Sumidoiro's Blog

01/04/2018

O SILVO DO AMOR

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 6:45 am

♦ Receita para a felicidade a dois

Tudo começou com um fiu-fiu(1), aquele assovio de conquista. E deu certo, o moço e a moça se encaminharam para o altar…

uando José decidiu se casar com Maria das Graças, pensava em viver feliz para sempre. Ela também… De início, construíram uma casinha com jardim. Após o enlace, tudo estava tão bom que tratavam-se de Queridinha e Jotinha, enquanto cuidavam das flores e trocavam juras de amor. Nessa época, usavam a mesma língua, para dizer as mesmas coisas.

Assim permaneceram, até que nasceu o primeiro filho e, daí, tudo mudou. Foi quando a rotina de felicidade passou a sofrer interferências inesperadas do pimpolho. O agente do mal estava sempre com dores de barriga, enchia múltiplas fraldas de xixi e cocô, ficava febril por qualquer motivo e provocava um mundo de atropelos.

Depois vieram à luz mais um, dois, três, quatro, afinal, um montão de gente miúda, para tirar os enfeites da vida do casal. Contudo, devido aos contratempos e de modo a aliviar suas dores, Queridinha passou a transferir responsabilidades ao Jotinha. Àquela altura, voltara a chamar o indivíduo simplesmente de Jota. Desde então, usando a mesma língua e torcendo as palavras, passaram a dizer coisas diferentes. Nisso está a sutileza da mudança de Jotinha para Jota.

Porém, o coitado também já estava sobrecarregado de tantos dissabores. Como consertar o chuveiro, as torneiras que não paravam de pingar, o esgoto que sempre entupia, o ferro de passar que parava de esquentar, etc. Verdade é que Jota amava Queridinha e, por isso, ainda aprendeu a trocar fraldas, cozinhar, lavar e passar, pregar botões e até mesmo cerzir roupa. Ou seja, transformara-se num marido moderno, como tem ditado a nova regra. Ainda mais, para atender às crescentes despesas da família, costumava fazer horas extras no trabalho.

Contudo, na ânsia de amainar os seus sufocos, o coitado procurou alívio nas amizades e voltou com elas a frequentar, aos sábados, as peladas de futebol, das quais se tornou juiz. Desse modo, aprendeu a usar o apito com maestria. Por fim, depois de cada jogo, fazia relaxamento no boteco com a turma, até altas horas da noite. Como consequência, sempre voltava meio bêbado para casa… Normalmente, entrava na habitação sorrateiramente e com uma mudez pétrea.

Vai daí que, num dos seus piores dias, Queridinha deflagrou uma guerra de palavras que, aliás, já vinha ocorrendo, mas em nível medianamente civilizado. Foi quando se exacerbou ao perceber o marido entrando no seu quarto, cambaleante, lá pela madrugada, e disse:

“- Bem que mamãe falou para eu não me casar com você. Não quero mais viver com um bêbado, que só pensa em bola e cerveja. Quero me separar!”

Pois bem, como Jota ainda estava com o raciocínio meio embotado pela bebida, de pronto arremeteu um tiroteio de palavras:

“- O quê? Você está falando sério ou está apenas querendo me agradar?

Por sorte e para não deixar romper o último fio que os unia, surgiu um sábio sacerdote que conseguiu apagar, temporariamente, o incêndio relacional. Da parte de Jota, aconselhou-o a ficar monossilábico e, quando sentisse saudade de lidar com as palavras, que as procurasse nos livros, especialmente os de filosofia. Da parte de Queridinha, ficar sempre com a boca cheia d’água mas, se não fosse possível, contar até dez antes de dizer alguma coisa. Na pior das hipóteses, sair a fazer tricô ou concentrar-se em palavras cruzadas.

Para si, Jota logo assumiu os preceitos do orientador religioso e Queridinha, de sua parte também. Assim sendo, ao ensimesmarem-se, cada um no seu canto, o relacionamento do casal entrou num estado de paz contida. Claro que com riscos de novas explosões. Mas, tempos depois, por alguma força misteriosa da natureza, ocorreu um evento notável. A imensa caixa d’água da residência começou a vazar e inundou a sala de jantar. Assim sendo, diante da emergência e seguindo a tradição, Queridinha berrou:

“- Chama os ôme!

Melhor dizendo: “- Chama os homens.” Essa é uma recomendação muito feminil, em todas as situações desse tipo. Mas, infelizmente, não havia nenhum “ôme” disponível para o socorro urgente. Então, o jeito foi o Jota, ele mesmo, subir no telhado…

Contudo, no afogadilho, o bombeiro improvisado se esqueceu de levar as ferramentas necessárias e, lá das alturas, passou a pedir socorro aos gritos:

“- Balde, alicate, chave de cano…”

Mas, nada! Dona Queridinha não ouvia e a água continuava jorrando. O jeito foi Jota resolver tudo por si próprio, subindo e descendo escada. Afinal de contas, conseguiu consertar a caixa d’água e, mais uma vez, salvar o casamento. Também notou que, sem que percebessem, ambos estavam se comunicando aos berros e já havia algum tempo. Assim, pôde entender o porquê de Queridinha não atender aos seus chamados. Ela ficara medianamente surda, de tanto ouvir gritaria de criança e música baiana.

E, como sempre há males que vêm para bem, Jota teve uma luminosa ideia para restabelecer a boa convivência. Pois foi contando com sua experiência em apitar jogos de futebol, que resolveu implementar, entre ele e a mulher, uma linguagem de sinais. Usava o apito e os gestos, que havia assimilado das lições de um famoso árbitro de futebol(2), que dizia:

“Falem com os jogadores e com a plateia sem precisar falar!”

Exemplificava aquele mestre juiz que, no meio do campo, com um simples gesto de mão e um breve “pi”, o jogo tinha que ser interrompido. Sendo mais longo, o “piii” servia para indicar que foi aplicado um cartão amarelo ou vermelho. Quando ocorria uma falta mais pesada, emitia-se um “piiiiiiiii”. Além disso, sabe-se que a melodia dos “pis” pode produzir um mundo de reações, como até mesmo fazer rir e chorar.

Assim sendo, depois que Jota modulou o silvo do apito ao nível de audição de Queridinha e usando toda sorte de gesticulações, nunca mais precisou da palavra para falar, nem gritar. Normalmente, quando queria chamar sua “amada” dava uns silvos agudos e altos, depois completava com a gesticulação. Quando queria pedir um copo d’água, dava um silvo moderado e mostrava a língua seca, e adormecida. E assim por diante…

Até hoje, devido ao estratagema, estão convivendo muito bem, com tudo funcionando nos conformes, mesmo quando o apito não está disponível. Nesses casos, emite o silvo com os dois dedos na boca. Tem mais… Aproveitando o seu know-how, Jota está com a ideia de criar um curso de orientação de casais. Desse modo, enquanto estiver na sala de aula e dialogando com os alunos, poderá voltar a falar. As classes seriam do tipo unissex, oferecido para casais, desde que apenas um dos parceiros tenha perda de audição, evidentemente. Um deles ajuda o outro a escutar, melhor dizendo, quem ouve apita no ouvido do surdo(a). O slogan de propaganda seria assim:

“Um silvo de apito fala mais que mil palavras.”

Assim sendo, Queridinha e Jotinha, estão discutindo o empreendimento educacional, mas sem apitar, porém comunicando-se por escrito em latim, que felizmente aprenderam no ginásio. Já decidiram que a parte administrativa e contábil ficará por conta de Queridinha, pois ela lida muito bem com a frieza dos números.

———

Contudo, é preciso lembrar que nada vem do nada, visto que Jota e Queridinha estavam a praticar um tipo de comunicação que, mutatis mutandis, existe há séculos na comunidade de La Gomera(3), uma das ilhas Canárias. Trata-se de uma transposição fonética do espanhol local. Assista:

O Silvo Gomeiro

Por Eduardo de Paula

———

(1) No Brasil, o fiu-fiu chegou trazido pelo cinema de Hollywood mas, agora, infelizmente está em desuso. Nos países de língua inglesa, é chamado de “wolf-whistle” – assovio do lobo – e virou moda na época da Segunda Guerra mundial, quando os marinheiros popularizaram o silvo usado no mar, mas então dirigido às mulheres que tinham o poder de despertar sua libido. Atualmente, o fiu-fiu tem sido classificado como assédio moral ou sexual.

(2) Juiz de futebol Arnaldo César Coelho.

(3) La Gomera, em português Gomeira: ilha com 370 km² de área, a segunda menor das ilhas principais do arquipélago das Canárias. Coordenadas geográficas 28° 06′ N 17° 08′ O, na costa da África.

10 Comentários »

  1. Eduardo, parabéns por mais um post!
    Maria Marilda

    Comentário por Maria Marilda Pinto Correa — 01/04/2018 @ 8:20 am | Responder

    • Marilda:
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/04/2018 @ 9:26 am | Responder

  2. Eduardo,

    Parece-me que um dos indicativos de que um texto tem qualidade é a sua capacidade de suscitar questionamentos. Termina-se a leitura, e o texto continua grudado na gente. Nesse sentido, “O silvo do amor” é um texto de qualidade. Continuo refletindo acerca das seguintes questões: 1. O filho é um impedimento para o amor? 2. Qual o número ideal de filhos para um casal? 3. É possível ser mãe e ser “mulher”? 4. Quando a realidade muda, é necessário mudar a linguagem? 5. Jota e Jotinha são a mesma pessoa ou são realidades diferentes? 6. As palavras ajudam ou dificultam a comunicação? 7. Há línguas (o latim, por exemplo) melhores para a comunicação?

    Algumas observações:
    1. Machado de Assis diz, no final de um de seus romances, que seria melhor não ter filhos; os casais mais jovens têm como ideal ter um ou nenhum filho. Eu acredito que o filho é o que há de absoluto na nossa vida.

    2. As crianças começam a falar quando percebem a distância que há entre elas e a outra pessoa (geralmente, a mãe). A palavra é uma tentativa de comunicação. Quando há intimidade entre as pessoas, há olhares, afagos, gestos em maior número que as palavras. Você, no entanto, só consegue expressar o que está contido na frase “Um silvo de apito fala mais que mil palavras” usando palavras.

    Obrigado pelo texto, um verdadeiro presente de Páscoa e que a passagem vivida neste domingo (dia da mentira) seja de alegria verdadeira para todos de sua família.

    Pedro Borges

    Comentário por Pedro Faria Borges — 02/04/2018 @ 2:24 pm | Responder

    • Pedro:
      Seus comentários sempre são um complemento aos meus textos. Bom proveito das suas palavras devem tirar os demais leitores.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/04/2018 @ 3:21 pm | Responder

  3. Eduardo: Parabéns pela página que parece ilustrar o que Vinicius (?) já havia descrito tão bem: “A vida é a arte de um encontro, embora haja tanto desencontro por aí!” Certa vez, desci nas Canárias “on my way Rio-London”. Se soubesse, teria proposto ao Comandante dar-nos 2 horas em La Gomera. Assim, nós os tripulantes, iríamos curtir este *silvo gomero*. Ocorre-me também uma outra ideia. Nesses nossos tempos de agora, onde tudo é muito provisório, o silvo gomero deveria ter lugar garantido no já famoso cursinho de noivos. Que tal? “Con mis saludos, desde mi bunker. Fuerte abrazo.” Estevam de Toledo.

    Comentário por Estevam de Toledo — 10/04/2018 @ 11:46 pm | Responder

    • Estevam:
      Também acho que um curso de silvos gomeiros seria útil para muita gente. Há coisas que não podem ser ditas com a linguagem comum. O silvo é mais sofisticado.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 11/04/2018 @ 10:24 pm | Responder

  4. Tinha perdido este texto também. Achei agora. Temi pelo final da história de Queridinha e Jotinha. Felizmente tudo deu certo no final graças aos silvos. Confesso ter achado muito engraçada a resposta de Jota quando Queridinha pediu o divórcio. ” “- O quê? Você está falando sério ou está apenas querendo me agradar?” Quando ao vídeo… amei. Pena não entender direito o espanhol. Assim perdi muita coisa, mas deu para ver que se comunicam bem com silvos e até ensinam nas escolas. É fascinante e muito bonito! Ainda bem que a UNESCO concorda.

    Comentário por sertaneja — 14/05/2018 @ 1:20 am | Responder

    • Virgínia:
      Tenho a mania de observar coisas que parecem sem importância, mas que de fato são muito importantes. Até aquelas que acontecem comigo mesmo… Entendeu?
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 14/05/2018 @ 7:31 am | Responder

  5. Excelente post. Fazer-se compreender é muito difícil. A solução do silvo é melhor que a do celular: não usa a palavra. Um abraço, Ydernéa

    Comentário por Ydernéa — 12/01/2021 @ 9:57 pm | Responder

    • Ydernéa:
      Garanto que funciona!
      Grato, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 13/01/2021 @ 8:40 am | Responder


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