Sumidoiro's Blog

01/10/2017

GUERRA DA SALSINHA

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:41 am

♦ Um caso de volúpia alimentícia.

uro, ouvi do meu amigo Generoso Júnior! O que agora vou contar, é parte do que me disse. A fim de gerar um acréscimo na sua aposentadoria, foi ele levado a investir na compra de um apartamento para alugar. Porém, devido à crise econômica que se instalou no país, os poucos metros quadrados continuam desocupados. Desse jeito, além de investir seu dinheirinho no lugar errado, acabou por colocar o peso de um edifício nos ombros. Pior ainda, por falta de malícia, aceitou participar do Conselho Administrativo.

Seu consolo, nessa recente relação com o microcosmo edilício*, é o elevador. A ele se afeiçoou, logo ao primeiro contato. Considera-o de fato muito especial, porque já veio inteligente de fábrica e ainda mostrou-se como a “pessoa” mais valorosa do prédio. É um trabalhador assíduo, sociável, educado e nunca erra o andar. E, na sua natural discrição, fala com todo mundo o estritamente necessário. — * Edilício: que diz respeito à edificação.

Até agora, a segunda personagem mais ativa do prédio tem sido dona Akracida, também membro do Conselho. Pelo seu constante modo de agir, denota ter dentro da cabeça um ideário sub-reptício*. Engordou pra chuchu**, porque gosta muito de se alimentar. Generoso Júnior admite que seria portadora de um sofrimento metabólico-mental, de modo que ama desesperadamente tudo aquilo que possa ser comido. Completando o seu perfil, revelou que a “dona” em questão é muito alva e porém desagradável, como indica o próprio nome. Akracida quer dizer azeda, em esperanto***, embora ela seja um caso perdido. — * Sub-reptício: aquilo que é furtivo, dissimulado, clandestino. / ** Pra chuchu: expressão brasileira pra dizer grande quantidade, abundância ou intensidade. / *** Esperanto: língua artificial, criada por volta de 1887, como instrumento de comunicação internacional.

Diz ele que, quando suas bochechas ficam rosadas, ela se torna mais brilhante, devido ao contraste. É porquê sempre que está a mastigar uma balinha, essa área assume o tênue colorido, devido à circulação sanguínea. Seguindo esses detalhes, meu amigo formou para si a imagem da mulher que vive nas sombras do condomínio, foge do sol e se engrandece com a comida.

Outro dia, para aliviar-se de algumas angústias administrativas, o síndico tornou a convocar o Conselho. E o devotado conselheiro Generoso Júnior lá foi outra vez, pleno de boas intenções. Estiveram a tratar de umas esquisitices que brotaram da imaginação de dona Akracida, a pretexto de modernizar a jovem edificação, de 5 aninhos de idade.

Verdade é que à conselheira falta o necessário bom senso e também o que fazer. Além disso, traz também um vazio no peito, que tenta preencher gastando dinheiro, principalmente o dos outros. Porém, por renitência do meu amigo conselheiro, até o fim daquele embate condominial não foi possível haver acordo sobre as propostas de fato mirabolantes.

Pois bem, logo após a reunião, dona Akracida, plena de segundas intenções, passou a divagar sobre suas simpatias de cunho comunitário. Disse ela que, no mundo moderno, tudo deve ser compartilhado. Ou seja, todas as cidadãs e cidadãos deste país, principalmente nos grandes aglomerados, deveriam adotar tal modo de agir, que se traduz como politicamente correto.

Alertou também dona Akracida que, nesses casos e nas primeiras tratativas, a aceitação das pessoas pode parecer difícil. Contudo, depois que for depreendida a nobreza do propósito, a mudança flui naturalmente. Portanto, há que se abolir o individualismo no referido edifício de 80 apartamentos! Vai daí que, após a inconclusiva reunião, saíram todos juntos.

Entretanto, no meio do caminho, dona Akracida lançou aos ouvidos de Generoso Júnior um novo desafio, fruto de outra elucubração mental. Apontou para um canteiro, d’onde haviam tirado toda a terra, situado num tal de pilotis – que melhor dizendo seria área de lazer –, e sugeriu:

“- Tenho a ideia de fazer aqui uma hortinha compartilhada.”

Logo, Generoso Júnior respondeu:

“- Ótimo, faça!”

Daí, a pretensa camponesa do asfalto emendou:

“- Não sou eu que vou fazer. É o jardineiro do prédio.”

Com isso, o amigo não resistiu e, sem nenhuma generosidade, lançou suas farpas:

“Olha, eu não vou pagar jardineiro, nem sementes na taxa de condomínio. Se quiser você compra!” 

E continuou:

“Aqui tem 80 apartamentos, com um montão de gente morando. Já imaginou quando todo mundo resolver comer verdura, ao mesmo tempo?”

Na sua explosão, ainda disse mais:

“- Já pensou se surgir uma desavença na horta, entre aqueles moços do 4o e do 6o? E um deles gritando: você roubou o meu pepino!”

E completou:

“- Com esse seu canteiro, você vai acabar deflagrando a Guerra da Salsinha. Até logo, que vou-me embora.”

Assim mesmo, dona Akracida acompanhou Generoso Júnior, para juntos pegarem o elevador. A mim, o amigo esclareceu que o elevador é transgênero. Masculino, mas com voz de mulher. Então, quando adentraram-no, a máquina falou, com voz melodiosa:

“- Elevador, pilotis.” — Só faltou falar bem-vindos.

Ele(a), o elevador(a) era a única “pessoa” que falava com as gentes no sobe-desce. Então, Generoso Júnior apertou o botão subsolo e a “dona” apertou 8. O veículo então disse:

“- Elevador, descendo.”

Nesse meio tempo, o amigo aproveitou e falou com dona Akracida:

“- Estamos indo para as profundas…”

E lá foram os dois… Até que, chegando ao destino, no piso inferior (inferno e inferior têm a mesma etimologia), o(a) elevador(a) deu seu recado:

“- Elevador, subsolo.”

E a primeira porta abriu-se. Então, Generoso Júnior arremeteu um enérgico e enigmático olhar para dona Akracida, e completou dizendo:

“- Já vou…” – e abriu a segunda porta.

No mesmo instante, sentiu-se um cheiro de vela queimada… Ficando atônita*, dona Akracida deu um passo para trás! Foi daí que o amigo pôde ver que ela ficara de olhos arregalados, mais branca que o natural, e com o rosado das bochechas avermelhando-se. Será que ela imaginou ter Generoso Júnior parte com o Tinhoso**?

Por Eduardo de Paula

* Atônito (etimologia): assustado pelo ruído do trovão. / ** Tinhoso: um dos apelidos do demônio.

8 Comentários »

  1. Eduardo: Que confusão! Seu Post está uma euforia!

    Comentário por Maria Marilda pinto Corrrea — 01/10/2017 @ 8:59 am | Responder

    • Marilda:
      Nosso Brasil também é um condomínio. Então, vamos rir, pelo menos do edifício, para diminuir as dores.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/10/2017 @ 9:10 am | Responder

  2. Eduardo, que bela crônica! Parabéns pela escolha do título e do subtítulo! Parabéns, ainda, pela escolha e descrição das personagens, pelos nomes “Generoso Júnior” e “Akracida”. Você é sutil quando descreve o elevador, mais uma lição aprendida por mim: “fala com todo mundo o estritamente necessário”. É assim que quero ser.
    Um grande abraço.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 02/10/2017 @ 9:47 am | Responder

    • Pedro:
      Pois eu falo demais… com a devida vênia. Mas você também está certo. “Vive la difference!”
      Muito grato e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/10/2017 @ 10:01 am | Responder

  3. Eduardo: mais uma aula deliciosa sobre as cocore.Senti-me numa aula confete! Aprenconfeteo e recordei informações que captamos aqui e ali. Você sabe que não é fácil o momento que atravesso e suas cores coloriram… Quanto à horta vertical e misógina você poderia desenvolver num conto surreal! Perdi a juventude quando deixei de acreditar no tal do comunitário. E recentemente, com o doliroso óbvio: a dor ddoliroso

    Comentário por Vania — 14/11/2017 @ 8:12 am | Responder

    • Quanto erro de digitação! Vou refazer no outro computador e envio. Nem no Mobral…

      Comentário por Vania — 14/11/2017 @ 6:39 pm | Responder

  4. Muito bom. Quando acabei a leitura, não contive o riso. Ydernéa

    Comentário por Ydernéa — 18/12/2020 @ 6:38 pm | Responder

    • Ydernéa:
      Deus te livre de uma horta no condomínio. Abr. Eduardo

      Comentário por sumidoiro — 18/12/2020 @ 7:35 pm | Responder


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