Sumidoiro's Blog

01/04/2017

O INVENTOR DO PASSADO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 12:14 am

♦ A arte de fabricar verdades

Desamparada, a mãe enrolou o seu recém-nascido em uma manta puída e o depositou na Roda dos Enjeitados(1). Pensara muito antes de tomar a dolorosa decisão, sabendo que nunca mais iria vê-lo. Do outro lado do muro, irmã Divina da Luz recebeu-o com carinho.

post-inventor-passadoPátio de um Recolhimento dos Expostos, Itália (por Giannino Grossi)

O bebezinho fora colocado num receptáculo giratório da Casa dos Enjeitados, também chamada Recolhimento dos Expostos. Do lado de fora não se via quem estava do lado de dentro e vice-versa. Do abandonado nunca se saberia nada, nem da sua mãe e, muito menos, do pai. Estava fadado a viver ignorando de onde viera, ou seja, ficaria plenamente órfão e, mais que isso, receberia o rótulo de bastardo.

post-ao recém-chegado, para garantir de vez um lugar no céu, trataram de administrar-lhe o primeiro sacramento. E, de modo a auxiliar na escolha de nome e sobrenome, pesquisaram num velho almanaque, fonte de variadas sugestões. Também levaram em conta o estardalhaço que o inocente fazia ao chorar, a plenos pulmões. Resultou que optaram por atribuir-lhe um nome germânico, Astolfo, o mesmo que Haistulf*, ou seja, o que tem a violência de um lobo. — * Haist(i) = força, violência + ulf = lobo.

Cumpridas as preliminares de praxe e já na pia batismal, acrescentaram-lhe as marcas de fingimento, pois as de família, seja a da mãe ou do pai, nunca as teria. Desse modo, usando do dito artifício, atribuíram ao recém-chegado pomposos nome e sobrenomes: Astolfo Magno dos Anjos. Contudo, ao correr dos dias, ficou conhecido simplesmente como Astolfinho.

Sem dúvida, a identidade mais singela lhe caia melhor, visto que, tanto por feitio e também pelo modo de agir, conseguia irradiar ternura e simpatia. Tais dons sempre o ajudaram a conquistar quaisquer pessoas. E foi por isso que sempre conviveu bem feliz, entre freiras, coleguinhas e todos mais que frequentavam o Recolhimento.

Naquele refúgio, melhor dizendo, naquele couto*, recebeu rudimentos de leitura e escrita, e mais algumas habilidades para enfrentar o futuro, ou seja, quando o remetessem à sociedade extramuros. Mas, ao chegar o momento de se afastar do Recolhimento, ainda era meninote e um completo coitadinho**, e preso dentro de si mesmo. Contudo, não havia alternativa, senão por os pés na estrada… — * Couto: refúgio. / Em galego: acoutar = estabelecer os limites de algo. / ** Coitado e coitadinho vêm de acoutado / Acoitado: aquele que está preso ou recolhido em um couto; por isso, diminuído, humilhado e desprezado.

post-meninoAo desligar-se do convívio com as freiras, Astolfinho estava muito bem de espírito, porém com o cérebro semivirgem. E, no afã de construir o futuro, precisou experimentar de tudo. Seria, certamente, o mais imprevisível e emocionante pedaço da sua trajetória.

Porém, não andava muito satisfeito com o rótulo de Astolfo. E vai que, em certo momento, fazendo leituras noutro almanaque, deparou-se com um nome insinuante: Desidério! Significa desejo, vontade, cobiça, ambição e mais alguma coisa.

Pois bem, como nos tempos antigos era livre trocar de nome, assim o fez. Nem havia cartórios para anotar qualquer coisa… No máximo, colocava-se um aviso no jornal e pronto! E, com essa liberdade, o visionário Astolfo Magno dos Anjos, transformou-se em Desidério Magno dos Anjos. Logo depois, aboliu o dos Anjos, por melhor sonoridade e porque estava a perder a fé.

Mas, uma angústia sempre o atormentava, qual seja, o desejo de conhecer os pais. Até que alguém recomendou-lhe pesquisar nos meandros dos registros vitais da igreja, onde constam batizados, casamentos, óbitos e inventários. Ao mesmo tempo, foi avisado de que, antes, precisava adestrar-se no conhecimento da história geral. Assimilou as sugestões e, por conta própria, passou a mergulhar em livros paroquiais e das bibliotecas.

Até que, numa dessas leituras, Desidério Magno deparou-se com um personagem famoso, cujo nome era igualzinho ao que haviam-lhe atribuído no batizado. Tratava-se de Astolfo, rei dos longobardos(2), que tivera um filho chamado Desidério, também seu sucessor, em 756. Para ele – bastardo Desidério –, que outrora fora Astolfo, essas duas homonímias famosas surgiam como tremendas coincidências. Parecia até coisa de bruxaria!

Dai, o investigador penetrou na história do rei Desidério, resumidamente, mas ficou horrorizado com a impetuosidade e desmandos cometidos por aquele mesmo, o filho, e por seu pai Astolfo. E dizem que a essa gente tudo era permitido, somente por terem sangue azul. Pois bem, em 768, Desidério chegou ao cúmulo de nomear um papa, por sua conta e risco. Foi o antipapa Filipe, que durou apenas um dia, o domingo, 31 de julho.

Ele, o bastardo Desidério Magno, católico, educado num abrigo de religiosas, não poderia suportar mais esses novos aborrecimentos, justo por causa daqueles barbudos, a dupla de longobardos. Por outro lado, a descoberta foi útil, tendo provocado uma reviravolta em sua vida. Isso porque decidiu: “- Se o outro foi rei, eu também posso…” Assim, devido a esse impulso, pôde desvelar algumas fantasias comumente agregadas aos nomes, sobrenomes, títulos e outros fingimentos paralelos. Deduziu que aparências e rótulos sempre podem enganar, d’onde tirou bela lição, e bom proveito.

Então, fortalecido com o arnês* dos novos saberes, o Desidério Magno decidiu fazer sua revolução pessoal, livre de compromissos ou quaisquer gestos de nobreza, pois bem sabia que o seu sangue era vermelho. E assim foi em frente, perdendo as vergonhas e os escrúpulos que ainda lhe restavam. Nessa toada, sem pestanejar, decidiu transformar-se em produtor de mentiras de largo espectro. Primeiramente, montou uma tenda, que chamava de oficina, onde passou a produzir histórias de estirpes e, também, desenhava brasões. – * Arnês: armadura de guerreiro, que cobria da cabeça aos pés.

Ao mesmo tempo, para ganhar mais algum dinheirinho, tratou de advogar como rábula* e a imiscuir-se na política, nisso fingindo salvar os pobres (!). Além do mais, obrava de consultor sentimental, de escritor fantasma(3) e ainda praticava outras estrepolias, como a de evocar a colaboração dos mortos, aludindo ter poderes mediúnicos. — * Rábula: advogado sem diploma.

Com isso tudo, tornou-se então um respeitado profissional da mentira. E, para completar, nas horas vagas, mas apenas por distração e vontade de flutuar, fazia-se de romancista e poeta. Porém, entre seu vasto rol de ocupações, a que mais apreciava era a de inventor do passado, habilidade muito afim à da genealogia, esta adquirida por experiência própria.

Assim foi que, fazendo as mais variadas tramoias, reinou absoluto no pedaço. Desse modo, sentiu-se um tanto feliz, ganhou bastante dinheiro e, de contrapeso, um monte de pecados. E, para completar, adotou um lema: “o futuro não se adivinha; o presente mal se entende; e o passado, é fácil, a gente inventa”. Nem por isso desistiu de procurar sua mãe e seu pai.

Por Eduardo de Paula

Casa da Roda (vila de Almeida, Portugal):

post-roda-de-almeida

———

(1) A Roda dos Expostos ou dos Enjeitados é uma invenção antiga, com a finalidade de receber recém-nascidos em instituições de caridade. Em Portugal, as rodas surgiram a partir de 1498, através das Irmandades da Misericórdia. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa foi pioneira nesse atendimento. Segundo as Ordenações Manuelinas, de 1521, e confirmadas pelas Ordenações Filipinas, de 1603, as câmaras municipais deveriam arcar com o custo de criação do enjeitado, caso esta não tivesse a Casa dos Expostos e nem a Roda dos Expostos. A câmara assumia a obrigação, até que o exposto completasse 7 anos de idade. No Brasil, as primeiras Santas Casas de Misericórdia a instalarem rodas foram as de Salvador (1726) e a do Rio de Janeiro (1738). / Foram caindo em desuso mas, com aperfeiçoamentos, estão em plena revivência na Europa e, até mesmo, na China.

(2) Longobardos ou lombardos – Povo germânico, originário da Europa setentrional, que colonizou o vale do Danúbio e, depois, invadiu a Itália bizantina, em 568. Entre eles, era costume usar barbas longas e, daí, vem a designação longobardos. / O último rei longobardo foi Desidério, duque da Toscana, que conseguiu conquistar Ravena, encerrando à presença bizantina no norte da Itália. / Em 774, Desidério rendeu-se a Carlos Magno – primeiro imperador dos romanos –, e foi este que unificou, e levou o progresso à maior parte da Europa ocidental. O Papa João Paulo II a ele se referiu como Pai da Europa.

(3) Escritor fantasma ou “ghost-writer”: redator de discursos ou textos para outrem, o qual permanece no anonimato.

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10 Comentários »

  1. Eduardo, Muito interessante seu assunto.
    Parabéns.
    Maria Marilda

    Comentário por Maria Marilda pinto Corrrea — 01/04/2017 @ 9:18 am | Responder

  2. Lindo! – só o que tenho a dizer…

    Comentário por Vania — 02/04/2017 @ 11:14 am | Responder

    • Vania:
      O elogio, de quem vem, é um prêmio.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/04/2017 @ 1:28 pm | Responder

      • Eduardo,
        Obrigada pelo elogio, mas é tudo que posso dizer!

        Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 03/04/2017 @ 7:54 am

  3. Achei o texto saborosíssimo, não tanto pela mentira em si, mas pela questão das identidades. Muitas pessoas têm sobrenomes que remetem aos enjeitados: de Jesus, dos Anjos, dos Santos e por aí vai. Não significa que descenda a pessoa de um exposto. Por outra, sobrenomes pomposos também não garantem o contrário. As pessoas ficariam surpresas, acho, se soubessem como o passado de sua família tem muito de ficção. Em outras palavras, com o tempo a tendência é edulcorar a história da família, aparar as arestas. Daí que adorei Astolfo, depois Desidério, um criador de passados. Nada como um profissional da mentira consciente de que é um profissional da mentira. Mais uma vez, repito, um texto saborosíssimo. Um abraço.

    Comentário por Corintiano Voador — 02/04/2017 @ 4:28 pm | Responder

    • Corintiano:
      Concordo plenamente com suas observações. Precisamos conhecer os mitos para compreender melhor o mundo. Muito obrigado pelo comentário e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/04/2017 @ 5:21 pm | Responder

  4. Caríssimo,

    O título “O inventor do passado” e o subtítulo “A arte de fabricar verdades” são excelentes. Eu não tinha consciência (embora suspeitasse, pois no meu último livro escrevi “Parece-me que a recordação é quase sempre equivocada, pois tenta conformar o fato passado com a visão do presente”), de que o passado, tendo passado, só pode ser inventado. O verbo “fabricar”, colocado no subtítulo, é preciso, extremamente apropriado. São belos títulos para um livro que você, Eduardo, bem poderia escrever. Verdade/mentira, realidade/fantasia, fato/versão do fato, vida vivida/vida inventada… Tudo isso parece ser uma coisa só.
    Há, ainda, a energia que carrega cada palavra. Um nome é também o ser. Na igreja católica, na maioria das congregações, a pessoa, ao mudar de vida, mudava também de nome. Um nome é uma vida, e você, neste pequeno texto, mostra isso de maneira brilhante. Alguns nomes nos incomodam, algumas pessoas não se sentem bem com os nomes que receberam, e isso a gente percebe com facilidade.
    Parabéns pelo texto, pelos títulos! Na minha opinião, trata-se de um dos melhores textos produzidos por você.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 03/04/2017 @ 7:00 pm | Responder

    • Pedro:
      Seu comentário é riquíssimo e tem uma grande serventia. Serve para chacoalhar meu pensamento e provocar novos raciocínios. Continue sempre me ajudando!
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo

      Comentário por sumidoiro — 03/04/2017 @ 10:35 pm | Responder

  5. Lindo! – é só o que me vem à cabeça – para comentar este texto de Eduardo. E, como sugere o Sr. Pedro, está na hora de misturar mentiras, verdades, sonhos, fantasias e escrever um livro…

    Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 03/04/2017 @ 8:05 pm | Responder

    • Vania:
      Mais uma vez, gratíssimo.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/04/2017 @ 10:38 pm | Responder


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