Sumidoiro's Blog

01/03/2018

AS LUZES DE GOETHE

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 6:55 am

♦ Revelando as cores

Duas mentes brilhantes, a primeira de Isaac Newton(1), a segunda de Johann Wolfgang von Goethe(2)Cada um a seu modo, desvendou o que é cor. Newton viveu entre 1643 e 1727, e provou que a luz contém todas as cores. Goethe viveu entre 1749 e 1832, e contestou Newton, afirmando haver lacunas e falsidades em sua teoria, porém, ao final de contas, ambos estavam certos. 

Luz: energia que ilumina. Tinta: material que reflete luz (d’aprés Picasso).

Os dois gênios viveram nos dias* em que o Iluminismo(3) estava a dominar o pensamento europeu, quando a razão e a ciência falavam mais alto. Contudo, Goethe se rebelou contra as ideias em voga e foi buscar respostas nos sentimentos, melhor dizendo, nas emoções. Newton explicou a física da cor, ou seja, seu comportamento como energia eletromagnética. Goethe desvendou como ela se manifesta através do sentido da visão. A partir desse conflito de ideias, de Goethe contra o falecido Newton, ficou mais fácil compreender a natureza da cor. — * Entre 1715 e 1789, mais ou menos.

Post - No preâmbulo da sua obra, denominada Teoria das Cores, Goethe escreveu:

“Desde que devemos falar de cores, há que se mencionar a luz antes de tudo. […] As cores mostram como a luz age e como ela é afetada. Dentro desse enfoque, podemos esperar que seja esclarecida sua natureza. É verdade, entre a cor e a luz, há uma relação muito íntima e devemos imaginar ambas como pertencendo à natureza. Devido a isso é que se revela, particularmente pelo sentido da visão. […]

Comparamos a teoria das cores de Newton à um velho castelo, cujo construtor começou a edificar com juvenil afobação. Pouco a pouco, curvando-se aos ditames da época e às circunstâncias, o ampliou e o enfeitou. Além disso o fortificou, de modo a defendê-lo de ataques e hostilidades. Assim também iriam agir seus sucessores ou herdeiros, sempre que sentissem necessidade de ampliar a construção, fosse com outros edifícios ou anexos. Nesses casos, era tanto para suprir necessidades intramuros, quanto pelo incômodo de adversários ou por mero acaso. […]

Do mesmo modo, enquanto a teoria de Newton subsistisse, seria impossível escrever, ou simplesmente preparar, uma narrativa do estudo das cores. O impedimento é que, jamais, algum observador aristocrático daria atenção àqueles que não pertenciam à sua classe. Devia-se a uma insolência insuportável, desde que os adeptos da escola newtoniana tinham o costume de denegrir tudo que fora produzido antes dela ou ao seu lado.

Com riso e pesar, lemos em Priestley(4), em sua “História da óptica” que, num período anterior, até depois dele, data a era da salvação do mundo das cores, quando aceitaram a luz como sendo divisível. E quando, sem exceção, todos com suas sobrancelhas levantadas, passaram a desprezar as ideias de outros mais antigos, mas também dos mais modernos. Contudo, são estes que estiveram serenamente a seguir o caminho mais correto e que transmitiram observações detalhadas, e ideias que nos parecem mais corretas e das quais saberemos tirar bom proveito.” * PRIESTLEY, Joseph: descobridor do “dephlogisticated air”, ou oxigênio.

E Goethe completou o raciocínio apelando a um ditado latino:

“Si quid novisti rectius istis, candidus imperti; si nil, his utere mecum.”

Ou seja:

“Se não conhece algo melhor, candidamente peço que adote o que tenho.”

Goethe em Kikelhahn, em frente a uma cabana, apreciando a natureza.

No seu tratado, construído em seis capítulos, Goethe fez uma introdução:

O desejo de saber, em nós seres humanos, é despertado quando fenômenos importantes atraem nossa atenção. Mas, para que tudo isso perdure, é necessário que ocorra um envolvimento mais íntimo, o qual, gradualmente, nos torna mais conscientes da natureza das coisas. Então, descobriremos sua grande variedade, que nos aparece sob o aspecto da quantidade. […]”

Pelos conhecimentos atuais, fica evidente que Goethe estava enfatizando o ramo do conhecimento que se denomina Percepção Visual, tema que não tinha sido tratado por Newton. É o que se verá adiante:

“Apenas duas vezes, houve tentativas de descrever e classificar amplamente o fenômeno das cores. A primeira por Teofrasto(5)* e a segunda por Boyle(6). Contudo, com o presente ensaio, não é nossa pretensão disputar o terceiro lugar. * Teofrasto: filósofo grego.

A história revela, em detalhes, as circunstâncias das tentativas de Teofrasto e Boyle. Aqui, diremos apenas o seguinte: no século XVII, tão logo Newton tomou por base, em sua hipótese, um fenômeno observado de maneira incompleta e secundária*, sequer podia-se pensar numa obra semelhante à nossa. Porém, sobre os demais fenômenos não havia como silenciar-se, nem suprimi-los, mas ele os descreveu artificialmente, com o mesmo comportamento de um astrônomo insensato, que pretendesse colocar a lua como centro do nosso sistema solar. * A separação da luz branca, através de um prisma de cristal, obtendo as mesmas cores do arco-íris.

Isaac Newton decompondo a luz branca com um prisma de cristal.

Prosseguiremos gora, avançando em nossa proposta. Entendendo que a natureza da luz já é conhecida*, faremos o mesmo esclarecimento no que toca aos olhos. Assim, diremos que toda a natureza se manifesta pela cor ao sentido da visão. Embora possa parecer estranho, afirmaremos que o olho não vê forma alguma. A claridade, a escuridão e a própria cor é que permitem distinguir um objeto do outro, como também suas partes. Então, com esses três elementos, podemos construir o mundo visível e, do mesmo modo, uma representação pictórica, aquela que possa trazer para uma tela o mundo visível, bem mais perfeito que o mundo real. * Estava a dizer da concepção física de Isaac Newton.

O olho deve sua existência à luz. À parte do conjunto de órgãos animais, que lhe são secundários e indiferentes, a luz criou para si própria um outro que lhe é semelhante. Assim o olho é formado, de uma luz interna para responder à luz externa*. * Nesse ponto, ao confiar num conceito muito antigo, Goethe sofreu um escorregão. A ciência provou que só existe luz externa.

Aqui lembramo-nos de um repetido adágio, da antiga escola jônica(7), que diz:

“O semelhante só pode ser reconhecido pelo semelhante”.

E também as palavras de um escritor místico do passado, que mostramos nestas linhas:

Se o olho não fosse solar,
Como perceberia a luz?
Se o poder de Deus não estivesse vívido em nós,
Como poderíamos nos encantar com o Divino? — Ideia poética de Jacob Bohme.

Ninguém poderá negar esse parentesco direto da luz com os olhos. Contudo, é mais difícil explicar os dois ao mesmo tempo, do que um de cada vez. No entanto, a questão fica mais compreensível ao dizer que no olho existe uma luz em repouso*, a qual será despertada por um estímulo que pode vir tanto de dentro, como de fora. * A ciência mostra que não existe luz inerente ao olho. 

A luz (energia) caminhando para o cérebro. Não há luz no olho.

Também podemos fazer nascer em nós as mais claras imagens, apelando à imaginação, mesmo que seja no escuro. Nos sonhos, os objetos surgem com a mesma aparência como os vemos em pleno dia. Por outro lado, quando em estado de alerta, a impressão externa produzida pela luz, por menor que seja, é perceptível. E, ainda, ao ser o órgão da visão submetido a um impacto de origem mecânica, a luz e as cores podem nele eclodir.* * Nesse parágrafo, Goethe revela a cor psicológica e a gerada por distúrbio de origem nervosa.

Porém, talvez dirão aqueles acostumados a conferir o todo, que ainda não explicamos claramente a cor. Ao correr da nossa apresentação, é do nosso intento retomar este assunto mais de uma vez, quando diremos, detalhadamente, como a luz de fato se manifesta. Por enquanto, vale repetir: a cor é uma aparência, quando por força de um fenômeno, a natureza se revela através da visão. Igualmente, devemos admitir que esse sentido é funcional, que a ação da natureza sobre ele é contínua e, por isso mesmo, não podemos tratar de cor com um homem cego.

Círculo cromático de Goethe (cores materiais) e algumas qualidades de ordem psicológica.

Porém, para que não pareça estar faltando explicação, de outra maneira gostaríamos de formular as preliminares: a cor seria um fenômeno natural elementar para o sentido visual. Manifestando-se, como todos os outros, por separação e contraste, por mistura e associação, por intensificação e neutralização, por comunicação e repartição, e assim por diante. E podem ser vistos e compreendidos, da melhor maneira, mediante as regras que lhe são inerentes.

A ninguém podemos impor essa maneira de ver as coisas. Assim, aqueles que como nós a julgarem apropriada, aceitem-na voluntariamente. Não queremos defendê-la em polêmicas futuras. Porque sempre foi bastante perigoso abordar o assunto cor, a tal ponto que um dos nossos predecessores, certa vez, arriscou dizer:

– O touro fica furioso ao lhe mostrarmos um pano vermelho, mas o filósofo* se enraivecerá, desde que lhe falemos tão somente de cor.’ — * No passado, o filósofo era versado em múltiplos saberes: das coisas do universo e do homem.

No entanto, se devemos, em alguma medida, prestar contas ​​da nossa exposição, antes de tudo vamos mostrar como classificamos as diferentes condições que determinam o aparecimento da cor. Distinguimos três tipos de ocorrências, três categorias de cores ou, se preferível, três maneiras de considerá-las e podemos mostrar de que modo diferem.

Então, logo estudamos as cores enquanto elas pertencem aos olhos e somente a eles, e como ocorrem devido a um fenômeno de ação e reação. Em seguida, focamos nossa atenção naquelas que percebemos em meios incolores ou com a colaboração deles. Finalmente, nosso interesse voltou-se para aquelas que denotavam pertencer aos objetos.

Post - Cor psicológicaHumores humanos: “Rosa dos temperamentos” (direita) de Goethe e Schiller. 

Nomeamos as primeiras* de cores fisiológicas, as segundas** de físicas e as terceiras*** de químicas. As primeiras são por demais fugidias e não há como retê-las. As segundas, passageiras, mas em todos os casos, persistem apenas por um certo tempo. As terceiras, podem ser mantidas plenamente estáveis.” *Que pertencem aos próprios olhos. / **Que são percebidas em conjunto com fundos brancos ou incolores. / *** Que são inerentes ao próprio objeto.

Contudo, não parece apropriado dizer cor física, como propôs Goethe, o que existe é cor gerada por um fenômeno físico. Objetivamente, não existe cor nas coisas da natureza, pois ela é exatamente uma configuração cerebral, seja nos humanos ou em alguns animais. Na sua teoria, de outro modo, criou as subdivisões de cores químicas, fisiológicas e patológicas. Quanto às cores que chamou de químicas, são elas provenientes de misturas materiais. Assim sendo, melhor seria chamá-las de cores sólidas.

De acordo com os conhecimentos atuais, as cores estão englobadas em três grupos: 1. cores espectrais (da energia), 2. fisiológicas e 3. psicológicas. A física estuda os diversos fenômenos da natureza. A fisiologia – ramo da biologia –, estuda as funções físicas e bioquímicas dos seres vivos. A psicologia estuda processos mentais e comportamentos humanos.

Um dos maiores méritos de Goethe, ao contestar Newton, foi o de criar os fundamentos da Percepção Visual, com as devidas demonstrações e muita clareza. Tendo a colaboração de Schiller(8) – entre 1778 e 1799 – e ao estudar as sensações, desenvolveu a Rosa dos Temperamentos*, onde os humores humanos são representados em quatro conjuntos de três cores, os quais formam dois pares que se contrapõem. Organizados em um círculo, eles situam-se em posições diametralmente opostas. (vide ilustração acima).— * “Temperamentenrose”.

Os conjuntos são: 1 – COLÉRICO (vermelho/laranja/amarelo), representando tiranos, heróis e aventureiros; 2 – SANGUÍNEO (amarelo, verde, azul-ciano), representando hedonistas, amantes e poetas; 3 – FLEUMÁTICO (azul-ciano, azul-escuro, violeta), representando oradores, historiadores e professores; 4 – MELANCÓLICO (violeta, vermelho-magenta, vermelho), representando filósofos, perfeccionistas e líderes. De modo que se opõem 1 a 3; e 2 a 4. 

E prosseguiu Goethe:

“Na medida do possível e com o propósito de fazer uma exposição didática, classificamos as cores dentro dessa ordem natural. Ao mesmo tempo, conseguimos ordená-las em encadeamento contínuo, ligando seus aspectos fugidios aos persistentes e, de outra forma, aos aspectos duradouros. Naquilo que erigimos, tivemos os devidos cuidados, eliminando as aparências desnecessárias.

No quarto capítulo do nosso trabalho, abordamos aquilo que, até então, havia sido percebido nas cores reveladas em condições especiais e, também, esboçamos o plano de um futuro Tratado das cores*. Por enquanto, diremos que a cor para surgir requer luz e obscuridade, ou seja, claridade e sombra. Dizendo de maneira mais geral: luz e trevas. A cor mais próxima da luz é a que chamamos amarelo, a mais próxima da obscuridade é o azul.  * “Zur Farbenlehre, ditaktischer teil”.

Representação moderna das cores entre a luz e as trevas, ou segundo uma escala de cinzas. 

Tão logo as misturamos em seu estado de maior pureza e desde que estejam perfeitamente equilibradas, produzem uma terceira, à qual chamamos verde. Mas pode ocorrer novo fenômeno, caso uma dessas duas cores esteja mais concentrada ou sombreada. Ela, então irá gerar uma cor avermelhada que, entretanto, mostrará de onde vem, seja do azul ou do amarelo primitivos. * O tratado foi escrito ao longo de vários anos.

Contudo, um vermelho mais intenso e puro pode ser produzido – sobretudo nas cores físicas – tão logo reúnam-se duas cores terminais* de vermelho-alaranjado e de azul-avermelhado. É assim que o surgimento e a produção da cor podem ser efetuados de maneira vivaz. Pode-se também associar um vermelho e um amarelo determinados, e produzir, por caminho inverso, o que foi obtido por intensificação. — * Conceito correto apenas em parte.

As cores fundamentais* não se resumem apenas a três ou seis, há mais, e podem ser convenientemente dispostas em um círculo. Outras variações, até o infinito, se revelam na prática, tanto no uso do pintor ou do tintureiro, em uma só palavra: na vida. * Conceito equivocado de Goethe, pois as fundamentais ou primárias, são apenas três.

Por dever de estabelecer uma propriedade geral, diremos da necessidade de observar as cores que são, na sua totalidade, absolutas meias-luzes ou meias-sombras. Por isso é que, logo que são misturadas, suas qualidades específicas se neutralizam mutuamente adquirindo uma coloração sombria, qual seja, alguma cor acinzentada.

No quarto capítulo, está o roteiro do nosso Tratado das cores, contendo informações específicas e também outras, conectas com outros domínios. Essa parte é muito importante, mesmo que possa parecer um pouco árida. No entanto, ao considerarmos improvável qualquer conclusão de imediato, nem por isso podemos desistir na primeira tentativa.

Por certo, primeiramente é preciso esperar para ver como se manifestam naqueles a quem pretendemos servir. Para eles, pensamos estar fazendo um trabalho agradável e útil. Acolherão nossos esforços se adotarem os resultados, tirem partido deles ou os desenvolvam. Mas há liberdade de também recusá-los, renegá-los ou rejeitá-los. Contudo, gostaríamos que nos permitissem dizer aquilo que acreditamos, assim esperamos.

Goethe na Itália, onde foi arrebatado pela sua luz e despertado para as maravilhas das cores. 

Por parte dos filósofos, acreditamos merecer o seu reconhecimento, por termos investigado o fenômeno na sua fonte, lá onde ocorre e com simplicidade, a sua verdadeira existência e também onde estão, e que nada falte por explicar. Além disso, bom será se conseguirmos explanar o fenômeno de modo que possa ser facilmente compreendido, mesmo que não vejam com clareza nossa intenção.

Dos médicos, antes de qualquer coisa, esperamos receber sua compreensão, especialmente daqueles que estudam o órgão da visão, que cuidam dele, remediam seus defeitos e procuram sanar suas moléstias. Esses médicos se sentirão muito à vontade no capítulo que trata das cores fisiológicas, como também no apêndice onde são descritas as cores patológicas. E, certamente, para todos que agora estão a investigar esse domínio com alegria e levando em conta nossos esforços, desenvolveremos amplamente o primeiro capítulo da Teoria das cores, que tem sido até agora negligenciada e que consideramos como sendo de suma importância.

Por sua vez, o discípulo não mais aceitará docilmente aquele alimento, que lhe tem sido oferecido de maneira muito simplista. Mais tarde, outra vantagem surgirá, mas em detrimento à teoria de Newton, a qual é de fácil assimilação, mas que, ao ser posta em prática, redunda em dificuldades insuperáveis​​. A nossa, à primeira vista, pode parecer de entendimento mais difícil, mas quando isso é superado, tudo se ajusta e faz sentido.

O químico, que adota critérios para descobrir as qualidades mais secretas dos corpos, tem encontrado muitos obstáculos quando trata de nomear e caracterizar suas cores. Ao observá-las com um olhar mais acurado e adotando a nomenclatura usual, percebemos que, nas operações químicas, usam uma nomenclatura insegura e enganosa para classificá-las. No entanto, em nossa exposição, esperamos refazê-las, para que fiquem mais evidentes suas qualidades, que são progressivas, crescentes e mutáveis. E, por não se tratar de uma falácia, muito pelo contrário, é necessário revelar como manifestam-se estas muito sutis operações da natureza.

Contudo, se continuarmos a investigar esse vasto horizonte, sentiremos medo de desagradar o matemático. Visto que, devido a uma estranha sequência de circunstâncias, arrastaram a teoria das cores para o tribunal do matemático, onde não é o seu lugar. O motivo foi a correlação que se fez com outras leis da visão, às quais o matemático tem tratado de estudar. Verdade é que um grande matemático elaborou uma teoria das cores. Mas no seu trabalho, embora tenha cometido um erro na física, nele colocou toda a força do seu talento, mas insistindo no erro. Se reconhecemos esses dois fatos, iremos logo dissipar o mal-entendido, e o matemático, tendo boa vontade, poderá contribuir para o desenvolvimento do capítulo que trata da física, no Tratado das cores.

Por outro lado, o artesão da tinturaria deve receber nosso trabalho de um modo muito favorável. Quando lidam com os fenômenos dos tingimentos, a teoria ainda em curso mostra-se insatisfatória. E foram eles os primeiros a notar que a concepção de Newton era inadequada. Ademais, há que se entender: as conclusões de cada pessoa são bem diferentes, de acordo com o domínio que têm de um determinado saber ou uma ciência. […]”

Exemplo de tapeçaria Gobelin.

Quando fez referência aos químicos e aos artesãos da tinturaria, Goethe bem sabia das dificuldades que enfrentava essa gente ao lidar com as cores. Assim sendo, com apoio na sua teoria, conseguiram desvendar vários mistérios que estavam a afetar os coloridos. Isso ocorria, por exemplo, na fábrica de tapetes Gobelins* onde, amiúde, as tecelagens aparentavam estar desbotadas. Entretanto, tudo foi resolvido quando convocaram o químico Chevreul(9) que, fundamentado na teoria de Goethe, detectou a origem do problema. — * Manufacture des Gobelins, desde 1443, Paris. 

Chevreul constatou que cores diferentes podiam se apagar ou se fortalecer – uma em relação à outra – quando, por proximidade, sofriam interferência mútua. A esse fenômeno denominou contraste simultâneo. Mas havia outro, chamado contraste sucessivo, que ocorre em outras condições e em determinados lapsos de tempo. Em ambos os casos, tratava-se de construções mentais ou, dizendo de outra forma, meras impressões provocadas pela luz. De sorte que, devido aos ensinamentos de Goethe e de Chevreul houve uma revolução nas artes visuais*, de modo geral.

Curiosamente, desde as primeiras experiências e mesmo sem o saber, Goethe estava a construir uma teoria da percepção das cores e, ao mesmo tempo, a alimentar a fundação da arte moderna. De qualquer maneira, acabou por mostrar algo da sua intenção, ao dizer:

“Quanto a nós, que abordamos o estudo das cores pelo lado da pintura ou do colorido estético das superfícies, esperamos ter realizado um trabalho digno de reconhecimento. No sexto capítulo, procuramos determinar os efeitos físicos e psicológicos da cor, de modo a torná-los mais úteis para servir à arte. Mesmo assim fazendo, como também no resto do texto, muitos pontos foram apenas esboçados. É preciso lembrar que qualquer teoria deve, no seu embasamento, apenas apontar as características fundamentais, para posterior ação, e de modo que possa produzir resultados legítimos.”

———

Goethe despedindo-se de um visitante, na porta de sua casa, em Weimar.

ontam que Goethe, já estando acamado, acordou certo dia pressentindo a morte. Era quinta-feira, 22 de março de 1832. Assim, por volta de 11:30 horas da manhã, pediu ao criado que lhe desse cômodo numa cadeira e abrisse a janela do quarto. Isso feito, implorou: “- Mais luz! Mais luz!”. Daí, sua cabeça tombou, confirmando que partira.

Texto, tradução e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

Leia também, clique: “História do Arco-da-velha”.

———

(1) NEWTON, Isaac – (Woolsthorpe Manor, Reino Unido, *04.01.1643 / Kensington, Londres, Reino Unido, †31.03.1727) Físico, matemático, astrônomo, alquimista e teólogo. Sua obra de maior destaque foi a “Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica”, onde descreve a Lei da Gravitação Universal e estabelece os princípios da mecânica clássica. Construiu o primeiro telescópio refletor operacional e desenvolveu uma Teoria das Cores, ao constatar a decomposição da luz branca em várias cores, através de um prisma de cristal.

(2) GOETHE, Johann Wolfgang von – (Frankfurt, Alemanha, (*28.08.1749 / Weimar, Alemanha, †22.03.1832) Escritor, esteta, pesquisador científico e estadista.

(3) Iluminismo – Movimento também conhecido como Século das Luzes ou Idade da Razão, corrente intelectual e filosófica que dominou o mundo das ideias na Europa durante o século XVIII, dito ainda como Século da Filosofia.

(4) PRIESTLEY, Joseph – (*24.03.1733 / †06.02.1804) Teólogo, clérigo dissidente, filósofo natural, educador, teórico e político britânico. Publicou mais de 150 obras.

(5) TEOFRASTO (alcunha) – Nome original: Tirtamo (Eresos, *372 a.C. / †287 a.C.); filósofo da Grécia Antiga, sucessor de Aristóteles na escola peripatética.

(6) BOILE, Robert – *25.01.1627 / †31.12.1691) Filósofo natural, químico e físico irlandês. Publicou “Experiments and Considerations Touching Colours”, onde apresenta algumas ideias e experimentações sobre cores.

(7) A escola jônica de filosofia foi fundada por Tales de Mileto (*c. 623 a.C. / †624 a.C.), na Jônia, Grécia. Seus pensadores focavam suas ideias principalmente na natureza.

 (8) SCHILLER, Johann Christoph Friedrich von – (*10.11.1759 / †09.05.1805). Poeta, filósofo, médico, historiador alemão e, junto a Goethe e outros, fundador do Romantismo na literatura. Por amizade e indicação de Goethe, em dezembro de 1788, tornou-se professor de filosofia e história na Universidade de Iena.

(9) CHEVREUL, Michel Eugène – (*31.08.1786 / †09.04.1889) Químico francês. Entre outras obras, publicou “De la loi du contraste simultané des couleurs”.

6 Comentários »

  1. Eduardo, muito bom descrever a luz.
    Está em falta no mundo!
    Meus parabéns,
    Maria Marilda

    Comentário por Maria Marilda pinto CorreaE — 01/03/2018 @ 8:45 am | Responder

    • Marilda:
      Sem dúvida, precisamos de mais luz, mas tem que ser luz como as das velas, das fogueiras, da alvorada e da hora do Angelus.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/03/2018 @ 9:10 am | Responder

  2. Eduardo,
    Eu gostaria de saber o que você sabe acerca das cores para aproveitar, ainda mais, da leitura de Goethe sobre esse assunto. Com isso, sinto que minha vida poderia ser mais colorida. Vou reler, quantas vezes forem necessárias, “As luzes de Goethe” e ainda quero que, em nossas conversas, você me ajude a compreender o universo das cores, que presumo ser maravilhoso. Eu diria, como Goethe, no final de sua vida “Mais luz! Mais luz!”.
    Carinhosamente,
    Pedro Borges

    Comentário por Pedro Faria Borges — 02/03/2018 @ 9:56 am | Responder

    • Pedro:
      Dei aulas desse assunto, por muitos anos, na Escola de Belas-Artes da UFMG. Continuo aprendendo e quero sempre conversar com você para aprender mais. Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/03/2018 @ 10:45 am | Responder

  3. Curioso. Ainda ontem estava falando sobre luz. Um amigo dizendo que antes do início tudo era escuridão. Concluiu isso porque Deus disse “Fiat Lux” e o universo foi criado. Logicamente, nem lua havia e logicamente era tudo escuro. E eu, que nada entendo do assunto, tenho essa mania de ficar pensando. Para mim podia haver claridade antes. A luz da criação não indica, para mim, ausência total de luz antes dela. Claro que não soube explicar nada. Apenas senti sim. Havia luz, mas ele precisava de… mais luz! Eu podia passar sem essa, não é? Melhor nada comentar que falar bobagens. Enfim, você nos deu, como sempre, um texto altamente significativo e cheio de coisas que eu nunca tinha escutado falar a respeito. Aprendendo sempre.

    Comentário por sertaneja — 01/04/2018 @ 11:49 pm | Responder

    • Virgínia, sertaneja:
      Sempre vão pairar mistérios no ar. Quero continuar explorando o assunto.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/04/2018 @ 7:16 am | Responder


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