Sumidoiro's Blog

01/08/2018

AS LÁGRIMAS DO CUCO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:15 am

♦ Beleza na tristeza

 Vem do tempo da Rússia dos czares, a lenda das Lágrimas do Cuco(1), nome popular de uma espécie de orquídea das campinas. O cuco é uma ave migrante da Europa, Ásia e África. Gosta dos climas mais quentes, por isso está sempre a trocar de moradia. O macho é grande cantor, a fêmea possui um modesto trinado. 

Flores que representam as lágrimas do cuco.

uma tarde quente de verão, moças da vila se reuniram para tomar banho no rio. Lá estando, retiraram lenços e tiaras dos cabelos, se sentaram na margem e começaram a fofocar, como também a falar de namoros. Uma delas não tinha interesse por tais assuntos e se mantinha silenciosa, e solitária. Chamava-se Frosia, era belíssima, de pele muito clara. Seus raros olhos azuis tendiam para o violeta*, que faziam sentir como se fosse o “olhar do falcão”, como dizem os russos. Porém, coitada, era também órfã e pobre. – Cor de olhos muitos raros, que ocorrem em albinos.

De repente, as companheiras começaram a provocá-la:

“- Frosia, você não tem namorado? Onde está, quem é ele? É bonito e rico? Onde pode u’a moça sem fortuna encontrar um amante jovem bonitão e poderoso?”  

Ao sentir a provocação, com desdém respondeu: 

“- Meu marido é uma víbora! Está por aí.” 

Tão logo pronunciou essas palavras, as companheiras exclamaram, concordando: a víbora! Eis então que, de um chapéu que Frosia deixara sobre a grama, surge enorme víbora negra. Ela explodiu em lágrimas mas, nesse meio tempo, a víbora foi se espichando para o alto, para se transformar num jovem extremamente bonito. Apresentava-se, diante dela, com uma capa de ouro cobrindo esvoaçantes cachos de cabelo, os olhos brilhando, enquanto palavras doces saíam dos seus lábios. E se dirigiu a Frosia:

” O que você quis dizer? É que estava pronta para se casar comigo?”

Ela não sabia o que responder mas, olhando para ele, fez uma pergunta a si mesma:

“- De onde teria vindo esse moço tão sábio e belo?”

E ele, lendo seu pensamento, respondeu:

“- Não sou um homem qualquer, sou o czar das águas. Meu império está situado numa piscina profunda, cercada de areias douradas.” 

Devido ao seu olhar, o moço-víbora logo percebeu que ela consentia em partir com ele. Então, a envolveu num poderoso abraço e, juntos, afundaram em direção ao profundo reino das águas.

No começo da relação a dois, enorme foi a felicidade de Frosia. Será que podia acreditar? Ele demonstrava ser tão bom, parecia tão sábio. Ela nunca tinha visto pessoa como aquela, não existiria ninguém como o czar das águas. Mas Frosia foi bastante ingênua, pois permaneceu reclusa por sete anos, num palácio de cristal submerso. Felizmente, lá não havia relógios, de modo que os sete anos se passaram como se fosse um dia. Contudo, durante esse tempo, não sentira sequer um pingo de felicidade.

Pois bem, da união, nasceram uma menina e um menino. Vivia em meio a breves alegrias mas, de repente, e sem mais nem menos, abateu-lhe tremenda tristeza. Estava ansiosa por retornar, queria rever sua aldeia natal e, outra vez, estar com as amigas. Nesse ponto, até que o marido foi generoso. Decidiu liberá-la juntamente com as crianças, mas somente por três dias. Porém, com a condição de que nem ela, nem as crianças, revelariam o nome dele, nem o lugar onde moravam.

Assim sendo, mais por temor que por vontade, com tudo concordou, na certeza de que seu marido a conduziria até a superfície da água. Houve ainda mais uma condição, a de que findos os três dias, deveria voltar ao mesmo lugar na beira do rio, de onde gritaria Cuco, bem alto e com insistência. Seria um aviso para o czar das águas, que sairia nadando até encontrá-la.

Para honrar a palavra, estava decidida a manter o combinado, mas suas amigas tentaram persuadi-la a ficar e ainda consultaram o pensamento das crianças. O menino, todas as vezes que era questionado, simplesmente repetia: “- Eu não tenho opinião e nada sei.” Mas a garota, por sua vez, decidiu contar tudo. Isso era o que as invejosas e fofoqueiras queriam. Elas saíram então às carreiras e foram contar tudo aos maridos e irmãos, que imediatamente se dirigiram à represa e, lá chegando, passaram a pronunciar as palavras secretas: “- Cuco! Cuco! Cuco!”

Daí, quando o czar apareceu, trataram de espancá-lo até a morte. Porém, antes de desacordar, o agredido conseguiu dar alguns recados. O primeiro para Frosia:

“Tenho que agradecer apenas a você, minha querida esposa, agora que estou sendo levado à morte por culpa da minha filha. Daí em diante, você se transformará em um cuco cinzento e repetirá o meu chamado: Cuco!” Isso será para sempre, desde o início de cada primavera até o dia de São Pedro, que são momentos em que a tristeza bate em todos corações. Nesses dias, ao ouvi-la, todas as aves, grandes e pequenas, sairão a seu encalço e vão lhe ofender.” — * Entende-se que Frosia teve seu sexo trocado, porque só o macho canta cuco.

O segundo recado foi para a filha:

“- Você, minha traidora, será transformada em uma urtiga*. E desejo que o seu próprio fogo lhe queime os olhos, onde quer que esteja, e que a faça chorar para sempre. Assim há de recordar a morte do seu pai.”— * Urtiga é uma planta que queima, porque contém ácido fórmico.

E o terceiro recado para o filho:

“- A você, leal filho meu, que guardou os segredos do pai, deixo um legado. Será transformado numa ave amada, que habita nos jardins e nos bosques sombrios, onde sempre está sempre a cantar, com a missão de oferecer alegria e fazer as pessoas felizes. Você será também o consolo daqueles que choram, seu nome é rouxinol.(2)

A partir do triste desfecho, o povo russo preferiu chamar as orquídeas do prado de “Lágrimas do cuco”. — Traduzido do inglês.

O CUCO VEM DE LONGE

O pássaro personagem sempre se transmuta a cada narrativa. Pode ser bom ou mau, dependendo do contexto. Seu canto ora remete à tristeza, ora à alegria, mas também, a ambas coisas. Por sua vez, a fêmea tem por hábito invadir ninhos de outras aves, depois destrói os ovos e bota os seus para a agredida chocar.

Uma fantasia poética com o cuco foi feita por Alcuíno(3), famoso erudito da Idade Média. Num trecho de “De Cuculo”(4), assim canta:

Oh, Cuco, que estavas sempre a cantar,
Agora, preso, o que de ti sabem os amigos?
Oh, Cuco, Cuco, onde foram te esconder?
Miserável dia, quando isso aconteceu.

Por toda parte, há alguém que por ti chora;
O cuco está perdido, oh, se morre, nós também.
Não! Não morrerá, voltará na primavera.
Para todos ouvirem, canções alegres cantará.
Quem sabe? Virá lá do fundo das águas? — Traduzido do latim.

———

— Ouça o chamado do Cuco (por Joerg Hemmer, YouTube).

Traduções, texto e arte de Eduardo de Paula

———

(1) HAPGOOD, lsabel Florence – (Boston, USA, *21.11.1851 / New York, †26.06.1928) Tradutora de literatura francesa e russa. Escreveu de “The cuckoo Tears” (As lágrimas do Cuco), colaboração publicada no New York Times.

(2) Rouxinol: cantor da noite, símbolo dos poetas.

(3) Alcuin of York – ( York, Northumbria, *c.740 / Tours, França, †19.05.804) Poeta, escritor, teólogo, matemático, etc. Como autor, usou o pseudônimo de Albinus Flaccus. Estudou na escola da catedral de York, onde foi professor. Depois, abraçando a carreira religiosa, se tornou monge. Faleceu como abade do mosteiro de Saint Martin, em Tours (na França). Foi conselheiro de Carlos Magno (Charlemagne) e, responsável pela criação do estilo de letras oficiais do império, denominadas carolíngias. Delas evoluíram as minúsculas atuais.

(4) Fonte: “Beati Flacci Albini sev Alcvini abbatis Caroli Magni regis ac Imperatoris Magistri opera”, Tipografia do Mosteiro de Santo Emerão, Tomo II, Primeiro volume, 1777, p. 237.

6 Comentários »

  1. Eduardo, parece-me que as lendas são, em sua grande maioria, belas e tristes. Nelas, os sonhos se realizam, mas não em conformidade com a abrangência de nossos desejos. Sempre falta algo ou discordância em relação ao que sonhamos. Parece-me também que, no nível individual, o que resulta de uma lenda é quase sempre frustrante, mas que, no coletivo, há uma lição e uma beleza triste. Como acontece, com frequência, a leitura de seus textos me faz pensar, o que penso ser o objetivo maior de quem escreve. Qual atitude foi a melhor: a do menino, guardando o segredo do pai, ou a da menina, revelando-o? Maridos e irmãos repetem uma atitude muito comum: interferimos na vida das pessoas sem muita cerimônia. Isso é bom?
    Sei lá! Só sei que é assim. Grande abraço!

    Comentário por Pedro Faria Borges — 01/08/2018 @ 11:01 am | Responder

    • Pedro:
      Concordo com tudo que você está a dizer. Respostas também não tenho. Muito obrigado e um abraço
      do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/08/2018 @ 2:16 pm | Responder

  2. Eduardo.
    Bela estória de se ler.
    Boa fantasia,
    Marilda

    Comentário por Maria Marilda Pinto Correa — 01/08/2018 @ 8:22 pm | Responder

    • Marilda:
      Triste mas bonita, não é?
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/08/2018 @ 9:30 pm | Responder

  3. Parabéns, suas histórias sempre me deixam encucado.

    Comentário por André — 06/08/2018 @ 11:04 am | Responder

    • André:
      Muito obrigado pelo estímulo.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 06/08/2018 @ 2:35 pm | Responder


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