Sumidoiro's Blog

01/09/2018

LUZES DE APOLO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:22 am

♦ Revelando o divino

Na cultura pagã da Grécia antiga, Apolo* era o deus das artes, da praga e da cura, e ainda mais, especialmente da beleza corporal masculina. Essa concepção foi se refletir na cultura de Roma, tendo o famoso arquiteto Vitrúvio** compartilhado a mesma ideia. Apolo era filho de Zeus, aquele que ameaçava ou protegia lá do alto dos céus, também identificado como o sol e a luz da verdade. — * Em latim: Apollo. / ** Em latim: Vitruvius.

Vitrúvio lecionando (D’après Sebastian Le Clerc).

luminado pelo deus Apollo, o arquiteto Vitruvius tinha a compreensão de que a boa arquitetura seria regida por firmitas (firmeza, solidez), utilitas (funcionalidade) e venustas (beleza). Para tanto, seria necessário buscar a verdade nas leis e na ordem da natureza. Nessa perpectiva, o homem perfeito, que seria uma criação dos deuses, também traria em si essas medidas. E foi exatamente nele que encontrou as fórmulas da boa estética, adequadas para produzir a eurythmia (euritmia). A palavra pode ser traduzida como “ordem rítmica” ou “repetição ordenada”. Então, tirando partido da determinante, mostrou como se pode construir segundo as regras do Divino.

O arquiteto, também prolífico inventor(1), trouxe à luz suas ideias no tratado “De Architectura”, provavelmente escrito entre 30 e 15 anos a.C. Muito mais tarde, Leonardo da Vincir(2), ao tomar conhecimento da obra de Vitruvius, reelaborou as regras da boa proporção, de sorte que, por volta de 1490 d.C., as representou num desenho conhecido como “L’uomo Vitruviano” (O homem Vitruviano). Mudando o que deve ser mudado, esses ensinamentos continuam sendo difundidos nas atuais academias de arte, escolas de arquitetura e de “design“.

← “De architectura”: cópia manuscrita (c.1390).


A seguir, vai um apanhado das ideias de Vitruvius, retiradas dos Livros I, II e III, da obra em dez volumes, dedicada ao Imperador.


Livro I, introdução Imperator Caesar*, enquanto tua divina inteligência e vontade estavam trabalhando pelo direito de comandar o mundo […] não ousaria […] divulgar minhas ideias ou publicar meus escritos, que há muito tempo guardava comigo, pois tinha o receio de me sujeitar ao teu desprazer, por tê-lo interrompido em má hora. — * Octavius Caesar Augustus (*63 a.C. / 14 d.C.)

Livro II —  O arquiteto Dinocrates(3), seguro de si e suas habilidades, partiu da Macedônia para se inscrever como soldado do exército de Alexander* mas, antes, queria o seu beneplácito para um projeto que havia elaborado. Então, de modo a ter fácil acesso ao Imperador, levou consigo cartas de apresentação a homens ilustres, os quais poderiam intermediar o encontro. […] Contudo, não foi feliz no seu pedido e imaginou que estavam a zombar dele. Por isso, recorreu apenas aos seus próprios esforços. — * Rei Alexandre III da Macedônia (na antiga Grécia) ou Alexander Magnus (*356 a.C. / 323 a.C.)

Era bem alto, de corpo bem conformado e de agradável semblante, ademais, passava a impressão de ser uma pessoa digna. Portanto, confiando em seus dotes naturais, se despiu numa pousada, untou o corpo com óleo, colocou na cabeça uma grinalda de folhas de álamo e, no ombro esquerdo, uma pele de leão. Assim preparado e segurando um bastão na mão direita, se dirigiu para as escadarias do tribunal, ali, onde Alexander estava administrando justiça……

Contudo, devido à sua estranha aparência, chamou a atenção do povo presente fazendo com que o Imperador lhe dirigisse o olhar. Para sua surpresa, ele deu ordens para que lhe abrissem o caminho e imediatamente o recebeu. Assim, Dinocrates pôde revelar suas intenções:

‘- Sou Dinocrates, arquiteto da Macedônia, aqui venho com ideias e projetos destinados à tua honra. Produzi um desenho para reconfigurar o monte Athos*, nele esculpindo a figura de um homem. No lado da mão esquerda, haverá uma cidade fortificada e, avançando para a direita, um lago, que irá receber a água dos riachos que há na montanha, de tal maneira que possa ser despejada no mar.’ — * Montanha em uma península da Grécia, no antigo reino da Macedônia.

Alexander, a princípio encantado com a idealização, imediatamente perguntou se havia algum terreno apropriado para a lavoura. Contudo percebendo a impossibilidade, pois a única alternativa seria abastecê-la com produtos importados, ponderou:

‘- Apreciei o projeto e a excelente criatividade, de fato me encantei com ele. Mas entendo que, qualquer pessoa que se atreva a fundar uma cidade, corre o risco de ser censurada por um mau julgamento. Do mesmo modo que a um recém-nascido não pode faltar o leite de quem tem a obrigação de nutrí-lo, tampouco é permitido deixá-lo carente daquilo que vai permitir seu crescimento. Por isso é que as cidades não podem prosperar sem ter campos, com seus frutos abastecendo as despensas. Ademais, as grandes populações têm demanda de alimentos em abundância. Assim, considero o sítio inadequado mas, de qualquer maneira, desejo que permaneça comigo, pois espero contar com seus serviços.’

A partir desse momento, Dinocrates não mais deixou o Imperador e, logo, seguiu com ele para o Egito. Lá, encontraram uma alternativa, um porto naturalmente seguro, excelente ponto para incrementar o comércio e onde o rio Nilo se mostrava imponente, com plantações de trigo se estendendo por toda parte. Diante de tudo isso, o Imperador ordenou a Dinocrates que elaborasse um projeto para ali edificar uma cidade, que levaria seu nome: Alexandria*.” — * Fundada em 331 a.C., atualmente a cidade de Alexandria é a segunda mais populosa do Egito.

Idealização de cidade no monte Athos (Grécia). Autor: Dinocrates.

Livro II 

Agora, quanto a mim, o Imperador não deu a mesma importância que deram a Dinocrates. A idade já alterou minha face e a má saúde me debilitou. Contudo, desde que têm me faltado essas vantagens, espero que sejam reconhecidos tanto meus conhecimentos, quanto meus escritos*. — * Entre 30 e 15 a.C. / Vitrúvio nasceu em 80 a.C. e faleceu em 15 a.C., aos 65 anos.

Pois sei que, visando a posteridade, os antigos homens cultos escreveram tratados, de modo que seus saberes não se perdessem. Assim agiram, e mais, fizeram por onde não fossem destruídos. Alguns desses livros serviram a sucessivas gerações e chegaram aos dias de hoje, sempre contribuindo para o refinamento da cultura.

Se eles não os tivessem escrito, desconheceríamos o que ocorreu em Troia(4), tampouco saberíamos o que Thales, Democritus, Anaxagoras, Xenophanes e outros físicos pensavam sobre a natureza. Também o que tantos ensinaram sobre a conduta humana, como os filósofos Socrates, Plato, Aristoteles, Zeno e Epicurus, etc. Nem os feitos e motivações de Croesus, Alexander, Darius e outros reis que se tornaram notáveis. — (Thales = Táles / Democritus = Demócrito / Anaxagoras = Anaxágoras / Xenophanes = Xenófanes / Socrates = Sócrates / Plato = Platão / Arsistoteles = Aristóteles / Zeno = Zenão / Croesus = Creso / Alexander = Alexandre / Darius = Dario) / Epicuros = Epicuro.

Pythia transmitindo mensagem de Apollo auxiliada pela cobra.

Os atletas famosos dos Jogos Olímpicos, como também daqueles realizados em Pythia, Isthmia e Nemea, foram todos vencedores. Os gregos antigos, em agradecimento pelas suas vitórias, não só os aplaudiam mas os coroavam. Comemorando seus triunfos, os levavam a desfilar junto ao povo das cidades e, depois, até a casa dos seus pais. Faziam isso em charretes puxadas por quatro cavalos e também lhes pagavam uma pensão por toda a vida, às expensas do erário público. — (Jogos Olímpicos: realizados na cidade de Olímpia, Grécia. / Cidades de Pythia [Pítia], Ishtmia [Ístmia] e Nemea [Nemeia]).

Quando penso nisso, fico impressionado com o fato de que as mesmas honras, e outras ainda maiores, não sejam concedidas aos sábios, cujos serviços se projetam nos tempos e têm servido a todas as nações. Essa seria uma prática por demais valiosa.

A realidade é que, no caso dos atletas, o esforço envolve apenas a estrutura corporal, que é fortalecida devido ao treinamento, enquanto que, no caso dos autores, é o exercício da mente e não apenas as deles, mas também dos homens em geral, pelas doutrinas que foram transportadas para os livros com o intuito de propagar a cultura e o aperfeiçoamento do intelecto.

O que significa para humanidade a invencibilidade de Milon Crotoniensis e outros? Nada mais que terem ganhado fama. Contudo, as doutrinas de Pythagoras, Democritus, Plato e Aristoteles, somadas ao esforço cotidiano e permanente de outros homens instruídos, produzem frutos frescos e sadios, não apenas para seus compatriotas, mas também para todas as nações. E desde que esses homens prestaram grandes benefícios para indivíduos e comunidades, creio que merecem mais que aplausos e coroas. Deveriam sim, ser admirados pelo seu verdadeiro valor e, por isso, consagrados na morada dos deuses.” — (Milon Crotoniensis = Mílon de Crotônia / Pythagoras = Pitágoras / Democritus = Demócrito / Plato = Platão / Aristoteles = Aristóteles)

Post - ApoloApollo sendo banhado pelas Ninfas (por François Girardon).

Livro III —

Apollo Delphis, através de mensagem oracular anunciada por Pythia(5), indicou Socrates como sendo o mais sábio dos homens. Dizem que esse filósofo afirmara, com sagacidade e grande conhecimento, que o peito dos homens deveria ser provido de janelas abertas, de modo que não tivessem como manter seus sentimentos ocultos, mas sim tê-los completamente expostos à vista. — (Apollo Delphis = Apolo de Delfos, deus da juventude e da luz. Seu templo ficava em Delphi (Delfos), cidade da Grécia. / Pythia = Pítia: pitonisa ou sacerdotisa suprema. / Socrates = Sócrates)

Seguindo essa ideia, seria como se a natureza os tivesse construído com o propósito de que uns pudessem ler os pensamentos dos outros. Pois, se assim fosse, não apenas as virtudes, mas também as fraquezas e as experiências seriam plenamente visíveis, e todas elas poderiam ficar disponíveis à contemplação.

O homem idealizado por Vitruvius, Zeus – o pai de Apollo – e Vitruvius.

Por outro lado, quando houvesse necessidade de avaliar quaisquer méritos, não precisariam ser confrontados com julgamentos de terceiros. Como consequência, as informações seriam mais confiáveis, conteriam verdades singulares e inquestionáveis, as quais poderiam ser repassadas aos doutos e aos sábios, servindo-lhes para ensinar com mais autoridade.

No entanto, mesmo que a natureza não tenha construído tais homens corretamente, eles deveriam se esforçar para sê-lo, tal como ela quisera que fossem. Por outro lado, enquanto a sabedoria ainda estivesse escondida no interior de cada indivíduo, seria impossível a ele próprio fazer um julgamento sobre o valor da sua arte. E, mesmo o melhor artesão, enquanto não estiver seguro das suas habilidades, não terá como convencer aos outros, a menos que já seja rico ou famoso, ou amparado na tradição das oficinas onde trabalha. Caso contrário, não terá como comprovar o conhecimento que professa ter.

Interior de Fanum Fortunae – Templo da deusa Fortuna, da sorte – , por Vitruvius (reconstituição).(6)

Servem de exemplo escultores e pintores da antiguidade. Alguns deles, como Myron, Polycletus, Phidias, Lisippus, tiveram grande prestígio ou foram bem recomendados e, assim, puderam alcançar a posteridade. Nesse rol, ainda cabem os que ganharam fama estritamente pela sua arte. Todos eles executaram trabalhos para grandes nações, reis ou cidadãos de proeminência social. — (Myron = Míron / Polycletus = Policleto / Phidias = Fídia / Lisippus = Lisipo)

Existiram também alguns menos entusiasmados que, por isso mesmo, não se notabilizaram. Esses, naturalmente pouco dotados e nem tão adestrados quanto os famosos, executaram trabalhos toscos para cidadãos comuns. Contudo, é possível que não tenham conseguido alguma expressão mais por lhes ter faltado sorte. Por exemplo: Teleas Atheniensis, Chion Corinthius, Myagrus Phocaeus, Pharax Ephesius, Boedas Byzantius e outros.

Apesar de tudo, há que se lembrar de Aristomenes Thasius, Polycles Andramytenus, Theon Magnes, etc. Esforço, entusiasmo ou capacidade artística não lhes faltavam. Contudo, meios limitados, má sorte, ou a concorrência com rivais de maior proeminência, contribuíram para não terem o devido destaque.

É claro, não há surpresa quando a excelência artística é ignorada, apenas por não lhe darem a devida atenção. Mas deve haver muita indignação quando e como sempre, aparecem uns juízes que gostam de ser adulados e adoram os entretenimentos sociais. Porém, no momento em que precisam da sua aprovação, eles a encaram como uma mera formalidade.

Eis que Socrates(7) desejava que, tanto nossos sentimentos quanto nossas opiniões, fossem naturalmente desenvolvidos pelo estudo, e que estivessem perfeitamente visíveis e transparentes. Assim, os favores e as intrigas se tornariam irrelevantes. Contudo, aqueles que pudessem conhecer as doutrinas pelo trabalho verdadeiro e definido, a eles as tarefas seriam espontaneamente confiadas.

Mas, por outro lado, sempre que alguma coisa pareça imperfeita, é à luz do dia que ficarão nítidos os seus defeitos e, nesse momento, até mesmo os ignorantes saberão percebê-los. Assim sendo, será pela publicação desse tratado que mostrarei o valor do que acredito saber*.” — * VITRUVIUS, encerrando a introdução do terceiro livro.

Post - Basílica VitrúvioFanum (Templo) Fortunae: de Vitruvius, recuperado em desenho de Cesare Cesariano.

Livro III

O desenho de um templo depende de simetria, princípio que deve ser cuidadosamente observado pelo arquiteto. É devido ao que, em grego, se chama ἁναλογἱα, ou seja, analogia. Proporção é o ajustamento das medidas que compõem o todo, tendo uma parte delas escolhida como padrão. Disso, resulta o princípio da simetria.

Sem simetria e proporção não há como dar boa forma à edificação de um templo. Sem elas, também não haveria condições de desenhar um indivíduo bem conformado. Pois o homem foi tão bem constituído pela natureza que:

No seu rosto, do queixo ao topo da testa, onde nascem as primeiras raízes dos cabelos, encontra-se a décima parte da sua altura total;

Na mão aberta, do pulso até a ponta do dedo médio, há também a mesma décima parte*— * Não confundir com o palmo.

Na cabeça, do queixo ao topo, encontra-se um oitavo;

• E, do início do pescoço, até onde termina a testa, um sexto

• Da linha dos mamilos ao topo da cabeça é um quarto.

Na face:

• A distância, tomada da parte inferior do queixo, até parte de baixo das narinas, é de um terço da face;

A distância, da parte de baixo das narinas, até a linha das sobrancelhas é o mesmo terço

A distância, desde as sobrancelhas, até as raízes mais baixas do cabelo na testa, é um terço— (Rosto de Apolo Belvedere: 1/3 + 1/3 + 1/3) 

Outras medidas:

• O comprimento do pé (calçado = 29,6cm) é um sexto da altura do corpo (portanto, a altura do homem é 1,77m); 

• O comprimento do cúbito (ou côvado) é um quarto da altura

• A largura do peito é também um quarto da altura

• As medidas dos outros membros são também bem proporcionadas e, muitos pintores que as respeitaram, tiveram como alcançar renome.

Tudo isso tem que ser considerado, porque o homem foi desenhado pela natureza, de tal maneira que, dele, podem ser retiradas medidas essenciais.

← Homem de Vitruvius interpretado por Leonardo Da Vinci.

Do mesmo modo, entre as partes de um templo, deve haver boa harmonia entre elas, de tal forma que essa relação se reflita no todo. Então, novamente, é no mesmo corpo que será encontrado um ponto central, que é justamente o umbigo. Isso fica nítido quando se observa um homem ereto e que esteja com as costas apoiadas num plano.

Assim é que, tendo seus braços e pernas estendidos, e colocando-se a ponta de um compasso no umbigo, terão os dedos mais longos, de ambas mãos e pés, que tocar no quadrado inserido na circunferência, antes desenhada com esse instrumento. Nesse caso, se medirmos a distância da sola dos pés, até o topo da cabeça, e fizermos a mesma coisa com os braços estendidos, ambas medidas serão iguais.

Portanto, sabendo-se que a natureza desenhou o corpo humano devidamente bem proporcionado, conclui-se que os antigos tinham boas razões para entender que, do mesmo modo nos edifícios, as diferentes partes devem possuir simetria em seu todo. Nesse sentido, ao nos transmitir as regras para construir edifícios, eles foram muito cuidadosos no que toca aos templos dos deuses. Nessas edificações, tanto os erros quanto os méritos duram para sempre.

Portanto, sabendo-se que a natureza desenhou o corpo humano devidamente bem proporcionado, conclui-se que os antigos tinham boas razões para entender que, do mesmo modo nos edifícios, as diferentes partes devem possuir simetria em seu todo. Nesse sentido, ao nos transmitir as regras para construir edifícios, eles foram muito cuidadosos no que toca aos templos dos deuses. Nessas edificações, tanto os erros quanto os méritos duram para sempre.

Ademais, foi na anatomia que encontraram as medidas básicas que, obviamente, são necessárias em qualquer obra. Elas vêm do dedo, da palma*, do (pé calçado) e do cúbito**. As três foram correlacionadas de modo a formar o “número perfeito“, dito em grego como τἑλειον (teleion) que, no entendimento dos antigos (!), seria o 10, como outra referência para contar. De sorte que, tomando quatro dedos de uma das mãos se encontra a medida palma e, nela, a medida “pé”. — * Palma = Conjunto de 4 dedos, lado a lado, do indicador ao mínimo. Não confundir com o palmo. / ** Cúbito = Da ponta do dedo maior ao cotovelo. * Palma = Conjunto de 4 dedos, lado a lado, do indicador ao mínimo. Não confundir com o palmo. / ** Cúbito = Da ponta do dedo maior ao cotovelo.

Plato & Socrates (Platão e Sócrates), duas influências de Vitruvius.

Também Platão, aceitando a perfeição* do 10, admitiu nele as mesmas qualidades, primeiramente porque é feito pelo total dos dedos de duas mãos e, depois, porque é composto de unidades separadas, às quais os gregos chamam μονἁδες*. Porém, tão logo as medições atingem quantidades superiores a 10, começam a surgir valores imperfeitos, como o 11 e o 12. Então, para que novamente se atinja a perfeição, tem-se que completar outro 10, ou seja, 2 dezenas. Isso devido as componentes desse número, que são quantidades individuais. — * Pela matemática, o 10 não é perfeito. / ** (μονἁδες) em latim, monados vem de monas = o que é simples, suficiente, bastante, particular, monástico. 

Contudo os matemáticos, defendendo outro ponto de vista, disseram que perfeito é o número 6 (seis*), porque é composto de partes integrais, as quais são identificadas numericamente pelo método da distinção. — * Em grego: έξι (héks), de onde vem a palavra hexágono, figura de seis lados.

Contudo os matemáticos, defendendo outro ponto de vista, disseram que perfeito é o número 6 (seis*), porque é composto de partes integrais, as quais são identificadas numericamente pelo método da distinção. — * Em grego: έξι (héks), de onde vem a palavra hexágono, figura de seis lados.

Daí, pode-se deduzir que:

• uma parte (a menor fração) significa um sexto;

• duas partes significam um terço;

• três partes significam u’a metade;

• quatro partes significam dois terços – ou δἱμοιρος, como dizem os gregos*; — * (δἱμοιρος) dimoiros: di + moiros = duas porções. 

• cinco partes significam cinco sextos – chamados πεντἁμοιρος *; — * (πεντἁμοιρος) penta + moiros = cinco porções.

• e seis partes produzem o “número perfeito“.

Mas, à medida que o número vai crescendo, é necessária a adição de nova e diferente parcela:

• acima de 6 (seis), adiciona-se 1 asse (um sexto) e assim se faz o 7, esse artifício é aquilo que se chama ἑφεκτος *; — * ektós = à parte. 

• o 8 é formado pelo acréscimo de um terça parte de seis, ou seja, é o integral mais um terço, chamado ἑπἱτριτος *; — ἑπἱτριτος: que contém um terço em si ou 2 partes de 6. 

• com a adição de metade, se faz 9, ou seja, o integral mais meio, este chamado como ἡμιὁλιος (meia-lua);

• com a adição de dois terços, se faz o número 10, que é o integral mais dois terços, e este é chamado como ἑπιδἱμοιρος (combinado);

• no número 11, quando cinco é a ele adicionado, tem-se acrescentadas de seis partes cinco delas, este número que é chamado ἑπἱπεμπτος (o quinto);

finalmente, o 12, que é composto de dois integrais (duas partes) e a ele deram o nome de διπλἁσιος (duplicado).

Post - Obol & DrakmaObol e Drackma, o Obol vale um sexto da Drackma. / Seis, número perfeito, igual a 6/6.

E sendo que o (calçado)* é um sexto da altura do homem, a altura total do corpo, expressa em número, gira em torno do 6, evidentemente naquele que é considerado o homem perfeito. — * O pé calçado era um padrão muito utilizado para medir terrenos.

Também se observou que o cúbito corresponde à soma de 6 palmas ou 24 dedos, de comprimento. Esse princípio parece ter sido adotado na maioria das cidades da Grécia, onde usavam o obol* como unidade, tal como os asses no nosso dinheiro.

E como o cúbito consistia em 6 palmas, o valor monetário do obol correspondia à sexta parte da drachma**, uma moeda de bronze. Então, desde que, por analogia, a medida de 24 dedos correspondente ao cúbito , à quarta parte de obols chamaram dicalca (dichalca)***; em seguida veio a tricalca (trichalca). — * Obol (ὀβολός) – Por ser moeda de menor valor, era útil para fazer donativos, os óbolos. / ** Drachma ou denário (no latim), deste vem a palavra dinheiro. / *** Dichalca vem de chalcos (em grego: χᾰλκός = cobre).

 Medidas da configuração do divino, segundo Vitrúvio.

Entretanto, nosso povo primeiramente adotou o número mais antigo e, com 10 peças de bronze, fez a moeda denário*. E a quarta parte dele, consistituída de 2 asses mais a metade de um terço, produziu o sestércio (sestercius). Mais tarde, ao observarem que 6 e 10 eram números perfeitos, decidiram combinar os dois, de tal forma que surgiu o mais perfeito de todos os números, o 16.

Pois bem, a convicção vinha do , porque se tirarmos 2 palmas do cúbito, sobram 2 palmas, mas a palma** contém 4 dedos. E desde que o  é a soma 16 dedos, o denário também contém o mesmo número, mas em asses. — * Denário = dinheiro. / ** Soma da largura de quatro dedos menos o polegar. / 1 palma = 7,4cm.

Portanto, se for acordado que o número está nos dedos humanos e que têm uma relação simétrica com os membros do corpo inteiro, de qualquer parte pode ser tirado um padrão. Disso surge nosso respeito com aqueles que, ao construir templos para os deuses imortais, souberam organizar as partes e o todo com boa proporção e simetria.”


 Um século e meio depois, Fra Luca Pacioli(8) e Leonardo da Vinci constataram que a relação matemática é um pouco mais ajustada, segundo a proporção 1/1,618, e o símbolo para 1,618 passou a ser a letra Φ (phi, em grego). Assim sendo, a ideia de Vitruvius que estava a representar o divino pagão, passou então a valer para o Deus único do catolicismo.

Tradução, texto e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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FONTES: M. Vitruvii Pollionis: “De architectura” libri decem, Ad Caes. Augustum, omnibus omnium editionibus longe emendatiores, collatis veteribus exemplis. Accesserunt, Gulielmi Philandri Castilionii, civis … e-rara.ch Vitruve Philander, Gulielmus Agricola, Georgius Tirlerianus, F. [Genève], 1586, Bibliothèque de Genève. • “Vitruvius, the ten books on architecture”, translated by Morris Hicky Morgan, Oxford University Press, 1914. • “Vitruve, Architecture ou, Art de bien bastir”, [traduction de J. Martin], Paris: Hierosme de Marnef & Guillaume Cavellat, 1572 [reprint, Paris, 1547].

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(1) POLLIO, Marcus Vitruvius – (*80-70 a.C. / †15 a.C.) “De Architetura” é o único tratado europeu do período greco-romano que chegou aos dias atuais. Tornou-se uma referência nas áreas de Arquitetura e Urbanismo, Hidráulica, Engenharia, Artes Plásticas e “Design”.

(2) DA VINCI, Leonardo di Ser Piero – (Anchiano, comuna de Vinci, Itália, *15.04.1452 / Amboise, França, †02.05.1519). / [di = filho de; Ser, abreviatura de Messer = Meu senhor; da Vinci = da comuna de Vinci].

(3) Dinocrates – Rodes, Grécia, *? / †278 a.C.).

(4) Troia – Cidade da Turquia (em grego, Τροία; em latim, Troia).

(5) Pythia (Pítia) – nome grego, derivado de python, que significa serpente. / Segundo a Encyclopaedia Britannica: “Diz a lenda, que o oráculo (ou oratório) do templo Delphy, originalmente pertencia a Gaea – deusa da Terra – e era guardado pela sua criatura Python – a serpente. Delphy é também o nome da cidade, onde o deus Apollo possuía um templo. Porém, Apollo foi levado a matar Python e, no mesmo lugar, fundou o seu oráculo (oratório). Dos restos da serpente, transfigurou-se Pythia, uma sacerdotisa (também dita como oráculo), a qual seria a intermediária de Apollo.” /  A palavra Pythia (em grego, σαπίλα) quer dizer também podridão, restos mortais; em latim, putredo ossium. / Gaea, em grego (Gaia, em latim), era a Mãe Terra, ancestral mais antiga dos deuses. Segundo o escritor Hesiodus (Hesíodo), foi ela o primeiro ser que surgiu do Chaos (Caos), tendo gerado Uranus – o Céu -, e Pontus (Ponto) – o deus do mar.

(6) Fanum (lugar sacro genérico, templo), plural fana – Palavras derivadas → Fanático: aquele que é louco ou entusiasta, porque está afastado do divino ou do templo; ou que acredita possuir quaisquer inspirações divinas. / Profano: que está fora do templo ou que não pertence ao templo; mundano, que não é sagrado; concernente aos leigos. / Música, literatura, arte profana: que é destituída de temática religiosa. / Prefixo pro: preposição latina, na acepção de “diante de”, adiante, antes de. // Fanum Fortunae existiu na atual comuna de Fano, província de Pesaro e Urbino, no nordeste da Itália, mar Adriático.

(7) Sócrates – (Alopece, subúrbio de Atenas, Grécia, *c. 469 a.C. / Atenas, †399 a.C.) Filósofo e educador. Filho de um escultor e de uma parteira. Na meninice, desastradamente, ajudou o pai na sua arte. Aprendeu a filosofar com a mãe e costumava ajudá-la no ofício de parteira. Ela se chamava Phaenaret, que quer dizer “A que trás a virtude à luz”. Até que Sócrates concluiu que, de certa forma, também era parteiro e disse: “O conhecimento está dentro das pessoas, assim sendo, posso ajudá-las de modo que ele possa nascer.” Essa abordagem filosófica de Sócrates é chamada maiêutica, que é a palavra para dizer parteira (μαιευτικη, em grego). A maiêutica socrática tem como significado “dar à luz”, “dar parto” ou fazer “parir” o conhecimento. Quando Vitrúvio cita Sócrates, o mesmo simbolismo está contido no enunciado: “… que o peito dos homens deveria ser provido de janelas abertas”. / Na medicina: maiêutica é o mesmo que obstetrícia.

(8) PACIOLI, Luca Bartolomeo de [Fra Luca Pacioli] – (Sansepolcro, Toscana, *1445 / Sansepolcro, Toscana, †19.06.1517) Monge franciscano e matemático italiano. Considerado o pai da contabilidade moderna.

12 Comentários »

  1. Eduardo, Seu post é uma boa aula da cultura grega.
    Parabéns pelo interessante assunto.
    Maria Marilda

    Comentário por Maria Marilda Pinto Correa — 01/09/2018 @ 10:07 am | Responder

    • Marilda:
      Que seria de nós sem a Grécia antiga. Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/09/2018 @ 2:01 pm | Responder

  2. Eduardo:
    Belíssimo. A ler e reler, sobretudo para os leigos como eu. Além do mais, no meu caso, chegada há um mês da maravilhosa Grécia!

    Comentário por Vania — 01/09/2018 @ 7:03 pm | Responder

    • Vania:
      Leia, releia e comente. Sua opinião é valorosa. Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/09/2018 @ 7:27 pm | Responder

  3. Eduardo,

    mais uma vez, fico admirado com a sua capacidade de síntese. Seu texto é mais uma de suas brilhantes aulas. Sei que terei de ler mais algumas vezes esse seu post, para dele extrair tantos ensinamentos tão bem condensados por você. A Grécia Antiga é uma fonte inesgotável de aprendizagem. Às vezes, penso que não seria necessário escrever mais nada, que os gregos já tocaram em tudo que é necessário saber para vivermos melhor. Você é um bom leitor e nos ajuda a compreender a nossa caminhada.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 02/09/2018 @ 10:28 am | Responder

    • Pedro:
      Você bem sabe, seus comentários são valiosos. Estimulam-nos a trabalhar em busca do conhecimento. Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/09/2018 @ 1:22 pm | Responder

  4. Eduardo, genialllllll!!!!

    Comentário por Arthur José Diniz — 03/09/2018 @ 5:30 pm | Responder

    • Caro Arthur: Uma palavra sua. Sei que é sincera. Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/09/2018 @ 6:09 pm | Responder

  5. Encontro nas suas postagens matérias antigas, totalmente novas para mim. Apreciei tudo do início ao fim. Mas o que mais me chamou a atenção nada tem a ver com simetria. Gostei dos peitos com janelas: “de modo que não tivessem como manter seus sentimentos ocultos, mas sim tê-los completamente expostos à vista”. Fantástico. Fez-me lembrar do amigo Eustáquio, que imaginou um aparelho chamado ON-OFF. E fez a pintura dele no seu rosto. Duas luzes, uma vermelha e outra verde. Em conversa com amigos as luzinhas acendiam. A vermelha indicava que não tinha permissão de falar o que pensava. A verde dava liberdade de dizer o que sentisse vontade. Então poderíamos manter nossos sentimentos ocultos caso pudessem nos prejudicar. E expostos caso fossem bem recebidos. Não é a mesma coisa das janelas no peito, visto que teríamos como esconder nossos sentimentos verdadeiros? Mas o aparelho sabia tudo que o outro sentia e nos avisava sobre o que esconder ou expor. Ele fez um segundo quadro baseado no meu rosto e me deu de presente.

    Comentário por sertaneja — 04/09/2018 @ 12:57 am | Responder

    • Virgínia, sertaneja:
      Pois é! Como temos o que aprender visitando o passado. E como é triste saber, agora, que o nosso Museu Nacional virou cinzas. Será que estamos vivendo o fim dos tempos?
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/09/2018 @ 7:55 am | Responder

  6. “In tutte queste cose che si hanno da fare devesi avere per scopo la solidità, l’utilità, e la bellezza” (Marcus Vitruvius Pollio). — Olá Eduardo. Desta vez, seu blog leva-nos a um passeio pelo mundo grego e eis-nos apresentados a Vitruvius, um dos célebres pioneiros da Arquitetura. E como seu blog produz efeitos catalisadores, acaba gerando reflexões que, imagino, possam ser complementares a seu belo texto. Pelo menos duas.
    A primeira é pertinente a Vitruvius, considerado como um clássico. Afinal, para além de pertencer à antiguidade greco-latina, a obra de Vitruvius é de alto valor artístico e cultural. Tendo vivido nos idos de A.C. e influenciado a arquitetura, sobretudo nos estudos e projetos urbanísticos, Vitruvius reflete-se em artistas de nossa contemporaneidade, tal como em Le Corbusier.
    A segunda reflexão é pertinente às Cariatides, tema que também integra os relatos de Vitruvius em seu tratado “De Architectura”. Sabe-se que, já no tempo dos romanos, as figuras femininas com função de coluna eram chamadas de Cariatides. As mais famosas eram aquelas de Atenas que, hoje, em estado de ruínas, estão como sentinelas na Acrópole de Atenas e são consideradas como uma das maravilhas do mundo. Os atenienses preferiam chama-las de Korai (em italiano, fanciulle, significando jovens em torno de seus 20 anos de idade). Ostentando bela túnica, de longos cabelos envoltos em uma trança a cair-lhes sobre o dorso – o que indicava serem moças solteiras -, oferecem uma mostra da potência feminina, com suas curvas sensuais combinadas com imponente força muscular. Expressam a um só tempo indiferença e destreza, as belas Cariatides que sustentam um pesado teto de pedra em equilíbrio sobre a cabeça. E mais, o teto parece flutuar, tal como se as jovens o estivessem fazendo apenas com o pensamento. Colocadas a uma generosa distância uma da outra, mostram completa segurança de si mesmas, como indivíduos que pertencem a um grupo consagrado. São irmãs com apenas um pensamento em mente: servir aos deuses.
    Como Você vê, prezado amigo Eduardo, seu blog tem mesmo um efeito catalisador e nos proporciona chances preciosas de nos aproximarmos da Arte e das suas maravilhas. Fuerte abrazo. Estevam.

    Comentário por Estevam de Toledo — 04/09/2018 @ 1:00 am | Responder

    • Estevam:
      Seu comentário está a enriquecer meu texto. Vamos em frente, porque há muito que aprender.
      Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/09/2018 @ 7:49 am | Responder


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