Sumidoiro's Blog

01/01/2018

AS MENINAS

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 9:29 am

♦ Prontinhas para casar

Post - As meninas

post-eram seis, três meninas mais seus três irmãos, filhos de dona Bicota e siô Severo. O pai, que fazia jus ao nome, tudo decidia pela família. Agia de modo liberal apenas com os varões, dadivoso só com eles e fechava os olhos mesmo quando mereciam punição. Às mulherzinhas, impunha que fossem criadas na barra da saia da mãe e as mantinha sob seu total zelo. Ilda era a mais velha, seguida de Terezinha e, depois, Luíza. Em altura, formavam uma escadinha e, fisicamente, cada qual tinha sua graça. Eram mais conhecidas como meninas de dona Bicota.

Na adolescência, quando chegou a hora de aprender a namorar, foram de pronto tolhidas pelo chefão Severo. E, nessa mesma toada, continuaram crescendo submissas ao rigor da lei paterna. Até que, certo dia, o opressor teve um infarto e o nosso papai do céu, que a todos ama e perdoa, levou-o para morar consigo.

Contudo, depois do passamento de Severo, as coisas pouco mudaram. Àquela altura da vida, já estavam as irmãs completamente domesticadas e, apesar de denotarem alguma madureza, permaneciam com ideias de meninas. Pior, sem traquejo na arte de arranjar namorados. Além do mais, carregavam outra dificuldade, a de serem portadoras de uma fala chocha e um jeito meio desengonçado.

Ano a ano e no permanente avanço dos ponteiros do relógio, foram se configurando como titias. Mas, devido aos seus modos inocentes, continuavam sendo tratadas como meninas de dona Bicota. Somando tudo, o saldo era sempre positivo, pois o trio irradiava simpatia… E, assim sendo, quando nascia alguma criança nas vizinhanças, amiúde convidavam alguma delas para madrinha. Tantas vezes foram chamadas que, se concurso houvesse, ganhariam qualquer campeonato de batizados.

Sempre viveram na fazenda da Telha Bonita, na beira do Rio das Velhas. Lá, colaboravam com a mamãe Bicota no sustento da casa fabricando goiabada que, nos fins de semana, comerciavam em Vila Formosa. Isso virou rotina de todo sábado quando, além de vender seus doces, aproveitavam para fazer compras para a casa. Tais como, mantimentos para a cozinha, coalho para fazer queijos, sementes para a horta, apetrechos de costura, querosene para as lamparinas, fósforos, etc. Tudo isso para bem servir à mamãe.

Porém, nas passagens pela vila, o maior interesse sempre foi o de arranjar namorados. Uma obsessão sem fim! Pois que, apesar de fracassadas tentativas, sempre estavam prontas para outra. Assim sendo, em busca do sonhado marido, a cada sábado seguiam o ritual, que tinha início às vésperas, ou seja, toda sexta-feira.

Tomavam, então, caprichados banhos de bacia, lavavam bem os cabelos e, depois, uma os trançava para a outra. Ornavam as testas com franjinhas no capricho e pintavam as unhas de vermelho vivo. Finalmente, à noitinha, diante de um pequeno oratório, ajoelhavam-se para pedir o indispensável socorro a Santo Antônio. Juravam que, caso fossem seus desejos satisfeitos, não deixariam de pagar promessa.

Nesse afã, todos os sábados acordavam de madrugadinha, ainda com tempo para as providências finais. Um detalhe nunca era esquecido, o de passar ruge nas bochechas, um pouco de batom nos lábios e bastante água-de-cheiro pelo corpo. Da fazenda da Telha Bonita, até a Vila Formosa, dava légua e tanto. Porém, nunca iam a cavalo, para não amarrotar os vestidos de chita e, mais ainda, por temerem pegar os maus odores do quadrúpede.

Contam que, num daqueles dias, ainda com a fresca da manhã, saíram aos sorrisos e em passos largos de pés descalços, a fim de levarem até a vila as cargas de doces e desejos. Contudo, logo depois de alguma caminhada, ouviram o barulho de um veículo. Seria boa oportunidade de pegar uma carona e evitar suores. E, mais que isso, de ter contato com alguém do sexo oposto que, certamente, estaria ao volante. Vai daí que, de repente, Luiza fez uma pausa, formou uma concha com a mão no ouvido e falou alto:

– Iscuita, lá envem um carro Terezinha! Pode sê qu’ele leva nóis…

– É memo, vamo vê! – concordou a irmã.

Ao avistarem o veículo surgindo da poeira ao longe, interromperam os passos. Terezinha ganhou certeza do que via e disse, toda chorosa:

– Num é, não, Luiza! Esse é ôtro… É o da Pissi-Cola, trazeno refrigerante.

Ao que Ilda, a irmã mais velha e na condição de líder, reagiu:

– Óia minina, nóis pode pegá carona, mais eu num gosto de andá com gente que fala errado. Se quisé andá comigo, tem que obedecê!

O caminhão da Pepsi-Cola passou zoando e levantando poeira. As meninas sacudiram os vestidos de chita, balançaram as tranças e continuaram alegres, seguindo em frente. Daí a pouquinho, estariam em Vila Formosa, para vender goiabadas, cuidar das compras e lançar olhares… Melhor dizendo, dar piscadelas para os moços e esperar a almejada resposta à sinalização amorosa. Quem sabe chegaria a vez de alguma delas, senão todas, entabularem um namoro sério? Porém, não importando qual fosse o resultado, nunca perdiam a fé em Santo Antônio. Viviam prontinhas para casar!

E, ainda bem que mamãe Bicota sempre facilitava. Era mais liberal que o finado papai Severo.

Por Eduardo de Paula

· Inspirado num bate-papo com a amiga Maria Marilda Pinto Corrêa.

14 Comentários »

  1. Eduardo, muito interessante esta narrativa. Parabéns!

    Comentário por Maria Marilda pinto Correa — 01/01/2018 @ 10:49 am | Responder

    • Marilda:
      A inspiradora da história foi você, nas nossas conversas, portanto, é coautora.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/01/2018 @ 10:54 am | Responder

  2. Eduardo,
    você é um bom contador de casos. Fiquei com vontade de que a história continuasse, mas você sabe que é melhor insinuar do que dizer. Ao dizer, o escritor coloca limites; ao insinuar, abre horizontes. Como teria sido a vida de Ilda, Terezinha e Luíza? E se apenas uma delas encontrasse um namorado, como teria sido?
    O diálogo entre as meninas, ao perceberem a aproximação de um veículo, foi muito bem estruturado, e os nomes das personagens, mais uma vez, foram muito bem escolhidos. Parabéns a Marilda, inspiradora da história, e parabéns a você, por fazer chegar aos leitores este texto.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 01/01/2018 @ 6:56 pm | Responder

    • Pedro:
      Foi um presente conhecer você, meu crítico literário, que ilumina meu caminho.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/01/2018 @ 7:23 pm | Responder

  3. Ótimo texto Eduardo! Gosto muito das suas histórias!

    Comentário por jbvianna — 02/01/2018 @ 8:53 am | Responder

    • João:
      Fico alegre ao saber que conto com seus entusiasmo.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/01/2018 @ 9:02 am | Responder

  4. Que estilo adorável com doses de ironia, melancolia, descrevendo as meninas eternas perdidas na solidão sertões afora. Quanto sonho e ingenuidade! O ponto final exigiu de mim uma lágrima…

    Comentário por Vania — 02/01/2018 @ 11:32 am | Responder

    • Vania:
      Chorar também é bom. Depende de quem chora e como chora.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/01/2018 @ 1:19 pm | Responder

  5. Eduardo, parabéns pelo fino humor! Muita saúde, sempre! Um abração!

    Comentário por Arthur José Diniz — 02/01/2018 @ 3:33 pm | Responder

    • Arthur:
      O sorriso vem da mente, exercita os músculos da face e alegra a vida. Vamos continuar sorrindo que a saúde vem!
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/01/2018 @ 9:27 pm | Responder

  6. Eu também senti vontade de saber mais… Se finalmente se casaram ou não. E se teria sido bom ou não. Eu pessoalmente sou contra casamentos e nunca consegui namorar. Bem que tentei, mas não consegui. Deixando mais claro: a dificuldade não foi achar um namorado. A dificuldade foi… namorar. Ainda não entendi como tanta gente consegue. Acho que hoje é mais fácil. Mudaram as regras, penso eu. Mas hoje já não dá mais aos 69 anos. Então quero pensar que as meninas de Dona Bicota estão bem como estão. Casadas ou não. Gostei delas e tenho certeza que a goiabada que fazem é de primeira. Sua adorável história me fez lembrar de outra, também sobre três irmãs que falavam de forma engraçada. Meu pai contava esse caso, mas já não me lembro dos detalhes. Sei apenas que os pais tinham proibido que elas conversassem perto das visitas. Uma noite, porém, a mãe pediu que fizessem sala a um visitante ilustre. O pai estava fora e a mãe estava na cozinha preparando alguma coisa de comer. Mas avisou. ” Não falem nada perto dele”. Aconteceu não sei mais o que… sei que o homem pegou alguma coisa que estava sobre a mesa e deixou cair. Vaso? Talvez. Sei que o objeto quebrou. Uma delas não viu a hora que falou: ” Vixe, quebou o ……. de mamãe”. Pois é, esqueci a palavra. Istibungue? Algo assim. A segunda mocinha a repreendeu. ” Mamãe faiou que não faiasse”. A terceira. ” Inda bem que não faiei”. E a primeira “faia” novamente. ” Faiei tá faiado”.

    Comentário por sertaneja — 02/01/2018 @ 11:42 pm | Responder

    • Sertaneja:
      Namorar sempre foi difícil, fazer amizades é fácil. Hoje, namorar é só pelo celular, um cá outro acolá. Se chegar perto, dá curto circuito. “Faiei”, tá “faiado”!
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/01/2018 @ 7:31 am | Responder

  7. A descrição me fez voltar no tempo, excelente.

    Comentário por aslegnaro — 17/01/2018 @ 11:31 pm | Responder

    • Aslegnaro:
      Que bom você ter gostado.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 18/01/2018 @ 4:25 pm | Responder


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