Sumidoiro's Blog

01/05/2017

RIO ANTIGO (I)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 10:08 am

♦ A cidade e o Doutor Água Fria

Em 12 de dezembro de 1843, o médico francês Yvan Melchior-Honoré embarcou no porto de Brest(1), acompanhando uma missão oficial francesa que se dirigia ao oriente. Relatando sua viagem, escreveu “De France en Chine”, com um capítulo dedicado à passagem pelo Rio de Janeiro, que fazia parte do trajeto. Fez uma primeira escala na ilha de Tenerife e, em seguida, pisou em terra na então capital do Brasil. Seu texto vale como um documento histórico(2)

Post - Rio _ TaunayBaía de Guanabara (por F. E. Taunay, 1828).

No dia 28 de janeiro [1844], avistamos a costa do novo mundo. Assentado na frente do navio, contemplei essa terra misteriosa e fecunda, terra de florestas virgens e palmeiras que, em sonhos de minha infância, nela vislumbrei miragens poéticas. Tal como um jogo bizarro da natureza, o cume das montanhas – à esquerda da barra do Rio de Janeiro – desenham a forma de um gigante deitado de costas. Tudo é prodigioso nessa terra, onde as árvores elevam-se até 30 metros de altura, onde os rios assemelham-se a braços de mar e onde os portos são baías imensas.

La Sirène* (*o navio Sereia) lançou âncora às 5 horas da tarde. A calmaria havia retardado e por muito tempo, a entrada na enseada. Abriram-se as velas senão quando a brisa refrescou, assim deixando para trás a montanha do Pão de Açúcar. Os fortes de Santa Cruz e de Villegaignon foram avistados no meio da enseada, ocupada por navios de todas as nações e sulcada por pesadas chalupas* de pescadores, e por esbeltas canoas dos negros. * Chalupa: embarcação maneira, com um só mastro (Dicionário da armada portuguesa, 1841).

Post - Dr Yvan

← Yvan Melchior-Honoré

A baía do Rio é um pequeno mar interior, cujas águas beijam timidamente os pés das belas ilhas que nela se abrigam. A limpidez e transparência dessas águas só é superada pelo ar puro do entorno. Pudemos admirar o espetáculo que se desenrolava nesse imenso porto, o mais seguro que há no mundo, ornado com uma floresta de mastros, com fileiras de casas brancas nas duas margens e verdes montanhas a emoldurar a cena.

Nessas regiões tropicais, o dia se extingue rapidamente para dar lugar à noite. Isso deixou-nos logo mergulhados numa escuridão profunda, que apagaram todas as coisas que a pouco víamos. Porém, num instante, um cinturão circular se alumiou com mil fogos, vindos das lanternas dos navios e das casas do Rio, e da Praia Grande* (*atual Niterói). Aos nossos olhos, tal como nas óperas, surgiu de improviso uma dessas iluminações feéricas.

Devido ao avançado da hora, tomei a primeira canoa para me conduzir à terra. Ansioso estava de começar o dia seguinte percorrendo o belo país. Como já era noite e não havendo tempo para buscar outra alternativa, instalei-me num estabelecimento francês, o hotel Pharoux*, lugar de encontro de todos os viajantes europeus. — * Edificado e inaugurado em 1816, pelo francês Louis Pharoux. 

Sem perda de tempo, ocupei-me então a desfrutar da felicidade de estar com os pés no chão, procurando mil pequenas satisfações, incompatíveis com a vida à bordo. Da água límpida, do sorvete, das frutas e de um jornal impresso pela manhã. Bastantes para fazerem-me esquecer completamente um mês de privações, tédio e enjoos marítimos.

Post - Hotel Pharoux _ RioHotel Pharoux, no largo do Paço Imperial (demolido em 1959).

Desde o primeiro olhar, o Rio de Janeiro surpreende e provoca interrogações ao europeu. De qualquer maneira, fui prevenido sobre o espetáculo que estava a me esperar. Assim mesmo, na manhã seguinte, ao botar os pés fora do hotel Pharoux, fui tomado de perplexidade, vendo as ruas inteiramente invadidas pela população negra. Sem planejar, detive-me diante de toda aquela gente desnuda, principalmente criados. Não havia como deixar de contemplar as legiões de negros, a agitarem-se debaixo de um sol de fogo, como diabos* num braseiro. — * Ato falho, denotando preconceito.

A cena bizarra que vi, não se assemelhava a nenhuma das minhas demais lembranças. Diante de mim, havia também uma multidão de homens carregando pesados fardos. Eles recitavam, repetidamente, um monótono refrão: “- Que calor! Que mal!” Em seguida, um deles respondia em tom grave e duro: “- Está bem! Está bem!” Agitando uma matraca de som desagradável, assim procedia. Imaginei estar assistindo a alguma iniciação misteriosa ou qualquer cerimônia de um culto infernal.

Logo que livrei-me daquela primeira impressão, comecei a percorrer as diversas ruas da cidade. O Rio foi construído à beira do mar, ao pé de uma colina que domina a paisagem. As casas, alinhadas em escrupulosa simetria, são belas construções. Contudo, a exagerada largueza das ruas expõe os habitantes a um calor excessivo. A população perfaz 450.000 mil habitantes, sendo que cerca de dois terços são escravos negros e o restante repartindo-se igualmente entre brancos e mulatos.

Post - Largo do PalácioLargo do Paço Imperial – edifício à esquerda –, com chafariz – à direita – (por Débret).

Como o próprio nome indica, é sobre o largo do Palácio* que se estende o edifício imperial, modesto castelo que nada tem de especial. É praça muito bela, embora um pouco despojada. Uma fonte, da qual jorra água em abundância, corre para o lado do mar. No seu entorno, estariam ainda por plantar alamedas de árvores, mas permanece a sensação de vazio. — * Paço.

Os monumentos públicos, tais como o palácio da câmara dos deputados, o senado e a bolsa, nada têm para merecer a atenção do viajante. Porém, nunca é demais repetir: todo o tempo, a variada e barulhenta multidão que circula pelas ruas, mais uma miríade de novidades, estão a despertar nosso interesse!

De um lado, pode-se ver as negras de Angola, portando, à maneira oriental, um xale exuberante sobre seus ombros nus. Algumas há bizarramente tatuadas, cujos braços são ornados com braceletes de cobre. Por toda parte vi mulatas – desde o mais claro ao mais escuro tom de pele –, de olhos langorosos e ardentes, a exibirem variadas e expressivas fisionomias.

Além do mais, veem-se trajes de todas as nações e grã-finos vestidos com luvas. Causa admiração haver tanta gente possuidora da absurda coragem de, mesmo submetidas aos 36 graus de calor, aprisionarem seus corpos em roupas de lã, muito justas, apertando seus pescoços com lenços pretos e revestindo os dedos com um couro elástico de cabrito* (*luva).

O Rio possui aquela animação de cidade comercial em busca do progresso. Ademais, a diversidade da população lhe proporciona um caráter particular. É de se notar que a prosperidade dessa grande urbe assenta-se tanto no trabalho quanto no luxo, duas condições para a existência das modernas sociedades.

Post - Rua Ouvidor _ 1890Rua do Ouvidor, 1890.

A rua do Ouvidor, que é a rua Vivienne* do Rio, abriga lojas de grande beleza. Tudo da moda parisiense, da mais elegante, da mais delicada, ali se encontra em profusão. Novidades, as mais caprichosas, estão a alimentar as fantasias dos consumidores. Até um francês pode sentir-se em casa, pois há nessa rua roupas e botas francesas, e, da mesma procedência, livros. Ainda, para completar, o que é ainda mais francês: as modistas parisienses… — * Rua histórica e elegante de Paris, no 2ème arrondissement.

Há como fazer também o câmbio de moedas. Por outro lado, a maneira como os comerciantes tratam seus fregueses não passa despercebida. Para cativá-los, sabem usar linguagem polida, notadamente quando negociam com os vendedores da nossa nação, fazendo com que ambos possam tirar o melhor proveito na transação.”

Post - Rua Direita _ RioRua Direita, atual 1º de Março (por Rugendas).

Um objetivo — O viajante Yvan tinha o especial propósito de conhecer, entre outras coisas, a natureza tropical. Para tanto, foi ao encontro de um colega, médico e naturalista. Assim diz no seu relato:

depois desse primeiro e rápido olhar sobre a vila, fui encontrar-me com um botânico muito instruído, o doutor Ildefonso Gomes. Trouxe uma carta de recomendação que foi-me dada em Paris, por um dos seus melhores amigos. A morada do doutor fica a pequena distância da cidade, assentada num vale estreito, bem sombreado e regada por um riacho de água límpida.

Seu aspecto nada deve às outras charmosas habitações, tão numerosas nos arredores do Rio. Um enorme portão, coberto por uma trepadeira, indicou-me a casa do doutor. Ela está assentada ao pé de uma colina plantada com cafezais. Longa alameda conduz à residência sede, margeada por palmeiras, goiabeiras, mimosas e limoeiros À esquerda, à sombra de árvores gigantescas, estão as casas dos negros e, à direita, no fundo do vale, vê-se um milharal e uma horta.

Um grande terraço coberto está situado logo à entrada, sendo utilizado tanto como recanto de estudo, quanto de repouso. Nesse lugar, numerosas pranchas, cobertas por livros científicos, recentemente publicados na França, confirmam minha opinião sobre o saber e o interesse científico do meu excelente confrade.

Um amplo salão, mobiliado com um imenso divã de junco, boas cadeiras, um belo piano e um elegante pedestal, abre suas largas portas sobre o referido terraço. Uma sala de jantar é contígua ao salão: espaçosa e bem arejada, e está bem separada das cozinhas. Atrás dessas peças, há outras fechadas, cujo acesso não é permitido aos olhares estranhos. Enfim, completa a elegante habitação uma pequena e graciosa capela, onde um padre reza missa aos domingos.

Post - Frutas _ Albert EckoutFrutas tropicais, regalos ao paladar do dr. Yvan (por Albert Eckout).

O doutor deu-me a melhor acolhida. Sob suas ordens, uma jovem negra trouxe, numa bandeja de prata, larga e pesada, copos de limonada, vinho de laranja e diferentes licores do país. Para minha surpresa, já era chegada a hora do jantar brasileiro (às duas horas da tarde), de modo que convidaram-me a sentar à mesa da família, o que aceitei com prazer.

Em outras circunstâncias, pouparia o leitor de tomar conhecimento de minhas sensações gastronômicas. Mas, não importa onde estivermos, creio ser importante descrever a cor local… Assim sendo, acredito que devo falar da minha primeira refeição nessa cidade tropical.

O doutor, sentado à cabeceira da mesa, fez-me assentar à sua direita. Para começar, serviu uma sopa, cujo singular tempero aromático excitou meu paladar. Um enorme pedaço de carne de boi veio em seguida, acompanhado de farinha de mandioca cozida, junto a um caldo, e mais um molho de pimenta para acentuar o gosto. A esse primeiro serviço sucederam-se ovos e um prato de verduras cozidas, tão arduamente temperadas que, se fossem ingeridas de atropelo, poderiam parecer carvão em brasa.

Felizmente, para aliviar o ardor dos pratos anteriores, sucedeu-se uma salada de pepinos acebolados, servida junto a uma enorme galinha. O pão apareceu à mesa apenas em pensamento. Contudo, apesar do receio de cometer uma indignidade, digo preferir esse tão vulgar alimento ao caldo de mandioca. Bebemos água pura em grandes goles e, em taças, o vinho Madeira, e o de Lisboa sem misturar água. Ao fim da refeição, serviram bananas, mangas, goiabas, cajus e um doce de coco, que fizeram-me esquecer os por demais tropicais sabores dos condimentos brasileiros.

Post - Aqueduto_ Thomas EnderVista do Rio de Janeiro com o aqueduto do Carioca, ao fundo (por Thomas Ender).

Tão logo deixamos a mesa, o doutor propôs-me subir ao Corcovado, cujo cimo estávamos a ver acima de nossas cabeças. Trouxe-me uma montaria e, depois de alguns minutos, vi-me cavalgando no caminho que conduz à célebre montanha. Faltam-me palavras para descrever toda minha admiração. Eu havia conhecido as criaturas do solo americano apenas em nossos jardins botânicos, aprisionadas em frascos de vidro. Ali, fora da natureza, estendem seus ramos no clima artificial que lhes é oferecido. Nessa nova experiência, fiquei arrebatado ao presenciar o ímpeto vigoroso dessa vegetação, vivendo no seu próprio habitat.

Senti-me feliz e confortável ao sentir o ar morno. E respirei com mil perfumes a me enlouquecer. Ali, brincavam borboletas, grandes como pássaros, e pássaros brilhantes como borboletas. Os primeiros colibris que vi fizeram-me gritar de alegria, buscavam pólen no domo florido da mata. Persegui um coleóptero* (*besouro) e saltei em direção a uma planta em flor. Capturei um daqueles grandes morphos de asas azuladas, cujo vôo errante dificulta quem quiser alcançá-lo. Mas fiz tudo isso com ânimo e agilidade de um jovem.

O caminho da montanha é quase todo margeado por um grande canal, condutor de água potável para a cidade. Esse aqueduto* é obra imensa, do qual se orgulham os habitantes do Rio. É construído com pedras gigantescas e tem mais de uma légua de extensão. Tem cerca de 1 metro de largura e sua altura do solo não excede a 2 metros, exceto na zona urbana, onde é suportado por mais de 20 elegantes e elevados arcos. Aos intervalos, no seu trajeto, foram dispostas estreitas aberturas, para permitir que os fazendeiros das vizinhanças possam ali buscar a água necessária às suas necessidades e aos viajantes para saciar a sede. — * Leia ao final: “O carioca”.

Encontramos jovens negras com seus vasos de argila vermelha, a os encherem usando metades de cabaça ou de cocos. Efusivamente, nos ofereceram o líquido dos potes que carregavam na cabeça e sem cobrar nada por isso.

Post - Cabana CorcovadoAbrigo no alto do Corcovado, com ponte para ligar dois platôs (por Débret).

Depois de 3 horas de marcha, chegamos ao topo da montanha, que destaca-se como uma enorme protuberância no relevo. Ela insinua-se como uma imensa corcova ou corcunda e, daí, surgiu o nome Corcovado*. Naquele patamar, há uma depressão que não se pode ultrapassar com segurança. Em vista disso, o imperador d. Pedro I mandou construir ali uma ponte de madeira, que não mais existe. Surpreendi-me ao constatar vestígios dela, tanto numas barras de ferro cravadas na rocha, no ponto mais alto da montanha, quanto nas ruínas de uma antiga coberta. É uma espécie de abrigo permanente, que o imperador mandou construir. — * Onde está instalado o monumento do Cristo Redentor.

Dizem que o soberano, devido à sua alma selvagem, ao sofrer por certas paixões, tais como as decorrentes de um amor contrariado, da inveja, do ciúme ou de alguma aversão, era amiúde tomado por uma cólera incontrolável. Nesses casos, fatalmente, tanto o ciúme quanto o ódio logo emergiam. E, para controlar a raiva que tendia a crescer, gostava de se refugiar nessa rocha isolada. Lá, contemplando um dos mais belos cenários do universo, acalmava o espírito agitado, identificando-se com o magnífico espetáculo.

Post - Rio visto CorcovadoCentro do Rio de Janeiro, visto do Corcovado (por Débret).

O pico do Corcovado, que se levanta íngreme desde o solo, atinge não menos que 800 metros de altura. O abismo que o rodeia é coberto por uma vegetação vigorosa, ocultando os perigos. Desse ponto de vista, abre-se um horizonte que parece infinito e nota-se, principalmente, o casario pintado de branco, esparramando-se pela cidade. A pouca distância, veem-se as montanhas vizinhas, entremeadas de vales profundos. E, também, o jardim botânico e os lagos interiores, mais a baía, os telhados dos edifícios, as inúmeras ilhas e, por fim, o mar na sua imensidão. Em qual outro lugar do mundo poderia o olhar humano captar, ao mesmo tempo, tantas e tão grandiosas maravilhas?

Já era noite quando descemos do Corcovado mas, de repente, em meio às plantas, vimos surgir milhares de vagalumes*, que nos iluminaram com sua fosforescência. Haviam-me prevenido sobre esse fenômeno, mas sua magnificência surpreendeu-me. Nessa oportunidade, o senhor Gomes não conseguiu impedir-me de sair à caça desses insetos bizarros. Mas, prosseguimos na nossa rota, até chegar à parte da trilha que domina o vale do Anhanguera**. Os vagalumes se multiplicaram, a tal ponto que chegamos a acreditar que, abaixo de onde estávamos, existiria uma enorme cidade iluminada. — * O mesmo que pirilampos. / ** Morro do Anhanguera, no parque nacional da Tijuca. Os bairros da Tijuca e Usina situam-se nesse vale.

Naquele ponto, o nosso bom doutor, pela necessidade de visitar um paciente não muito longe dali, deixou-me aos cuidados do seu negro Gil Blas*, o mesmo encarregado de guardar minhas conquistas da floresta. Desse ponto, o escravo conduziu-me por caminhos estreitos e irregulares, para chegar logo ao Rio. — * Leia ao final: “O doutor e seu criado”.

Post - Teatro S P AlcântaraTeatro de São Pedro de Alcântara (por Loeillot, 1835).

E, para finalizar um dia de muitas ocupações, naquela mesma noite fui visitar o teatro de São Pedro de Alcântara*, maravilha artística da capital, onde se apresenta todo ano uma companhia italiana. O imperador d. Pedro I, grande admirador da música e ele próprio compositor – tal como Frederico da Prússia –, empenhou-se na construção dessa sala(3) e, também, da composição da orquestra, e da companhia que haveria de encantar seus ouvidos. Durante todo seu reinado**, acredita-se, aquele teatro, distante 2.000 milhas da Europa, poderia rivalizar-se com os de Paris, Milão e Nápoles. — * Hoje, João Caetano. / ** D. Pedro I abdicou em 07.04.1831, retirando-se para Portugal. Na época da visita, o imperador já era d. Pedro II, que contava 18 anos de idade.

Mas, que pena! Quando o visitei, o teatro era nada mais que uma bela sala, onde se apresentava um conjunto medíocre, contando com o auxílio de uma orquestra também medíocre. Assisti a uma apresentação de Norma. A prima dona, ainda bonita menina, representava muito bem a má conduta que era atribuída à personagem, a grande sacerdotisa. A atriz pareceu-me a única digna de elogios. A sala, mal iluminada, tinha muitos espectadores. Os binóculos eram utilizados, tal como em Paris. Os leques eram passionalmente agitados e roubavam a cena. As lanternas fumacentas emitiam uma luz avermelhada.

E, não fossem os negros assentados nas cadeiras ao fundo e mais algumas figuras heterogêneas, teria eu imaginado estar em algum teatro de província da França. Os camarotes são bem espaçosos, a sala possui forma oval com as extremidades cortadas. O palco tem, à sua frente, um camarote esplendidamente decorado, reservado ao imperador.

Além do italiano, o Rio possui um teatro francês, onde se apresentam peças de vaudeville e drama. Ali detestei os atores, mas achei as atrizes bonitas. Pareceu-me serem elas o atrativo principal, para assegurar algum sucesso a todas as encenações. Verdade é que, por serem homens a maioria dos espectadores, aplaudiam mais por galanteria.”

O dr. Yvan permaneceu por mais algum tempo no Rio (continua no próximo Post).

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SumA gênesis do carioca

No século XVI, o mercenário alemão Ulrich Schmidl(4), integrante da expedição de Pedro Mendoza(5), percorreu terras da América do Sul e pôde vivenciar inúmeras experiências. Delas, fez um relato em “A admirável navegação realizada pelo Novo Mundo entre o Brasil e o Rio da Prata, entre os anos 1534 e 1554”. A primeira edição foi publicada em 1567. O texto faz referências aos índios carios, com o complemento de uma ilustração. De outro modo, são ditos carijós. Eles viviam em tribos que multiplicavam-se por vasta extensão da costa leste.

Pouco depois, em 1556, um jovem sapateiro e seminarista francês, Jean de Léry(6), acompanhou um grupo de ministros e artesãos protestantes em uma viagem ao Rio de Janeiro. Naquele tempo, era a denominada França Antártica – colônia francesa –, então estabelecida na baía de Guanabara. Disse Léry também ter encontrado os carios, que viviam junto a um rio. Sua aldeia tomava o mesmo nome de um curso d’água: o lugar Kariauh bè.

Post - Página LéryA palavra carios, na página 350 do livro de Léry (edição de 1578).

O viajante Léry(6) escreveu a “História de uma viagem à terra do Brasil”, onde revela a palavra, assim:

“Kariauh-bè — Nessa aldeia assim dita ou nomeada, que é o nome de um pequeno rio, do qual a aldeia toma o nome, em razão dela estar assentada perto, é entendida como morada dos Karios, sendo composto este nome de Karios e auq – que significa casa –, e, ao apor-se os e ajuntar-se auq, será Kariauh e be: é o artigo do ablativo, que significa o lugar que procuramos ou queremos ir.” (7)

Por sua vez, os portugueses passaram a dizer Carioca, ao denominar o mesmo rio. Portanto, a explicação para a palavra carioca pode ser mesmo esta: “a morada dos carios”. Desse modo expressa tanto o nome do curso d’água, quanto o gentílico do Rio de Janeiro.

Quando sequer existia cidade, as águas do Carioca* já eram bem conhecidas e muito utilizadas. Em sua foz, na atual praia do Flamengo, abasteciam-se de água os navios que ali aportavam. Em virtude disso, a região era conhecida como Aguada dos Marinheiros. E para captar água do rio Carioca, construíram o aqueduto que levou o mesmo nome. Começava na floresta das Paineiras, chegando ao reservatório do morro de Santo Antônio. No meio do caminho, no lugar denominado largo da Carioca, existiu um chafariz, originalmente com 16 bicas e que depois foi ampliado. — * Rio Carioca é do gênero masculino e carecem ser explicadas as demais flexões para “da Carioca”.

O doutor e seu criado

No Rio de Janeiro viveu, por longos anos, o anfitrião do dr. Yvan, o dr. Antônio Ildefonso Gomes de Freitas(8), casado com Rita Carolina Nascentes Pinto. Era natural de São Miguel do Piracicaba (MG)hoje, Rio Piracicaba –, situada no vale do Rio Doce. Filho de Josefa Tomásia Cupertino Gomes e do capitão Antônio Gomes de Abreu e Freitas, fazendeiro culto, que dominava o francês, o italiano e o latim. Esse homem, na sua propriedade de nome Rochedo, fabricava ferro; noutra, a fazenda de Itajuru, costumava receber gente importante e intelectuais, muitos convidados pelo dito filho.

Mesmo antes de estudar medicina, o jovem Antônio Ildefonso já mostrava vocação pelo estudo das ciências naturais. Levado por esse interesse, acompanhou a expedição do barão Langsdorff(9); e de outra, sob o comando de Auguste de Saint-Hilaire(10) que, no livro “Voyage dans les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Geraes”, dedicou-lhe algumas palavras:

“Nosso amigo, o sr. Antônio Ildefonso Gomes veio ao nosso encontro na povoação de Catas Altas. […] À tarde, chegamos a Itajuru, onde morava o pai do sr. Ildefonso, que nos recebeu com a maior amabilidade. A habitação […] é das que se chamam fazendas, nome reservado às propriedades rurais de certa importância… […] O pai do sr. Gomes fora um dos mais ricos mineradores da província e eu próprio vi […] uma escavação* (*cata de ouro) que o tornara possuidor 3 milhões de cruzados.

Julgando que sua jazida era inesgotável, […] esbanjara o ouro, à medida que o extraía do solo. Se era padrinho de uma criança, fazia à comadre um presente de 10 mil cruzados. Dava festas e não se preocupava com o futuro. Entretanto, perdeu em pouco tempo 500 escravos. Sua jazida se esgotou; a brilhante fortuna evaporou-se e o sr. Antônio (Ildefonso) Gomes foi obrigado a se entregar ao comércio para resgatar a herdade do seu pai.

[Certa feita, o sr. Gomes, pai de Ildefonso] fora encarregado de observar a conduta de um administrador de uma habitação. Este, para se desembaraçar de uma vigilância inoportuna, denunciou-o como sendo assassino de um homem que havia desaparecido. À força de investigações e grandes dispêndios, o sr. Gomes acabou por descobrir que o indivíduo, de cuja morte o acusavam, retirara-se para os confins da província de Goiás. Descoberto na calúnia, o denunciador perdeu o emprego e caiu em profunda miséria. Mas, conhecedor do caráter generoso de quem quisera infelicitar, foi a ele que recorreu na adversidade. E o sr. Gomes sustentou-o de modo digno, até o último momento de sua vida.

Post - JornalAs virtudes de Ildefonso no “Correio Mercantil” (RJ).

Se o sr. Antônio (Ildefonso) Gomes não sucedeu seu pai na fortuna, herdou-lhe as virtudes. E, realmente, é um dos homens mais dignos que tenho encontrado em minha vida. É impossível encontrar melhor pai e quem possa honrar mais a paz e a justiça; ter alma mais pura e piedade mais sincera. Estudou no seminário de Mariana*. Compreende bem o latim, o italiano e o francês, e sua conversação é atraente e espirituosa. Escutava-me com interesse, quando lhe falava da França e da minha família, e comprazia-se, por sua vez, em ensinar-me sua língua e informar-me sobre os costumes do país.” — * Mariana: primeira capital de Minas Gerais.

Devido aos tratamentos que preconizava, com a utilização da hidroterapia, Antônio Ildefonso ficou também conhecido como Doutor Água Fria. Foi também um dos pioneiros do uso da homeopatia no país, tendo sido um dos dez fundadores da Academia Médica Homeopática do Brasil, em 04.10.1847. Em 1848, publicou um “Manual de hidro-sudo-terapia”, ensinando como curar inúmeras doenças através de suadouros, água fria, regime e exercícios.

Post - Jornal 1O médico homeopata no “Correio Mercantil” (RJ). Pobre não paga.

O dr. Antônio Ildefonso foi sempre muito sensível às questões sociais e às misérias humanas. Foi com essa postura que exerceu a medicina, privilegiando os pacientes e praticando a caridade em prol dos mais desassistidos. Além disso, mostrou-se ferrenho defensor da abolição da escravatura. Ao ser eleito deputado, amiúde manifestava-se nesse sentido.

Movido por esse mesmo espírito, atribuiu o nome de Gil Blas ao seu servidor, imaginando que ele pudesse, eventualmente, ter um futuro luminoso. Infere-se que a inspiração tenha vindo de um personagem da novela picaresca* “Gil Blas de Santillana” (11)– ambientada na Espanha – e escrita no início do século XVIII. — * Picaresco = burlesco, ridículo; próprio de pícaros – pessoas astutas e dissimuladas –; personagens típicos da literatura espanhola dos séculos XVII e XVIII; antes de tudo, os picarescos são grandes mentirosos.

Post - Gil BlasUm assaltante toma algumas moedas de Gil Blas, logo na saída para Salamanca. 

Na ficção, Gil Blas, filho de um cavalariço e de uma moça simples, nascido em Santillana del Mar – Cantábria – fora criado por um tio, em Oviedo, até os 17 anos de idade. Pois nesse momento, afim de avançar nos estudos, o protetor decidiu enviá-lo para Salamanca. Contudo, ao empreender a viagem, montado numa mula e dispondo de umas poucas moedas, levava também consigo sua santa inocência. Assim sendo, enfrentou várias vicissitudes: perdeu seu dinheirinho, sua montaria e foi escravizado por uma corja de bandidos. Mais adiante, quando se viu liberto, foi obrigado a trabalhar de criado para vários patrões.

Porém, com o correr do tempo e graças à sua inteligência, passou a conhecer melhor o mundo e as gentes. Todas, desde a ralé, passando pelos nobres e inclusive os eclesiásticos. Contudo, disso soube tirar proveito, de modo que acabou por galgar a posição de favorito do rei de Espanha e, também, tornou-se secretário do primeiro ministro. Até que, como recompensa por seu competente trabalho, adquiriu fortuna e foi viver retirado num castelo, como coroação de todos os seus sonhos.

Caminho para as nuvens

Agora, falando um pouco de d. Pedro I…  Como príncipe regente, passou a governar o Brasil, desde que seu pai d. João VI retornou a Portugal, em abril de 1821. Mas logo foi tomado pela ideia de emancipar o país e, também, procurou proteger a costa brasileira – de Cabo Frio ao Rio de Janeiro –, instalando mirantes para vigiar inimigos que pretendessem atacar pelo mar. O pintor Jean Baptiste-Débret, em sua obra de textos e desenhos “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil” (12), descreveu como foi feita uma instalação com o referido objetivo, no alto do morro do Corcovado. Na sua construção, houve efetiva participação do imperador. Resumindo Débret:

Post - Incisão

Incisão numa árvore: término da trilha (Débret).

“… [d. Pedro I] preocupou-se em aplicar seus conhecimentos […] de modo a estabelecer um caminho que pudesse ser percorrido a cavalo, através da densa vegetação virgem […] Pessoalmente responsável por essa empresa, todos os dias, desde o nascer do sol, ele dirigiu os trabalhos com habilidade, tomando consciência da natureza do solo, de modo a atingir em pouco tempo o seu propósito. Fez, em seguida, uma balaustrada no alto da montanha, onde há um pequeno platô de granito, separado por uma fenda entre um pico e outro – mais adiante –, mas que pôde ser alcançado por uma pequena ponte de madeira.

Graças ao difícil trabalho, foi possível ao viajante chegar naquele ponto culminante e admirar o cenário, que abrange tanto o interior como o exterior da baía, donde se vê o Cabo Frio e a Ponta Negra. Os demais limites são as montanhas ao longe. Desde então, o passeio ao Corcovado tornou-se um dos passeios da corte, dos estrangeiros e do resto da população trabalhadora que ali passa os domingos.

Perto do cume da montanha e próximo da fonte de água mais elevada, há uma clareira aberta na mata, apropriada para uma breve parada e destinada tanto para os momentos em que o imperador deseje acampar, quanto para aqueles dias em que a corte queira fazer um piquenique. Note-se que, numa determinada árvore, há uma incisão* feita pelas mãos do imperador: IP / 18 ⋅ 22 2 ⋅ 24 — * Interpretação: Imperador Pedro / 22 fevereiro / 1824.

Contudo, à época do falecimento* da sua mulher – a imperatriz Leopoldina –, já havia a civilização europeia importado também seus abusos. Desse modo, alguns colonos estrangeiros, marginais e soldados desertores brasileiros, constituíram brigadas armadas, recrutando também alguns negros fugitivos, e foram viver ao pé do Corcovado. E, pelas dificuldades de eliminar esses malfeitores, que inquietavam os moradores desse lado do aqueduto, considerado pouco seguro, pouco a pouco renunciaram ao costume dos passeios ao Corcovado. Em seguida e pelos mesmos motivos, o posto de telégrafo (com sinalização por bandeiras) foi abandonado, logo desaparecendo o resto de sua frágil construção.” — * Falecida em 11.12.1826.

Texto, tradução, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) Brest – cidade francesa, localizada na região da Bretanha, sede do departamento de Finistère.

(2) MECHIOR-HONORÉ, Yvan – (Digne-les-bains, France, *06.03.1806 / Carros, France, †15.04.1873) Médico, político e viajante.

(3) O primeiro teatro construído no local, outrora denominado Campo dos Ciganos (hoje, praça Tiradentes), inaugurado em 12.10.1813, levou o nome de Real Theatro de São João, em homenagem ao príncipe regente d. João VI. O responsável pelo projeto foi o marechal-de-Campo João Manoel da Silva. Anos depois, foi renomeado como Theatrinho Constitucional (1824). / Em 25.03.1824, quando se comemorava o juramento da constituição do Império do Brasil e durante a representação do drama a “Vida de Santo Hermenegildo”, irrompeu um incêndio provocado involuntariamente por um ator, que reduziu a construção a quase nada. Reconstruído, sucessivamente tomou as denominações de Imperial Theatro São Pedro de Alcântara (1826), Theatro Constitucional Fluminense (1831), Theatro São Pedro de Alcântara (1839) e, finalmente, Teatro João Caetano (1923).

(4) SCHMIDL, Ulrich – (Straubing, *1510 / Regensburg, +c 1579-81) Soldado e viajante. Autor de “História verdadeira de uma viagem curiosa feita por U. Schmidl”, Frankfurt, 1567. É um relato da sua participação da conquista e colonização do rio Paraná, durante 20 anos. Uma das primeiras crônicas sobre os territórios e povos da Argentina e Paraguai de hoje.

(5) MENDOZA, Pedro – (Guadix, Granada, *c1499 / Canárias, Oceano Atlântico, †23.06.1537) Militar de origem nobre, primeiro governador do Rio da Prata e fundador de Buenos Aires.

(6) LÉRY, Jean de – (Côte-d’Or, France, c.*1536 / Suíça, †c.1613) Pastor, missionário, escritor e membro da igreja reformada de Genebra, na fase inicial da Reforma Calvinista.

(7) LÉRY, Jean de – “Histoire d’un Voyage fait en la Terre du Brésil, autrement dite Amérique”, editor Antoine Chuppin, La Rochelle, 1578, p. 350.

(8) FREITAS, Antônio Ildefonso Gomes de – (São Miguel do Rio Piracicaba, MG, *1794 / Rio de Janeiro, RJ,†29.10.1859)

(9) LANGSDORFF, Georg Heinrich von – (Wöllstein, *18.02.1774 / Freiburg im Breisgau, †29.06.1852) Naturalizado russo. Foi médico, diplomata, naturalista e explorador. Esteve no Brasil pela primeira vez em 1803, retornando à Europa em 1820. Em 1822, outra vez chegou ao Brasil, como embaixador da Rússia no Rio de Janeiro. Em 1824, percorreu Minas Gerais numa expedição; em 1825, a São Paulo; em 1826, ao Mato Grosso. Seu périplo encerrou-se em 1829, depois de passar pelo Pará, quando então retornou ao Rio de Janeiro.

(10) SAINT-HILAIRE, Augustin François César Prouvensal de – (Orléans, France *04.10.1799 / Sennely, France †30.09.1853) Botânico e explorador.

(11) LESAGE, Alain-René – (Sarzeau, France, *08.06. 1668 / Boulogne-sur-Mer, France, †17.11.1747) Romancista, teatrólogo e tradutor. Sua obra mais conhecia é “LHistoire de Gil Blas de Santillana”, publicada em quatro volumes, entre 1715 e 1735. // O famoso crítico literário Jean-François de La Harpe (*1739†1803) disse que Gil Blas é uma obra prima, um daqueles livros que vale a pena ler e reler, e sempre com gosto, por ser um modelo moral e porque representa a vida humana. Expõe personagens e situações, de modo a permitir sempre extrair delas alguma lição. A máxima de tão excelente livro deveria ser utile dulci* (*o útil misturado com o agradável), porque está todo temperado com um humor de boa qualidade.” // Esse estilo literário surgiu na Espanha, durante o período de transição do Renascimento para o Barroco – no denominado Século de Ouro –, e floresceu na Europa dos séculos XVII e XVIII. Mas não desapareceu de todo, pois continua a influenciar a literatura moderna. Contudo, os precursores do gênero picaresco são ainda mais antigos. Um dos textos conhecidos data de 1554: é a novela “La vida de Lazarillo de Tormes y de sus fortunas y adversidades”, de autor anônimo.

(12) DÉBRET, Jean-Baptiste – (Paris, *18.04.1768 / Paris, †28.06.1848) Desenhista, pintor e professor de arte. Membro da Missão Artística Francesa (1817) e fundador da Academia de Artes e Ofícios, mais tarde Academia Imperial de Belas-Artes, onde lecionou. / Obra citada: “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil” – Tomo III – Impresso por Firmin Didot Frères, Paris, 1839.

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16 Comentários »

  1. Eduardo: Uma história proveitosa e muito interessante.
    Parabéns!
    Maria Marilda – Lagoa Santa, MG

    Comentário por Maria Marilda pinto Corrrea — 01/05/2017 @ 12:46 pm | Responder

    • Marilda:
      Quem bom você ter gostado. Muito obrigado e
      um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/05/2017 @ 2:31 pm | Responder

  2. Parabéns por mais essa maravilhosa pérola da crônica cotidiana do meu amado Rio de Janeiro. Podemos entender melhor a gênese do caos e do desamparo a que chegamos por aqui. Um abraço, Cassia M. Foureaux Bhering

    Comentário por cassia Foureaux — 01/05/2017 @ 4:40 pm | Responder

    • Cassia:
      Visitei muita vezes o Rio e lá morei, sozinho, em 1959/60. Conheci toda a cidade montado numa motocicleta e sobrevivi para escrever este Post. Guardei boas memórias do Rio, bem como muita saudade.
      Muito obrigado pelo comentário e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/05/2017 @ 6:09 pm | Responder

  3. Há momentos mágicos, quando tudo conspira para a beleza: O Post anterior, “O inventor do passado” nos oferece um momento desses e soma com o de agora, com essa viagem pelo “Rio antigo I”. Numa leveza de “caminhar nas nuvens”, descobrimos a cidade maravilhosa pelos olhos de um francês, disposto a usufruir de tudo o que lhe era oferecido naquela terra de sonhos – aliando-se a ilustrações preciosas, levando-nos a uma reconstituição formidável da época.
    Há muita informação a ser degustada e com muita calma…
    Deixo aos outros a tarefa da análise. Para mim, reservo a releitura do texto cada vez que quiser mergulhar no belo. Penso que, se analiso, a magia se desfaz, a natureza se cala, os colibris, besouros e borboletas se vão e o sol do real apaga as luzes dos vagalumes (ou pirilampos)… Obrigada por tanta lindeza, Eduardo!

    Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 02/05/2017 @ 9:30 am | Responder

    • Vania:
      Seu comentário enche-me de alegria e vontade de continuar com meus textos.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/05/2017 @ 2:48 pm | Responder

  4. Eduardo, você tem com o Rio uma relação de intimidade que eu não tenho. Conheço pouco o Rio, resultado de umas poucas e breves viagens, feitas há tempos. O Rio do passado, a descrição de suas belezas e de seu povo, no entanto, mexeram comigo. Às vezes, é necessário o olhar de um estrangeiro para abrir os nossos olhos para as belezas que nos cercam. Quase sempre, é necessário o trabalho de alguém para nos colocar em contato com esses olhares que, por nós mesmos, seríamos incapazes de descobrir. Meu sentimento é de gratidão.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 08/05/2017 @ 7:44 pm | Responder

    • Pedro:
      Morei num Rio que não existe mais, em 1959 e 1960. Naquele tempo era jovem e motociclista. Por isso, pude percorrer a cidade de cabo a rabo. Sobrevivi, mesmo equilibrando sobre duas rodas e, agora, com o relato do francês, consegui deslocar-me ao século XIX. Como é bom viajar tendo o auxílio de uma boa leitura!
      Muito obrigado e um abraço do
      Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 08/05/2017 @ 9:33 pm | Responder

      • Sr. Pedro,
        Interessante sua observação sobre o olhar. É que estudei cinema, em Paris, em meio a etnólogos/cineastas/documentaristas. A discussão se o olhar estrangeiro vê melhor que o do autóctone, deve perdurar até hoje. Acho que depende de quem olha – Eduardo vai de microscópio a binóculo e é matreiro o suficiente para nunca se enganar.
        Numa retrospectiva de filmes sobre Brasil e religião, num filme da época do cinema mudo, uma equipe alemã vestida de Jim das Selvas tirou uns cinco índios da oca mal iluminada e, acho, pediram que se deitassem para mostrar como dormiam. Os índios tiraram a maior onda, batendo no peito e dissimulando sorrisos. Aquilo foi batizado de uma espécie de xamanismo, pelos presentes. Imagino as discussões que suscita o filme, entre os europeus…
        Aproveito para registrar o nome de um grande etnólogo/cineasta: Jean Rouch – com ele teve início a etnologia partilhada com os autóctones aprendendo a filmar, através de ateliês na África, Europa, e mesmo Brasil, dentre outros países.

        Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 10/05/2017 @ 12:51 pm

      • Vania:
        Repassarei sua mensagem ao meu leitor Pedro.
        Abraço do Eduardo.

        Comentário por sumidoiro — 11/05/2017 @ 7:22 am

  5. Sabe o que me aconteceu? Voltou aquela vontade maluca de poder viajar no tempo. Vontade de conhecer este Rio de Janeiro antigo. Pelo menos pude imaginar direitinho como era, nesse texto tão rico em detalhes. Gostei muito do Dr. Antônio Ildefonso que, creio, se eu tivesse morado ali naquela época, o teria como meu médico particular. O texto do Dr. Yvan Melchior-Honoré é realmente curioso. Conta o que sente sem cerimônia. Se não gosta de alguma coisa, não hesita em dizer. Os atores eram péssimos! E o horário do jantar? Duas da tarde. Como mudou. Minha mãe dizia que jantava às três horas da tarde. Mas este costume era apenas na parte da minha cidade conhecida como Rua de Baixo. Ela casou-se com um rapaz da Rua de Cima e levou o maior susto com os horários diferentes para tudo. Jantar às sete horas da noite! Ela mudou, mas não mudou a forma de falar e por muitos anos eu não atendia o porque “do café do meio-dia” era servido às 3 horas da tarde. Até que descobri: na Rua de Baixo o café era servido ao meio-dia. Almoço ás nove da manhã. E jantar às três horas. Então, no Rio de Janeiro, era ainda mais cedo.
    O Saint-Hilaire que você citou também andou por aqui, Montes Claros. Nossa cidade é citada no seu livro.
    Obrigada por mais esta aula deliciosa de História.

    Comentário por sertaneja — 10/05/2017 @ 1:18 am | Responder

    • Cara Sertaneja,
      Aprecio seus comentários. Este é bastante maluco com a confusão dos fusos horários da rua de Baixo para o da rua de Cima. Hoje em dia, exigiriam passaporte e a Polícia Federal iria verificar se o casamento da sua mãe era de verdade, ou “casamento branco” – como se chama na França -, apenas para ter direito a ficar no território. Realmente, Eduardo está fazendo escola: escreve maravilhas e seus leitores respondem à altura.
      P.S.: Onde fica seu Sertão?

      Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 10/05/2017 @ 12:31 pm | Responder

      • Vania:
        Minha leitora Virgínia – a sertaneja – é de Montes Claros (MG). Ficamos nos conhecendo virtualmente, através deste meu Blog.
        Abraço do Eduardo.

        Comentário por sumidoiro — 11/05/2017 @ 7:33 am

    • Virgínia, sertaneja:
      Muito obrigado pelo comentário. Aguarde a continuação.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 11/05/2017 @ 7:30 am | Responder

  6. Vania! Eu aprendendo também com você. Nunca tinha ouvido falar em “casamento branco”. Seu comentário foi bastante divertido. Fiquei imaginando as dificuldades dos meus pais, caso o problema da Rua de Baixo e a Rua de Cima fosse nos dias de hoje. Eduardo já lhe respondeu que sou de Montes Claros, norte de Minas. Acrescento apenas que sou do Sertão de Montes Claros, onde o zabelê piou chorando. Conhece a música?

    Comentário por sertaneja — 12/05/2017 @ 3:20 am | Responder

    • Sertaneja,
      Você também é muito divertida. Aliás, qualidade dos seguidores do Guru Eduardo. Não conheço a música, mas Montes Claros já conhecia de leituras as mais variadas, incluindo “Minha Vida de Menina”, de Helena Morley (Alice Caldeira Brant), um dos meus livros de cabeceira (morro de rir, desde os anos 1960). No livro, falam que ela herdara o humor inglês do pai, mas acho que mesmo sem pai inglês os mineiros têm um humor especial! Abraços!

      Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 12/05/2017 @ 7:40 am | Responder


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