos inquisidores de Lisboa. Logo após alguma investigação, houve o primeiro informe oficial, nestes termos:

“Coimbra / Pertende servir ao S. Offo (Santo Ofício) Manoel Nunes Vianna n.al (natural) da freg. (freguesia) de S. (Santa) Marinha de Lodares Comca (Comarca) de Penafiel Bispado do Porto e mdr (morador) na Va de S. João de Elrey comca (comarca) do Rio das Mortes. / Filho de João Nunes e de Maria da Costa ambos mdr (moradores) da da (dita) frega (freguesia) de S. Marinha de Lodares…”* — * Documento arquivado na Torre do Tombo, Lisboa.

Ao pé da anotação acima, o notário do Santo Ofício, considerando o sangue limpo, escreveu:

“… Provendo os reportorios della, nella não achava o delato de culpa alguma a Manoel Nunes Vianna…” — * Assinou o promotor Pedro Carneiro de Figueiredo […] Coimbra, 22 de maio de 1769.

post-n-vianna-hab-cristo“Pertende servir ao S. Off.o (Santo Ofício) Manoel Nunes Vianna…” (Torre do Tombo).

Pois bem, tão logo chegara ao país, no início do século XVIII e em data que permanece imprecisa, Manuel quis aliviar-se da lonjura de Portugal. Para isso, buscou uma boa lembrança da pátria, incorporando em si o sobrenome Viana, retirado de Viana do Castelo, a cidade onde passara a juventude*. Desse modo, fez-se chamar Manuel Nunes Vianna. — * Viana do Castelo sempre foi movimentado porto de mar e rio, e de muito comércio.

Contudo, suas ações serviram tanto para lustrar quanto para deslustrar o nome – ou sobrenome, como queiram –, e ganhou também fama de ser um celerado*. Apesar disso, lutando contra gente que também não era de boa bisca, tornou-se um benemérito, pois colaborou com a fundação do estado de Minas Gerais(9). O Manuel era inteligente, impetuoso, velhaco, déspota e visionário. — * Celerado: facínora, criminoso.

Esse emigrante tornou-se um dos personagens mais controvertidos da história brasileira e sua biografia tem intrigado a muitos pesquisadores. Vez por outra, tentam redesenhar o homem que se transformou num mito.

Não se sabe por qual porto adentrou ao país, embora digam que foi algum do nordeste. De lá, escolhendo bom caminho, dirigiu-se ao o sul, viajando pelo rio São Francisco. Ele viveu sob três reinados, de d. Afonso VI – o vitorioso (1656 a 1683), de d. Pedro II – o pacífico (1683 a 1706) e de d. João V – o magnânimo (1706 a 1750). Nasceu em 01.02.1667 e faleceu em 21.01.1738, em Salvador (BA), portanto, aos 71 anos de idade.*

Quando passou pela Bahia, aproximou-se de Isabel Guedes de Brito, uma rica fazendeira, que o encarregou de administrar seu imenso patrimônio rural. As terras estendiam-se da atual cidade de Xique-Xique (BA), chegando à divisa com Minas Gerais. Cuidou também da cobrança de foros*, àqueles que exploravam as minas das propriedades. Desse modo, nessa sua primeira atividade, aprendeu as regras de como comportar-se como um régulo* mas, de fato, seus objetivos eram maiores. — * Foro: tributo aplicado sobre utilização um bem. / ** Régulo: pequeno rei.

Assim sendo e movido por ambições desmedidas, atravessou a fronteira baiana e adentrou nas Minas Gerais. Bem próximo à divisa – hoje, Arraial de Manga –, junto ao rio Japoré, construiu um enorme edifício em madeira, que era tido como “um verdadeiro castelo de armas”. Chamavam-no Castelo da Tábua, sede da fazenda de mesmo nome. Por coincidência, surgiu esse Vianna construindo um castelo no Brasil, ele mesmo vindo da Viana do Castelo, de Portugal.

post-minas-casteloPonto vermelho: Arraial de Manga. / Triângulo amarelo: “Castello Tabua de M.el Nunes Viana”.

Passado algum tempo e já devidamente encastelado, decidiu Nunes Vianna abrir as asas sobre vasta extensão do território das Minas. Desse modo, seu poder – para o bem ou para o mal – foi rapidamente se estendendo do extremo norte da província*, até a região da vila de Caeté**, nas redondezas da atual Belo Horizonte. Daquele extenso território, traficava ilegalmente gado e mercadorias até além do rio das Mortes***, mas não pagava impostos e controlava os caminhos. — * No município da atual cidade de Manga. / ** Caeté: mais de 750 km ao sul de Manga; 30 km a leste de Sabará. / *** Rio das Mortes: passa por São João del-Rei (MG).

Além do mais, o vianense havia ganhado fama de desaforado e brigão. De modo que, d. Rodrigo da Costa*, preposto de d. Pedro II de Portugal – o pacífico –, entendeu que, “por ser pessoa de valor e suficiência”, o Vianna poderia lhe ser-lhe de muita utilidade. Assim, decidiu nomeá-lo capitão-mor** da freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso (atual Caeté). Mas, na verdade, não era do caráter de Nunes Vianna submeter-se a quem quer que fosse, sequer ao governador e, por isso mesmo, continuou defendendo apenas aos seus interesses. — * Rodrigo da Costa, governador-geral do Estado do Brasil (03.07.1702 a 03.07.05.1705). / ** Capitão-mor Nunes Vianna, desde 1703.

De fato, em Caeté, onde estava a viver desde 1705, continuava com suas posses no vale do rio São Francisco. Pois bem, Nunes Vianna havia se metido na atividade de transportar e negociar gado, mercadorias e ouro, para si e para outrem. Porém, a fim de evitar a fiscalização, adotara um subterfúgio, o de percorrer rotas alternativas, de modo a fugir da cobrança dos impostos, entre eles os dos quintos* do ouro. — * Imposto do quinto = 1/5 ou 20%, muito menos que a carga tributária atual.

As imprudências de Nunes Viana chegaram a tal ponto que, em 1708, o então governador, Lencastre*, decidiu convocar outro controverso valentão, a fim de botar ordem no pedaço: o bandeirante paulista Borba Gato(10), tenente-general e guarda-mor das Minas. Chegou a tal ponto que, ao final do ano de 1708, o Borba escreveu uma carta ao governador*, denunciando Nunes Vianna, assim:

“… este homem […] não tem mais exercício (função), no Rio de São Francisco, que esperar comboios da Bahia, de uma grossa sociedade que tem naquela cidade e […] não contenta em marchar com estes para as Minas, senão convir servindo de capitania (guia) aos mais comboios, para que nenhum seja tomado do inimigo (fiscal) que, […] trata da arrecadação da Fazenda de Sua Majestade, que Deus guarde. Tanto que tem feito o seu negócio nestas Minas, passa palavra (convence) a todos os que aqui se acham com ouro, para ir por aquela estrada proibida sem pagar quintos (impostos) […] juntam-se todos e vão com ele…” — * Fernando Martins Mascarenhas de Lencastre, governador do Rio de Janeiro, de 1705 a 1709.

post-caete

← Caeté (gravura de Rugendas, 1824).

Naquelas circunstâncias, ao ser Nunes Vianna interpelado pelo Borba Gato, ele não se fez de rogado e logo deu resposta à altura. De fato, lá naquela vila do Caeté, sentindo-se mais empoderado, assumira a frente da um grupo de revoltosos e tornou-se seu comandante. De modo que instituíra um pequeno exército, com as seguintes lideranças: Manoel Nunes Vianna, chefe maior; frei Simão de Santa Tereza*, superintendente do distrito de Caeté; Sebastião Pereira de Aguiar, comandante dos praças; coronel Luiz Couto, ajudante de ordens e chefe militar; Antônio Francisco da Silva, ajudante de ordens e chefe militar; Matheus de Moura, superintendente das Minas. — * Frei Simão: fundador da igreja do Rosário, primeira capela de Caeté.

Imaginou até tornar-se o novo senhor de todas as Minas e, para isso, arvorou-se como líder político. E bem sabia bater nessa tão conhecida tecla, dizendo-se protetor dos desassistidos e também milagreiro mas, é claro, em tudo mentia. Contudo, por ser hábil nas artes do convencimento e da enganação, passou de fato a arregimentar a multidão, mas para alcançar um objetivo maior, o de ser de fato governador das Minas.

Cabe lembrar que os paulistas, por terem sido os descobridores do ouro, entendiam que somente eles, a Coroa, o superintendente e o guarda-mor das Minas tinham o privilégio da livre exploração. Queriam ser proprietários para sempre, pois se sentiam os verdadeiros donos das Minas do Ouro – atual estado de Minas Gerais – e, para eles, todos os seus contendores eram vistos como estrangeiros.

Nesse sentido, tratavam os homens de Nunes Vianna como emboabas. A palavra, então de uso corrente, é talvez oriunda da fala dos índios* e servia para designar o homem branco forasteiro. E, daí, surgiu a expressão adotada para rotular o conflito entre o estrangeiro Nunes Vianna e os paulistas, iniciado em 1707: Guerra dos Emboabas. — * Boaba ou boava: para os indígenas qualquer português, o mesmo que homem de botas; ou aquele que anda vestido. 

Porém, no decorrer dessa contenda, em 1709, as exigências dos dízimos, o controle das passagens* de rios, os direitos de entrada e a cobrança dos quintos, haviam gerado sublevações de toda ordem. Até que, no auge do conflito com as forças do governo, o chefe emboaba decidiu assumir, de vez, o comando da província. — * Passagem: posto de cobrança de impostos.

post-igr-cachoeira-do-campoIgreja de Nossa Senhora de Nazaré, em Cachoeira do Campo.

Pois bem, firme no seu objetivo, Nunes Vianna e mais os seus revoltosos, entre eles também gente de Santa Luzia e Sabará, deu início à sua marcha, saindo de Caeté – onde estava vivendo. E, de lá, prosseguiu em direção à atual Ouro Preto**, tendo feito uma parada em Cachoeira do Campo***. Ali, imediatamente, diante do adro da igreja de Nossa Senhora de Nazaré, fez um comício empolgado. A pequena multidão de emboabas presentes cobriu-o de aplausos e o Vianna, olhando para o próprio umbigo, proclamou-se “governador”. — * Lourenço de Almada, governador-geral do Estado do Brasil (03.05.1710 a 14.10.1711). / **Ainda não existia a Vila Rica, ancestral de Ouro Preto (MG). / *** Cachoeira do Campo, 20 km a oeste de Ouro Preto.

Naquele momento, havia d. Fernando Martins Mascarenhas de Lencastre assumido a governança da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro(11).

O novo governador, d. Fernando, não aceitou as impertinências de Nunes Viana e, então, dirigiu-se às Minas, em 1708, para tentar um dialogo com o inimigo. Assim, ambos marcaram um encontro em Congonhas do Campo*, contudo, antes do apontamento, em hora noturna, os emboabas gritaram um aviso de guerra: “Viva o nosso General Manuel Nunes Viana e morra d. Fernando, se não quiser voltar para o Rio de Janeiro.

Dizem que Nunes Vianna lá chegara disposto a renunciar, mas a inesperada saudação dos rebeldes assustou o governador, de modo que d. Fernando negociou o prazo de oito dias para se retirar para São Paulo.

Pouco depois, sob o comando do sargento-mor Bento do Amaral Coutinho, os homens de Nunes Vianna prosseguiram a caminhada por trilhas e matos, em direção à atual São João del Rei*. Chegando lá, tornaram a enfrentar os homens do governo que, outra vez, foram derrotados, porém depois de oito dias de escaramuças e à custa de muita pólvora. Então, devido a esse vexame, os paulistas, sentindo-se enfraquecidos, bateram em retirada e decidiram não mais enfrentar os destemidos emboabas. — Arraial Novo do Rio das Mortes, elevado a vila do São João del-Rei, em 1713.

O historiador Capistrano de Abreu(12) assim se referiu ao “governador” Nunes Vianna:

post-peregrino-da-america

← “Peregrino da América”, 1ª edição, 1728.

“… mostrou-se capaz do cargo; elevou-se de chefe de partido a cabeça de governo, criou juízes, distribuiu postos, ofícios e patentes, regularizou a concessão das minas, cobrou os quintos devidos ao régio erário, arrecadou direitos sobre os gados e fazendas importadas, sopeou a anarquia reinante. Excessos praticou necessariamente, nem com facilidade poderia evitá-lo, mas sua obra foi benéfica e, depois dela, percebe-se o arrefecimento da barbárie universal. Era, aliás, um espírito de certa cultura; gostava de ler a Cidade de Deus* e obras congêneres; às suas expensas, se imprimiu o Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira, um dos mais apreciados livros para nossos avós do século XVIII, como provam suas numerosas edições.” — “De civitate Dei”, por Santo Agostinho.

Porém, o sonho de governança de Nunes Vianna, apesar de frutuoso, foi efêmero, porque os representantes da Coroa eram mais poderosos do que ele imaginara. Durou cerca de dois anos o seu fingimento de domínio e, assim mesmo, continuou enfrentando a autoridade do rei. Por fim, ainda no ano de 1709, abandonou de vez seu alucinado projeto de poder, em obediência ao governador do Rio de Janeiro, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho*. — * Governador das capitanias reunidas do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas do Ouro.

De certa forma, graças em parte a impertinência do emboaba Nunes Vianna, houve um grande benefício para os mineiros. Uma década depois, em 12.09.1720, foi instituída a Capitania de Minas Gerais*, liberta do domínio de São Paulo. Sua primeira sede foi a Vila Rica, que havia sido fundada em 1711. Como se vê, a roda da história não é redonda e gira aos trancos, mas vai superando pedras, barrancos e nomes. — * Primeiro governador: d. Lourenço de Almeida (1720 – 1732).

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Tu de um lado, e do outro lado
Nós… No meio o mar profundo…
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo… — Manuel Bandeira

Esse breve relato, sem a pretensão de reescrever a história, talvez sirva para iluminar fatos e mostrar curiosidades do passado. Certo é que, por orgulho de um nome, tanto Nunes Vianna, como outros milhares de imigrantes, trouxeram Viana dentro de si e puderam viver com muita liberdade e fartura, nunca d’antes vistas em Portugal. E, cada um a seu jeito, assim também o fizeram aqueles com raízes em Setúbal, Souto, Barcelos, Chaves, Bragança, Horta, Madeira, Lisboa, Coimbra, Porto, Braga, Lima… e por aí afora. É claro que o sobrenome ajudava a aliviar a saudade. E viva o Brasil!

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Mais de Nunes Vianna

Mesmo depois de destituído do poder de “governador”, Nunes Vianna continuou servindo ao governo. Em 1727, foi nomeado alcaide-mor da Vila de Maragogipe – Bahia –; no mesmo ano, escrivão de ouvidoria do Rio das Velhas – cargo vitalício. Em testamento revelou sua descendência:

“Declaro que, além de minha filha Ana Maria de São Domingos […] tenho mais quatro filhos naturais, a saber: Miguel Nunes de Souza, havido de Maria Alves de Souza, […] de um menino branco, chamado Manoel, que se acha nesta praça, em casa de Catarina Nunes, a quem entreguei para criar e tratar […] e outro menino chamado Vicente, havido de uma crioula chamada Caetana, escrava de Luiza de Figueiredo…” — Fonte: Isaias Golgher, “Guerra dos Emboabas”, 1982, p. 236.

post-assin-nunes-viannaHá duas inconsistências em algumas de suas biografias. Uma, é que seria semi-alfabetizado, outra, que seria judeu ou cristão-novo. Porém, sua assinatura é primorosa e não mostra que seria um iletrado.

Quanto, à segunda, a verdade é que o Santo Ofício esmiuçou sua vida, antes de concederem-lhe o Hábito de Cristo. E tem mais, suas filhas foram internadas em um convento de religiosas católicas, em Portugal. Há um requerimento*, emitido na vila de Santarém (PT), em 1756, em nome de Victoria Thereza Nunes Vianna e suas irmãs, religiosas professas do Mosteiro de São Domingos das Donas, da vila de Santarém, pedindo a conclusão de uma execução que pendia em juízo, onde constam estas palavras:

“…Esta causa corre em nome da Madre Prioreza do Convento de S. Domingos [] contra Miguel Nunes Vianna(13), que foi penhorado em huma morada de casas de sobrado grandes […] embargos de terceiro prejudicado Caetano […] com o fundamento de que seu pai […] Manuel Rodrigues […] fora sócio do Mestre de Campo Manuel Nunes Vianna…”

Nunes Vianna era amigo de Miguel de Mendonça Valladolid, um viajante e homem de negócios, que teria lhe ensinado orações judaicas. Esse Valladolid, ao ser processado pelo Santo Ofício, fez-lhe a vaga acusação de que seria judaizante – ou seja – mesmo não sendo etnicamente israelita, estivera praticando algumas das tradições judaicas.

post-mapa-viana-1759À esquerda: forte de Santiago da Barra ou Castelo de Viana, construído sobre uma roqueta (1759).

O castelo e Viana

Em “Portugal Antigo e Moderno” – 1882 –, de A. Pinho Leal(14), se diz:

” Desejando d. Afonso III defender a barra do Lima […] os vianenses se obrigaram, em 1253, a construir  à sua custa, uma forte torre, a deram o nome de Roqueta*, concorrendo para essa obra, assim como para o cinto de muralhas da vila, todo povo de Viana […] Em 1498, passando por esta vila o rei d. Manuel, para ser jurado em Toledo herdeiro de Castela, visitou a Roqueta, mandando ali levantar uma alta torre, guarnecida de artilharia, para a defesa da barra e, ainda, ali se vêem ar armas do Rei venturoso (e ingrato).” — Chama-se castelo roqueiro ao que é construído sobre uma rocha. Se for uma pequena rocha é roqueta. Corresponde ao francês Rochelle.

“Em 1552, o usurpador Filipe II mandou acrescentar e fechar o castelo com as competentes cortinas, defendido por cinco baluartes* e dois revelins**, e cercado de fossos. […] por ocasião da guerra civil ou da Junta do Porto (1847), d. Maria II, em prêmio à valentia dos sitiados, que se lhe conservaram fieis, elevou a vila à categoria de cidade e deu-lhe o nome de Viana do Castelo.”* Baluarte: fortificação onde muralhas formam ângulo. / ** Revelim: fortificação avançada externa.

Viana é “família que, no século XVII, instituiu a capela de Nossa Senhora de Loreto*, na igreja de Monserate, com túmulo alto de estilo normando. […] É apelido nobre deste reino, tomado desta Viana. As armas dos Vianas são – em campo d’ouro –, uma águia da sua cor.” — Uma das capelas laterais. 

O sacerdote e escritor frei Luiz de Sousa* passou várias temporadas em Viana do Castelo e, em 1619, publicou a “Vida de frei Bartolomeu dos Mártires”, quando disse:

“Estivera o arcebispo (frei Bartolomeu**) em Viana, vila das mais insignes deste reino […] terra cheia de gente rica e muito nobre, de grande tato e comércio, por uma parte, com as conquistas de Portugal, ilhas e terras novas do Brasil. Por outra, com a França e Flandres, Inglaterra e Alemanha, d’onde e para onde, recebia muitos gêneros de mercadorias e despedia outras. Para os quais tratos, traziam os moradores no mar grande número de naus e caravelas […] ” — Frei Luiz de Sousa – (*c. 1555 / †05.05.1632) // ** Frei Bartolomeu dos Mártires – (Lisboa,* 03.05.1514 / Viana do Castelo, †16.06.1590). Em Viana do Castelo, fundou (1560) o convento de Santa Cruz, da ordem de São Domingos.

Um vianense sem Viana

post-caramuru-monumentoA primeira aristocracia genuinamente brasileira tem origem em um vianense, que não tinha Viana no nome(15). Trata-se de um homem que foi aceito como fidalgo e de uma princesa índia, e ambos deixaram notável descendência. Ele foi Diogo Álvares Correia (*c.1475 / †05.10.1557), natural de Viana do Castelo. Ela Paraguassu, filha do cacique Taparica.

← Caramuru e Paraguassu, em Viana do Castelo.

Por volta de 1509, Diogo, passageiro de uma embarcação francesa naufragada, conseguiu arribar a nado numa praia do estado do Espírito Santo e tornou-se figura lendária. Seus companheiros foram mortos pelos índios mas ele, empunhando um mosquetão, derrubou um pássaro com um tiro, causando tanta admiração aos nativos que lhe gritaram o nome de “homem trovão” ou Caramuru.

Mais tarde, sua colaboração foi muito útil aos conquistadores portugueses e, por isso, d. João III deu-lhe o título de cavaleiro da casa real. Mas, também é encantadora a história de Paraguaçu que, em viagem à Europa (1527), junto ao futuro marido, foi batizada em Saint-Malot, na França, recebendo o pomposo nome de Katherine du Brézil ou, na versão brasileira, Catarina Álvares Caramuru. Assim está anotado o seu batismo:

“30, julho, 1528 – No penúltimo dia do mês, foi batizada Katherine du Brézil, e foi padrinho o nobre senhor Guyon Jamyn, reitor de Saint-Jagu, e madrinha Catherine de Granches e Franczoise Le Gobien, filha de Saint-Malo, e foi batizada por Monsenhor Lancelot Ruffier, vigário curado do lugar, no dia e ano acima. – P. Trublet”

post-batismo-paraguassuRegistro de batismo da princesa Paraguassu Kathérine du Brésil.

Paraguaçu e Caramuru tiveram dez filhos. Ao falecer, a índia foi sepultada na igreja dos beneditinos do mosteiro de São Bento, em Salvador (BA). Seu testamento está arquivado na igreja da Graça, subordinada ao mosteiro. Do casal surgiu a primeira família brasileira documentada, ou seja, a mais antiga raiz genealógica do Brasil. Deles descende gente de muita nobreza, incluindo os dos Garcia d’Ávila, da Casa da Torre.

• Leia também, clique aqui: “A família de Bernardo” “Viannas e o Castello”.

Texto, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

———

(1) Paleolítico, ou idade da Pedra Lascada.

(2) Celtiberos: origem ainda controversa, embora os romanos os considerassem como sendo mistura de celtas e iberos. As primeiras referências escritas sobre eles foram feitas pelos geógrafos e historiadores greco-latinos Estrabão, Tito Lívio e Plínio.

(3) LETARGIA, LESEIRA, LETAL – Seria admissível associar lethes com leseira, palavra do português brasileiro. No dicionário leseira é característica do que é tolo, idiota; e, também, significa asneirice, idiotice, parvoíce; e leseira é, ainda, falta de energia, de ânimo, de disposição, especialmente para agir; moleza, preguiça, indolência. / Por outro lado, lethes tem a ver com letargia, que é uma condição biológica de quietude; sono prolongado e/ou torpor, ou sonolência. / Por sua vez, a palavra letal – em latim letālis,e – também vem de lethes, significando aquilo que causa a morte.

(4) Baionas – Os romanos chamaram-nas, também, de Ilhas dos Deuses (Insulae Deodorum), outros de Insulae Siccae (Ilhas Secas) e, ainda, Ilhas Cassitérides* (Ilhas do Estanho). Atualmente, são denominadas Ilhas Cies. Devido a recentes achados arqueológicos, suspeita-se que os últimos guerreiros celtas da região as habitaram. — * As Cassitérides (em grego, Kaaaimpos) são ricas em estanho; a cassiterita é o mineral estanho (SnO2).

(5) LIÃO, Duarte Nunes do – “Orthographia da Lingoa Portuguesa”Lisboa, 1576.

(6) Castelhano ou Espanhol // Galego: falado na Galiza, comunidade autônoma da Espanha. // Occitano: o mesmo que “langue d’oc”, ou provençal (França) // Língua sarda: falada na Sardenha (Itália).

(7) Carta de Foral: documento que, na época das Capitanias, regulava direitos e deveres aos quais se submetiam seus donatários. A palavra vem do latim forum. Foro ou fórum tem o sentido original de praça pública, tribuna ou tribunal.

(8) Transcrição do registro de batismo de Manoel Nunes Vianna – “Manoel f.o leg.o de J Nunes e de sua m.er m.ors no Souto (bosque) desta frg de S marinha de Lodares naceo em o primeiro dia do mes de fevr.o de mil & seis centos e secento & sete anos & foi baptizado em os tres dias do dito mes d año foraõ padrinhos Simão (?) de Sou… (?) & Anto Gaspar m.or (morador) de Pantalião (…?…) desta freg.a e per asim pasar na verdade fis aqui este assento dia mes e anno. / Francisco Gomes” — Arquivo da Torre do Tombo, Lisboa.

(9) Manuel Nunes Vianna, durante algum tempo, foi considerado herói mineiro, mas sua história caiu no esquecimento. Quando foi construída a cidade Belo Horizonte, os revoltosos foram homenageados com um nome de uma via: rua dos Emboabas que, hoje, chama-se rua Professor Antônio Aleixo. A cidade de Caeté ainda considera os emboabas como heróis e, no ano de 2016, instituíram uma distinção honorífica, denominada “Comenda dos Emboabas”.

(10) GATO, Manuel de Borba – (*1649 +1718) Ao fim da vida, ocupou o cargo de juiz ordinário da vila de Sabará (MG). Há dúvidas se foi enterrado em Tabuleiro Grande (atual Paraopeba – MG) ou no Arraial Velho de Sabará (MG). / Genro de Fernão Dias – o descobridor das esmeraldas –, sucedeu ao sogro na administração das Minas. Foi considerado como homem arrebatado e arrogante. Por isso mesmo, caiu-lhe a suspeita de ser o autor ou mandante do assassínio do fidalgo d. Rodrigo Castelo Branco, quando este, em visita de fiscalização, ao “quartel” da Quinta do Sumidouro, foi ali assassinado. Depois do malfeito – nas palavras do historiador Paulo (da Silva) Prado – “por prudência, ou com a consciência pouco tranquila, homiziou-se nos sertões da Bahia, longe da margem direita do rio São Francisco. Ali, reza a tradição − nos sertões do rio Doce –, viveu entre a indiada, chegando a ser cacique de uma tribo. Mais tarde, contando com a proteção de amigos e da família poderosa, passou-se para as cercanias de Pindamonhangaba, num canto discreto entre a serra do Mar e a vila de Paraitinga. Ao findar o século XVII, o governador Artur de Sá e Meneses obteve-lhe o perdão real e o posto de tenente-general. Na clássica longevidade de paulista antigo, morreu aos noventa anos, na sua fazenda de Paraopeba” // Leia mais, clique aqui: http://wp.me/pS4z0-36m.

(11) LENCASTRE, Fernando Martins Mascarenhas de – Governador da Capitania do Rio de Janeiro, 01.08.1705 até 10.06.1709 – administrativamente, englobava a de São Paulo e Minas do Ouro. Em 28.02.1707, d. João V de Portugal escreveu-lhe: “Fui informado […] que […] estrangeiros vão à conquista deste Reino […] em grande número […] mais ainda nos sertões e principalmente nas Minas […] de que resulta grande prejuízo a esses Estado […] sendo devassado (devastados) pelos estrangeiros […] acrescendo também grave inconveniente […] vêm a fazer o seu comércio […] o qual […] correndo pelas suas mãos não pode deixar de padecer maiores descaminhos nos direitos devidos à minha Fazenda (receitas de impostos).” 

(12) ABREU, José Capistrano de – “Capítulos da História Colonial”, Biblioteca Básica Brasileira, Brasília, 1999, p. 157.

(13) Requerimento de Victoria Thereza Nunes Vianna e suas irmãs, anexado a um ofício (Bahia, em.10.08.1756) do vice-rei Conde dos Arcos (Marcos José de Noronha e Brito) para Diogo de Mendonça Corte Real (secretário de Estado no reinado de D. João V). Teor: “… esta cauza corre em nome da Madre Prioreza do Convento de S. Domingos das Donas de Santarem contra Miguel Nunes Vianna, que foi penhorado em huma morada de cazas de sobrado grandes. A esta execução se oppoz com embargos de terceiro prejudicado Caetano Rodrigues Soares com o fundamento de que seu pay Manuel Rodrigues Soares fôra socio com o Mestre de Campo Manuel Nunes Vianna e com effeito alcançou sentença a seu favor na instancia inferior…” (Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1913, vol. XXXI, p. 150-151.) // No testamento de  Manuel Nunes Vianna está dito: “Miguel Nunes de Souza, havido de Maria Alves de Souza…” / Naquela época, era livre trocar o nome e, a se entender desse modo, Miguel poderia também assinar Miguel Nunes de Souza Vianna ou, ainda, Miguel de Souza Vianna. Desse modo também admite Neusa Fernandes, em “500 anos de presença judaica no Brasil”, 1º capítulo, p. 72. // Em “Bandeiras e Sertanistas Baianos”, por Urbino de Souza Vianna (Bahia, *1870 / RJ, †1945), está dito sobre as filhas de Manuel que foram para Portugal: “Podemos apurar que suas seis filhas, Victoria Thereza, Izabel Ignacia, Monica do Amor Divino, Mauricia de Jesus, Quiteria Peregrina de Jesus e Maria Olinda da Soledade, professas no Mosteiro de São Domingos das Donas de Santarém, demandaram seu irmão, Dr. Miguel Nunes Vianna, por questões de heranças, vencendo-o.” (Biblioteca Pedagógica Brasileira, vol. XLVIII, 1935, p. 51-52). // Miguel Nunes Vianna teria o título de doutor pela Universidade de Coimbra. | Seus inimigos chamavam-no de Bastardão.

(14) LEAL, Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho – “Portugal antigo e moderno”, Lisboa, 1882, vol. 10, p. 334 e adiante.

(15) Escultura em bronze, por José Rodrigues, em homenagem a Caramuru e Paraguassu, instalada em 01.01.2007, na Praça da República (Viana do Castelo).

 

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12 Comentários »

  1. Excelente, mais uma vez, Eduardo. A propósito dos caminhos alternativos da região, sempre achei que os caminhos marcados no mapa do Vínculo da Jaguara, um dos quais passa em minha propriedade (conexão Fazenda Bom Jadim e Fazenda Palmeiras – Matozinhos), se prestavam a esse propósito de fugir da fiscalização do Rio das Velhas. Sugiro, considerando sua expertise, que aprofunde no assunto e nos premie com um texto sobre eles. Abs
    João Pezzini

    Comentário por João Pezzini — 01/03/2017 @ 11:19 am | Responder

    • João:
      Faz sentido sua observação sobre os caminhos. Vou ficar atento, para ver se encontro alguma informação. Muito obrigado pelo comentário.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/03/2017 @ 1:53 pm | Responder

  2. Como sempre, brilhante na análise e síntese tão importante para os historiadores. Mais e mais acredito que, conhecer as origens, nos trazem emoções que aquele que as ignora não sente. Os caminhos, da fazenda do seu amigo João, serão vistos com um outro olhar, quando você descobrir a história deles.

    Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 01/03/2017 @ 4:09 pm | Responder

    • Vania:
      Quando conhecemos nossas origens, conhecemos melhor o nosso eu. Por isso mesmo, povo sem história não existe, pois é, no máximo, uma imitação de não sei lá o que.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/03/2017 @ 4:23 pm | Responder

      • Bom, sei que esse é um dos problemas do povo brasileiro – não só conhecer suas origens, como também analisá-las e valorizá-las. Quando indiquei um dicionário de nomes para você, não foi apenas pela família Viana, mas por todas a famílias sefarditas que são, por exemplo, citadas em suas pesquisas. Em Istambul, de repente, pode-se encontrar alguém que fala ladino; como na Bulgária, Grécia e muitos outros países. Conservam a língua e costumes. Um exemplo: os Nunes, por aqui foram perseguidos pela Tribunal do Santo Ofício – Guiomar Nunes, habitante de um engenho, que hoje é área metropolitana de João Pessoa, foi a única mulher brasileira a ter seu fim numa fogueira, em Lisboa, em 1731. Teve o mesmo destino o dramaturgo Antonio José da Silva, o Judeu. Quando vi o “seu” Manoel, filho de um Nunes com uma Costa que, com seus poderes queria pertencer à Ordem de Cristo, imaginei que ia pintar “maracutaia” na árvore genealógica dele. Tal como aconteceu com o pernambucano Felipe Paes Barreto, cuja genealogia foi estudada por Evaldo Cabral de Mello, e publicada no livro “O nome e o sangue”.

        Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 01/03/2017 @ 8:10 pm

      • Vania:
        Quando examino esses documentos e textos antigos, com frequência deparo-me com uma verdadeira barafunda. Suspeito que, em alguns casos, propositalmente fabricada para encobrir a verdade. Assim mesmo, tenho tentado penetrar no passado, mas apenas como um curioso da história. Graças a Deus!
        Um abraço do Eduardo.

        Comentário por sumidoiro — 01/03/2017 @ 8:31 pm

  3. Eduardo, mais um texto precioso, fruto de pesquisas extensas. Parabéns! Continue Escrevendo! João Vianna

    Comentário por jbvianna — 02/03/2017 @ 5:01 am | Responder

    • João:
      Realmente, suei para escrever este Post. Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/03/2017 @ 7:16 am | Responder

  4. Caríssimo,
    Eu poderia repetir aqui comentários já feitos em relação a outros textos escritos por você: texto didático, pesquisa séria, fontes fidedignas, encadeamento lógico, linguagem elaborada, fatos importantes de nossa História raramente disponíveis aos leitores. Por tudo isso, acredito que você tem prestado um serviço inestimável ao conhecimento de nosso passado, o que nos torna mais aptos para entender o presente e vislumbrar o futuro. Em “Um nome cá, outro acolá”, você, tal como o General Decimus Junius Brutus, que atravessou o rio Lima, ajuda-nos a ir de um lado a outro do oceano e acaba com o mito, mostrando-nos que a memória do passado é uma das possibilidades de nos humanizarmos.
    Obrigado por mais esta aula.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 04/03/2017 @ 7:16 pm | Responder

    • Pedro:
      Já lhe disse, apaixonei-me pela história. Pesquisando e escrevendo, estou agora vivendo um pedaço muito alegre de minha vida.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/03/2017 @ 7:33 pm | Responder

  5. Fico encantado com os seus textos. A clareza das narrativas ilumina as mentes daqueles que têm o privilégio de conhecer o seu Blog. Moro no interior de São Paulo, em Casa Branca, na rota do antigo “Caminhos de Goyases”, que bifurcava para o Rio das Mortes e levava a Ouro Preto e havia outro, que mal se conhece nos estudos. Este desviava para as paradas de Mogi-Mirim e Caconde, em direção às “Serras de Caldas”. Os paulistas, que lutaram contra os Emboabas, passaram por ali. O mesmo caminho, penso eu, talvez tenha sido usado pelas tropas que, vindo da Bahia, juntaram-se às tropas de Ouro Preto, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, então comandadas pelo Capitão Drago, e que participaram da Guerra do Paraguai, em 1864.

    Comentário por aslegnaro — 07/03/2017 @ 11:35 pm | Responder

    • Aslegnaro:
      Fico alegre de saber que meu trabalho despertou tão grande interesse.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 08/03/2017 @ 10:30 am | Responder


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