Sumidoiro's Blog

01/06/2018

TERAPIA DO RELÓGIO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:14 am

♦ Tal pai tal filho, tal mãe tal filho.

Post - No último domingo do mês, como de hábito, a família fora visitar o Joca(1) na casa de alienados. Lá, ao serem recebidos pelo velho médico, tiveram as primeiras notícias do paciente:

“- Ele vai indo muito bem. Desde que passou a frequentar nossa Oficina de Criatividade, tem apresentado sensíveis progressos. Ultimamente, está com os pés mais na terra e, a qualquer tempo, devo lhe dar alta.”

Diante de tão animadoras notícias, a mãe do Joca, dona Jorgina(2), foi tomada de alegria:

“- Que maravilha doutor Higino(3)! Nem imaginava que ele se libertaria das más influências recebidas do pai, aquele vagabundo, que nunca achou tempo para trabalhar. Razão da nossa eterna penúria.”

“- Como assim?” – indagou o médico. 

E dona Jorgina revelou a origem da sua grande mágoa: 

“- É isso! Desde que nos casamos, se apegou aos livros e adquiriu a mania de escrever poesias.”

Ao ouvir tão duras palavras, Higino pediu serenidade, mas passou a duvidar da alegada negatividade paterna:

“- Inacreditável! O Joca me passa outra impressão. É muito dedicado e criativo…”

Porém, de modo incisivo, veio a manifestação da mãe: 

“- Criativo, em quê?”

Então, o médico se esforçou para explicar: 

“- Ora! Aqui, na nossa Oficina de Criatividade, buscamos motivar os participantes para que deem asas à imaginação. Explico, imaginar é a arte de criar no cérebro coisas que nunca existiram. Nisso, seu filho é um verdadeiro prodígio! Desde o momento em que passou a frequentar nossa Oficina, tem apresentado ideias magníficas.

Pois saiba que tudo começou fortuitamente, quando se deparou com um relógio de parede adormecido porão da enfermaria. Naquele momento, teve forte emoção, de modo que logo manifestou grande afeto pela máquina.

Algum tempo depois dessa experiência, foi movido por forças ocultas que o fizeram revelar-se como excelente relojoeiro, um verdadeiro autoditada no ofício. Sua primeira obra foi mesmo trazer de volta à vida o relógio abandonado, agora devidamente reformado e lidando com o tempo sem vacilar. Não atrasa nem adianta um segundo sequer. E Joca, toda vez que vai recuperar qualquer outro relógio, tem dito que sente a mãe ao seu lado. E vou dizer mais, ao dar por terminado cada conserto, saúda a senhora dizendo: ‘Viva mamãe! Deus no céu, mamãe na terra!”

Para que tudo ficasse bem claro, Higino ainda tentou mostrar a sabedoria escondida no relógio:

“- Devo lhe dizer que as coisas passaram a ganhar sentido quando, na caixa de madeira do relógio, Joca percebeu uma inscrição em latim, “Reditus aeternus”, que assim traduzimos: “Eterno retorno do mesmo.”(4) De fato, palavras intrigantes, até que captamos a natureza da mensagem. Era uma frase gravada por antigo dono, com a ponta de um canivete e, certamente, falando da sua relação com o tempo. Pois não é que o pensamento movimentou nosso espírito? Haja filosofia!” 

Contudo, sem compreender o que acabara de ouvir, dona Jorgina gaguejando passou a falar mais alto:

“- Valha-me nosso senhor Jesus Cristo! Então ele piorou!”

Ao ouvir isso, o doutor Higino tratou de defender o interno com veemência:

“- Não é o que pensa minha senhora, o Joca é um iluminado e disso estou convicto.” 

Daí, ele lançou um olhar para o alto, fez uma pausa e prosseguiu: 

“- De que mesmo estávamos falando? Era de outra coisa… Ah, lembrei-me, da admiração do seu filho pela senhora.”

Contudo, dela logo surgiu uma indagação:

“- O que o senhor quer dizer com isso?” 

E didático foi o esclarecimento do médico: 

“- Sim! Ele deixou claro que é herdeiro da sua habilidade de costureira. Contou-me que a senhora consegue passar um fio pelo buraco da agulha até de olhos fechados. Quer maior dádiva que essa, para qualquer pessoa que queira lidar com as miudezas dos relógios?

E vou dizer mais, acredito que, para ele, o relógio de parede passou a representar a senhora mesma, quase que por inteiro, praticamente uma duplicata. Vocês dois dormem no mesmo quarto, quero dizer ele e o relógio, pendurado num prego sobre a cabeceira. Alterou até o gênero do objeto, referindo-se a ele como “minha máquina”. Sempre que está a seu lado, a trata pelo diminutivo Mama, carinhosamente.

Olha! Tem mais… Está vivendo feliz, como se tivesse retornado ao seio familiar, pois que, durante os sonhos, tem conversado também com o pai. Pouco a pouco, nesses devaneios noturnos, foi tomando gosto pelos livros e aprendeu a escrever poesia. Tal pai tal filho!”

A essa altura, dona Jorgina denotando estar estupefata, mal conseguiu pronunciar duas palavras:

“- Não acredito!”

Nesse ponto, o doutor Higino sentiu-se obrigado a fazer importantes revelações:

“- Pois creia-me senhora, falo a verdade! Sua obra literária é maravilhosa. Acaba de escrever um poema intitulado A Fábrica de Tempo. Com muita arte explica como é possível construir o tempo. Suas palavras muito me inspiraram e estou com a ideia de, em breve, quando me aposentar, investir minha poupança numa fábrica de tempo.

Vou produzir e distribuir tempos metafísicos*, em três tipos de embalagem: Tempo de Antanho, Tempo Light e Tempo Vitaminado. Cada qual tem sua utilidade e especificidade, mas todos servem para estimular setores da mente. Quero ter estoque suficiente, de modo que os consumidores não fiquem sem tempo.” — * Metafísica é o que está além da física, ou seja, além das leis da natureza.

Mas dona Jorgina pediu uma pausa e indagou:  

“- Vem cá, o senhor não se esqueceu do Tempo Normal?”

“- O normal não existe!” – assegurou o médico. “Na minha vida eu nunca vi o normal, nem aqui dentro, nem lá fora…”

E continuou Higino:

“- O Tempo de Antanho é o que concentra tudo que ocorreu, ou seja, é o outrora. Antes, quero esclarecer que o outrora está em permanente distanciamento do presente. Assim, depois de ingerir o Antanho, você mergulha em algum lugar do passado e participa efetivamente dele. É o presente no passado, mas lá você entra como uma retardatária, evidentemente. O mais interessante do Antanho é que, à medida que ele vai perdendo efeito, o usuário começa a voltar à sua condição temporal anterior. Creio que esse produto terá boa acolhida entre os historiadores. 

Por sua vez, o Tempo Light ajuda a ativar os sentidos, de modo que habilita a perceber em detalhes cada instante do desenrolar da vida. Quanto ao Tempo Vitaminado, dá forças para quem quiser perscrutar o futuro. Nisso está a sua especial qualidade, porque ele tende para o infinito e, evidentemente, custará mais caro, porque está entre as “coisas” que duram para sempre.

Trocando em miúdos, esses tempos servem para lidar com o Antes, o Agora e o Depois

Digo mais, o Tempo Light, apesar do nome, é o mais útil e poderoso, porque estimula intensamente o tato, o olfato, o paladar, a audição e a visão – principalmente esta última. De modo que, tão logo é metabolizado, potencializa-se a capacidade de perceber o Agora e de captar microtempos, quanto também miuçalhas, por menores que sejam seus tamanhos. Creio que será o mais consumido e, por isso, vou colocá-lo a um preço bem acessível.

Mas faço um alerta, se você abusar na dose de Tempo Light, seu tempo poderá minguar perigosamente, o que é pouco recomendável. Ainda não há comprovação, mas é possível que, num determinado instante, se chegue ao nada(5). De qualquer maneira, creio firmemente que a ANVISA(6) aprovará as minhas drogas.

Nunca pensei que isso pudesse acontecer, mas acho que vou ficar rico com esse empreendimento!”

Porém, no instante seguinte, logo após Higino finalizar sua fala, dona Jorgina pediu esclarecimentos:

“- Doutor, não tenho nada com isso, mas como o senhor vai medir os seus tempos? Na balança, na régua e no relógio certamente não será.”

Daí, o médico franziu a testa, rapou a garganta, mas permaneceu mudo, o que fez dona Jorgina mudar de assunto:

“- O senhor está se sentindo bem? Quantas horas são? Não posso perder mais tempo, o último ônibus sai agorinha mesmo. Fica com Deus!”

Por Eduardo de Paula

———

(1) Joca é diminutivo de Joaquim, nome que vem do hebraico Yehoyaqim e designa o 19º rei de Judá (597 a.C / 587 a.C.), o qual se estendeu ao nome do pai da Virgem Maria, São Joaquim. / Esse rei de Judá – o Joaquim – foi acusado de idolatria e, por força do nome, o Joca estava a fazer o mesmo com o relógio.

(2) Jorgina é derivativo de Jorge que, por sua vez vem de geo (terra) + ergon (trabalho), portanto nome apropriado para aquele que trabalha a terra; lavrador. Assim sendo, o nome veio a calhar para Jorgina, mulher muito trabalhadeira.

(3) Higino vem do grego hygeinos, palavra ligada à deusa Hygeia, filha de Asklepios, deus da medicina. Ela representava a saúde, a limpeza e a sanidade. Na antiga Roma, Asklepios era dito como Esculapius (Esculápio) – deus da medicina e da cura – e passou a ser relacionado com o sol, enquanto Hygeia era dita como Salus (tradução: Saúde), que seria a lua. Desse modo, se explica porque o saudável (?) doutor Higino era tão aluado.

(4) “Eterno retorno”, também dito como “eterno retorno do mesmo”, é um conceito filosófico originalmente abordado por Heráclito, herdado pelos filósofos estoicos e que chegou até aos pensamentos de Friedrich Nietzsche (século XIX).

(5) Segundo o físico Stephen Hawking, antes da grande explosão que gerou o universo – o Big Bang –, havia “basicamente nada”. Existiria, sim, um tempo imaginário, que se comporta como uma quarta dimensão.

(6) ANVISA: Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

8 Comentários »

  1. Eduardo, bonita história.
    Marilda.

    Comentário por Maria Marilda Pinto Correa — 01/06/2018 @ 9:32 am | Responder

    • Marilda:
      Que bom você ter gostado.
      Um braço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/06/2018 @ 2:41 pm | Responder

  2. Eduardo,

    Acerca de seu texto “Terapia do relógio”, quero comentar dois aspectos: 1. a escolha do nome de cada personagem; 2. a questão do tempo. Comecemos pelo nome.

    Penso que há uma estreita relação entre o nome e a pessoa (personagem, no caso da ficção), e você foi muito feliz em explicitar essa relação nas notas, no final de seu post, pois nem todos se preocupam em procurar as razões desses nomes, e isso muito nos ajuda na compreensão de seu texto.

    Há nomes que são apropriados para todos os tempos de uma vida. Assim, por exemplo, Davi, Ivan; outros são nomes de adultos, de velhos, como Joaquim, Orozimbo, Benedito. Daí a necessidade dos diminutivos, dos apelidos, pois é difícil chamar de Joaquim, Orozimbo ou Benedito a uma criança recém-nascida. Não sei se você já observou que as pessoas nos chamam por nomes diferentes, dependendo da relação que têm conosco. Meu nome é Pedro, mas há quem me chame por Dino (apelido de infância), Pedrinho, Pedrão, Sô Pedro… Provavelmente, há aqueles que o chamam de Eduardo, outros de Edu, de Du, de Eduardinho…

    Quanto à questão do tempo, a divisão em Tempo de Antanho, Tempo Light e Tempo Vitaminado é preciosa para entendermos melhor essa dimensão da vida. Apesar de falarmos muito em passado, presente e futuro, quase sempre tratamos o tempo como se fosse uma coisa só. Quando falamos do passado, no meu entender (tenho muitas dúvidas se o que penso é verdade), falamos de algo que não existe como passado. Toda memória é ficção (?). O presente – continuo pensando – seria o tempo normal, mas Higino diz que o tempo normal não existe. Esse seu texto dá margem a longas reflexões.

    Há, ainda, um outro aspecto que deixo para outros leitores de seus textos. Quem compreende mais adequadamente o Joca? Jorgina ou Higino?

    Com o abraço do

    Pedro.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 03/06/2018 @ 10:54 am | Responder

    • Pedro:
      Muito obrigado pelo seu rico comentário. Quando escrevo essas coisas, sou levado a me comparar com o falecido humorista Chacrinha. Tal como ele dizia: “- Vim aqui para confundir e não para esclarecer”. Será?
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/06/2018 @ 2:33 pm | Responder

  3. Eduardo. Parabéns por este seu fantasmagórico “Terapia do Relógio”. O “plot” me parece simples, intrigante e altamente criativo. Joca, o alienado iluminado; sua mãe, Dona Jorgina; o Doutor Higino; a Oficina de Criatividade; o relógio de parede, com a inscrição “Reditus aeternum”. Eis aí os ingredientes iniciais que nos preparam para reflexões de fundo filosófico, possibilitadas pela Fábrica do Tempo, com seus produtos metafísicos: o tempo de Antanho, o Light, e o Vitaminado. Este, de tipo Light, ao enfatizar a importância do *instante*, fez-me lembrar de Jankelevitch e seu conceito de “instant charmant”. Nesta linha de raciocínio, segundo Jankelevitch, a vida é também feita de instantes sublimes os mais variados, e – diferentemente daqueles do homem comum, que fica a esperá-los. O homem corajoso trata de provocá-los, através da ação. Esta temática do tempo é mesmo muito rica e Você, Eduardo, com seu “Terapia do Relógio”, nos brindou com uma bela contribuição de fundo fantasioso e filosófico, extremamente criativa. “Enhorabuena, desde mi bunker, con mi fuerte abrazo”, Estevam.

    Comentário por Estevam de Toledo — 17/06/2018 @ 8:45 am | Responder

    • Estevam:
      Seu comentário é precioso. Ajuda-nos a pensar mais no assunto, sem perda de tempo. Ou será ganhando tempo?
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 17/06/2018 @ 9:20 am | Responder

  4. Eu também gostei. Só não sei comentar assim como fizeram os companheiros de leitura. Mas estou torcendo para que logo os tempos metafísicos estejam disponíveis.

    Comentário por sertaneja — 27/06/2018 @ 1:05 am | Responder

    • Virgínia:
      Você comenta muito e bem. Entendo que deve ter muito boas ideias sobre o tema deste post.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 27/06/2018 @ 9:17 am | Responder


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