Sumidoiro's Blog

01/08/2017

RIO ANTIGO (IV)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 9:46 am

♦ Na serra dos Órgãos e no Paraíba.

Em 1844, o médico francês Yvan Melchior-Honoré, acompanhando uma missão oficial francesa, chegou à então capital do Brasil, em 28 de janeiro. Este quarto Post, rememorando um passeio à serra dos Órgãos, é complemento ao anterior e parte do relato da sua visita.

Paisagem da serra dos Órgãos (por Rugendas).

eixamos a fazenda do capitão Custódio informados de que logo encontraríamos um abrigo, antes de atingir Nova Friburgo(1). Nesse meio tempo, vimos canaviais e subimos colinas cobertas de pés de café. A gente tem a impressão que brotam espontaneamente e não se vê nenhum trabalhador nesses lugares. Viajar a cavalo, em regiões pouco habitadas, proporciona distração e encantamento. Contudo, ao longo da viagem, sempre há surpresas e contrariedades.

O primeiro aborrecimento, durante nosso trajeto, foi deparar-nos com um rio sem ponte. Elas são muito raras no novo mundo, sobretudo nos pequenos cursos d’água, os quais também servem de limites a imensas propriedades e que os habitantes denominam córregos. Sentados à beira de um deles, discutimos se atravessaríamos a vau* ou se deveríamos retornar. Nossos condutores negros sugeriram a última opção, mas decidimos ao contrário. — * Vau: lugar raso de um curso d’água, onde se pode atravessar a pé ou a cavalo.

De início, os cavalos refugaram mas, ao serem esporeados e chicoteados, meteram-se n’água. Naquele momento, os pobres animais perderam o chão, a água cobriu seus peitos e os arreios, e dois alforges* se desprenderam, e afundaram. Mas a corrente não era forte e conseguimos chegar na outra margem, molhados até a cintura. — * Alforje: bolsas interligadas, de modo que permitem distribuir o peso de dois lados.

A esse primeiro incidente, sobreveio um segundo. O caminho era pouco frequentado e estava tomado por um matagal. Diante disso, apeamos e fomos avançando nessa trilha, mas derrubando a torto e à direita galhos de árvores, cipós e bambus, que impediam a passagem. Perdemos muito tempo com o córrego e o matagal, de modo que foi entardecendo, nossos estômagos gritaram e não víamos sinal de fazenda. Nada de fazendeiro, de arreeiro* e de feitor no meio daquele ermo. Até que percebemos que seria impossível seguir em frente. — * Arreeiro: guia de cavalos.

Caminho de Teresópolis (por Georg Grimm).

Contudo, nenhum de nós temia passar a noite sob o céu estrelado. Munidos de um bom agasalho, teríamos como enfrentar a atmosfera úmida, mas estávamos em completo jejum. Era charmoso aquele pedaço da montanha onde viajávamos. Havia um bosque de samambaias, de mimosas e palmeiras, todo povoado de aves coloridas, de papagaios azuis tagarelando, e de mutuns*, grandes como faisões, matraqueando ao longo do caminho. Até que, em certo momento, uma espiral branca de fumaça e cheirando a comida emergiu das árvores. Anunciava a proximidade de uma cabana! Foi a mais agradável de todas as surpresas. — * Mutum: ave galiforme.

Silenciosamente, estávamos imersos em nossas reflexões. Mas, colocando as mãos no ventre, tomamos consciência de que éramos simples seres humanos e sujeitos à fome. Felizmente, uma pessoa do grupo subiu num barranco e de lá gritou:

‘- Uma cabana! Terra! Terra!’ – como dizem os marinheiros.

Imediatamente, retomamos nossas montarias e para lá nos dirigimos. Até que deparamo-nos com uma pequena e simples cabana. A descoberta desse frágil abrigo nos encheu de alegria, na expectativa de que seus moradores, fossem eles brancos ou negros, tivessem qualquer substância nutritiva a nos oferecer ou vender. Adiantei-me para lá, correndo, até que atingi a porta de entrada e nela bati com força. Ela abriu-se sozinha, mas ninguém respondeu à minha chamada.

Dei uma espiadela no seu interior, à direita e à esquerda. Nada vi, nenhum instrumento de trabalho, nem gente. Subi alguns degraus, que levavam ao andar superior. Era uma peça bem rebocada, triste e silenciosa como um ninho sem pássaro. Uma esteira, jogada num canto, sugeria que alguém se refugiava nesse lugar de vez em quando. Um armário, que discretamente abri, continha uma casca de coco cortada ao meio e atada a uma vara. Imaginei que pudesse ser um apetrecho para beber água.

A mata e a serra dos Órgãos (Lito de E. F. Pöpig, d’après Von Martius).

Assim sendo, retornei e contei aos companheiros que minha investigação em nada resultara. Ainda demos um punhado de tiros a esmo, de modo que se houvesse alguém escondido, que ele mostrasse a cara, fosse proprietário ou usuário. O barulho do tiroteio ecoou ao longe. Um bando de pássaros se assustou, levantando vôo e provocando algazarra. Daí a pouco, revoaram sobre nós e, logo, voltaram ao abrigo no arvoredo.

Estávamos num ponto em que o caminho bifurcava. Então, soltamos as rédeas dos cavalos e deixamos que decidissem qual rumo a seguir. Sem hesitação, escolheram uma trilha acidentada que descia por dentro de um matagal. Assim mesmo os incentivamos, metendo-lhes nossas esporas. Mas, tudo continuou na mesma e a noite se instalou, sem que nada encontrássemos. Além da fome que nos atormentava, de repente caiu sobre nós uma chuva torrencial, deixando-nos enfurecidos.

Porém, depois de 1 hora galopando, deparamo-nos com um lindo vale cortado por dois riachos. Um deles, despencava de uma altura imensa, depois rolando barulhento entre rochedos. Plantações se estendiam ao longo desses cursos d’água e o ar estava impregnado de perfumes que vinham de cafezais em flor. Isso nos fez ficar otimistas, até que nos aproximamos de uma habitação. Contudo, tivemos nova decepção.

Então a noite tornou-se escura, mas continuamos cavalgando, até que, 2 horas depois, notamos entre as árvores uma claridade vinda de lampiões, que sugeria a existência de uma fazenda. Devo esclarecer que, por ter nascido na Provença*, tenho alguma facilidade para me comunicar em português. E como, desde já, estava encarregado de falar com os senhores da terra, coube a mim indagar onde encontraríamos pelo menos uma esteira para dormir. Assim sendo, avançamos em direção àquele clarão. Até que me vi em frente de uma casa grande, pintada de preto e com paredes rachadas. Estava circundada por barracões de escravos, sujos e repugnantes. — * Há muita semelhança ente o dialeto provençal e o português.

Devido ao barulho que fiz ao chegar, algumas negras se aproximaram com tochas nas mãos. Ao mesmo tempo, dois negros dirigiram-se a mim, para segurar o estribo do arreio e, então, desci da montaria, que ficou aos seus cuidados. Imediatamente, dirigi-me à casa, onde um homem muito claro estava junto a porta, à minha espera. Então, imaginando que seria o administrador, perguntei:

‘- Quem é o dono desse lugar?’

‘- Sou eu, don Patricio Tejeiro y Campillo. E podes usá-la como quiser, senhor!’ – respondeu cortezmente.

‘- Nesse caso, permita-me aqui alojar-me com meus companheiros.’– repliquei.

Ele inclinou-se, em sinal de consentimento. Daí, depois de prestar-lhe agradecimentos, retirei-me, para anunciar que poderíamos desfrutar da morada de um nobre senhor. Denotava ser pessoa que praticava a hospitalidade do tempo antigo, com graça e cavalheirismo. Então, logo que nossa pequena trupe adentrou à residência, a tempestade em vez de se amainar, cresceu em violência. A par disso, a noite ficou tão escura que não se via um palmo diante do nariz. Pois logo don Patrício nos introduziu a um vestíbulo, cheio de feijões recém colhidos e de grãos de café. E as negras logo correram a recolher essas sementes, abrindo caminho, para que pudéssemos chegar até aos nossos quartos.

Post - Cena de quintalCena de quintal (por Débret).

Depois de alguma espera, fomos introduzidos numa sala grande e escura, dispondo ao centro uma mesa longa e estreita. Esse móvel estava coberto de penas de escrever e papéis, mais sementes e jornais. Evidentemente, era o gabinete de estudo de don Patricio. Contudo, esse cômodo de uma simplicidade extrema, tinha também outras serventias. Servia como depósito de mercadorias e continha um punhado de sacos de legumes jogados pelos cantos. Ao fundo, junto à parede, havia um compartimento fechado para guardar farinha de mandioca e carne salgada. E sua tampa servia como estante, para abrigar a coleção de livros de don Patricio.

As janelas estavam em péssimo estado. Como acessórios da mesa, havia dois bancos compridos e uma cadeira na cabeceira. Logo que lá entramos, don Patricio se achava sentado. Imediatamente pôs-se de pé e, inclinando-se com deferência, pediu desculpas por não poder nos atender melhor. E disse:

‘- Longe que estou das cidades, raramente tenho convidados tão distintos como os senhores. Mas, desfrutem à vontade de tudo que aqui está. Dentro de 1 hora, serviremos o jantar. Peço licença para me retirar, preciso dar algumas ordens.’

Nosso anfitrião era um homem de uns 50 anos, alto e magro. Sua pele de um branco embotado, mostrava-se um tanto enrugada. Sua fronte era alta, os lábios finos, os olhos grandes e negros. Seu traje, à moda dos fazendeiros, simples e correto, estava muito bem passado. Suas mãos eram brancas, a barba aparada. Dava para supor que don Patricio teria vivido em um ambiente de muita finura, para depois virar fazendeiro por acaso.

Tão logo se retirou, as negras sujas e malvestidas vieram arrumar a mesa, dela retirando um punhado de cadernos inteiramente escritos. Provavelmente, seriam da contabilidade da fazenda, ou alguma informação de como cultivar o café. No entanto, fiquei muito curioso por saber seu verdadeiro conteúdo.

Casa de escravos (por Guillobel).

Nesses lugares, um homem solitário não tem a quem enganar e, se escreve, só pode ser para si mesmo. Desse modo, tem chances de produzir um bom livro, ou pelo menos um texto honesto. Mas não tive como saber o que escrevera nosso anfitrião. A julgar pelo que tive oportunidade de ler, suas mãos pareciam limpas. Notei isso quando, furtivamente, folheei três livros que haviam deixado sobre a mesa. Inacreditável, o primeiro era a Carta de Trasíbulo a Leucipo, de Fléret; o segundo, a tradução portuguesa das Ruínas, de Volney; o terceiro, O homem dos quarenta escudos, de Voltaire. É incrível, Fléret, em francês, numa fazenda brasileira!

Nossos companheiros mais jovens não fazem a mínima ideia de quem sejam esses autores. Pois, para conhecer o tempo presente, don Patricio estudava o espírito francês lendo os filósofos do século XVIII! De minha parte, ansiava por saber se esse provável missionário e filantropo os acompanhava, praticando suas doutrinas de liberdade e fraternidade. Surgiu, então, a oportunidade de realizar um aprendizado muito interessante.

Quando don Patricio retornou, eu ainda estava segurando um dos livros. Então, acercando-se de mim, ele colocou o dedo sobre o Fléret e falou emocionado: ‘- Precioso!’. E repetiu com o Voltaire: ‘- Gostoso!’. E, em seguida, inclinando-se para o Volney: ‘- Gigantesco.’

Com suas três exclamações, o fazendeiro foi preciso ao indicar suas preferências e, disso, concluí que comungava com as ideias radicais e deístas, filhas da revolução francesa. Alegrei-me, mas ficando na expectativa de ver como ele colocava essas ideias em prática junto aos seus escravos. Tive vontade de recitar o credo filosófico de Volney. Mas, devido ao jantar que já estava sendo servido, nada fiz de comentários. Quando estamos submetidos a um jejum de 24 horas, esquecemos os prazeres da conversa e os sons da lira de Orfeu. 

Foi-nos servido o jantar habitual: carne de porco salgada com legumes, carne seca ferventada, verduras temperadas com pimenta, feijão preto e toicinho. Para substituir o pão, cobrimos a comida com farinhas de milho e mandioca. A mesa estava coberta por um pano, mas não ofereceram guardanapos. Essa peça é considerada desnecessária pelos portugueses do Brasil. Bebemos água à vontade, na mesma vasilha, à maneira comunitária da igreja primitiva. Para isso, don Patricio possuía um único copo grande. Além do mais, ao fim da refeição, nós, oito convivas, tivemos três taças para beber vinho de Lisboa. Nesse país, pela falta de jeito dos escravos ao lidar com esses objetos, a coleção nunca permanece completa.

Don Patricio sentou-se à mesa apenas para fazer as honras da casa. E serviu-nos, com as próprias mãos, o café feito com grãos produzidos na sua fazenda. Mas a chicória* de Lille é preferível. A bebida tinha gosto de decocção de espinafre e, para esquecer seu sabor, bebemos um bocado de cachaça. É uma espécie de rum do Brasil, uma coisa que desce queimando pela garganta e deixa um gosto ruim na boca. — * Chicória amarga, das suas raízes torradas se extrai um sucedâneo do café. 

Esse fazendeiro, somente em raras oportunidades, podia oferecer hospitalidade a europeus. Por isso, nossa visita serviu para romper a monotonia habitual e ele aparentava estar muito satisfeito. E mostrou-se desejoso de espichar a conversa ao longo da noite. Mas o sono apertou e, mesmo balbuciando umas palavras em português, não mais conseguíamos manter os olhos abertos. Até que os negros vieram nos conduzir aos leitos que haviam preparado. Alguns ficavam num sótão onde armazenavam palhas de milho, vagens de feijão e mais alguns produtos.

Falso café de chicória torrada de Lylle (La plante qui fait du bien / A planta que faz bem).

Adiante do vestíbulo central, abriam-se os diversos cômodos da casa, que é dividida em duas partes iguais. A parte da habitação reservada a don Patricio era severamente interditada aos estrangeiros. Entretanto, ele reservou minha cama na mesma sala, dizendo que era de todos o lugar mais arejado. Ali dormi, deitado num colchão de palha de milho, ouvindo o ruído de uma cachoeira, mas isso não atrapalhou o meu sono. No dia seguinte, apareceu um negro com cara de idiota, dizendo que era para eu fazer a toalete com os demais. Então, lhe perguntei se, por acaso, don Patricio seria casado. Mas ele nada respondeu, apenas apontou-me uma porta, atrás da qual, para meu espanto, pude ouvir uma pequena explosão de risadas, plenas de doçura.

Então, sem hesitação, colei meus olhos no buraco da fechadura e o que vi era maravilhoso. Notei dois pés cor de alabastro*, nus e imóveis, mal cobertos por um vestido branco que ia até aos tornozelos. Aqueles pequenos pés levaram-me a compará-los a uma estátua de mármore esculpida por David. E para minha surpresa, aquelas obras de arte caminhavam em minha direção. — * Mineral macio e translúcido. Tonalidades variam do branco, passando pelos castanhos e chegando até ao negro. 

Pois logo que chegou frente à porta, a figura desconhecida abaixou-se num movimento brusco e uma pupila apareceu no buraco da fechadura. Mas, pela surpresa do encontro olho no olho, minha linda visão deu um grito e saiu correndo. Certamente seria uma escrava, pois aqueles pés descalços indicavam tudo. Mas, como teria aquele ser maravilhoso caído nas garras de don Patricio? Fiz suposições dele ter cometido algum crime abominável, mas logo admiti que exagerava na minha imaginação e me afastei da sala.

Na véspera, atordoados pela chuvarada, não reparamos bem como seria exatamente aquele lugar. A sede da fazenda está situada entre duas montanhas e tem uma plantação de café, naquele momento todo em flor, que mais parecia uma cobertura de neve perfumada. À esquerda, as duas montanhas se uniam e, ao fundo cresciam árvores gigantescas. Logo que retirei do olhar esse magnífico cenário, vi de novo don Patricio.

← Crianças espancadas e quase cegas (por A. Agostini).

Aquele homem, que eu conhecera na véspera, estava sentado no meio de umas vinte negras e mais uma trintena de negrinhos. Uns nascidos, outros ainda na barriga das mães. Eu não compreendia o que ele fazia no meio daquele rebanho fedorento*. Mas, logo notei que estava a fazer uma inspeção nos seus escravos. Desde logo, mudei minha opinião sobre ele. Estava a vê-lo como um ser hediondo, vulgar e desagradável, apesar do seu terno branco e de sua barba bem cuidada. Ele examinava as gengivas, os dentes, a pele, e verificava se os pés não tinham sido invadidos pelos bichos-de-pé. De algum modo, entendi que estava preocupado com o bem-estar dessa pequena população submissa às suas leis. — Pelas palavras, o autor revela exacerbado preconceito.

Naquele momento, perguntei a don Patricio:

‘- Quantos escravos possui para tocar sua fazenda?’

‘- Oh! São todos esses, apontando para as vinte negras e cinco ou seis dos seus companheiros. As fêmeas uso na colheita e os negros ofereço de aluguel, para realizarem trabalhos mais pesados.’

‘- Mas o que você faz com as mulheres, quando não é época de colheita?’

‘- Ora! Sigo as regras da natureza. Elas produzem crianças!’

‘- Mas cada uma delas possui um marido?’

‘- Entenda, nos rebanhos, você dá às ovelhas um só carneiro e um só bode às cabritas!’

‘- Você compara essas infelizes a ovelhas e cabritas?’

‘- Não! Essa injúria não faria a esses pobres animais – respondeu rindo. Elas produzem lã e leite. Parir é o de menos, pois não há nada mais a se obter delas, a não ser um negrinho por ano.’

‘- Mas é assim, meu caro filósofo, que você pratica a fraternidade humana?’ – perguntei, com uma pitada de ironia.

Porém, fazendo um ar sério, disse-me ele em seguida:

‘- Você é muito esclarecido e não pode admitir que esses escurinhos sejam seus irmãos. É como se pretendesse que um orangotango fosse irmão de um sagui. Com esse tipo de fraternidade, não ousaríamos comer carne de boi e ostras, só porque desconfiamos que alguns homens possam ter algum parentesco com essas criaturas. Tenho muito respeito pelos meus negros, mas como animais sofisticados. Não cuspo neles, mas trato-os como cavalos e potros que posso vender.’

‘- Se esse é o resultado dos seus estudos filosóficos, eu não os recomendo. Prefiro ficar com os mais ignorantes cristãos que, pelo menos, acreditam que todos os homens são irmãos.’

‘- Há quem acredite ou finge acreditar, mas os negros que possuem são melhor tratados que os meus? Entre os cristãos e mim, há diferença apenas no molho com que serão consumidos.’

Daí a pouco, don Patricio despediu-se, educadamente, e se afastou. Eu permaneci aborrecido devido à discussão com o fazendeiro. Ao inspecionar as crianças negras, o homem mau nada fazia de filantropia, tinha apenas piedades de um veterinário. Sua posse era nada mais que um infame curral. Mas, ao retornar à casa, quis saber dos laços que uniam o fazendeiro e a bela mulher que vislumbrei através da fechadura. Mas, para minha surpresa, constatei que o buraquinho fôra tapado com uma tábua.

Então, sentamo-nos à mesa e, imediatamente, notei em don Patricio um ar amuado. Ele nos lançou vários olhares inquisidores, até que se manifestou:

‘- Sua indiscrição é de muito mau gosto!’

Contudo, permaneci indiferente à sua fala, de modo que ele se acalmasse e a conversa tomasse outro rumo. Então, pouco a pouco, passou a tratar de outras coisas e, sobretudo, da cascata que vimos na véspera, denominada Paquequer* (* depois denominada Conde D’Eu), desse modo:

‘- Você passando em frente a esse grande jet de cristal* (*jato de cristal), para chegar ao morro Queimado, poderá admirá-lo à vontade.’ Notei que pronunciou jet de cristal enfaticamente, para em seguida acrescentar:

‘- Eu sei uma palavrinha ou outra de francês e gosto de jogá-las numa conversação.’

Naquele momento, vinha também dizer que nossos cavalos estavam arreiados. Assim, deixamos a mesa e fomos cuidar dos preparativos para a partida. Finalmente, ao retornamos e no ato das despedidas, ele disse-me em bom francês, mas com uma pitada de ironia:

‘- Meu caro doutor, vocês perseguem impossibilidades. Pois será mais difícil persuadir os brasileiros a emancipar seus negros, do que uma pessoa passar pelo buraco da fechadura.’

Daí, apenas deu um tapa no traseiro do meu cavalo e o colocou em movimento, sem que houvesse tempo para eu responder qualquer coisa.”

• CONTINUA no próximo Post.  

Texto, tradução, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

Clique e leia mais: “Rio Antigo (I)”“Rio Antigo (II)” e “Rio Antigo (III)”

———

(1) Nova Friburgo – freguesia criada na antiga povoação do Morro Queimado, então subordinado ao município de Cantagalo.

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11 Comentários »

  1. Eduardo: Seu post, em sequência a “Rio Antigo”, é deveras muito interessante.
    Parabéns!

    Comentário por Maria Marilda pinto Corrrea — 01/08/2017 @ 11:27 am | Responder

    • Marilda:
      Minha fiel leitora, muito obrigado. Aguarde o final em setembro.
      Abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/08/2017 @ 2:14 pm | Responder

  2. Eduardo,
    Mais uma vez, aguardar seu post valeu a pena. Obrigada por seu trabalho minucioso e belo. O contraste entre a beleza da Serra dos Órgãos e a barbaridade do “dono do mundo” Patricio Tejeiro são estonteantes, a ponto de escandalizar o não menos inocente narrador. Realmente, as raízes do nosso racismo são expostas com uma crueza de nos revoltar. E o pior: o racismo ainda existe bem vivo entre os vários povos do mundo. Os países comunistas (URSS e satélites) – aqueles da “igualdade” – são os mais racistas da Europa com relação a afrodescendentes e outras minorias étnicas (ou maiorias?)
    Grande abraço,
    Vania

    Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 04/08/2017 @ 8:31 am | Responder

    • Vania:
      A cada dia que passa, mais aprendo sobre pré-conceitos e conceitos. Descobri que aquele(a) que se prende tanto a um, quanto a outro, tem sua mente embotada. É triste, mais ainda há um número incontável de pessoas que não compreendem os nossos irmãos negros.
      Obrigado pelo comentário. Abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/08/2017 @ 9:38 am | Responder

  3. Eduardo,

    penso que um dos objetivos de quem escreve é fazer pensar, e isso você tem conseguido com seus textos. Seu comentário “Pelas palavras, o autor revela exacerbado preconceito.” é preciso e nos faz pensar que aquilo que criticamos nos outros, muitas vezes também se manifesta em nós. Ambos, Yvan Melchior-Honoré e Don Patricio, usam a palavra rebanho com uma carga grande de preconceito, o que torna crível a frase “Entre os cristãos e mim, há diferença apenas no molho com que serão consumidos”. Você percebeu tudo isso, o que é comprovado por sua resposta ao comentário feito por Vania Perazzo.
    Outro trecho que me fez pensar muito “Meu caro doutor, vocês perseguem impossibilidades”. Terá a vida outro sentido que não o de perseguir impossibilidades?
    Grande abraço e meus agradecimentos por mais esse post.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 09/08/2017 @ 11:34 am | Responder

    • Pedro:
      Sua formação filosófica e a capacidade de compreender o mundo e os homens, fazem com que seus comentários sejam ensinamentos. Pois vivo aprendendo e, nisso, você tem me ajudado.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 09/08/2017 @ 2:30 pm | Responder

    • Perseguir impossibilidades como sentido para a vida… As utopias? Opinião de um filósofo e, para animar o bate-papo, o que diria um psicanalista sobre isso?

      Comentário por Vania — 10/08/2017 @ 7:39 pm | Responder

  4. Seria bom que fizessem um filme sobre essas aventuras do francês no Rio Antigo. Mas poder ler já é um privilégio. E vamos imaginando enquanto lemos. A novidade para mim foi a semelhança do dialeto provençal com o português. Nem suspeitava disso.

    Quanto preconceito do dono da casa. Penso que era comum naquele tempo. Do contrário, não teriam escravos. Se alguém mantinha escravo, com certeza tinha o mesmo tipo de visão. Achei curiosa esta passagem:

    “Com esse tipo de fraternidade, não ousaríamos comer carne de boi e ostras, só porque desconfiamos que alguns homens possam ter algum parentesco com essas criaturas”.

    Exatamente. Por isso mesmo não ouso comer carne de boi nem carne alguma. Nem ostras. Nem peixe. Nem leite… Sou vegana.

    Comentário por sertaneja — 29/08/2017 @ 1:27 am | Responder

    • Virgínia:
      Aguarde o próximo e último Post sobre a viagem do francês. É emocionante, em todos os sentidos. Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 29/08/2017 @ 8:35 am | Responder

  5. Eduardo
    Meus parabéns pelo Post. Enriquece a nossa história. Abraço

    Comentário por Fabiano — 02/10/2017 @ 10:12 am | Responder

    • Fabiano:
      Que bom você ter gostado.
      Muito grato, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/10/2017 @ 5:18 pm | Responder


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