Sumidoiro's Blog

01/06/2017

RIO ANTIGO (II)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:44 am

♦ A cidade e os arredores

Em 1844, o médico francês Yvan Melchior-Honoré, acompanhando uma missão oficial francesa, chegou na então capital do Brasil, em 28 de janeiro.(1) Este Post é o segundo, em seguimento ao anterior, parte do relato que fez da sua visita.

post-palacio-s-cristova%cc%83oResidência imperial: Paço de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista.

NA CIDADE

logo que chegamos ao Rio de Janeiro, visitamos diversos estabelecimentos dessa grande cidade. Escalamos as montanhas, percorremos por todo lado a graciosa baía, vimos as ilhas que ela abriga e, enfim, perguntamos: ‘- Quem aqui governa?’ Enganar-se-ia aquele que imaginasse quem seriam aqueles homens postados sob os arcos do Paço Imperial*, vestidos em trajes militares e em permanente ócio. Tampouco seriam os raros padres vistos nas ruas, quem pudesse levar-nos a acreditar que tudo giraria em torno da sua força moral, à qual o povo estaria submetido. — * Palácio Imperial e sede administrativa.

Por outro lado, dúvida não resta, seria necessário procurar o poder naqueles que possuíssem propósitos mais elevados. Porém percebe-se logo que, neste país distante, poucos são os homens dedicados ao benefício do povo, embora nem agentes secundários para tanto existam. Cada indivíduo age por si só, sob sua própria vontade e seus interesses, dentro do que, aparentemente, lhes parece permitir a lei. Enquanto aguardava a apresentação da minha comitiva à sua majestade – o Imperador –, essas dúvidas tomaram conta do meu pensamento.

post-pac%cc%a7o-imperialPaço Imperial – sede do governo e casa de despachos –, no centro da cidade.

O encontro com d. Pedro II teve lugar no Paço de São Cristóvão, residência oficial, situada a pouca distância da capital, num lugar bem arejado e de uma perfeita salubridade. O Imperador possui um porte elegante, sua fisionomia é grave, embora juvenil, denotando também inteligência e bondade. Cabelos louros e olhos cobertos por longos cílios, dão ao seu rosto uma expressão de charmosa candura*. — * D. Pedro II tinha 18 anos de idade e estava recém-casado.

Sua majestade vestia dragonas de tenente-general e o traje completo fazia lembrar o velho uniforme da cavalaria. Mas não se tratava de uma vestimenta autenticamente militar, a qual faria completar sua postura naturalmente distinta. Gostaríamos de ter sentido um sinal de mais de ousadia e mais poder vindos do comandante, nesses dias de fundação do vasto e ainda mal organizado império. Além disso, sua aparência denotava pouca propensão à pratica de exercícios físicos mas, talvez, lhe faltasse a energia necessária.

Recebemos do imperador boas-vindas, com gentileza e simplicidade. Fomos também apresentados à Imperatriz e à princesa Januária*, que fala francês com extrema desenvoltura e graça. Quando estivemos no palácio, nossa acompanhante, a senhora Lagrené, permaneceu conosco por mais de 1 hora. Depois que nos retiramos, ainda ficou lá por muito tempo. Na nossa audiência, estávamos liderados pelo senhor Lagrené(2), ministro plenipotenciário e chefe da missão. Ele estava acompanhado da esposa, senhora Lagrené e duas filhas, senhoritas Gabrielle e Olga. — * Januária, irmã de d. Pedro II e filha de d. Pedro I.

post-pedro-palacioD. Pedro II, em 1842. Ao fundo: Paço de São Cristóvão, na configuração mais antiga.

O palácio de São Cristóvão não tem a mesma grandeza e magnificência de Saint-Cloud, de Neully, nem de qualquer das residências reais da França. Entretanto, tudo ali é confortável e de bom gosto. O Imperador, que ama apaixonadamente a literatura francesa, coleciona muitos livros da nossa língua e, numa sala, vimos novidades literárias da França, arranjadas sobre mesas e porta-livros.

É impossível passar pela residência imperial sem ter lembranças da mademoiselle princesa de Joinville* que, quando morou nessa casa, foi seu ornamento e deu-lhe vida. As boas memórias que deixou e o interesse pelo seu nome ainda repercute no Rio. São resultado dos seus melhores sentimentos de afeto, os mesmos que incutiu à sua nova família na França(3). — * Francisca, irmã de d. Pedro II, havia se casado.

De São Cristóvão partimos ao fim do dia e vimos numerosas viaturas passando ao nosso lado. Havia muita movimentação em torno do palácio. E não poderia ser de outra forma, o ministério fôra dissolvido e estavam a constituir outro. Para nós, isso não despertou maior interesse e, por isso, logo nos afastamos. Porém, continuamos pensando no jovem imperador, calmo e sério, em cujos ombros repousavam os destinos de um imenso império. Nessas condições, via acumular inúmeras demandas em torno de si. Consequência daquilo que havia prometido às pessoas de bom coração e inteligência elevada.

post-teresa-_-francisca-_-januariaImperatriz Tereza Cristina. / Francisca – princesa de Joinville – e Januária, irmãs de d. Pedro II.

Os brasileiros de origem portuguesa, por serem homens de raça ibérica, têm hábitos descuidados, mas são ardentes e apaixonados em suas ações. Por vezes, tornam-se exaltados e vingativos, sobretudo quando tomados pela ambição ou pelas paixões, tais como a raiva ou o amor. Por outro lado, nota-se que é próprio deles evitar convivências muito próximas. Em vista disso, em sua maior parte, vivem fechados em seu núcleo familiar. São verdadeiros santuários, onde ninguém entra com facilidade, porque mantêm as portas sempre cerradas.

Por outro lado, quando alguém se atreve a lançar um simples olhar às suas donzelas cativas, sua mulher legítima ou seu escravo, o chefe despótico redobra as precauções. Pelo lado da religiosidade, mostra-se de profunda ignorância e se atêm apenas às práticas exteriores do culto. Nesse aspecto, o guia espiritual não exerce sobre ele qualquer influência e não poderia ser de outra forma.

Nessa terra, a maioria dos padres são europeus e foram afastados da sua diocese por algum delito. É o motivo pelo qual foram recolhidos a essas longínquas paragens mas, apesar disso, continuam a demostrar falta de qualquer reserva no seu comportamento. A hierarquia episcopal é impotente para manter a disciplina e quase não existem sacerdotes nativos. A única maneira de regenerar esse corpo gangrenado, seria subordinar a administração das paróquias a uma congregação religiosa. Tomei conhecimento de que, para tentar corrigir esse péssimo estado de coisas, alguns sábios prelados haviam feito gestões no sentido de que se enviassem missionários.

post-m-yvan← Doutor Yvan Melchior-Honoré.

O enfraquecimento da fé entre a população é um sinal de deterioração do caráter nacional. Por outro lado, se vê que toda essa gente da cidade vai adquirindo, dia-a-dia, um caráter cada vez mais francês. Essa tendência é facilmente explicável, pelo fato de grande número de brasileiros terem estudado na França. As pessoas de maior influência social, tais como médicos, advogados e jornalistas, são franceses. Além do mais, devido ao hábito que têm em adquirir seus objetos dos desejos das mãos de comerciantes franceses, tais como aqueles de moda pessoal, os móveis, vinhos e tecidos, acabam então por se identificarem, cada vez mais, com o nosso estilo de vida.

Digo ainda, sem falso orgulho, que a civilização francesa penetra não apenas pelos seus próprios agentes, mas graças a certas mulheres que, ao verem aproximar seu próprio outono, fazem tudo para imitar o que há de melhor em Paris. Por isso é que se vê, em certos salões do Rio, pessoas a praticarem os mesmos hábitos fúteis de Mabille* e Chateau-Rouge**. Infelizmente, o modelo que vem de outro país, faz com que eles também adotem muitos dos seus vícios e menos das qualidades. — * “Le Bal Mabille”: salão de dança, fundado em 1831 – Paris; ainda existe. / ** Praça do “Chateau Rouge”, situada no “18º arrondissement” – Paris.

Tão numerosa é a população de origem francesa no Rio que, nos arredores da cidade, instalaram-se casas noturnas e cabarés populares, frequentados quase que exclusivamente por operários do nosso país.

post-m-delahante

← Fernand Delahante, diplomata francês.

Num dia de domingo, eu e o senhor Fernand Delahante(4), estávamos a descer do Corcovado, mas já atormentados pela fadiga. Porém, em certo momento, necessitando reparar nossas forças, saímos procurando por um repasto n’algum lugar. Por ali mesmo, alguém nos indicou uma venda, situada a alguns passos do nosso caminho. Então, subimos um aclive e deparamos com uma pequena colina coberta de árvores floridas. No momento em que nos aproximávamos da habitação, ouvimos gargalhadas e cantorias bem francesas, um anúncio de que iríamos encontrar compatriotas e com quem faríamos amizade.

Chegando lá, de fato deparamo-nos com uma quarentena de jovens operários. Havia numerosas mesas cujos apoios eram tonéis e, em torno delas, cantavam e bebiam com alegria recordando a pátria! Além do vinho e dos convivas, tudo era francês, e mais a dona do cabaré, a senhora Breissan – mulher exuberante e alegre. Ela possuía resposta pronta para qualquer pergunta e parecia ser muito querida pela clientela. Então, logo aderimos à pequena multidão e, com esses bravos e efusivos convivas, passamos a repartir prazeres. Não faltaram os temperos, nem os vinhos.

A maioria dos operários orgulhava-se da sua posição e nenhum deles se arrependia de ter abandonado seu país, por algum tempo, para fazer fortuna. Contudo, suas conversas não tinham por tema a França, embora de vez em quando denotassem saudade. ‘- Ah! Se a França tivesse o clima do Rio, a baía do Rio, os ferros e o carvão da Inglaterra!’, gritavam a uma só voz. Porém, nenhuma palavra soava de modo a acreditar que faziam isso ou algo mais pela pátria!

Mal sentamos à mesa comum, abordaram-nos com vivacidade querendo saber notícias. A cada pergunta, denotavam o mais vivo e verdadeiro amor pela terra natal. Indaguei, à senhora Breissan, se os operários de outras nações frequentavam seu estabelecimento. Ela respondeu:

post-alto-corcovadoVista do alto do morro do Corcovado (por Alfred Martinet).

‘Aparecem alguns, de vez em quando. De todo modo, aqui as coisas têm ido bem, a não ser pelo pagamento que recebemos pelo trabalho e pela precária qualidade das mercadorias, e bem como pela pouca clientela. Porém, quando o tema das conversas é a França e suas batalhas, as cabeças se esquentam, surgem conflitos, brigam e não há como se entenderem.

Outro dia, entraram em luta com uns ingleses que, embora sejam calmos na aparência, não são menos sensíveis quando se trata da honra nacional. Prefiro vê-los apartados e, se brigarem, desejo que não se machuquem.’

Essas palavras da senhora Breissan bem definem o caráter dos nossos trabalhadores no exterior. Seu calor patriótico é sempre excessivo, arrogante e mesmo um pouco selvagem. Isso se dá porque essa gente ingênua entende que somos superiores em tudo. E, em caso de discussão, não encontram argumentos que possam substituir a força muscular que Deus lhes deu. Foi nesse ambiente que passamos uma parte da tarde a contar casos, entre nossos bravos compatriotas, até que partimos, encantados com sua verve, sua franqueza e seu bom humor.”

NA TIJUCA

o dia seguinte, levantei-me às 5 horas da manhã para visitar o lugar chamado Tijuca, situado a pouca distância da cidade. O dia estava delicioso, o frescor do ar e o céu, de uma pureza admirável. Decidi então juntar-me ao pessoal do meu grupo que, não contando comigo, já havia partido. Tão logo me aprontei, escolhi um bom cavalo e saí alegremente a galope, pela estrada que conduzia ao jardim botânico. O caminho é ornado com belas habitações, próximas aos lagos interiores que se comunicam com o mar.

Depois de 1 hora de animado passeio, alcancei os companheiros num lugar muito pitoresco, chamado Gávea. Naquele momento, preparavam-se para atravessar uma extensão de água salgada denominada Lagoa*, comunicante com o mar. — * Lagoa Rodrigo de Freitas. 

post-lagoa-r-freitasLagoa Rodrigo de Freitas (por Nicola Facchinetti, c. 1884).

Éramos muitos, embora contássemos com duas pirogas longas e estreitas, as únicas embarcações que o ‘almirante desse Mediterrâneo’ nos ofereceu. Contudo, para acomodar a todos, ele usou de um estratagema que pareceu-me criativo. Colocou, sobre as pirogas, um par de pranchas largas e amarrou-as fortemente, de modo a todos transportar nesse precário veículo. Depois remou cautelosamente, para realizar a travessia do lago. As margens da lagoa são adoráveis! Em meio a flores azuis, grandes libélulas inclinam-se e banham suas cabeças na água. E há, grudadas nos arbustos, milhares de ostras brancas, que se assemelham a pétalas murchas.

Mas, tenho de confessar: naquele instante, emocionei-me com tanta beleza na natureza. Porém, a cada movimento que fazia, meus companheiros de viagem reprimiam meu entusiasmo, de modo a tornar um tanto cansativas as nossas 2 horas de navegação.

Chegando à terra, dirigimo-nos a uma plantação de café, onde encontramos negros dedicados a almoçar. Eram homens de 30 a 40 anos de idade, escuros como couro envernizado, troncudos e bem musculosos, e pouco vestidos. Uns acendiam o fogo; alguns deles, já agrupados em roda, comiam espigas de milho e conversavam. Outros tantos, permaneciam à beira do lago, recolhendo pequenos crustáceos para assar na brasa ardente.

A ração desses escravos compunha-se de farinha de mandioca, ou milho verde, e alguns crustáceos, que eram acrescentados como suplemento alimentar muito necessário. Ainda estávamos a observar essa cena animada, quando trouxeram nossos cavalos e, dali, retomamos nosso roteiro em direção à Tijuca, onde chegamos 1 hora depois.

post-cascata-da-tijucaOs dois rochedos (à esquerda) e a cascata da Tijuca (por Débret).

Em meio a essa natureza espetacular e plena de magnificência, num país cujos riachos parecem rios caudalosos, há montanhas vestidas de flores. Elas furam as nuvens com seus picos agudos. Há, também, exuberante vegetação que invade até mesmo os rochedos e que deslumbram os turistas quando chegam à Tijuca. Ali, depara-se com um curso d’água de pouca força e com uma cascata que despenca na direção de dois rochedos, de 30 pés de altura*, superpostos um ao outro, alcatifados de trepadeiras emaranhadas e árvores frondosas. — * 30 pés = 9,144m.

Os viajantes mais curiosos têm o dever de guardar essas impressões. Mas, se por ventura as revelarem a outrem, todos que quiserem repetir seus passos devem tirar suas próprias conclusões. Porém, que não sejam influenciados pelos padrões dos viciados em monomanias admirativas! Creio que foi por isso que nossos guias ficaram um pouco frustrados, diante do nosso desapontamento(4) frente a propalada beleza da floresta da Tijuca*. — * Entende-se que os viajantes transpuseram a serra por dentro da mata.

Em compensação, trataram de nos conduzir ao vale do Jacarepaguá (na vertente oposta da serra) que, segundo eles, abriga uma residência imperial*. Ah! Esse edifício é apenas um castelo de recreio, ou simplesmente uma espécie de fazenda. É uma habitação cercada por vasto jardim, onde crescem algumas espécies vegetais originárias da Índia. As lavouras de cana-de-açúcar, de milho e de arroz são o principal ornamento de um terreno fértil. Provavelmente, é pela fartura do que ali se produz, que os brasileiros chamam o lugar de celeiro imperial. — * Talvez a fazenda da Taquara (ver nota ao fim do texto).

Atravessamos Jacarepaguá sem tocar os pés na terra… Tomados pela fadiga, cobertos de poeira, queimados pelo sol, apressamo-nos, até chegar a uma habitação situada ao pé da Pedra da Gávea, montanha que se há que se ultrapassar por quem queira chegar ao Rio*. Nessa outra fazenda, recebemos amável acolhimento de uma francesa – a proprietária –, de modo que, por instantes, pudemos esquecer o cansaço da jornada. — * Retorno margeando o oceano.

Essa senhora tinha por volta de 40 anos de idade, mas aparentava menos, e mostrava-se notavelmente bela. Seus traços eram de adorável perfeição: a testa alta e lisa, os olhos grandes e negros, cobertos por longos cílios, a boca pequena, e sempre com um sorriso. Sua pele, de uma brancura diáfana, era adornada por alguns contrastes, que faziam lembrar pétalas de rosa de Bengala*. — * Flor vermelho-magenta, da região de Bengala; também nome de um corante.

post-rj-atualConcepção artística (simplificada) do Rio de Janeiro atual.

No momento em que chegamos, a bela fazendeira estava recostada num divã instalado no salão do andar térreo e iluminado por tênue claridade do dia. Vestia-se com um penhoar de musselina azul; seus braços e ombros estavam descobertos. Os cabelos negros, trançados com arte, formavam uma coroa enfeitando a cabeça.

Aos seus pés, acomodava-se uma jovem pálida, de aparência doentia e ar contrafeito. Essa pobre criatura, desgraçada, sofredora, privada dos atributos próprios da idade, contrastava com a bela e a vivaz patroa, irradiante em frescor e graça. Embora em idade outonal, a mulher permanecia com todos os charmes da juventude. Era uma demonstração das injustiças da natureza! Diante da serviçal enfastiada e da figura ao divã, meus olhos tentavam encontrar, escondido atrás de uma cortina, algum querubim* vermelho, pronto a pronunciar algumas palavras dedicadas a essa bela rainha. — * Querubins são seres angelicais, que se envolvem na adoração e louvor a Deus. 

Imediatamente, negras de porte elegante nos serviram confeitos e frutas, o que é raro no Brasil. Eram escravas de, no máximo, 20 anos de idade. Seus corpos esbeltos estavam cobertos com uma anágua branca, atada aos quadris, e mais um pano de cor viva a adornarem negligentemente os ombros.

Dizem, no Rio, que nossa bela compatriota chegou ao Brasil logo depois de ter rompido suas ligações com um dos maiores nomes literários da nossa época. A história é pouco crível e, se fosse verdade, o próprio poeta teria trazido tal fato à tona. Nos dez volumes das ‘Confissões’ (6), que ainda desejo ler, gostaria de encontrar alguma alusão à bela solitária da Pedra da Gávea.

Percorremos as terras da nossa anfitriã. É um grande cafezal, que ocupa mais de 100 escravos. Em certo momento, quando os escravos perceberam sua patroa, largaram o trabalho e acorreram rapidamente a lhe beijar as mãos. Foi uma cena bizarra ver esses negros, com três quartos do corpo nu, tocarem seu “museau”* proeminente nas mãos brancas e doces de nossa compatriota. — * Ao usar a palavra “museau” = focinho, o autor revela exacerbado preconceito. 

O curioso é que denotavam alguma satisfação em prestar a reverência, oferecida com muita humildade. A senhora, agraciada com essas homenagens, as recebia na mais perfeita indiferença. Eu diria que esse ato de submissão respeitosa acontecia sem que ela sequer notasse, tão distraída estava.

Finalmente, partimos desse charmoso isolamento ao declinar do dia. A brisa da tarde balançava as folhas das bananeiras, como se fossem imensos leques, e o frescor agradável nos fez esquecer o terrível calor que sentíamos durante a jornada. Logo que chegamos à vertente oposta da Pedra da Gávea, os desfiladeiros tornaram-se perigosos. Nossos cavalos desceram a ladeira passo a passo e, mesmo assim, vários companheiros sofreram acidentes de certa gravidade. Enfim, atingimos o Rio, depois de uma ausência de 18 horas. Passamos mais de 12 horas montados a cavalo.”

Continua no próximo Post. 

———

post-sumidoiro-marcaRefúgio nos arrabaldes

No fim do ano de 1843, o imperador d. Pedro II e sua irmã, a princesa Januária, adoeceram e foram recuperar a saúde na referida fazenda da Taquara, localizada em Jacarepaguá. A imperatriz Tereza Cristina os acompanhou. Isso explica que o imperador, quando recebeu o doutor Yvan Melchior-Honoré em palácio, ainda em estado de convalescença, possa ter passado aquela impressão de que lhe “faltasse a necessária energia”, como descreveu o visitante. Saiu na imprensa:

“Tendo S. M. o Imperador partido hontem de manhã para a fazenda da Taquara, afim de que S. A. Imperial possa mais facilmente restabelecer-se da enfermidade que acaba de sofrer […] ficando (…assim) suspensas as audiencias nos Paços de S. Cristovão e da cidade…”“Jornal do Commercio”, 15.11.1843, p.1.

“S. A. I. a Sra. D. Januaria, que continua a residir na fazenda da Taquara, não compareceu na corte. Anunciamos porem com muito prazer que a augusta princesa se acha quasi de todo restabelecida. S. M. a Imperatriz que […] acompanhou constantemente a princesa imperial durante a sua grave enfermidade, assistiu ante-hontem ás festas da corte…”“Jornal do Commercio”, 03 e 04.12.1843, p.1.

“O sr. Lagrené, enviado extraordinario e ministro plenipotenciario de S. M. o rei dos Francezes […] teve hontem a honra de ser admitido com pessoas de sua comitiva, em audiencia particular, por S. M. O Imperador, no paço da Boa-Vista. […] Em seguida, o Sr. Lagrené e todas as pessoas de sua comitiva forão apresentadas a S. M. a Imperatriz, que já tinha se dignado receber em audiencia particular, e com afabilidade que lhe é propria, a Sra. de Lagrené.”“Jornal do Commercio”, 04.02.1844.

• Clique e leia os Posts: “Rio Antigo (I)” e “Rio Antigo (III)”

Texto, tradução, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

———

(1) MECHIOR-HONORÉ, Yvan – “De France en Chine”, Librarie de L. Hachette, Paris, 1855.

post-t-lagrene(2) LAGRENÉ, Théodore de – (*14.03.1800 / †26.01. 1862) – à direita, na foto (1844) à esquerda. Chefe da missão e, posteriormente, embaixador extraordinário da França na China. Casado com Warinka Doubenski – senhora Lagrené – (*1806 / †1901), que fora demoiselle d’honneur da imperatriz da Rússia. Isto talvez explique a deferência da família real com a visitante, que permaneceu em palácio depois da comitiva ter se retirado.

(3) BRAGANÇA, Francisca Carolina Joana Leopoldina Romana Xavier de Paula Micaela Rafaela Gabriela Gonzaga de – (Rio de Janeiro, *02.08.1824 / Paris, †27.03. 1898), Princesa de Joinville, quarta filha de d. Pedro I e d. Maria Leopoldina. Marido: Francisco Fernando de Orléans.

(4) DELAHANTE, Fernand – (*1822) Diplomata. Nomeado adido da Embaixada Francesa, Pequim, 1843.

(5) Naquele trecho percorrido pelo doutor Yvan, a floresta estava devastada. Desde o início do século XIX, estiveram a derrubar suas árvores, tanto para uso da madeira, bem como para plantar lavouras de cana-de-açúcar e café. Isso fez com que os mananciais secassem e a cidade passou a sofrer com a falta de água potável. A partir de 1862, d. Pedro II promoveu o reflorestamento.

(6) HOUSSAYE, Arsène – (*28.03. 1815 / †26.02.1896) Escritor, novelista e poeta. Autor de vasta e bastante medíocre obra. Encantado com as banalidades da vida social da sua época, talvez por isso mesmo, produziu literatura que obteve retumbante sucesso. Publicou “Les confessions, souvenirs dans demi-siècle – 1830/1880”, a obra citada pelo dr. Yvan Melchior-Honoré. Portanto, o autor de “De France en Chine” imaginou ali encontrar, sobre a bela rainha da Pedra da Gávea, alguma narrativa apimentada.

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10 Comentários »

  1. Eduardo, meus cumprimentos. Ainda em nossos tempos, “poucos são os homens dedicados ao benefício do povo”. Parabéns pelo belo post.
    Maria Marilda – Lagoa Santa

    Comentário por Maria Marilda pinto Corrrea — 01/06/2017 @ 8:10 am | Responder

    • Marilda:
      Mais uma vez, obrigado por suas palavras sempre gentis.
      Do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/06/2017 @ 8:15 am | Responder

  2. “Quem aqui governa?” é, ainda hoje, uma boa pergunta. E a resposta, como bem observou Maria Marilda, não seria diferente da formulada pelo médico francês a partir de suas próprias dúvidas. Li, com interesse e prazer, as impressões de Yvan Melchior-Honoré acerca do Rio Antigo. Conheci melhor a família de Dom Pedro II. O texto traduzido e organizado por você ficou muito bom. Mais uma vez, meus parabéns, por este brilhante trabalho de pesquisa.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 01/06/2017 @ 4:15 pm | Responder

    • Pedro:
      Como a gente aprende com a história, não é? Muito obrigado pelo seu valioso comentário.
      Abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/06/2017 @ 4:56 pm | Responder

  3. Eduardo
    Mais uma vez você nos torna viajantes por um passado que não existiria para nós, sem seu blog! Traz à luz relatos e ilustrações de um Brasil mais conhecido como país sem memória. Um “fiat lux” pelo qual agradeço!

    Comentário por Vania — 03/06/2017 @ 4:04 pm | Responder

    • Vania:
      De fato, fico entusiasmado com minhas pesquisas, porque aprendo o que não me ensinaram na escola. Ou que me ensinaram errado. Precisamos desenterrar toda nossa história e fazer com que os jovens se interessem por ela.
      Muito obrigado Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/06/2017 @ 9:28 pm | Responder

  4. Leitura fascinante. Aprendendo sempre. A parte que mais me causou espanto: a maioria dos padres eram europeus e foram afastados da sua diocese por algum delito. Apesar disso, continuaram a demostrar falta de qualquer reserva no seu comportamento. Nunca poderia imaginar tal coisa.

    Então o Rio era francês! Deve ser o motivo de tantas palavras dessa língua incorporadas no nosso português. Dos tempos de criança lembro-me do nosso “etajer”. Nem sei como se escreve… Lembro de minha mãe falando: guardei a louça no “etajer”. Há outras palavras que sempre ouvia, mas confesso que não sei como escreve-las! Vou grafar como eu escutava: abajur, bidê (seria bideu?) Chofer… ninguém falava motorista. Chofer era chauffer?

    Comentário por Virginia Abreu de Paula — 19/06/2017 @ 12:22 am | Responder

    • Virgínia:
      Pois era assim mesmo, o relato é muito verossímil. Quanto ao dito etajer é “ètagére” e o bidê é “bidet”.
      “Merci beaucoup”, minha caríssima leitora,
      do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/07/2017 @ 6:07 pm | Responder

  5. Você é apaixonado por história, não? É bom relembrarmo-nos do nosso passado histórico. Muito interessante a trajetória dos antigos moradores desse Brasil, que desejam entregar aos comunistas. Excelente!
    Monica de Camargo Coutinho.

    Comentário por Monica de Camargo Coutinho — 07/08/2017 @ 12:37 pm | Responder

    • Mônica:
      Sou apaixonado pelo Brasil e sua história, cada vez mais. Temos que lutar para que os maus políticos não acabem com ele!
      Grato e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 07/08/2017 @ 2:10 pm | Responder


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