Sumidoiro's Blog

01/09/2017

RIO ANTIGO (V)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 6:53 am

♦ Visitando Nova Friburgo

Em 1844, o médico francês Yvan Melchior-Honoré, acompanhando uma missão oficial francesa, chegou à então capital do Brasil, em 28 de janeiro. Aqui está parte do relato da sua visita(1). Este quinto Post, complementando o anterior, descreve o final de um longo passeio pela serra dos Órgãos.

Post - Órgãos _ LeuzingerCaminho na serra dos Órgãos (por Georges Leuzinger).

Na véspera, o doutor Yvan e companheiros estiveram hospedados perto de Nova Friburgo(2).

uas horas após a partida da fazenda de don Patricio Tejeiro y Campillo, chegamos ao grande jet de cristal, a cachoeira Paquequer* (*depois denominada Conde D’Eu). Contemplando esse imenso lençol d’água, decidimos chegar até sua queda. Mas, enquanto buscávamos o caminho, percebemos ao longe uma fazenda. Imediatamente me adiantei e fui dar em frente a uma casa de boa aparência. O alvoroço que fiz ao chegar chamou a atenção de um homem cor de canela, vestido de branco, que aproximou-se de mim e disse:

‘- Senhor, o que vos trás aqui? Sou o proprietário Emmanuel Ferreira Pinto(3) e todos estamos às suas ordens.’ 

‘- Eu imaginava Senhor’, – respondi. ‘O administrador da fazenda* do capitão Custódio (*onde o viajante estivera anteriormente) havia me prevenido que, aqui, iria encontrar a mais generosa hospitalidade.’

‘- E onde passou a noite’, – perguntou o senhor Emmanuel. 

‘- Ontem, junto ao seu vizinho don Patricio.’

‘- O quê? Você passou a noite naquela cavalariça? Dormiu naquele lugar misterioso, onde viajante algum jamais se atreveu a ficar?’– e deu uma risada. ‘- Conta-me o que viu?’ 

Respondi: 

‘- Senhor, gostaria de responder-lhe de pronto, mas deixei esperando ali na cachoeira o embaixador* da França, mais nossa comitiva. Vim trazendo uma mensagem e tenho que retornar com a resposta. Pode dizer-me, senhor Emmanuel, se podemos chegar ao fundo da cachoeira, através de alguma trilha na floresta?’ — * O líder da comitiva: senhor Théodore de Lagrené.

E ele emendou: 

‘- Nada é mais fácil. Eu abri uma picada para chegar até lá. Faz um ano e imagino que ainda exista. Irei com meus escravos em sua companhia.’ 

← Do Rio de Janeiro a Nova Friburgo.

Diante disso, ordenou a vinda de dois cavalos e mais dez escravos, e decidido a me acompanhar. Daí a pouco, ao depararmos com meus companheiros, parecíamos personagens de um teatro cômico. Esta foi a encenação: o senhor Emmanuel e eu, os dois a cavalo e mais um punhado de negros armados com facões, fazendo uma verdadeira algazarra. Assim sendo, após as habituais apresentações, seguimos para o interior da floresta, onde a densa vegetação produzia um ambiente todo especial. Os escravos caminhavam à frente, derrubando a torto e a direito galhos que pudessem impedir a passagem.

Depois de 1 hora de percurso, deparamos com uma moita impenetrável. Os cavalos sozinhos não tinham como avançar e nos pusemos a trabalhar para abrir caminho. Superado esse impedimento, mais à frente surgiram outros, tão difíceis que tivemos de continuar a pé. A todo instante ocorria algum dano em nossas roupas, provocados principalmente pelos espinhos, galhos de árvore, pedras escondidas sob os musgos e até mesmo samambaias. Atravessamos vários ajuntamentos de trepadeiras que mais pareciam pontes. Mas, finalmente, chegamos ao destino.

A cascata Paquequer despenca de 100 metros de altura, sobre um amontoado de blocos de granito. O volume d’água se iguala ao da famosa fonte de Vaucluse – na França –, como se ambas coubessem numa bacia de mesmo tamanho. O resultado final é dos mais grandiosos.

No alto, é vista como uma esmeralda transparente e, quando se olha para o abismo, o fundo parece feito de rubis e diamantes, devido a refração da luz solar.  Na parte de baixo, os jatos mais leves formam um buquê, como se fossem estrelas coloridas em vermelho bengala ou, às vezes, formando um arco-íris. O deslocamento de ar produzido pelo aguaceiro gera um vento veloz e contínuo. Ruge no vale e no topo, e provoca uma névoa. As copas das árvores armazenam milhões de gotas que, depois, caem aos pingos sobre uma cama de seixos.

Cascata Paquequer (mudou para Conde D’Eu), no rio de mesmo nome.

O espetáculo é de uma grandeza única. Diante dele, ficamos mudos de admiração. A reação dos negros foi dar gritos de alegria. Na sombra da floresta virgem, onde moram muitos mistérios, o ambiente é perfeito para essa grande encenação.

A montanha contribui para o admirável espetáculo. Dá até para imaginar que ali aos seus pés, onde estávamos, ressoava o barulho do inferno. Depois de desfrutar daquela maravilha da natureza, retornamos à fazenda do senhor Emmanuel. No caminho, ele pôde fazer revelações sobre don Patricio, nosso anterior hospedeiro* (* clique e veja Rio Antigo – IV). Foi assim a conversa:

‘- Bem, senhor Yvan, poderia me dizer como foi sua estada com don Patricio?’

‘- Em companhia de legumes de todas as qualidades e ao lado de uma bela avezinha branca, que ele mantém engaiolada.’

‘- Você conseguiu vê-la?’

‘- Sim! Mas através do buraco da fechadura.’

‘- E ele não a mostrou a você? E não disse o nome dele, de onde veio e nem quem eram seus deuses?’

‘- Disse-me, sim. Seu nome: Patricio Tejeiro y Campillo; seu país, Espanha; seus deuses, uma trindade: Fléret, Voltaire e Volney.’

‘- Vou fazer mais três considerações sobre o que você acaba de dizer’, – gritou o fazendeiro. ‘Ele se chama Durand! É francês e, de religião, só acredita no diabo!’

‘- E o pássaro branco?’ – perguntei.

Daí, respondeu o fazendeiro, colocando a mão na testa:

‘- Pássaro! O pássaro? Ele é completamente brasileiro.’

‘- Diabos! E onde em seu país a gente caça essa avezinha?’

O senhor Emmanuel fez silêncio, meditou e, daí, bradou:

‘- Eh, Durand é um homem dos diabos, mas, bah!… Vai acabar encontrando o que procura… Vou lhe revelar o que dele conheço e ele bem sabe que não ignoro. Mas espero que nada comente…’

Vila de Nova Friburgo, fundada em terras de Cantagalo (por Debret).

Daí, fiz um sinal afirmativo e o senhor Emmanuel prosseguiu:

‘- Há uns dez anos, vindo de Lisboa, Durand chegou ao Brasil, em companhia de um tal de Almeida. Esses dois, que pareciam ser muito amigos, associaram-se para explorar uma indústria de açúcar em São Paulo. Seus negócios prosperavam, até que se separaram bruscamente e de maneira violenta. Contudo, nunca se soube a causa desse conflito.

Em seguida a esse evento, o senhor Durand chegou aqui na província do Rio de Janeiro, sob o pretexto de administrar uma pequena fazenda e entregar-se à promoção dos negros. Mas foi justamente o contrário o que ocorreu. Quanto ao Almeida, o antigo parceiro, ele decidiu dirigir-se a Minas Gerais e, lá, passou a minerar o ouro nos rios. Como se sabe, essa dolorosa aventura é a que mais depende da sorte.

Porém, entre os escravos do senhor Almeida, apareceu uma bela mulata de Ouro Preto, que conhecia a arte de enfeitiçar qualquer homem. Então, o português comprou a bela jovem, mas não foi para ajudar-lhe a lavar ouro nos rios. Ela tornou-se mais sua mulher do que escrava e, nesse relacionamento, todo ano lhe dava um filho.

← Mulata de Ouro Preto (por Di Cavalcanti).

No entanto, os negócios do Almeida entraram em decadência, mas ele nunca apelou para expedientes sujos no sentido de se livrar das dificuldades. O que fez foi conseguir um empréstimo nas mãos de um capitalista. Até fiquei sabendo quem fôra aquela mão generosa… Porém, certo dia, o antigo sócio do senhor Almeida apareceu em Ouro Preto acompanhado de um representante da justiça, trazendo em mãos as mesmas promissórias que ele havia assinado, as quais foram repassadas ao dito portador. Mas, naquele momento, o devedor não tinha como atender ao então titular do crédito. Como consequência, o senhor Almeida teve que lhe entregar a parte mais importante da sua fortuna, ou seja, a maioria dos escravos, sua bela mulata e os filhos de ambos.’

‘- Que infame!’ – gritei.

‘- Do mesmo modo revoltei-me por aquela infâmia! – replicou Emmanuel. Mas, aqui, a lei diz assim… Quando a mãe não é emancipada, os filhos são também considerados escravos. É simples como um bom-dia. Sei que Almeida implorou, gritou e ameaçou, mas sem resultado. Então, para fazer dinheiro, foram todos vendidos em leilão, a mulata, os negros e as crianças. Porém, Durand reservou para si a filha mais velha do Almeida, porque era muito bela e, por isso mesmo, idolatrada pelo pai. O objetivo do ex-amigo seria tê-la como sua preferida, o que fez o pai entrar em desespero. Contudo, ao correr dos dias, o charme que era próprio das mulatas de Ouro Preto funcionou em socorro daquela ‘avezinha’. Dizem que Durand  ficou apaixonado, embora sofresse ao ser tratado por ela com desdém’.

Pois bem, nesse ponto da jornada, quando o sol já estava se escondendo, transpusemos uma elevação e logo chegamos num imenso vale. Era a colônia de Nova Friburgo*. Havia ali modestas casinhas que, uns 20 anos atrás, foram edificadas por suíços. Naquela vila e com muita alegria, deparamo-nos com lindos meninos loiros e mocinhas de pele muito branca, com bochechas rosadas. — * Nome derivado de Fribourg, cantão suíço.

Preciso dizer que, desde a chegada ao Brasil, estávamos a ver quase que só pessoas negras ou morenas. Por conta dos seus cabelos e olhos negros, sentíamos nelas qualquer coisa de diabólico. De outra maneira, em Nova Friburgo, ao admirar aqueles olhares ingênuos e emoldurados por cabelos loiros, a sensação fora muito agradável. Porém, não estivesse uma chuva a cair, teríamos parado por algum tempo para lhes fazer uma saudação em francês.

Enfim, às 6 horas da tarde, depois de uma cavalgada e um jejum de 12 horas, já estávamos entrando no hotel Salusse*. Ali, de imediato, tivemos o prazer de vestir uma roupa limpa e bem passada. Naquela casa, um jovem homem louro e de maneiras distintas, veio nos convidar a participar de um baile que ocorreria à noite. Disse-nos que teríamos a oportunidade de dançar e falar francês, de tal modo que iríamos nos sentir como que estivéssemos em Paris. — * Hotel Salusse: dos suíços Guillaume Salusse – capitão da marinha francesa – e Mariane Jose. 

Post - Vista Morro QueimadoNova Friburgo, com a igreja (à esquerda) e o Morro Queimado ao fundo (por F. Salathé).

Ao anoitecer, quando adentramos ao salão do anunciado baile, ficamos surpreendidos com a elegância e o charme das dançarinas. Eram, na maior parte, jovens senhoras do Rio de Janeiro que vieram passar o verão na serra, mais outras residentes na própria vila. Tudo parecia europeu naquele encontro. As toaletes em estilo brasileiro desapareceram completamente. Foram substituídas por aquelas que conhecíamos da Europa e nada poderia indicar que estávamos a duas mil léguas da nossa terra.

Dois negros, encarregados de fazer a música, tiravam dos seus robustos violões uma harmonia quase perfeita. Nosso anfitrião, que conduzia com perfeita graça as honras da sala, foi quem inaugurou a primeira contradança, tendo como seu par com uma senhora muito clara e frágil.

Deveras ansiava por participar daquele evento social e, para isso, pedi para ser conduzido a um senhor de óculos verdes, casaco, colete e calça preta. Seu rosto era pálido e magro. Depois das devidas apresentações, fiquei sabendo que era o poeta da comunidade. Então, puxando conversa, fiz-lhe uma indagação:

‘- Quem é aquele homem que está agora a dançar? Suas boas maneiras me surpreendem. Por acaso ele viveu na França?’

Ouvi a resposta:

‘- Certamente, mas não foi lá que aprendeu a dançar.’

A resposta breve, vinda de uma voz cavernosa, deixou-me em dúvida. Então, pedi melhor explicação, que saiu assim: ‘- É o padre da paroquia!’ Segundo suas palavras, outrora aquele sacerdote(4) estivera muito incomodado, pois sempre que o sino da igreja tocava a chamar para a missa, quase ninguém aparecia. Foi então que concebeu uma maneira de cativar os paroquianos, qual seja, promover bailes e divertimentos em Nova Friburgo.

A artimanha deu bom resultado e, desde então, passaram todos a dançar juntos e a rezar… Também fiquei sabendo que quase sempre era ele quem abria os bailes e, de fato, pude vê-lo dando o braço à sua irmã mais nova, uma linda helvética*. Naquele dia, graças a animação de todos os dançarinos, a festa durou até que o sol clareasse o Morro Queimado.” — * Helvécia: designação alternativa para Suíça. Helvético(a): nascido(a) na Suíça.

Registro de óbito ocorrido durante a viagem ao Brasil, assinado pelo vigário de Nova Friburgo.

A FUNDAÇÃO

á uns 20 anos, começou a chegar ao Brasil grande número de Suíços*, com o propósito de povoar alguns territórios. De modo a convencê-los, os agentes do governo pintaram um cenário colorido mas mentiroso do que seria o país. Além disso, os iludiram com falsas promessas, prometendo-lhes terras férteis em doação e algum dinheiro, durante o período de dois anos..” — * O padre vigário de Nova Friburgo estava entre eles.

Diante disso, para a maioria desses colonos, o que à primeira vista aparentava ser fonte de riqueza, na verdade levou-os ao fracasso. Por outro lado, enquanto possuíam algum dinheiro e tinham o pão garantido, não cuidaram de limpar os terrenos e nem cultivá-los. Grande parte deles, em vez optar por uma ocupação fixa, preferiu sobreviver como caçadores, ou em vida nômade.

Sequer os mais laboriosos foram recompensados na sua faina de agricultores, pois a cultura que haviam escolhido não se adaptou ao solo pobre. Os cafezais não produziam a contento, a cana de açúcar resultou apenas num caldo aquoso e insosso. Como consequência, fracassaram os objetivos da colonização. Apesar de tudo, novas levas de imigrantes – suíços, franceses, ingleses e alemães – vieram a se estabelecer na mesma região. Entretanto, mais prevenidos que seus antecessores, souberam tirar melhor proveito do que oferecia a terra.

Estranhamente, é o comércio extrativo que tem movimentado a atividade econômica. Embora a riqueza da colônia de algum modo venha crescendo, uma das principais fontes de renda ainda se origina da colheita de fósseis, penas de aves, peles de mamíferos, insetos e plantas que são vendidos aos visitantes. As crianças estão muito envolvidas nesse tipo de atividade.

Há um colono que, com isso, tem acumulado algum dinheiro em Morro Queimado*. Ele, anualmente, apura cerca de seis mil francos na venda de penas de papagaios. Papagaios infelizes! Mas um pouco menos aqueles que, vendidos vivos vão morar num poleiro, na companhia de um humano e um gato angorá. — * Morro Queimado, nome antigo de Nova Friburgo.

A maior renda da população de Nova Friburgo vem do aluguel de gado e produção de mulas. Merece também destaque a produção de manteiga e queijo. Contudo, no que toca ao cultivo do solo, nota-se que a maioria dos habitantes ainda não têm a necessária experiência. No sentido de superar essas dificuldades, têm se empenhado em tornar o lugar atrativo como estação de veraneio, para a alta sociedade do Rio de Janeiro. Acreditam que a afluência desse público permitirá o desenvolvimento material da cidade. Mas parece que essas esperanças carecem de fundamento.

Anúncio e vista dos fundos do colégio Freese.

A natureza do território de Morro Queimado, por suas características tropicais, não apresenta condições para o cultivo de vegetais da Europa. Todas as tentativas de aclimatação fracassaram completamente, embora não haja motivos suficientes para desprezar totalmente a fertilidade do solo.

Nem mesmo há onde abrigar grandes rebanhos. Por outro lado, no que toca ao desenvolvimento cultural da comunidade, merece destaque um estabelecimento de ensino, fundado por Mr. Freese*, que tem dado bons frutos. Ele é um inglês inteligente e zeloso, que denota ter sido moldado na severa rigidez da igreja metodista. — * John Henry Freese.

Essa escola, que foi fundada há pouco tempo, atende a 50 alunos procedentes de vários lugares. Parece que é o único estabelecimento digno de alguma confiança nesse vasto império. São conhecidos vários personagens famosos que ali estudaram. E, para nossa surpresa, constatamos que os pupilos de Mr. Freese falam o bom português, o francês e o inglês.

O educador estava imbuído de uma bela ideia, qual seja, a de promover o bom convívio social como parte da educação. Para tanto, e como tinha profundo horror à escravidão, criou entre os estudantes o hábito de fazer improvisações orais, nas quais defendiam a libertação dos escravos.

Nova Friburgo possui cerca de 1500 habitantes. A maioria das casas, em torno de trezentas, são muito modestas e foram edificadas ao longo de uma única linha. No vale existem também pequenas cabanas, espalhadas por um lado e outro, abrigando algumas famílias. A aparência de Nova Friburgo é bastante agradável.

As montanhas, que fazem fronteira com o horizonte, possuem uma configuração especial: são bastante nuas no topo, o que é raro nesta parte do Brasil. Este desnudamento se deve a um incêndio devastador, que irrompeu quando ainda eram cobertas de árvores. Disso veio o nome de Morro Queimado, como agora se diz.

Post - Nova Friburgo _ igreja & praçaNova Friburgo: praça central com igreja de São João Batista.

Há quem diga que, após o grande fogaréu, perdurou uma seca de vários anos, tendo provocado a ruína de alguns moradores. Os cursos d’água diminuíram e seus cultivares entraram em decadência. Mas, nesse país ainda jovem, tudo é superável e, hoje, quase não há mais vestígios do terrível acontecimento.

Conheci alguns franceses em Nova Friburgo, entre eles dois médicos, capazes e cultos. Nossos compatriotas, quando deixam seu país para viver no Brasil, de modo geral são muito dedicados ao trabalho. Na França, não se tem ideia da bravura excepcional desses abnegados, vivendo distantes de qualquer centro populacional.

Do mesmo modo agem os fazendeiros, mas esses agindo como reis absolutos entre seus escravos. De minha parte, procurava dar aos compatriotas algum consolo, rememorando coisas da nossa terra. Mas, uma coisa me entristeceu, foi ao ver crianças que mal conheciam a língua dos seus pais e, mesmo assim, pouquíssimas a utilizavam. Parece incrível, mas o abandono da língua paterna já está a se manifestar na primeira geração!

Em Nova Friburgo há muitos casamentos mistos, de brasileiros com franceses, suíços com ingleses, e franceses com ingleses. Para se falarem, todos esses casais adotam o português como língua comum. Por outro lado, as crianças que têm as negras como amas, com elas passam a praticar a língua portuguesa logo após o nascimento. É muito provável que, onde não se fala o francês desde cedo, no máximo em vinte anos esteja seu uso muito reduzido.

Depois de bom descanso e tendo visitado os arredores de Nova Friburgo, tomamos a decisão de fazer o retorno pelo caminho de Macacu* e, daí, seguindo para o Rio de Janeiro, antes passando por Sant’Ana** e Sampaio***.”— * Cachoeiras de Macacu. / ** Santana de Japuíba. / *** Porto das Caixas, na fazenda Sampaio.

Post - Cafezal Nova FriburgoCafezal na região de Nova Friburgo.

O RETORNO

o dia da partida, terminamos os preparativos às 5 horas da manhã mas, devido à lentidão dos tropeiros portugueses, tivemos que ficar à espera por mais algum tempo. Nessas circunstâncias, não adianta rezar, implorar ou reclamar, nada os faz apressar e o melhor é ter paciência. Foi a atitude que tomamos resignadamente, de modo que somente às 9 horas pusemo-nos em movimento.

A primeira parada ocorreu em meio a uma floresta virgem, num lugar conhecido como Boa Fama. Ali havia uma pequena propriedade, com uma venda* (*venda do Francês) e uma hospedaria, que atendiam a viajantes e tropeiros. No primeiro instante, o ambiente causou-nos alguma suspeita mas, quando vimos a figura simpática do senhor Darieu(5) – o proprietário – mudamos de ideia e passamos a acreditar na seriedade do estabelecimento.

O senhor Darieu é certamente uma das criaturas mais originais que já vi. Vivaz, alegre e extrovertido, certamente muito inquieto. Está sempre em contato com os tropeiros, uma espécie de contrabandistas que transportam mercadorias somente à noite. Aquela casa servia de entreposto para traficâncias arriscadas, porém, devido à sua localização, mostrava-se muito apropriada para camuflar qualquer ilegalidade.

Aqui está uma prova da originalidade do senhor Darieu! Ao ver, na sala principal do casarão, duas crianças muito claras, deitadas sobre uma esteira, perguntei-lhe a quanto tempo era casado. Prontamente ele respondeu: ‘Faz um mês.’

‘- E as crianças?’ – tornei a perguntar.

Então, ele explicou:

‘- Comigo, uma coisa aconteceu, mas foi há muitos anos! Certo dia, estando minha mulher muito doente, o médico assegurou que não tinha mais que dois dias de vida. Então, busquei um padre e nos casamos.’

Ouvindo isso, louvei seu bom procedimento e ele disse mais:

‘- Se não ficasse tão caro, haveria mais casamentos por aqui. Mas, infelizmente, não casam de graça! Meu casamento, por exemplo, custou-me 40 mil réis e, olha, com esse dinheiro, dá para fazer um bom investimento. Verdade é que, durante a estadia do padre na nossa igreja, com 40 mil réis batizei dois filhos, que não eram batizados, e ainda consegui enterrar outro.’

Repouso de tropeiros (por Rugendas).

E, por acréscimo, fiquei sabendo que o padre ao qual se referia Darieu era aquele religioso simpático, o mesmo que conheci no Morro Queimado. Logo depois, quando estávamos saindo daquela paragem, deparei-me com a jovem e atual esposa do nosso anfitrião. Era uma criatura frágil, de traços doces e delicados. Vestia um modesto vestido de cor rosa que, devido a muitas lavagens, estava bem desbotado. De toda sorte, essa peça de vestuário harmonizava com sua figura. A tonalidade do seu rosto se confundia com o tecido quase incolor.

A mulher pálida estava sentada sob a sombra de uma folha de bananeira, que a protegia do sol. Estava ali ocupada em repetir, com uma doçura angelical, algumas palavras* em português, para um negrinho deitado aos seus pés. Era um escravo, recente aquisição de Darieu.

A cena me fez pensar e entendi: mesmo que certas pessoas possam ter nascido escravas, ou na pobreza, nada impede que sejam possuidoras de um espírito elevado. Então, perguntei a mim mesmo: ‘- Qual seria a sina que as condenava a uma pobre existência? Meu Deus!’ Lembrei-me de ter visto mais algumas crianças, nascidas nas cabanas suíças das redondezas de Nova Friburgo que, em vida, quase nada recebiam!

Desde aquele ponto, o caminho era só descida, porém largo e bem cuidado. Em certo momento, adentramos numa região de terras baixas e lamacentas (baixadas), até que chegamos às margens do rio Macacu*. Naquela parte do percurso, encontramos Santana, uma vila com aparência graciosa, mas situada no meio de um pântano. Certamente, é uma das localidades mais insalubres. Ali, tomamos um barco para continuar a viagem. Naquela região é a única das pequenas cidades que têm alguma atividade industrial, se é que a podemos assim chamar, de fabricação de facões, aqueles que os tropeiros portam nas viagens. — * Macacu: rio que desagua na baía da Guanabara.  

Nas proximidades de Santana, começamos a ver caravanas de mulas carregadas de sacos de café e caixas de açúcar. Esses produtos chegavam do interior, para depois serem transportados ao Rio de Janeiro em barcos que trafegam pelo rio. Pouco tempo permanecemos em Santana e partimos às oito da noite. Apesar da escuridão e dos caminhos quase intransitáveis, das águas transbordando e onde as mulas rompiam a duras penas, conseguimos chegar à fazenda do Colégio, às 10 horas da noite. Essa propriedade é assim chamada porque foi fundada pelos jesuítas, para sediar um colégio destinado a missões de catequese. — * Fazenda do Colégio, situada em Papucaia.

No começo, não foi exatamente um estabelecimento agrícola mas, no entanto, adquiriu esse nome de fazenda. Agora, a Fazenda do Colégio é certamente uma das mais belas e maiores do Brasil*. Ocupa mais de mil negros, abrangendo enorme área. Há caminhos bem conservados, nos quais podem trafegar carros com quatro rodas. Trata-se de um veículo um tanto tosco, se assim podemos dizer, e que é puxado por bois. — * Na verdade, era parte de uma sesmaria (várias fazendas).

Os edifícios são enormes. O principal possui grandes apartamentos para os mestres, o capelão, o médico e alguns empregados superiores, mais uma capela e um hospital. Essa construção está inserida num imenso terreno onde também há o pátio principal. Por trás desse conjunto, há outro menor e mais modesto, mas também espaçoso. Atrás dele, fica o alojamento do diretor geral, mais uma grande usina para produção de açúcar, várias oficinas, uma fábrica de farinha de mandioca e estábulos. E, mais adiante, situam-se os alojamentos dos escravos, conjunto que se assemelha a uma aldeia de aparência terrível.

Nesse país, onde os viajantes são raros, na maioria das vezes a hospedagem é oferecida gratuitamente. Devido ao costume, sempre se encontra um lugar onde repousar. Por outro lado, a chegada de uma caravana é sempre um grande evento. Assim sendo, quando estávamos a chegar, a cachorrada fez um alvoroço, os negros gritaram e os cavalos relincharam. Logo depois, serviram-nos um chá, uma porção de açúcar e uma dose de cachaça. Durante a viagem, já estávamos habituados com uma alimentação muito reduzida e a que nos ofereceram foi a contento: uma sopa. Depois disso, tão logo nos acomodamos em esteiras para dormir, boas-noites nos desejaram.

Casebre de pau-a-pique, coberto de palhas, e terreiro de escravos (por Rugendas).

No dia seguinte, domingo, bem cedo fui conhecer as redondezas. Mulheres negras estavam na lavanderia, ocupadas na limpeza das suas roupas. Algumas preparavam comida, num fogo aceso no meio de um barracão, outras variam o pátio em frente. Essas cabanas são sujas, tristes e enfumaçadas, resumindo: horríveis. Nesse ambiente a miséria é inconcebível: apenas uma esteira para cada pessoa, alguns vasos de barro, chão de terra batida e úmida, e a cobertura de sapé*. — * Folhas secas de coqueiro.

Fui também ver a fábrica de farinha de mandioca a funcionar. Os escravos não têm direito a um descanso prolongado e, devido a isso, estavam trabalhando no feriado. Vi também uma negra em estado lamentável, com a cintura envolta por uma corrente que fica atada a uma coleira de metal, a qual estava a lhe rodear o pescoço. Impuseram-lhe essa horrível gravata porque tentou fugir de casa.

Castigo: colar de ferro no pescoço e tampão na boca.

Quando me afastava, vi o administrador chicoteando uma mulher. A pobre coitada era uma velha decrépita mas, assim mesmo, muitos golpes recebia em seu corpo curvado. Ao mesmo tempo, um cão lambia seus joelhos feridos. Só fiquei sabendo depois, que se alguém testemunha uma cena dessas, pode fazer uso do costume denominado apadrinhar um escravo e, desse modo, a pena imposta é suspensa. Naquele momento, ignorando o poder de que dispunha, deixei de interferir para interromper o aflitivo espetáculo. 

Daí a pouco, por parte do capelão, vieram convidar-me para assistir à missa, que seria celebrada na igreja da fazenda. É um templo bem arrumado, gracioso e bem ornamentado. Traduz os sentimentos de piedade e zelo dos católicos brasileiros, e o espírito universal dos construtores, os padres jesuítas. Dos arredores, negros e mulatos foram chegando apressados, para assistir a cerimônia.

A população da fazenda, que é diferenciada, toma seus lugares já determinados na igreja. Ao digníssimo administrador e aos indivíduos brancos é reservado um compartimento coberto. As damas mestiças – de pele acaju –, ficam assentadas em cadeiras frente ao altar. Atrás delas, ficam as damas de cor chocolate. Quanto às negras velhas, ficam ajoelhadas no chão, na parte do fundo.

As senhoras mostram-se adornadas como se fossem santuários. Nos seus dedos, cintilam enormes diamantes. O estilo dos vestidos remonta àquele dos tempos do rei d. João VI, quando chegou ao Rio de Janeiro* (*1808). Para colocar as coisas nos devidos lugares, devo dizer que a elegância dessas fazendeiras é realmente muito tosca. E, também, muito materialista, como denunciam seus dedos gordos, mal enfeitados com magníficos brilhantes. Quando o padre subiu ao altar, todas as negras fizeram um coro de gemidos lamentosos. Ao ouvi-lo, senti como se fossem canções de dor e de auto-recriminação.

Contudo, a missa terminou de forma bastante decente. Mas, depois do santo ofício, ocorreu uma cena tão carregada de impropriedades, que é difícil de ser descrita. Trouxeram para a igreja uns 40 escravos, mal chegados ao Brasil. Eram moças e rapazes, entre 10 e 20 anos de idade e suas fisionomias eram selvagens e assustadas.

Foram então separados em dois grupos – mulheres e homens –, com o anúncio de que iriam ser batizados, embora todos mostrassem alguma resistência à iniciação ao cristianismo. Uma acompanhante negra e outro negro, ignorando o que iria se passar, revezavam na tarefa de os conduzir ao padre. Então o oficiante aproximava-se de cada um, trazendo uma lista à mão, e lhes dirigia as perguntas de praxe. Mas quem respondia era o acompanhante, de modo que o oficiante pudesse dar continuidade ao sacramento.

Nunca poderia imaginar que aquele ato solene terminaria com uma cena ridícula. Em vez de colocar o sal de costume sobre os lábios dos infelizes, os obrigavam a abrir a boca e o padre enfiava-lhes um bocado até a garganta. Os negros, estranhando a substância, manifestavam fazendo caretas. Mas, a cada movimento que faziam, o bom padre lhes segurava as bochechas…

Por outro lado, no momento da água benta, a dose que recebiam mais lembrava um banho de chuveiro. E ouviam-se explosões de riso na plateia, como se todos estivessem num circo. Em algumas fazendas, dizem que o ato do batizado é um procedimento de ‘fazer cristãos’. Contudo, essas cerimônias não são precedidas de qualquer instrução. O que ocorre depois é que o padrinho, sempre um pobre negro, que também nunca foi instruído, fica encarregado da iniciação religiosa.

← Barracão de escravos (por Rugendas).

O oficiante desse batizado é um aventureiro português, que veio buscar fortuna no Brasil. É um homem grandão, esbelto, pele morena, olhar penetrante e denota uma tremenda ignorância. Estudos clássicos não possui, não conhece uma palavra de latim, não estudou teologia e sua linguagem não se compara a de um São Cristóvão, nem a de um São Belarmino.

Se destaco desse modo, tanto o padre de Nova Friburgo quanto o da fazenda do Colégio, não é por pura vontade de denegrir alguém. É apenas para mostrar o estado de dissolução em que vivem os pequenos clérigos do interior, os quais agem sem a supervisão dos bispos. Lembro-me que, ao discutir as desvantagens da escravidão, as pessoas mais religiosas do meu grupo concordavam que os negros estavam pagando muito caro para se tornarem cristãos. A cerimônia nos fez entender que a conversão religiosa, do modo que lhes estava sendo imposta, precisava ser substituída por atitudes mais racionais e humanas.

Durante a cerimônia, notei que todos aqueles jovens traziam, do lado esquerdo do tórax, uma ferida aberta ou em fase de cicatrização. Fiquei curioso por saber a causa deste sinal comum. O próprio administrador, ingenuamente, informou que era uma marca produzida por um ferro em brasa. Ela trazia as iniciais do navio negreiro, bem como as do vendedor dos escravos. Desolado com tudo que tínhamos acabado de ver, saímos da igreja e fomos nos reunir com o padre na sala de refeições da fazenda. Então, aquele homem elegante e de força incomum, veio até nós queixando-se da sua exaustiva atividade daquela manhã! E foi manifestando:

‘Que canseira, ter que lidar com esses animais fedorentos! Felizmente, depois de fechar as portas da igreja nos seus calcanhares, não tenho mais que me ocupar com eles!’

Daí, o senhor Lagrené – chefe da minha comitiva – sentindo que sua própria fé estava sendo violentada, perguntou-lhe:

‘- Mas você lhes dá alguma orientação, uma vez ou outra?’

Denotando indignação, ele respondeu:

‘- Eu? Prefiro ensinar os porcos da fazenda!’

← Porto das Caixas, na Fazenda Sampaio / Itaboraí.

Pois bem, depois do meio-dia, partimos em direção ao Porto das Caixas. O caminho que seguimos era como o de ontem, insalubre e lamacento. Encontramos pântanos em toda sua extensão e, sem a possibilidade de tomar um desvio, receávamos afundar naquele meio infecto coberto com folhagens. O vento fazia inclinar os caules lisos das tabôas (espécie de papiro), uma bela planta, cuja leve folhagem se agitava ao capricho do vento. Bandos de aves aquáticas, abrigadas entre as plantas, não se incomodaram com nossa presença. Na sua maior parte, são coloridos ariris e garças brancas. Em alguns lugares, notamos rastros, denunciando a passagem de grandes animais. Os guias disseram que seriam de jacarés, mas que são difíceis de serem percebidos.

Ao atingir o rio Macacu, o atravessamos numa parte rasa, porém larga, até que atingimos a vila de mesmo nome. Encontramos o lugar completamente deserto. Nessa parte do ano, as febres malignas grassam intensamente, de modo que põem a população em debandada. As casas são de bonita aparência. Passamos por uma praça, onde vimos duas traves de madeira encimadas por um caibro. Passa a impressão de que serviria para pendurar algo que restara dessa vila. Imagino que alguns homens ainda poderiam ser ali enforcados. O equipamento permite pendurar até cinco deles. De qualquer forma, espero de quem for assistir esses espetáculos, que saiam dali melhores homens e que, nas suas penas, os juízes sejam brandos.

Chegamos ao Porto das Caixas às 8 horas da noite, momento em que uma tempestade caía com violência. A vila está edificada numa encosta, com vista para Macacu. Nem por isso escapa das más influências das águas brejosas. Na manhã seguinte, às 9 horas, conseguimos chegar a Sampaio, 2 horas antes de partir o vapor que desce o rio e vai até o Rio de Janeiro. Sampaio possui apenas algumas toscas cabanas, onde armazenam mercadorias em grandes quantidades. Nesse entreposto, tal como o de Piedade, vendem-se produtos necessários às fazendas do interior.

Quando chegamos ao Porto das Caixas, as ruas estavam cheias de negros, carregando sobre a cabeça cestas de frutas e legumes, que são enviadas para o Rio de Janeiro. Em pouco tempo nos instalamos no barco que nos levaria ao ponto final. Viajamos em meio a fazendeiros, negros, mulatos e de portugueses de cor sépia (bronzeados). Todos permaneciam estáticos, envoltos em pensamentos ou contemplações silenciosas.

Oito horas após a partida de Sampaio* (*Porto das Caixas) e depois de atravessar a linda baía, encontramos a cidade do Rio de Janeiro transformada num verdadeiro campo de batalha. Ruas, praças e casas, todas eram palco de mil cenas de violência. Atacava-se com furor e defendia-se do mesmo modo, com cantos de vitória e gritos de desespero. Estávamos assistindo uma cidade em guerra! 

Entretanto, logo ficamos tranquilos, ao perceber que não eram tiros mortais, mas apenas bolas de cera colorida, com forma de ovo e preenchidas com um líquido odorífico(6). Os projéteis, quando atingem o alvo, fazem com que o atacante ponha-se a rir. Se quiser saber o por quê de tudo isso, olhe no almanaque do ano da graça de 1844. Verá que o 19 de fevereiro é terça-feira gorda, dia de celebrações das mais excêntricas, das alegrias mais selvagens, dos prazeres mais barulhentos*. — Naquela época, chamava-se essa folia de “entrudo”, o mesmo que carnaval.

Guerra do entrudo, na sala e nas janelas (por A. Earle).

Na França, comemora-se o carnaval agitando os corpos convulsivamente. Depois, a multidão queima um boneco e dança em torno dele. Mas, no Brasil, não há como brincar da mesma maneira. Onde brilha um sol incandescente, é temerário atiçar mais fogo no ambiente e, por isso, joga-se água. Na quarta-feira de cinzas, os combates cessam. Então, uma grande procissão percorre a cidade, quando brancos e negros trocam a folia por reverências respeitosas.

Passei os últimos dias da minha estadia em visita a amigos que fizera. Porém, na véspera da partida(7), quis ainda dar meu adeus ao belo país, que despertou em mim os melhores sentimentos. Onde conheci as belezas da sua natureza, que tanto me surpreenderam e entusiasmaram. Com a intenção de formalizar minha despedida, dirigi-me a uma capela*, administrada por monges, construída no lugar onde os descobridores haviam instalado uma pedra monumental. — * Capela do Convento de Santo Antônio, na rua da Carioca.

Esse marco, única memória da fundação da cidade, está lá abandonado como uma pedra qualquer, sem nenhuma proteção. Se qualquer mão profana um dia a mutilar, ninguém saberá de nada sobre o sacrilégio consumado. Esse abandono é resultado da ignorância e da incúria brasileira ou do desdém pelo passado. Num instante, apoiei-me sobre esse venerável pedaço de granito, que possui em uma das faces cinzelada com as armas de Portugal*.

Desse ponto, vê-se a baía da Guanabara e, dali, lancei um olhar sobre o lugar de onde estava indo embora. A lua que estava a brilhar, parecendo o sol do alvorecer, coloria as formas em claras tonalidades. No meio da baía, pude ver nossas embarcações La Sirène e La Victorieuse** em repouso absoluto. Pareciam já estar recuperadas da longa viagem e tomando fôlego para novamente enfrentar o oceano. — * Cruz da Ordem de Cristo e símbolo de Portugal. / ** La Sirene e La Victorieuse: navios que conduziram a comitiva francesa.

A cidade estava muda… Depois do tumulto, da agitação, surgira uma perfeita calma. À população negra é vedado circular após determinadas horas, de modo que essa gente só pode respirar a brisa do anoitecer sentada às portas das suas casas. Mas, sempre sob o olhar vigilante dos seus senhores. Contemplando esse espetáculo, eu me perguntava: ‘- Por qual fatalidade, a raça etíope*, permanecerá condenada à servidão, que já vem de séculos? Por quanto tempo deverá permanecer nesse estado de abjeção em que vive?’ — Etíopes: naquela época, assim eram também chamados os negros.

Convento de Santo Antônio, no alto do morro Santo Antônio (rua da Carioca).

Antes de chegar ao Brasil, admitia a inferioridade natural dessa raça e, até então, tudo me parecia bem convincente. Contudo, depois de percorrer o país e conhecer essa gente infeliz, mudei firmemente de opinião, constatando que sua inteligência não é menor que a do meu povo civilizado. As explicações que tinha não mais me servem. Agora, sou obrigado a buscar noutra ordem de ideias as razões de tanta humilhação!

Ainda no mesmo lugar, em frente à capela, enquanto pensava no futuro, vi um monge caminhando em minha direção. Já o conhecera, junto a um amigo francês, e entendi que era um campeão na defesa do tráfico e da escravatura. O religioso aproximou-se e veio sentar-se junto a mim. Nesse momento, eu lhe disse:

‘- Sabe que, pelo sofrimento imposto a esses condenados, acredito que o Brasil é uma filial do inferno? Na verdade, não consigo compreender que, por uma simples cor de pele, parte da humanidade seja torturada por outra. Com sua lógica católica, talvez você possa me esclarecer. É por algum crime do passado, que aplicam a essa população tão absurdo martírio?’

O padre sacudiu a cabeça e, com desdém, disse:

‘- Você pergunta essas coisas porque é um insensato. Porque nenhuma crença possui. Porque abandonou a fé dos seus pais, sem ao menos refletir. Sem ao menos ter avaliado sua magnificência e sua unidade. Nem percebido as divergências dos sistemas que lhe perseguem, lhe aprisionam em um labirinto de onde não pode sair. Você, francês, zombador e cético, incline-se diante da razão de quem está a lhe falar e escuta-me!’ 

E depois de muitas outras palavras, completou:

‘- Adeus! Lembre-se de minhas palavras!’

O velho sacerdote então retirou-se… E eu fiquei arrasado com sua linguagem veemente e apaixonada. Diante disso, guardei comigo o propósito de descrever, como faço agora, essa bizarra conversação. Estava me esquecendo: o padre tinha olhos azuis. Porém Esquirol(8), o psiquiatra, nos disse que muitas pessoas de olhos azuis estão mais propensas às doenças mentais.”

Texto, tradução, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

• Leia os Posts anteriores, clique: “Rio Antigo (I)” , “Rio Antigo (II)” , “Rio Antigo (III)” e “Rio Antigo ((IV)”.

Leia também, clicando com o botão direito: “Pouco mais que um sonho”.

(1) MECHIOR-HONORÉ, Yvan – “De France en Chine”, Librarie de L. Hachette, Paris, 1855. / Caricatura ao lado. / Por irrelevância, foram suprimidos pequenos trechos do relato completo.

(2) Nova Friburgo – a região foi habitada pelos índios goitacases, puris e portugueses. Em 16.05.1818, d. João VI idealizou uma colonização planejada para promover a civilização do Reino do Brasil. Lavrou então um decreto que autorizava o estabelecimento de uma colônia de cem famílias suíças na fazenda do Morro Queimado, no distrito de Cantagalo. Entre 1819 e 1820, a região foi colonizada por 265 famílias suíças, totalizando 1.458 imigrantes, originários do cantão suíço de Fribourg. Foi também o primeiro município brasileiro a ser colonizado por alemães, com 456 imigrantes, que chegaram em 03.05.1824.

(3) PINTO, Manoel Ferreira (1º Barão do Carmo) – Ouro Preto, *1793) / Cantagalo, RJ, †1878. Comendador da Ordem da Rosa. Proprietário da Fazenda Boa Vista. Filho de José G. Ferreira Pinto e Francisca Romana de Oliveira. Casado com Carolina de Freitas do Amaral, filha do 1º Barão da Lagoa, Bernardo Casimiro de Freitas.

(4) JOYE, Jacob – Vigário de Nova Friburgo (imagem ao lado). Embarcado no navio Urânia, que conduziu os primeiros colonos. Durante a viagem, morreram 109 suíços – adultos e crianças –, os quais tiveram suas almas por ele encomendadas. Deixou anotações onde revela que, após chegar no Rio de Janeiro, ficou amargurado ao seu primeiro contato com a escravidão. Suas palavras: “Durante o dia não vimos senão negros, eles fazem todo o trabalho. A maneira como são tratados me causou uma impressão extremamente sensível, tanto que não podia esperar o momento de voltar a bordo”. Contudo, quando veio a se tornar fazendeiro, o padre aceitou e admitiu o costume da exploração humana adquirindo escravos. Por outro lado, também utilizou órfãos da colônia para explorar suas terras. // Designação do primeiro vigário de Nova Friburgo, padre Joey: “… E Sou outrosim servido nomear para Vigario della o padre Jacob Joye, com 200$000 de congrua, e para seu coadjuntor o padre Aeby* com 100$000, tambem de congrua. A mesa da Consciencia e Ordens o tenha assim entendido e faça executar com os despachos necessários. Palacio do Rio de Janeiro em 3 de Janeiro de 1820. – Com a rubrica de Sua Magestade.” — * O padre Joseph Aeby chegara ao Brasil em 1819, mas não pôde estar em Nova Friburgo, porque morreu afogado no rio Macacu, ao pé da serra dos Órgãos, em 07.01.1820. // Curiosamente, padre Joye foi o criador da primeira loja maçônica de Nova Friburgo, embora tal atitude fosse condenada pela igreja católica.

(5) Em 28.09.1842, o Príncipe Adalberto da Prússia hospedou-se na estalagem de monsieur Darieu (mas ele o trata como Darieux). Sobre o hospedeiro escreveu: “Darieux, o pequeno estalajadeiro, abriu a porta atendendo ao chamado […] Era um francês com uma blusa azul clara, muito pregueada, e logo atraiu nossa atenção pela sua loquacidade. A jovem esposa do estalajadeiro era uma suíça de Friburgo e falava francês; ajudava nos serviços da estalagem uma pequena criada alemã, loura. […] O jantar foi muito bem servido, mas tivemos que esperar muito por ele. O homenzinho francês quis que adivinhássemos em que parte da França tinha nascido, mas ninguém conseguiu. Por fim, declarou que era bearnês* (*de Bearn), mas que tinha sido educado em Paris.” / Em “Viagem de Sua Alteza Real Príncipe Adalberto da Prússia – no sul da Europa e no Brasil, com uma viagem ao Amazonas e ao Xingu”, vol. 2.

(6) Limões de cheiro ou laranjas de cheiro: bolinhas de cera recheadas com água perfumada. Eram produzidas em casa ou então compradas de escravos, que os vendiam nas ruas.

(7) A partida do Rio de Janeiro, em direção ao Cabo da Boa Esperança e depois ao Extremo Oriente, se deu no dia 23.02.1844, às 4 horas da madrugada. Passageiros do La Sirène: senhor Lagrené, ministro plenipotenciário, acompanhado da senhora Lagrené e dois filhos pequenos; senhor Ferrière-le-Vayer, primeiro secretário da comitiva; senhores Hante e Marey-Monge, assessores contratados; senhores Donald e Guiche, convidados; senhor Xavier Raymond; senhor Yvan Melchior-Honoré, médico da missão; senhor Ytier, inspetor de alfândega; senhor Lavollée, assessor adjunto ao senhor Ytier, pelo Ministério das Finanças; senhor Hontigny, chanceler. / La Sirène, fragata de 56 canhões, comandada pelo capitão Charner e acompanhada pela corveta La Victorieuse. / Fonte: VAYER, Th. de Ferrière, “Une Ambassade Française en Chine”, Paris, 1854.

(8) ESQUIROL, Jean-Étienne Dominique – (*03.02.1772 / †12.12.1840) Psiquiatra francês. Foi discípulo de Philippe Pinel, sucedendo o mestre, em 1811, como chefe do Hôpital de la Salpêtrière, em Paris.

6 Comentários »

  1. Eduardo: Muito interessante a sequência acerca do Rio antigo. Parabéns pela brilhante pesquisa.
    Maria Marilda
    Lagoa Santa, Minas Gerais

    Comentário por Maria Marilda pinto Corrrea — 01/09/2017 @ 7:24 am | Responder

    • Marilda:
      Gratíssimo pelo entusiasmo que você me passa.
      Abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/09/2017 @ 8:13 am | Responder

  2. Eduardo,
    o que mais me impressiona na narrativa de Yvan Melchior-Honoré, a que tive acesso pelo seu brilhante trabalho de pesquisa e tradução, é a atualidade dos temas tratados. As paisagens mudaram, o Rio é outro, mas os preconceitos, as injustiças, a cegueira (muitas vezes intencional) dos que detêm o poder continuam fazendo vítimas por todos os cantos.

    O que nos dá esperança são as atitudes de pessoas como Yvan Melchior-Honoré, que é capaz de afirmar: “Antes de chegar ao Brasil, admitia a inferioridade natural dessa raça e, até então, tudo me parecia bem convincente. Contudo, depois de percorrer o país e conhecer essa gente infeliz, mudei firmemente de opinião, constatando que sua inteligência não é menor que a do meu povo civilizado. As explicações que tinha não mais me servem. Agora, sou obrigado a buscar noutra ordem de ideias as razões de tanta humilhação!”

    Muitos têm a convicção de que a escravidão foi abolida. Alguns, no entanto, estão conscientes de que as formas de escravidão apenas mudaram de roupagem e que, de maneira sutil, a escravidão atinge muito mais pessoas. Para isso serve o passado. Ter memória é tornar presente o já acontecido de forma a iluminar o que vivemos hoje.

    Mais uma vez parabéns, Eduardo, por esta sequência de textos sobre o Rio de Janeiro, que, como disse nosso amigo Fernando, por mais que queiram e tentem, não conseguem torná-lo feio.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 03/09/2017 @ 6:05 pm | Responder

    • Pedro:
      Pois é, lendo e aprendendo com o senhor Yvan, que é um repórter do passado.
      Muito obrigado pelo comentário.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/09/2017 @ 6:36 pm | Responder

  3. Pena que acabou a viagem ao Rio Antigo. Esta parte final tocou-me profundamente. A situação dos escravos descrita assim por quem estava ali vendo tudo de perto dói na alma. Interessante porém ver o despertar do senhor Yvan que reconhece o absurdo daquela situação. Ele ainda tinha dentro de si o preconceito, como vemos nesta parte: “Preciso dizer que, desde a chegada ao Brasil, estávamos a ver quase que só pessoas negras ou morenas. Por conta dos seus cabelos e olhos negros, sentíamos nelas qualquer coisa de diabólico. De outra maneira, em Nova Friburgo, ao admirar aqueles olhares ingênuos e emoldurados por cabelos loiros, a sensação fora muito agradável.” Ainda sentia ser os brancos como superiores. Sentiu alívio ao ver pessoas louras! Sensação agradável. Enquanto os negros e morenos lhe pareciam diabólicos. Mas vai mudando com o tempo. Sua conversa final com o padre mostra como já não tolerava a escravidão. Lamentou não saber que podia ter impedido o espancamento de uma escrava. Fiquei pensando também na natureza. Ele a descreve de tal forma que dá vontade de estar ali vendo tudo. Mas sei que grande parte já foi destruída. E não tenho dúvidas que o Rio de Janeiro era muito mais bonito naquele tempo. Até o carnaval me pareceu mais interessante.

    Comentário por sertaneja — 11/09/2017 @ 12:58 am | Responder

    • Virgínia:
      Que bom você ter gostado! Estou preparando mais um texto de grandes emoções. Tudo documentado. Aguarde.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 11/09/2017 @ 7:21 am | Responder


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