Sumidoiro's Blog

01/05/2018

A RAPOSA ROMÂNTICA

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:56 am

 ♦ Corajosa, sincera e inspirada

A história ensina que, durante os séculos XVIII e XIX, ocorreram vários movimentos artísticos, amiúde eles se interpenetravam. Ao mesmo tempo, a Revolução Industrial e a Revolução Francesa também estiveram a provocar grande impacto no contexto histórico da época, em todos os sentidos.

O XVIII foi um período marcado pelo movimento intelectual do Iluminismo, também denominado Século das Luzes(1)O propósito seria iluminar a sociedade com novas ideias, de modo a romper com os modelos ditados pelo Absolutismo(2)

Por sua vez, o XIX foi um século de grandes invenções, descobertas e efervescência nas artes em geral. Nesse momento é que ressurgiu uma raposa para marcar presença.

A raposa fura o lobo: Renart e Ysengrim. 

ois corriam os anos entre 1760 e 1780, quando efervesceu o movimento literário Sturm und Drang* – nascido na Alemanha – e que tinha entre seus líderes o poeta Goethe(3). Eles estavam a contestar o ideário racionalista do Iluminismo e os estilos artísticos do Rococó(4) e do Neoclassicismo(5), ainda dominantes no período. Em pouco tempo, especialmente no que toca à literatura e às artes plásticas, os conflitos foram gerando desdobramentos, de modo a influenciar o pensamento artístico de toda a Europa e mesmo de terras mais distantes. — * “Sturm und Drang” (Tempestade e Ímpeto). O nome deriva da peça homônima de Friedrich Klinger (1752-1831). 

Os adeptos da nova corrente literária almejavam criar uma nova arte, que fosse mística, selvagem e espontânea, ou seja, quase primitiva, onde o maior valor seria a sensação – empfindung, dizendo no termo alemão – aquela que deveria se sobrepor à razão.

Uma grande influência recebida pelo Sturm und Drang veio de Herder*, introdutor do culto à genialidade que dependia da inspiração, não importando de onde viesse. Acreditando nisso, os poetas do movimento voltaram seus olhos para Homero, Shakespeare e, também, para as manifestações populares. — * HERDER, Johann Gottfried – filósofo e escritor alemão. 

O suicídio de Werther, ilustração para “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (de Goethe).

De modo a definir o que pretendiam, lá na Alemanha já existia o adjetivo romantisch – romântico – referindo-se ao estilo de antigas poesias que ainda vicejavam entre o povo. Haviam surgido nos tempos medievais, num ambiente dominado pelo cristianismo, e eram comumente divulgadas pelos trovadores.

Pois bem, num certo momento, a escritora madame Stäel* começou a se interessar pelas novas ideias e passou a divulgar o Romantismo (Die Romantik, em alemão) entre os franceses. Para isso, como tradução na sua língua, utilizou o termo “Romantisme”. Da França veio para Portugal e Brasil, com o nome de Romantismo.

Na cultura europeia, foram destaques do Romantismo: Goethe – na literatura e no teatro –, especialmente com “Os Sofrimentos do Jovem Werther” e o “Fausto”; Chopin – na música –, como pianista e compositor; Delacroix – na pintura –, considerado um gênio do estilo; Victor Hugo, com a peça de teatro Hernani”. A lista completa é imensa e muito rica.

Em “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, o personagem principal – Werther – conhece Lotte, noiva de Albert. Ele passa a frequentar a casa de Lotte e acaba se apaixonando por ela que, contudo, ama seu noivo. Porém, o intrometido não consegue arrebatar Lotte e morre por amor. Daí, o amigo Wilhelm, logo após a morte de Werther, descreve a tragédia muito romanticamente, assim:

 “Pela manhã, às 6 horas, o criado entrou no quarto com a luz. Encontrou o seu senhor no chão, viu a pistola e o sangue. Chamou-o, mexeu nele. Nenhuma resposta, ainda agonizava. Correu em busca dos médicos e de Albert. Lotte ouviu alguém tocar a campainha e um tremor fez convulsionar todos os seus membros […]. Tinha atirado na cabeça, logo acima do olho direito, fazendo saltar os miolos. Pelo sangue espalhado no espaldar da cadeira, concluiu-se que realizara seu intento sentado à escrivaninha; caíra em seguida, rolando convulsivamente em volta da cadeira. Estava estendido de costas, perto da janela, inerte, todo vestido e calçado, de casaca azul e colete amarelo. […] Do vinho, bebera somente um copo.” (6)

Chopin ao piano em uma noite romântica.

Pois bem, há de se notar que, na Península Ibérica e desde longínquas eras, existia outro gênero poético, o Romanceiro, que serve para nomear um conjunto de romances. Trata-se de sátiras e canções de amor, algumas em estilo épico, que haviam se espalhado por Espanha e Portugal. Essas últimas, são chamadas canções de gesta e narram gestos heróicos. Numa delas, há uma fala dirigida ao rei don Sancho(7), o primeiro dos Algarves: 

Rey don Sancho, rey don Sancho, | Rei don Sancho, rei don Sancho,
no digas que no te aviso; | não digas que não te aviso; 
que del cerco de Zamora | que do cerco de Zamora
un alevoso ha salido; | um traiçoeiro saiu;
Bellido Dolfos se llama, | Bellido Dolfos se chama,
hijo de Dolfos Bellido; | filho de Dolfos Bellido;
cuatro traiciones ha hecho, | quatro traições cometeu,
y con esta serán cinco. | e com esta serão cinco.
Si gran traidor es el padre, | Se grande traidor é o pai,
mayor traidor es el hijo.
| maior traidor é o filho.

Um romance de amor jogralesco, descoberto em 1421, é o mais antigo efetivamente documentado(8), escrito em um vernáculo misto de castelhano e catalão, que começa assim:

Gentil dona, gentil dona, dona de bell parasser… Gentil dona, gentil dona, dona de belo parecer…

Por sorte, com o advento do Romantismo, o Romanceiro retomou suas forças e está muito vivo. Quem fez um belo e profícuo trabalho nesse sentido foi o português Almeida-Garret(9). Seus livros em três volumes, intitulados Romanceiro, foram publicados a partir de 1828, contendo uma série de baladas medievais, recolhidas e atualizadas pelo autor. U’a amostra:

Onde vais alva e linda,
Mas tão triste e pensativa,
Pára, celeste Adozinda,
Da cor da singela rosa
Que nasceu ao pé do rio?
Tão ingênua e tão formosa
Como a flor, das flores brio,
Que em serena madrugada
Abre o seio descuidada
À doce manhã d’abril! etc.

No Brasil, a obra literária fundadora do Romantismo foi “Suspiros Poéticos e Saudades”, de Gonçalves de Magalhães(10), em 1836. Isto é, cerca de meio século depois de ter nascido o movimento alemão. Nestes versos, o poeta mostra seu estilo com o tempero brasileiro:

Quem, penetrando as negras catacumbas,
Escondidas da terra nas entranhas, 
Dos mártires cristãos leitos de morte,
Onde não entra o sol, nem entra a lua,
E só pequena luz, na mão do guia,
Trêmula, moribunda bruxuleia,
Como pálida estrela, ou como um olho
Do gênio habitador daquelas trevas;
Quem não se enche de horror? 
Quem falar pode?
Só ver, e emudecer; a língua é fraca;
As grandes comoções não se descrevem. / Roma, abril, 1835.

Nas artes pláticas

Como propagador do Romantismo na pintura, merece especial destaque Delacroix. Refletindo a importância do artista, há palavras de Baudelaire(11) quando se fez de crítico de arte. Assim falou sobre o pintor:

“… De uma paixão imensa, duplicada por uma vontade formidável, tal foi o homem. Mas ele dizia sem cessar: ‘Pois que considero a impressão transmitida ao artista pela natureza a coisa mais importante a traduzir…’ “

E acrescentou:

“Jamais, apesar de sua admiração pelos fenômenos ardentes da vida, Eugène Delacroix não será confundido entre essa turba de artistas e literatos vulgares, cuja inteligência míope se abriga atrás da palavra vaga e obscura de realismo.”

De fato, o Realismo* que surgira na década de 1850, após a Revolução Francesa(12), foi uma das consequências do ideário do Iluminismo, que pretendia representar o mundo aparente sem “artificialismos”, evitando as convenções, o exotismo e o sobrenatural. Contudo, através dos tempos, o figurativismo realista tem sido praticado nas artes visuais, sempre prevalecendo o alto domínio da técnica mas, amiúde, mas quase sempre com pouca qualidade expressiva. — * O Realismo perdeu fôlego ao aproximar-se o final do século XIX. 

“Cristo no mar da Galileia”: pintura romântica, por Delacroix.

Também o pintor espanhol Goya(13) foi um romântico e mais que isso, considerado um dos fundadores do Modernismo. Gostava de pintar coisas inacreditáveis, monstros, espetáculos de bruxaria e mais coisas do gênero. Assim sendo, não comungava com o ideário iluminista. Entretanto, ao mesmo tempo em que usava a imaginação, sabia tirar proveito das forças da razão. Uma de suas gravuras mostra um homem cabisbaixo – ele próprio – atormentado por um bando de morcegos esvoaçantes. E, com uma frase complementa a cena, dizendo:

“El sueño de la razón produce monstruos(14)“. — “O sonho / sono da razão produz monstros.” 

No Museu do Prado (Madri), há um manuscrito referente à mesma gravura, que pode ser assim traduzido:

“A fantasia, isolada da razão, somente produz monstros impossíveis. De outro modo, quando unida a ela (a razão), é a mãe da arte e fonte dos seus desejos.” 

Rastreando a palavra

O nome romantismo, em sentido amplo, não caiu do céu, veio de Roma. Seu nascedouro está na língua vulgar – sermo vulgaris ou linguagem comum. Dela vem a palavra romane, que designava o vernáculo* local, ou seja, o meio de comunicação popular, aquele que permitiria uma expressão mais calorosa e espontânea do que na língua erudita. Partindo do mesmo princípio, as línguas nativas de vários povos ficaram ditas como romance. — Vernáculo: língua própria de um país ou de uma região. / Do latim “vernacŭlus, a, um”, no sentido de escravo nascido na casa do amo; ou doméstico, de casa, nascido ou produzido no país ou no lugar, nacional. 

Na Idade Média, chamavam de romance à prosa e ao verso escritos na língua nativa, não importa qual fosse o país.  As obras narravam aventuras imaginárias, criadas de modo a despertar o interesse geral. Vai daí que, por meio do romance, qualquer pessoa podia externar os sentimentos com naturalidade e verdadeira emoção. Em italiano, se diz romanzo, ou melhor, romanzo volgare*. — * Romance popular.

Assim é que as palavras romance, romanceiro, romântico, romanesco e romantismo, desde há muito tempo, têm servido para traduzir o que provém dos sentimentos e dos sonhos, tudo aquilo que se sobrepõe à realidade aparente.

O lexicógrafo e hispanista italiano, Girolamo Vittori(15) (século XVII), contribuiu para esclarecer o assunto. Disse, no seu dicionário:

“Romanceiro – Um livro cheio de tais histórias em forma de canções. De passagem, é preciso aqui dizer que esta palavra Romant, dita antigamente como a linguagem latina ou romana, foi corrompida por toda parte, como cada um quisesse, até mesmo nos confins da Alemanha e da Lorena, onde chamam Romant a linguagem que não é o alemão. / Romancista – compositor de Romans; tradutor em língua vulgar; compositor de romance; que é o romance da língua particular.” — Traduzido do verbete em francês.

Jograis divertindo o povo.

Também o padre Raphael Bluteau(16), no seu dicionário (1720), define da seguinte maneira:

Romance – O mestre Venegas quer que romance seja advérbio, formado do verbo (palavra) latino romane, por falar romanamente, porque tinham uma lei os romanos, que lhes proibia dar ouvidos aos embaixadores, quando falavam em outra língua que não a romana. Tem esta palavra romance vários significados.

Em primeiro lugar, romance significa a língua própria, natural e vulgar de qualquer terra. […] Camões*, num rio de Melinde, diz que seu nome, no romance** da terra, é Obi. Vê cá a costa do mar, onde te deu / Melinde (cidade) hospício (abrigo) gasalhoso e caro / O Rapto rio nota, que o Romance/ Desta terra chama Obi (rio Obi), entra em Quilmance (cidade de Quelimane).** ” — * Nesse ponto, Camões fez uma analogia com a língua portuguesa que, outrora, foi um romance. – Luzíadas, 1572. /  ** Língua obi, falada em Quelimane, Moçambique. – Canto X, estância 96.

Mais esclarece Bluteau, no suplemento do dicionário:

QUILMANCE – Lugar situado na boca do rio Rapto, chamado por outro nome Obi, junto (próximo) ao rio de Melinde.”

Ainda no dicionário, Bluteau complementa: 

Romance, no dito sentido, Língua Vernácula. Na sua miscelânea quer Miguel Leitão que o falar em Romance seja como quem diz: falar Romano. […] Romance – No canto 10 dos sonetos de Camões, sobre a oitava 96, acrescenta Manoel de Faria, que qualquer livro traduzido do latim em vulgar, também se chama Romance, ainda que a tradução seja feita em versos com suas consonâncias e não só em latim, senão de um vulgar em outro, como o dito autor afirma ter visto muitas vezes, intitulado esse Poema traduzido em castelhano e dizia Lusíadas em Romance.”

O padre Bluteau, no Suplemento do seu dicionário, também disse:

Rapto* rio do qual faz menção João de Barros […] aonde diz: ‘Nas serras do reino, aldeia nasce o rio Obi, a que Ptolomeu chama Rapto’ […] Também se chama romance à prosa, para se diferenciar do verso, por ser ela mais vulgar que ele. […] Romancear – traduzir em língua vulgar e natural da terra. […] Romancista – o compositor de uma casta de versos a que chamam romance, ou o tradutor de obras de peregrino idioma, na língua da sua terra; ou aquele que não sabe latim e não só na sua língua exercita a arte que professa.”

A raposa “romântica”

A poética medieval, falada ou escrita em romance, denota que a ideia primitiva do romantismo estava sedimentada na cultura popular da Europa e cujos maiores divulgadores foram os menestréis. Em forma de manuscritos, datam do século XII e início do século XIII.

Entre eles, há o Le Roman de Renart*, em francês, que é o mais famoso conjunto de histórias de animais produzidas na Idade Média, resultado de várias autorias e totalizando 26 capítulos. A inspiração veio das fábulas do grego Esopo e do poema épico de escárnio da autoria de Nirvadus, escrito em latim, em 1148 ou 1149, cujo personagem principal é o lobo Ysengrimus**, que é hostilizado pela raposa Reinardus***. Mestre Nirvadus foi um monge andarilho flamengo, natural de Gent***. Através dele é que começou a ser vulgarizada a história do lobo, que tem suas maquinações destruídas pela maldosa e heróica raposa. — * Romance de Renard, em português. ** Ysengrin, em francês. / *** Reinart, em francês. / *** Gent, hoje na Bélgica.

” Le Roman de Renart”, em francês antigo, por volta de 1400.

Ao estabelecer semelhanças entre o animal e o homem, a narrativa visava criticar a sociedade do mundo feudal. No conjunto, predomina a ironia, mas plena de lições de moral. Nessa tônica é que Ysengrin aparece travestido em monge-bispo, para que o herói Renart o trate impiedosamente, de modo a emocionar e açodar a revolta de quem lê ou assiste o desenrolar da narrativa.

Em francês antigo, a palavra para raposa é  goupil* mas, depois que ganhou fama, “renart” virou o sinônimo preferido, trocando o t por d, ou seja, renard. — * O nome “goupil” vem de “vulpeculus” ou “vulpecula”, diminutivo de “vulpes” (raposa), em latim. 

Vê-se que a palavra roman, ao dar título ao poema, serviu para dizer da história popular de Renart, escrita em romance, ou seja, no vernáculo dos franceses e não em latim. Nesse contexto é que muita gente ainda fala e escreve em alguma língua românica ou neolatina(17), entre elas o português.

No latim culto (sermo cultus) diziam:

“Illa claudit semper fenestram antequam cenat.”

No latim vulgar (sermo vulgaris):

“Ea claudit semper illa fenestra antequam de cenare.”

No português:

“Ela fecha sempre a janela antes de jantar.”

O poeta Fernando Pessoa(18), a seu modo, soube bem definir o que seria romântico, no seu sentido mais profundo:

“É preciso ser um realista para descobrir a realidade. É preciso ser um romântico para criá-la.”

———

Àquela época do Sturm und Drang, a antiga raposa continuava circulando, mas pouca gente havia atentado para isso. Talvez Goethe, com sua enorme sensibilidade a tenha visto. Mas, para quem ainda não a viu, sempre haverá a oportunidade de vê-la, porque é imortal.

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Um Romancero para chorar. Ouça:

Pesquisa, texto, traduções e arte de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) Iluminismo – período também dito como Século das Luzes, da Ilustração ou da Filosofia.

(2) Absolutismo – teoria política que defende a ideia de que uma pessoa – rei ou monarca – deve deter o poder absoluto. O momento culminante foi com o rei Luís XIV, conhecido como rei Sol.

(3) GOETHE, Johann Wolfgang von – (Frankfurt, Alemanha, (*28.08.1749 / Weimar, Alemanha, †22.03.1832) Escritor, esteta, pesquisador científico e estadista.

(4) Rococó – estilo artístico surgido na França, após a morte de Luís XIV, em 1715. É marca do período que termina com a Revolução Francesa, em 1789.

(5) Neoclassicismo – movimento cultural da Europa Ocidental, de meados do século XVIII. Teve larga influência na arte e cultura de todo o ocidente, até meados do século XIX. Seus limites são muito imprecisos. O neoclassicismo teve seu auge entre meados do século XVIII e as primeiras décadas do século XIX.

(6) No romance de Goethe, o jovem Werther conta ao amigo Wilhelm a história do seu amor impossível pela bela Lotte, compromissada em casamento com outro. Artista, sensível às coisas da natureza e do amor, ele não consegue esquecê-la e, no final, comete suicídio com um tiro de pistola na cabeça. Quando o livro foi lançado na Europa, milhares de jovens passaram a se vestir como o protagonista. Dizem que a história foi inspirada em uma paixão não correspondida (Charlotte Buff – imagem ao lado) de Goethe , que afirmou ter matado Werther para que ele próprio não morresse.

(7) Sancho II de Castilha – (*1038 ou 1039 / †07.10.1072) Primeiro rei de Castilha [por conquista] e, depois, da Galícia e Leão. / Dolfo Bellidos – é considerado um personagem lendário, mas seu nome está documentado, em 1057, como Vellit Adulfiz.

(8) Romance copiado en 1421 (imagem abaixo), por Jaume de Olesa, natural da ilha de Maiorca, quando estudava em Bolonha (Itália). Diz assim: “Gentil dona, gentil dona, / dona de bell parasser, / os pies tingo en la verdura / esperando este plazer.  Por hi passá ll’escudero / mesurado e cortés; / les paraules que me dixo / todes eren d’emorés. / Thate, escudero, este cuerpo, / este cuerpo a tu plazer, / las tetillas agudillas / qu’el brial quieren fender.  Allí dixo l’escudero: / No es hora de tender, / la muller tingo fermosa, / fijas he de mantener, / el ganado en la sierra / que se me ua a perder, / els perros en las cadenas / que no tienen que comer. Allá vayas, mal villano, / Dios te quiera mal fazer, / por un poco de mal ganado / dexas cuerpo de plazer. ||| L’escorraguda es: / Mal mi quero mestra Gil, / e faslo con dretxo / Bien me quie su muger / qui’m etxa en e son letxo.”

Post - GentilTradução: “Gentil dama, gentil dama, / dama de bel parecer, / os pés tenho na relva / esperando este prazer Por aí o escudeiro passou / Cheio de mesuras e cortês; / as palavras que me disse / todas eram de amores. / Acorda, escudeiro, este corpo, / este corpo a teu prazer, / as tetinhas agudinhas / que a seda querem furar. Ali disse o escudeiro: / Não é hora de atender / a formosa mulher que vejo, / a obrigação é de cuidar, / do gado pastando na serra / que senão me vai a perder, / os cães estão nas correntes / e não têm o que comer. Lá vais, mau vilão, / Deus te queira mal fazer, / por pouco de mau ganhado / deixas o corpo do prazer. ||| O desfecho é: / Mal me quer mestre Gil, / E o faz bem direito / Bem me quer sua mulher / Que me deixa em seu leito.” 

——— Outro exemplo do romanceiro espanhol, uma balada proveniente de comunidades de judeus sefarditas: “Yo me levantaría un lunes / Un lunes por la mañanita / Tomare yo mi cantarito / Y la fuente fuera por agua • Y a la mitad de aquel camino / Con mi amor me encontraré / Tiró me la manika al cuello / La gargantilla me tocara • Tate tate tu el caballero / Desha me, iré para mi casa / Me lavaré mi lindo cuerpo / Me pondré camisita blanca • Me ciñeré mi cinturita / Con una kushaka morada / Me peinaré mi cavesika / Me pondré camisita blanca • Tate tate que no hay dote / Desha el amor para la noche / Tate tate que no hay nada / Desha el amor para mañana. • Dai de a la suegra una sardina / Y a la nuera una gallina / Dai de a cenar al desposado / Dai de a cenar que no ha cenado.” 

Tradução: “Vou acordar segunda-feira, / Na segunda de manhãzinha. / Meu potinho vou pegar, / Pra buscar água na fonte . • Já na metade do caminho, / Meu amor encontrarei. / Pelo pescoço vai me abraçar  / E no meu colar tocará. • Acorda, acorda cavaleiro, / Deixa-me, irei para casa. / Lavarei meu lindo corpo, / Vestirei camisinha branca. • Cinturinha vou rodear, / Com uma fita vermelha. / Vou  enfeitar meus cabelos, / Vestirei camisinha branca. • Acorda, acorda, que dote não há, / Deixa o amor p’ra denoite. / Acorda, acorda, que nada há, / Deixa o amor pr’amanhã. • Dá à sogra uma sardinha / E à nora uma galinha. / Dá jantar ao desposado, / Dá-lhe o jantar, que não jantou.” — Cantado por Ester Davida, natural de Tanger, em 10.07.1978.  

(9) ALMEIDA-GARRET, João Baptista da Silva Leitão de – (Porto, *04.02. 1799 / Lisboa, †09.12.1854) foi um escritor e dramaturgo romântico; visconde; orador, par do reino, ministro e secretário de estado honorário de Portugal.

(10) MAGALHÃES, Domingos José Gonçalves de – (Rio de Janeiro, *13.08.1811 / Roma, †10.07.1882) Ensaísta, poeta, professor, diplomata e político. Participou de missões diplomáticas na França, Itália, Vaticano, Argentina, Uruguai e Paraguai.

(11) BAUDELAIRE, Charles-Pierre – (Paris, *09.04.1821 / Paris, †31.08.1867) Poeta; crítico de arte, assinando Baudelaire Dufays. Um dos precursores do Simbolismo e fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora tenha participado de diversas escolas. Sua obra teórica teve grande influência sobre os artistas plásticos do século XIX.

(12) Revolução Francesa – O dia 14.07.1789 marca o início da Revolução Francesa com a Queda da Bastilha (um pequeno forte que servia de prisão), em Paris. O dia 09.11.1799 selou o fim da era, com o início do governo de Napoleão.

(13) LUCIENTES, Francisco José de Goya y – (Fuendetodos, Espanha, *30.03.1746 / Bordéus, França, †16.04.1828) Pintor e gravador.

(14) O escritor inglês Aldous Huxley (*26.07.1894 / †22.11. 1963), entusiasta do uso da droga LSD como estimulante dos processos mentais, escreveu sobre a gravura de Goya: “A legenda ‘El sueno de la razón produce monstruos’ admite mais de uma interpretação. Quando a razão dorme, o absurdo e as criaturas repugnantes da superstição acordam e ficam ativas, levando suas vítimas a um ignóbil frenesi. Mas não é só. A razão pode também fazer sonhar sem dormir, pode intoxicar-se, tal como ocorreu na Revolução Francesa, quando houve o sonhar acordado em prol de um progresso inevitável, em nome da liberdade, igualdade e fraternidade, mas impondo a violência, em nome da autossuficiência humana e pelo fim da tristeza.” Pois bem, a Revolução Francesa foi influenciada pelos ideais do Iluminismo, porém contestados por Goya e, assim sendo, a mensagem na sua gravura se revela ambígua.

(15) VITTORI, Girolamo – (Bolonha, Itália, *1549 / Genebra, Suíça, †?). Fonte da citação: “El Tesoro de las tres lenguas francesa, italiana y española”, 1614.

(16) BLUTEAU, Raphael – (Londres, *04.12.1638 / †Lisboa, 14.02.1734) Religioso da Ordem dos Clérigos Regulares e grande lexicógrafo da língua portuguesa; autor do “Vocabulário Português e Latino”.

(17) NEOLATINO / NEOLATINA – adjetivo designativo das línguas modernas derivadas do latim, como o português, o espanhol, o catalão, o provençal, o italiano, o francês e o romeno, ou aquelas de nações ou povos procedentes dos antigos Romanos; o mesmo que novilatino(a).

(18) PESSOA, Fernando Antônio Nogueira – (Lisboa, *13.06.1888 / Lisboa, †30.11.1935) Poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português.

11 Comentários »

  1. Eduardo! Muito interessante. Estamos necessitando de muito romantismo.

    Comentário por Maria Marilda Pinto Correa — 01/05/2018 @ 9:18 am | Responder

    • Marilda:
      Sim, o mundo sofre porque falta romantismo. O que tem mais é “brutalismo”.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/05/2018 @ 1:31 pm | Responder

  2. Eduardo,

    Li o seu texto, vi o “Romance del enamorado y la muerte”, detive-me em cada uma das anotações e fiquei sem saber que comentários fazer acerca deste seu post. São muitas as informações, os trechos citados são belíssimos (bastaria a citação de Fernando Pessoa “É preciso ser um realista para descobrir a realidade. É preciso ser um romântico para criá-la.” para justificar o que afirmo) e a declamação do “Romance del enamorado…” é de arrepiar. Trata-se de um post para ser lido várias vezes, um post que requer releituras atentas que valorizem seu trabalho de pesquisa, de tradução, de ilustração e, principalmente, sua capacidade de organizar tantos conhecimentos em um texto fluente, enxuto, agradável de ler. Santo Agostinho dizia que, ao abordar um assunto, corre-se o risco de ser profundo e perder em extensão ou de abranger muito e perder em profundidade. Você conseguiu, no meu modo de entender, o equilíbrio entre profundidade e extensão ao tratar da visão romântica que permeia a existência humana contrapondo-se a uma perspectiva realista de perceber as coisas e interpretar seus significados. Pelas conversas que tivemos, eu imaginava que esse seu texto iria mexer com os leitores, mas você superou minhas expectativas. Eu o admiro muito.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 04/05/2018 @ 11:24 pm | Responder

    • Pedro:
      Reconheço você como um colaborador dos meus Posts. Seus comentários sempre enriquecem o que escrevo. Quanto ao “Romance del enamorado”, temos uma brilhante representação da belíssima Beatriz Montero. Puro romantismo!
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 05/05/2018 @ 8:24 am | Responder

  3. Descobri que o tempo é bem mais rápido do que eu. Não era assim antes. Agora é. O dia já não dura 24 horas para mim. No máximo 16. E com isso perco coisas, não vejo, não dá tempo de fazer tudo. Hoje percebi que minha caixa de e-mails estava carregada de coisas não lidas. E achei o aviso desta sua postagem… que eu ainda não conhecia! Bom, felizmente eu a encontrei. Li daquele jeito que gosto de ler, saboreando.
    A sua escrita é extremamente agradável. Foi fundo no romance, nos românticos, nos romanos. Com base na História. Sempre com coisas que eu nem suspeitava. Sempre ensinando. Isso é tão bom. Lembrei aqui de quando era ainda pré adolescente. Saiu uma música italiana que tinha vencido o Festival de San Remo. Se chamava “Romântica”. E eu, que nada sei de italiano, julguei entender a letra. Para mim, estavam dizendo algo assim: você é romântica, amiga das nuvens”. É um “po de sol”… eu traduzi como um por do sol. E que romântica seria aquela pessoa que amava as nuvens e apreciava ver o crepúsculo.
    Hoje sei que a parte da amizade com as nuvens está correta. “Tu sei romantica, Amica delle nuvole”. A outra parte eu ainda não sei o significado, mas com certeza nada tem a ver com o por do sol. “Che cercano lassù, Un po’ di sol, Come fai tu”. Porém entendi que românticos eram pessoas como eu. Vivia olhando para as nuvens apreciando as mudanças das formas. E parava o que estivesse fazendo para ver o sol se por. Tinha concluído: “Sou romântica.” O tempo foi passando e achei que tinha entendido tudo errado. Os filmes que chegavam até a mim como sendo filmes românticos me causavam enfado. Não aguentei aquele famoso chamado “Candelabro italiano”. Achei tolo. E também não via graça alguma nos romances açucarados de M. Delly que todas minhas amigas gostavam. Nesses filmes e nesses livros, não via ninguém fazendo amizade com as nuvens, nem com aquela hora mágica do sol se pondo. Só muito mais tarde tive acesso à verdadeira literatura romântica. Amei os clássicos de Vitor Hugo. Li “Os Sofrimentos do Jovem Werther”. E chorei por longo tempo. Mas, apesar de não ver ninguém de amizade com nuvens, deu para sentir que havia algo bem diferente do que me diziam ser romantismo.
    Já na escola, aprendi um pouco sobre o romantismo na pintura e sobre a filosofia dos românticos, de almas dilaceradas e querendo mudar o mundo. Conhece a minisérie inglesa chamada “Desesperadamente Românticos”? É sobre a Fraternidade Pré-rafaelista: Dante, Gabriele Rossetti, William Holman Hunt, John Everett Millais e William Morris. Eles aprontaram na Londres antiga. E mudaram o mundo das artes por lá. Pois é, descobri que talvez seja romântica mesmo. Agora, me responda: por que mudaram o sentido da palavra? Por que, para muitos, a literatura romântica passou a ser apenas aquela coisa água com açúcar? E uma pintura romântica seria uma tela mostrando um beijo de amor, ou algo assim. Obrigada por nos mostrar como é bem mais do que isso. E bem mais do que apenas ficar olhando nuvens no céu.

    Comentário por sertaneja — 13/05/2018 @ 1:41 am | Responder

    • Virgínia:
      Concordo com suas opiniões no comentário. Temos que descobrir e viver no romantismo.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 13/05/2018 @ 10:10 am | Responder

  4. Eu gostava de Ysengrin, o lobo. Era um livro ilustrado. Estou revendo aqui um dos desenhos do lobo, com expressão tão triste que dela nunca me esqueci. O livro chegou para nós no Natal de 1954. Presente para meu irmão mais velho. Como eu ainda não frequentava a escola, não sabia ler, ele fez o que sempre fazia: leu tudo para mim. Renard. Se bem me lembro era escrito assim com d no final. Sucesso total em minha casa.

    Comentário por sertaneja — 13/05/2018 @ 12:34 pm | Responder

  5. Prezado Eduardo. Excelente “A raposa romântica”. Esboça as origens e contexto do Romantismo e destaca suas características, tais como subjetivismo, exaltação da personalidade individual, oposição às normas clássicas, valorização da Idade Média e das tradições nacionais. No início, o texto destaca ainda as contribuições de Goethe e também de J.G. Herder, filósofo e escritor alemão, autor do famoso tratado “A origem da fala”. Ao ressaltar a presença de peças nitidamente românticas na Idade Média, seu post fez-me lembrar, também das “Novelas Ejemplares”, de Miguel de Cervantes Saavedra, quando diz:”cautivando al lector con historias jugosas ricamente narradas donde se entreteje el humor y a la vez se inspiran profundas enseñanzas de rectitud y justicia”. Excelente também o video “Romance del enamorado y la muerte”, em bela declamação feita pela “muy guapa” Beatriz Montero. Parabéns e muito obrigado pela chance que me proporcionou com estas suas anotações e reflexões tão pertinentes ao tema Romantismo. Fuerte abrazo, desde mi bunker. Estevam.

    Comentário por Estevam de Toledo — 21/05/2018 @ 10:52 am | Responder

    • Estevam:
      Suas amáveis palavras me estimulam a continuar viajando nos livros, nos documentos e no pensamento.
      Muito obrigado, Eduardo

      Comentário por sumidoiro — 21/05/2018 @ 1:03 pm | Responder

  6. Parabéns pelo blog. Sou do Rio de Janeiro e fiz uma visita a Conselheiro Lafayete, gostei muito! Gosto muito de História.

    Comentário por Mauro Moretti — 28/07/2018 @ 1:02 pm | Responder

    • Mauro:
      Muito obrigado. Não sou especialista em história, mas gosto de ler e pesquisar sobre o assunto. Fico alegre em receber sua opinião. Todo dia 1 de cada mês lanço um novo texto.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 28/07/2018 @ 4:08 pm | Responder


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