Sumidoiro's Blog

01/12/2017

EU VI O PENSAMENTO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:16 am

♦ Um devaneio

Outro dia, fechei os olhos e, dormindo, consegui ver o pensamento. Tudo começou na beira de um rio quando, por acaso, me deparei com alguns simpáticos desconhecidos. Conversamos e, sem mais nem menos, os convidei a me acompanhar, em busca do pensamento. De imediato aceitaram o convite. Mas, por precaução, perguntei se sabiam nadar e responderam que sim. Então lhes disse:

– Vamos nos deslocar rio acima, onde certamente encontraremos o pensamento.

Formou-se um grupo: homens, mulheres e uma criança, e mergulhamos n’água. Daí, dando confiantes braçadas, prosseguimos com animação, até que nos deparamos com um pantanal. Ali vislumbramos, meio encoberto pelos juncos, o tal do pensamento. Ele se assemelhava a uma prancha de surf, enorme, porém muito despojada, singela.

De pronto, decidimos todos a nos acomodar no pensamento, a fim de fazer uma viagem. Contudo, como o veículo logo ficou superlotado, optei por ceder meu lugar aos convidados. Por isso, tive que me ajeitar pendurado num estribo, do lado direito, como aqueles que havia nos antigos bondes. Alguns companheiros se instalaram no estribo do lado esquerdo.

E foi dada a partida… O pensamento se deslocou serenamente, macio e sem trancos. Desse modo, a aventura foi transcorrendo no melhor dos mundos e plena de agradáveis surpresas.

D’onde estava e do meu ponto de vista, me deleitei com a linda paisagem, ornada com pássaros e flores. De vez em quando, ao meu lado passava um peixe ou mesmo um cardume. Uma após outra, me encantei com coisas até então desconhecidas. Nunca imaginara que fosse tão bom viajar no pensamento! Assim sendo, acreditei que os companheiros, instalados no estribo do lado esquerdo, estavam a apreciar diverso espetáculo, de acordo com o olhar de cada um.

Até que, cansado de tanta mesmice, procurei outra acomodação em busca de novidades. Para isso, abandonei meu lugar e me aboletei na parte superior do pensamento. Ali, sentei no chão, ao lado da criança que nos acompanhava. Logo à nossa frente estava o condutor, que manejava uma rédea como aquela dos cavalos.

Sem dúvida, meu novo posto era bem melhor, porque podia apreciar o panorama altaneiramente e em 360 graus. A nova posição me permitiu observação mais ampla e equilibrada. Nada de só direita ou só esquerda. Bem sei que a variedade sempre propicia maiores prazeres.

Daí em diante, como imaginei, a viagem se tornou mais rica, tanto pelo cenário, quanto pelo desenrolar dos acontecimentos. Acrescento que a criança ao meu lado era minha neta. Nunca a vira tão alegre!

Também notei que o veículo, que não possuía rodas, por toda parte movia-se rente ao chão, às vezes flutuava nas alturas. Mas, o melhor de tudo: quem puxava o pensamento era um anjo alado! Senti que, ao atravessar pedregulhos, o pensamento superava-os com facilidade e muito suavemente. Não produzia qualquer ruído.

Entretanto, em certo momento fiquei surpreso, pois os demais companheiros teriam perdido interesse pelo espetáculo e estavam adormecidos. Seus sensores vitais haviam entrado em modo de espera*, ou seja, quase que em hibernação**, guardando nada mais que vagas memórias do que se passara. — * O computador, em modo de espera, fica ocioso para economizar energia.  / ** Em hibernação, salva os arquivos e desliga.

Aliás, eu de antemão sabia… Para o bom desfrute daquela viagem, não nos bastavam os cinco sentidos, carecíamos do sexto e de mais alguma coisa. Acredito, seriamente, que os companheiros estariam mergulhados no vazio e não no sonho, como seria de todo recomendável, principalmente naquelas circunstâncias.

Daí em diante, sem esmorecer com os meus propósitos, prossegui solitário naquela aventura surrealista. Até me esqueci que tinha acompanhantes na viagem. E vai que, de repente, me deparei com um pórtico, em estilo neoclássico*, onde estava escrito: “Seja Bem-Vindo”. Diante da gentil recepção nem pestanejei e, com pleno entusiasmo, fui adentrando naquele sítio. Depois de algumas passadas, vi um bicicletário e uma placa avisando: “Aluga-se.” — * A arquitetura neoclássica começou a desenvolver-se na primeira metade do século XVIII.

Empolgado com a possibilidade de conhecer o que estava por vir, rapidamente escolhi uma bicicleta de pneus balão. Gosto de viajar confortavelmente! Contudo, tão logo me ajeitei no selim e já nas primeiras pedaladas, percebi que a bicicleta estava por demais pesada. Dei uma olhada nos pneus, mas constatando que estavam bem calibrados, continuei com toda força a movê-la e logo fui penetrar num denso arvoredo.

Era um bosque e, para não fugir à regra, mais à frente o caminho dividia-se, em três ramos. Porém, devido às minhas sabedorias, optei por escolher o que parecia ter mais empecilhos: pedregulhos, espinheiros, buracos, etc. Assim, sem titubear, fui em frente naquele mais conveniente ao meu gosto e, logo, pude ouvir passarinhos. Lembrei-me dos meus tempos de juventude quando, na hora do Angelus, ouvia cantorias de pardais.* — *  Na minha cidade, Belo Horizonte, os bandos de pardais alegravam o entardecer. 

Mais adiante, me deparei com um cão vira-latas, branco, que me lançou um olhar enigmático. Naquele instante, senti uma pulga atrás da orelha e suspeitei: “- Esse animal já é meu conhecido… de vidas passadas.” E parecia mesmo ser verdade, porque não mais se desgrudou de mim. E, daí para a frente, juntos, fomos trocando mensagens telepáticas e nos divertindo.

Pois bem, da mesma maneira que entendo que um pingo é letra, também admito que o rabo de um cão pode ser indicador de muita coisa. E foi então, com essa ferramenta, que o animal filho de Deus, passou a me guiar em meio ao arvoredo.

Levou-me então a um lago, onde vi uma ponte em estilo chinês. Lá havia pessoas, passeando em pedalinhos. Entre elas percebi sorrisos e demonstrações outras de alegria. Ainda vi um casal de namorados numa charrete, trocando beijos e afagos. E, como já estava suspeitando, mais adiante encontrei um pequeno parque de diversões. Admiti então que, mais que um bosque, aquele lugar era o parque de uma cidade.

E o cão amigo, sempre com o auxílio do rabo, continuou a me guiar. Mostrou, um pouco ao longe, um prédio em ruínas. Para lá nos dirigimos e, ao chegar, percebi uma escada que encaminhava para o alto, levando até a porta de uma edificação improvisada. Diante daquela visão e tomado pela curiosidade, apeei da bicicleta e fui ver o que havia por lá.

Pois bem, logo ao adentrar naquele lugar, encontrei um senhor de idade. Vi muitos quadros na parede, alguns terminados, outros por completar. Também havia uma folhinha, marcando o ano de 1957. Aquele homem, semicalvo, de bigode e trajando um terno de linho branco, me lançou um sorriso. Em seguida, puxou um tamborete sujo de tinta e tentou limpá-lo, usando um punhado de estopa, por demais sujo. E, daí, educadamente completou, com uma voz fanhosa: “- Sente-se, por favor.”

É claro que não pude recusar tal gentileza e me acomodei naquele assento imundo de tinta. Imediatamente, o anfitrião esclareceu, dizendo quem era: “- Chamam-me de mestre Guignard e aqui é minha escola de artes. Se bem lhe aprouver, venha participar das nossas aventuras.” Mas era uma cena de outrora, que então se repetia, de quando me matriculei na escola de belas-artes (1)!

Depois desse encontro, dentro da imaginação e da memória, desci de volta pela escada e continuei a pedalar, guiado pelo meu cão cicerone. Porém, como a bicicleta ainda estava muito pesada, já me batia o cansaço. Até que, de repente, à minha retaguarda soou uma voz infantil. Vinha de uma menina, aquela que embarcara comigo na prancha de surf e que passara despercebida na garupa. Estava então a me dizer: “- Vovô, eu também quero ser pintora.”

Abri os olhos, o dia estava magnífico! Desfrutei todas as faces da luz. Novamente, ao caírem as primeiras sombras da noite, fui ouvir o Angelus, orando…

Por Eduardo de Paula

• Quer conhecer mais o avô? Clique com o botão direito: “Obra Artística”.

(1) Escola Guignard (Escola de Belas-Artes de Belo Horizonte). Funcionava no parque municipal de Belo Horizonte, ocupando algumas salas da então ruína do atual Palácio das Artes.

11 Comentários »

  1. Eduardo, viajar no pensamento é sinal de excelente estado de alma. Continue viajando e será muito bom.
    Tenha bons pensamentos e continue a sonhar por eles.
    Parabéns pela façanha.
    Maria Marilda

    Comentário por Maria Marilda pinto Corrrea — 01/12/2017 @ 9:38 am | Responder

    • Marilda:
      O pensamento é o melhor meio de transporte e não polui a natureza. Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/12/2017 @ 9:44 am | Responder

  2. Tão lindo viajar com seu pensamento, aventura tão bem descrita em suas belezas que dá vontade de fechar os olhos e esperar tanta paz.

    Comentário por Vania — 03/12/2017 @ 12:49 pm | Responder

    • Vania:
      Você que bem conhece o caminho, viaje no pensamento que será sempre feliz.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/12/2017 @ 1:00 pm | Responder

  3. Olá Eduardo. Seu devaneio pareceu-me, de fato, o relato de uma aventura surrealista. De estilo rico no texto e nas imagens. Bastante agradável e com encaminhamentos surpreendentes. Vivemos de comparações e “Eu vi o pensamento – um devaneio” deixou-me a impressão de que você está sonhando de olhos abertos e, na medida que escreve, as lembranças de sua história de vida vão chegando naturalmente. Foi assim que, há poucos dias, o francês Patrick Modiano descreveu, no seu recente “Souvenirs dormant”. Trata-se mesmo de uma abordagem surrealista, em formato que reúne naturalidade e elegância. Parabéns! E mais, aproveitei a ocasião para navegar em fontes de filosofia, o que resultou no que se segue. “Pensamiento designa cualquier actividad de la mente. “Yo soy una cosa que piensa, es decir, que duda, que afirma, que niega, que conoce algunas cosas, que ignora otras muchas, que ama, que odia, que quiere, que no quiere, que también imagina y siente (Descartes). Mas, especialmente, el pensamiento designa la acción reflexiva que implica una elaboración intelectual y lógica. “Pensar es conocer por conceptos” (Kant). Vide François Robert, in Diccionario de Términos Filosóficos”.
    Fuerte abrazo. Estevam.

    Comentário por Estevam de Toledo — 04/12/2017 @ 8:46 am | Responder

    • Estevam:
      Sonhar é viver! Quem sonha vive muitas vezes e aproveita muito mais. Além disso, sonhar não engorda e faz muito bem para o fígado. É um santo remédio, sem efeitos colaterais adversos.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/12/2017 @ 7:08 pm | Responder

  4. Caro Eduardo,
    Sócrates já dizia que uma vida que não pode ser pensada não merece ser vivida. Não é o passar do tempo que nos faz melhores, mas a capacidade de refletir acerca do que nos acontece que torna nossa existência mais significativa. Você faz isso de maneira poética, com muita leveza. Como artista, você consegue viajar no pensamento sem a casmurrice da maioria dos “apenas” (e isso já é muita coisa) pensadores. Parece-me que a presença de adultos, da criança e do animal mostra o equilíbrio necessário entre razão e emoção, entre conhecimento e intuição, entre fantasia e realidade, para uma percepção mais profunda da vida. Já lhe disse, mas vale a pena repetir: você deveria dedicar-se mais à ficção.
    Observação importante: aqueles que lerem este post não podem deixar de clicar, com o botão direito, “Obra Artística”, sugestão colocada discretamente (a modéstia do Eduardo não lhe permite fazer alarde de sua grande obra) no final do post. Se eu tivesse uma carta do Drummond dirigida a mim…

    Comentário por Pedro Faria Borges — 04/12/2017 @ 5:53 pm | Responder

    • Pedro:
      Gostei demais do casmurro! Diferentemente do Dom Casmurro, gosto de rir e tento me comunicar, e é por isso que minha vida é alegre. Você e eu temos muitas afinidades… Um dia desses, vou lhe convidar para surfar no pensamento. Vou lhe reservar um bom assento e uma janela panorâmica. A viagem de ida e volta é grátis!
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/12/2017 @ 6:56 pm | Responder

  5. Você deu um passeio nas altas dimensões. É lá que mora o pensamento. Esse tipo de pensamento que nos faz sonhar. Aqui nesta terceira dimensão os pensamentos são pesados. Não conseguimos flutuar como você flutuou tão lindamente. Com os olhos fechados, dormitando, ou mesmo dormindo, podemos subir e… ver o pensamento como você viu e teve a delicadeza e bondade de compartilhar sua linda aventura conosco. E filosofando ainda por cima. Muito obrigada. Informo que entrei lá dentro e segui com você, que não me viu.

    Comentário por sertaneja — 17/12/2017 @ 8:24 pm | Responder

    • Virgínia:
      Se você entrou sorrateiramente no pensamento e passou despercebida, é porque está noutra dimensão. Mais evoluída, suponho. De outra feita, quando você for viajar no pensamento, me convide que irei prazerosamente. Da mesma maneira, não me esquecerei de lhe convidar para as minhas próximas viagens.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 19/12/2017 @ 10:18 pm | Responder

      • Agradeço pelo convite e aceito. Você será bem vindo também. Seria interessante uma viagem com todos os seus leitores e apreciadores. Vamos nessa?

        Comentário por sertaneja — 19/12/2017 @ 11:23 pm


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